segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Lançamentos da "Classicline" (Setembro / 2013)


Os 300 de Esparta (The 300 Spartans - 1962)
O diretor Rudolph Maté, foi o responsável pela fotografia de obras imortais da Sétima Arte, como “A Paixão de Joana d'Arc” (1928) e “Gilda” (1946). Com “Os 300 de Esparta”, ele se aliou ao fotógrafo Geoffrey Unsworth (de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e “Superman – O Filme”) para contar um pouco da história da Grécia e de seu bravo herói Leônidas (Richard Egan), que desafiou o conceito de impossível, ao comandar 300 guerreiros contra um exército de aproximadamente 250.000 homens.

Este conto de coragem e sacrifício ajudou a delinear o curso da civilização ocidental, legando para filhos e netos a necessária esperança, ínfima outrora, para seguir na batalha. O roteirista de quadrinhos Frank Miller (do clássico “Batman: O Cavaleiro das Trevas”) assistiu esse filme quando era criança, ficando profundamente marcado pela trama, que considerou a causadora da mais importante mudança em sua vida criativa. Anos depois, ele escreveria “300”, que acabou sendo adaptado para o cinema em 2006, com direção de Zack Snyder.

O roteiro trabalha com temas como “democracia vs. despotismo” (com uma sutil analogia à Guerra Fria), sendo não somente um ótimo exemplar do gênero “Espada e Sandálias”, como também uma excelente aula de História. Um dos poucos filmes que se propõem a ser fiel aos fatos. O elenco inclui o excelente Ralph Richardson (como Temístocles) e David Farrar (como o arrogante Xerxes), dando suporte para que Egan consiga transmitir a força interna de seu personagem. Interessante perceber que as batalhas conseguiam ser mais empolgantes, mesmo sem todas as facilidades tecnológicas modernas. Talvez porque, diferente de “300”, neste o foco está nas motivações individuais dos personagens, não no estilo e nos efeitos em computação gráfica. Uma obra que melhora em cada revisão. Um conto que deve ser passado de pai para filho, mostrando que a determinação de poucos pode modificar a realidade de muitos.


O Preço da Glória (Battleground - 1949)
Às vésperas do ano novo, um grupo de soldados americanos que está na França é designado a seguir para a Bélgica, numa tentativa ousada de contra-ataque frente aos nazistas.


Um tesouro que a “Classicline” resgata para os cinéfilos dedicados. Indo na contramão dos filmes que abordavam o tema de forma panfletária em sua época, o roteiro humaniza os soldados, tornando-os vulneráveis. Fugindo do discurso patriótico que enobrecia os jovens que se alistavam, cada personagem enfrenta uma batalha interna, questionando a necessidade dos atos que pratica e desejando ir embora daquele inferno. A coragem do diretor William Wellman e do produtor Dore Schary, que confrontou Louis B. Mayer para que a obra fosse realizada, serviu como modelo para cineastas como John Irvin, em “Hamburger Hill” e Oliver Stone, no excelente “Platoon”. 


O Terceiro Homem (The Third Man - 1949)
Um escritor americano chega a Viena, após a Segunda Guerra, e descobre que seu amigo Harry Lime foi morto de forma misteriosa. Ele passa a investigar o caso e descobre várias inconsistências nas explicações dos amigos de Harry. 


Um dos melhores filmes da história do cinema, um marco do “Noir” com uma fotografia excepcional (Robert Krasker, de “Desencanto”, obra-prima de David Lean), que ainda não tinha sido lançado oficialmente no Brasil em DVD. Por mais que Orson Welles seja o elemento mais lembrado, o maior mérito é da refinada direção de Carol Reed. Welles gravou sua participação em alguns dias, objetivando conseguir a verba para terminar seu projeto “Othello”, colaborando com alguns diálogos memoráveis de seu personagem (como aquele sobre os relógios cuco e a Suíça, inspirado por uma peça húngara). Muito foi dito sobre uma colaboração de Welles na direção, devido às perspectivas distorcidas, enquadramentos oblíquos e o uso inteligente da profundidade de campo, porém tudo isso já havia sido feito por Krasker no filme anterior de Reed: “O Condenado” (Odd Man Out), influenciado pelo expressionismo alemão. "O Terceiro Homem" é um filme que continua impactante e belo como no dia de sua estreia. 


Julia (1977)
Julia (Vanessa Redgrave) e Lillian Hellman (Jane Fonda) são amigas de infância e terão seus destinos completamente mudados com a vinda da Grande Guerra e a ascensão do nazismo. Julia, que vive na Europa, pede para sua amiga Lillian, que se tornara uma escritora famosa, que contrabandeie dinheiro para as vítimas do nazismo.


A estreia de Meryl Streep no cinema, que por pouco não interpretou a protagonista. O diretor Fred Zinnemann (de "Uma Cruz à Beira do Abismo") ficou preocupado por ela não ser conhecida e acabou entregando o papel para Vanessa Redgrave. O filme possui alguns problemas de ritmo, porém compensa no desempenho do elenco. Considero este o melhor trabalho de Jane Fonda (Hellman), que captura com exatidão o conflito interno da personagem, entre o idealismo e a autoindulgência.


A Múmia (The Mummy - 1932)
Em 1921, uma equipe de arqueologistas no Egito liderados por Sir Joseph Whemple descobre a múmia do príncipe Imhotep, que vivera há 3.700 anos e que, por ter cometido um sacrilégio, teve como castigo ser enterrado vivo. 


O alemão Karl Freund, responsável pela fotografia de “Drácula”, foi escalado para dirigir a obra que teria a missão ingrata de manter a “Universal” no caminho da glória conquistada pelo já citado “Drácula” e “Frankenstein”. Mais calcado no clima, que no “monstro” (vivido por Boris Karloff), a produção ousou ao abordar um personagem que não havia se estabelecido no inconsciente coletivo do público na literatura (como os dois anteriores). Sem um molde para se basear, o roteiro segue em vários momentos a fórmula de “Drácula” (grande semelhança entre o “Dr. Muller” e o “Van Helsing”, por exemplo). O tempo foi generoso com o filme, sendo considerado hoje um dos melhores do ciclo de monstros da “Universal”.

Primeiros Calafrios

Quando somos crianças, realmente sentimos medo nos filmes de terror. Fechamos os olhos em algumas cenas, para conseguirmos dormir sozinhos depois. Tememos a escuridão e achamos que alguém nos vigia em algum canto do quarto. Crescemos e o medo some. Continuamos gostando do gênero, mas se alguma cena nos causar um leve arrepio ou um susto, já nos damos por satisfeitos. As lembranças daquela sensação perdida no tempo, em meio aos deveres escolares e primeiros flertes, sempre me levam de volta à infância. Como são memórias muito vivas em minha mente, decidi fazer um TOP das cinco primeiras vezes em que realmente fiquei apavorado com o gênero. A lista não está em ordem de preferência. Caso queira, sinta-se à vontade para fazer sua lista nos comentários. Vamos voltar no tempo...


1- A Hora do Espanto (Fright Night – 1985)
A primeira vez que me lembro de ter sentido medo com um filme do gênero foi aos cinco anos, assistindo na televisão a cena onde Evil Ed (Stephen Geoffreys) é perseguido pelo vampiro (Chris Sarandon), caindo em um beco sem saída. Eu provavelmente nem estava entendendo a trama, mas a aparição do vampiro atrás do garoto me fez pular da cadeira.


2- Bala de Prata (Silver Bullet – 1985)
Eu devia ter por volta de sete anos. Nessa época eu já entendia totalmente as tramas. Esse filme foi um trauma na minha infância. A trilha sonora de Jay Chattaway me deixava perturbado, tamanho era o contraste entre a sua serenidade e a crueza de certos elementos no roteiro. O personagem principal ser paralítico e o lobisomem ser um padre, além da sutileza com que as melhores cenas eram trabalhadas, deixavam-me ainda mais impressionado. Eu ficava apavorado na cena em que o padre (Everett McGill) caolho procurava o menino (Corey Haim) num galpão (minha memória pode estar falhando, mas acho que era um galpão), andando lentamente e se abaixando para tentar vê-lo em meio ao entulho. E, claro, fechava os olhos quando se aproximava da cena final, quando a câmera ia chegando perto do corpo desfalecido do lobisomem. 


3- A Mosca (The Fly – 1986)
Como agradeço hoje aos meus pais por não terem me criado, quando criança, afastado dos filmes de terror. Sempre me ensinavam que aquilo era tudo maquiagem e truques, não era real. Lições simples que todos os pais deveriam legar aos filhos. Eu assisti “A Mosca” pela primeira vez aos cinco anos, mas poderia dizer que não assisti, já que passava a maior parte do tempo com os olhos fechados. Perguntava pra minha mãe: “Já passou a cena?”. Se ela dissesse que sim, somente então eu abriria os olhos. Era um medo misturado às gargalhadas que dávamos, com cada imagem medonha que aparecia subitamente na telinha. Depois de várias reprises foi que consegui realmente assistir ao filme. Mas eu me recordo vividamente o quanto me perturbava, nos anos seguintes, ligar a televisão de madrugada e dar de cara com o Jeff Goldblum. Não saberia dizer uma única cena que me apavorava mais. Qualquer uma em que ele aparecia, mesmo como ser humano, já me deixava inquieto.


4- A Coisa (The Stuff – 1985)
Por mais que esse filme passasse à tarde no "Cinema em Casa" do SBT, ele tinha cenas bastante pesadas. o momento que me deixava apavorado era um dos poucos que não envolvia nenhum efeito visual. A cena em que os pais do menino pressionavam-no para comer “A Coisa” o creme de barbear. A tensão era insuportável. 


5- Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser - 1987)
Imagine a cara da atendente da locadora ao ver um menino de sete anos discutindo com o pai para que ele alugasse pela vigésima vez um filme sobre cenobitas do inferno, prazer e dor, em suma: Clive Barker. Eu adorava tanto esse filme, que uma vez cheguei a pedir de presente de Natal um daqueles cubos. Eu me lembro de ficar numa felicidade extrema ao encontrar na banca de jornal uma revista em quadrinhos com o Pinhead na capa. Comprei na hora, para espanto do jornaleiro. Qualquer cena que insinuasse a presença do "homem sem pele" (como eu chamava na época) dentro do quartinho escuro, já me deixava completamente apavorado. Terror foi meu gênero favorito durante grande parte da minha infância e pré-adolescência. Estudava sobre o gênero e andava para todo lado com um ótimo “Guia de Vídeo – Terror”, lançado pela Editora Escala. Perdi a conta de quantas vezes eu lia e relia aquele guia, que utilizava em minhas garimpagens nas locadoras da região. 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Guerra Espacial de George Lucas


Muitos questionam as mudanças que George Lucas opera em seus filmes ao transpô-los para novas mídias. Chamam-no de mercenário, porém esquecem que ele foi o criador da saga e tem o direito de realizar ajustes onde achar necessário. Buscando referências cinematográficas nas obras de Kurosawa e utilizando seu conhecimento sobre o trabalho de Joseph Campbell (mais especificamente em seu livro “O Herói de Mil Faces”, escrito em 1949), o jovem californiano que rumava para ser um antropólogo, acabou se apaixonando pela arte do cinema e roteirizou, dirigiu e soube vender um produto que o mundo inteiro ama. Com seus filmes, ajudou à própria indústria americana de cinema, evoluindo as técnicas de efeitos especiais e som ao padrão que hoje conhecemos, criando a “Industrial Light and Magic” (ILM) e o “THX”.

Lucas vê “Star Wars” como um único filme. Esperou décadas até que os efeitos digitais se aprimorassem, realizando assim a trilogia que antecede os eventos mostrados em seus filmes originais. São seis episódios de puro escapismo, aventura e diversão. Estruturados como nas matinês heróicas dos cinemas de outrora e seguindo fielmente a jornada mítica descrita por Campbell, que consiste em cenas que “rimam” em diferentes episódios, redenção de um personagem trágico e os arquétipos de Jung (como o mestre sábio vivido por Alec Guiness, o arauto que pode ser tanto Darth Vader quanto a princesa Léia e o pícaro, o alívio cômico representado pelos robôs C3PO e R2-D2).

A jornada do herói (nas palavras de Campbell) simboliza exatamente o caminho seguido por Lucas no primeiro filme lançado, em 1977. Resumindo bastante, inicia mostrando o “mundo cotidiano” de nosso herói Luke Skywalker, sua vida desinteressante na fazenda de seus tios. Ocorre o “chamado para a aventura”, onde ele precisa decidir se irá aceitar enfrentar seu maior desafio ou se manter confortável em seu mundo comum. Após aceitar acompanhar o mestre sábio Obi-Wan Kenobi e tentar resgatar a jovem princesa, ele conhece novos aliados, inimigos (Han Solo, Jabba the Hutt) e um mundo que se mostra muito maior e perigoso do que pensava. A “caverna oculta” (representada na mitologia como o mundo do desconhecido) é a fronteira que separa o herói de seu objetivo, como quando a nave Millenium Falcon é atraída para dentro da temida estação “Estrela da Morte”, onde Darth Vader os aguarda. Ao longo dos seis filmes, estas e outras “etapas” (32 ao total) são repetidas em diversos arcos de personagens. Recomendo que todos leiam as obras de Campbell, pois são fascinantes.

Muitos podem erroneamente tachar a criação de George Lucas como ingênua, boba, um conto de fadas para adultos, porém se trata de uma das mais criativas e inteligentes histórias de fantasia já criadas, pois se nutre profundamente de conceitos mitológicos, psicológicos e extensos estudos sobre a filosofia oriental. Para aqueles que possuem o conhecimento acerca deste embasamento, torna-se justo afirmar até que Lucas é um Homero moderno, pois utilizou a mídia do cinema para transmitir o legado universal (e atemporal) dos mitos a uma geração de jovens que desconhecem (em sua maioria) a existência dos arquétipos. Atos heroicos que vivem no inconsciente coletivo do mundo inteiro e que explodem na tela ao som da trilha fenomenal de John Williams.


"O Império Contra-Ataca", indubitavelmente o episódio mais memorável da saga, também é aquele que mostra mais claramente sua ligação com a “jornada do herói”, de Joseph Campbell. Claramente aborda uma fase chamada de “A Iniciação”, que inclui entre seus vários tópicos: “O Caminho de Provas”, “A Sintonia com o Pai” e “A Apoteose e a Bênção”.

“O Caminho de Provas” (o momento no qual o herói deve sobreviver a uma sucessão de provas, auxiliado secretamente por conselhos, amuletos, agentes de um auxiliar sobrenatural ou por um poder benigno que o sustenta e que ele acaba de descobrir) se vê refletido em dois momentos distintos da trama: logo no início, quando Luke Skywalker (Mark Hammil) quase perece nas mãos do monstro Wampa (porém segue os conselhos de Obi-Wan Kenobi, que se manifesta sobrenaturalmente, conseguindo assim se livrar do perigo) e em seu encontro com Yoda no planeta Dagobah (quando o mestre Jedi o treina). Já “A Sintonia com o Pai” (o herói vence a “figura-pai”, tornando-se senhor de si próprio) se reflete na cena em que Luke em meio a uma alucinação, duela com Darth Vader nas florestas de Dagobah, descobrindo ao final que a cabeça decapitada de seu nêmesis revela seu próprio rosto, constatando que seu verdadeiro inimigo está dentro de si. Mais próximo do final, novamente se vê refletida na batalha real entre pai e filho, que nos leva diretamente ao próximo tópico: “A Apoteose e a Bênção” (onde o personagem adquire a convicção da responsabilidade que todos depositam nele, dando-se conta de que é um “escolhido”), onde ele descobre por intermédio do pai, estar destinado a destruir o Império e trazer paz à galáxia. Luke em seu sacrifício final, após perder sua mão em duelo, confirma sua incorruptibilidade (por conseguinte, “A Bênção”).

O longo segmento que aborda o intensivo treino de Luke em Dagobah, reflete de forma perfeita uma das intenções mais nobres de George Lucas: despertar nos jovens algum senso de espiritualidade, não focada em um sistema religioso, mas uma crença em um poder superior. Yoda utiliza a “Força” para retirar a pesada nave de Skywalker de dentro do lodo. A trilha de John Williams salienta o aspecto espiritual do momento, como que nos fazendo perceber nos olhos do jovem, a surpresa por estar pela primeira vez acreditando em algo “divino”. Ele já havia ouvido falar e tentado usá-la, porém somente passa a entender esta força mística a partir deste treinamento com o velho mestre Jedi. Daquele momento em diante, Luke estaria preparado para enfrentar seu primeiro grande desafio: Darth Vader.

***
A Editora Bertrand Brasil está lançando no mercado brasileiro "O Livro dos Sith: Segredos do Lado Negro", de Daniel Wallace. 
Ele revela as raras páginas do universo criado por George Lucas. O leitor vai conhecer os maiores mestres, os armamentos, o vestuário, o surgimento do clã e vários segredos obscuros. Com excelente trabalho gráfico, esse livro é indispensável na estante de todos os fãs de "Star Wars".



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Lançamentos da "CultClassic" (Junho / Julho de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

Carrossel da Esperança (Jour De Fête - 1949)
Uma vez por ano, uma feira traz atrações para um pequeno vilarejo no centro da França, como um cinema ambulante e músicas, transformando a rotina e a vida dos moradores do lugar.

Excelente oportunidade de assistir um gênio em seu primeiro trabalho, experimentando com seu estilo autoral, alcançando diversos pontos onde, mesmo passados mais de 50 anos (com um humor puramente visual), diverte sem o menor esforço. São várias cenas que poderia destacar, como todas em que o carteiro (vivido por Jacques Tati), buscando emular a competência dos carteiros americanos (ótima crítica), corre com sua bicicleta para entregar as correspondências das formas mais estapafúrdias. Quando ele adentra a casa de um homem, elogiando-o por sua animação, sem saber que o mesmo estava velando um cadáver (excelente trabalho de câmera), não tem como segurar a gargalhada. São cenas simples, mas engenhosamente elaboradas, onde cada elemento de cena existe por um propósito. O filme foi originalmente filmado com duas câmeras, uma em preto e branco (caso algo desse errado), outra em cores (que era a prioridade do diretor). Com a falência da Thomson-color, antes do término da pós-produção, Tati foi obrigado a lançar seu projeto em preto e branco. O DVD da "Cult Classic" apresenta o filme em duas versões, apresentando a obra restaurada em cores, como o diretor sonhava. Um testamento da Arte Cinematográfica, que merece constar na coleção de qualquer cinéfilo devotado.

A Mulher do Rio (La Donna Del Fiume - 1954)
Quando a camponesa Nives (Sophia Loren) é abandonada pelo traficante Gino Lodi, ela o denuncia à polícia. O policial Enzo Cinti (Gérard Oury), que ama Nives, segue-a ao rio Po, onde ela está trabalhando, e oferece apoio a ela e ao filho, avisando-a que Gino (Rik Battaglia) escapou da prisão e está em busca de vingança.

Na época do lançamento deste filme, Sophia Loren ainda não era internacionalmente reconhecida (algo que viria somente com o prêmio recebido por sua atuação em "Duas Mulheres", de 1960), mas já encantava os italianos. Sua parceria com o produtor Carlo Ponti estava começando (viriam a se casar em 1957), mas com grande senso de mercado, ele já a comercializava no pôster como uma "sensação anatomicamente bombástica". E realmente, Loren está no auge de sua beleza, exalando sensualidade em cenas de dança trabalhadas pela câmera com o mesmo sentido de "mitificação" que ocorreria anos depois na relação profissional entre Brigitte Bardot e Roger Vadim. Com "A Mulher do Rio", um melodrama que explorava os percalços do povo carente de uma cidade no norte da Itália, Ponti buscava fazer por Loren, o que seu colega Dino De Laurentiis fez por Silvana Mangano em "Arroz Amargo". Vale ressaltar que este foi o primeiro trabalho de Pier Paolo Pasolini, que assina o roteiro (ele viria a dirigir seu primeiro filme "Accattone - Desajuste Social", sete anos depois).

O Condenado de Altona (I Sequestrati di Altona - 1962)
O industrial Albrecht Von Gerlach descobre que está perto da morte e nomeia o seu filho Werner (Robert Wagner) como seu sucessor, Johanna (Sophia Loren), sua esposa e atriz envolvida em uma obra de Brecht contra o nazismo, descobre os segredos da família. O filho mais velho Franz (Maximilian Schell), nazista criminoso dado como morto, na verdade ele se esconde no sótão há 16 anos cuidado por sua irmã. 

Pérola injustamente pouco conhecida, inclusive entre os fãs de Vittorio De Sica (ainda que ele tenha recebido por ele, o prêmio "David di Donatello", como Melhor Diretor), que merece ser redescoberta agora em DVD. Adaptado da penúltima peça de Jean-Paul Sartre (com bastante fidelidade, excetuando-se a opção de incluir cenas externas, fora do confinamento), única em que ele aborda diretamente o nazismo, em uma crítica inteligente e ousada. Sophia Loren, Fredric March e Maximilian Schell, atuam corajosamente em papéis que fugiam completamente do que o público estava acostumado, garantindo um clima ainda mais soturno ao projeto. Faz recordar (no tom e na complexidade) os trabalhos do escritor polonês Günther Grass (dentre eles, o mais famoso: "O Tambor"). A ideia por trás de um jovem nazista que é mantido, anos depois do final da guerra, prisioneiro em um sótão por seu pai (sem qualquer comunicação com o mundo exterior), para que ele não perceba a realidade, causa arrepios só de pensar. O excelente desfecho (que obviamente não revelarei) contém uma das imagens mais fortes do cinema de sua década. Imprescindível!

O Capanga de Hitler (Hitler´s Madman - 1943)
O filme conta a história do assassinato de Reinhard Heydrich, comandante nazista, por rebeldes tchecos. Depois, houve a represália ao povo da Tchecoslováquia pelos nazistas, dizimando a cidade de Lídice.

Feito praticamente ao mesmo tempo e utilizando o mesmo tema que "Os Carrascos Também Morrem" (de Fritz Lang, que será lançado mês que vem, pela "Cult Classic"), neste filme testemunhamos o primeiro trabalho de Douglas Sirk no cinema americano. Trata-se de mais uma eficiente peça de propaganda, porém com mais refinamento que a maioria que era produzida a toque de caixa no período. O desfecho, onde o povo da cidade dizimada pelos nazistas clama diretamente ao público por um revide ideológico, ressalta a importância histórica da obra (ainda que seja um elemento que a deixe bastante datada). Como ponto alto, a excelente atuação de John Carradine, como Reinhard Heydrich, organizador da Conferência de Wannsee (em 1941), que resultou na aprovação da monstruosa "solução final para os judeus": o holocausto. 

A Frota de Prata (The Silver Fleet - 1943)
Jaap Van Leyden está a cargo de um estaleiro na Holanda. No começo, ele colabora com os alemães porque é o melhor caminho a seguir. Mas depois cumpre missão para libertação da Europa. Ambientado durante a ocupação da Holanda na Segunda Guerra Mundial, Ralph Richardson, em um papel muito carismático, estrela como o proprietário de um estaleiro holandês que pretende colaborar com os nazistas, a fim de proteger sua esposa e colegas de trabalho. Inspirado pela memória do herói histórico holandês Piet Hein, ele forma um plano complicado para atravessar o dobro de nazistas e sabotar os dois submarinos que ele foi condenado a construir para eles. 

Com produção de Michael Powell e Emeric Pressburger (do excelente "Os Sapatinhos Vermelhos"), esta bela peça de propaganda da Segunda Guerra Mundial continua a emocionar da mesma forma, com simplicidade e elegância. Ralph Richardson (excelente) vive um homem comum que busca inspiração na bravura de um herói do passado. A forma que ele encontra para trabalhar contra o nazismo (simbolizado caricaturalmente pelo personagem vivido por Esmond Knight), secretamente motivando o povo a revidar, enquanto caminha livremente e sorrindo para os oficiais alemães, entre os mais jovens pode encontrar reflexo na obra "V de Vingança", de Alan Moore e até no "Batman" de Christopher Nolan. Jaap Van Leyden sabe que será recompensado com o anonimato em vida, inclusive sofrendo junto com sua família o escárnio de seus compatriotas, que acreditam que ele é um traidor. Um conto de heroísmo e sacrifício, que a ação do tempo não destruiu.

Fantomas - O Guerreiro da Justiça - Volume 1 (Ôgon Batto - 1967)
O "Morcego Dourado", que seria conhecido no Brasil pelo mesmo nome de um famoso personagem deTelecatch da época, foi dublado pela "CineCastro" e exibido no início da década de 70, como parte do clássico programa infantil: "Clube do Capitão Aza" (saudoso Wilson Vianna), na TV Tupi. Anos antes, em sua terra natal, foi protagonista em um filme live action (lançado meses atrás pela distribuidora) com o astro Sonny Chiba. A "Cult Classic" está lançando esta preciosidade nostálgica em uma bela embalagem em Digibook (com três DVD´s), contendo os 13 primeiros episódios (8 com a dublagem clássica). Excelente pedida para todos o que foram crianças na época e sentiam saudades desta animação.

A Sombra do Pecado (Cast a Dark Shadow - 1955)
Um esperto caçador de fortunas (Dirk Bogarde), com uma propensão para o assassinato, mata sua esposa e consegue fugir.

O diretor britânico Lewis Gilbert ficaria famoso internacionalmente por comandar três produções emblemáticas da franquia "007" (como "O Espião que me Amava", em 1977), mas realiza nesta adaptação da peça de Janet Green (responsável por "A Teia de Renda Negra" e "Meu Passado me Condena") sobre um jovem "Barba Azul", um legítimo "Noir" da melhor qualidade. Muito ajudado pela vigorosa interpretação de Dirk Bogarde, como Teddy Bare (bom trocadilho com "Bear", "Ursinho Teddy"), um jovem que utiliza generosamente seu charme para acumular fortuna. Muito interessante a forma que a câmera enquadra a cadeira de balanço da viúva, como se nela estivesse retida a força vital da mulher, que continua perseguindo a consciência do homem, mesmo após a morte. O roteiro trabalha sutilmente a possibilidade de homossexualidade no jovem, interpretado com certa afetação por Bogarde, como quando ele é visto lendo uma revista de fisiculturismo masculino. Vale destacar a fotografia do excelente Jack Asher (que traria elegância para as produções de terror dos estúdios "Hammer"), que trabalha (como de costume no estilo, legado do Expressionismo Alemão) as sombras, como se gradualmente aprisionassem o protagonista, até uma cena importante em que apenas seus olhos são iluminados. O desfecho é surpreendente (não perdeu sua eficiência) e o filme merece constar entre os mais interessantes do gênero.

Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die! - 1943)
Franticek Svoboda (Brian Donlevy) é um médico tcheco membro da resistência que assassina um carrasco alemão. A Gestapo, então, resolve caçar o responsável e para conseguir o seu intento, os nazistas fazem execuções a cada hora de cidadãos tchecos, querendo forçar a população a entregar o assassino. Mais do que isso, não deixa qualquer saída para Svoboda, pois ele não pode se entregar por razões políticas e também não pode ficar de braços cruzados por razões morais. 

Escrito por Bertold Brecht (sua única contribuição para o cinema de Hollywood), com direção do sempre competente Fritz Lang, esse excelente "Noir" atípico (por não possuir alguns elementos importantes, como a femme fatale) foi lançado na mesma época que "O Capanga de Hitler" (de Douglas Sirk) e com tema similar, abordando o assassinato do nazista Reinhard Heydrich. A fotografia é do grande James Wong Howe (responsável por "O Indomado", "O Velho e o Mar" e a gema injustamente pouco conhecida "O Segundo Rosto", de John Frankenheimer). No filme, podemos perceber que Lang (que auxiliou Brecht no roteiro) buscou inspiração em seu próprio trabalho nos filmes de "Dr. Mabuse" (especialmente "O Testamento de Dr. Mabuse"). Uma obra do período em que a propaganda era uma arma utilizada na Segunda Guerra Mundial, em que o importante era incitar os valores do espírito humano defronte a possível aniquilação. 

Lançamentos da "Classicline" (Junho / Julho de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

Natal em Julho (Christmas in July - 1940)
Jimmy (Dick Powell) é um jovem sério e pobre, que trabalha como balconista de contabilidade. Ele é um sonhador que acredita que um dia será rico, e por isso resolve participar de um concurso, pensando em usar o dinheiro para comprar os pequenos luxos para sua mãe, e para casar com sua namorada e colega de trabalho, Betty (Ellen Drew). Três amigos de trabalho decidem fazer uma brincadeira com Jimmy, enviando-lhe um telegrama dizendo que ele ganhou o concurso.

Quando se fala na obra do diretor Preston Sturges, logo se lembram de "Contrastes Humanos", "Mulher de Verdade" ou "As Três Noites de Eva", mas normalmente se esquecem desta joia de bela singeleza. O segundo filme em sua carreira, baseado em sua peça "A Cup of Coffee", de 1931. São apenas 67 minutos, mas o efeito de sua mensagem dura por dias na mente de quem assiste. Na ideia por trás do desejo de riqueza material que o protagonista busca, reside uma crítica ao condicionamento humano de valorizar pessoas por puro interesse. O pobre homem com uma ótima ideia não é sequer notado, enquanto caminha entre medíocres pensadores ricos. No momento em que o patrão descobre que o pobretão ganhou o prêmio, até mesmo a respiração dele se torna preciosa. Ele ganha um escritório só seu e um lugar cativo nas reuniões dos executivos da empresa, mas isso não lhe importava tanto quanto oferecer uma vida melhor para seus familiares e vizinhos.
"Natal em Julho" oferece uma visão realista do período da Grande Depressão, com o otimismo de um Frank Capra, reforçando os valores e virtudes do ser humano, mas com a esperteza única de Sturges, que evita a sacarina excessiva. Excelente título na coleção de todo cinéfilo que se preza.

A Fuga de Tarzan (Tarzan Escapes - 1936)
Parentes de Jane (Maureen O'Sullivan) retornam à África e tentam induzi-la a voltar para a civilização. Tarzan (Johnny Weissmuller) salva o grupo de selvagens que estavam tentando matá-los, mas é perseguido e capturado por um caçador inglês que quer exibi-lo na Europa como uma atração da África selvagem. 

O terceiro filme estrelado por Johnny Weissmuller evolui a fórmula vencedora de "Tarzan e sua Companheira", entregando uma produção mais refinada (maior orçamento) e com ritmo dinâmico. Méritos do diretor Richard Thorpe (que faria "Ivanhoé, O Vingador do Rei", além de outros filmes na franquia) e da ótima fotografia de Leonard Smith, que manteve o padrão conquistado no projeto anterior, por Charles G. Clarke (que faria "De Ilusão Também se Vive" e o musical "Carrossel"). Apostando na química do casal, o roteiro foca na convivência exótica de Tarzan e Jane (excelente a cena onde ela tenta explicar a ele que está partindo), com muito humor nos diálogos. O alívio cômico aparece na forma do bobalhão Rawlins (Herbert Mundin), que caberia em qualquer animação infantil.
Diferente do filme anterior, onde a sensualidade era um elemento generosamente utilizado, neste projeto vemos uma Jane mais comportada, graças à censura do Código Hays. Ainda que a ideia original tenha sido reformulada às pressas, com severos cortes (cenas consideradas de violência excessiva), o produto final é muito divertido. 

O Meu Amado (Rose of Washington Square - 1939)
Alice Faye interpreta Rose Sargent, uma cantora de NY da década de 1920 que se apaixona pelo bonito e arrogante malandro Bart Clinton (Tyrone Power). O novo romance de Rose é demais para o desespero de seu amigo e antigo parceiro Ted Cotter (Al Jolson), que não confia no escorregadio Bart.

O projeto foi uma sensata resposta ao sucesso de "Epopeia do Jazz" (lançado no ano anterior), apostando na simpatia do casal Alice Faye e Tyrone Power. Mas o real valor da obra foi documentar com qualidade o trabalho de Al Jolson, um nome injustamente ignorado pelos jovens de hoje. Tendo entrado para a história da Arte ao protagonizar o primeiro filme falado ("O Cantor de Jazz", em 1927), ele teve em "O Meu Amado" a chance de imortalizar com melhor qualidade de som e imagem, suas interpretações consagradas: "My Mammy", "California, Here I Come" e "Rock-a-Bye Your Baby with a Dixie Melody". Somente por esse motivo, já seria obrigação de todo cinéfilo dedicado ter este filme em sua coleção pessoal.

O Malabarista (The Juggler - 1953)
Hans Muller (Kirk Douglas), um judeu alemão, era um malabarista conhecido antes de ser enviado a um campo de concentração. Ele sobrevive, mas sua esposa e filhos, não. Após a guerra, Muller vai para um acampamento temporário em Israel, pois suas experiências o deixaram perturbado e confuso, mas ele acaba fugindo.

Kirk Douglas executa aqui o melhor trabalho de sua carreira, infelizmente em um filme que poucos conhecem. Um drama minimalista com enfoque psicológico, abordando corajosamente (ainda mais para a época) as perturbações que acompanhavam as vítimas da guerra em seu lento retorno à sociedade. Percebam a intensidade de emoções que ele deixa transparecer em seus olhos e sua competência nas cenas em que atua como palhaço e titereiro. Foi o primeiro filme americano a ser rodado em Israel, mas acerta ao manter-se centrado no drama do protagonista, ao invés de (como era usual) transformar-se em um "cartão postal" de suas locações. Uma produção dirigida pelo competente Edward Dmytryk, com o padrão de excelência e consciência social de Stanley Kramer. Um tesouro resgatado pela "Classicline".

A Semente Maldita (The Bad Seed - 1956)
Christine (Nancy Kelly) é uma boa mulher - gentil, honesta, trabalhadora e muito feliz. Ela é casada com um comandante da marinha, com quem tem uma filha chamada Rhoda (Patty McCormack). Como toda mãe, Cristine faz de tudo pela garota, até que um dia descobre que o seu 'anjinho' esconde uma personalidade extremamente maligna. 

O excelente diretor Mervyn LeRoy (de pérolas como "Alma no Lodo", "A Ponte de Waterloo", "Na Noite do Passado", "Flores do Pó" e o épico "Quo Vadis") saiu de sua zona de conforto ao comandar "A Semente Maldita", um suspense/terror ousado em que o elemento maligno era uma criança. "Os Inocentes" (em 1961) já havia sido lançado com temática similar (mas não de forma explícita), mas LeRoy catapultou a personagem Rhoda (Patty McCormack) para a galeria de "monstros infantis" do cinema, ao lado de Damien (o pequeno anticristo de "A Profecia"). A escolha do roteiro em expor todos os personagens como sendo psicologicamente falhos (com exceção de Reginald, o criminologista), e não somente a menina, conduz o debate para além dos estereótipos. O filme continua inspirando obras como "Cidade dos Amaldiçoados", "O Anjo Malvado" e o recente "A Órfã".

Lançamentos da "Classicline" (Abril / Maio de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers - 1940)
Mary Carter (Paulette Goddard) herda uma mansão em uma pequena ilha de Cuba e, apesar de sofrer ameaças, resolve tomar posse do local. Em companhia de Larry Lawrence (Bob Hope), uma personalidade do rádio, ela decide ir conhecer sua nova mansão assombrada, mas eles não fazem ideia do tamanho da confusão que estarão arrumando com os "fantasmas" do lugar.

Bob Hope era um embaixador da cultura americana. Entendia como poucos o funcionamento das engrenagens dos bastidores de Hollywood, além de genuinamente amar o mundo do entretenimento. Um intelectual que graças ao seu carisma e bom relacionamento com todos, transitava com liberdade pelos corredores dos estúdios. Em seus filmes, mandava indiretas cômicas para seus amigos, que ele sabia, estariam assistindo na estreia. Fazia graça com os gêneros, como nesta ótima brincadeira com os castelos mal-assombrados que emolduravam o horizonte enevoado dos clássicos de terror. O diretor George Marshall se responsabilizaria também pela inferior refilmagem, veículo para as trapalhadas de Jerry Lewis e Dean Martin, em "Morrendo de Medo" (Scared Stiff - 1953). A parceria de Hope com a bela (então em processo de divórcio com Charles Chaplin, após "O Grande Ditador") Paulette Goddard em "O Gato e o Canário" foi um sucesso de público, o que levou a Paramount a escalá-los novamente em um projeto similar. Existem várias cenas muito engraçadas em "O Castelo Sinistro", porém uma se destaca como a melhor tirada de sua carreira. Ele atenciosamente escuta a explicação dada pelo personagem de Richard Carlson, sobre o modus operandi dos zumbis: "Um zumbi não possui vontade própria. Você os vê caminhando sem rumo, com os olhos sem vida, seguindo ordens, sem saber o que estão fazendo, sem se importar..." No que Hope complementa: "Como os democratas?".

Bola de Fogo (Ball of Fire - 1941)
Gary Cooper é Bertram Potts, o mais jovem de oito professores que estão escrevendo uma enciclopédia. Eles encontram uma "fonte de pesquisa" perfeita na forma curvilínea da stripper Sugarpuss O'Shea (Barbara Stanwyck), que acaba se escondendo na casa dos professores para escapar de seu namorado gangster Joe Lilac (Dana Andrews). Sugar acaba se tornando muito amiga dos professores e os sentimentos entre ela e o Prof. Bertram crescem cada vez mais. Quando Joe aparece reivindicando um casamento com Sugar, para tentar escapar da prisão, os professores terão que largar os livros e tentar salvar a vida de sua querida beldade.  

Uma parceria entre Billy Wilder (roteiro, com Charles Brackett e Thomas Monroe) e Howard Hawks (direção) só poderia resultar em algo fantástico. A inspiração veio da "Branca de Neve" adaptada na animação da Disney. Os professores se portam como os anões, com direito a caricatos gestos e trejeitos, além de se posicionarem sempre juntos nas cenas. Já Gary Cooper exercita seu talento, brincando com a fragilidade de seu personagem, deixando a voluptuosidade de Barbara Stanwyck dominar cada frame. Interessante perceber como Gregg Toland, o gênio por trás da fotografia de "Cidadão Kane" e "A Longa Viagem de Volta", resolveu a bela cena em que apenas os olhos de Stanwyck se destacam no escuro em que sua personagem se esconde. Toland pintou o rosto dela de preto, num truque que ainda funciona. O humor continua intocado pelo tempo, fazendo de "Bola de Fogo" uma das melhores screwball comedies.

Tambores da Morte (Drums Across the River - 1954)
Crown City pode se tornar uma cidade fantasma, pois todo o seu ouro está localizado em terra indígena. Gary Brannon (Audie Murphy), um homem honesto que odeia índios, se junta a uma missão para tentar concessões de mineração, mas o líder do grupo, o ganancioso Frank Walker, planeja em segredo começar uma guerra contra os índios para tomar suas terras. Gary e seu sábio pai Sam têm agora nas mãos a manutenção da paz e terão de juntar forças com os índios para impedir os planos de Walker. 

Hoje injustamente esquecido, Audie Murphy foi um dos heróis de guerra mais condecorados e famosos da Segunda Guerra Mundial. Ele prezava tanto sua imagem como modelo de boas condutas, que recusava participar de comerciais de álcool e cigarro. Incentivado por James Cagney, estudou métodos de atuação. Durante vinte anos, teve sua respeitabilidade utilizada pela indústria de cinema, como o mocinho de obras de guerra e faroeste (a maioria). Ainda que não tenha participado de nenhuma obra-prima no gênero, "Tambores da Morte" (dirigido por Nathan Juran, que quatro anos depois viria a comandar "Simbad e a Princesa", clássico do saudoso Ray Harryhausen) é um dos mais divertidos (com a presença sempre carismática de Walter Brennan). Os dois vilões, vividos por Lyle Bettger e Hugh O´Brien, elevam a qualidade do roteiro, "mastigando" cada cena (como Steve McQueen sabia fazer muito bem) como se fosse a última. Murphy atua de forma correta, mas é eclipsado sempre que contracena com os dois. Vale destacar que a "Classicline" incluiu a ótima dublagem clássica da AIC, com Nelson Batista (Murphy), Garcia Neto (Lyle) e Gervásio Marques (Jay Silverheels).

Os 39 Degraus (The 39 Steps - 1935)
Richard Hannay (Robert Donat) é um canadense de férias na Inglaterra. Uma mulher desconhecida (Lucie Mannheim) pede sua ajuda, alegando ser uma espiã cuja vida corre perigo. Apesar de seus esforços, ela acaba assassinada, mas lhe entrega um mapa, murmura algo sobre os 39 degraus, e o pede que fuja. Depois de escapar de homens que o esperavam do lado de fora, Richard descobre que ele mesmo está sendo procurado pela polícia por assassinato, mas resolve seguir as pistas que a espiã lhe deixou para encontrar os verdadeiros assassinos e provar sua inocência.

Excelente lançamento desta obra-prima que não perdeu seu frescor, mantendo-se (como todos os bons filmes) intacta em seu fascínio e seu humor. Hitchcock foi o "Mestre do Suspense" (muito graças à admiração de Truffaut, que o idolatrava), mas eu gosto particularmente de seu incrível senso de humor. Já nos primeiros oito minutos, uma demonstração clara desta habilidade pouco exaltada do cineasta. O apresentador pede que a plateia pergunte qualquer dúvida para o gênio "Sr. Memória" que está se apresentando no palco, no que um senhor insiste em perguntá-lo sobre as causas de uma doença que dá no bico de aves domésticas. Como não recebe uma resposta, ele continua perguntando, mesmo nas horas mais estapafúrdias, como quando uma confusão se instala no ambiente. A forma como o diretor trabalhou a edição da cena, potencializa o aspecto cômico, continuando eficiente como no dia de sua estreia.
Vale perceber a interação entre Robert Donat e Madeleine Carroll, nas cenas em que estão conectados por uma algema. O diretor, famoso por aprontar brincadeiras maldosas nos bastidores, algemou os dois alguns minutos antes de se preparar para rodar a cena, mas mentiu dizendo que havia perdido a chave. O casal passou horas acreditando estarem presos de verdade, enquanto o diretor sorria satisfeito, pois estava colocando-os no clima certo para a posterior gravação da cena. Com pelo menos um memorável filme no currículo (o mudo "O Pensionista", de 1927), Hitchcock conseguiu com "Os 39 Degraus" o seu primeiro grande sucesso. Três anos depois ele faria o excelente "A Dama Oculta", ainda em sua terra natal, para depois ser abraçado pela América, com o sucesso de "Rebecca - A Mulher Inesquecível" (de 1940).

Bing Crosby e Jane Wyman:
A Sorte Bate à Porta (Here Comes the Groom - 1951)
Pete Garvey (Bing Crosby) é um jornalista que acaba de voltar da França com dois órfãos de guerra e deve se casar em cinco dias para conseguir finalizar a adoção. Ele persegue sua antiga paixão, Emmadel (Jane Wyman), mas descobre que ela cansou de esperar por seu antigo amor e está para se casar com o milionário Wilbur (Franchot Tone). Pete utiliza os dois órfãos e sua voz encantadora para recapturar o coração de Emmandel, mas será uma batalha árdua contra o charmoso milionário.
Filhos Esquecidos (Just For You - 1952)
Produtor de sucesso na Broadway, o viúvo Jordan Blake (Bing Crosby) não encontra tempo para os filhos adolescentes Jerry (Robert Arthur) e Barbara (Natalie Wood). Alertado pela noiva Carolina (Jane Wyman), uma bela atriz de comédias musicais, ele leva os jovens para passar uns dias de férias nas montanhas. Carolina vai junto, e antes que eles possam revelar tudo aos filhos de Jordan, ela se torna alvo da paixão de Jerry, que não sabe que ela e o pai estão comprometidos.

O lançamento desses dois filmes preenche uma lacuna para os fãs de Bing Crosby, pois o mostram em um de seus melhores momentos no cinema, em sua breve (porém marcante) parceria com Jane Wyman. A dupla brigava constantemente nas filmagens, como revelado pelo diretor Frank Capra em sua biografia, mas a química dos dois em cena era pura mágica cinematográfica. "A Sorte Bate à Porta" foi o primeiro projeto que os uniu, sob o comando de Capra (do excelente "A Felicidade não se Compra"). A canção "In the Cool, Cool, Cool of the Evening" (composta por Hoagy Carmichael e Johnny Mercer), que havia sido escrita anos antes, para ser utilizada em um filme de Betty Hutton (que nunca chegou a sair do papel), venceu o Oscar de Melhor Canção Original. Já no ano seguinte em "Filhos Esquecidos", ainda que com a dupla exalando o mesmo carisma e a execução de uma ótima canção ("Zing a Little Zong", composta por Harry Warren e Leo Robin), o roteiro trabalhado pelo diretor Elliot Nugent (seu último trabalho) era inferior e mais sacarina. Com um humor menos esperto, mas abrilhantado pela participação de uma jovem Natalie Wood (três anos antes de "Juventude Transviada"). 

Estigma da Crueldade (The Bravados - 1958)
Jim Douglas (Gregory Peck) chega à cidade às vésperas do enforcamento de quatro bandidos. Eles os tem perseguido, pois acredita que violentaram e mataram sua mulher. Mas horas antes da execução, os quatro conseguem escapar, levando uma bela moça como refém, para tentar atravessar a fronteira para o México. Enfurecido, Douglas persegue e aniquila um a um seus inimigos, até que finalmente se revele um segredo que o deixará mais desesperado por salvação do que por vingança.

O diretor Henry King realizou com esse ótimo faroeste, uma experiência no gênero, apostando em um viés psicológico. O personagem vivido por Gregory Peck está tão devotado à vingança, que nega seus princípios e se cega perante seu compasso moral. Stephen Boyd (um ano antes de viver "Messala" em "Ben-Hur") e Lee Van Cleef (que anos depois viraria sinônimo de "Spaghetti Western"), excelentes em cena, reforçam o elenco como dois dos quatro foras-da-lei. Emoldurado por uma bela trilha sonora de Alfred Newman e Hugo Friedhofer, que traduz melodicamente a determinação psicótica que move o protagonista, mas deixando claro em seus acordes que existe um herói honrado enterrado naquela montanha de amargura e ódio. O desfecho continua poderoso, surpreendente e corajoso.

Deus é Meu Juiz (The Rack - 1956)
Baseado numa peça de Rod Serling e realizado pelo diretor Arnold Laven, narra a história do Capitão Edward Hall (Paul Newman), que retorna aos EUA depois de dois anos em um campo de prisioneiros na Guerra da Coréia. No campo, ele foi torturado e sofreu lavagem cerebral para ajudar o inimigo. Quando ele retorna, é submetido à Corte Marcial acusado de ter colaborado com os coreanos. Mas até que ponto pode durar a lealdade de um soldado, quando ele está preso em meio ao inferno?

Um dos melhores trabalhos da fase inicial de Paul Newman, mas injustamente pouco reconhecido. Com excelente roteiro de Stewart Stern (de "Juventude Transviada", do ano anterior), merece constar ao lado de clássicos como "Os Melhores Anos de Nossas Vidas" (1946) e "Nascido em Quatro de Julho" (1989), como um dos mais eficientes projetos sobre o retorno dos soldados para casa, após enfrentarem os horrores de uma guerra, tendo que conviver com os tremendos abalos psicológicos. Newman utilizou uma experiência traumática de sua experiência na Segunda Guerra, quando testemunhou um amigo sendo retalhado pelas hélices de um avião, para canalizar a constante tensão exibida em sua interpretação (cheia de tiques nervosos). Uma raridade que a "Classicline" felizmente retira da obscuridade.

O Navio Condenado (The Wreck of the Mary Deare - 1959)
Em uma noite tempestuosa no Canal da Mancha, o ganancioso John Sands (Charlton Heston), o capitão de um pequeno navio de salvamento, quase se choca com o cargueiro Mary Deare, que aparentemente estava abandonado. Sands sobe a bordo do Mary Deare, esperando achar alguma carga, mas se depara com o perturbado oficial Gideon Patch (Gary Cooper), que há quatro dias assumira o comando do navio em razão da morte do capitão Taggart. 

O projeto estava encomendado para Alfred Hitchcock, que trabalhou no texto com o auxílio de Ernest Lehman, mas a ideia foi abortada quando o diretor começou a elaborar o conceito que viria a se tornar "Intriga Internacional". O elemento que mais impressiona no filme, que equilibra a aventura marítima com um drama de tribunal, é a vitalidade de Gary Cooper, que lutou contra as limitações de um câncer avançado (as filmagens precisavam ser interrompidas constantemente, para que ele inalasse oxigênio), realizando até mesmo as cenas mais perigosas. Charlton Heston, que havia acabado de filmar "Ben-Hur" (mas antes de ser premiado pelo filme), faz o papel de "advogado do diabo", porém é eclipsado em todas as cenas pela determinação de Cooper. Richard Harris, em um de seus primeiros trabalhos, já se destaca ao conseguir superar as limitações de seu personagem unidimensional. Vale destacar também a qualidade dos efeitos utilizados para a filmagem do naufrágio, surpreendentes até para os padrões atuais. 

Lançamentos da "Classicline" (Janeiro / Março de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

John e Mary (John and Mary - 1969)
O diretor inglês Peter Yates é normalmente lembrado pelo excelente "Bullit" (com Steve McQueen), mas o filme de sua carreira que mais revisito (e sempre com prazer renovado) é esta pequena gema: "John e Mary". Já li muitos críticos estrangeiros apontando erros, argumentando que os protagonistas não são desenvolvidos ou que a própria trama não se aprofunda na relação entre os dois. Então qual é a mágica que sobrepuja qualquer defeito que possa ser encontrado, tornando a experiência de rever Dustin Hoffman e Mia Farrow tão prazerosa? Quando um crítico analisa uma obra de arte como se estivesse resolvendo uma equação matemática, acaba racionalizando em excesso e perdendo a sensibilidade para os detalhes.
Os dois jovens se esbarram em um bar, completos estranhos que, sem imaginarem, carregam o mesmo medo, as mesmas preocupações. Ela busca conhecer alguém com quem possa passar uma noite, sem a preocupação de que o homem precise voltar para sua esposa antes do nascer do dia. Ele acabou de ser usado por uma modelo fútil, que se apoderou de seu apartamento por conveniência (não precisaria pegar mais táxi para o trabalho), o que o fez temer este tipo de aproximação, esta entrega emocional plena. Os nomes um do outro, desconhecem. Eles inicialmente buscam conhecer-se analisando discretamente seus pertences pessoais, sempre mantendo diálogos internos muito mais reveladores que os externos (algo resolvido de forma simples e eficiente no roteiro, similar ao que Woody Allen utilizaria anos depois em seu "Annie Hall"). Adoro o momento em que ela conta onde e com quem mora, mas assistimos a narração pelo ponto de vista dele (o humor é muito bem trabalhado). Fica clara a influência estética dos primeiros filmes europeus da Nouvelle Vague.

As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines - 1950)
Muitas versões cinematográficas desta clássica história de H. Rider Haggard (publicada em 1885) foram realizadas, todas se desviaram bastante do original (incluindo um interesse amoroso), mas esta dirigida por Compton Bennett (removido durante a produção, por problemas com o protagonista) e Andrew Marton, foi a que entregou um entretenimento de melhor qualidade (filmada em locação na África). Os jovens podem se lembrar do Allan Quatermain vivido por Richard Chamberlain na década de oitenta, mas revisitar aquela obra faz notarmos o quanto ela buscou emular o arqueólogo Indiana Jones, construindo um desequilibrado misto de aventura e humor, com pouca personalidade. Rever Stewart Granger impondo dignidade ao papel é testemunharmos uma das inspirações de George Lucas. A personagem de Deborah Kerr (sua interpretação foi clara inspiração para a Willie Scott de "O Templo da Perdição") busca encontrar seu marido na África selvagem, o que possibilita no primeiro ato um típico travelogue (Quatermain explica o conceito de caça e caçador na selva, mostrando didaticamente variados animais em ação predatória) e algumas soluções que adiam a evolução da trama (únicos elementos que ficaram datados). Quando todas as peças estão no tabuleiro(incluindo o africano Umbopa, personagem essencial, mas com importância reduzida), o ritmo engata e somos presenteados com uma das melhores aventuras da era de ouro do cinema americano.
Ajudando a compor o clima, a única trilha sonora que escutamos são os tambores e os cânticos nativos (o que, para a época, foi uma decisão inovadora). A fotografia premiada de Robert Surtees (que viria a participar também de "Ben-Hur" e "A Primeira Noite de Um Homem", entre tantos outros) se aproveita da imensidão e ajuda a criar momentos épicos, como a cena da debandada dos animais, que muitas produções tentaram imitar, mas nunca sequer igualaram.  

Thomas Edison - O Mago da Luz (Edison, The Man - 1940)
Indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original, esta obra conta, em flashbacks narrados pelo protagonista, a biografia do cientista Thomas Alva Edison (Spencer Tracy). A história se concentra nos anos mais produtivos de Edison: 1872 a 1882. Durante este período, ele inventou o fonógrafo, o ditafone e a luz elétrica. Gene Lockhart interpreta um banqueiro descrente nas invenções de Edison e Rita Johnson é a esposa amável e dedicada do cientista. O suspense se instala quando Edison topa o desafio de conseguir iluminar as ruas de Nova York em apenas seis meses. Mas será que ele conseguirá cumprir este prazo e manter seu contrato e a sua credibilidade com a comunidade? 

Como toda cinebiografia americana da época, esta não segue com extrema fidelidade a vida do homenageado. Mas as liberdades tomadas melhoram-no como produto (mérito do diretor Clarence Brown). O foco é colocado sobre a perseverança de Thomas Edison (excelente Spencer Tracy) em seu sonho, colocando-o em confronto direto com Taggart (Gene Lockhart), um banqueiro que vê na possibilidade de iluminação elétrica, uma desvalorização de seus investimentos em gás. Como todo incompetente, o homem busca complicar ainda mais a já bastante complicada vida de Edison. Ele só não contava com a incrível persistência dele. Realizado apenas nove anos após o falecimento de Edison, o filme reflete também a aproximação da Segunda Guerra Mundial (patriotismo e a preocupação com a destruição do homem pelo próprio homem). Algumas cenas, ainda que resolvidas de forma puramente clichê, funcionam maravilhosamente e emocionam, como quando Edison avisa seus colegas trabalhadores que não terá mais como os pagar pelo serviço.
*O DVD vem com um livreto ilustrado contando a vida do homenageado.

Epopeia do Jazz (Alexander´s Ragtime Band - 1938)
Roger Grant (Tyrone Power) é um músico que sempre lutou para ser um profissional. Sua família discorda da sua inesperada decisão de largar a música clássica e formar uma banda de "ragtime", ritmo considerado muito popular época. Quando toca pela primeira vez em um bar com seus amigos, Roger conhece Stella Kirby (Alice Faye), uma cantora que inclusive pretende arrumar um emprego no mesmo bar. Obviamente, os dois acabam discutindo pondo em questão quem vai conseguir o trabalho. O dono, vendo a discussão, resolve dar o emprego para Stella e para o grupo de Roger, forçando-os a se tornarem uma única banda. Mesmo de início insatisfeitos um com o outro, Stella e Roger aceitam a decisão. Com o tempo, o grupo vai se consolidando, aumentando e ganhando fama com as suas músicas.

Para fãs de Irving Berlin, este musical é essencial! De forma original, o roteiro traça um panorama histórico do jazz (desde a rebeldia do Ragtime até a aceitação do Swing como uma forma de arte, no final da década de trinta), utilizando como pano de fundo a trajetória de um jovem (vivido por Tyrone Power) que desafia a sociedade em que vive, perseguindo a expressão mais popular da música. Entre uma canção e outra (ao todo são vinte e oito, incluindo as excelentes: "Blue Skies", "Heat Wave" e "Alexander´s Ragtime Band"), somos apresentados a um triângulo amoroso. Stella (Alice Faye) desperta a paixão do compositor vivido por Don Ameche, causando idas e voltas (onde são incluídas passagens marcantes da história do jazz, como sua participação na Primeira Guerra Mundial e a importante apresentação de Benny Goodman e sua orquestra, no Carnegie Hall, em 1938) típicas dos romances da época. Uma excelente opção para fãs de boa música.
*Vale ressaltar uma bela homenagem que é feita no final (nas legendas) ao Maurílio Arrais, diretor da distribuidora "Classicline". Sempre é bacana ver empresas que amam verdadeiramente os produtos que disponibilizam no mercado.

Amar Foi Minha Ruína (Leave Her to Heaven - 1945)
Embora seja noiva de um político (Vincent Price), Ellen (Tierney) seduz o belo Richard (Cornel Wilde) e casa-se com ele após conhecê-lo há poucos dias. Mas Richard logo descobre com sua irmã (Jeanne Crain) e sua mãe (Mary Philips) que o egoísmo e o amor possessivo de Ellen arruinaram a vida de outras pessoas. Quando seu próprio irmão se afoga sob os cuidados de Ellen e ela perde o filho que esperava, a suspeita de Richard sobre a insaciável devoção de Ellen aumenta cada vez mais.

Nada mais propício que utilizar no título uma frase contida em "Hamlet", para uma obra cuja protagonista vive uma constante batalha interior. Ainda que a direção de John M. Stahl não tenha envelhecido muito bem (alguns problemas de ritmo, causando um segundo ato arrastado), a beleza hipnótica de Gene Tierney (que havia feito o excelente Noir "Laura", no ano anterior) e a complexidade que ela consegue inserir em sua caracterização, alternando entre a obsessão patológica e uma pureza infantil (ela foi indicada ao Oscar por esta interpretação), nos prende a atenção. O terceiro ato ganha pontos com a presença de Vincent Price, com sua verve teatral habitual (que acabaria "casando" perfeitamente em seus projetos no gênero terror). A fotografia de um colorido exuberante (de Leon Shamroy) conquistou um Oscar, mesmo contrastando com a história sombria que emoldura. Vale ressaltar também uma excelente (e subestimada) trilha sonora de Alfred Newman. A obra foi o maior sucesso financeiro dos estúdios Fox, na década de quarenta.

Brutalidade (Brute Force - 1947)
Baseado num artigo de jornal e com roteiro de Richard Brooks (A Sangue Frio), Brutalidade conta a história de um motim na prisão de Westgate. A ação é centrada na vida de seis homens que vivem na mesma cela. O líder do grupo é o gângster Joe Collins (Burt Lancaster). Eles se rebelam por causa das atitudes sádicas do Capitão Munsey (Hume Cronyn), o chefe da guarda da prisão. 

Excelente produção dirigida por Jules Dassin (em seu período pós-guerra, antes de comandar "Rififi"), que continua entretendo da mesma forma que em seu dia de estreia, funcionando como um eficiente suspense e um pioneiro "filme de prisão". A forma franca como a violência é exibida (especialmente em seu terceiro ato) chocou o público e a crítica da época, porém a mensagem que o roteiro transmite é mais profunda. A frase que fecha a obra: "ninguém realmente escapa", complementa as cenas que são mostradas em flashback, com a vida pregressa de cada prisioneiro da cela R17 (evidenciando as mulheres de suas vidas), deixando claro que não existe fuga para aqueles homens. Eles nunca serão os mesmos, nunca serão vistos pela sociedade como outrora. Esta crítica ao sistema carcerário, que não reabilita os prisioneiros na sociedade, torna-se o elemento que se mantém na memória dias após a sessão. Burt Lancaster impõe com sua rochosa presença física um tipo clássico, estereotipado, mas quem surpreende positivamente é Hume Cronyn (os mais jovens o reconhecerão como um dos velhinhos no clássico dos anos oitenta: "Cocoon"), vivendo um impiedoso chefe da segurança, que escuta Wagner (referência sutil à Hitler?) enquanto tortura um dos presos.

As Férias do Papai (Mr. Hobbs Takes a Vacation - 1962)
Quando o cansado banqueiro Roger Hobbs (James Stewart) sugere à sua esposa (Maureen O'Hara) que os dois façam uma viagem romântica, ela sugere que eles tirem férias com a sua grande família. Mal imaginavam eles que mais de 10 pessoas iriam aparecer para essas "férias" e que um turbilhão de confusões estaria prestes a começar. Entre ninguém nunca aceitar as sugestões de Hobbs, visitantes inesperados e pequenos conflitos, a família viverá experiências muito divertidas, únicas e acabará por ficar mais unida do que nunca.

Deliciosa comédia típica dos anos sessenta, com a bela Maureen O´Hara e James Stewart se divertindo fora de sua zona de conforto (em interpretação que o levou a receber o prêmio de "melhor ator" no Festival de Berlin). Com clara inspiração no trabalho de Jacques Tati (especialmente na cena em que Stewart confronta uma simples máquina e na sequência em que ele busca pássaros exóticos), o roteiro episódico abusa do humor físico e das inteligentes sacadas nos diálogos, incluindo também uma bela lição sobre união familiar (excelente a sequência em que pai e filho se aproximam em um passeio de barco). Engraçado perceber a crítica que é feita à ascensão da televisão (o que estava prejudicando a indústria de cinema), colocando-a como uma máquina maléfica (que só passa faroeste, uma possível piada interna com Stewart) que divide famílias. A presença do ídolo fabricado da época: Fabian, numa tentativa frustrada de emular o carisma de Elvis Presley, conduz para um desnecessário (ainda que breve) interlúdio musical. A trilha sonora de Henry Mancini emoldura com perfeição e habitual elegância, esta ótima produção. 

Fatalidade (A Double Life - 1947)
O famoso ator de teatro Anthony John (Ronald Colman) tem problemas com a sua vida privada devido às suas explosões imprevisíveis de humor. Essa característica já lhe custou sua esposa, Brita (Signe Hasso) e ameaça sabotar sua carreira. No entanto, Anthony faz as pazes com Brita e os dois passam a trabalhar em uma nova encenação de Othello na Broadway. A peça é um sucesso, agendando mais de 300 apresentações, mas a pressão de retratar um homem disposto a matar por ciúme domina Anthony completamente. Em seus acessos de raiva e delírio, seguidos por crises de amnésia, ele cometerá crimes inimagináveis e passará a ser uma ameaça à vida de todos ao seu redor, até mesmo de seu assessor Bill Friend (Edmond O'Brien). 

Com uma interpretação que lhe rendeu um Oscar e um Globo de Ouro, Ronald Colman vive um ator perturbado por sua própria arte. Auxiliado por um ótimo roteiro do casal Ruth Gordon (que viveria a adorável Maude de "Ensina-me a Viver") e Garson Kanin, o injustamente pouco lembrado astro inglês entrega sua melhor interpretação, deslizando com inteligência entre os três níveis psicológicos de seu personagem. Ele inicia galante e bem-humorado, exercitando sua própria persona artística (o título da peça: "gentleman´s gentleman", como ele era conhecido na época), depois ficamos conhecendo sua dedicação dramática, quando interpreta em "Othello", mas o ponto alto (do filme e de sua atuação) se encontra no terceiro ato, quando ele sofre um colapso mental e perde totalmente o controle de suas ações.
Além de um excelente monólogo sobre a função do ator, somos presenteados com a beleza de uma jovem Shelley Winters, em seu primeiro grande papel no cinema. A atriz estava extremamente nervosa por contracenar com Colman, fazendo com que o diretor George Cukor, durante as filmagens, pedisse ao seu experiente protagonista que a levasse para lanchar nos horários livres, para que ficassem amigos.

Sua Última Façanha (Lonely Are The Brave - 1962)
O caubói Jack Burns (Kirk Douglas) fica sabendo que seu amigo Paul Bondi foi preso por transportar imigrantes ilegais. Na tentativa de ajudar o amigo, Burns deliberadamente deixa-se prender para estar mais próximo de seu amigo. Frustrado por Bondi não querer acompanhá-lo na estrada, Burns, então, escapa da prisão, tornando-se um fugitivo. É quando o xerife Johnson (Walter Matthau) encontra sua trilha e passa a persegui-lo. Johnson, na verdade, é um desbravador frustrado que secretamente admira a vida livre de Burns.

Impecável obra roteirizada pelo sempre competente Dalton Trumbo, convocado por Kirk Douglas (com quem havia trabalhado em "Spartacus"), que se mostrou apaixonado ideologicamente pelo projeto (ele considerava este o seu melhor filme). Os jovens perceberão que o filme serviu de inspiração para o escritor David Morrel em seu: "First Blood" (e consequentemente, sua adaptação cinematográfica: "Rambo - Programado para Matar"). Já os fãs da série dos anos setenta: "O Incrível Hulk", poderão ver seu astro Bill Bixby em sua primeira participação no cinema, como o copiloto do helicóptero que caça Kirk Douglas na montanha.
Logo em sua cena inicial, o roteiro nos mostra a clássica figura (imortalizada pelo cinema) do cowboy, contrastando-a com a passagem de aviões pelo céu. Referência imagética que encontra "rima" conceitual na cena que finaliza a obra (não irei revelar), reforçando o que está em jogo: a velha sociedade contra a sociedade moderna, numa batalha onde a coexistência não parece ser possível. Douglas representa o elemento da natureza que se recusa a se adequar, forçando com que as leis naturais do "Zeitgeist" defendam-se sem piedade. Filme essencial na coleção de qualquer cinéfilo dedicado. 

A Ponte de Waterloo (Waterloo Bridge - 1940)
Em Londres, durante os bombardeios da Primeira Guerra, o oficial Roy e a bailarina Myra se conhecem na ponte de Waterloo e logo se apaixonam. Porém, Roy precisa partir para o front de batalha. Myra promete esperá-lo. Meses depois, ela recebe a notícia da morte de Roy. Desiludida e sem recursos, Myra toma uma decisão drástica. Mas será que o seu grande amor realmente morreu? 

Vivien Leigh, dentre todos os seus filmes, preferia este. Seu colega Robert Taylor também afirmava ser este o seu melhor trabalho. Não há como negar o encanto deste belo e trágico romance envolto pela guerra. Com a direção sempre plena em sensibilidade de Mervin LeRoy (que nos anos seguintes ainda entregaria mais duas pérolas: "Flores do Pó" e "Na Noite do Passado"), somos presenteados com um exemplo de como se contornar um tema polêmico com muita elegância. Imaginem o rebuliço (com a censura da época): colocar a protagonista de "E o Vento Levou" (havia sido seu filme anterior, o que causou extrema antecipação por parte do público) defendendo uma personagem que se entrega à prostituição. A forma encontrada para resolver o problema provou-se muito mais eficiente que qualquer exposição temática gratuita. A cena onde Leigh, desolada andando pela ponte, decide acatar o chamado de um estranho (o que seria seu primeiro "programa"), tem a câmera focada apenas no rosto da atriz, deixando transparecer sua resignação.  

Os Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers - 1978)
Matthew Bennell percebe que diversos de seus amigos comentam que pessoas próximas da família estão agindo de modo diferente. Porém, quando posteriormente questionados se eles próprios viram algo de diferente, negam tudo ou dão desculpas esfarrapadas. À medida que aumenta o número de invasores, eles se tornam menos cuidadosos, e Bennell, que nestas alturas já testemunhou uma tentativa de "substituição" percebe que ele e seus amigos precisam escapar ou serão vítimas do mesmo destino. Mas em quem ele pode confiar para ajudá-lo e quem já foi tomado pelos invasores?

Um dos melhores exemplos de como uma refilmagem pode ser superior ao filme original. O suspense é estabelecido com perfeição em seu primeiro ato, com destaque para uma breve cena (muitos nem se lembram dela após a sessão) onde um padre (Robert Duvall) é visto se balançando junto às crianças em um parque, direcionando um olhar sombrio para a câmera. Você percebe que existe algo de muito esquisito ocorrendo naquele lugar. O terceiro ato é aterrorizante, não dando tempo para o espectador respirar. Foi o primeiro trabalho valoroso de Philip Kaufman na direção (anos depois ele criaria, com George Lucas, o roteiro de "Os Caçadores da Arca Perdida"). Todos os elementos funcionam, da sutil crítica social aos efeitos visuais (inclusive o alívio cômico interpretado por Jeff Goldblum). Os créditos finais são apresentados em tenebroso silêncio (aspecto que funcionou com a proposta, mas não foi algo pensado), complemento perfeito para os momentos que o antecedem (óbvio que não revelarei). Don Siegel, o diretor do filme original, faz uma ponta como o motorista de táxi que conduz os personagens de Donald Sutherland e Brooke Adams. Outro detalhe interessante e que evidencia a inteligência criativa de Leonard Nimoy, a meia-luva que utiliza em apenas uma mão, foi decisão do próprio ator, buscando torná-lo mais enigmático (qual a razão do uso dela?).

A Máquina do Tempo (The Time Machine - 1960) 
Baseado no clássico centenário de H. G. Wells, "A Máquina do Tempo" conta a história de George (Rod Taylor), um cientista que, cansado da ignorância de seu tempo, decide construir uma máquina do tempo para conhecer o futuro. Apesar de desacreditado por seus colegas, ele consegue realizar a viagem, mas o futuro não é nada do que ele esperava. A humanidade retrocedeu em termos de progresso, civilização e sociedade e está dividida em duas raças: na superfície estão os dóceis "Eloi" e nos subterrâneos os deformados e violentos "Morlock". 

Excelente adaptação do clássico literário de H.G. Wells, dirigido por George Pal, experiente ao lidar com a matéria-prima criativa do escritor, já que havia sido responsável pela adaptação de: "Guerra dos Mundos" (em 1953). Rod Taylor (que depois protagonizaria "Os Pássaros", de Hitchcock) vive o idealista cientista, que descobre no futuro uma sociedade passiva, que não vê valor na cultura, dessensibilizada, incapaz de se defender (uma visão profética do escritor, pois ao que tudo indica, nós estamos caminhando para esta triste realidade). Além dos efeitos de passagem de tempo ("time-lapse", que garantiu um prêmio no Oscar), considero a questão proposta no final (não irei revelar) o ponto alto da obra. O mistério (qual seria a sua decisão?), algo tão pouco utilizado nos roteiros atuais (que "mastigam" ao máximo para o espectador), eleva o que seria apenas uma divertida aventura ao status de obra-prima em seu gênero. Wells teria ficado orgulhoso, com certeza!

Lançamentos da "Classicline" (Novembro / Dezembro de 2012)

*Resgatando textos antigos. para aqueles que não me acompanhavam na época*

Um Conto de Natal (A Christmas Carol – 1938)
Ebenezer Scrooge é um homem avarento que não gosta do Natal. Ele é dono de um escritório em Londres onde trabalha com Bob Cratchit, seu pobre, mas feliz empregado. Bob é pai de quatro filhos e tem um carinho especial pelo frágil Pequeno Tim, que tem problemas nas pernas. Numa véspera de Natal, Scrooge recebe a visita de seu ex-sócio Jacob Marley, morto havia sete anos naquele mesmo dia. Marley explica que seu espírito não pode ter paz, já que não foi bom nem generoso em vida, mas que Scrooge tem uma chance. Para isso ele receberia a visita de três espíritos, para que transformasse o seu jeito de agir com as pessoas e, finalmente, pudesse ser feliz de verdade. 

Várias versões deste eterno clássico de Charles Dickens já foram filmadas, mas esta continua sendo minha favorita (sendo seguida pela versão de 1950, com Alastair Sim), talvez por ser a que é conduzida de forma mais simples, com uma duração que não chega aos setenta minutos. Inicialmente a MGM cogitava a presença de Lionel Barrymore, mas devido a problemas de saúde ele foi obrigado a se retirar, não sem antes indicar para o papel de “Scrooge”, seu amigo Reginald Owen.
Vários elementos mais sombrios do livro foram omitidos (outros expandidos, como o romance entre Fred e Elizabeth), porém sua essência está intacta. Um dos grandes acertos na direção de Edwin L. Marin, foi substituir o bizarro “Fantasma dos Natais Passados” literário, por uma bela jovem (Ann Rutherford). Outro acerto foi utilizar em cena a química natural de uma família real, composta por Gene Lockhart, sua esposa Kathleen Lockhart e sua filha June Lockhart (que viria a protagonizar a série “Perdidos no Espaço”, quase quarenta anos depois), fazendo-nos simpatizar ainda mais pela ternura do personagem Bob Cratchit (Gene), interessado apenas em realizar uma bela ceia de Natal com sua família, sem deixar transparecer a eles que seus sonhos haviam sido destruídos. Um filme para ver e rever, não somente em época de final de ano.

Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent – 1940)
Este clássico da espionagem conta a história de Johnny Jones (Joel McCrea), um correspondente de um jornal de Nova York que vai à Europa com um nome falso, para cobrir aquilo que seria um inevitável começo da Segunda Guerra Mundial. Durante um turno de trabalho, presencia a morte do diplomata holandês Van Meer (Albert Bassermann). Tudo se complica quando ele descobre que quem morreu na verdade não foi o diplomata, e sim um sósia, e que na verdade ele fora sequestrado por agentes que desejam um segredo seu. 

O filme que Joseph Goebbels (ministro da propaganda nazista) considerou: “uma obra-prima da propaganda”, normalmente esquecido pelos jovens fãs que Hitchcock acumulou ao longo das últimas décadas, mas que se mantém firme e resiste ao teste do tempo (mesmo sendo claramente um produto de seu tempo). Após um início esquisito na América (mesmo considerando o sucesso de “Rebecca”, inegável perceber que muito pouco do diretor está presente na obra), onde parecia que o inglês aceitaria as imposições do estúdio americano e acabaria perdendo sua identidade, este segundo esforço provou-se um teste de resistência para o realizador. O produtor Walter Wanger insistia em reescrever o roteiro, enquanto as filmagens estavam sendo realizadas. Algo inconcebível para Hitchcock, que respeitava demais seu próprio talento e não aceitaria ser um reles peão na indústria. Com pelo menos duas sequências que coloco entre as melhores da filmografia do cineasta (o assassinato na chuva e o bombardeio de um avião), esta obra merece estar na cinemateca pessoal de qualquer cinéfilo criterioso.

Andrea Cheniér (1985)
Inspirada na vida do poeta francês André Marie Chénier, que, vítima de uma conspiração, foi condenado à morte pelo Tribunal Revolucionário durante a Revolução Francesa, esta ópera é considerada o maior sucesso de Umberto Giordano. Esta versão ganhou ainda mais vitalidade com a condução de Riccardo Chailly. O personagem central, Andrea Chenier, é interpretado pelo famoso tenor José Carreras. Esta elogiada apresentação de 1985, no teatro La Scala, em Milão, foi registrada e preservada para futuras gerações.

Espero que a “Classicline” continue lançando as grandes óperas (“La Traviata” de Zeffirelli, seria fantástico), pois não somente existe um público ávido por estes produtos, como podem atingir uma nova geração ainda não tocada pela beleza destes espetáculos. Além da bela ária entoada no primeiro ato por José Carreras: “Un Di All'azzurro Spazio” (seguida por minutos de fervorosos aplausos em cena aberta), um momento que particularmente considero primoroso é quando a mãe de Maddalena (a soprano Eva Marton) se refere ao seu serviçal Gérard (o barítono Piero Cappuccille), que foi contaminado pelo fogo da revolução, com as seguintes palavras: “seu apreço pela leitura o arruinou”. Mesmo tendo outras versões maravilhosas (uma em especial, com Plácido Domingo, me encanta), esta apresentação no teatro La Scala ainda é minha versão favorita para “Andrea Cheniér”, de Giordano.

A Grande Mentira (The Great Lie – 1941)
Maggie Patterson (Bette Davis) é apaixonada pelo aviador Pete Van Allen (George Brent). A pianista Sandra (Mary Astor) também está envolvida com Pete e eles resolvem fugir para casar em segredo. Quando descobrem que seu casamento não é válido, porque o divórcio de Sandra com seu primeiro marido ainda não tinha saído, eles se separam e Pete acaba se casando com Maggie. Durante uma missão, Pete sofre um acidente e é dado como morto. Ao mesmo tempo, Sandra descobre que está grávida e, com medo de arruinar sua carreira, ela decide deixar Maggie adotar o seu bebê. Porém, Pete está vivo e sua volta mudará a vida dessas duas mulheres para sempre. 

Um melodrama correto, porém que desperdiça Bette Davis em um papel convencional, que qualquer jovem atriz poderia ter feito. Mary Astor (que recebeu um Oscar como Coadjuvante) é quem se favorece com o roteiro, pois suas cenas fogem dos diálogos típicos de novela mexicana. As duas atrizes chegaram a trabalhar modificando alguns diálogos, pois perceberam a má qualidade do material. Um incidente durante as filmagens trouxe problemas judiciais para o estúdio, pois um bebê ficou muito ferido após sofrer uma queda das mãos de uma jovem e precisou ser substituído. A simpática presença de Hattie McDaniel (a Mammy de “E o Vento Levou”), que havia acabado de fazer história como a primeira negra a receber um Oscar, pode ser considerada o ponto alto do filme, mesmo interpretando basicamente uma cópia de sua personagem no já citado épico. A direção de Edmund Goulding é refinada, porém se comparada com o estilo corajoso que utilizou em “Grande Hotel” (1932), parece um tanto quanto antiquada (em alguns momentos, parece um filme do início da década de trinta).

A Estranha Passageira (Now, Voyager – 1942)
Adaptado do livro de Olive Higgins Prouty, “A Estranha Passageira” conta a história de Charlotte Vale (Bette Davis), uma mulher tímida devido à sua repreensiva mãe, Mrs. Vale (Gladys Cooper). Emocionalmente perturbada, ela é ajudada por um psiquiatra, Dr. Jaquith (Claude Rains), que a incentiva a fazer mudanças radicais em sua vida. Visivelmente melhor de seus distúrbios, ela resolve viajar ao Rio de Janeiro como parte do processo de terapia e acaba conhecendo e se apaixonando pelo galante Jerry Durrance (Paul Henreid), com quem mantém uma relação complicada cheia de encontros e desencontros. 

Um dos cinco melhores trabalhos de Bette Davis (seu maior sucesso comercial) e com certeza um dos melhores romances da década de quarenta. Um dos aspectos mais curiosos é que durante o segundo ato ele se passa no Brasil, garantindo belas imagens do “Pão de Açúcar” e do “Corcovado”, mas também um alívio cômico pra lá de duvidoso, um atrapalhado taxista brasileiro (“mezzo-italiano/mezzo-portunhol”) de nome “Giuseppe”, que pode entrar na seleta lista de representações de tipos mais ofensivos, junto com o asiático vivido por Mickey Rooney em “Bonequinha de Luxo”. O tema que a obra aborda é muito interessante: a influência de uma mãe superprotetora em uma filha submissa. Davis consegue com grande sutileza passear entre a timidez excessiva, o desejo por liberdade ainda com culpas e a resignação redentora (ao final). Um filme essencial!

Minha Esposa Favorita (My Favorite Wife – 1940)
Ellen Arden (Irene Dunne) retorna à sua cidade sete anos depois de ter sido dada como morta em um naufrágio, mas encontra seu marido, Nick (Cary Grant), recém-casado com Bianca (Gail Patrick). Nick tenta desajeitadamente contar a notícia para sua nova esposa, mas antes que ele possa fazer isso, tem uma surpresa desagradável: a notícia de que Ellen passou os sete anos em uma ilha deserta com o companheiro e sobrevivente Burkett (Randolph Scott). Enquanto o ciumento marido tenta descobrir a verdade, diversas situações hilariantes acontecem até que ele consiga escolher a sua esposa favorita. 

Uma das “Screwball Comedies” mais famosas, esta parceria entre Cary Grant e Irene Dunne continua eficiente após setenta e dois anos. Um detalhe curioso é perceber que Grant e Randolph Scott ostentam sutilmente a mesma aliança (no dedo mínimo da mão esquerda), provavelmente alguma mensagem cifrada entre ambos, que mantinham um caso tórrido na vida real. Algumas cenas sempre são lembradas, como a hilária reação de Grant no elevador ao perceber a presença de sua esposa no saguão do hotel. O terceiro ato perde um pouco o ritmo, parecendo querer resolver tudo de forma apressada, mas o humor retorna na cena final (que não irei contar). Não chega ao brilhantismo de outras obras de Grant no gênero, como: “Levada da Breca” e “Jejum de Amor”, mas seus acertos compensam os erros.

Região do Ódio (The Far Country – 1954)
Em 1896, Jeff Webster (James Stewart) vê o início da corrida do ouro de Klondike como uma oportunidade para conseguir uma fortuna no ramo do gado. Ele leva um rebanho de gado do Wyoming para a cidade de Skagway. Lá, ele e seu parceiro Ben Tatum (Walter Brennan) pretendem vender o gado e passar a trabalhar com o ouro. Os problemas começam quando o xerife corrupto da cidade (John McIntire) rouba o gado e Webster e seus companheiros são forçados a lutar por seu rebanho, combatendo o mal e enfrentando perdas para as quais não estavam preparados.

O diretor Anthony Mann realizou em parceria com James Stewart, cinco das melhores obras que o gênero já ofereceu ao público (fora do gênero, a dupla faria mais três filmes). “Winchester 73” é a que considero a obra-prima desta parceria, com “O Preço de um Homem” (The Naked Spur) e “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) caminhando próximos. “Região do Ódio” apresenta o melhor trabalho de fotografia (William Daniels em seu melhor momento) e a interpretação mais ousada de Stewart (jogando contra sua persona estabelecida), porém revisto hoje após alguns anos, possui uma primeira hora arrastada e um desfecho insatisfatório. Claro que, um filme mediano de Mann ainda é superior aos vários similares que o gênero oferecia em sua época.

Flores do Pó (Blossoms in The Dust – 1941)
Esta cinebiografia conta a história de Edna Kahly (Greer Garson). Ela casa com o texano Sam Gladney (Walter Pidgeon), operador de um moinho de trigo. Eles têm um filho, que morre ainda muito jovem. Edna descobre, por acaso, como a lei trata de crianças sem pais e decide fazer algo a respeito. Ela abre um lar para crianças abandonadas e encontra para elas bons lares adotivos, apesar da oposição dos conservadores, que desprezam filhos ilegítimos por terem nascido fora do casamento. Enfrentando adversidades e dramas pessoais, Edna lidera uma luta na Assembléia Legislativa texana para remover o estigma da ilegitimidade dos registros de nascimento, tornando-se uma advogada em defesa das crianças enjeitadas.

Este talvez tenha sido a melhor surpresa que tive nos lançamentos deste mês. Eu me lembrava de tê-lo assistido quando pré-adolescente em alguma “Sessão da Tarde”, mas não recordava bem a trama. A crítica normalmente é cruel com este melodrama (mesmo tendo sido indicado ao prêmio principal no Oscar), então esperava alguma tragédia. Acabei assistindo duas vezes em sequência! Manipulativo? Com toda certeza. “Tearjerker”? Um dos mais eficientes. Como resistir ao charme da bela ruiva Greer Garson e sua química perfeita com Walter Pidgeon? Alívio cômico muito eficiente de Felix Bressart, como o médico amigo da família. A direção de Mervyn LeRoy (que no ano seguinte faria o excelente “Na Noite do Passado”), sensível e terna. Um roteiro que não se perde em cenas desnecessárias (mas não chega a ser episódico em excesso), cometendo o único pecado de ser objetivo. Assistam e se emocionem.

Decisão Antes do Amanhecer (Decision Before Dawn – 1951)
Durante a Segunda Guerra, os americanos decidem recrutar prisioneiros alemães para espionar e trazer informações sobre os nazistas. Entre eles está o capitão alemão Karl Maurer (Oskar Werner). Apesar do Cel. Devlin (Gary Merrill) não confiar nos alemães, ele acaba acreditando nas intenções de Maurer e o envia para realizar contraespionagem atrás das linhas inimigas. Junto com ele vai o oficial americano Rennick (Richard Basehart). Vários são os momentos em que a lealdade de Maurer é questionada, pois o trabalho de espião envolve muitas facetas. Somente um ato de bravura poderá finalmente dizer para qual lado ele realmente está trabalhando. 

O primeiro filme americano no pós-guerra, que corajosamente tratava o povo alemão com alguma simpatia. Dirigido pelo mesmo Anatole Litvak, que anos antes havia iniciado a guerra de propaganda contra Hitler (com “Confissões de um Espião Nazista”, de 1939), a obra entrega cenas de grande suspense, como quando o personagem vivido por Oskar Werner está prestes a ser reconhecido em seu disfarce. Como obra fora de seu contexto, não apresenta nenhum atrativo que eleve seu valor, podendo ser considerada contemplativa demais para o gosto do público moderno (inclusive os que apreciam o gênero). Aqueles que apreciam filmes de guerra que instiguem o intelecto irão querer tê-lo na coleção.