segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Lançamentos da "Classicline" (Abril / Maio de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers - 1940)
Mary Carter (Paulette Goddard) herda uma mansão em uma pequena ilha de Cuba e, apesar de sofrer ameaças, resolve tomar posse do local. Em companhia de Larry Lawrence (Bob Hope), uma personalidade do rádio, ela decide ir conhecer sua nova mansão assombrada, mas eles não fazem ideia do tamanho da confusão que estarão arrumando com os "fantasmas" do lugar.

Bob Hope era um embaixador da cultura americana. Entendia como poucos o funcionamento das engrenagens dos bastidores de Hollywood, além de genuinamente amar o mundo do entretenimento. Um intelectual que graças ao seu carisma e bom relacionamento com todos, transitava com liberdade pelos corredores dos estúdios. Em seus filmes, mandava indiretas cômicas para seus amigos, que ele sabia, estariam assistindo na estreia. Fazia graça com os gêneros, como nesta ótima brincadeira com os castelos mal-assombrados que emolduravam o horizonte enevoado dos clássicos de terror. O diretor George Marshall se responsabilizaria também pela inferior refilmagem, veículo para as trapalhadas de Jerry Lewis e Dean Martin, em "Morrendo de Medo" (Scared Stiff - 1953). A parceria de Hope com a bela (então em processo de divórcio com Charles Chaplin, após "O Grande Ditador") Paulette Goddard em "O Gato e o Canário" foi um sucesso de público, o que levou a Paramount a escalá-los novamente em um projeto similar. Existem várias cenas muito engraçadas em "O Castelo Sinistro", porém uma se destaca como a melhor tirada de sua carreira. Ele atenciosamente escuta a explicação dada pelo personagem de Richard Carlson, sobre o modus operandi dos zumbis: "Um zumbi não possui vontade própria. Você os vê caminhando sem rumo, com os olhos sem vida, seguindo ordens, sem saber o que estão fazendo, sem se importar..." No que Hope complementa: "Como os democratas?".

Bola de Fogo (Ball of Fire - 1941)
Gary Cooper é Bertram Potts, o mais jovem de oito professores que estão escrevendo uma enciclopédia. Eles encontram uma "fonte de pesquisa" perfeita na forma curvilínea da stripper Sugarpuss O'Shea (Barbara Stanwyck), que acaba se escondendo na casa dos professores para escapar de seu namorado gangster Joe Lilac (Dana Andrews). Sugar acaba se tornando muito amiga dos professores e os sentimentos entre ela e o Prof. Bertram crescem cada vez mais. Quando Joe aparece reivindicando um casamento com Sugar, para tentar escapar da prisão, os professores terão que largar os livros e tentar salvar a vida de sua querida beldade.  

Uma parceria entre Billy Wilder (roteiro, com Charles Brackett e Thomas Monroe) e Howard Hawks (direção) só poderia resultar em algo fantástico. A inspiração veio da "Branca de Neve" adaptada na animação da Disney. Os professores se portam como os anões, com direito a caricatos gestos e trejeitos, além de se posicionarem sempre juntos nas cenas. Já Gary Cooper exercita seu talento, brincando com a fragilidade de seu personagem, deixando a voluptuosidade de Barbara Stanwyck dominar cada frame. Interessante perceber como Gregg Toland, o gênio por trás da fotografia de "Cidadão Kane" e "A Longa Viagem de Volta", resolveu a bela cena em que apenas os olhos de Stanwyck se destacam no escuro em que sua personagem se esconde. Toland pintou o rosto dela de preto, num truque que ainda funciona. O humor continua intocado pelo tempo, fazendo de "Bola de Fogo" uma das melhores screwball comedies.

Tambores da Morte (Drums Across the River - 1954)
Crown City pode se tornar uma cidade fantasma, pois todo o seu ouro está localizado em terra indígena. Gary Brannon (Audie Murphy), um homem honesto que odeia índios, se junta a uma missão para tentar concessões de mineração, mas o líder do grupo, o ganancioso Frank Walker, planeja em segredo começar uma guerra contra os índios para tomar suas terras. Gary e seu sábio pai Sam têm agora nas mãos a manutenção da paz e terão de juntar forças com os índios para impedir os planos de Walker. 

Hoje injustamente esquecido, Audie Murphy foi um dos heróis de guerra mais condecorados e famosos da Segunda Guerra Mundial. Ele prezava tanto sua imagem como modelo de boas condutas, que recusava participar de comerciais de álcool e cigarro. Incentivado por James Cagney, estudou métodos de atuação. Durante vinte anos, teve sua respeitabilidade utilizada pela indústria de cinema, como o mocinho de obras de guerra e faroeste (a maioria). Ainda que não tenha participado de nenhuma obra-prima no gênero, "Tambores da Morte" (dirigido por Nathan Juran, que quatro anos depois viria a comandar "Simbad e a Princesa", clássico do saudoso Ray Harryhausen) é um dos mais divertidos (com a presença sempre carismática de Walter Brennan). Os dois vilões, vividos por Lyle Bettger e Hugh O´Brien, elevam a qualidade do roteiro, "mastigando" cada cena (como Steve McQueen sabia fazer muito bem) como se fosse a última. Murphy atua de forma correta, mas é eclipsado sempre que contracena com os dois. Vale destacar que a "Classicline" incluiu a ótima dublagem clássica da AIC, com Nelson Batista (Murphy), Garcia Neto (Lyle) e Gervásio Marques (Jay Silverheels).

Os 39 Degraus (The 39 Steps - 1935)
Richard Hannay (Robert Donat) é um canadense de férias na Inglaterra. Uma mulher desconhecida (Lucie Mannheim) pede sua ajuda, alegando ser uma espiã cuja vida corre perigo. Apesar de seus esforços, ela acaba assassinada, mas lhe entrega um mapa, murmura algo sobre os 39 degraus, e o pede que fuja. Depois de escapar de homens que o esperavam do lado de fora, Richard descobre que ele mesmo está sendo procurado pela polícia por assassinato, mas resolve seguir as pistas que a espiã lhe deixou para encontrar os verdadeiros assassinos e provar sua inocência.

Excelente lançamento desta obra-prima que não perdeu seu frescor, mantendo-se (como todos os bons filmes) intacta em seu fascínio e seu humor. Hitchcock foi o "Mestre do Suspense" (muito graças à admiração de Truffaut, que o idolatrava), mas eu gosto particularmente de seu incrível senso de humor. Já nos primeiros oito minutos, uma demonstração clara desta habilidade pouco exaltada do cineasta. O apresentador pede que a plateia pergunte qualquer dúvida para o gênio "Sr. Memória" que está se apresentando no palco, no que um senhor insiste em perguntá-lo sobre as causas de uma doença que dá no bico de aves domésticas. Como não recebe uma resposta, ele continua perguntando, mesmo nas horas mais estapafúrdias, como quando uma confusão se instala no ambiente. A forma como o diretor trabalhou a edição da cena, potencializa o aspecto cômico, continuando eficiente como no dia de sua estreia.
Vale perceber a interação entre Robert Donat e Madeleine Carroll, nas cenas em que estão conectados por uma algema. O diretor, famoso por aprontar brincadeiras maldosas nos bastidores, algemou os dois alguns minutos antes de se preparar para rodar a cena, mas mentiu dizendo que havia perdido a chave. O casal passou horas acreditando estarem presos de verdade, enquanto o diretor sorria satisfeito, pois estava colocando-os no clima certo para a posterior gravação da cena. Com pelo menos um memorável filme no currículo (o mudo "O Pensionista", de 1927), Hitchcock conseguiu com "Os 39 Degraus" o seu primeiro grande sucesso. Três anos depois ele faria o excelente "A Dama Oculta", ainda em sua terra natal, para depois ser abraçado pela América, com o sucesso de "Rebecca - A Mulher Inesquecível" (de 1940).

Bing Crosby e Jane Wyman:
A Sorte Bate à Porta (Here Comes the Groom - 1951)
Pete Garvey (Bing Crosby) é um jornalista que acaba de voltar da França com dois órfãos de guerra e deve se casar em cinco dias para conseguir finalizar a adoção. Ele persegue sua antiga paixão, Emmadel (Jane Wyman), mas descobre que ela cansou de esperar por seu antigo amor e está para se casar com o milionário Wilbur (Franchot Tone). Pete utiliza os dois órfãos e sua voz encantadora para recapturar o coração de Emmandel, mas será uma batalha árdua contra o charmoso milionário.
Filhos Esquecidos (Just For You - 1952)
Produtor de sucesso na Broadway, o viúvo Jordan Blake (Bing Crosby) não encontra tempo para os filhos adolescentes Jerry (Robert Arthur) e Barbara (Natalie Wood). Alertado pela noiva Carolina (Jane Wyman), uma bela atriz de comédias musicais, ele leva os jovens para passar uns dias de férias nas montanhas. Carolina vai junto, e antes que eles possam revelar tudo aos filhos de Jordan, ela se torna alvo da paixão de Jerry, que não sabe que ela e o pai estão comprometidos.

O lançamento desses dois filmes preenche uma lacuna para os fãs de Bing Crosby, pois o mostram em um de seus melhores momentos no cinema, em sua breve (porém marcante) parceria com Jane Wyman. A dupla brigava constantemente nas filmagens, como revelado pelo diretor Frank Capra em sua biografia, mas a química dos dois em cena era pura mágica cinematográfica. "A Sorte Bate à Porta" foi o primeiro projeto que os uniu, sob o comando de Capra (do excelente "A Felicidade não se Compra"). A canção "In the Cool, Cool, Cool of the Evening" (composta por Hoagy Carmichael e Johnny Mercer), que havia sido escrita anos antes, para ser utilizada em um filme de Betty Hutton (que nunca chegou a sair do papel), venceu o Oscar de Melhor Canção Original. Já no ano seguinte em "Filhos Esquecidos", ainda que com a dupla exalando o mesmo carisma e a execução de uma ótima canção ("Zing a Little Zong", composta por Harry Warren e Leo Robin), o roteiro trabalhado pelo diretor Elliot Nugent (seu último trabalho) era inferior e mais sacarina. Com um humor menos esperto, mas abrilhantado pela participação de uma jovem Natalie Wood (três anos antes de "Juventude Transviada"). 

Estigma da Crueldade (The Bravados - 1958)
Jim Douglas (Gregory Peck) chega à cidade às vésperas do enforcamento de quatro bandidos. Eles os tem perseguido, pois acredita que violentaram e mataram sua mulher. Mas horas antes da execução, os quatro conseguem escapar, levando uma bela moça como refém, para tentar atravessar a fronteira para o México. Enfurecido, Douglas persegue e aniquila um a um seus inimigos, até que finalmente se revele um segredo que o deixará mais desesperado por salvação do que por vingança.

O diretor Henry King realizou com esse ótimo faroeste, uma experiência no gênero, apostando em um viés psicológico. O personagem vivido por Gregory Peck está tão devotado à vingança, que nega seus princípios e se cega perante seu compasso moral. Stephen Boyd (um ano antes de viver "Messala" em "Ben-Hur") e Lee Van Cleef (que anos depois viraria sinônimo de "Spaghetti Western"), excelentes em cena, reforçam o elenco como dois dos quatro foras-da-lei. Emoldurado por uma bela trilha sonora de Alfred Newman e Hugo Friedhofer, que traduz melodicamente a determinação psicótica que move o protagonista, mas deixando claro em seus acordes que existe um herói honrado enterrado naquela montanha de amargura e ódio. O desfecho continua poderoso, surpreendente e corajoso.

Deus é Meu Juiz (The Rack - 1956)
Baseado numa peça de Rod Serling e realizado pelo diretor Arnold Laven, narra a história do Capitão Edward Hall (Paul Newman), que retorna aos EUA depois de dois anos em um campo de prisioneiros na Guerra da Coréia. No campo, ele foi torturado e sofreu lavagem cerebral para ajudar o inimigo. Quando ele retorna, é submetido à Corte Marcial acusado de ter colaborado com os coreanos. Mas até que ponto pode durar a lealdade de um soldado, quando ele está preso em meio ao inferno?

Um dos melhores trabalhos da fase inicial de Paul Newman, mas injustamente pouco reconhecido. Com excelente roteiro de Stewart Stern (de "Juventude Transviada", do ano anterior), merece constar ao lado de clássicos como "Os Melhores Anos de Nossas Vidas" (1946) e "Nascido em Quatro de Julho" (1989), como um dos mais eficientes projetos sobre o retorno dos soldados para casa, após enfrentarem os horrores de uma guerra, tendo que conviver com os tremendos abalos psicológicos. Newman utilizou uma experiência traumática de sua experiência na Segunda Guerra, quando testemunhou um amigo sendo retalhado pelas hélices de um avião, para canalizar a constante tensão exibida em sua interpretação (cheia de tiques nervosos). Uma raridade que a "Classicline" felizmente retira da obscuridade.

O Navio Condenado (The Wreck of the Mary Deare - 1959)
Em uma noite tempestuosa no Canal da Mancha, o ganancioso John Sands (Charlton Heston), o capitão de um pequeno navio de salvamento, quase se choca com o cargueiro Mary Deare, que aparentemente estava abandonado. Sands sobe a bordo do Mary Deare, esperando achar alguma carga, mas se depara com o perturbado oficial Gideon Patch (Gary Cooper), que há quatro dias assumira o comando do navio em razão da morte do capitão Taggart. 

O projeto estava encomendado para Alfred Hitchcock, que trabalhou no texto com o auxílio de Ernest Lehman, mas a ideia foi abortada quando o diretor começou a elaborar o conceito que viria a se tornar "Intriga Internacional". O elemento que mais impressiona no filme, que equilibra a aventura marítima com um drama de tribunal, é a vitalidade de Gary Cooper, que lutou contra as limitações de um câncer avançado (as filmagens precisavam ser interrompidas constantemente, para que ele inalasse oxigênio), realizando até mesmo as cenas mais perigosas. Charlton Heston, que havia acabado de filmar "Ben-Hur" (mas antes de ser premiado pelo filme), faz o papel de "advogado do diabo", porém é eclipsado em todas as cenas pela determinação de Cooper. Richard Harris, em um de seus primeiros trabalhos, já se destaca ao conseguir superar as limitações de seu personagem unidimensional. Vale destacar também a qualidade dos efeitos utilizados para a filmagem do naufrágio, surpreendentes até para os padrões atuais. 

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