segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Lançamentos da "Classicline" (Janeiro / Março de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

John e Mary (John and Mary - 1969)
O diretor inglês Peter Yates é normalmente lembrado pelo excelente "Bullit" (com Steve McQueen), mas o filme de sua carreira que mais revisito (e sempre com prazer renovado) é esta pequena gema: "John e Mary". Já li muitos críticos estrangeiros apontando erros, argumentando que os protagonistas não são desenvolvidos ou que a própria trama não se aprofunda na relação entre os dois. Então qual é a mágica que sobrepuja qualquer defeito que possa ser encontrado, tornando a experiência de rever Dustin Hoffman e Mia Farrow tão prazerosa? Quando um crítico analisa uma obra de arte como se estivesse resolvendo uma equação matemática, acaba racionalizando em excesso e perdendo a sensibilidade para os detalhes.
Os dois jovens se esbarram em um bar, completos estranhos que, sem imaginarem, carregam o mesmo medo, as mesmas preocupações. Ela busca conhecer alguém com quem possa passar uma noite, sem a preocupação de que o homem precise voltar para sua esposa antes do nascer do dia. Ele acabou de ser usado por uma modelo fútil, que se apoderou de seu apartamento por conveniência (não precisaria pegar mais táxi para o trabalho), o que o fez temer este tipo de aproximação, esta entrega emocional plena. Os nomes um do outro, desconhecem. Eles inicialmente buscam conhecer-se analisando discretamente seus pertences pessoais, sempre mantendo diálogos internos muito mais reveladores que os externos (algo resolvido de forma simples e eficiente no roteiro, similar ao que Woody Allen utilizaria anos depois em seu "Annie Hall"). Adoro o momento em que ela conta onde e com quem mora, mas assistimos a narração pelo ponto de vista dele (o humor é muito bem trabalhado). Fica clara a influência estética dos primeiros filmes europeus da Nouvelle Vague.

As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines - 1950)
Muitas versões cinematográficas desta clássica história de H. Rider Haggard (publicada em 1885) foram realizadas, todas se desviaram bastante do original (incluindo um interesse amoroso), mas esta dirigida por Compton Bennett (removido durante a produção, por problemas com o protagonista) e Andrew Marton, foi a que entregou um entretenimento de melhor qualidade (filmada em locação na África). Os jovens podem se lembrar do Allan Quatermain vivido por Richard Chamberlain na década de oitenta, mas revisitar aquela obra faz notarmos o quanto ela buscou emular o arqueólogo Indiana Jones, construindo um desequilibrado misto de aventura e humor, com pouca personalidade. Rever Stewart Granger impondo dignidade ao papel é testemunharmos uma das inspirações de George Lucas. A personagem de Deborah Kerr (sua interpretação foi clara inspiração para a Willie Scott de "O Templo da Perdição") busca encontrar seu marido na África selvagem, o que possibilita no primeiro ato um típico travelogue (Quatermain explica o conceito de caça e caçador na selva, mostrando didaticamente variados animais em ação predatória) e algumas soluções que adiam a evolução da trama (únicos elementos que ficaram datados). Quando todas as peças estão no tabuleiro(incluindo o africano Umbopa, personagem essencial, mas com importância reduzida), o ritmo engata e somos presenteados com uma das melhores aventuras da era de ouro do cinema americano.
Ajudando a compor o clima, a única trilha sonora que escutamos são os tambores e os cânticos nativos (o que, para a época, foi uma decisão inovadora). A fotografia premiada de Robert Surtees (que viria a participar também de "Ben-Hur" e "A Primeira Noite de Um Homem", entre tantos outros) se aproveita da imensidão e ajuda a criar momentos épicos, como a cena da debandada dos animais, que muitas produções tentaram imitar, mas nunca sequer igualaram.  

Thomas Edison - O Mago da Luz (Edison, The Man - 1940)
Indicada ao Oscar de Melhor Roteiro Original, esta obra conta, em flashbacks narrados pelo protagonista, a biografia do cientista Thomas Alva Edison (Spencer Tracy). A história se concentra nos anos mais produtivos de Edison: 1872 a 1882. Durante este período, ele inventou o fonógrafo, o ditafone e a luz elétrica. Gene Lockhart interpreta um banqueiro descrente nas invenções de Edison e Rita Johnson é a esposa amável e dedicada do cientista. O suspense se instala quando Edison topa o desafio de conseguir iluminar as ruas de Nova York em apenas seis meses. Mas será que ele conseguirá cumprir este prazo e manter seu contrato e a sua credibilidade com a comunidade? 

Como toda cinebiografia americana da época, esta não segue com extrema fidelidade a vida do homenageado. Mas as liberdades tomadas melhoram-no como produto (mérito do diretor Clarence Brown). O foco é colocado sobre a perseverança de Thomas Edison (excelente Spencer Tracy) em seu sonho, colocando-o em confronto direto com Taggart (Gene Lockhart), um banqueiro que vê na possibilidade de iluminação elétrica, uma desvalorização de seus investimentos em gás. Como todo incompetente, o homem busca complicar ainda mais a já bastante complicada vida de Edison. Ele só não contava com a incrível persistência dele. Realizado apenas nove anos após o falecimento de Edison, o filme reflete também a aproximação da Segunda Guerra Mundial (patriotismo e a preocupação com a destruição do homem pelo próprio homem). Algumas cenas, ainda que resolvidas de forma puramente clichê, funcionam maravilhosamente e emocionam, como quando Edison avisa seus colegas trabalhadores que não terá mais como os pagar pelo serviço.
*O DVD vem com um livreto ilustrado contando a vida do homenageado.

Epopeia do Jazz (Alexander´s Ragtime Band - 1938)
Roger Grant (Tyrone Power) é um músico que sempre lutou para ser um profissional. Sua família discorda da sua inesperada decisão de largar a música clássica e formar uma banda de "ragtime", ritmo considerado muito popular época. Quando toca pela primeira vez em um bar com seus amigos, Roger conhece Stella Kirby (Alice Faye), uma cantora que inclusive pretende arrumar um emprego no mesmo bar. Obviamente, os dois acabam discutindo pondo em questão quem vai conseguir o trabalho. O dono, vendo a discussão, resolve dar o emprego para Stella e para o grupo de Roger, forçando-os a se tornarem uma única banda. Mesmo de início insatisfeitos um com o outro, Stella e Roger aceitam a decisão. Com o tempo, o grupo vai se consolidando, aumentando e ganhando fama com as suas músicas.

Para fãs de Irving Berlin, este musical é essencial! De forma original, o roteiro traça um panorama histórico do jazz (desde a rebeldia do Ragtime até a aceitação do Swing como uma forma de arte, no final da década de trinta), utilizando como pano de fundo a trajetória de um jovem (vivido por Tyrone Power) que desafia a sociedade em que vive, perseguindo a expressão mais popular da música. Entre uma canção e outra (ao todo são vinte e oito, incluindo as excelentes: "Blue Skies", "Heat Wave" e "Alexander´s Ragtime Band"), somos apresentados a um triângulo amoroso. Stella (Alice Faye) desperta a paixão do compositor vivido por Don Ameche, causando idas e voltas (onde são incluídas passagens marcantes da história do jazz, como sua participação na Primeira Guerra Mundial e a importante apresentação de Benny Goodman e sua orquestra, no Carnegie Hall, em 1938) típicas dos romances da época. Uma excelente opção para fãs de boa música.
*Vale ressaltar uma bela homenagem que é feita no final (nas legendas) ao Maurílio Arrais, diretor da distribuidora "Classicline". Sempre é bacana ver empresas que amam verdadeiramente os produtos que disponibilizam no mercado.

Amar Foi Minha Ruína (Leave Her to Heaven - 1945)
Embora seja noiva de um político (Vincent Price), Ellen (Tierney) seduz o belo Richard (Cornel Wilde) e casa-se com ele após conhecê-lo há poucos dias. Mas Richard logo descobre com sua irmã (Jeanne Crain) e sua mãe (Mary Philips) que o egoísmo e o amor possessivo de Ellen arruinaram a vida de outras pessoas. Quando seu próprio irmão se afoga sob os cuidados de Ellen e ela perde o filho que esperava, a suspeita de Richard sobre a insaciável devoção de Ellen aumenta cada vez mais.

Nada mais propício que utilizar no título uma frase contida em "Hamlet", para uma obra cuja protagonista vive uma constante batalha interior. Ainda que a direção de John M. Stahl não tenha envelhecido muito bem (alguns problemas de ritmo, causando um segundo ato arrastado), a beleza hipnótica de Gene Tierney (que havia feito o excelente Noir "Laura", no ano anterior) e a complexidade que ela consegue inserir em sua caracterização, alternando entre a obsessão patológica e uma pureza infantil (ela foi indicada ao Oscar por esta interpretação), nos prende a atenção. O terceiro ato ganha pontos com a presença de Vincent Price, com sua verve teatral habitual (que acabaria "casando" perfeitamente em seus projetos no gênero terror). A fotografia de um colorido exuberante (de Leon Shamroy) conquistou um Oscar, mesmo contrastando com a história sombria que emoldura. Vale ressaltar também uma excelente (e subestimada) trilha sonora de Alfred Newman. A obra foi o maior sucesso financeiro dos estúdios Fox, na década de quarenta.

Brutalidade (Brute Force - 1947)
Baseado num artigo de jornal e com roteiro de Richard Brooks (A Sangue Frio), Brutalidade conta a história de um motim na prisão de Westgate. A ação é centrada na vida de seis homens que vivem na mesma cela. O líder do grupo é o gângster Joe Collins (Burt Lancaster). Eles se rebelam por causa das atitudes sádicas do Capitão Munsey (Hume Cronyn), o chefe da guarda da prisão. 

Excelente produção dirigida por Jules Dassin (em seu período pós-guerra, antes de comandar "Rififi"), que continua entretendo da mesma forma que em seu dia de estreia, funcionando como um eficiente suspense e um pioneiro "filme de prisão". A forma franca como a violência é exibida (especialmente em seu terceiro ato) chocou o público e a crítica da época, porém a mensagem que o roteiro transmite é mais profunda. A frase que fecha a obra: "ninguém realmente escapa", complementa as cenas que são mostradas em flashback, com a vida pregressa de cada prisioneiro da cela R17 (evidenciando as mulheres de suas vidas), deixando claro que não existe fuga para aqueles homens. Eles nunca serão os mesmos, nunca serão vistos pela sociedade como outrora. Esta crítica ao sistema carcerário, que não reabilita os prisioneiros na sociedade, torna-se o elemento que se mantém na memória dias após a sessão. Burt Lancaster impõe com sua rochosa presença física um tipo clássico, estereotipado, mas quem surpreende positivamente é Hume Cronyn (os mais jovens o reconhecerão como um dos velhinhos no clássico dos anos oitenta: "Cocoon"), vivendo um impiedoso chefe da segurança, que escuta Wagner (referência sutil à Hitler?) enquanto tortura um dos presos.

As Férias do Papai (Mr. Hobbs Takes a Vacation - 1962)
Quando o cansado banqueiro Roger Hobbs (James Stewart) sugere à sua esposa (Maureen O'Hara) que os dois façam uma viagem romântica, ela sugere que eles tirem férias com a sua grande família. Mal imaginavam eles que mais de 10 pessoas iriam aparecer para essas "férias" e que um turbilhão de confusões estaria prestes a começar. Entre ninguém nunca aceitar as sugestões de Hobbs, visitantes inesperados e pequenos conflitos, a família viverá experiências muito divertidas, únicas e acabará por ficar mais unida do que nunca.

Deliciosa comédia típica dos anos sessenta, com a bela Maureen O´Hara e James Stewart se divertindo fora de sua zona de conforto (em interpretação que o levou a receber o prêmio de "melhor ator" no Festival de Berlin). Com clara inspiração no trabalho de Jacques Tati (especialmente na cena em que Stewart confronta uma simples máquina e na sequência em que ele busca pássaros exóticos), o roteiro episódico abusa do humor físico e das inteligentes sacadas nos diálogos, incluindo também uma bela lição sobre união familiar (excelente a sequência em que pai e filho se aproximam em um passeio de barco). Engraçado perceber a crítica que é feita à ascensão da televisão (o que estava prejudicando a indústria de cinema), colocando-a como uma máquina maléfica (que só passa faroeste, uma possível piada interna com Stewart) que divide famílias. A presença do ídolo fabricado da época: Fabian, numa tentativa frustrada de emular o carisma de Elvis Presley, conduz para um desnecessário (ainda que breve) interlúdio musical. A trilha sonora de Henry Mancini emoldura com perfeição e habitual elegância, esta ótima produção. 

Fatalidade (A Double Life - 1947)
O famoso ator de teatro Anthony John (Ronald Colman) tem problemas com a sua vida privada devido às suas explosões imprevisíveis de humor. Essa característica já lhe custou sua esposa, Brita (Signe Hasso) e ameaça sabotar sua carreira. No entanto, Anthony faz as pazes com Brita e os dois passam a trabalhar em uma nova encenação de Othello na Broadway. A peça é um sucesso, agendando mais de 300 apresentações, mas a pressão de retratar um homem disposto a matar por ciúme domina Anthony completamente. Em seus acessos de raiva e delírio, seguidos por crises de amnésia, ele cometerá crimes inimagináveis e passará a ser uma ameaça à vida de todos ao seu redor, até mesmo de seu assessor Bill Friend (Edmond O'Brien). 

Com uma interpretação que lhe rendeu um Oscar e um Globo de Ouro, Ronald Colman vive um ator perturbado por sua própria arte. Auxiliado por um ótimo roteiro do casal Ruth Gordon (que viveria a adorável Maude de "Ensina-me a Viver") e Garson Kanin, o injustamente pouco lembrado astro inglês entrega sua melhor interpretação, deslizando com inteligência entre os três níveis psicológicos de seu personagem. Ele inicia galante e bem-humorado, exercitando sua própria persona artística (o título da peça: "gentleman´s gentleman", como ele era conhecido na época), depois ficamos conhecendo sua dedicação dramática, quando interpreta em "Othello", mas o ponto alto (do filme e de sua atuação) se encontra no terceiro ato, quando ele sofre um colapso mental e perde totalmente o controle de suas ações.
Além de um excelente monólogo sobre a função do ator, somos presenteados com a beleza de uma jovem Shelley Winters, em seu primeiro grande papel no cinema. A atriz estava extremamente nervosa por contracenar com Colman, fazendo com que o diretor George Cukor, durante as filmagens, pedisse ao seu experiente protagonista que a levasse para lanchar nos horários livres, para que ficassem amigos.

Sua Última Façanha (Lonely Are The Brave - 1962)
O caubói Jack Burns (Kirk Douglas) fica sabendo que seu amigo Paul Bondi foi preso por transportar imigrantes ilegais. Na tentativa de ajudar o amigo, Burns deliberadamente deixa-se prender para estar mais próximo de seu amigo. Frustrado por Bondi não querer acompanhá-lo na estrada, Burns, então, escapa da prisão, tornando-se um fugitivo. É quando o xerife Johnson (Walter Matthau) encontra sua trilha e passa a persegui-lo. Johnson, na verdade, é um desbravador frustrado que secretamente admira a vida livre de Burns.

Impecável obra roteirizada pelo sempre competente Dalton Trumbo, convocado por Kirk Douglas (com quem havia trabalhado em "Spartacus"), que se mostrou apaixonado ideologicamente pelo projeto (ele considerava este o seu melhor filme). Os jovens perceberão que o filme serviu de inspiração para o escritor David Morrel em seu: "First Blood" (e consequentemente, sua adaptação cinematográfica: "Rambo - Programado para Matar"). Já os fãs da série dos anos setenta: "O Incrível Hulk", poderão ver seu astro Bill Bixby em sua primeira participação no cinema, como o copiloto do helicóptero que caça Kirk Douglas na montanha.
Logo em sua cena inicial, o roteiro nos mostra a clássica figura (imortalizada pelo cinema) do cowboy, contrastando-a com a passagem de aviões pelo céu. Referência imagética que encontra "rima" conceitual na cena que finaliza a obra (não irei revelar), reforçando o que está em jogo: a velha sociedade contra a sociedade moderna, numa batalha onde a coexistência não parece ser possível. Douglas representa o elemento da natureza que se recusa a se adequar, forçando com que as leis naturais do "Zeitgeist" defendam-se sem piedade. Filme essencial na coleção de qualquer cinéfilo dedicado. 

A Ponte de Waterloo (Waterloo Bridge - 1940)
Em Londres, durante os bombardeios da Primeira Guerra, o oficial Roy e a bailarina Myra se conhecem na ponte de Waterloo e logo se apaixonam. Porém, Roy precisa partir para o front de batalha. Myra promete esperá-lo. Meses depois, ela recebe a notícia da morte de Roy. Desiludida e sem recursos, Myra toma uma decisão drástica. Mas será que o seu grande amor realmente morreu? 

Vivien Leigh, dentre todos os seus filmes, preferia este. Seu colega Robert Taylor também afirmava ser este o seu melhor trabalho. Não há como negar o encanto deste belo e trágico romance envolto pela guerra. Com a direção sempre plena em sensibilidade de Mervin LeRoy (que nos anos seguintes ainda entregaria mais duas pérolas: "Flores do Pó" e "Na Noite do Passado"), somos presenteados com um exemplo de como se contornar um tema polêmico com muita elegância. Imaginem o rebuliço (com a censura da época): colocar a protagonista de "E o Vento Levou" (havia sido seu filme anterior, o que causou extrema antecipação por parte do público) defendendo uma personagem que se entrega à prostituição. A forma encontrada para resolver o problema provou-se muito mais eficiente que qualquer exposição temática gratuita. A cena onde Leigh, desolada andando pela ponte, decide acatar o chamado de um estranho (o que seria seu primeiro "programa"), tem a câmera focada apenas no rosto da atriz, deixando transparecer sua resignação.  

Os Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers - 1978)
Matthew Bennell percebe que diversos de seus amigos comentam que pessoas próximas da família estão agindo de modo diferente. Porém, quando posteriormente questionados se eles próprios viram algo de diferente, negam tudo ou dão desculpas esfarrapadas. À medida que aumenta o número de invasores, eles se tornam menos cuidadosos, e Bennell, que nestas alturas já testemunhou uma tentativa de "substituição" percebe que ele e seus amigos precisam escapar ou serão vítimas do mesmo destino. Mas em quem ele pode confiar para ajudá-lo e quem já foi tomado pelos invasores?

Um dos melhores exemplos de como uma refilmagem pode ser superior ao filme original. O suspense é estabelecido com perfeição em seu primeiro ato, com destaque para uma breve cena (muitos nem se lembram dela após a sessão) onde um padre (Robert Duvall) é visto se balançando junto às crianças em um parque, direcionando um olhar sombrio para a câmera. Você percebe que existe algo de muito esquisito ocorrendo naquele lugar. O terceiro ato é aterrorizante, não dando tempo para o espectador respirar. Foi o primeiro trabalho valoroso de Philip Kaufman na direção (anos depois ele criaria, com George Lucas, o roteiro de "Os Caçadores da Arca Perdida"). Todos os elementos funcionam, da sutil crítica social aos efeitos visuais (inclusive o alívio cômico interpretado por Jeff Goldblum). Os créditos finais são apresentados em tenebroso silêncio (aspecto que funcionou com a proposta, mas não foi algo pensado), complemento perfeito para os momentos que o antecedem (óbvio que não revelarei). Don Siegel, o diretor do filme original, faz uma ponta como o motorista de táxi que conduz os personagens de Donald Sutherland e Brooke Adams. Outro detalhe interessante e que evidencia a inteligência criativa de Leonard Nimoy, a meia-luva que utiliza em apenas uma mão, foi decisão do próprio ator, buscando torná-lo mais enigmático (qual a razão do uso dela?).

A Máquina do Tempo (The Time Machine - 1960) 
Baseado no clássico centenário de H. G. Wells, "A Máquina do Tempo" conta a história de George (Rod Taylor), um cientista que, cansado da ignorância de seu tempo, decide construir uma máquina do tempo para conhecer o futuro. Apesar de desacreditado por seus colegas, ele consegue realizar a viagem, mas o futuro não é nada do que ele esperava. A humanidade retrocedeu em termos de progresso, civilização e sociedade e está dividida em duas raças: na superfície estão os dóceis "Eloi" e nos subterrâneos os deformados e violentos "Morlock". 

Excelente adaptação do clássico literário de H.G. Wells, dirigido por George Pal, experiente ao lidar com a matéria-prima criativa do escritor, já que havia sido responsável pela adaptação de: "Guerra dos Mundos" (em 1953). Rod Taylor (que depois protagonizaria "Os Pássaros", de Hitchcock) vive o idealista cientista, que descobre no futuro uma sociedade passiva, que não vê valor na cultura, dessensibilizada, incapaz de se defender (uma visão profética do escritor, pois ao que tudo indica, nós estamos caminhando para esta triste realidade). Além dos efeitos de passagem de tempo ("time-lapse", que garantiu um prêmio no Oscar), considero a questão proposta no final (não irei revelar) o ponto alto da obra. O mistério (qual seria a sua decisão?), algo tão pouco utilizado nos roteiros atuais (que "mastigam" ao máximo para o espectador), eleva o que seria apenas uma divertida aventura ao status de obra-prima em seu gênero. Wells teria ficado orgulhoso, com certeza!

Nenhum comentário:

Postar um comentário