segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Lançamentos da "Classicline" (Junho / Julho de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

Natal em Julho (Christmas in July - 1940)
Jimmy (Dick Powell) é um jovem sério e pobre, que trabalha como balconista de contabilidade. Ele é um sonhador que acredita que um dia será rico, e por isso resolve participar de um concurso, pensando em usar o dinheiro para comprar os pequenos luxos para sua mãe, e para casar com sua namorada e colega de trabalho, Betty (Ellen Drew). Três amigos de trabalho decidem fazer uma brincadeira com Jimmy, enviando-lhe um telegrama dizendo que ele ganhou o concurso.

Quando se fala na obra do diretor Preston Sturges, logo se lembram de "Contrastes Humanos", "Mulher de Verdade" ou "As Três Noites de Eva", mas normalmente se esquecem desta joia de bela singeleza. O segundo filme em sua carreira, baseado em sua peça "A Cup of Coffee", de 1931. São apenas 67 minutos, mas o efeito de sua mensagem dura por dias na mente de quem assiste. Na ideia por trás do desejo de riqueza material que o protagonista busca, reside uma crítica ao condicionamento humano de valorizar pessoas por puro interesse. O pobre homem com uma ótima ideia não é sequer notado, enquanto caminha entre medíocres pensadores ricos. No momento em que o patrão descobre que o pobretão ganhou o prêmio, até mesmo a respiração dele se torna preciosa. Ele ganha um escritório só seu e um lugar cativo nas reuniões dos executivos da empresa, mas isso não lhe importava tanto quanto oferecer uma vida melhor para seus familiares e vizinhos.
"Natal em Julho" oferece uma visão realista do período da Grande Depressão, com o otimismo de um Frank Capra, reforçando os valores e virtudes do ser humano, mas com a esperteza única de Sturges, que evita a sacarina excessiva. Excelente título na coleção de todo cinéfilo que se preza.

A Fuga de Tarzan (Tarzan Escapes - 1936)
Parentes de Jane (Maureen O'Sullivan) retornam à África e tentam induzi-la a voltar para a civilização. Tarzan (Johnny Weissmuller) salva o grupo de selvagens que estavam tentando matá-los, mas é perseguido e capturado por um caçador inglês que quer exibi-lo na Europa como uma atração da África selvagem. 

O terceiro filme estrelado por Johnny Weissmuller evolui a fórmula vencedora de "Tarzan e sua Companheira", entregando uma produção mais refinada (maior orçamento) e com ritmo dinâmico. Méritos do diretor Richard Thorpe (que faria "Ivanhoé, O Vingador do Rei", além de outros filmes na franquia) e da ótima fotografia de Leonard Smith, que manteve o padrão conquistado no projeto anterior, por Charles G. Clarke (que faria "De Ilusão Também se Vive" e o musical "Carrossel"). Apostando na química do casal, o roteiro foca na convivência exótica de Tarzan e Jane (excelente a cena onde ela tenta explicar a ele que está partindo), com muito humor nos diálogos. O alívio cômico aparece na forma do bobalhão Rawlins (Herbert Mundin), que caberia em qualquer animação infantil.
Diferente do filme anterior, onde a sensualidade era um elemento generosamente utilizado, neste projeto vemos uma Jane mais comportada, graças à censura do Código Hays. Ainda que a ideia original tenha sido reformulada às pressas, com severos cortes (cenas consideradas de violência excessiva), o produto final é muito divertido. 

O Meu Amado (Rose of Washington Square - 1939)
Alice Faye interpreta Rose Sargent, uma cantora de NY da década de 1920 que se apaixona pelo bonito e arrogante malandro Bart Clinton (Tyrone Power). O novo romance de Rose é demais para o desespero de seu amigo e antigo parceiro Ted Cotter (Al Jolson), que não confia no escorregadio Bart.

O projeto foi uma sensata resposta ao sucesso de "Epopeia do Jazz" (lançado no ano anterior), apostando na simpatia do casal Alice Faye e Tyrone Power. Mas o real valor da obra foi documentar com qualidade o trabalho de Al Jolson, um nome injustamente ignorado pelos jovens de hoje. Tendo entrado para a história da Arte ao protagonizar o primeiro filme falado ("O Cantor de Jazz", em 1927), ele teve em "O Meu Amado" a chance de imortalizar com melhor qualidade de som e imagem, suas interpretações consagradas: "My Mammy", "California, Here I Come" e "Rock-a-Bye Your Baby with a Dixie Melody". Somente por esse motivo, já seria obrigação de todo cinéfilo dedicado ter este filme em sua coleção pessoal.

O Malabarista (The Juggler - 1953)
Hans Muller (Kirk Douglas), um judeu alemão, era um malabarista conhecido antes de ser enviado a um campo de concentração. Ele sobrevive, mas sua esposa e filhos, não. Após a guerra, Muller vai para um acampamento temporário em Israel, pois suas experiências o deixaram perturbado e confuso, mas ele acaba fugindo.

Kirk Douglas executa aqui o melhor trabalho de sua carreira, infelizmente em um filme que poucos conhecem. Um drama minimalista com enfoque psicológico, abordando corajosamente (ainda mais para a época) as perturbações que acompanhavam as vítimas da guerra em seu lento retorno à sociedade. Percebam a intensidade de emoções que ele deixa transparecer em seus olhos e sua competência nas cenas em que atua como palhaço e titereiro. Foi o primeiro filme americano a ser rodado em Israel, mas acerta ao manter-se centrado no drama do protagonista, ao invés de (como era usual) transformar-se em um "cartão postal" de suas locações. Uma produção dirigida pelo competente Edward Dmytryk, com o padrão de excelência e consciência social de Stanley Kramer. Um tesouro resgatado pela "Classicline".

A Semente Maldita (The Bad Seed - 1956)
Christine (Nancy Kelly) é uma boa mulher - gentil, honesta, trabalhadora e muito feliz. Ela é casada com um comandante da marinha, com quem tem uma filha chamada Rhoda (Patty McCormack). Como toda mãe, Cristine faz de tudo pela garota, até que um dia descobre que o seu 'anjinho' esconde uma personalidade extremamente maligna. 

O excelente diretor Mervyn LeRoy (de pérolas como "Alma no Lodo", "A Ponte de Waterloo", "Na Noite do Passado", "Flores do Pó" e o épico "Quo Vadis") saiu de sua zona de conforto ao comandar "A Semente Maldita", um suspense/terror ousado em que o elemento maligno era uma criança. "Os Inocentes" (em 1961) já havia sido lançado com temática similar (mas não de forma explícita), mas LeRoy catapultou a personagem Rhoda (Patty McCormack) para a galeria de "monstros infantis" do cinema, ao lado de Damien (o pequeno anticristo de "A Profecia"). A escolha do roteiro em expor todos os personagens como sendo psicologicamente falhos (com exceção de Reginald, o criminologista), e não somente a menina, conduz o debate para além dos estereótipos. O filme continua inspirando obras como "Cidade dos Amaldiçoados", "O Anjo Malvado" e o recente "A Órfã".

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