segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Lançamentos da "Classicline" (Novembro / Dezembro de 2012)

*Resgatando textos antigos. para aqueles que não me acompanhavam na época*

Um Conto de Natal (A Christmas Carol – 1938)
Ebenezer Scrooge é um homem avarento que não gosta do Natal. Ele é dono de um escritório em Londres onde trabalha com Bob Cratchit, seu pobre, mas feliz empregado. Bob é pai de quatro filhos e tem um carinho especial pelo frágil Pequeno Tim, que tem problemas nas pernas. Numa véspera de Natal, Scrooge recebe a visita de seu ex-sócio Jacob Marley, morto havia sete anos naquele mesmo dia. Marley explica que seu espírito não pode ter paz, já que não foi bom nem generoso em vida, mas que Scrooge tem uma chance. Para isso ele receberia a visita de três espíritos, para que transformasse o seu jeito de agir com as pessoas e, finalmente, pudesse ser feliz de verdade. 

Várias versões deste eterno clássico de Charles Dickens já foram filmadas, mas esta continua sendo minha favorita (sendo seguida pela versão de 1950, com Alastair Sim), talvez por ser a que é conduzida de forma mais simples, com uma duração que não chega aos setenta minutos. Inicialmente a MGM cogitava a presença de Lionel Barrymore, mas devido a problemas de saúde ele foi obrigado a se retirar, não sem antes indicar para o papel de “Scrooge”, seu amigo Reginald Owen.
Vários elementos mais sombrios do livro foram omitidos (outros expandidos, como o romance entre Fred e Elizabeth), porém sua essência está intacta. Um dos grandes acertos na direção de Edwin L. Marin, foi substituir o bizarro “Fantasma dos Natais Passados” literário, por uma bela jovem (Ann Rutherford). Outro acerto foi utilizar em cena a química natural de uma família real, composta por Gene Lockhart, sua esposa Kathleen Lockhart e sua filha June Lockhart (que viria a protagonizar a série “Perdidos no Espaço”, quase quarenta anos depois), fazendo-nos simpatizar ainda mais pela ternura do personagem Bob Cratchit (Gene), interessado apenas em realizar uma bela ceia de Natal com sua família, sem deixar transparecer a eles que seus sonhos haviam sido destruídos. Um filme para ver e rever, não somente em época de final de ano.

Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent – 1940)
Este clássico da espionagem conta a história de Johnny Jones (Joel McCrea), um correspondente de um jornal de Nova York que vai à Europa com um nome falso, para cobrir aquilo que seria um inevitável começo da Segunda Guerra Mundial. Durante um turno de trabalho, presencia a morte do diplomata holandês Van Meer (Albert Bassermann). Tudo se complica quando ele descobre que quem morreu na verdade não foi o diplomata, e sim um sósia, e que na verdade ele fora sequestrado por agentes que desejam um segredo seu. 

O filme que Joseph Goebbels (ministro da propaganda nazista) considerou: “uma obra-prima da propaganda”, normalmente esquecido pelos jovens fãs que Hitchcock acumulou ao longo das últimas décadas, mas que se mantém firme e resiste ao teste do tempo (mesmo sendo claramente um produto de seu tempo). Após um início esquisito na América (mesmo considerando o sucesso de “Rebecca”, inegável perceber que muito pouco do diretor está presente na obra), onde parecia que o inglês aceitaria as imposições do estúdio americano e acabaria perdendo sua identidade, este segundo esforço provou-se um teste de resistência para o realizador. O produtor Walter Wanger insistia em reescrever o roteiro, enquanto as filmagens estavam sendo realizadas. Algo inconcebível para Hitchcock, que respeitava demais seu próprio talento e não aceitaria ser um reles peão na indústria. Com pelo menos duas sequências que coloco entre as melhores da filmografia do cineasta (o assassinato na chuva e o bombardeio de um avião), esta obra merece estar na cinemateca pessoal de qualquer cinéfilo criterioso.

Andrea Cheniér (1985)
Inspirada na vida do poeta francês André Marie Chénier, que, vítima de uma conspiração, foi condenado à morte pelo Tribunal Revolucionário durante a Revolução Francesa, esta ópera é considerada o maior sucesso de Umberto Giordano. Esta versão ganhou ainda mais vitalidade com a condução de Riccardo Chailly. O personagem central, Andrea Chenier, é interpretado pelo famoso tenor José Carreras. Esta elogiada apresentação de 1985, no teatro La Scala, em Milão, foi registrada e preservada para futuras gerações.

Espero que a “Classicline” continue lançando as grandes óperas (“La Traviata” de Zeffirelli, seria fantástico), pois não somente existe um público ávido por estes produtos, como podem atingir uma nova geração ainda não tocada pela beleza destes espetáculos. Além da bela ária entoada no primeiro ato por José Carreras: “Un Di All'azzurro Spazio” (seguida por minutos de fervorosos aplausos em cena aberta), um momento que particularmente considero primoroso é quando a mãe de Maddalena (a soprano Eva Marton) se refere ao seu serviçal Gérard (o barítono Piero Cappuccille), que foi contaminado pelo fogo da revolução, com as seguintes palavras: “seu apreço pela leitura o arruinou”. Mesmo tendo outras versões maravilhosas (uma em especial, com Plácido Domingo, me encanta), esta apresentação no teatro La Scala ainda é minha versão favorita para “Andrea Cheniér”, de Giordano.

A Grande Mentira (The Great Lie – 1941)
Maggie Patterson (Bette Davis) é apaixonada pelo aviador Pete Van Allen (George Brent). A pianista Sandra (Mary Astor) também está envolvida com Pete e eles resolvem fugir para casar em segredo. Quando descobrem que seu casamento não é válido, porque o divórcio de Sandra com seu primeiro marido ainda não tinha saído, eles se separam e Pete acaba se casando com Maggie. Durante uma missão, Pete sofre um acidente e é dado como morto. Ao mesmo tempo, Sandra descobre que está grávida e, com medo de arruinar sua carreira, ela decide deixar Maggie adotar o seu bebê. Porém, Pete está vivo e sua volta mudará a vida dessas duas mulheres para sempre. 

Um melodrama correto, porém que desperdiça Bette Davis em um papel convencional, que qualquer jovem atriz poderia ter feito. Mary Astor (que recebeu um Oscar como Coadjuvante) é quem se favorece com o roteiro, pois suas cenas fogem dos diálogos típicos de novela mexicana. As duas atrizes chegaram a trabalhar modificando alguns diálogos, pois perceberam a má qualidade do material. Um incidente durante as filmagens trouxe problemas judiciais para o estúdio, pois um bebê ficou muito ferido após sofrer uma queda das mãos de uma jovem e precisou ser substituído. A simpática presença de Hattie McDaniel (a Mammy de “E o Vento Levou”), que havia acabado de fazer história como a primeira negra a receber um Oscar, pode ser considerada o ponto alto do filme, mesmo interpretando basicamente uma cópia de sua personagem no já citado épico. A direção de Edmund Goulding é refinada, porém se comparada com o estilo corajoso que utilizou em “Grande Hotel” (1932), parece um tanto quanto antiquada (em alguns momentos, parece um filme do início da década de trinta).

A Estranha Passageira (Now, Voyager – 1942)
Adaptado do livro de Olive Higgins Prouty, “A Estranha Passageira” conta a história de Charlotte Vale (Bette Davis), uma mulher tímida devido à sua repreensiva mãe, Mrs. Vale (Gladys Cooper). Emocionalmente perturbada, ela é ajudada por um psiquiatra, Dr. Jaquith (Claude Rains), que a incentiva a fazer mudanças radicais em sua vida. Visivelmente melhor de seus distúrbios, ela resolve viajar ao Rio de Janeiro como parte do processo de terapia e acaba conhecendo e se apaixonando pelo galante Jerry Durrance (Paul Henreid), com quem mantém uma relação complicada cheia de encontros e desencontros. 

Um dos cinco melhores trabalhos de Bette Davis (seu maior sucesso comercial) e com certeza um dos melhores romances da década de quarenta. Um dos aspectos mais curiosos é que durante o segundo ato ele se passa no Brasil, garantindo belas imagens do “Pão de Açúcar” e do “Corcovado”, mas também um alívio cômico pra lá de duvidoso, um atrapalhado taxista brasileiro (“mezzo-italiano/mezzo-portunhol”) de nome “Giuseppe”, que pode entrar na seleta lista de representações de tipos mais ofensivos, junto com o asiático vivido por Mickey Rooney em “Bonequinha de Luxo”. O tema que a obra aborda é muito interessante: a influência de uma mãe superprotetora em uma filha submissa. Davis consegue com grande sutileza passear entre a timidez excessiva, o desejo por liberdade ainda com culpas e a resignação redentora (ao final). Um filme essencial!

Minha Esposa Favorita (My Favorite Wife – 1940)
Ellen Arden (Irene Dunne) retorna à sua cidade sete anos depois de ter sido dada como morta em um naufrágio, mas encontra seu marido, Nick (Cary Grant), recém-casado com Bianca (Gail Patrick). Nick tenta desajeitadamente contar a notícia para sua nova esposa, mas antes que ele possa fazer isso, tem uma surpresa desagradável: a notícia de que Ellen passou os sete anos em uma ilha deserta com o companheiro e sobrevivente Burkett (Randolph Scott). Enquanto o ciumento marido tenta descobrir a verdade, diversas situações hilariantes acontecem até que ele consiga escolher a sua esposa favorita. 

Uma das “Screwball Comedies” mais famosas, esta parceria entre Cary Grant e Irene Dunne continua eficiente após setenta e dois anos. Um detalhe curioso é perceber que Grant e Randolph Scott ostentam sutilmente a mesma aliança (no dedo mínimo da mão esquerda), provavelmente alguma mensagem cifrada entre ambos, que mantinham um caso tórrido na vida real. Algumas cenas sempre são lembradas, como a hilária reação de Grant no elevador ao perceber a presença de sua esposa no saguão do hotel. O terceiro ato perde um pouco o ritmo, parecendo querer resolver tudo de forma apressada, mas o humor retorna na cena final (que não irei contar). Não chega ao brilhantismo de outras obras de Grant no gênero, como: “Levada da Breca” e “Jejum de Amor”, mas seus acertos compensam os erros.

Região do Ódio (The Far Country – 1954)
Em 1896, Jeff Webster (James Stewart) vê o início da corrida do ouro de Klondike como uma oportunidade para conseguir uma fortuna no ramo do gado. Ele leva um rebanho de gado do Wyoming para a cidade de Skagway. Lá, ele e seu parceiro Ben Tatum (Walter Brennan) pretendem vender o gado e passar a trabalhar com o ouro. Os problemas começam quando o xerife corrupto da cidade (John McIntire) rouba o gado e Webster e seus companheiros são forçados a lutar por seu rebanho, combatendo o mal e enfrentando perdas para as quais não estavam preparados.

O diretor Anthony Mann realizou em parceria com James Stewart, cinco das melhores obras que o gênero já ofereceu ao público (fora do gênero, a dupla faria mais três filmes). “Winchester 73” é a que considero a obra-prima desta parceria, com “O Preço de um Homem” (The Naked Spur) e “Um Certo Capitão Lockhart” (The Man from Laramie) caminhando próximos. “Região do Ódio” apresenta o melhor trabalho de fotografia (William Daniels em seu melhor momento) e a interpretação mais ousada de Stewart (jogando contra sua persona estabelecida), porém revisto hoje após alguns anos, possui uma primeira hora arrastada e um desfecho insatisfatório. Claro que, um filme mediano de Mann ainda é superior aos vários similares que o gênero oferecia em sua época.

Flores do Pó (Blossoms in The Dust – 1941)
Esta cinebiografia conta a história de Edna Kahly (Greer Garson). Ela casa com o texano Sam Gladney (Walter Pidgeon), operador de um moinho de trigo. Eles têm um filho, que morre ainda muito jovem. Edna descobre, por acaso, como a lei trata de crianças sem pais e decide fazer algo a respeito. Ela abre um lar para crianças abandonadas e encontra para elas bons lares adotivos, apesar da oposição dos conservadores, que desprezam filhos ilegítimos por terem nascido fora do casamento. Enfrentando adversidades e dramas pessoais, Edna lidera uma luta na Assembléia Legislativa texana para remover o estigma da ilegitimidade dos registros de nascimento, tornando-se uma advogada em defesa das crianças enjeitadas.

Este talvez tenha sido a melhor surpresa que tive nos lançamentos deste mês. Eu me lembrava de tê-lo assistido quando pré-adolescente em alguma “Sessão da Tarde”, mas não recordava bem a trama. A crítica normalmente é cruel com este melodrama (mesmo tendo sido indicado ao prêmio principal no Oscar), então esperava alguma tragédia. Acabei assistindo duas vezes em sequência! Manipulativo? Com toda certeza. “Tearjerker”? Um dos mais eficientes. Como resistir ao charme da bela ruiva Greer Garson e sua química perfeita com Walter Pidgeon? Alívio cômico muito eficiente de Felix Bressart, como o médico amigo da família. A direção de Mervyn LeRoy (que no ano seguinte faria o excelente “Na Noite do Passado”), sensível e terna. Um roteiro que não se perde em cenas desnecessárias (mas não chega a ser episódico em excesso), cometendo o único pecado de ser objetivo. Assistam e se emocionem.

Decisão Antes do Amanhecer (Decision Before Dawn – 1951)
Durante a Segunda Guerra, os americanos decidem recrutar prisioneiros alemães para espionar e trazer informações sobre os nazistas. Entre eles está o capitão alemão Karl Maurer (Oskar Werner). Apesar do Cel. Devlin (Gary Merrill) não confiar nos alemães, ele acaba acreditando nas intenções de Maurer e o envia para realizar contraespionagem atrás das linhas inimigas. Junto com ele vai o oficial americano Rennick (Richard Basehart). Vários são os momentos em que a lealdade de Maurer é questionada, pois o trabalho de espião envolve muitas facetas. Somente um ato de bravura poderá finalmente dizer para qual lado ele realmente está trabalhando. 

O primeiro filme americano no pós-guerra, que corajosamente tratava o povo alemão com alguma simpatia. Dirigido pelo mesmo Anatole Litvak, que anos antes havia iniciado a guerra de propaganda contra Hitler (com “Confissões de um Espião Nazista”, de 1939), a obra entrega cenas de grande suspense, como quando o personagem vivido por Oskar Werner está prestes a ser reconhecido em seu disfarce. Como obra fora de seu contexto, não apresenta nenhum atrativo que eleve seu valor, podendo ser considerada contemplativa demais para o gosto do público moderno (inclusive os que apreciam o gênero). Aqueles que apreciam filmes de guerra que instiguem o intelecto irão querer tê-lo na coleção.

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