segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Lançamentos da "CultClassic" (Junho / Julho de 2013)

*Resgatando textos antigos, para aqueles que não me acompanhavam na época*

Carrossel da Esperança (Jour De Fête - 1949)
Uma vez por ano, uma feira traz atrações para um pequeno vilarejo no centro da França, como um cinema ambulante e músicas, transformando a rotina e a vida dos moradores do lugar.

Excelente oportunidade de assistir um gênio em seu primeiro trabalho, experimentando com seu estilo autoral, alcançando diversos pontos onde, mesmo passados mais de 50 anos (com um humor puramente visual), diverte sem o menor esforço. São várias cenas que poderia destacar, como todas em que o carteiro (vivido por Jacques Tati), buscando emular a competência dos carteiros americanos (ótima crítica), corre com sua bicicleta para entregar as correspondências das formas mais estapafúrdias. Quando ele adentra a casa de um homem, elogiando-o por sua animação, sem saber que o mesmo estava velando um cadáver (excelente trabalho de câmera), não tem como segurar a gargalhada. São cenas simples, mas engenhosamente elaboradas, onde cada elemento de cena existe por um propósito. O filme foi originalmente filmado com duas câmeras, uma em preto e branco (caso algo desse errado), outra em cores (que era a prioridade do diretor). Com a falência da Thomson-color, antes do término da pós-produção, Tati foi obrigado a lançar seu projeto em preto e branco. O DVD da "Cult Classic" apresenta o filme em duas versões, apresentando a obra restaurada em cores, como o diretor sonhava. Um testamento da Arte Cinematográfica, que merece constar na coleção de qualquer cinéfilo devotado.

A Mulher do Rio (La Donna Del Fiume - 1954)
Quando a camponesa Nives (Sophia Loren) é abandonada pelo traficante Gino Lodi, ela o denuncia à polícia. O policial Enzo Cinti (Gérard Oury), que ama Nives, segue-a ao rio Po, onde ela está trabalhando, e oferece apoio a ela e ao filho, avisando-a que Gino (Rik Battaglia) escapou da prisão e está em busca de vingança.

Na época do lançamento deste filme, Sophia Loren ainda não era internacionalmente reconhecida (algo que viria somente com o prêmio recebido por sua atuação em "Duas Mulheres", de 1960), mas já encantava os italianos. Sua parceria com o produtor Carlo Ponti estava começando (viriam a se casar em 1957), mas com grande senso de mercado, ele já a comercializava no pôster como uma "sensação anatomicamente bombástica". E realmente, Loren está no auge de sua beleza, exalando sensualidade em cenas de dança trabalhadas pela câmera com o mesmo sentido de "mitificação" que ocorreria anos depois na relação profissional entre Brigitte Bardot e Roger Vadim. Com "A Mulher do Rio", um melodrama que explorava os percalços do povo carente de uma cidade no norte da Itália, Ponti buscava fazer por Loren, o que seu colega Dino De Laurentiis fez por Silvana Mangano em "Arroz Amargo". Vale ressaltar que este foi o primeiro trabalho de Pier Paolo Pasolini, que assina o roteiro (ele viria a dirigir seu primeiro filme "Accattone - Desajuste Social", sete anos depois).

O Condenado de Altona (I Sequestrati di Altona - 1962)
O industrial Albrecht Von Gerlach descobre que está perto da morte e nomeia o seu filho Werner (Robert Wagner) como seu sucessor, Johanna (Sophia Loren), sua esposa e atriz envolvida em uma obra de Brecht contra o nazismo, descobre os segredos da família. O filho mais velho Franz (Maximilian Schell), nazista criminoso dado como morto, na verdade ele se esconde no sótão há 16 anos cuidado por sua irmã. 

Pérola injustamente pouco conhecida, inclusive entre os fãs de Vittorio De Sica (ainda que ele tenha recebido por ele, o prêmio "David di Donatello", como Melhor Diretor), que merece ser redescoberta agora em DVD. Adaptado da penúltima peça de Jean-Paul Sartre (com bastante fidelidade, excetuando-se a opção de incluir cenas externas, fora do confinamento), única em que ele aborda diretamente o nazismo, em uma crítica inteligente e ousada. Sophia Loren, Fredric March e Maximilian Schell, atuam corajosamente em papéis que fugiam completamente do que o público estava acostumado, garantindo um clima ainda mais soturno ao projeto. Faz recordar (no tom e na complexidade) os trabalhos do escritor polonês Günther Grass (dentre eles, o mais famoso: "O Tambor"). A ideia por trás de um jovem nazista que é mantido, anos depois do final da guerra, prisioneiro em um sótão por seu pai (sem qualquer comunicação com o mundo exterior), para que ele não perceba a realidade, causa arrepios só de pensar. O excelente desfecho (que obviamente não revelarei) contém uma das imagens mais fortes do cinema de sua década. Imprescindível!

O Capanga de Hitler (Hitler´s Madman - 1943)
O filme conta a história do assassinato de Reinhard Heydrich, comandante nazista, por rebeldes tchecos. Depois, houve a represália ao povo da Tchecoslováquia pelos nazistas, dizimando a cidade de Lídice.

Feito praticamente ao mesmo tempo e utilizando o mesmo tema que "Os Carrascos Também Morrem" (de Fritz Lang, que será lançado mês que vem, pela "Cult Classic"), neste filme testemunhamos o primeiro trabalho de Douglas Sirk no cinema americano. Trata-se de mais uma eficiente peça de propaganda, porém com mais refinamento que a maioria que era produzida a toque de caixa no período. O desfecho, onde o povo da cidade dizimada pelos nazistas clama diretamente ao público por um revide ideológico, ressalta a importância histórica da obra (ainda que seja um elemento que a deixe bastante datada). Como ponto alto, a excelente atuação de John Carradine, como Reinhard Heydrich, organizador da Conferência de Wannsee (em 1941), que resultou na aprovação da monstruosa "solução final para os judeus": o holocausto. 

A Frota de Prata (The Silver Fleet - 1943)
Jaap Van Leyden está a cargo de um estaleiro na Holanda. No começo, ele colabora com os alemães porque é o melhor caminho a seguir. Mas depois cumpre missão para libertação da Europa. Ambientado durante a ocupação da Holanda na Segunda Guerra Mundial, Ralph Richardson, em um papel muito carismático, estrela como o proprietário de um estaleiro holandês que pretende colaborar com os nazistas, a fim de proteger sua esposa e colegas de trabalho. Inspirado pela memória do herói histórico holandês Piet Hein, ele forma um plano complicado para atravessar o dobro de nazistas e sabotar os dois submarinos que ele foi condenado a construir para eles. 

Com produção de Michael Powell e Emeric Pressburger (do excelente "Os Sapatinhos Vermelhos"), esta bela peça de propaganda da Segunda Guerra Mundial continua a emocionar da mesma forma, com simplicidade e elegância. Ralph Richardson (excelente) vive um homem comum que busca inspiração na bravura de um herói do passado. A forma que ele encontra para trabalhar contra o nazismo (simbolizado caricaturalmente pelo personagem vivido por Esmond Knight), secretamente motivando o povo a revidar, enquanto caminha livremente e sorrindo para os oficiais alemães, entre os mais jovens pode encontrar reflexo na obra "V de Vingança", de Alan Moore e até no "Batman" de Christopher Nolan. Jaap Van Leyden sabe que será recompensado com o anonimato em vida, inclusive sofrendo junto com sua família o escárnio de seus compatriotas, que acreditam que ele é um traidor. Um conto de heroísmo e sacrifício, que a ação do tempo não destruiu.

Fantomas - O Guerreiro da Justiça - Volume 1 (Ôgon Batto - 1967)
O "Morcego Dourado", que seria conhecido no Brasil pelo mesmo nome de um famoso personagem deTelecatch da época, foi dublado pela "CineCastro" e exibido no início da década de 70, como parte do clássico programa infantil: "Clube do Capitão Aza" (saudoso Wilson Vianna), na TV Tupi. Anos antes, em sua terra natal, foi protagonista em um filme live action (lançado meses atrás pela distribuidora) com o astro Sonny Chiba. A "Cult Classic" está lançando esta preciosidade nostálgica em uma bela embalagem em Digibook (com três DVD´s), contendo os 13 primeiros episódios (8 com a dublagem clássica). Excelente pedida para todos o que foram crianças na época e sentiam saudades desta animação.

A Sombra do Pecado (Cast a Dark Shadow - 1955)
Um esperto caçador de fortunas (Dirk Bogarde), com uma propensão para o assassinato, mata sua esposa e consegue fugir.

O diretor britânico Lewis Gilbert ficaria famoso internacionalmente por comandar três produções emblemáticas da franquia "007" (como "O Espião que me Amava", em 1977), mas realiza nesta adaptação da peça de Janet Green (responsável por "A Teia de Renda Negra" e "Meu Passado me Condena") sobre um jovem "Barba Azul", um legítimo "Noir" da melhor qualidade. Muito ajudado pela vigorosa interpretação de Dirk Bogarde, como Teddy Bare (bom trocadilho com "Bear", "Ursinho Teddy"), um jovem que utiliza generosamente seu charme para acumular fortuna. Muito interessante a forma que a câmera enquadra a cadeira de balanço da viúva, como se nela estivesse retida a força vital da mulher, que continua perseguindo a consciência do homem, mesmo após a morte. O roteiro trabalha sutilmente a possibilidade de homossexualidade no jovem, interpretado com certa afetação por Bogarde, como quando ele é visto lendo uma revista de fisiculturismo masculino. Vale destacar a fotografia do excelente Jack Asher (que traria elegância para as produções de terror dos estúdios "Hammer"), que trabalha (como de costume no estilo, legado do Expressionismo Alemão) as sombras, como se gradualmente aprisionassem o protagonista, até uma cena importante em que apenas seus olhos são iluminados. O desfecho é surpreendente (não perdeu sua eficiência) e o filme merece constar entre os mais interessantes do gênero.

Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die! - 1943)
Franticek Svoboda (Brian Donlevy) é um médico tcheco membro da resistência que assassina um carrasco alemão. A Gestapo, então, resolve caçar o responsável e para conseguir o seu intento, os nazistas fazem execuções a cada hora de cidadãos tchecos, querendo forçar a população a entregar o assassino. Mais do que isso, não deixa qualquer saída para Svoboda, pois ele não pode se entregar por razões políticas e também não pode ficar de braços cruzados por razões morais. 

Escrito por Bertold Brecht (sua única contribuição para o cinema de Hollywood), com direção do sempre competente Fritz Lang, esse excelente "Noir" atípico (por não possuir alguns elementos importantes, como a femme fatale) foi lançado na mesma época que "O Capanga de Hitler" (de Douglas Sirk) e com tema similar, abordando o assassinato do nazista Reinhard Heydrich. A fotografia é do grande James Wong Howe (responsável por "O Indomado", "O Velho e o Mar" e a gema injustamente pouco conhecida "O Segundo Rosto", de John Frankenheimer). No filme, podemos perceber que Lang (que auxiliou Brecht no roteiro) buscou inspiração em seu próprio trabalho nos filmes de "Dr. Mabuse" (especialmente "O Testamento de Dr. Mabuse"). Uma obra do período em que a propaganda era uma arma utilizada na Segunda Guerra Mundial, em que o importante era incitar os valores do espírito humano defronte a possível aniquilação. 

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