sábado, 12 de outubro de 2013

Lançamentos da "CultClassic" (Ago/Set/Out)


A Incrível Suzana (The Major and The Minor – 1942)
Susan Applegate é uma jovem que se fartou da vida em Nova Iorque, e que regressa para a sua casa no Iowa. Como a sua poupança, feita ao longo do tempo, não é suficiente para pagar a passagem de volta, ela disfarça-se de menina de doze anos para poder comprar meia-passagem. Mas, as suas complicações começam mesmo quando ela divide um compartimento com Kirby, um major do exército.


A estreia de Billy Wilder em Hollywood, no filme que serviria de molde para um dos maiores sucessos de Jerry Lewis e Dean Martin: “O Meninão”. A trama, como quase todas na carreira do diretor, esconde uma alta dose de anarquia e ousadia, por trás do véu da ingenuidade de uma comédia romântica. Colocando a censura do “Código Hays” para brincar de “bobinho”, com um roteiro que aceitava a possibilidade de uma mulher com as belas pernas torneadas de Ginger Rogers (na melhor interpretação de sua carreira), numa improvável situação de desespero, fazer todos pensarem que ela era uma inocente criança com laços de fita no cabelo. Na relação dela com a jovem irmã (Diana Lynn) da esposa do Major Kirby (Ray Milland, com quem trabalharia novamente no ótimo “Farrapo Humano”), percebemos Wilder (com o auxílio de Charles Brackett) em sua zona de conforto, divertindo-se ao elaborar diálogos irônicos que continuam surtindo o mesmo efeito, ainda que com os pés firmes em sua época (Greta Garbo é alvo de uma das melhores tiradas, logo no início do filme). Ele novamente trabalharia o conceito da farsa/disfarce como catalisador dramático, no excelente “Quanto Mais Quente Melhor”.


Operação San Genaro (Operazione San Gennaro – 1966)
Três bandidos, Jack, Maggie e Frank, vão a Nápoles com a intenção de roubar o tesouro de S. Genaro. Pedem ajuda a uma velha glória do roubo, Don Vincenzo, conhecido por Il Fenômeno, mas este se encontra na cadeia e lhes recomenda Armandino Girasole, conhecido por Dudú, que comanda um bando em decadência. Só que a ideia, se por um lado seria muito rentável, por outro parece um sacrilégio para Dudú.


Dino Risi busca inspiração no divisor de águas da comédia italiana: “Os Eternos Desconhecidos” (I Soliti Ignoti, de Mario Monicelli), que nadava na contramão do cinema que era realizado por lá, gargalhando na cara sisuda de Visconti e Antonioni. Até mesmo a presença de Totò, novamente como um bandido experiente, fortalece essa conexão. O roteiro ironiza a fé católica com um humor rasgado e utiliza debochadamente o personagem Jack (vivido por Harry Guardino), como um símbolo da eficácia americana nesses planos mirabolantes, em contraste com o caos da vibrante Nápoles e os atrapalhados membros da gangue. A força do filme está nos diálogos e na química entre os personagens, além da beleza estonteante da jovem Senta Berger.


A Vida de Galileu (Galileo – 1975)
Este filme trata do papel e da responsabilidade dos cientistas perante a sociedade. Escrito no tempo em que as bombas ainda não existiam, revela-nos a história de um cientista famoso, das suas verdades e das suas fraquezas.


Dirigido por Joseph Losey, exilado pela Lista Negra de Hollywood, o filme retrata com sensibilidade a vida de um homem que enfrentou a ignorância científica daqueles que se autoproclamam mensageiros de um Deus na Terra. Ao descobrir provas irrefutáveis de que o nosso planeta não é o centro do universo, Galileu se tornou uma ameaça a ser desacreditada, alvo da Inquisição e do hipócrita Papa Urbano VIII. Mais que uma cinebiografia (falha em diversos aspectos), Bertolt Brecht buscava construir uma peça sobre uma guerra argumentativa. A utilização de um coro masculino como instrumento narrativo (assim como na peça), intensifica a noção de teatro filmado, coerente com a proposta da obra. Com o auxílio de uma atuação irrepreensível de Topol, o roteiro trabalha com foco na vulnerabilidade do protagonista. Sua fanfarronice libertária destoa claramente do método contido de atuação dos seus colegas de cena, o que é uma inteligente maneira de transpor a figura do personagem histórico na sociedade em que viveu.


Um Homem Chamado Flor de Outono (Um Hombre Llamado Flor de Otoño – 1978)
Luis de Serracant é um jovem advogado que vem de uma família burguesa catalã, que não o impede de levar uma vida dupla surpreendente: durante o dia lida com os assuntos de seu trabalho, à noite torna-se "Flor de Outono" conhecido travesti que trabalha em um pequeno cabaré. Quando outro travesti é assassinado, Flor se torna o principal suspeito do crime porque na noite anterior ambos haviam discutido violentamente. 


Na Espanha que se acostumava à liberdade após a ditadura de Franco, algumas produções abordavam a homossexualidade além da caricatura, contundentes em sua visão sobre a violência e a perseguição sofrida. Os protagonistas homossexuais deixam de representar patéticos alívios cômicos e se tornam personagens psicologicamente trabalhados, com uma atitude corajosa diante da sociedade. É o caso desse filme do diretor Pedro Olea, adaptada de uma peça de teatro (“Flor de Otoño”, de José María Rodríguez Méndez, 1972) que nunca havia sido encenada, por causa da censura. Cenas como a revelação do filho para sua mãe (“Mãe, encontrei a mulher dos meus sonhos...”) e o emocionante desfecho, são conduzidas de forma elegante e sensível, sem nunca resvalar no piegas. 

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