sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A Importância do Legado


Enquanto somos crianças, com sorte, costumamos escutar de nossos pais lições valorosas sobre a necessidade do altruísmo, os malefícios do egoísmo exacerbado e a importância de deixarmos como legado um mundo melhor do que aquele que nos recebeu. Crescemos e esquecemos estes ensinamentos, preocupados apenas em acumular o vil metal, fazendo dele um instrumento para conquistarmos poder, status social, fama. Poucos são os que utilizam seus recursos (financeiros ou intelectuais) para o bem maior. Ínfimos são os que reconhecem os esforços destes poucos. A questão que atinge a consciência com a força de um instrumento de silício: Vale a pena ser altruísta, sacrificar-se pelo bem maior, sabendo que existe uma grande possibilidade de, neste mundo moderno onde a elegância é alvo de deboche, você ser recompensado com o anonimato?

Um dos prazeres de um cinéfilo é realizar maratonas temáticas, misturando filmes de diversos gêneros e épocas. Como estamos vivendo um período de importantes mudanças de conduta em nossa sociedade, utilizo este espaço para recomendar três ótimos filmes que versam sobre o tema.

Em Cada Coração, Uma Saudade” (All Mine to Give – 1957) se passa por volta de 1850 e conta o drama de um garoto de doze anos que acaba de perder seus pais, necessitando cumprir a promessa que fez à mãe em seu leito de morte: distribuir seus cinco irmãos pequenos para boas famílias da região. Ele precisa amadurecer mais rápido e tomar uma decisão cruel, sacrificando seu amor pelos irmãos, objetivando o bem estar dos mesmos. O filme possui muitos problemas (grande parte causados pela direção de Allen Reisner), mas é difícil manter-se insensível aos vinte minutos finais. Os pais (vividos por Glynis Johns e Cameron Mitchell) eram imigrantes humildes, analfabetos, constantemente hostilizados pelos habitantes da região. O garoto, no dia do Natal, acaba se tornando o disseminador de uma nova geração, que levando em consideração a boa criação dos pais, constituirão uma cidade melhor no futuro. Esta é a mensagem que a bela obra busca transmitir.

Em “Viver” (Ikiru – 1952), de Akira Kurosawa, Takashi Shimura vive um homem no crepúsculo de sua existência. Vítima de um câncer, ele descobre ter desperdiçado sua vida sendo um funcionário modelo, sem faltas e reclamações, sem momentos de lazer, plenamente dedicado a uma função burocrática (que qualquer um poderia fazer) que só satisfazia seu empregador. Balançando-se em um parque de diversões, emociona-se tentando voltar no tempo e corrigir seus erros. Sobrando-lhe pouco tempo de vida, ele então decide deixar um legado eterno, útil como algo tangível (na forma de um parque onde as crianças pudessem brincar) e filosoficamente eficiente (incentivando seus colegas a seguirem seu exemplo). Já que a prefeitura sempre prometia, mas nunca construía aquela área de lazer, ele se redimiria com seu esforço, construindo algo que sobreviveria por décadas após sua passagem. Somente quando estava prestes a morrer, o nobre senhor decidiu viver.

Uma Voz nas Sombras” (Lilies of the Field – 1963) conta a simples história de um homem desempregado (vivido por Sidney Poitier, em papel que lhe rendeu um Oscar) que, numa parada para consertar seu carro em uma fazenda, acaba conhecendo uma pequena comunidade de freiras. Elas o veem como um enviado de Deus para ajudá-las a construir uma capela no meio daquele fim de mundo. Inicialmente ele se recusa, chega a desistir na metade, mas acaba retornando para finalizar aquela missão. Não existe motivo algum para que ele ajude aquelas senhoras, tampouco seu trabalho será reconhecido, mas ele parece encontrar um significado para sua existência naquele exaustivo trabalho braçal.

Respondendo a pergunta do final do primeiro parágrafo: Vale cada segundo investido em construir um honroso legado. Pois no frigir dos ovos, somos e vivemos inspirados naquele “Übermensch” (o “ser superior” de Nietzsche) capaz de modificar o centro de gravidade, tornando-o escorregadio. Assistimos seres humanos se corrompendo diariamente, mas sabemos que ao final de tudo, nosso caráter é o único elemento capaz de impor resistência e levar-nos em paz, legando ao futuro um mundo melhor do que aquele que nos recebeu.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Lançamentos da "Versátil" (Janeiro / 2014)


Mamma Roma (1962)
A inesquecível Anna Magnani vive Mamma Roma, uma prostituta que sonha em mudar de vida e de classe social, para poder voltar a viver com Ettore, seu filho adolescente. Para isso, ela decide economizar dinheiro. Infelizmente, a realidade coloca muitos obstáculos em seu caminho. 

O ciclo do Neo-Realismo italiano já estava em uma fase transitória, quando Anna Magnani, considerando genial o filme de estreia de Pasolini: “Accattone – Desajuste Social” (excelente filme, que merecia um relançamento pela “Versátil”), decidiu entrar em contato com o diretor e mostrar seu interesse em protagonizar seu próximo projeto. Em seu segundo filme, já com total controle criativo, o poeta italiano demonstrou tremenda confiança e competência. A interpretação histriônica de Magnani concede o poder emocional, fornecendo a moldura perfeita para que Pasolini exercite seu já reconhecível (à época) estilo visual, unido à sua verve literária. Nos primeiros minutos podemos perceber que, ainda que a obra seja dedicada a Roberto Rosselini, sua intenção não é servir somente como pano de fundo para algum discurso social trágico (essência do ciclo), mas também fazer uma espécie de sátira utilizando o destemor e a intempestividade da protagonista. Diferente da Itália de “Roma, Cidade Aberta”, onde o povo valoroso e trabalhador se via compelido à miséria pelo ditador alemão, não há mártires no cenário de “Mamma Roma”. A visão pessimista/realista de Pasolini faz lembrar seu roteiro para “Noites de Cabíria”, filmado por Fellini. Não há redenção satisfatória numa terra onde você aceita a corrupção da alma, sobrevivendo de forma medíocre à gradual destruição de seu caráter, ou é abatido por tentar genuinamente modificar o triste panorama. Vale ressaltar a participação de Lamberto Maggiorani (do maravilhoso “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica) no ato final, numa esperta homenagem, sendo novamente vítima de um roubo. Muito mais cínico que Rosselini, que terminava “Roma, Cidade Aberta” com uma insinuação de esperança, Pasolini escolhe finalizar a trama com um sutil recado nas entrelinhas de sua “Pietá”, evidenciando que o fim da guerra pode ter eliminado o regime ditatorial, mas não tornou os italianos mais fortes e preparados para a vida em liberdade. Não há mais nazistas, os opressores agora nascem da índole distorcida dos próprios filhos da terra.


Jane Eyre (1943)
Após passar a infância em um orfanato, a jovem Jane Eyre (Joan Fontaine) se torna governanta da filha do misterioso Edward Rochester (Orson Welles). Os dois se apaixonam, mas, no dia do casamento, ela faz uma terrível descoberta.

Esta é a mais bela adaptação da obra de Charlotte Brontë, com uma linda fotografia de George Barnes e uma direção refinada do subestimado Robert Stevenson, sempre lembrado apenas por sua parceria de sucesso com a Disney. Alguns aspectos podem incomodar os que apreciam o livro, indo além da rápida compreensão de que as linhas narradas (nas cenas que detalham as páginas do livro) não condizem com a realidade literária. Joan Fontaine estava no auge de sua beleza (qualidade que a Jane do livro não compartilha) e falha na batalha intelectual com o Rochester vivido por Orson Welles. Sua personalidade é frágil e seu carisma reside na piedade que suscita, não na força interna, o que fortalece o melodrama (objetivo claro do roteiro). Mas quando focamos demais na fidelidade, estamos ignorando que a linguagem cinematográfica é uma Arte própria, que pode complementar, nunca deve substituir. Como as luzes expressionistas que emolduram a pequena Jane, sentindo-se sozinha em um mundo cruel. Sua rebeldia contra a figura de autoridade, ao ver os cachos do cabelo da amiga sendo cortados (algo inexistente no livro), evidencia sua compaixão como a maior qualidade de seu caráter. Um detalhe que vale ser ressaltado é a participação do escritor Aldous Huxley (de “Admirável Mundo Novo”) na elaboração do roteiro, assim como uma ponta não creditada de uma pequena Elizabeth Taylor, já demonstrando incrível presença de cena. O DVD da “Versátil” utiliza uma master remasterizada, contendo ainda um ótimo documentário como extra.


O Solar das Almas Perdidas (The Uninvited – 1944)
Os irmãos Roderick (Ray Milland) e Pamela Fitzgerald (Ruth Hussey) compram uma mansão abandonada na costa da Inglaterra, por um preço muito abaixo do mercado. O que inicialmente parecia ser um ótimo negócio se torna um pesadelo, quando os irmãos descobrem que o lugar é assombrado por espíritos. 

Fantasmas até então eram utilizados no cinema como alívio cômico, desmascarados ao final como simples truques. Lewis Allen foi o primeiro a adotar uma postura séria, ainda que o roteiro deixe transparecer em vários momentos certa preocupação mercadológica com essa atitude (o humor está lá, mais do que deveria, mas em menor intensidade se comparado ao padrão da época), abordando uma casa mal-assombrada por dois fantasmas. A fotografia de Charles Lang Jr. é um primor, mostrando que muito se perdeu no gênero com a invenção de Thomas Edison, já que não há melhor moldura para o terror que um ambiente à luz de velas. O filme é adaptado do romance gótico de Dorothy Macardle, uma ferrenha feminista, que utilizou a história fantasmagórica como metáfora para compor uma narrativa sobre a relação entre mãe e filha (a peça central da trama), além de uma crítica à limitadora ideologia doméstica imposta às mulheres, com insinuações homossexuais (entre a personagem Holloway e Mary) que perturbaram os censores do “Código Hays”. A trilha sonora de Victor Young legou para a humanidade a linda “Stella by Starlight”. Uma das provas da qualidade do filme é que, somente vinte anos depois, a indústria abordaria o tema com a mesma competência, no excelente “Desafio do Além” (The Haunting). 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Lembrando Carlos Reichenbach


Dentre aqueles profissionais que transitavam pela pornochanchada da “Boca do Lixo”, ele talvez tenha sido o mais criativo e ousado realizador. “As Libertinas” (1968), “Audácia” (1970), “Corrida em Busca do Amor” (1972) são alguns dos vários projetos deste filão de qualidade bastante questionável, porém “A Ilha dos Prazeres Proibidos” (1979) e “Extremos do Prazer” (1984) demonstravam que era possível incutir uma trama interessante em um gênero apelativo e imaturo, que trouxe enorme lucro aos produtores, porém atrasou a cinematografia nacional até a recente retomada. Com o fim da ditadura, os brasileiros começaram a ter acesso aos filmes pornôs estrangeiros, o que enfraqueceu a indústria que havia se estabelecido.

Na segunda metade da década de oitenta ele elaborou o ótimo “Filme Demência” (1986), onde se utilizou do conto de Fausto para experimentar com o que aprendeu assistindo Godard, resultando em algo autoral e inventivo. “Anjos do Arrabalde” (1987) já levou o diretor a flertar com o cinema realista de Kenji Mizoguchi, criando um melodrama onde a violência circunda três dedicadas professoras da periferia de São Paulo. Porém foi com o maduro “Alma Corsária” (1993), que ele realmente fez uso de todas as suas referências com sensibilidade e perfeito equilíbrio. A trama segue a parceria entre dois jovens poetas (inspirados em Augusto dos Anjos e Cesário Verde) de estilos distintos, um sendo pura emoção, o outro cada vez mais absorto em questionamentos existenciais. Quando lançam um livro juntos, o cineasta utiliza o “micro” (festa de lançamento) para retratar a hipocrisia da sociedade (criticando inclusive alguns colegas de “Cinema Novo”), disposta a dividir com a precisão de uma lâmina samurai, aquilo que se estabelece como sendo “Arte” e o que é popular. Um negro com aparência de estivador aproxima-se de um piano em um bar e conduz “Clair de Lune” (junção do refinado Debussy com o popular poeta francês Paul Verlaine, escolha coerente com a proposta da cena), sendo prestigiado no mesmo ambiente pelo galã Walter Forster e pela Flor, a popular jurada de Silvio Santos. A comunhão entre as diferenças, proporcionada pela beleza da música. Uma das cenas mais poéticas do cinema nacional, infelizmente muito pouco conhecida pelos brasileiros.

Independente de seu valor como diretor, eu o admirava por sua conduta. Reichenbach valorizava gêneros normalmente desprezados pela crítica (e pelos próprios cineastas), como a comédia, o terror e o “Kung-Fu” oriental. Admirava a competência de Jerry Lewis como autor (“O Rei dos Mágicos” era um de seus favoritos), assim como reverenciava a ousadia estética dos criadores da “nouvelle vague”. Tendo iniciado sua carreira escrevendo sobre cinema, ele disse certa vez em uma entrevista: “O bom crítico de cinema é, essencialmente, um garimpeiro em busca das verdadeiras gemas. As maiores gemas estão sempre onde menos se espera”. Insatisfeito com o rumo do jornalismo cinematográfico conduzido nos grandes jornais (cada vez mais presos ao “lobby” e a interesses escusos, por vezes limitando-se a reduzir o valor de uma obra a um símbolo “positivo” ou “negativo”, em poucos caracteres), ele apreciava mais os textos que estavam sendo realizados em blogs, podendo então ser considerado o “patrono” de todos que, como eu, são apaixonados pelo cinema e expõem esse sentimento com responsabilidade e dedicação neste rico mundo virtual. Esteja em paz, Carlão. Obrigado!

Amor e Lágrimas - "Não me Abandone Jamais"


Revi alguns dias atrás o ótimo “Não me Abandone Jamais” (Never Let Me Go – 2010) e fiquei algumas horas, após os créditos finais, discutindo a eficiente crítica que ele apresenta. Obviamente que o mérito é do escritor japonês Kazuo Ishiguro, que em 2005 concebeu este brilhante conceito em forma de ficção científica. Tendo lido a obra antes mesmo dela haver sido lançada no Brasil, já considerava impossível que algum cineasta ousasse transpô-la para a linguagem cinematográfica. Pensava que, caso ocorresse, provavelmente seria de forma tão diluída que perderia todo seu significado. À época de sua pré-produção, lembrei-me do caso ocorrido com Jerry Lewis e seu projeto “The Day the Clown Cried” (O Dia em que o Palhaço Chorou), que causou enorme polêmica no início da década de setenta, levando-o a nunca lançá-lo comercialmente.

Lewis buscava demonstrar aos críticos seu talento como ator dramático, porém escolheu um tema “espinhoso”. Ele interpreta Helmut Doork, um simplório palhaço alemão que é expulso de um campo de concentração nazista após debochar de Hitler. Como castigo, vê-se forçado a entreter as crianças destinadas à morte nas câmaras de gás. Basta imaginar esta sinopse, para sentirmos um frio na espinha. Extremamente corajoso, porém terrivelmente mórbido. O filme foi completado e alguns produtores chegaram a assistir o corte bruto, inclusive sua roteirista Joan O´Brien, que ficou chocada com o resultado. O fato é que a obra tornou-se mítica com o passar dos anos, com os fãs (no que me incluo) desesperados para assistirem-no. Alguns dizem que após o falecimento de Jerry, o filme talvez seja liberado, mas acredito que infelizmente nunca teremos acesso ao material (existem várias fotos da produção, o roteiro em inglês e até alguns curtos vídeos de bastidores disponíveis na internet).

Felizmente, a trama do filme de Mark Romanek é fiel ao livro original, contando a trágica jornada de crianças clonadas, que são criadas, isoladas da sociedade, para serem futuras doadoras de órgãos. Indiferentes ao cruel processo, elas vivem uma rotina de brincadeiras e inocentes flertes românticos. Ao atingirem a idade adulta, passam a doar seus órgãos até que não suportem mais e “concluam” (morram). Na obra, os personagens não possuem sobrenome, apenas um “H.” que representa o brasão da “escola” onde vivem. A repressão ao individualismo encontra sua fuga (a natureza sempre encontra um caminho) no simbólico berro desesperado que o personagem vivido por Andrew Garfield emite em dois momentos distintos. A questão final que a obra apresenta é engenhosa, pois passamos a duração do filme lamentando o destino dos jovens, escravos de uma vida curta, porém esquecemo-nos de que muitas vezes desperdiçamos a nossa própria existência, inclusive dando pouco valor àqueles que mais amamos. Como a protagonista (Carey Mulligan) questiona em certo momento: “Será que a vida das pessoas normais é tão diferente da nossa?”. Eles são como nós, mais preocupados em suprir suas carências afetivas antes do fim, do que com a própria morte (que é a única certeza, em ambos os casos).

O filme termina e sentimos o louco desejo de aproveitarmos cada segundo de nossas vidas, apreciando cada pequeno detalhe. Como os geniais membros do “Monty Python” afirmaram na letra de “Always Look on the Bright Side of Life”: “A vida é bem absurda e a morte é a palavra final, você deve sempre encarar a cortina com uma reverência… Dê para a plateia um sorriso. Divirta-se, pois esta é sua última chance mesmo”.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Hitchcock - O Mestre do Suspense


François Truffaut dizia que Hitchcock filmava cenas de amor como se fossem de assassinato, enquanto as cenas de assassinato eram filmadas como cenas românticas. Eu adicionaria nesta análise genial do diretor francês em ambos os casos o elemento do humor, que muitos equivocadamente encontram apenas em obras mais assumidamente cômicas, como “O Terceiro Tiro”, mas que faz parte de todos os filmes do mestre do suspense. Considero o inglês um dos pais da Sétima Arte, junto com Georges Méliès, D.W. Griffith e Charles Chaplin. Enquanto o mágico francês pegou o invento dos irmãos Lumière e o transformou em um catalisador de sonhos, Griffith mostrou ser possível concatenar os sonhos em uma narrativa, Chaplin deu a estes sonhos sensibilidade, ternura e emoção, Hitchcock pode ser considerado a evolução natural: expandiu os limites da realidade e criou a expectativa, o suspense.  Tudo que foi realizado após isto foi meramente um aproveitamento destes conceitos.

Ele iniciou sua carreira com quatorze anos como designer gráfico de publicidade. Na década de vinte, começou a trabalhar criando as telas de texto que representavam os diálogos nos filmes mudos. Por conta própria aprendeu a criar roteiros e a editar, o que acabou levando-o a ser assistente de direção de algumas produções inglesas do período. Dono de uma criatividade única, não demorou muito para que os dirigentes dos estúdios o promovessem a diretor principal. Em 1926, muito interessado pela história de Jack, o Estripador, criou o ótimo suspense mudo: “O Pensionista” (The Lodger: A Story of the London Fog), contando a saga de um homem (Ivor Novello) que é perseguido por acreditarem que ele seja o famoso serial killer. Devido a uma intensa admiração que o diretor tinha pelo movimento do Expressionismo Alemão, se mostra aparente ao longo desta obra, claras referências ao cinema de Murnau. Em entrevista para Truffaut, Hitchcock explica as razões que o levavam a abordar com regularidade, histórias sobre homens culpados injustamente: “O tema do homem acusado injustamente proporciona aos espectadores uma sensação maior de perigo, pois eles se imaginam mais facilmente na situação desse homem do que na de um culpado que está fugindo”. Demonstrando sua genialidade, preocupado com a realização de uma cena (lembrando que se tratava de um filme mudo), ele usa um efeito para mostrar os passos do pensionista no andar de cima. Colocando um piso de vidro, facilitou para quem estava em baixo, saber que o personagem misterioso estava caminhando de um lado para o outro em seu quarto. Uma forma criativa de contornar as limitações técnicas, criando um efeito muito mais eficiente que se houvesse som.

Já em “A Sombra de Uma Dúvida” (Shadow of a Doubt – 1943), o diretor nos apresenta a jovem Charlie (Theresa Wright), que começa a desconfiar que seu tio (que ela idolatrava) esconde segredos nefastos. Joseph Cotten realiza neste filme, o que considero seu melhor trabalho, como o serial killer charmoso, que casa com viúvas ricas, para depois assassiná-las. Novamente com fortes referências ao Expressionismo Alemão (por conseguinte, com o cinema Noir), a obra é permeada de ângulos de câmera irregulares e variações dos tons da iluminação, representando os altos e baixos na relação entre tio e sobrinha. Hitchcock considerava este projeto, seu melhor trabalho. O grau de interesse que o diretor nutria pelos seus filmes estava diretamente relacionado à admiração que o público sentia pelos mesmos. Esta preocupação com a preservação da experiência do público, somado ao seu cuidado com os detalhes e alto conhecimento técnico, fizeram com que ele produzisse obras refinadas e acessíveis para plateias de todas as classes sociais.

Não existe arte mais voyeur em sua essência que o cinema. Hitchcock sabia disto e criou “Janela Indiscreta” (Rear Window – 1954). Nele, James Stewart vive um fotógrafo confinado a uma cadeira de rodas após um acidente. Genialmente o mestre nos apresenta nos segundos iniciais do filme, por intermédio de simples movimentação de câmera, elementos que explicam perfeitamente as razões do protagonista estar naquela situação. Sem diálogos ou narrações em offdesnecessárias, ficamos sabendo todo o necessário para nos ligarmos empaticamente ao protagonista. Novamente com James Stewart, Hitchcock entrega seu trabalho mais complexo: “Um Corpo que Cai” (Vertigo – 1958). A faceta manipuladora do diretor encontra neste filme sua catarse mais vibrante. Deixando de lado certos aspectos mais comerciais de sua filmografia, o diretor aborda os radicalismos do amor, sua intangibilidade e loucura. Stewart vive um detetive que descobre sofrer de acrofobia (medo de lugares altos) ao presenciar um colega cair do telhado de um prédio. Aposentado, acaba sendo contratado por um velho amigo para investigar a sua mulher (Kim Novak), que aparenta estar possuída por uma ancestral suicida. Com o uso de um truque de câmera (posteriormente chamado de “Hitchcock Zoom”), a sensação de vertigem é transmitida com elegância e incrível funcionalidade. A ausência de um final feliz, aliada a uma trama complexa fizeram com que muitos na época rejeitassem o filme, porém o tempo fez justiça a esta monumental obra-prima, inclusive sendo eleita em enquete recente e prestigiada, em um honroso primeiro lugar. Preocupado com as críticas pouco simpáticas à complexidade estrutural de “Um Corpo que Cai”, o diretor acabou realizando no ano seguinte sua obra mais escapista: “Intriga Internacional” (North by Northwest – 1959). Para entender sua importância, basta dizer que sua condução acabou inspirando o primeiro filme do agente secreto James Bond, em 1962.

Truffaut disse certa vez: “Por dominar os elementos de um filme e impor ideias pessoais em todas as etapas da direção, Alfred Hitchcock possui de fato um estilo. Todos reconhecerão que é um dos três ou quatro diretores em atividade que conseguimos identificar só de assistir a poucos minutos de qualquer filme seu”. Isto fica bastante claro nesta aventura, pois sua trama não possui nenhum elemento claramente engenhoso, trata-se da clássica história do homem inocente em fuga. Porém o diretor consegue inserir pequenos detalhes que modificam completamente a imersão na história. Cary Grant vive um executivo que é erroneamente tido como um agente secreto e se vê perseguido por agentes inimigos por todo o país. O detalhe que torna esta obra algo atemporal é o desenvolvimento do personagem principal. Grant no início é apenas um americano típico de meia idade, preguiçoso, sem uma personalidade marcante ou brilho interior. Ao ser caçado como um agente secreto, ele torna-se como que por osmose alguém heroico, vibrante e confiante. O próximo passo do diretor foi se testar como realizador. Cortando consideravelmente a verba, decidiu contar a história de Norman Bates em “Psicose” (Psycho – 1960), primando pelo minimalismo. Fica difícil imaginar o choque que a obra causou em sua época, posto que atualmente seus temas e estrutura narrativa já foram copiados à exaustão. Vale lembrar que não era nada comum uma troca radical de protagonistas, na primeira meia hora de projeção. O famoso assassinato no chuveiro não foi marcante apenas pelo uso da trilha sonora de Bernard Herrmann ou pelos cortes de câmera inovadores, mas sim por ser algo completamente inesperado. Quem imaginaria que a protagonista (Janet Leigh) iria morrer logo no início do filme?

Finalizo com o primeiro que eu me lembro de ter assistido, ainda pré-adolescente: “Os Pássaros” (The Birds – 1963) é um exercício de suspense dos mais intrigantes. A trama é simples: sem motivo aparente, pássaros começam a atacar uma pequena cidade litorânea, no exato momento em que uma jovem (Tippi Hedren) de outra cidade intenciona se envolver com um dos moradores. O roteiro é trabalhado de forma lenta e progressiva, apresentando os personagens, fazendo-nos conectar empaticamente com aquelas pessoas, para logo em seguida iniciar os ataques e deixá-los completamente desamparados. Esta aparente lentidão inicial pode ser mal interpretada como uma falha, porém trata-se de uma aula de suspense que infelizmente muitos diretores atuais parecem ter cabulado. Novamente abdicando de um final feliz, Hitchcock nos apresenta uma visão apocalíptica inesquecível. Após tantas décadas destruindo o habitat natural de outras espécies, o diretor nos deixa na posição de indefesas vítimas de uma força sobrenatural e irrepreensível, tão bestial e inconsequente quanto nós mesmos.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Lançamentos da "Classicline" (Janeiro / 2014)


Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland – 1933)
Lançado em 1933, na sequência do centenário de nascimento de Lewis Carroll, em 1932, é uma adaptação que reuniu um elenco de estrelas para interpretar os diferentes personagens da história. Grande parte do filme é real, exceto o segmento “A Morsa e o Carpinteiro”, que foi animada pelo estúdio de Max Fleischer. Algumas das estrelas que participaram do filme foram Charlotte Henry como Alice, W. C. Fields como Humpty Dumpty, Edna May Oliver como a Rainha Vermelha, Cary Grant como a Falsa Tartaruga, Gary Cooper como o Cavaleiro Branco e Edward Everett Horton como o Chapeleiro.


Que grata surpresa conhecer essa pérola esquecida no tempo. Não sou grande fã da obra de Lewis Carroll, mas de todas as adaptações que já assisti (incluindo a animação da Disney), esta foi a que mais me encantou. Unindo elementos de “Alice no País das Maravilhas” (de 1865) e “Alice no País do Espelho” (de 1870), com a presença de astros dos estúdios Paramount, a produção surpreende na criatividade com que trabalha os efeitos visuais, conquistando resultados à frente de seu tempo. É sensacional reconhecer a voz de Cary Grant (ainda em ascensão na época) como a “Falsa Tartaruga” (não levo fé que ele realmente esteja vestindo o traje), ou o olhar de Gary Cooper por trás da forte maquiagem de seu desajeitado “Cavaleiro Branco”. Genial a escalação de W.C. Fields (a juventude de hoje ignora sua existência, “Classicline”, resgate sua obra) como “Humpty Dumpty”, provavelmente o ponto alto da obra. A “Alice” de Charlotte Henry cativa desde o primeiro momento, fazendo-nos ignorar seus dezoito anos à época. Um papel que chegou a ser cogitado para Mary Pickford e Ida Lupino, mas que caiu como luva nas mãos da jovem com pouca experiência no ramo.


Atraiçoado (Betrayed – 1954)
Holanda, durante a 2ª Guerra Mundial. Um oficial aliado da Inteligência, Pieter Deventer (Clark Gable), é incumbido de manter os olhos em Carla Van Oven (Lana Turner), suspeita de espionagem. Ambos são do serviço secreto holandês, fazendo contato com um líder da resistência conhecido como “O Lenço” (Victor Mature). Para ganhar a confiança dos oficiais nazistas lascivos, Turner se apresenta como uma cantora sexy. Mas nas semanas que se seguem, vários agentes secretos são capturados e fuzilados, e as suspeitas de Pieter sobre Carla parecem se mostrar cada vez mais corretas...


Último filme de Clark Gable para a MGM, após um reinado que durou 23 anos, numa relação de total fidelidade (enquanto outros astros flertavam com propostas de outros estúdios), mas que terminou com grande mágoa. Ele nunca recebeu porcentagem no lucro das reexibições de “E O Vento Levou”, o que o levou a exigir participação nos projetos seguintes, algo que a MGM negou até o último momento, culminando no término da relação. Mas, de certa forma, com o final da Segunda Guerra, ele acabou ficando deslocado, tendo que se moldar em um novo sistema. Os primeiros filmes que realizou em seu retorno não estavam agradando nem ao próprio ator, o que refletia na atuação e nas bilheterias. Desses últimos projetos no estúdio, “Atraiçoados” é o mais correto, mérito da química do astro com Lana Turner, dos belos cenários em Amsterdam e da direção precisa (a filmagem durou somente oito semanas) do alemão Gottfried Reinhardt (responsável pela história do musical “A Grande Valsa”, de 1938). Ainda que o público americano já estivesse cansado de filmes com a temática da guerra, desejosos de musicais alegres que os fizessem esquecer aquele período sombrio, os fãs apreciaram a chance de assistir seu ídolo novamente em cores.


Com a Maldade na Alma (Hush… Hush, Sweet Charlotte – 1964)
Bette Davis nos brinda com uma magnífica interpretação no papel de Charlotte Hollis, uma solteirona reclusa ainda obcecada pelo brutal assassinato de seu amante, ocorrido há mais de 37 anos. Quando sua propriedade está para ser desapropriada para a construção de uma nova estrada, Charlotte pede a ajuda de sua prima Miriam (Olivia De Havilland), do velho amigo Drew (Joseph Cotten) e da sua empregada Velma Cruther (Agnes Moorehead).


O diretor Robert Aldrich aproveitou o sucesso de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” (de 1962) e se reuniu com Bette Davis nesse projeto que repete elementos estruturais e, ainda assim, consegue firmar uma identidade própria (com sutis homenagens a “Psicose”, de Hitchcock). Davis (Charlotte), Olivia de Havilland e Agnes Moorehead carregam a obra nas costas, ajudando-nos a atravessar um segundo ato moroso. Um ponto que merece ser salientado é a fotografia gótica de Joseph F. Biroc, que fornece a atmosfera perfeita para a tragédia de Charlotte, que nos inspira pena e simpatia, até que vibremos por ela no desfecho (claro que não revelarei muito, respeitando os que não assistiram). Em vários aspectos, um filme superior ao mais famoso “Baby Jane”, abraçando sem temor o macabro. Vale ressaltar também o belo trabalho de capa da “Classicline”, fornecendo duas opções para o colecionador.


Drácula (Dracula – 1931)
Baseado no livro de Bram Stoker, “Drácula” é um dos maiores clássicos de terror já filmados. A trama conta a história do advogado Renfield (Dwight Frye), que chega ao castelo do Conde Drácula (Bela Lugosi), na Transilvânia, para finalizar o contrato de aluguel de uma propriedade em Londres. Ele não sabe, mas seu nobre anfitrião é um vampiro. 


Bela Lugosi. Apenas esse nome já bastaria para indicar a importância dessa obra na história do cinema de horror. O primeiro filme falado a lidar com um tema sobrenatural, responsável por tornar o “Universal Studios” uma referência no gênero, superado apenas pela “Hammer”, décadas depois. Como adaptação, possui falhas, como o fato de minimizar a personagem Lucy (Frances Dade), que se torna uma figura de decoração, e a equivocada alteração do Dr. Seward (Herbert Bunston), que se torna o pai da trágica Mina (Helen Chandler). O roteiro acerta com o personagem Renfield (Dwight Frye), que dá o pontapé inicial na trama (papel de Jonathan Harker, no original literário) transformando o esquisito caricato de Bram Stoker em alguém tridimensional. A direção de Tod Browning não envelheceu bem, assim como também não podemos ignorar alguns “buracos” (como a entrada de Van Helsing na trama), mas a fotografia de Karl Freund, trabalhando muito bem as sombras como ferramenta narrativa, estabelece o clima perfeito. É válido afirmar que o tempo foi mais generoso com a versão espanhola, protagonizada por Carlos Villarías, gravada ao mesmo tempo nos mesmos cenários, para o mercado latino.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Quem Lucra com a Mediocridade?

Estamos vivendo um momento muito importante na história cultural deste país, uma genuína “Crise de Seldon” (profético Isaac Asimov) que definirá o futuro da sociedade. Todo e qualquer arroubo criativo que exceda os padrões ditos normais, garante posto eterno de perturbador da paz àqueles que os praticam. Posto este, incensado pela mídia e devidamente abraçado por um público, surpreendentemente indiferente aos cordões que lhes manipulam diariamente. Ato este, alimentado por vários anos, como que em um processo irresponsável de mediocrização popular. Aquele senhor de fraque e cartola que aplaudia no Teatro Municipal as obras de Schubert, hoje assiste seus filhos e netos “indo até o chão” ao som do Funk. Aquelas músicas populares de letras tão lindas de outrora, hoje são apenas refrões simplistas envoltos por um “La,La,La” dispensável e irritante. O sertanejo, que antes era de raiz, hoje é uma vitrine para jovens criados no ar condicionado, porém que mantém o chapéu e a atitude de quem passou a manhã inteira ordenhando vacas. Até mesmo o “Hip-Hop” que antes falava tão realisticamente sobre as mazelas do país, hoje foi diluído e parece servir apenas para exultar cafetões e mulheres fúteis. Parafraseando Edu Lobo, o problema hoje em dia não parece mais ser: “quem me dera agora eu tivesse a viola para cantar”, mas sim: alguém escutaria?

Estamos em pleno 2014 e nossos jovens desaprenderam a escrever (algo inclusive incentivado pelos nossos governantes). O mundo moderno lhes deu instrumentos: Facebook, Twitter, celulares cuja função menos importante é aquela inventada por Graham Bell, “trocentas” opções de canais de televisão visualizados em telas gigantescas em 3D, “máxima megalomania, porém monocórdia mesmice” (parafraseando o genial Chico Anysio). Deram-lhes asas, porém não os ensinaram a voar, ou não os contaram que era possível tal feito. O resultado é visível a qualquer um que realmente se importe em ver: mídias de redes sociais desperdiçadas com correntes tolas e mal escritas. Ofensas indiretas (direcionadas a alguém que provavelmente não perceberá que é o alvo) e seu direto oposto: o egocentrismo. A carência da sociedade nunca se mostrou tão cruelmente perceptível como hoje.

Evitando me perder em meus próprios devaneios, voltarei minha atenção novamente para o foco inicial. O politicamente correto parece ser a consequência natural dos vários anos deste processo (reversível) de mediocrização. Comediantes são levados a sério e condenados, enquanto políticos são vistos como astros pop. Volte Andy Kaufman, pois o mundo precisa de você. Aliás, a lembrança desse incrível artista foi o que me motivou a escrever este texto. Para aqueles que nunca ouviram falar nele, indico o ótimo filme de Milos Forman: “O Mundo de Andy” (Man on the Moon – 1999), em que Jim Carrey interpreta este ícone do humor americano. Resumindo bastante, Kaufman era um jovem anárquico e brilhante, que chocava plateias com seu senso de humor peculiar e com grandes (bem orquestradas) armações. Ele era capaz de trocar sopapos com donas de casa em um ringue de luta greco-romana ou subir em um palco e calmamente ler “O Grande Gatsby” até a plateia começar a vaiar, assim como também podia ir a um “talk show” e apresentar três delinquentes do Harlem como seus filhos adotivos, sem esboçar o menor sinal de que estava brincando. Andy não temia os limites do humor, ele apenas os subjugava e os ultrapassava.

O humor tem limites? Quem os estabelece? Façamos um exercício criativo e por um momento imaginemos como seria o mundo, ditado pelo politicamente correto atual. Não haveria com certeza espaço para grupos como o “Monty Python” ou artistas como Andy Kaufman e Lenny Bruce. Chico Anysio e seu humor elegante, porém ácido e crítico, também não teria tido oportunidade. Mazzaropi e o machismo de seu “Jeca Tatú” seriam motivo de processos semanais. O que dizer da língua afiada de Groucho Marx e das tubaínas de Mussum? Estaríamos fadados a um mundo asséptico, composto por humoristas comportados (elemento antagônico ao próprio humor), programas de televisão “chapa branca” e suas piadas bobinhas, que ofendem somente a inteligência do público. Maldito mundo moderno.

A pergunta que se mantém, enquanto comediantes recebem mandados de prisão e políticos corruptos miraculosamente os evitam é: quem está lucrando com esta mediocridade?

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Tesouros da Sétima Arte - Eric Rohmer


Escolhi celebrar o trabalho do diretor francês Eric Rohmer, abordando meus dois filmes favoritos em sua filmografia, ambos de seu ciclo de “Comédias e Provérbios”. Ele era um homem religioso, um católico fervoroso, destoando dos seus colegas questionadores de “Cahiers du Cinéma”, procurando sempre captar Deus na natureza e nas longas conversas casuais dos homens. Sua simplicidade não é favorecida por análises frias, sua obra deve ser abraçada e devemos desfrutar da companhia de seus personagens, sem a postura calculista de alguém que procura dissecar cada movimento. Eu acredito que ele merecia ser mais reconhecido pelos cinéfilos brasileiros, por isso resgato esses “Tesouros da Sétima Arte”.


O Raio Verde (Le Rayon Vert – 1985)
Poucas vezes a solidão foi tão bem retratada pela Sétima Arte. Delphine (Marie Rivière, responsável também pelo roteiro) percebe que está chegando o momento de relaxar em suas férias, mas ela definitivamente não está ansiosa para enfrentar a si própria, longe dos afazeres rotineiros e ritualísticos de seu emprego como secretária. Ela não consegue manter relações com os rapazes por medo de se doar. Ao desviar o olhar do reflexo no espelho e tentar encontrar um sentido para sua existência no mundo externo, a jovem não enxerga os vários flertes que atrai, acreditando-se cada vez mais desinteressante. Diferente das protagonistas usuais do diretor, fala pouco e de forma desajeitada, pois (como ela mesma diz) possui problemas em se expressar. O ato requer entrega, o “abaixar de escudos”, em suma, tudo que ela teme. Por manter-se distante de todas as convenções sociais, torna-se um elemento puro, que não se sente adaptado para o mundo corrupto em que acredita estar inserido. Não é por coincidência que, ao final, revela-se o livro que ela passou o filme inteiro lendo: “O Idiota”, de Dostoiévski.

Delphine só intenciona modificar seu “modus operandi” ao encontrar Lena, uma desinibida garota sueca, sua perfeita antítese. A genialidade do roteiro se insinua nesse ponto, quando começamos a nos questionar se realmente queremos ver a protagonista encontrando um namorado. O certo não seria torcermos para que ela saia da apatia e se imponha na vida como ser humano? Ao direcionarmos nosso desejo ao encontro da satisfação confortável de um ritual social com qualquer estranho, não estamos desrespeitando-a como mulher? Queremos que Delphine se torne Lena? No brilhante terceiro ato, começamos então a entender o ponto de vista da protagonista, sua aversão aos papéis limitantes que a sociedade impõe às mulheres. E então, num toque de pura sensibilidade, Rohmer nos faz admirar o fenômeno meteorológico do “raio verde” no horizonte, o que faz com que no preciso momento (aos olhos do escritor Julio Verne) a pessoa passe a enxergar magicamente seus sentimentos e os dos outros. Ela então, como não havia feito antes, sorri com a naturalidade de uma criança que vê o mundo pela primeira vez.


Pauline na Praia (Pauline à La Plage – 1983)
A praia é o microcosmo de Pauline (Amanda Langlet), uma menina de 15 anos que inicia a obra como espectadora, como uma de nós. Com o auxílio do sistema narrativo do diretor, pontos de vista trabalhados pelos contornos geométricos que enfatizam os personagens pela sua movimentação em cada quadro, somos voyeurs com permissão de explorar os ambientes. Sorrimos ao testemunhar o escapismo inerente aos seus primeiros flertes românticos. Sua prima mais velha, uma mulher de rara beleza (um personagem chega a compará-la a uma escultura), determinada a vivenciar paixões intensas com total liberdade. A menina aparenta imaturidade ao lado dos adultos. Mas a ilusão termina ao percebermos que ela possui uma visão muito mais realista dos relacionamentos amorosos, até mesmo cínica.

Em pouco tempo, começamos a identificar a prima mais velha como a de mentalidade adolescente fútil, enquanto nos surpreendemos com a segurança e a personalidade forte da menina. Esse contraste, habilmente trabalhado por Rohmer, vai de encontro ao “leitmotiv” da trama: quem muito fala, prejudica a si mesmo. O roteiro estabelece um cenário formado por mentirosos (não irei revelar a trama em respeito aos que não assistiram). Uma farsa envolve todos os personagens, ferindo aqueles mais puros. E Pauline, mesmo sendo a vítima maior da insensibilidade com seus sentimentos, termina por se mostrar madura emocionalmente o suficiente para entender o valor do silêncio, do “deixar pra lá”. Por mais que todos tentem ensiná-la sobre a vida e sobre o amor, ela é quem acaba dando uma aula para os ingênuos, irresponsáveis e inseguros adultos. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Versão Brasileira


A dublagem brasileira é de forma justa reconhecida como a melhor do mundo, pois se fundamenta em uma laboriosa adaptação, uma “versão brasileira”, diferente da que é realizada pelo mundo afora, onde por vezes o profissional sequer se preocupa com a entonação ou em “seguir os lábios” do artista. Aqueles que acompanham esta área, devem se lembrar do movimento #DublagemNÃO (assim como outras demonstrações de deselegância em menor escala) e da polêmica que causou nas redes sociais. Sempre defendi essa Arte e estes valorosos profissionais, assim como a necessidade de uma coexistência harmônica entre as opções (dublagem e legendas) nas salas de cinema. Eu não seria irresponsável a ponto de induzir meu público ao crasso erro do simplismo, apelando para argumentos pobres como: “quem assiste dublado, não gosta de ler” ou “quem assiste dublado é preguiçoso”. Reduzir o complexo ser humano a estereótipos tão banais, desrespeitando o direito de escolha de todos, seria um atestado público de ignorância, pedantismo e ignóbil arrogância.

Com muita honra, aceitei o convite que me foi feito pela organizadora (a dubladora Maíra Góes), de escrever o texto que abriu o evento "Primeiro Prêmio da Dublagem Carioca", tendo sido lido pelo sensacional Jorgeh Ramos (o grande público o conhece como “a voz dos trailers” e como a voz de Scar em “O Rei Leão”). Nunca imaginei que um dia um texto meu seria lido por esse profissional, que por tantas vezes me apresentou este mundo mágico em minha infância. Como homenagem a este ótimo momento que a dublagem está passando, mas acima disso, como minha homenagem pessoal a esta Arte, resgato aqui dois textos que escrevi (muito antes de sequer imaginar que viria a fazer o curso de dublagem de Flavio Back, conhecer esses profissionais e ter a honra de ser querido por eles) sobre essa função que merece reconhecimento e respeito.

A Arte da Dublagem
Os americanos não possuem o hábito de assistir filmes com legenda ou dublados e para ser bem sincero, grande maioria do povo americano desconhece a existência de qualquer filme que seja feito fora de seu país. Já os brasileiros cresceram escutando seus heróis de Hollywood falando em nossa língua, graças ao trabalho exemplar de nossa equipe de dubladores. Temos os melhores profissionais nesta área e somos reconhecidos como os melhores do mundo. Mesmo assim, existe por parte de muitos cinéfilos um total desrespeito aos que ganham a vida dando voz a nossos sonhos. Os argumentos que mais escuto são os óbvios: “filme dublado é para criança” e “prefiro ouvir o artista original”. Mas será que desconhecem a arte de quem dubla? Por mais que alguns estúdios joguem contra seus próprios critérios, convidando artistas de TV para exercer um trabalho para o qual não possuem nenhum preparo, existem profissionais que engrandecem a obra em que atuam. Não digo que o cinéfilo deve apenas escutar a versão dublada, porém respeitem o profissional e sua nobre função. Em muitos casos, o dublador realiza um trabalho tão bom quanto (ou até melhor) que o ator original. Profissionais como Márcio Seixas, que a meu ver consegue abrilhantar o trabalho de Leslie Nielsen na série: “Corra que a Polícia Vem Aí!”. André Filho fazendo a voz de “Superman” consegue emular com perfeição Christopher Reeve, até lhe conferindo um ar mais seguro. Como “Rambo”, acredito que ele atue melhor (inserindo maior modulação vocal) que o próprio Stallone. Basta ouvir o discurso final do personagem em “Rambo 2 – A Missão” e comparar com a versão dublada por André Filho. Ricardo Schnetzer como Richard Gere e Tom Cruise realiza um trabalho estupendo. Ainda conseguindo a proeza de dublar Jim Carrey. O que falar de Orlando Drummond (respeitado no mundo inteiro), Guilherme Briggs, Vera Miranda, Mônica Rossi, Christiano Torreão, Manolo ReyMabel Cezar, Maíra Góes, Alessandra Araújo, Nizo Neto (eterno Ferris Bueller, tão influente que os fãs conseguiram fazer a distribuidora relançar o DVD do filme com a dublagem) e Mário Jorge, que consegue transformar Eddie Murphy em um gênio da comédia. O que ele faz com Murphy (especificamente em “O Rapto do Menino Dourado”) e com o Steve Guttenberg (Mahoney) em “Loucademia de Polícia” é merecedor de um prêmio. Sendo bem sincero, prefiro assistir Murphy dublado. Como desvalorizar o trabalho de Marcelo Gastaldi, que eternizou as vozes de “Chaves” e “Chapolin” (criações do genial Roberto Gómez Bolaños) de tal maneira que se torna impossível aceitar sua ausência. O mesmo se pode dizer de Carlos Seidl, como o inesquecível “Sr. Madruga“. Nelson Machado é extremamente respeitado pelos fãs como a voz do personagem “Kiko”. Seu trabalho vocal supera por vezes o do ator original: Carlos Villagrán. Como desvalorizar o trabalho árduo destes profissionais que citei no texto e de tantos outros tão bons quanto? Dublar no Brasil (onde se realiza uma “versão brasileira”) não é somente inserir uma voz.

Assistir um filme dublado e prestigiar o esforço valoroso destes profissionais não impede que continuemos dando o valor merecido aos atores originais. Trata-se de um preconceito completamente tolo. Digo que existem certos filmes e séries que eu adoro assistir dublados, como por exemplo: “Os Caça-Fantasmas”, os já citados filmes antigos de Eddie Murphy, “Loucademia de Polícia” e “Curtindo a Vida Adoidado”. Não por pura nostalgia, mas por constatar que os dubladores nestes casos conseguiram atingir um grau de excelência que, em determinados aspectos, supera os esforços dos atores originais. Parabéns a esses profissionais, por terem feito possível a muitos cinéfilos terem seus primeiros contatos com a nossa amada Sétima Arte, com tamanha qualidade e dedicação.

A Importância da Dublagem
Lendo novamente polêmicas acerca da dublagem, vejo-me na obrigação de tocar novamente neste assunto, esperando que estejamos rumando para uma época em que o respeito seja a palavra de ordem. Já escrevi textos sobre este assunto, mas acho interessante (mais que isso, essencial) reiterar e propor uma nova compreensão a respeito da dublagem e seus profissionais. Pessoas públicas ou que falam para um público, deveriam ter a consciência de que são formadores de opinião. Ferramentas modernas como o Twitter proporcionam (àqueles que possuem tempo disponível para tal) um campo fértil para declarações polêmicas, pois em poucos caracteres, o simplismo normalmente é a via mais utilizada. Radicalismos como #OdeioDublagem ou #DublagemNAO chamam muita atenção, causando discussões infrutíferas (normalmente entre adolescentes ou adultos imaturos), pois nascem de um argumento frágil e tolo.

Eu fiz um curso de dublagem, motivado pelo desejo de entender como funciona este trabalho. Saí respeitando ainda mais esses profissionais. Hoje, entendendo melhor os meandros desta profissão, consigo enxergar os maus profissionais, os estúdios picaretas que realizam um trabalho porco (e mais barato) e as péssimas iniciativas, como (por exemplo) convidar artistas de televisão, sem experiência alguma na área, para encabeçar personagens (os chamados “bonecos”) importantes. Graças a esses erros, forma-se em grande parte da população este preconceito, alimentado vez ou outra por formadores de opinião irresponsáveis, que parecem se nutrir de pequenas polêmicas.

Os idosos, aqueles que não conseguem acompanhar as legendas ou que simplesmente tem preguiça de acompanhá-las, as crianças e aqueles que admiram a dublagem (mesmo fluentes em línguas estrangeiras) nunca são levados em consideração pelos causadores dessas polêmicas. Esquecem que eles próprios (provavelmente) iniciaram seu amor pelo cinema com o auxílio destes profissionais. Parecem não aceitar que para aqueles que não dominam uma língua estrangeira, o conteúdo das legendas (por mais bem trabalhadas que sejam) falham em sintetizar com perfeição o que os atores dizem em cena, escravos dos poucos caracteres. E ignoram os erros de traduções nas legendas, que são muito mais comuns e podem distorcer completamente o sentido de uma cena. Esquecem também das boas dublagens que conseguem melhorar o original. Você consegue imaginar “ALF” sem a dublagem do genial Orlando Drummond? E o John Travolta de Mário Jorge? O Richard Gere de Ricardo Schnetzer? O Stallone do saudoso André Filho? O eterno “Chaves” do também saudoso (e insubstituível) Marcelo Gastaldi? O Bruce Willis do saudoso Newton da Matta? O “Homer Simpson” de Waldyr Sant’anna? O “MacGyver” de Garcia Jr.? O “Baby” (Família Dinossauro) de Marisa Leal?

Válido é criticar (duramente) os maus profissionais da dublagem, as distribuidoras que se vendem aos estúdios mais baratos e as dublagens ruins criadas pela junção destes fatores. Mas desrespeitar esta função nobre e o legado de profissionais pioneiros como Herbert Richers e Carlos de La Riva é prova de ignorância e acima de tudo, injusta deselegância com profissionais que já sofrem diariamente ataques tolos, desferidos (em grande parte) por “molecotes” (independente da idade) que a mídia irresponsavelmente incensa, formadores de opiniões mal embasadas. Respeito. Você pode não gostar de comer pizza, mas respeite aqueles que gostam. Você pode não gostar de assistir filmes dublados, mas respeite aqueles que gostam e, mais ainda, os profissionais que dedicam suas vidas a este trabalho. Eu sou fluente em inglês (não leio legendas em filmes dessa língua), mas adoro assistir também os filmes dublados, quando são bem dublados, por equipes de alta qualidade. Uma coisa não desmerece a outra, então qual a razão de tanto radicalismo? Você pode assistir Tom Cruise no original e depois aplaudir o trabalho fantástico de Ricardo Schnetzer, inclusive descobrindo admirado que por muitas vezes, a dublagem fica tão boa ou melhor que o original. Eddie Murphy (por exemplo) eu prefiro assistir na voz de Mário Jorge. Finalizando gostaria de deixar claro que minha intenção não é “aplaudir” a dublagem como um todo, cegando-me perante os erros cometidos. Respeitemos esta arte e estes profissionais. Como formador de opinião, eu não posso irresponsavelmente (e infantilmente) “jogar lenha” em uma “fogueira” que já se alastra por vários anos, mas sim informar ao meu público sobre a função e a importância da dublagem.

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O segundo texto apresentado aqui foi escrito em um momento turbulento, em que havia ataques frequentes à dublagem nas redes sociais. A maioria dos argumentos eram “ditatoriais”, exigindo a extinção desta ferramenta, porém muitos reclamavam apenas de um crescimento expressivo da dublagem nas salas de cinema (deixando o público sem a opção das legendas, o que considero obviamente um erro), chegando a criarem um movimento mais sensato: #Dublagem(sem opção)NÃO. O que está ocorrendo é uma resposta aos vários anos em que os exibidores somente viabilizavam a dublagem nas animações e filmes infantis. Com certeza esta “balança” se equilibrará muito em breve, possibilitando a todos optarem por sua preferência. O que nunca é válido ou eticamente aconselhável é “acender uma fogueira medieval” baseando-se em argumentos simplistas (como “quem assiste dublado, não gosta de cinema”), rasteiros, ofendendo a parcela do público cinéfilo que prefere, ama ou necessita desta ferramenta.
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Finalizo a postagem dedicada aos profissionais dessa Arte, com o texto que escrevi para a abertura do "Primeiro Prêmio da Dublagem Carioca". Foi lido por Jorgeh Ramos, com uma edição de vídeos primorosa. 

O caminho da dublagem foi árduo. A revolução do som iniciou-se na América com “O Cantor de Jazz” de 1927, mas foi apenas em 1929 que esta ferramenta foi utilizada em sua plenitude, no filme “Luzes de Nova York”. O cinema mudo tornava fácil a universalidade de seus produtos, pois bastava traduzir as cartelas de diálogos para qualquer idioma, porém com o advento do cinema falado, fazia-se necessária maior mão de obra. Na Europa, o método das legendas não foi bem aceito, fazendo com que o cinema americano tivesse que trabalhar dobrado, realizando por vezes produções em dois ou mais idiomas ao mesmo tempo, utilizando os mesmos cenários, mas nem sempre os mesmos atores e diretores. Clássico é o exemplo do “Drácula” de 1931, onde Bela Lugosi vivia o conde para o público americano, enquanto Carlos Villarías mordia jugulares na versão espanhola. Obviamente este processo era incrivelmente trabalhoso e economicamente inviável, logo os produtores perceberam que não era o melhor caminho a ser seguido.

Os europeus até hoje estão acostumados com a dublagem dos filmes estrangeiros em seus cinemas. Diretores como Fellini e Pasolini afirmavam sua preferência à dublagem, assim como o mestre do cinema Neo-Realista Italiano Roberto Rossellini, que com uma exceção, preferiu que todos os seus projetos fossem dublados, e quase sempre por vozes de outros atores que não aqueles que apareciam na tela. O público italiano (e o europeu em geral) faz questão de ouvir seu próprio idioma nas telas de cinema, como na moderna obra prima de Tornatore: “Cinema Paradiso”, em que todos os atores americanos foram dublados no idioma pátrio. No Brasil, o diretor Nelson Pereira dos Santos era o responsável por todas as dublagens dos filmes do mítico Stanley Kubrick.

No Rio de Janeiro elegante da década de cinquenta, a dublagem ainda não era uma realidade possível, quando em 1955 foi realizada a primeira gravação em acetato na Rádio Nacional, da radionovela: “O Romance da Eternidade”. Extremamente trabalhoso, não se podia conjecturar qualquer erro, pois qualquer deslize cometido sacrificaria todo o trabalho que teria de ser refeito do início. Uma hora e meia sem pausas e com 80 atores da própria rádio, um sonoplasta e um operador, todos juntos no mesmo ambiente.

Nos estúdios do laboratório carioca de cinema: CineLab, ainda na década de 50 encontravam-se os pioneiros Milton Rangel, Luis Manoel, Carlos Macchi, Domingos Martins, Rodney Gomes, Maria Alice Barreto (que dublou “Branca de Neve”), Jefferson Duarte, Ribeiro Santos, Joaquim Motta, Paulo Goulart, Nicete Bruno, Nathalia Timberg, Hugo Carvana, Roberto Maia, Sonia Morais, Claudio Cavalcante e Francisco Milani, por exemplo. Problemas poderiam ocorrer, como quando após muitos ensaios e no meio de uma gravação, acabava-se o carvão de uma lâmpada. Sim, pois na época não havia eletricidade suficiente para gerar a energia necessária para esta atividade. Após serem obrigados a aguardar quinze minutos pela troca do carvão, os profissionais retornavam à gravação. Somente com a inclusão da lâmpada de alogênio é que o processo se simplificaria. Em 16 milímetros existia um processo, onde após a edição e a mixagem, pegava-se aquele som já trabalhado e passava-se para a trilha musical do filme, para somente depois ir para o laboratório, que fazia a junção da imagem e do som em uma fita, chamada master. Durante cerca de vinte anos (o tempo que durou o processo de 32 e 16 milímetros), realizar a dublagem era um exercício hercúleo de paciência e dedicação extrema.

O U-Matic (similar à fita Beta, porém com som analógico) veio na sequência. Era uma máquina que só tinha uma pista de gravação, o que tornava muito difícil gravar as bandas duplas. A solução encontrada era dublar tudo em um canal, que depois era integrado ao ME (música e efeitos), onde na mixagem se juntava às vozes. Este processo de gravação conjunta perduraria várias décadas até o advento da DA, que possibilitava com seus oito canais a gravação individual de cada profissional. Antes disto, caso houvesse a necessidade de fazer uma cena com dez personagens, dez profissionais haveriam de estar gravando juntos.

Herbert Richers e Victor Berbara eram sócios neste período inicial, até a dissolução da sociedade, que levaria Herbert a criar seu próprio estúdio, enquanto Berbara seguiria distribuindo filmes em sua VTI Rio. Herbert Richers iniciou como produtor nas clássicas chanchadas da Atlântida, porém buscava o know how dos americanos, procurando sempre trazer para o Brasil as mais modernas melhorias técnicas. Sendo amigo de Walt Disney, ele transitava nos estúdios de Hollywood, onde acabou ficando a par das novidades tecnológicas da dublagem, trazendo todo este conhecimento para o Rio de Janeiro.

Outro nome essencial nos alicerces desta arte é Carlos de La Riva. Ele era um jovem apaixonado por cinema em Barcelona. Seu pai (Carlos de La Riva Tayan) havia sido o fundador da rádio espanhola e acabaria criando o primeiro estúdio de dublagem em seu país. Após seu falecimento, seu filho é contratado pelos americanos com a nobre missão de trazer a dublagem pro Brasil. Quando chegou, recebeu a ajuda de Wilson Vianna (o eterno “Capitão Aza” e “Tarzan” do cinema mexicano), que o auxiliou na adaptação à língua e aos costumes de nossa terra. Anos depois e já completamente imerso nesta cultura, Carlos decidiu dar o próximo passo e fazer um estúdio (com o canadense Ralph Norman), já que além de trabalhar como mixador para os americanos, o pró-ativo rapaz já estava ensinando a técnica da dublagem aos atores da época. Em meio a um período turbulento nacional (o golpe militar), nascia a Rivatom.

Acompanhado por Telmo Avelar (o representante da Disney no Brasil), esteve à frente de marcos na área como “Branca de Neve” e “Bambi”. Carlos ensinava a técnica do som direto, que não era comum no cinema nacional, assim como ajudou Walter Goulart a lidar com a sonoplastia. Após o fim da sociedade com Norman, ele abre a TecnicSom (que ficava dentro do Museu de Arte Moderna). Na década de 70, um incêndio atinge o MAM, porém o estúdio manteve-se intacto (os deuses da dublagem estavam presentes). Carlos deslocou-se então para o Catumbi, e como um eterno apaixonado pela Sétima Arte, participou da Cooperativa Brasileira de Cinema, com grandes cineastas da época. Anos depois, reuniu-se novamente com Walter Goulart, criando a Delart.

A dublagem em seu início era artesanalmente conduzida pela criatividade dos envolvidos. Não havia forma de criar efeitos mecânicos, como a variação do som de uma pessoa a falar no telefone, portanto o profissional tamparia o seu nariz e estava feito o truque. Se o roteiro pedia que o personagem falasse enquanto se distanciasse da cena, o dublador tomaria distância progressivamente do microfone, chegando a sair de sua cabine de gravação, para obter o efeito necessário. Não havia controle sobre as horas trabalhadas, o que levava quase sempre a gravações que adentravam as madrugadas, tudo no intuito do aperfeiçoamento das cenas. Todo o esforço era recompensado de forma amigável, com os diretores pagando aos profissionais o valor que consideravam justo. Hoje em dia este panorama está modificado, com regulamentos com relação aos horários e aos valores, pagos pelos vinte segundos que consistem cada loop.

Nossa viagem no tempo passa por vários estúdios cariocas importantes, como a Riosom (depois nomeada “Peri Filmes”), a Dublasom (de Ribeiro Santos e Nilton Valério), a Cinecastro (que depois daria origem a Tele Cine), Cine Video, TV Cinesom, a Rio Som (depois absorvida pela Dubla Som), a Rivatom (depois nomeada Delart), além das já citadas Cine Lab e Herbert Richers. A dublagem foi uma ferramenta criada para suprir a necessidade das televisões em exibir produtos estrangeiros, já que não existiam as legendas. De ferramenta, tornou-se uma refinada Arte, que encontrou no Brasil o justo reconhecimento mundial por sua excelência.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Saudade de Mazzaropi


O jovem brasileiro que hoje, devido às facilidades de um mundo moderno, adquire uma câmera de vídeo, junta suas ideias em um roteiro e as filma, carrega dentro de si (mesmo sem saber) a chama inspiradora de Amácio Mazzaropi.

As crianças que acompanhavam seus pais nas suas pomposas estreias nas décadas de sessenta e setenta, não haviam testemunhado o auge dos estúdios “Atlântida” e “Vera Cruz”. Para elas, cinema era coisa de Hollywood, uma cara brincadeira de americanos e europeus. O cinema nacional amargava seu pior período, vivendo a ressaca de décadas em uma busca desesperada por identidade. As chanchadas da “Atlântida” divertiam, realizando verdadeiros milagres com seus escassos recursos (incluindo equipamentos de segunda mão), porém eram essencialmente paródias mal acabadas de sucessos americanos. Já na época da “Vera Cruz”, existia um desejo de que as obras refletissem o povo brasileiro, com filmes autorais (e qualidade técnica superior aos de outrora). O grande problema é que suas produções continuavam se tratando de grandes cópias do estilo americano e europeu, como “O Cangaceiro” (bebia da fonte dos Westerns). Inegável sua importância, porém também não se pode negar que se tratava de uma canhestra busca por uma identidade nacional cinematográfica. Levando em consideração que o “Cinema Novo” também parasitava tremendamente as produções europeias da época (o neo-realismo italiano e a nouvelle vague francesa, especialmente), podemos de maneira justa afirmar que, até poucas décadas atrás, o único cinema genuinamente brasileiro foi o de Mazzaropi.

Amácio iniciou em produções da “Vera Cruz” e acabaria se apropriando de seus estúdios (em 1958, após sua falência), formando sua própria produtora: “PAM Filmes”. Essas produções eram tecnicamente falhas, com algumas atuações fracas e enredos simples, porém realizados com extrema paixão. O público sentia isso e lotava os cinemas. Famílias viajavam por horas e aguentavam filas enormes, apenas para assistir uma hora e meia do puro humor caipira. Obras populares feitas com dinheiro do próprio bolso do cineasta, filmadas na maioria das vezes em sua própria fazenda. Produtor de si mesmo, ele conhecia muito bem seu público e o respeitava. A crítica especializada (atenta aos erros técnicos, porém cega perante sua importância para a necessária formação de uma indústria) tratava-o como escória a ser pisoteada a cada ano. Em entrevista para a revista “Veja” no início da década de setenta, amargurado afirmou: “conte minha verdadeira história, (…) de um ator bom ou mau que sempre manteve cheios os cinemas. (…) Que nunca recebeu uma crítica construtiva da crítica cinematográfica especializada – crítica que se diz intelectual. Crítica que aplaude um cinema cheio de símbolos, enrolado, complicado, pretensioso, mas sem público. A história de um cara que pensa em fazer cinema apenas para divertir o público, por acreditar que cinema é diversão e seus filmes nunca pretenderam mais do que isto”.

A realidade é que mesmo sendo um cinema barroco, simples e ingênuo, longe dos padrões de qualidade que a crítica costuma buscar, existe algo no cinema de Mazzaropi que nenhum outro cineasta brasileiro (mesmo os mais estudados) conseguiu alcançar. Talvez nem o próprio soubesse discernir este elemento, que atraía seu público e que o mantém vivo até hoje. Basta olhar seus filmes e em poucos minutos descobre-se tal elemento: Raça. Garra. A habilidade invejável de virar as costas para os detratores e seguir seu caminho, realizando exatamente o que seu coração deseja.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Jerry Lewis - Um Diretor Subestimado


Joseph Levitch nasceu em um berço de artistas. Seu pai, Danny Lewis era um ator de Vaudeville e sua mãe Rachel Levitch tocava piano para uma estação de rádio local. Desde os cinco anos de idade já gostava de fazer os outros rirem e aos quinze já havia criado uma brincadeira que viria a ser usual em seus projetos futuros, acompanhar com gestos exagerados uma música. No início da década de quarenta formou parceria com o cantor Dean Martin. Em uma época onde o humor era burlesco e formado por esquetes baseadas em uma ação única (mais ou menos como o atual programa global: “Zorra Total”), direcionado a um público mais simplório, Martin e Lewis traziam em sua bagagem uma forte carga de ironia e anarquia, escondidos por trás de duetos nada harmônicos onde Lewis, que cantava muito bem na vida real, forçava sua voz a ponto de torná-la um tormento aos ouvidos, enquanto inseria trechos cômicos nas melodias de seu parceiro. Outra inovação era o formato de humor livre, baseado apenas na interação e nos improvisos da dupla, algo que marcou profundamente o show business da época e modificou tudo desde então. 

Hollywood se apoderou da dupla e os colocou em uma fórmula vencedora, mesmo que aprisionada por vários clichês. Sempre haveria o momento onde o galã Dean cantaria uma bela canção de amor e um espaço reservado para o talento de Lewis brilhar sozinho (é nesse momento que ficava claro quem era o real gênio por trás da dupla). Meu filme favorito nessa parceria é "O Marujo foi na Onda" (Sailor Beware - 1952). Enquanto Martin sempre foi um ótimo crooner que conseguia ser engraçado, Lewis era extremamente engraçado naturalmente e conseguia cantar, fazendo muito bem as duas coisas. Desde o início tentava expandir os limites do humor, trazendo novas maneiras de se conseguir uma gargalhada, seja por gestos exagerados, caretas ou intrincadas cenas realizadas perfeitamente, demonstrando excelente timing cômico. Os dois eram amigos fora das telas, porém o ciúme profissional e a crescente popularidade de Lewis fizeram com que Martin desfizesse a parceria após mais de quinze filmes. Os dois ficaram décadas sem se falar, até que um amigo em comum, Frank Sinatra, colocou-os frente a frente, para a comoção de uma surpresa plateia em um Telethon apresentado por Lewis em 1976. Naquele dia ficou notório o quanto os dois realmente se gostavam e haviam amadurecido. No final da década de cinquenta, já sem a companhia de Dean, Lewis continuou carreira nos estúdios Paramount. Foi nessa época que sua genialidade encontrou o equilíbrio perfeito, dando luz a obras-primas eternas e reverenciadas até hoje.

Em 1960 tomou o comando de sua primeira produção com total poder criativo, originando o clássico: “O Mensageiro Trapalhão” (The Bellboy) onde interpreta um mensageiro de hotel que não fala uma palavra durante toda a projeção, porém realiza as maiores trapalhadas. Seu trabalho nesta obra faz referência a astros do humor como Jacques Tati, Chaplin e Stan Laurel (seu grande ídolo e amigo), sendo na realidade uma linda homenagem ao cinema do gênero. Nesta pequena obra está contido o amálgama de tudo em que Lewis acreditava, com facetas de vários estilos de humor, o grotesco, físico, inteligente, cínico e o infantil, ingênuo e inocente. Sempre lembrado como ator, poucos valorizam seu trabalho como diretor. Sua originalidade na construção do cenário inovador de "O Terror das Mulheres", já bastaria para reverenciarmos sua ousadia. Ele também criou um artifício que muitos operadores de câmera hoje em dia nem fazem ideia que foi ele o inventor. Até aquele momento, o diretor filmava as cenas e tinha que esperar vinte e quatro horas para poder visualizá-las. Lewis, procurando resolver esse problema, patenteou um sistema onde colocava uma câmera de vídeo ao lado da câmera de filmagem, os dois compartilhando a mesma imagem. Assim ele poderia voltar e ver sua cena sempre que quisesse, realizando pequenos ou grandes ajustes. Esse protótipo hoje recebe o nome de “Assistente de Vídeo”, sendo presença obrigatória em todos os sets de filmagem.

Outras obras primas seguiram-se, como: “O Terror das Mulheres” (The Ladies Man), “O Mocinho Encrenqueiro” (The Errand Boy) e o insuperável “O Professor Aloprado” (The Nutty Professor). No filme de 1964: “O Otário” (The Patsy), foi o responsável por mais uma inovação cenográfica, quando ao final, as câmeras se distanciam deixando exposto que aquilo tudo era um estúdio de gravação. Ele se mostra, não como o personagem, mas sim como o diretor Jerry Lewis, desconstruindo o sonho da maneira mais engraçada possível. Fellini fez parecido em “E La Nave Va”, quase vinte anos depois, e foi considerado original. Jerry já havia ousado muito antes. 

Jerry dedicou sua vida em uma luta a favor das vítimas de distrofia muscular, realizando anualmente programas televisivos que buscam angariar fundos para a causa, os já citados Telethons. Ao final de cada apresentação emocionava-se cantando a clássica: “You´ll Never Walk Alone” (Você Nunca Andará Só). Em suas lágrimas, o comprometimento de uma vida dedicada à Arte, ao aprimoramento constante de seu ofício e sua incrível generosidade.

"Ensina-me a Viver", de Hal Ashby


Ensina-me a Viver (Harold and Maude - 1971)
A sensível história, um elegante manifesto de liberdade, foi o primeiro trabalho do roteirista e diretor Colin Higgins, que conseguiria ainda outro sucesso (ainda que não na mesma proporção) com o roteiro de “O Expresso de Chicago” (Silver Streak – 1976), o veículo que apresentou ao mundo a química que havia entre Richard Pryor e Gene Wilder. A direção de Hal Ashby envolveu a obra com uma ternura ímpar. Em nenhum momento questionamos a veracidade do sentimento do casal. 

O olhar zombeteiro que Harold direciona a nós, após assustar sua primeira pretendente, com o acompanhamento dos primeiros acordes da canção “I Think I See The Light” (excelente trilha sonora de Cat Stevens), marcou-me profundamente quando assisti pela primeira vez, ainda na pré-adolescência. Acredito que tenha sido a primeira vez que assisti algum personagem quebrar a quarta parede (sem contar com o sorriso de Christopher Reeve ao final de “Superman”), ainda que não soubesse que aquele ato era chamado dessa forma, achei incrível. Anos depois descobri que este momento não estava no roteiro, tendo sido inteligentemente improvisado pelo ator Bud Cort em cena.

Tantos momentos que ficam marcados em nossa memória emotiva. O garoto que vivia desafiando a morte numa valsa cômica, acorrentado aos anseios mediocrizantes de uma mãe fria (que belo momento, quando o jovem assusta-a com um simples abraço, complementando simplesmente com: “Isto é só um abraço”) e excessivamente preocupada com o que os outros irão pensar de sua própria vida. O encontro com a senhora septuagenária, vivida por Ruth Gordon, sobrevivente de um campo de concentração nazista, que se recusa terminantemente a abraçar sua finitude. A crítica divertida, mas contundente, aos militares e às guerras, simbolizada na genial cena em que, intencionando fugir do serviço militar proposto por seu tio, o jovem simplesmente demonstra seu excessivo apreço pela violência nos campos de batalha.

O amor que nasce às margens das exigências sociais, entre um senhor adolescente e uma jovem idosa, ambos compartilhando aprendizados sobre a vida, a morte e a importância da tenacidade perante a ignorância, que na vida de Harold era simbolizada (além da mãe) pelo representante do clero e o defensor da psicologia, profissionais tão viciados em seus próprios dogmas, que se mostram incapazes de reagirem naturalmente ao elemento mais natural do falível ser humano: O amor. Ao resistir, o garoto demonstra ter se tornado um homem, enquanto sorri para os caricatos e infantilizados adultos que o circundam, tão cheios de si e vazios dos outros.

Fellini no Divã


Federico Fellini expressava em sua arte algo muito pessoal. Assistindo os seus filmes conhecemos o homem por trás das câmeras, o nome por trás do mito. Diferente dos projetos biográficos, suas qualidades e boas ações são minimizadas, dando espaço aos defeitos e falhas. Suas fraquezas são expostas sem medo do julgamento. Nós nos tornamos seus analistas, enquanto o cineasta narra suas angústias deitado em um divã. Esse texto não pretende contar a vida de Fellini, pode ser visto mais como uma breve conclusão de um analista sobre um paciente. Começo citando uma cena de uma obra que não está na minha lista de favoritos, mas acho que ela sintetiza magistralmente as intenções de Fellini. Em “E La Nave Va” (1983), duas moças estão no convés de um navio admirando o sol que já desce na linha do horizonte. O diretor deixa claro para nós os materiais usados para criar aquele entardecer, você nota que as moças estão sobre um estrado de madeira, sobre um tapete de plástico enrugado cobrindo o chão. Na frente delas uma parede, com um meio disco vermelho alaranjado representando o sol, que brilha exibindo sua artificialidade, enquanto uma das moças comenta que a tarde está tão bonita que até parece de mentira.

Um de seus filmes mais belos é “A Estrada da Vida” (La Strada – 1954), onde ele se utiliza do cenário circense para mostrar o que resulta de um encontro entre a pura brutalidade, representada pelo rústico artista Zampano (vivido por Anthony Quinn) e a doçura inocente, papel que coube como uma luva nas mãos de Giulietta Masina e sua inesquecível Gelsomina. O choque entre ambos resulta em sequências que ficarão na memória do público eternamente, evidências de que a brutalidade necessita da doçura, assim como a doçura somente se faz percebida na presença da brutalidade. Um choque que representa claramente a angústia de um diretor que acreditava que teria apenas dez anos para produzir suas obras mais notáveis.

Além da angústia e desta eterna luta entre seu lado bruto e manso, podemos reconhecer em sua obra-prima “8 ½” (1963) o Fellini inseguro, que seu alter ego Guido (vivido por Marcello Mastroianni) tão bem personifica. O filme retrata a crise de criatividade de um cineasta que demonstra um esgotamento em seu estilo de vida e resolve se isolar para buscar inspiração. O próprio título nasceu desta insegurança, pois o autor já havia realizado oito projetos e não tinha a menor ideia do que iria fazer em seguida. Com a crescente pressão dos produtores, nasceu esse conceito instigante que culminou no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e homenagens como o musical “Nine”.

A sua frustração com a decadência da sociedade romana na década de sessenta o fez criar o genial “A Doce Vida” (La Dolce Vita – 1960). Mais uma vez falando pela boca de Mastroianni, o diretor abriu suas feridas e deixou-as expostas, assim como os olhos do enorme peixe que havia acabado de ser retirado do mar e que os participantes da festa hedonista (uma metáfora descarada da sociedade) correm para ver, com latente desejo sádico. No entanto, quando o personagem de Mastroianni, um jornalista de meia-idade, está para perder as esperanças no futuro, aparece uma menina angelicalmente inocente que chama por ele à distância. Como um toque de gênio, o personagem não consegue escutá-la, devido à algazarra no local.

Assim é o cinema de Fellini, uma constante busca por redenção e compreensão. Para nós, fica difícil explicar o que nos atrai em seus projetos, mas eu exemplificaria da seguinte forma: como em uma linda cena de “8 ½”, onde o protagonista que está preso em um trânsito insuportável dentro de seu carro, faz com que sua mente o leve voando por sobre a extensa formação de automóveis. Do alto e com o vento soprando seu cabelo, mal se ouve a balbúrdia de buzinas abaixo. Ele finalmente encontra a paz, mesmo que irreal. Um sentimento libertador. Ao escutarmos o relato de sua liberdade, nos sentimos capazes de, mesmo compartilhando a frágil existência humana, romper as barreiras e atravessar o trânsito da vida pelo alto.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A Violência em Filmes e Jogos Influencia a Violência na Vida Real?

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.” (Martin Luther King)

A sociedade caminha para um futuro de incertezas e violência. Basta ligarmos a TV para que percamos a esperança, se não são nossos jovens admirando produtos de pouca ou nenhuma qualidade, são os crimes e assassinatos horrendos. Há aqueles que colocam a culpa na violência exibida em filmes e jogos. A violência é inerente ao ser humano, canalizada serve a propósitos maiores, porém se aliada a uma total ausência de cultura, torna-se uma arma letal.

Em “Taxi Driver” de Martin Scorsese, podemos testemunhar a degradação mental do personagem de Robert De Niro, cada vez mais inconsequente em sua jornada. Insatisfeito com os rumos da sociedade, a qual ele vê como totalmente corrupta e vendida, decide fazer justiça com as próprias mãos e salvar ao menos uma alma, a da jovem prostituta, vivida por Jodie Foster. Em “Laranja Mecânica”, Stanley Kubrick nos apresenta um futuro composto de jovens descontrolados em sua fúria. Seu líder é apaixonado pela Nona Sinfonia de Beethoven (ideia genial do escritor Anthony Burgess), o que é extremamente contraditório com sua conduta. Após o seu tratamento torna-se incapaz de realizar qualquer ato violento, nem mesmo em defesa própria, assim como escutar sua composição favorita. No ótimo “A Outra História Americana”, temos o exemplo de um jovem (Edward Norton) que integra um grupo de neonazistas, preso após matar dois negros. Os preconceitos alimentados por sua família extremamente racista o transformaram ao longo dos anos em um sociopata. O racismo nada mais é que a ignorância cultural elevada à “enésima” potência. Um exímio matemático pode se tornar um psicopata. A violência atinge qualquer classe social. Mas nunca conheci um filósofo que tenha assassinado alguém. Acredito que quanto mais cultura geral uma pessoa tenha, mais difíceis são as chances dela cometer algum ato de violência extrema.

Hitler queimava livros. Os que faziam parte de sua biblioteca pessoal (Nietzsche e Schopenhauer) ele deve ter lido superficialmente, interessando-se apenas pela instrumentalização da filosofia. A cineasta alemã Leni Riefenstahl chegou a citar ter escutado do próprio ditador, que ele não conseguia entender as propostas de Nietzsche. Traduzindo em miúdos: ele era um estúpido que tentava passar uma imagem intelectualmente superior. Ousando utilizar a psico-história criada por Isaac Asimov em sua “Trilogia da Fundação”, baseando-me pela sociedade que vejo hoje, com os jovens que mundialmente consomem porcaria audiovisual e afastam-se cada vez mais dos livros (isso sem falar no avanço impressionante das manipuladoras religiões com contas bancárias no exterior), podemos esperar um futuro pleno em avanços tecnológicos e sem alma. Analogamente, tal qual um jogador de futebol de origem humilde, que de uma hora para a outra aumenta consideravelmente sua conta bancária, apenas para ostentar com brinquedos caros e relógios de ouro. Necessitamos de um futuro em que esses jogadores, ao receber estes salários altíssimos, percebam a oportunidade de crescer como seres humanos, adquirir cultura.

Do jeito que a coisa anda, o futuro é mais uma crônica de uma tragédia anunciada. E ainda me aparecem psicólogos oportunistas na televisão colocando a culpa da violência atual nos filmes e jogos. A culpa real pesa nos ombros dos pais que ensinam aos filhos pequenos, que se o coleguinha é de um time contrário ao dele, deve ser motivo de deboche. Naqueles que não instigam pelo exemplo o prazer pela leitura e pela busca de conhecimento. No pai que agride a mãe, física ou verbalmente, na frente do filho. Assistem “CQC” e se consideram politizados; leem psicografias e se consideram espiritualizados; fazem o sinal da cruz e se consideram religiosos; citam frases populares de filósofos cujos livros nunca leram e se consideram cultos. Divulgam nas redes sociais vídeos de danças bizarras, músicas de mau gosto e pessoas escorregando em cascas de banana, enquanto largam na obscuridade trabalhos belos (que por vezes são resultado do suor de equipes criativas e dedicadas). Salientam o grotesco e reclamam da ausência do que é belo. Esses são os seres humanos, sempre dispostos a se engajarem em causas nobres (quando em lugares públicos, onde isso possa lhes trazer notoriedade), porém incapazes de perdoar aquele motorista que sem querer lhes corta na estrada ou ajudar uma idosa a atravessar a rua.

O mundo seria melhor se o pai ao invés de presentear o filho com uma camiseta de time de futebol, desse a ele um livro. Ao invés de jogar a responsabilidade total nos ombros das escolas, sentasse com seu filho pré-adolescente e fizesse um festival de cinema em casa (como relatado no ótimo livro biográfico: “O Clube do Filme” de David Gilmour). Por intermédio da Sétima Arte e com a ajuda do pai, o jovem aprenderia sobre a história do mundo. Com “Patton – Rebelde ou Herói”, “O Mais Longo dos Dias” e “O Resgate do Soldado Ryan”, aprenderia sobre a Segunda Guerra Mundial. Logo após, veria as consequências da bestialidade humana em “O Pianista” e “A Lista de Schindler”. A riqueza cultural advinda de simples tardes valeria por anos de estudos universitários. A Sétima Arte é uma ferramenta cultural importantíssima. Caso quiserem respostas para o nível de violência que se alastra sem limites aparentes, olhem-se no espelho.

Nunca me esqueço do que ocorreu no evento paulista “virada cultural”, onde os organizadores convidaram José Mojica Marins para se apresentar como “Zé do Caixão” e abrir o show da banda de punk rock: Misfits. O cineasta de 75 anos foi colocado em um caixão preso a um guindaste, para das alturas poder se apresentar ao público e conduzir seu trabalho. Além dos vários xingamentos proferidos, os vândalos presentes acabaram jogando garrafas no cineasta, que lá de cima pedia desesperado aos organizadores que contivessem o público, inclusive informando que estava machucado e que um dos objetos quase o havia cegado. Revoltante assistir esta demonstração de violência gratuita com um senhor de idade avançada e que representa tanto para o cinema nacional. Mas o que mais me revoltou foi perceber que não existia o menor sinal de arrependimento nesses jovens, que ainda se vangloriaram depois no Twitter (recebendo a aprovação de outros marginais). Um recado para os pais irresponsáveis: tomem cuidado com os monstros que estão criando.

Enganam-se aqueles “politizados” que acreditam estar em uma decisão eleitoral o futuro da nação. Pouco importa quem ganhe, se o povo continuar preguiçoso e promovendo os maus exemplos. Hoje em dia não tem mais o falso glamour de grupos de “esquerda”, “direita”, pois todos roubam da mesma forma. Nenhum candidato irá cumprir nem 2% das coisas que prometem, já que o mais importante ato político não é utilizado. Política não é decidir votar em “X” ou “Y”, política é discutir assuntos que tem que ser discutidos, questionar crenças (sem medo de perder votos), tentar realmente modificar o ambiente em que habita e torcer para que seu exemplo insira em outros o desejo de fazer o mesmo. Isto sim, em longo prazo, pode trazer reais resultados. Existem pessoas de caráter e boas intenções, mas que ao serem inseridas no sistema político, visualizam duas opções: a "prostituição" ética ou continuarem lutando até serem “apagadas”, como queima de arquivo. Como o xerife Will Kane do faroeste “Matar ou Morrer”, sozinho em uma cidade de medrosos que lhe viraram as costas. São as pequenas decisões que nos tornam exemplos. Beber socialmente ou beber até cair, sorrir para os outros ou franzir a testa, dar valor à cultura ou celebrar a mediocridade. Se todos tentarmos agir assim, os políticos (e o sistema político como um todo) terão que se adequar a nós.

Correu o mundo na época, em todas as manchetes de jornais. Um jovem entrou fortemente armado em uma sessão do filme “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, promovendo uma chacina que tirou a vida de doze pessoas e deixou várias outras gravemente feridas. A mídia sensacionalista aproveitou a oportunidade e debateu sobre a possível relação entre este atentado terrorista e a violência no próprio filme (assim como fizeram à época, em um caso similar com “Clube da Luta”), questionando se deveria haver um limite no que pode ser mostrado em filmes e jogos eletrônicos.

A violência é inerente ao ser humano, um impulso primitivo que reside no inconsciente de cada um (até mesmo um notório pacifista como Gandhi), precisando ser disciplinada, nunca reprimida. A repressão utópica leva apenas ao descontrole emocional, que aliado a alguns fatores (como educação e cultura) pode agir como uma bomba-relógio pronta para explodir a qualquer momento. Freud acreditava que todos nós possuímos uma dupla personalidade, uma constante batalha entre o nosso inconsciente (id) e a consciência (superego) moral (que pode ou não, ser moldada pela crença em algo), onde o resultado mais satisfatório é sempre a coexistência harmônica, nunca a supressão de um pelo outro. Trocando em miúdos, trata-se do clássico caso do homem que nunca caminhou descalço e mostra-se incapaz de cruzar um deserto. Uma sociedade ascética, onde somente livros, jogos eletrônicos e filmes que inspirem paz e conforto são aceitáveis, não produziria menos assassinos que uma sociedade que aja de forma radicalmente contrária. Precisamos adentrar no cerne da questão, da forma mais objetiva possível: Quais os malefícios da violência mal disciplinada? Como um jovem de vinte e quatro anos pode entrar em uma loja e legalmente sair com um arsenal (incluindo colete à prova de balas, um fuzil AR-15, uma escopeta calibre 12, duas pistolas calibre 40 e 6.000 balas de munição), sem porte de arma? Questões que não são tão instigantes politicamente quanto reverberar a afirmação feita pelo jovem, de que ele era o “Coringa”. Ele poderia ter ido mais a fundo e afirmado ser também “Travis Bickle” (personagem de Robert De Niro em “Taxi Driver”), “Alex DeLarge” (Malcom McDowell em “Laranja Mecânica”), “Harry Calahan” (Clint Eastwood em “Dirty Harry”), “Tony Montana” (Al Pacino em “Scarface”) e qualquer outro personagem violento cuja história já foi contada pela Sétima Arte. Como se esquecer dos personagens que nasceram do universo literário, do gato “Tom” (da animação infantil “Tom e Jerry”) e de cada soldado que já participou de alguma guerra no mundo? O obrigatório dever militar reservado ao imaturo adolescente que acaba de completar dezoito anos, não seria um incentivo à violência? Seria utópico imaginar uma sociedade em que jovens de dezoito anos adentrassem obrigatoriamente em um liceu que abrangesse filosofia e psicologia? Ensinamentos que formariam homens de forma mais recompensadora que um simplório treinamento que os leva a rastejar na lama e aceitar berros de superiores (designação concedida por medalhas de latão), ao invés do estímulo diário à técnica da argumentação.

A realidade é que o cinema, a literatura e os jogos eletrônicos são necessárias fontes de escapismo. Os pais que criam seus filhos afastando-os de filmes e jogos violentos estão realizando um desserviço em longo prazo. Eles se tornarão no futuro pessoas medrosas, dependentes e incapazes de suportar as frustrações inerentes ao ato diário de viver. Adultos emocionalmente frágeis, com possível conduta antissocial (como o recluso jovem abordado neste texto) e propensão a vícios, sempre buscando fugir das responsabilidades naturais de uma mente madura. A mitologia grega era intrinsecamente violenta (leia “Ilíada” de Homero, por exemplo), assim como a mitologia nórdica, egípcia, aborígene, védica, o antigo testamento cristão e obviamente a mitologia moderna formada pela Nona Arte (os heróis das revistas em quadrinhos). Impossível desassociar o instinto violento do ser humano, assim como ignorar sua importância (quando disciplinado) no progresso do mesmo. Precisamos parar de culpar o “carteiro” pelo conteúdo da “carta”.

Finalizo respondendo a pergunta feita no título com um sonoro: “NÃO”! Muito pelo contrário, eu torço para que a violência (leve ou excessiva) tenha sempre espaço nas narrativas literárias, cinematográficas e nos enredos dos jogos eletrônicos, pois esta cômoda forma de negar a responsabilidade (educação familiar, estabelecendo condutas íntegras e éticas) na vida real, colocando a culpa no escapismo, não somente dificulta o entendimento da simples diferença entre eles, como também forma uma sociedade covarde e incapaz de se defender.