terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Lançamentos da "Classicline" (Janeiro / 2014)


Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland – 1933)
Lançado em 1933, na sequência do centenário de nascimento de Lewis Carroll, em 1932, é uma adaptação que reuniu um elenco de estrelas para interpretar os diferentes personagens da história. Grande parte do filme é real, exceto o segmento “A Morsa e o Carpinteiro”, que foi animada pelo estúdio de Max Fleischer. Algumas das estrelas que participaram do filme foram Charlotte Henry como Alice, W. C. Fields como Humpty Dumpty, Edna May Oliver como a Rainha Vermelha, Cary Grant como a Falsa Tartaruga, Gary Cooper como o Cavaleiro Branco e Edward Everett Horton como o Chapeleiro.


Que grata surpresa conhecer essa pérola esquecida no tempo. Não sou grande fã da obra de Lewis Carroll, mas de todas as adaptações que já assisti (incluindo a animação da Disney), esta foi a que mais me encantou. Unindo elementos de “Alice no País das Maravilhas” (de 1865) e “Alice no País do Espelho” (de 1870), com a presença de astros dos estúdios Paramount, a produção surpreende na criatividade com que trabalha os efeitos visuais, conquistando resultados à frente de seu tempo. É sensacional reconhecer a voz de Cary Grant (ainda em ascensão na época) como a “Falsa Tartaruga” (não levo fé que ele realmente esteja vestindo o traje), ou o olhar de Gary Cooper por trás da forte maquiagem de seu desajeitado “Cavaleiro Branco”. Genial a escalação de W.C. Fields (a juventude de hoje ignora sua existência, “Classicline”, resgate sua obra) como “Humpty Dumpty”, provavelmente o ponto alto da obra. A “Alice” de Charlotte Henry cativa desde o primeiro momento, fazendo-nos ignorar seus dezoito anos à época. Um papel que chegou a ser cogitado para Mary Pickford e Ida Lupino, mas que caiu como luva nas mãos da jovem com pouca experiência no ramo.


Atraiçoado (Betrayed – 1954)
Holanda, durante a 2ª Guerra Mundial. Um oficial aliado da Inteligência, Pieter Deventer (Clark Gable), é incumbido de manter os olhos em Carla Van Oven (Lana Turner), suspeita de espionagem. Ambos são do serviço secreto holandês, fazendo contato com um líder da resistência conhecido como “O Lenço” (Victor Mature). Para ganhar a confiança dos oficiais nazistas lascivos, Turner se apresenta como uma cantora sexy. Mas nas semanas que se seguem, vários agentes secretos são capturados e fuzilados, e as suspeitas de Pieter sobre Carla parecem se mostrar cada vez mais corretas...


Último filme de Clark Gable para a MGM, após um reinado que durou 23 anos, numa relação de total fidelidade (enquanto outros astros flertavam com propostas de outros estúdios), mas que terminou com grande mágoa. Ele nunca recebeu porcentagem no lucro das reexibições de “E O Vento Levou”, o que o levou a exigir participação nos projetos seguintes, algo que a MGM negou até o último momento, culminando no término da relação. Mas, de certa forma, com o final da Segunda Guerra, ele acabou ficando deslocado, tendo que se moldar em um novo sistema. Os primeiros filmes que realizou em seu retorno não estavam agradando nem ao próprio ator, o que refletia na atuação e nas bilheterias. Desses últimos projetos no estúdio, “Atraiçoados” é o mais correto, mérito da química do astro com Lana Turner, dos belos cenários em Amsterdam e da direção precisa (a filmagem durou somente oito semanas) do alemão Gottfried Reinhardt (responsável pela história do musical “A Grande Valsa”, de 1938). Ainda que o público americano já estivesse cansado de filmes com a temática da guerra, desejosos de musicais alegres que os fizessem esquecer aquele período sombrio, os fãs apreciaram a chance de assistir seu ídolo novamente em cores.


Com a Maldade na Alma (Hush… Hush, Sweet Charlotte – 1964)
Bette Davis nos brinda com uma magnífica interpretação no papel de Charlotte Hollis, uma solteirona reclusa ainda obcecada pelo brutal assassinato de seu amante, ocorrido há mais de 37 anos. Quando sua propriedade está para ser desapropriada para a construção de uma nova estrada, Charlotte pede a ajuda de sua prima Miriam (Olivia De Havilland), do velho amigo Drew (Joseph Cotten) e da sua empregada Velma Cruther (Agnes Moorehead).


O diretor Robert Aldrich aproveitou o sucesso de “O Que Terá Acontecido a Baby Jane?” (de 1962) e se reuniu com Bette Davis nesse projeto que repete elementos estruturais e, ainda assim, consegue firmar uma identidade própria (com sutis homenagens a “Psicose”, de Hitchcock). Davis (Charlotte), Olivia de Havilland e Agnes Moorehead carregam a obra nas costas, ajudando-nos a atravessar um segundo ato moroso. Um ponto que merece ser salientado é a fotografia gótica de Joseph F. Biroc, que fornece a atmosfera perfeita para a tragédia de Charlotte, que nos inspira pena e simpatia, até que vibremos por ela no desfecho (claro que não revelarei muito, respeitando os que não assistiram). Em vários aspectos, um filme superior ao mais famoso “Baby Jane”, abraçando sem temor o macabro. Vale ressaltar também o belo trabalho de capa da “Classicline”, fornecendo duas opções para o colecionador.


Drácula (Dracula – 1931)
Baseado no livro de Bram Stoker, “Drácula” é um dos maiores clássicos de terror já filmados. A trama conta a história do advogado Renfield (Dwight Frye), que chega ao castelo do Conde Drácula (Bela Lugosi), na Transilvânia, para finalizar o contrato de aluguel de uma propriedade em Londres. Ele não sabe, mas seu nobre anfitrião é um vampiro. 


Bela Lugosi. Apenas esse nome já bastaria para indicar a importância dessa obra na história do cinema de horror. O primeiro filme falado a lidar com um tema sobrenatural, responsável por tornar o “Universal Studios” uma referência no gênero, superado apenas pela “Hammer”, décadas depois. Como adaptação, possui falhas, como o fato de minimizar a personagem Lucy (Frances Dade), que se torna uma figura de decoração, e a equivocada alteração do Dr. Seward (Herbert Bunston), que se torna o pai da trágica Mina (Helen Chandler). O roteiro acerta com o personagem Renfield (Dwight Frye), que dá o pontapé inicial na trama (papel de Jonathan Harker, no original literário) transformando o esquisito caricato de Bram Stoker em alguém tridimensional. A direção de Tod Browning não envelheceu bem, assim como também não podemos ignorar alguns “buracos” (como a entrada de Van Helsing na trama), mas a fotografia de Karl Freund, trabalhando muito bem as sombras como ferramenta narrativa, estabelece o clima perfeito. É válido afirmar que o tempo foi mais generoso com a versão espanhola, protagonizada por Carlos Villarías, gravada ao mesmo tempo nos mesmos cenários, para o mercado latino.

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