terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Lançamentos da "Versátil" (Janeiro / 2014)


Mamma Roma (1962)
A inesquecível Anna Magnani vive Mamma Roma, uma prostituta que sonha em mudar de vida e de classe social, para poder voltar a viver com Ettore, seu filho adolescente. Para isso, ela decide economizar dinheiro. Infelizmente, a realidade coloca muitos obstáculos em seu caminho. 

O ciclo do Neo-Realismo italiano já estava em uma fase transitória, quando Anna Magnani, considerando genial o filme de estreia de Pasolini: “Accattone – Desajuste Social” (excelente filme, que merecia um relançamento pela “Versátil”), decidiu entrar em contato com o diretor e mostrar seu interesse em protagonizar seu próximo projeto. Em seu segundo filme, já com total controle criativo, o poeta italiano demonstrou tremenda confiança e competência. A interpretação histriônica de Magnani concede o poder emocional, fornecendo a moldura perfeita para que Pasolini exercite seu já reconhecível (à época) estilo visual, unido à sua verve literária. Nos primeiros minutos podemos perceber que, ainda que a obra seja dedicada a Roberto Rosselini, sua intenção não é servir somente como pano de fundo para algum discurso social trágico (essência do ciclo), mas também fazer uma espécie de sátira utilizando o destemor e a intempestividade da protagonista. Diferente da Itália de “Roma, Cidade Aberta”, onde o povo valoroso e trabalhador se via compelido à miséria pelo ditador alemão, não há mártires no cenário de “Mamma Roma”. A visão pessimista/realista de Pasolini faz lembrar seu roteiro para “Noites de Cabíria”, filmado por Fellini. Não há redenção satisfatória numa terra onde você aceita a corrupção da alma, sobrevivendo de forma medíocre à gradual destruição de seu caráter, ou é abatido por tentar genuinamente modificar o triste panorama. Vale ressaltar a participação de Lamberto Maggiorani (do maravilhoso “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica) no ato final, numa esperta homenagem, sendo novamente vítima de um roubo. Muito mais cínico que Rosselini, que terminava “Roma, Cidade Aberta” com uma insinuação de esperança, Pasolini escolhe finalizar a trama com um sutil recado nas entrelinhas de sua “Pietá”, evidenciando que o fim da guerra pode ter eliminado o regime ditatorial, mas não tornou os italianos mais fortes e preparados para a vida em liberdade. Não há mais nazistas, os opressores agora nascem da índole distorcida dos próprios filhos da terra.


Jane Eyre (1943)
Após passar a infância em um orfanato, a jovem Jane Eyre (Joan Fontaine) se torna governanta da filha do misterioso Edward Rochester (Orson Welles). Os dois se apaixonam, mas, no dia do casamento, ela faz uma terrível descoberta.

Esta é a mais bela adaptação da obra de Charlotte Brontë, com uma linda fotografia de George Barnes e uma direção refinada do subestimado Robert Stevenson, sempre lembrado apenas por sua parceria de sucesso com a Disney. Alguns aspectos podem incomodar os que apreciam o livro, indo além da rápida compreensão de que as linhas narradas (nas cenas que detalham as páginas do livro) não condizem com a realidade literária. Joan Fontaine estava no auge de sua beleza (qualidade que a Jane do livro não compartilha) e falha na batalha intelectual com o Rochester vivido por Orson Welles. Sua personalidade é frágil e seu carisma reside na piedade que suscita, não na força interna, o que fortalece o melodrama (objetivo claro do roteiro). Mas quando focamos demais na fidelidade, estamos ignorando que a linguagem cinematográfica é uma Arte própria, que pode complementar, nunca deve substituir. Como as luzes expressionistas que emolduram a pequena Jane, sentindo-se sozinha em um mundo cruel. Sua rebeldia contra a figura de autoridade, ao ver os cachos do cabelo da amiga sendo cortados (algo inexistente no livro), evidencia sua compaixão como a maior qualidade de seu caráter. Um detalhe que vale ser ressaltado é a participação do escritor Aldous Huxley (de “Admirável Mundo Novo”) na elaboração do roteiro, assim como uma ponta não creditada de uma pequena Elizabeth Taylor, já demonstrando incrível presença de cena. O DVD da “Versátil” utiliza uma master remasterizada, contendo ainda um ótimo documentário como extra.


O Solar das Almas Perdidas (The Uninvited – 1944)
Os irmãos Roderick (Ray Milland) e Pamela Fitzgerald (Ruth Hussey) compram uma mansão abandonada na costa da Inglaterra, por um preço muito abaixo do mercado. O que inicialmente parecia ser um ótimo negócio se torna um pesadelo, quando os irmãos descobrem que o lugar é assombrado por espíritos. 

Fantasmas até então eram utilizados no cinema como alívio cômico, desmascarados ao final como simples truques. Lewis Allen foi o primeiro a adotar uma postura séria, ainda que o roteiro deixe transparecer em vários momentos certa preocupação mercadológica com essa atitude (o humor está lá, mais do que deveria, mas em menor intensidade se comparado ao padrão da época), abordando uma casa mal-assombrada por dois fantasmas. A fotografia de Charles Lang Jr. é um primor, mostrando que muito se perdeu no gênero com a invenção de Thomas Edison, já que não há melhor moldura para o terror que um ambiente à luz de velas. O filme é adaptado do romance gótico de Dorothy Macardle, uma ferrenha feminista, que utilizou a história fantasmagórica como metáfora para compor uma narrativa sobre a relação entre mãe e filha (a peça central da trama), além de uma crítica à limitadora ideologia doméstica imposta às mulheres, com insinuações homossexuais (entre a personagem Holloway e Mary) que perturbaram os censores do “Código Hays”. A trilha sonora de Victor Young legou para a humanidade a linda “Stella by Starlight”. Uma das provas da qualidade do filme é que, somente vinte anos depois, a indústria abordaria o tema com a mesma competência, no excelente “Desafio do Além” (The Haunting). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário