segunda-feira, 31 de março de 2014

Make 'Em Laugh - Os Trapalhões


"Os Trapalhões" foi um grupo cujo trabalho, especificamente no cinema, exerceu profunda influência nesta paixão que alimenta diariamente minha inspiração. Os críticos da época ignoraram seus esforços, porém este sempre foi o tratamento usual a tudo que era intensamente popular (e,diferente do que esta expressão significa hoje, havia muita qualidade nos produtos de fácil acessibilidade, não eram popularescos). Eu tive o prazer de poder acompanhar seus filmes nos cinemas, vibrando em cada lançamento. Acompanhava-os em todas as mídias, colecionava suas divertidas revistas em quadrinhos e assistia a seus programas na televisão. Quatro artistas completamente diferentes, cuja química inexplicável provocava a imediata empatia. Não tinha como olhar para essa trupe e não escancarar um largo sorriso, como que antecipando que anarquia eles iriam aprontar.

Renato Aragão e Manfried Sant´Anna repetiam o clássico estilo: galã (escada)/bobo (como Jerry Lewis e Dean Martin), amalgamando a ele um humor circense tipicamente brasileiro. Os filmes que realizaram juntos não sobreviveram bem ao tempo (assim como muitos da fase inicial de Lewis e Martin), mas vale destacar os dois melhores deste período: “Robin Hood – O Trapalhão da Floresta” (1973) e “O Trapalhão na Ilha do Tesouro” (1974), ambos dirigidos pelo ótimo iugoslavo J.B. Tanko (responsável pelos melhores filmes do quarteto). Antônio Carlos, como o hilário “Guarda Azevedo” (Azevedis), rouba a cena na sátira “O Trapalhão no Planalto dos Macacos” (1976). Interessante perceber que ainda havia uma preocupação em explicar sua forma de falar (como na cena em que Milton Carneiro o corrige repetidamente), falhando em entender que “Mussum” era uma força irrepreensível da natureza, bastava colocá-lo defronte uma câmera, com ou sem roteiro. O filme perdeu o frescor e muitos elementos não funcionam mais, com exceção de todas as cenas em que ele se faz presente, tão simpáticas e engraçadas como em seu ano de estreia. No ano seguinte, o trio realizaria aquele que considero o melhor trabalho desta fase inicial: “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (direção de J.B. Tanko), repetindo a parceria com a bela Monique Lafond (que já havia participado de “Bonga – O Vagabundo”, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa” e “Robin Hood – O Trapalhão da Floresta”). Qual criança da época não se emocionou com a tristeza de Pilo (Aragão) carregando em seus braços o corpo desfalecido do cãozinho Lupa? Lembrança cinematográfica infantil quase tão traumática quanto a morte da mãe de “Bambi”. Claro que o final é feliz, fazendo uso da fantasia que emoldurava todas as tramas das obras do grupo, numa época em que o País necessitava de orgulho próprio (esportistas eram moldados midiaticamente para serem personagens mitológicos – com “temas musicais vitoriosos”, por exemplo). “Serra Pelada tem mais ouro que areia”, como citado em uma de suas músicas, exemplifica bem a importância motivacional do grupo em seu contexto social. “Didi” não terminava somente vencendo os vilões e salvando a donzela em perigo, mas também rico! Com a chegada de Mauro Gonçalves, no experimental e fraco “O Trapalhão na Guerra dos Planetas” (1978), era inserido, com seu caricato “Zacarias”, o elemento inocente e infantil, um misto mineiro de Harpo Marx e Stan Laurel.


 A segunda fase cinematográfica compreende suas melhores produções, que vão desde o ótimo “Cinderelo Trapalhão” (dirigido por Adriano Stuart, em 1979), passando por “Os Três Mosquiteiros (com “i” mesmo) Trapalhões” (novamente Adriano Stuart, em 1980), que considero o auge da fórmula cômica do grupo, chegando à obra-prima da comédia infantil brasileira: “Os Saltimbancos Trapalhões” (direção de J.B. Tanko, em 1981). Vale ressaltar também o interessante “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” (direção de Roberto Farias, em 1987), a única vez em que o grupo ousou mexer na fórmula, fazendo com que os críticos, pela primeira vez, se rendessem ao inegável talento dos quatro.

Já a derradeira terceira fase cinematográfica causa em mim um dilema: são filmes que, passionalmente, me emocionam pela nostalgia (foi a época em que eu, criança, assistia-os no cinema), porém, racionalmente, constato que foi o período mais fraco. Obras como “Os Fantasmas Trapalhões” (1987), “Os Heróis Trapalhões” (1988) e “Uma Escola Atrapalhada” (1990) são uma coleção de equívocos (Gugu Liberato como protagonista heroico, índios voadores, “product placement” das formas mais absurdas possíveis, Supla e “Grupo Dominó”?), mas existem raras exceções, como “O Casamento dos Trapalhões” (dirigido por José Alvarenga Jr., em 1988), com a bela Nádia Lippi repetindo a parceria de “O Trapalhão na Arca de Noé” (1983), que consegue ser tão divertido quanto suas produções do início dos anos oitenta. Existem momentos nestas últimas produções do quarteto, como a chegada de “Mussum” no baile à fantasia (no fraco “A Princesa Xuxa e os Trapalhões”, de 1989) ou a relação de amizade entre ele e um “Grunk” carente (em “Os Trapalhões na Terra dos Monstros”, de 1989), que são como lampejos daquele humor esperto que os levou a serem abraçados pelo povo. Qualquer um destes filmes, mesmo os da inferior terceira fase, são melhores que as atuais produções cômicas popularescas produzidas pela “Globo Filmes”. Aliás, nestes tempos tão chatos do hipócrita “politicamente correto” (que impede filmes de terror à tarde na TV, mas convenientemente nada faz para impedir que pastores evangélicos exorcizem demônios no mesmo horário), sinto falta do “Quero morrer pretis!” ou o clássico “Preto é seu passadis”, que “Mussum” sempre soltava antes de beber seu “mé”. Enquanto muitos críticos exaltam “Os Três Patetas”, nunca achei muita graça neles. Sou muito mais “Os Trapalhões”, um quarteto de elementos tão contrastantes que é impossível de ser imitado.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Faces do Medo - "A Pele Que Habito"


A Pele Que Habito (La Piel que Habito – 2011)
O filme já se inicia evidenciando a “gaiola” em que o personagem (Elena Anaya) vive. Na primeira vez que o vimos, a câmera flerta com a imagem desfocada dele, antes mesmo do nome de Almodóvar aparecer, enquanto negras grades aparecem em foco. Um detalhe que não dura sequer quatro segundos em cena, porém de extrema importância, denotando assim o esmero técnico da produção. Ainda nos primeiros minutos da obra, a câmera nos apresenta sutilmente o livro que ele recebe, e que aparecerá lendo em outros momentos, como forma de tornar-se a “mulher” idealizada por seu criador. 

A escritora escolhida: Alice Munro, famosa pela forma como aborda as ambiguidades humanas, unindo com eficiência o “lugar comum” e o “fantástico”, porém sempre com leveza. Mais adiante na trama, veremos que o personagem também lê sobre o trabalho de Louise Bourgeouis, famosa artista plástica, que o inspira a realizar artesanais esculturas ao longo do filme e o salva de seu destino trágico, como descrito pelo próprio diretor nos créditos finais. Detalhes que não subestimam a inteligência do público, muito pelo contrário, dependem da cultura geral daquele que o assiste. Aos três minutos, Almodóvar já estabelece o essencial que precisamos saber sobre o personagem: vive aprisionado, interior e exteriormente, sob o olhar atento de alguém, a câmera na parede do quarto, que parece querer “modelá-lo” a seu bel prazer. Ainda nas cenas iniciais, o personagem procura algo em seu guarda-roupa e podemos ver vários vestidos rasgados, denotando algum tipo de revolta. Claro que o público, que começa a ver “desarmado”, percebe esse “truque” apenas ao revisitar a obra, mas esse exemplo mostra como a Sétima Arte é rica em minúcias, quando existe um cineasta competente no comando.

Quando o personagem vivido por Antonio Banderas adentra sua mansão, ocorre algo imperceptível aos olhos do cinéfilo menos atento: ele se encaminha para o quarto da vítima, porém rapidamente rejeita tal escolha, analogamente uma rejeição à sua condição natural, e segue para o quarto ao lado, onde continua a espioná-lo pela câmera. Outro exemplo de que nada é por acaso em obras de qualidade: a câmera segue a mão de Banderas, que pega um controle remoto num criado-mudo. O momento dura frações de segundo, mas ao lado do controle encontra-se um livro coerente à abordagem do diretor: “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins, que apresenta uma teoria que explica a evolução das espécies na perspectiva do gene e não do organismo, renovando o “Darwinismo”, que vê os genes como simples veículos através dos quais os organismos se reproduzem.

Pouco tempo depois, o protagonista busca terminar com seu tormento, porém é salvo na última hora por seu criador. A câmera então focaliza em fortes arranhões nos dois seios, como numa tentativa de extirpar com sangue aqueles símbolos femininos de seu corpo. Após o estupro sofrido, pelo homem vestido de tigre, seu criador chega a cogitar matá-lo, mas no último instante atira apenas no estuprador e corre para abraçar sua criação. Este evento é o divisor de águas na relação dos dois. Aos seus olhos, não existe mais “Vicente”, mas sim a resistente pele que ele habitava: “Vera”. Almodóvar deixa implícito que o personagem de Banderas era um homossexual vivendo uma vida de aparências, com esposa e filha, pois se entrega lascivamente ao amor com sua criação, enquanto “Vicente” prova-se um heterossexual, que apenas aceita o sexo com ele, como forma de engendrar uma possível fuga. Ele evita em todos os momentos consumar a relação, mostrando-se nitidamente desconfortável. Almodóvar demonstra sua genialidade ao construir esses dois personagens: o homossexual Robert (Banderas), com todas as características masculinas, enquanto o heterossexual Vicente (Jan Cornet/Elena Anaya), com um emprego visto pela sociedade como típico de mulheres. Na visão do cineasta, assumidamente homossexual, nossa identidade sexual é ditada geneticamente, independente da “pele” que habitamos. A última fala da obra cristaliza todo o leitmotiv trabalhado, quando o protagonista consegue fugir de sua “gaiola” exterior e interior, ao reencontrar sua mãe e afirmar a ela e a si mesmo: “Eu sou Vicente”.

Estes são apenas alguns dos muitos detalhes a serem analisados neste filme, que melhora a cada vez que o assistimos. Esta interpretação é apenas uma das várias possíveis, o que evidencia o brilhantismo de Pedro Almodóvar.

O "Rio" de Carlos Saldanha

(Texto que escrevi em 2011, semanas após a estreia de "Rio", de Carlos Saldanha)


Envergonhado percebi que muitos críticos procuraram incessantemente falhas no projeto de Carlos Saldanha: “Rio”, assim como também reclamam sempre da visão que os estrangeiros possuem sobre nossa terra. Muitos críticos afirmaram que a animação não ajudava em nada a modificar a imagem que o país possui no exterior. Mas será que o complexo de inferioridade nacional é tão supremo que busca em uma animação infantil uma ferramenta mágica, cujo propósito seria reformular uma imagem que nossa própria sociedade não se vê apta a melhorar? Botemos então a culpa no Saldanha, já que omitir-se é um hábito brasileiro tão corriqueiro quanto incentivar o criminoso processo de vitimização de bandidos, como fizeram com o assassino do ônibus 174.

Para grande parte do nosso povo, o diretor de cinema tem a obrigação de mudar nossa imagem, como os professores tem a obrigação de educar nossos filhos, enquanto continuamos aqui apostando na mediocridade cultural, formando jovens semianalfabetos ao som de músicas deprimentes e programas de televisão que celebram marginais. Os pais vão ao cinema e se irritam com o Rio de Janeiro retratado pelos cineastas, depois chegam ao conforto de suas casas e discutem na sala em família sobre os rumos do reality show. Admiram quarenta minutos de exibições de lingerie no horário nobre e programas humorísticos onde para cada piada existe uma mulher seminua, para depois reclamarem da nossa imagem como sendo de um povo exageradamente sexualizado no exterior. Quanta hipocrisia. Mas a culpa é sempre dos cineastas que saem do país e não ajudam em nada a modificar nossa imagem lá fora. Que imagem?

E no caso do Saldanha é muito pior, porque ele é um brasileiro que está fazendo muito sucesso lá fora. Como sempre afirmo, artista de sucesso popular só se for estrangeiro. Artista bacana nacional tem que ser underground, falar esquisito, cuspir nos jornalistas, usar óculos escuros dentro de boate e forçar um papo político. Careta aqui é motivo de deboche. Até a Sandy ficou devassa depois de tantos anos de perseguição dos “pseudo-pseudo”. Artista brasileiro que vai para o exterior e fracassa, volta e é incensado. Artista brasileiro que vai para o exterior e faz sucesso, começa a ser alvo de perseguição, seus dias de glória já começam a ser contados regressivamente, com a mídia buscando destruí-lo a qualquer custo, procurando defeitos e possíveis erros. Mas botem a culpa no Saldanha que é mais cômodo.

Alguns críticos reclamam que a animação possui cenas com macacos-trombadinhas, pássaros traficantes, sequestradores e violência em favelas. Saldanha inseriu inteligentemente críticas sociais que se encaixam perfeitamente ao conceito da obra. Mas a dona de casa que nunca se preocupou em legar o hábito da leitura em seus filhos e escuta em alto e bom som as líricas letras do funk carioca, morrendo de rir ao ver sua filhinha de quatro anos dançando até o chão em movimentos sensuais, comenta que o filme apresenta para o mundo uma imagem errada do nosso cândido País. Realmente não existem essas coisas aqui, por mais que os traficantes que costumam eventualmente obrigar todo um bairro a parar de funcionar, fechando escolas e estabelecimentos comerciais a seu bel prazer, me façam franzir a testa em assombro. Constato triste que nossa realidade é muito pior que a imagem que possuímos lá fora. Mas isso pode mudar a qualquer momento, basta esta sociedade parar de culpar os outros pelos seus próprios erros. O primeiro e corajoso passo é admitir estes erros e começar a acender luzes onde as trevas assolam.

O que posso falar de “Rio”? Uma animação fantástica, um trabalho primoroso na dublagem comandada por Guilherme Briggs, com um senso de humor delicioso e um sensacional trabalho de reprodução dos cenários da cidade. Carlos Saldanha mostra a cada projeto uma maturidade importante, conquistando cada vez mais seu lugar na cinematografia animada mundial. Um trabalho no mesmo nível de “A Era do Gelo”, com muito requinte e respeito com seu público. Assim como as produções da “Pixar”, os filmes de Saldanha não subestimam as crianças e arquitetam sonhos que agradam pais e filhos da mesma maneira.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Chumbo Quente - "Winnetou: A Lei dos Apaches"


Winnetou – A Lei dos Apaches (Winnetou 1. Teil – 1963)
Uma saga de amizade começa. Quando o conflito entre brancos e índios é acentuado, por uma estrada de ferro, passando por terras apaches. Nesse momento Old Shatterhand (Lex Barker) encontra Intschu-Tschuna e seus filhos Winnetou (Pierre Brice) e Nscho-Tschi.


A distribuidora “Classicline” está preenchendo uma lacuna importante na coleção dos fãs brasileiros de faroeste, lançando a saga alemã “Winnetou”, adaptada dos livros de Karl May, precursora dos Westerns Spaghetti em sua atitude e no nível de violência, além de ser cofinanciado com verba italiana. O sucesso desse projeto nas bilheterias de lá encorajou os produtores a se aventurarem no gênero.

O Eastwood do diretor Harald Reinl é o americano Lex Barker, que havia interpretado Tarzan, de 1949 a 1953, tomando o lugar de Johnny Weismuller. O tom operático instaurado pela bela trilha sonora de Martin Böttcher, com certeza serviu de influência para o estilo grandioso que viria a ser adotado por Ennio Morricone em seus projetos. É interessante notar uma similaridade, por exemplo, na forma como a gaita é utilizada em “Era Uma Vez no Oeste”, de 1968. Achei curioso também notar como a versão americana cortou praticamente todos os vários alívios cômicos, como o personagem caricato inglês, que tenta conseguir boas fotos dos índios. São cenas muito eficientes, que concedem ao filme uma aura ainda mais calorosa. Mario Adorf (que faria o excelente “O Tambor”, em 1979), como o vilão Santer, protagoniza uma das cenas mais interessantes, quando um de seus comparsas joga em sua direção um revólver. É o tipo de atitude que viria a se tornar clichê nos filmes italianos no gênero.

As espetaculares locações na Alemanha e na Ioguslávia são favorecidas pela fotografia de Ernst W. Kalinke, utilizando com inteligência toda a dimensão do widescreen. Com ótimas cenas de ação, em especial o conflito final no local onde o ouro Apache havia sido escondido, essa empolgante aventura merecia esse resgate.

O DVD apresenta o filme em versão integral.

Rocky - Um Lutador


Rocky - Um Lutador (1976)
Rocky é muito mais que lutas coreografadas em um ringue. Trata-se do sonho de Sylvester Stallone transmitido aos quatro cantos do mundo, sua história refletida em cada pessoa que assiste. Rocky somos todos nós. O público que assiste e pensa tratar-se de uma apologia da violência gratuita ou um incentivo para que todos comecem a cultivar excessivamente o próprio corpo e se interessar por boxe, não poderia estar mais enganado com relação às intenções de seu criador.

O jovem ator tinha em sua mente, desde o princípio, toda a saga desse pobre sujeito que nunca havia conquistado nada em sua vida. Inculto e complexado, ele trabalhava como cobrador para um agiota local e, mesmo sem muita técnica, lutava boxe por uns trocados. A sua atitude tranquila no dia a dia comprova que a opção de lutar não era uma pretensão genuína, mas sim uma fuga de uma vida real ordinária. Durante alguns minutos, ele tornava-se importante e poderoso, mesmo em ringues pouco iluminados e para uma plateia de bêbados e frustrados. Seu coração encontrava consolo na timidez doentia de uma atendente de pet shop, que por alguns momentos lhe dava atenção, agindo quase como uma psicóloga, sem preocupar-se com suas origens. Sua grande oportunidade aparece quando o campeão de boxe, refinado e irônico decide dar oportunidade a um lutador regional de disputar seu título, em comemoração ao bicentenário dos Estados Unidos. Por puro acaso, ajudado por sua descendência italiana e apelido curioso: “O Garanhão Italiano”, o jovem é o escolhido para o evento. Seria ele capaz de aguentar um round inteiro contra o campeão mundial? As estatísticas mais esperançosas afirmavam que ele não suportaria sequer dois rounds. Daquele momento em diante, iniciava sua batalha interior, muito mais violenta que a exterior nos ringues, onde ele teria que provar a si mesmo que seria capaz de ficar de pé, apanhando duramente, mas mantendo-se consciente até o final. Ele sabe que não tem o talento necessário, que não possui estrutura física e mental para acompanhar as estratégias do oponente, porém, sua dignidade irá guiá-lo até o soar do gongo final. Não importa o resultado. Caso consiga se manter de pé ao final, saberá que sua vida vale alguma coisa, que é alguém. Ao final da luta, não interessava se havia se sagrado vencedor, empatado ou perdido, pois a maior vitória ele já havia conquistado: a confiança em si mesmo e o amor da mulher de sua vida.


Com esse roteiro simples e genial em mãos, o jovem bateu de porta em porta procurando um estúdio que se arriscasse em promover o produto de um novato. Os produtores Robert Chartoff e Irwin Winkler adoraram a ideia e já imaginaram no papel principal alguns astros de renome, como James Caan e Robert Redford, porém o jovem disse que só venderia o roteiro se o deixassem protagonizá-lo. O acordo foi feito mediante a obrigação de manter os custos de produção abaixo da média. Logo, juntaram-se ao elenco Talia Shire (Adrian), Carl Weathers (Apollo), Burt Young (Paulie) e Burgess Meredith (Mickey), formando assim um núcleo perfeito onde a camaradagem era uma constante, o que possibilitou a realização de várias continuações. Com o auxílio de uma trilha sonora perfeita de Bill Conti e uma direção competente de John G. Avildsen, O filme foi um sucesso popular sem precedentes, com plateias que se emocionavam com o romance dos protagonistas e vibravam com a luta final, como se estivessem assistindo um desafio profissional no Madison Square Garden. A realidade é que a verba incrivelmente reduzida ajudou na criação de várias cenas que entraram para a história, como o treino do protagonista e sua simbólica escalada final na escadaria do Museu de Arte da Filadélfia. A analogia é clara, o treino só finaliza quando o personagem consegue chegar ao topo, sem se cansar. Quase uma subida aos céus, antes de descer ao inferno da luta.

O filme que nenhum estúdio queria, sagrou-se o campeão do Oscar de melhor produção do ano. Stallone tornou-se um sobrenome facilmente reconhecível no mundo todo e havia recebido permissão para a realização de uma continuação, agora acumulando as funções de ator, roteirista e diretor. Muitos afirmam que não existem méritos nas continuações da saga, porém discordo veementemente. O que existe é uma tentativa deliberada de críticos pseudointelectuais de menosprezar qualquer coisa que seja popular demais. Rocky não é popularesco, simplista, ele apenas possui uma maneira de transmitir sua mensagem de forma direta e eficaz, de fácil entendimento. O fascínio popular do personagem vai além dos filmes, suas músicas tocam até hoje, seu tema virou sinônimo do esporte.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Ingmar Bergman - "Crise"

Links para textos sobre os filmes de Ingmar Bergman:



Crise (Kris – 1946)
Nelly, uma jovem de 18 anos, vive com a mãe adotiva numa cidade do interior da Suécia. Tudo muda quando sua verdadeira mãe, proprietária de um salão de beleza em Estocolmo, aparece decidida a levá-la para a cidade grande. Encantada com as posses da mãe, Nelly decide acompanhá-la a Estocolmo, onde conhecerá o lado sombrio da natureza humana. 


Em seu primeiro filme, tendo como mentor e supervisor o grande Victor Sjostrom (diretor de “A Carruagem Fantasma”, que viria a trabalhar como o protagonista de “Morangos Silvestres”, um projeto idealizado especialmente para ele), que sempre aconselhava o jovem a manter suas cenas simples, Ingmar Bergman já insinuava o tom de tragédia existencial que iria emoldurar vários projetos de sua carreira. Com apenas vinte e sete anos, ele utiliza um mediano melodrama familiar como uma oportunidade para experimentar técnicas e estilos, adaptando a obra “Moderdyret” (Coração de Mãe), de Leck Fischer.

Os executivos da “Svensk Filmindustri” apostaram no talento do garoto, mas não ficaram muito satisfeitos com os rumos da produção. Sjostrom, com toda sua experiência, foi chamado para ajudar Bergman nesse ousado primeiro passo. Nesse teatro filmado, com clara influência estrutural no trabalho do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, o diretor demonstra seu amadorismo nessa linguagem nova. Ele, como precoce diretor artístico do “Hälsingborg City Theatre”, ainda não havia aperfeiçoado a técnica de transpor cinematograficamente as suas ideias ainda fortemente teatrais. Já no primeiro minuto, uma narração afirma que as cortinas se abrem, apresentando então a personagem Nelly (vivida por Inga Landgré). A forma simplista como a dicotomia rural (idílico, puro) / urbano (corrompido, ruim) é estabelecida, acaba limitando ainda mais o potencial narrativo da trama. É interessante notar também a insegurança do diretor, excessivamente dependente de diálogos expositivos. Ferramenta essencial no teatro, mas que pode ser substituída no cinema pelo sábio silêncio, uma Arte que ele viria a dominar no futuro. 

sábado, 22 de março de 2014

O politicamente incorreto

Qual a função do escapismo? Fazer-nos crer que é possível voar, saltar prédios com um simples impulso, atravessar paredes com o poder da mente e entrar sozinho nas selvas vietnamitas com uma metralhadora, vencendo uma guerra. O que ocorre quando inserimos neste contexto o criminoso “politicamente correto”? Destruímos o necessário escapismo, formando jovens que, sem válvulas de escape criativas, irão buscar maneiras de extravasar a violência (inerente ao ser humano, que ao invés de negá-la deve discipliná-la). Ao contrário do que muitos mal-intencionados discursam, o crescimento do nefasto “politicamente correto” irá legar ao futuro pessoas muito mais violentas, pois sem nunca terem pisado descalças o chão arenoso da vida, perceberão um dia estarem completamente despreparadas para tal.

A razão que me faz abordar este tema nasceu da triste contemplação dos mecanismos que regem a programação da TV aberta. Cresci assistindo ótimos filmes de ação (como “Rambo” e “Comando para Matar”) na “Sessão da Tarde” global, os clássicos do horror (como “Fome Animal” e “Re-Animator”) no “Cine Trash” (apresentado pelo “Zé do Caixão”) da Band, aquelas comédias sensuais (“O Último Americano Virgem”, “Loverboy” e “Primavera na Pele”) que passavam no “Cinema em Casa” do SBT. Hoje em dia nossos pré-adolescentes são servidos com uma seleção digna daqueles assépticos e apocalípticos contos de Ray Bradbury, onde a sociedade do futuro mostra-se regida por incompetentes, para a criação de uma geração inapta, incapaz de contra-argumentar os desmandos de seus comandantes. Somos como uma variação de Alex De Large (de “Laranja Mecânica”), que exposto a uma programação extremamente violenta e incapaz de parar de assistir, pois lhe é negado fechar os olhos, passa a associar as ações violentas com a dor que provocam. Este tratamento torna-o incapaz de realizar qualquer ato violento, nem mesmo em defesa própria, tornando-se um “zumbi” manipulável e fraco. Diferente da genial criação de Anthony Burgess, nós estamos sendo diariamente expostos a uma programação ilusoriamente inofensiva, que elimina qualquer senso criativo (pois não oferece o “bem” e o “mal”, tornando impossível diferenciá-los), que formará em longo prazo uma sociedade perigosamente frágil.

Atendo-me a um exemplo muito simples, pensem em um daqueles sacos de areia que os pugilistas usam em seus treinos. Imaginem-se no mais revoltante acesso de fúria, naquele dia em que tudo deu errado. Caso você tenha à sua frente um destes sacos de areia, o que você faria? Descarregaria toda sua raiva nele, assim como muitos adolescentes em seus videogames, jogando “Street Fighter”, e depois de alguns minutos estaria tranquilo e pronto para o próximo “round” da vida. Sem este “saco de areia”, a pessoa acaba brigando com seus parentes, “chutando seu cachorro” e xingando os motoristas no trânsito. Eliminar algo que é natural no ser humano, acaba por acentuar exatamente o que se deseja destruir. Retire do adolescente todas as formas de escapismo (videogames, filmes, livros, músicas etc.) e você estará formando um adulto violento (pois o sentimento brota da pior forma: após décadas sendo negado) e psicologicamente fraco.

Lutem contra o politicamente correto, não permitam que seus filhos sejam manipulados no futuro. Quem se favorece com este panorama vergonhoso? Aqueles que vendem valores simplistas, como as religiões, onde não existem “tons de cinza”, somente “Deus” e o “Diabo”. Caso sigamos desta maneira, continuaremos sendo um país rico em igrejas evangélicas, políticos corruptos e analfabetos funcionais. Uma nação onde não formamos cientistas ou incentivamos o incessante questionamento. Uma pátria vergonhosamente sem um prêmio Nobel. Portugal tem quatro, a Alemanha tem 102, o Reino Unido tem 116 e os Estados Unidos têm 331. Na América Latina, a Guatemala, Costa Rica, Colômbia e Peru já receberam. O Chile tem dois. O México tem três. Argentina tem dois da Paz, um de Medicina e um de Química. Investimos menos em saúde que a média dos países africanos. Vocês realmente acreditam que um governo que trata com desleixo a saúde e a educação, realmente se preocupa com o que seus filhos estão assistindo na televisão? Acorde, preguiçoso povo brasileiro. Estão preparando o gado para o abate e vocês nem percebem. Viva o politicamente incorreto.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O Cinema de Mizoguchi - "As Irmãs de Gion"


A distribuidora “Versátil” está lançando o extraordinário box “O Cinema de Mizoguchi”, com cinco filmes restaurados do mestre, incluindo a obra-prima “Contos da Lua Vaga”.


As Irmãs de Gion (Gion no Shimai – 1936)

“O único propósito de uma gueixa é dar prazer aos homens. Eles nos pagam para sermos seus brinquedos. Somos compradas e vendidas como bens comuns”.

Logo no início, podemos assistir o movimento da câmera em tracking shot, calculadamente da esquerda para a direita, como forma de estabelecer a metáfora da falência social do personagem Furusawa (Shinagoya Benkei), vendo-se obrigado a leiloar seus pertences, e a inevitabilidade da contundência do tempo. Percebemos que estamos diante de um cineasta autoral, com uma mensagem objetiva e total noção de como passá-la imageticamente da maneira mais eficiente.

A irmã mais velha de Kenji Mizoguchi foi vendida por causa da pobreza em que sua família vivia, causando no jovem uma profunda cicatriz, que ele deixa transparecer em sua recorrente preocupação com a função das mulheres em sua sociedade machista. O roteiro de Yoshikata Yoda trabalha o conceito utilizando duas irmãs inseridas na mesma realidade, mas com atitudes totalmente diferentes com relação aos homens. Umekichi (Yoko Umemura) é uma gueixa tradicional que aceita as limitações impostas, leal aos seus protetores, enquanto sua irmã caçula Omocha (Isuzu Yamada) sabe tirar vantagem dos homens, por acreditar que mereçam ser explorados, fazendo uso de traições e mentiras em porções generosas. O discurso do cineasta não é sutil, como fica claro nos minutos finais da obra, corajosamente feminista para sua época.

A conclusão deixa claro que as estratégias das irmãs, radicalmente opostas (submissão/confronto), surtem o mesmo efeito trágico. As mulheres estão sempre em desvantagem quando os termos são ditados pela selvageria. Omocha, com seu caminhar desenvolto pela estrada da hipocrisia humana, é uma personagem ricamente trabalhada, facilitando para que simpatizemos com sua jornada, ainda que seu comportamento também esteja longe de ser valoroso.

A Seguir: “Senhorita Oyu” (Oyu-Sama – 1951)

quinta-feira, 20 de março de 2014

Wenders e "Paris, Texas"


Paris, Texas (1984)
Wim Wenders faz várias referências ao universo criado por George Lucas, como no uso de frases icônicas e a utilização dos bonecos de personagens de “Star Wars”, que alimentam a criativa imaginação de uma criança presa a um mundo que não lhe pertence. Hunter Carson (Hunter Henderson) foi deixado na casa do tio paterno, muito antes de conseguir entender o significado da palavra: solidão. O tio Walt (Dean Stockwell) e a tia Anne (Aurore Clement) evitavam qualquer menção ao que havia ocorrido com seu pai e sua mãe. O pequeno Hunter demonstrava insatisfação com uma vida rotineira e em seus sonhos escapistas buscava um mundo fascinante de emoção e aventura. Assim como o protagonista da trilogia original de George Lucas: Luke Skywalker, o garoto não pensou duas vezes antes de aceitar o lúdico convite à aventura feito por seu pai: Travis (Harry Dean Stanton), quando ele retorna e demonstra o desejo de reencontrar sua esposa. Wenders referencia a trilogia até na escolha do corte de cabelo da criança, que é idêntico ao de Luke no filme de 1977.

As referências citadas acima, além de aproximarem a obra de um bem vindo contexto pop, ainda retiram um pouco daquele verniz esnobe (colocado por aqueles que diferenciam filmes de “arte”, sem perceber que todos o são, normalmente para “vestir” um rei que está nu) que incrustrou-se após décadas de bajulação dos pseudo-intelectuais, progressivamente afastando o grande público de uma apreciação mais passional. “Paris, Texas” merece textos calorosos e não o usual desfile de prepotência verborrágica, normalmente disfarçando um padrão que é usado para enaltecer aquele que analisa, ao invés de celebrar o objeto de análise. Por essas razões, prefiro sempre assistir a obra pelo ponto de vista do garoto.

Evitando detalhar a trama, para preservar a experiência daqueles que não a assistiram, considero essencial ressaltar a importância da trilha composta pelo guitarrista Ry Cooder, que consegue expressar com sensibilidade a melancolia inerente aos passos solitários de Travis no deserto, após quatro anos de uma jornada em que buscava refúgio da própria vida. Um homem em busca de sua origem (“Paris, Texas” é o lugar em que ele foi concebido), tentando apagar suas pegadas e refazê-las de forma diferente. Os erros do passado, que assombram seu caminhar pesado, emudecendo seus lábios. O encontro com o irmão, a redenção advinda da primeira vez que escuta seu filho chamando-o de “pai” e a tentativa de se fazer parecer um “pai” (uma linda cena que antecede uma de suas caminhadas até a escola do menino) mediante seu vestuário. Como ele inspira a imaginação em seu filho, levando-o a sentir-se pela primeira vez parte de algo, um universo só seu. Momentos que Wenders nos apresenta de forma simples e eficiente.

O objetivo da busca dos aventureiros não é imediatista, mas sim o reparo de algo que havia se estilhaçado, causando destruição para todos os envolvidos. Jane (Nastassja Kinski) e suas decisões nunca são julgadas pelo roteiro, que responde a tudo em uma única frase proferida por Travis: “Eu sinto muito”. Realista, tocante e simples.

terça-feira, 18 de março de 2014

Desafio Cultural "Devo Tudo ao Cinema - Woody Allen"

Amigo leitor, eu irei propor a você um desafio cultural. Não é preciso nenhum conhecimento especial, nenhuma resposta que uma rápida pesquisa no Google facilmente revele. O vencedor será aquele que for o mais criativo e bem-humorado. Os prêmios: O meu livro “Devo Tudo ao Cinema” (com uma dedicatória especial) e um DVD (lacrado) do filme “Sonhos de Um Sedutor”, um dos melhores da carreira do Woody Allen, que acaba de ser lançado pela distribuidora “Classicline”.



Regra:
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Só serão consideradas válidas as respostas de quem “curtiu” as duas páginas.

Desafio:
No especial que escrevo sobre Woody Allen, além de abordar os filmes, exercito o estilo de humor do cineasta, criando personagens e situações cômicas. Leia os doze textos já escritos do meu especial sobre o cineasta, escolhendo (pelo menos) dois personagens que aparecem nesses meus textos (não são personagens dos filmes de Allen).

Link para os doze textos:

Crie uma situação engraçada, utilizando os dois personagens (pode criar quantos quiser), citando em algum momento o nome de Woody Allen. Podem ser algumas linhas, um parágrafo ou até algo mais ambicioso. Seja criativo e bem-humorado. 
Aquele que eu considerar o melhor, além de ganhar os prêmios, será inserido (integralmente ou não) no próximo texto do especial.

Você deve enviar seu texto para esse e-mail: devotudoaocinema@gmail.com

A data limite será no dia 21 de Abril (Segunda).

Você tem liberdade total de criação, dê asas à sua imaginação... 

Rompendo o Véu da Sociedade


Como sempre critico a homofobia e me posiciono fortemente contra o retrocesso promovido pela bancada evangélica na nossa política, recebo mensagens, até bastante respeitosas, questionando minha "opção sexual". Na lógica preconceituosa dessas pessoas, somente os homossexuais defendem os homossexuais. A triste realidade é que, basta uma busca rápida virtual, para captar mensagens de ódio contra os homossexuais. O anonimato facilita para que a ignorância seja expressa sem medo, enquanto disfarçada no dia a dia.

Na cultura brasileira o preconceito pode ser traçado desde a infância. Os pais contam piadas com "bichinhas" para o filho pequeno. O pré-adolescente acaba sendo levado a fugir de qualquer associação com aquele coleguinha que parece afeminado (muitas vezes, nem é homossexual). Com sorte, o rapaz busca informar-se, evoluindo seu intelecto e percebendo que a homossexualidade (assim como qualquer variação, bissexualidade, assexualidade etc.) não é sequer algo anormal. Ela é constatada em cerca de mil espécies animais. Também não é um fenômeno contemporâneo (acreditem, muitos pensam dessa forma: "na minha época não tinha tanto viado"), que o diga a poetisa Safo (nascida em 625 a.C, em Lesbos, na Grécia), que buscava inspiração em suas relações amorosas com as jovens gregas. Existem registros que nos remetem a 12.000 a.C, ainda na Era Paleolítica, em pinturas de caverna. Em muitas culturas, a homossexualidade era algo a ser admirado, como no Japão pré-moderno, onde era recomendado ao adolescente que tivesse relações sexuais com um experiente guerreiro samurai.

Grande parte da culpa pelo preconceito nos países latinos pode ser colocada nos ombros do Cristianismo, que condena a relação homoafetiva como sendo um pecado. O mesmo Cristianismo que historicamente reprime as mulheres, posicionando-as como submissas aos homens. As mulheres brasileiras que repreendem seus maridos em casa, que compram joias ou que acordam cedo para trabalhar, precisam saber que estão indo contra todos os ditames cristãos, sendo pecadoras do tipo mais execrável, que nunca irão para o "reino dos céus". Absurdo, certo? Pois é. Mas esse mesmo radicalismo, que com relação às mulheres foi convenientemente esquecido pelas religiosas, continua atuando fortemente contra os homossexuais.

A homossexualidade é uma característica genética. Já Freud, dizia que nascemos bissexuais e somos "conduzidos" à monossexualidade pelo desenvolvimento psicológico. Estudos continuam sendo realizados por cientistas do mundo todo. Com toda certeza não é uma opção. Você acorda e "fica" homossexual, para depois da janta escolher "ficar" heterossexual. Esse argumento tolo é utilizado por aqueles mais preconceituosos, por vezes escondendo uma arraigada negação (enrustidos) com uma obsessão temática. Quem, em uma sociedade ignorante e homofóbica, optaria conscientemente em ser o alvo de ofensas diárias? A homossexualidade não é uma doença, não pode ser "curada", "reorientada" ou "amenizada" com tratamentos psicológicos. A desestigmatização é a única ação que deve ser alimentada. O respeito e o entendimento sem dogmas religiosos.

Segue a longa resposta que sempre envio para aqueles que elegantemente questionam minha identidade sexual, os grosseiros eu nem respondo: "Sou destro. Escrevo com a mão direita, confortavelmente e com precisão. Não consigo discernir o momento na minha infância em que percebi ser destro. Escrever com a mão direita sempre foi algo natural. Sei que, caso precisasse, utilizaria a mão esquerda, mas teria que treinar bastante para que parecesse ser canhoto de nascimento. Entendo que a mesma dificuldade atingiria um canhoto que quisesse se passar por destro. Antigamente era considerado algo ruim ser canhoto, o que fazia com que os professores e pais prendessem as mãos das crianças, para forçá-las a escrever com a "mão certa", forçando-as violentamente contra sua natureza. Destros, canhotos e ambidestros são iguais perante a grandeza e a fragilidade de ser humano. Ser destro, canhoto ou ambidestro, não possui relação alguma com a índole e o caráter da pessoa. Mas como sei que busca uma resposta simples, vulgar: Sou heterossexual, sinto atração por mulheres". Normalmente não me respondem, mas provavelmente eles se preocuparam em ler apenas a linha final. Aqueles que se escravizam em seus preconceitos, não estão interessados em entender ou aceitar, apenas em enfileirar as vítimas em seu paredão de ódio.

Minha Vida em Cor-de-Rosa (Ma Vie en Rose - 1997)
Um ótimo filme que aborda o tema, que faço questão de recomendar: "Minha Vida em Cor-de-Rosa". A primeira sequência do filme já expõe o leitmotiv que conduz a sensível trama. Enquanto os pais de Jerome escondem ritualisticamente em seus uniformes diários a ausência do calor que outrora havia em seu relacionamento, os pais de Ludovic se entregam à vida naturalmente e com real paixão, com o diretor de arte expondo claramente o contraste na paleta de cores que emolduram as cenas. O primeiro momento em que realmente vemos o menino, somos levados a sentir o mesmo choque que seus pais, pois ele está usando o vestido de princesa de sua irmã. Seu pai, temeroso pelo julgamento cruel da sociedade, limita sua corajosa atitude a uma brincadeira inconsequente. Sua mãe corre para fazê-lo retirar com água fria a maquiagem de seu rosto. No rosto da criança, a apatia dos que sofrem diariamente com a ignorância daqueles que deveriam ser mais inteligentes, por terem mais experiência de vida.

Ludovic não sabe ainda que o ser humano é uma espécie muito pouco evoluída, escrava de crenças em seres imortais, anjos, demônios e feitos miraculosos, porém incapazes de simplesmente aceitar uma condição natural que compartilhamos com várias espécies (mais de 1.500, para ser mais exato) do reino animal: a homossexualidade. A religiosidade, sempre caracterizada pelo domínio do homem sobre a mulher, desde a lenda de Adão e Eva, vista como a causadora de todos os males, estabeleceu fortemente sua presença na sociedade, como uma triste mancha na História, formando gerações de machistas ignorantes e mulheres sexualmente reprimidas. A absurda noção do pecado, camuflando hipocritamente qualquer desejo sob um véu de pureza, que se rompe assim que o autoproclamado santo se tranca na solidão de seus pensamentos. A ilusão de que se alcança o divino pelo ato da castidade, ignorando que, caso exista, ele perceberia os instintos naturais que não se podem domar.

O diretor belga Alain Berliner, com o roteirista Chris Vander Stappen, demonstrou extrema coragem já em seu primeiro trabalho, evitando os estereótipos e focando-se na inteligente afirmação de que somos todos iguais, diferenciando-se de muitos outros projetos de temática similar, que equivocadamente, ainda que superficialmente bem-intencionados, deixam implícito que Deus é tão gentil que até permite homossexuais no quintal de seu paraíso. Ludovic queria apenas externar a autoimagem que o fazia se sentir confortável, algo desafiador em uma sociedade onde tantos utilizam máscaras diárias.

sábado, 15 de março de 2014

Cine Samurai - "A Última Espada"


A Última Espada (Mibu Gishi Den – 2003)
Lançado na mesma época que “O Último Samurai” (com Tom Cruise), este épico japonês que trata de um tema similar, acabou recebendo pouca atenção. Premiado na Academia Japonesa de Cinema (filme, ator e ator coadjuvante), esta sensível obra do diretor Yojiro Takita (do ótimo “A Partida”) se passa no período Meiji (de 1868 a 1912), crepúsculo dos nobres samurais e a ascensão do mundo moderno, com a revolução industrial. Kanichiro Yoshimura (ótima interpretação de Kiichi Nakai) é um samurai que se desespera ao flagrar sua amada esposa tentando dar fim à própria vida, por não poder alimentar seus filhos, devido ao baixo salário que ele recebe no seu pequeno clã. Movido pelo amor à família, ele decide ir sozinho à cidade grande e unir-se ao notório clã “Shinsengumi”, arriscando sua vida diariamente para conseguir enviar seu pagamento para sua esposa e filhos. Decidido a sobreviver tempo suficiente para garantir um futuro melhor à sua família, Yoshimura desperta curiosidade em seus colegas, como fica claro na pergunta que Saitô (Kôichi Satô) lhe faz: “Você não quer morrer? Que tipo de samurai é você?”. 

O diretor nos apresenta este protagonista pelos olhos de dois personagens (dois pontos de vista, o que nos remete a “Rashomon” de Akira Kurosawa): um jovem médico que outrora foi um pupilo de Yoshimura e Saitô, um personagem real da história japonesa, cuja importância na trama eu não irei contar, respeitando a experiência daqueles que ainda não assistiram este lindo filme. O foco no desenvolvimento dos personagens, explorando seus conflitos internos e externos, eleva a qualidade da obra. O sensível trabalho de Takeshi Hamada na fotografia cria batalhas de beleza comparáveis às do clássico “Ran” (Kurosawa). Outro aspecto que me surpreendeu foi o senso de humor de Takita, que nos apresenta de início um protagonista frágil, nunca levado a sério por seus colegas, que sempre riem dele e de sua tola humildade. Leal à sua família e com atitudes nobres (inclusive perante seus inimigos), ele vai ganhando o respeito e a admiração do público ao longo da obra, o que conduz a um final altamente sensorial. 

Finalizando, caso o texto ainda não tenha despertado seu interesse em “garimpar” este tesouro, preciso contar aqui uma cena que me emocionou sobremaneira. Decidido a sair de sua casa e buscar a garantia do conforto de sua família no campo de batalha, Yoshimura sai sem se despedir e corre pelas ruas sem olhar para trás. Ao chegar a uma pequena ponte, escuta o chamado de seu filho mais velho, que conduz nas costas a caçula Mitsu, que apaixonada pelo pai, não aceita que ele vá embora. O pai esmorece e cai de joelhos, abraçado à sua pequena filha, chorando copiosamente. O filho mais velho percebe que seu pai está fraquejando em sua decisão e corajosamente o confronta resignado, pedindo-o que não chore e siga o seu caminho, fazendo com que nosso trágico e honrado herói receba a força necessária para dar as costas a tudo que mais ama, seguindo em uma jornada ao “inferno”, sem chance de redenção. As palavras não fazem justiça à beleza da cena, emoldurada por uma linda trilha sonora de Joe Hisaishi. 

Guilty Pleasures - "Adrenalina"


Adrenalina (Adrenalin: Fear The Rush – 1996)
A garotada de hoje, que acha o máximo encontrar qualquer filme em segundos em torrent na internet, não imagina o prazer arqueológico de dedos empoeirados dedilhando capas velhas de VHS no garimpo cinematográfico. Eu costumava ir muito ao mercado popular da Uruguaiana, aqui no centro do Rio de Janeiro, abastecer minha coleção com fitas de origem bastante duvidosa (na melhor das hipóteses, provenientes de locadoras de vídeo que haviam fechado), vendidas a preços irrisórios. Dos clássicos mais respeitados àquelas porcarias que quase ninguém conhecia, empilhados de qualquer maneira, do chão ao teto. Quem me visse lá, com quatorze anos, pensaria que eu era um desses caçadores de relíquias. Eu ficava horas selecionando, vibrando a cada raridade que encontrava. Eu me lembro da felicidade que senti ao encontrar “O Massacre da Serra-Elétrica”, os clássicos do Bruce Lee e da curiosidade mórbida ao levar “O Rato Humano”, uma das capas mais bizarras de que me recordo. E conheci “Adrenalina” numa dessas aventuras arqueológicas.

O que me despertou o interesse foi sua sinopse: “Boston, 2008. Radiação, crime e miséria tomaram conta do país e todas as fronteiras foram fechadas. Das ruínas desta civilização massacrada, surge uma criatura que mata por puro prazer. Metade homem, metade mutante, ele carrega dentro de si um vírus letal capaz de destruir a humanidade.”. E, naquela época, ter o Christopher Lambert na capa fazia grande diferença entre levar ou não um filme. Nem chequei quem era o diretor, mas provavelmente não mudaria minha opinião. O prazer do garimpo encontrava complemento na viagem de metrô para casa, imaginando como seria o filme. E, claro, a grande diversão se completava ao preparar a sessão, inserindo a fita no aparelho, rezando para que ela não arrebentasse lá dentro ou estivesse desmagnetizada, o que era bastante comum. Essa complexidade de emoções se perdeu hoje em dia.

Eu lembro como se fosse hoje. A qualidade de imagem dessa fita era tão ruim, que eu poderia muito bem estar de olhos fechados, que eu (não) veria a mesma coisa. Anos depois, descobri que o problema não era na fita, mas no filme, que era absurdamente escuro. Agora, num daqueles fenômenos inexplicáveis, mesmo sem enxergar praticamente nada, achei o filme muito interessante. O clima (exageradamente) sombrio, com os policiais caçando o mutante dentro de um prédio destruído, acabou sendo sensorialmente eficiente ao que o roteiro se propunha a entregar. Não importava que mal se visse o tal mutante durante grande parte do filme, pelo preço ínfimo que a fita me custou, achei muito válido. Essa foi uma das lições que levei para minha experiência como profissional da crítica: sempre avaliar o projeto pelo que ele se propõe a ser, sem expectativas.

O diretor Albert Pyun, considerado por alguns um novo Ed Wood, recentemente informou aos seus fãs que irá se afastar por problemas de saúde. Típico caso de profissional subestimado, mas basta um estudo mais aprofundado sobre sua carreira para descobrir que ele foi descoberto pelo ator Toshiro Mifune, que ficou surpreso com a qualidade de um curta que ele havia feito. Suas grandes referências são Truffaut, Kubrick e Ingmar Bergman. Alguns podem se lembrar de “Cyborg – O Dragão do Futuro”, um dos bons filmes ruins estrelados pelo Van Damme, mas eu considero valoroso o que ele fez com “Capitão América” (de 1990), utilizando uma verba mínima. Sem brincadeira, aquele filme me desperta um apreço nostálgico pelo personagem, que eu não senti nesse novo produto estrelado pelo Chris Evans, com o reforço de uma verba muito maior. E Scott Paulin, como Caveira Vermelha, convenceu bem mais. Mas vamos voltar ao objetivo do texto.

Fora os óbvios problemas decorrentes da baixa verba, o diretor consegue demonstrar engenhosidade na movimentação das câmeras, especialmente nas cenas em que acompanhamos a trajetória das balas, como se a própria câmera “acertasse” o alvo. É uma obra curtíssima (em seu corte internacional), objetiva e eficiente. Agora, para finalizar minha defesa do filme como um “prazer culposo”, preciso dizer que senti na ambientação uma forte influência de “Stalker”, do genial Andrei Tarkovski. Claro que não é uma comparação...

A Engenharia da Emoção

A maior recompensa para um crítico de cinema é perceber que seus leitores estão aprimorando seus gostos, aprendendo a enxergar além da superfície, entendendo como suas emoções foram geradas. Ao mesmo tempo, quando o texto estimula uma atenção exagerada aos aspectos teóricos, pode acarretar ao leitor um prejudicial desprendimento emocional, arruinando parte da experiência. É preciso simplificar ao máximo, sem banalizar a informação. Textos longos e acadêmicos, com utilização generosa de expressões técnicas, falam mais ao ego de quem escreve, do que ao interessado leitor. Mas para que o cinéfilo apreenda o máximo possível de um filme, faz-se necessário que ele compreenda que não é somente a beleza da trama que despertou seus sentimentos, mas também a forma como o diretor (e sua equipe) trabalhou cada cena. Normalmente, o primeiro elemento que percebemos quando estamos na transição de um espectador passivo para o ativo/consciente, é a utilização da trilha sonora, por ser uma manipulação mais óbvia. Vemos que, independente da competência dos atores em cena, um acorde do violino irrompendo o silêncio pode completar as lacunas de um roteiro ineficiente. Mas a fascinante manipulação vai muito além dessa constatação.

Tentarei resumir o conceito propondo um “dever de casa” divertido, para que utilizem em todos os filmes que assistirem (não importa o gênero ou época). Antes, uma breve explicação:

Edição X Montagem
O diretor filma um longo diálogo entre dois atores num único ambiente, mas percebe que a mensagem já havia sido transmitida com eficiência no primeiro minuto. Ele então pede para cortar os minutos restantes, deixando apenas o desfecho, onde ambos se despedem. Na sala de Edição, uma cena que duraria 5 minutos, acaba entrando no filme com 2 minutos. Já a Montagem é uma técnica da Edição, onde planos separados são reunidos em um sistema dinâmico (favorecendo a narrativa). Por exemplo: “Rocky” (1976) e sua empolgante montagem ao som de “Gonna Fly Now”. Tudo poderia ser resumido em intertítulos que informassem ao espectador que o protagonista se dedicou intensamente ao seu treinamento, deixando-o preparado para a luta. Mas não haveria emoção alguma. E a intenção do diretor era empolgar o espectador, que precisava torcer pelo personagem. Na animação “UP” (2009), a comovente Montagem que culmina na solidão do protagonista, sucede uma longa exposição de sua relação com aquela que viria a ser sua esposa. Nós já “compramos” emocionalmente o relacionamento dos dois, entendendo os fortes laços de amizade e companheirismo entre eles. Este sentimento nunca conseguiria ser transmitido em uma Montagem.

Percebam essa diferença nos filmes, analisando como a emoção foi intensificada devido ao uso de uma Montagem. Será que a “mensagem” da cena seria transmitida com a mesma eficiência de alguma outra forma? Em uma cena que parece se estender além daquilo que se propõe a “dizer” (onde o diretor escolhe não cortar antes), você consegue captar os possíveis motivos para esta escolha? Qual tipo de reflexão ele está sugerindo?

God´s Eye View
O “Ponto de Vista de Deus” é aquela tomada em que as lentes da câmera ficam perpendiculares ao “objeto”, sem estabelecer nenhum referencial de ponto de vista, dando ao espectador uma dimensão “onisciente” dos personagens e do ambiente ao redor dele. Ela pode “acompanhar” a cena, como se um pássaro estivesse filmando. Mais que uma decisão de estilo, este ângulo trabalha avançando a narrativa. No já citado “Rocky”, ela aparece no momento em que os dois pugilistas estão se preparando para iniciar a luta (acompanhando a descida do microfone às mãos do apresentador), como que se “dissesse” que não havia mais nada que o protagonista pudesse fazer, pois seu destino dependia apenas de sua competência. Outro exemplo que considero excelente ocorre em “O Iluminado” (The Shining – 1980), no momento em que um alterado Jack Nicholson se aproxima da maquete do labirinto e podemos ver (no “God´s Eye View”) sua esposa e filho caminhando no centro dele. Jack se torna onipresente. A cena anterior estabelece um tom de brincadeira nos dois enquanto entram no labirinto. A utilização do ângulo (com o auxílio da trilha sonora e do lento aproximar da câmera) subverte a cena, nos passando a sensação de opressão, como se eles estivessem sem saída.

Quando encontrarem este ângulo sendo usado nos filmes, tentem entender a razão de sua utilização. Tomem nota, comparem com o que ocorre antes e depois. A emoção teria sido diferente caso o ângulo fosse outro? Modificaria alguma coisa na narrativa?

A Diegese
Som não Diegético: Quando você escuta uma trilha sonora (efeitos/narração/ música) emoldurando uma cena, mas não estando inserida no contexto da ação (os personagens não percebem sua presença).
Som Diegético: Quando a trilha sonora está tocando no rádio do personagem, ou o som dos carros na estrada onde ele está dirigindo seu veículo. Pode ocorrer também fora da cena, como pássaros que cantam no jardim, enquanto os personagens dialogam dentro do quarto.
Som Meta Diegético: Imagine uma paciente de um sanatório que tenta conversar com seu médico. A voz dele vai se tornando mais fraca, enquanto ela vai abandonando seu estado sensorial normal. Como em um sonho, ela começa a escutar a voz dele repetindo apenas uma palavra (que seja o gatilho para despertar sua paranoia), que vai aumentando de intensidade.
Som Acusmático: Tudo o que se ouve, mas sem o conhecimento de sua origem (pode ser que mais adiante na trama ele seja revelado), como a voz da mãe de Norman Bates em “Psicose” (Psycho – 1960) ou o assobio do assassino em “M – O Vampiro de Dusseldorf” (M – 1931).

Tentem discernir estas variações nos filmes, percebendo como a utilização deles reforça a mensagem que o diretor propõe ou a emoção que ele busca atingir.

quarta-feira, 12 de março de 2014

O Cinema de Ozu - "Pai e Filha"

Links dos textos anteriores:


Pai e Filha (Banshun - 1949)
Dizem que os dias do casamento é o dia mais feliz da vida de uma mulher, mas Noriko será a noiva mais triste do mundo. Em Pai e Filha, a moça se depara com tradições irrefragáveis e, com isso, é obrigada a fazer algo que não deseja. A vida tranquila que tem ao lado do seu pai, de quem cuida desde a morte da mãe, vira motivo de preocupação entre seus amigos e familiares.


Este é daqueles filmes em que o real impacto que causa, será sentido somente após o seu fim. Você irá passar alguns dias remoendo o que assistiu e com sorte, esta experiência ajudará a redefinir a maneira como vê a vida. Mesmo preferindo as filmografias de Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi, acredito que a real essência, tradição e filosofia do povo japonês estão no trabalho de Yasujiro Ozu. Seu estilo marcado pelo uso constante da câmera baixa evidencia que se os olhos da câmera representam os nossos, estamos em constante admiração, curvados em sinal de respeito, tal qual o próprio artesão de sua obra. Mas além da técnica belíssima, somos brindados com uma história simples e repleta de informações implícitas, que enriquecem a narrativa. Os personagens mentem constantemente, inclusive para si mesmos, e buscam andar na contra mão de suas tradições. A sociedade japonesa da época ditava que as jovens mulheres deveriam casar após certa idade, porém a bela Noriko (Setsuko Hara) não consegue se imaginar fazendo outra coisa senão cuidar de seu querido e viúvo pai (Chishu Ryu). Será preciso que ambos se sacrifiquem para que sejam vistos pela sociedade com apreço.

Óbvio que não irei cometer a heresia de estragar a experiência dos que ainda não assistiram, mas preciso salientar uma cena que considero importante. Durante o filme, Ozu nos apresenta momentos que realçam o leitmotiv da obra: o desejo de Noriko em se manter no conforto de seu lar e o desejo de seu pai em libertá-la, mesmo a contragosto, de seus braços seguros. O ápice deste confronto ideológico e passional se vê alicerçado em uma sutil citação a Nietzsche. Pouco antes de partirem em uma viagem melancólica, pai e filha conversam enquanto preparam suas malas. Noriko triste e resignada então diz: "Pai, eu quero estar sempre ao seu lado". Ozu então faz com que neste exato momento, o pai se prepare para guardar na mala o livro "Assim falou Zarathustra" (Nietzsche) e como que, inspirado por ele, toma coragem e discursa longamente sobre as razões pelas quais sua filha precisa seguir em frente e se casar, deixar sua companhia e através de um processo contínuo de superação, tornar-se uma variação do Ubermensch (homem superior) descrito no livro do filósofo alemão. Os valores passados nessa cena ecoam em quem assiste, por uma vida inteira. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Lançamentos da "Classicline" (Fevereiro / 2014)


Genghis Khan (1965)
Khan (Omar Sharif), ainda um menino chamado “Temujin”, sofre perseguições do rival Jamuga (Stephen Boyd) e é escravizado até se rebelar e formar um grande exército, reunindo os clãs rivais e unificando o povo mongol sob o seu comando. Na China, ele recebe seu título de Imperador. Durante a sua vida, ele conquista todo o Oriente, Ásia e chegaria até as portas da Europa, reunindo um dos maiores impérios da história da humanidade. 


Como em toda produção que se baseia em eventos reais, são tomadas grandes liberdades poéticas, mas o que importa é se o produto se impõe como um entretenimento de qualidade. E “Genghis Khan” excede as expectativas nesse sentido, adotando um tom leve e muito bem-humorado (especialmente com o personagem vivido por Telly Savalas), além de inteligentemente emular de “Ben-Hur” a estrutura narrativa da vingança de Khan contra Jamuga (além da arte do pôster), coerentemente vivido pelo Messala da produção citada, Stephen Boyd. Achei especialmente válida a caracterização de Temujin/Khan, evitando retratá-lo apenas como um conquistador sanguinário ambicioso, mas sim como um amálgama de um guerreiro e um unificador dos Mongóis, além de um pai amável, fugindo da caricatura.


Assim Estava Escrito (The Bad and The Beautiful – 1952)
Baseado na obra de George Bradshaw, a trama relata a ascensão e queda de um poderoso e tirânico magnata de Hollywood, como eram feitas as produções atrás das câmeras, o funcionamento e a atmosfera no mundo do cinema.


O diretor Vincente Minnelli, antes de iniciar carreira em Hollywood, sentia que os musicais estavam dominados por clichês, e ele passou a maior parte da década de 1930 revitalizando o gênero nos palcos de Nova Iorque. Por isso, quando o lendário produtor Arthur Freed retirou-o da Broadway em 1940, ele fez um acordo incomum: Minnelli iria simplesmente observar (sendo remunerado) nos bastidores de uma produção musical por um ano. Caso ele não se convencesse de que havia possibilidade de revitalizar o gênero, ele voltaria para os palcos. O resultado foi que ele criaria nos anos seguintes alguns dos melhores musicais da história do cinema. Mas a experiência que ele obteve durante aquele ano, como observador nos bastidores da indústria, serviu como modelo para o excelente “Assim Estava Escrito”, um estudo antropológico sobre essa fábrica de sonhos. O personagem de Kirk Douglas é uma versão do produtor David O. Selznick, um homem intensamente criativo e apaixonado pela Sétima Arte, que inspirava lealdade e ódio, sabendo manipular qualquer pessoa que necessitasse para seus objetivos. A linda fotografia de Robert Surtees, em preto e branco, capta a melancolia da morte daquela velha Hollywood (como em “Crepúsculo dos Deuses”). Um filme indispensável na coleção de todo cinéfilo dedicado.


Cativa e Cativante (A Damsel in Distress – 1937)
Jerry (Astaire), um artista americano em Londres, se envolve numa aposta, sendo o escolhido para salvar Lady Alyce (Joan Fontaine), a filha do Lorde, de um casamento arranjado com o líder de orquestra Reggie (Ray Noble). 


Dirigido por George Stevens, o primeiro filme de Fred Astaire na RKO sem a presença de Ginger Rogers não foi bem recebido pelo público, mas visto hoje, fora daquele contexto, revela-se um encanto tão satisfatório quanto “Ritmo Louco”, que Stevens havia dirigido anteriormente com a dupla. Joan Fontaine não dançava bem, mas exala carisma em cada cena. A trilha sonora do grande George Gershwin inclui a belíssima “A Foggy Day (in London Town)”, além de “Nice Work If You Can Get It”, que é uma das melhores cenas de dança da carreira de Astaire, onde ele sapateia interagindo com uma bateria. Como cereja no bolo, o precioso alívio cômico do grande (e pouco reconhecido no Brasil) George Burns.

A distribuidora também está lançando o excelente: Pérfida (The Little Foxes – 1941), mas irei fazer, em breve, um texto especial sobre o filme.

Lançamentos da "Versátil" (Fevereiro / 2014)


A Mulher da Areia (Suna no Onna – 1964)
Um professor de Tóquio vai ao deserto caçar insetos e, ao perder o ônibus de volta, é convencido pelos moradores locais a se hospedar na casa de uma jovem viúva, que mora num buraco enfiado na areia. Ele aceita, sem perceber que é vítima de uma armadilha cruel.


Um filme inesquecível do mestre Hiroshi Teshigahara, adaptado da poderosa obra de Kobo Abe, que nos remete à Camus e seu mito de Sísifo e à “Metamorfose”, de Kafka, com o entomologista (Eiji Okada) executando um trabalho infinito, lutando contra a invasão constante da areia na casa e acabando por se tornar o “inseto”, observado e utilizado pelos aldeões. Ao lado dessa misteriosa e hipnótica mulher, ele vai se distanciando psicologicamente cada vez mais de seu passado em Tokyo (como a barata de Kafka), acreditando ter encontrado um novo lar e, principalmente, um propósito (os aldeões necessitam da areia que ele “joga fora”). Uma eficiente metáfora para a sociedade japonesa, onde a conformidade absoluta é muito valorizada. Vale a pena ler a obra original (não sei se foi lançada no Brasil, mas é possível encontrá-la na versão portuguesa em sebos ou na internet, em inglês) e rever o filme, para captar melhor os vários simbolismos nas entrelinhas. O filme merece um texto especial, que farei em breve, onde irei aprofundar a análise do tema.


O Velho Fuzil (Le Vieux Fusil – 1975)
França, 1944. O médico Julien Dandieu (Philippe Noiret) tenta proteger sua família, levando-a para o campo. Mas um dia, sem que ele possa reagir, os nazistas matam sua esposa (Romy Schneider) e sua filha, diante de seus olhos. Então, ele resolve se vingar, usando apenas um velho fuzil.  


Impossível não se lembrar de “Sob o Domínio do Medo”, que Sam Peckinpah dirigiu em 1971, obra que provavelmente influenciou o francês Robert Enrico. Mas o recente “007 – Operação Skyfall” parece que bebeu da fonte francesa para a elaboração de seu terceiro ato, que se passa num castelo (também como metáfora de resgate ao passado do personagem), com o herói enfrentando uma legião e utilizando o conhecimento das passagens secretas do local a seu favor, munido apenas com um velho fuzil. A força visceral da atuação de Noiret comove com sua gradativa descida ao inferno, a deterioração de seu espírito, até chegar ao ponto em que existe apenas a motivação instintiva da vingança. A reação dele após encontrar o corpo carbonizado da esposa, especialmente, garantiu a ele o prêmio César (também recebeu o de Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora). Vale ressaltar também a bela fotografia de Etienne Becker, contrastando a selvageria do massacre (baseado no ocorrido em Oradour-sur-Glane, em 1944) com a existência idílica da família em flashback.


A Dama Oculta (The Lady Vanishes – 1938)
Durante viagem de trem pela Europa, a jovem Iris torna-se amiga da Srta. Froy. Mas a simpática senhora desaparece misteriosamente e, quando Iris investiga seu paradeiro, os passageiros negam tê-la visto.  


O melhor filme da fase britânica de Hitchcock, com uma trama passada em uma viagem de trem, utilizando como McGuffin a figura da enigmática senhora Froy, que desaparece exatamente no fim do primeiro ato. E, mais genial ainda, temos um Meta-McGuffin na forma de uma melodia que aparece logo no início, mas que só se revela importante ao final. Interessante perceber que o elemento da espiral, que o diretor trabalharia de forma definitiva em “Um Corpo que Cai” (Vertigo – 1958), já se mostra presente em seus primeiros projetos. O título do romance no qual o filme se baseia: “The Wheel Spins”, alude ao movimento das rodas do trem, como símbolo e veículo onírico, ao mesmo tempo, de mobilidade e imobilismo. Não é coincidência que as rodas apareçam na montagem que acompanha o primeiro (serão cinco ao total) desmaio da personagem Iris (Margaret Lockwood), que está voltando para se casar com um homem que não ama, apenas pelo nome importante que ele carrega. Detalhes que são perceptíveis em revisões acentuam o fato de que ela, como alguém que busca se tornar uma “Lady” ao se casar com alguém de classe social mais abastada, representando a sociedade britânica da época, é quem está verdadeiramente “desaparecendo” (vanishing). 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Cine Bueller - "Os Goonies"


Os Goonies (The Goonies – 1985)
Uma das primeiras coisas que notamos ao revisitar o filme nesses tempos medíocres da ditadura do “politicamente correto” é sua coragem. Só na primeira meia-hora já somos levados às gargalhadas com pelo menos dois momentos impagáveis, que nunca teriam sobrevivido na pós-produção de um projeto infanto-juvenil “mainstream” atual. A tentativa desastrada de consertar uma pequena estátua do Davi de Michelangelo quebrada, resultando em uma hilária “ereção”, o que leva uma das crianças a reclamar: “Era a parte favorita da minha mãe”. Piada fantástica que passa batida pela percepção do público infantil, num dos vários exemplos de inteligência do roteiro. E o que dizer dos conselhos do pequeno Corey Feldman à empregada latina? Fingindo traduzir as regras da patroa, o roteiro (de Chris Columbus, baseado em história de Steven Spielberg) faz o menino defender um diálogo que menciona maconha, heroína e cocaína, escandalizando a pobre mulher. Parece bobeira, mas duvido que um produtor se arrisque da mesma forma hoje em dia. Mas não é só a coragem que engrandece esse filme. Mesmo excluindo o fator da nostalgia de quem assistiu quando criança, ele ainda se sustenta incrivelmente bem como um entretenimento emocionante, mérito especial do versátil diretor Richard Donner.


Não conheço nenhum outro filme infanto-juvenil que trabalhe tão bem o tema clássico do companheirismo e do trabalho em equipe. Quando somos crianças, conceitos como honra e lealdade são prioridades. A pena é que crescemos e, em muitos casos, a ambição acaba atuando contra o caráter. O grupo que assistimos compartilha uma amizade crível, ainda que ele seja encaminhado para uma odisseia fantasiosa. Ao longo do filme, nossa criança interior acaba se sentindo parte da equipe. Quem não desejou ter um pai como o do pequeno inventor Data (Ke Huy Quan), que numa cena especialmente emocionante afirma que o menino havia sido sua melhor invenção? E quem não formou na infância um grupo como os “Goonies”? Não procurávamos tesouros de piratas, mas fazíamos de pequenos e insignificantes eventos, espetaculares aventuras. Ao final do dia, tanto eles quanto nós descobrimos que o mais importante na vida não é encontrar o “tesouro”, mas os percalços da jornada. E acima de tudo, os laços de amizade. O objetivo principal dos garotos era salvar o lar, o local onde eles compartilharam sonhos e frustrações, sorrisos e lágrimas; o símbolo máximo do amor que cada indivíduo da equipe nutre pelos amigos e pelo ideal em comum. Evitando a separação, agarram-se aos sonhos da infância, como bem representado no lindo abraço coletivo no desfecho na praia. Melancólicos, assistem à distância o símbolo de tudo o que irão gradativamente perder com a maturidade.

Normalmente os textos que abordam o filme focam no grupo de aventureiros, mas o elemento que sempre me leva de volta no tempo é Sloth (John Matuszak). O arco narrativo dele é fascinante. Inicialmente mostrado como um enigma monstruoso a ser temido, acaba se revelando um sonhador gentil. Preso e afastado de qualquer ser humano, sua única forma de interagir é pelo entretenimento que assiste na televisão. Como é bonito constatar que ele veste uma camiseta do “Superman”, um símbolo de valores íntegros, como se o personagem fosse o responsável lúdico pela preservação de sua sanidade enquanto prisioneiro maltratado. A Arte como ferramenta que inspira e reforça o caráter. Uma criança pura em um corpo bruto e deformado, que encontrará identificação imediata no desejo exploratório das crianças. Ele se torna um herói por encontrar no sorriso sincero dos “Goonies” o reflexo da criança que ele poderia ter sido.

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A excelente editora “Darkside Books” está relançando a novelização de James Kahn em edição comemorativa de 30 anos, com um belo mapa/pôster exclusivo. Acabamento em capa dura e selo dourado hot stamp. Item obrigatório na coleção de qualquer cinéfilo.

quinta-feira, 6 de março de 2014

"The Voice" em Hollywood


Frank Sinatra começou em Hollywood utilizando sua imensa popularidade como crooner da orquestra de Tommy Dorsey, na década de quarenta, em produções modestas (chanchadas) dos estúdios RKO, como “Noites de Rumba” (1941) e “Barulho a Bordo” (1942). Após afastar-se da orquestra e iniciar seu trabalho solo, continuou buscando aperfeiçoar-se como ator. Vale destacar nesse período inicial a sua participação no musical: “Quando as Nuvens Passam” (1946), cantando a emocionante “Ol´ Man River” de Jerome Kern e Oscar Hammerstein. O primeiro filme em que teve a oportunidade de construir um personagem foi o divertido musical “Marujos do Amor” (1945), onde fazia dupla com Gene Kelly. Seguindo o mesmo molde, vieram produções que se alternavam entre o tolo/divertido (caso de “A Bela Ditadora”) e o medíocre/embaraçoso (caso de “Beijou-me um Bandido”). A obra que simbolizaria essa época: “Um Dia em Nova York” (1949), ainda mantém certo charme, mas talvez tenha sido, dentre os filmes dirigidos por Stanley Donen em sua fase inicial, aquele que envelheceu pior. Musicalmente, o final da década de quarenta estava sendo desolador para o cantor, que via suas canções despencando nas paradas de sucesso. Muitos acreditavam que sua carreira estava acabada.

A década de cinquenta representou o período em que Sinatra ressurgiu, demonstrando extrema ousadia e coragem. Diferente de Elvis Presley, que tinha um empresário ganancioso que limitava suas escolhas cinematográficas a produções sem ambição, veículos para sua carreira musical, Sinatra estava livre para decidir seu rumo na indústria. Em “Double Dynamite” (1951), contracenava com Jane Russel e Groucho Marx. Na gema noir esquecida “Meet Danny Wilson” (1952), ele interpreta um personagem quase autobiográfico. No ano seguinte, como coadjuvante no belo “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity), recebeu um Oscar (entre os concorrentes, estava Jack Palance) e tornou-se novamente interessante para os produtores, que voltaram a apostar em seu nome nos letreiros luminosos. Em “Meu Ofício é Matar” (Suddenly – 1954) ele realiza aquela que considero sua melhor interpretação: um sociopata que decide assassinar o presidente dos Estados Unidos, atirando de uma janela com um fuzil de precisão. Quando o presidente Kennedy foi vítima de algo similar anos depois, o cantor demonstraria seu arrependimento por ter participado da obra (existe um boato mentiroso, que afirma que ele teria impedido a exibição posterior do filme), que o assassino Lee Harvey Oswald afirmou ter assistido um dia antes de cometer o crime. O único vilão que Sinatra interpretou no cinema, numa caracterização ambígua e corajosa que apontava seu interesse em expandir os horizontes de sua carreira como ator, infelizmente perdida em meio a uma corrente de infortúnios. Após alguns musicais ingênuos, ele novamente viria a demonstrar seu talento em “O Homem do Braço de Ouro” (1955), dirigido pelo genial Otto Preminger. Como um viciado em heroína, recebeu sua segunda indicação ao Oscar, mas dessa vez o felizardo foi Ernest Borgnine, por “Marty”. O filme possui vários problemas no roteiro (personagens secundários pifiamente construídos, por exemplo), mas a atuação de Frank é impecável. Brincadeiras refinadas como “Alta Sociedade”, em que contracenava com Bing Crosby e Grace Kelly, e “Meus Dois Carinhos” ancoravam-se numa fórmula de sucesso, mas somente administravam a persona do cantor, nunca a aprimoravam. No final da década ele começou a incluir seus amigos, que formavam a sociedade informal popularmente conhecida como “Rat Pack”, em suas produções, como Dean Martin e Shirley MacLaine em “Deus Sabe Quanto Amei” e Peter Lawford em “Quando Explodem as Paixões”.

“Onze Homens e Um Segredo” (Ocean´s Eleven – 1960) é o símbolo da parceria entre os membros do “Rat Pack”, que incluía Sammy Davis Jr. e Joey Bishop. Entre momentos bem engendrados, como o último ato, e outros menos inspirados, o que mantém o charme da produção é o clima de camaradagem que exala em cada cena. Os anos seguintes foram de experimentação para o astro, que chegou a dirigir (e estrelar) o bom filme de guerra: “Ninguém foi Tão Valente” (1965). Chegou a contracenar com medalhões como Spencer Tracy (no fraco “A Hora do Diabo”) e Lee J. Cobb (no mais fraco ainda “Come Blow Your Horn”). Enquanto considero o já citado “Meu Ofício é Matar” como sua melhor interpretação, “Sob o Domínio do Mal” (The Manchurian Candidate – 1962) é seu melhor filme. Dirigido por John Frankenheimer, Sinatra novamente tocou em um tema espinhoso, vivendo um herói militar que retorna para casa após a guerra, somente para perceber que foi usado em uma trama de espionagem, onde por meio de hipnose foi levado a assassinar até mesmo membros de seu próprio pelotão. Na segunda metade da década de sessenta, protagonizou alguns bons filmes de suspense, como “Tony Rome” e “The Detective”. Ele retornou de forma elegante após longos anos no fraco drama “The First Deadly Sin” (1980), onde contracenava com a bela Faye Dunaway.

Sinatra será sempre lembrado por sua brilhante carreira musical, poucos realmente dão o valor merecido à sua carreira cinematográfica, que é rica. Ele vivia depreciando seus méritos como ator, mas basta um olhar atento ao seu conjunto de obra para notarmos que, em sua versatilidade, ele abraçava personagens dos mais variados, sempre entregando algo correto e elegante.