terça-feira, 11 de março de 2014

Lançamentos da "Versátil" (Fevereiro / 2014)


A Mulher da Areia (Suna no Onna – 1964)
Um professor de Tóquio vai ao deserto caçar insetos e, ao perder o ônibus de volta, é convencido pelos moradores locais a se hospedar na casa de uma jovem viúva, que mora num buraco enfiado na areia. Ele aceita, sem perceber que é vítima de uma armadilha cruel.


Um filme inesquecível do mestre Hiroshi Teshigahara, adaptado da poderosa obra de Kobo Abe, que nos remete à Camus e seu mito de Sísifo e à “Metamorfose”, de Kafka, com o entomologista (Eiji Okada) executando um trabalho infinito, lutando contra a invasão constante da areia na casa e acabando por se tornar o “inseto”, observado e utilizado pelos aldeões. Ao lado dessa misteriosa e hipnótica mulher, ele vai se distanciando psicologicamente cada vez mais de seu passado em Tokyo (como a barata de Kafka), acreditando ter encontrado um novo lar e, principalmente, um propósito (os aldeões necessitam da areia que ele “joga fora”). Uma eficiente metáfora para a sociedade japonesa, onde a conformidade absoluta é muito valorizada. Vale a pena ler a obra original (não sei se foi lançada no Brasil, mas é possível encontrá-la na versão portuguesa em sebos ou na internet, em inglês) e rever o filme, para captar melhor os vários simbolismos nas entrelinhas. O filme merece um texto especial, que farei em breve, onde irei aprofundar a análise do tema.


O Velho Fuzil (Le Vieux Fusil – 1975)
França, 1944. O médico Julien Dandieu (Philippe Noiret) tenta proteger sua família, levando-a para o campo. Mas um dia, sem que ele possa reagir, os nazistas matam sua esposa (Romy Schneider) e sua filha, diante de seus olhos. Então, ele resolve se vingar, usando apenas um velho fuzil.  


Impossível não se lembrar de “Sob o Domínio do Medo”, que Sam Peckinpah dirigiu em 1971, obra que provavelmente influenciou o francês Robert Enrico. Mas o recente “007 – Operação Skyfall” parece que bebeu da fonte francesa para a elaboração de seu terceiro ato, que se passa num castelo (também como metáfora de resgate ao passado do personagem), com o herói enfrentando uma legião e utilizando o conhecimento das passagens secretas do local a seu favor, munido apenas com um velho fuzil. A força visceral da atuação de Noiret comove com sua gradativa descida ao inferno, a deterioração de seu espírito, até chegar ao ponto em que existe apenas a motivação instintiva da vingança. A reação dele após encontrar o corpo carbonizado da esposa, especialmente, garantiu a ele o prêmio César (também recebeu o de Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora). Vale ressaltar também a bela fotografia de Etienne Becker, contrastando a selvageria do massacre (baseado no ocorrido em Oradour-sur-Glane, em 1944) com a existência idílica da família em flashback.


A Dama Oculta (The Lady Vanishes – 1938)
Durante viagem de trem pela Europa, a jovem Iris torna-se amiga da Srta. Froy. Mas a simpática senhora desaparece misteriosamente e, quando Iris investiga seu paradeiro, os passageiros negam tê-la visto.  


O melhor filme da fase britânica de Hitchcock, com uma trama passada em uma viagem de trem, utilizando como McGuffin a figura da enigmática senhora Froy, que desaparece exatamente no fim do primeiro ato. E, mais genial ainda, temos um Meta-McGuffin na forma de uma melodia que aparece logo no início, mas que só se revela importante ao final. Interessante perceber que o elemento da espiral, que o diretor trabalharia de forma definitiva em “Um Corpo que Cai” (Vertigo – 1958), já se mostra presente em seus primeiros projetos. O título do romance no qual o filme se baseia: “The Wheel Spins”, alude ao movimento das rodas do trem, como símbolo e veículo onírico, ao mesmo tempo, de mobilidade e imobilismo. Não é coincidência que as rodas apareçam na montagem que acompanha o primeiro (serão cinco ao total) desmaio da personagem Iris (Margaret Lockwood), que está voltando para se casar com um homem que não ama, apenas pelo nome importante que ele carrega. Detalhes que são perceptíveis em revisões acentuam o fato de que ela, como alguém que busca se tornar uma “Lady” ao se casar com alguém de classe social mais abastada, representando a sociedade britânica da época, é quem está verdadeiramente “desaparecendo” (vanishing). 
Comentários
1 Comentários

Um comentário:

  1. Comprei A Dama Oculta e tô com ele aqui, o DVD é um primor. Estou ansioso pelos lançamentos que a Versátil anunciou das edições do Rashomon e O Colecionador.

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