quarta-feira, 30 de abril de 2014

TOP - Comédias Sexuais Adolescentes (Parte 2 de 2)

Link para a primeira parte:


5 – Férias do Barulho (Private Resort – 1985)
Jack (Johnny Depp) e seu amigo Ben (Rob Morrow) vão para um hotel na Flórida planejando passar cada minuto de sua estadia procurando por lindas garotas. Mas seus planos vão por água abaixo quando eles tentam seduzir a mulher de um ladrão de jóias (Hector Elizondo). Eles vão ter que ser mais espertos do que ele, um cruel segurança e um repulsivo escocês se quiserem passar um tempo a sós com as garotas de seus sonhos.

A balada romântica escolhida para emoldurar os créditos finais em berrante azul, “Summer Eve” (de Bill Wray) e seus intermináveis: “na-na-na-na, ô-ô-ô-ô”, já deixam bastante claro o tom dessa comédia. Um dos méritos da obra de George Bowers (que viria a trabalhar novamente em um projeto com Depp, como editor em “Do Inferno”, de 2001) é conseguir fazer você sentir que está naquele resort com a dupla de protagonistas. O roteiro episódico não explica absolutamente nada sobre nenhum personagem, mas isto não impede que você se sinta parte daquele universo pelo curto tempo de duração. Como não sorrir com a revelação de Shirley (Hilary Shepard) em seu culto ao guia espiritual “Baba Rama Nana”? Faço questão de relevar todas as falhas do filme, pelas gargalhadas que dou acompanhando as desventuras dos desastrados jovens tentando esconder a esposa bêbada e seminua de um troglodita, enquanto aquele tema musical pegajoso (“Ba Ba Ben”, de Bill Wray) emoldura a ação.


4 – Negócio Arriscado (Risky Business – 1983)
Joel Goodsen (Tom Cruise) nasceu em Chicago, tem apenas 17 anos e está a caminho da faculdade. Inteligente e responsável, ele é considerado um rapaz de futuro, o filho ideal. Mas ele tem sido "bonzinho" há muito tempo. Quando seus pais, que são superprotetores, viajam de férias, deixam a casa sob sua responsabilidade. Atraído pela liberdade, seu primeiro passo é um ataque ao armário de bebidas, seguida de uma voltinha proibida no carro do pai e uma noite de paixão com uma garota de programa (Rebecca de Mornay).

Ainda que seja essencialmente uma comédia sexual adolescente, o subtexto toca em questões profundas, como a angústia típica de uma fase exploratória, equivocadamente tida por muitos como uma sucessão de festas e gargalhadas. O arco narrativo do protagonista, vivido por Tom Cruise, retrata com perfeição o fim da inocência, aquele momento na vida onde percebemos que o mundo é pintado em tons de cinza. Sobra espaço até mesmo para uma poderosa crítica à sociedade consumista. Caso a lista levasse em consideração apenas a qualidade da obra, fora de contexto, esse filme ficaria em primeiro lugar. Os diálogos são inteligentes, num nível muito acima do que normalmente esperamos de obras do gênero, como o lema que é ensinado ao protagonista: “De vez em quando diga: que se dane. Isso traz liberdade. Liberdade traz oportunidades. Oportunidades fazem o seu futuro”. Suas sequências oníricas ousadas elevam ainda mais a qualidade do material. Ela está mais para “A Primeira Noite de Um Homem” ou “American Graffiti – Loucuras de Verão”, do que para “American Pie”.


3 – Porky’s – A Casa do Amor e do Riso (Porky’s – 1982)
As cômicas desventuras de seis estudantes que estão desesperados para encontrar a satisfação sexual no Porky's, um famoso "pulgueiro" onde há shows de strip-tease. Quando eles são expulsos de lá e atirados para fora pelo dono do local, eles arquitetam um plano de vingança que é realmente inesquecível. 

Não importa que o filme tenha envelhecido mal, ele é o símbolo de todos os elementos no gênero que seriam copiados à exaustão nos anos seguintes. Algumas cenas continuam muito eficientes, como a hilária reação dos jovens pervertidos, enquanto escutam a conversa entre o diretor da escola e a mulher que busca descobrir quem ousou exibir seu órgão sexual pelo buraco na parede do banheiro feminino. O mau gosto, nesse caso, é agregador ao resultado final. E é interessante que o filme seja ambientado na década de cinquenta, ousadia narrativa que seus imitadores nunca arriscariam emular.


2 – Picardias Estudantis (Fast Times at Ridgemont High – 1982)
O roteirista estreante Cameron Crowe, se disfarçou de aluno de colégio para trazer uma trama recheada de sexo, drogas e rock and roll, criando alguns dos mais memoráveis personagens já vistos no gênero. Está tudo aqui, desde as aventuras sexuais de Stacy (Jennifer Jason Leigh) e Linda (Phoebe Cates), a rápida carreira de Brad (Judge Reinhold) no mundo das lanchonetes, até o inesquecível e maluco surfista Spicoli (Sean Penn).

Assim como todos os garotos que assistiram na época, eu posso lembrar perfeitamente do impacto da cena onde a bela Phoebe Cates sai lentamente da piscina, no sonho erótico do personagem vivido por Judge Reinhold, caminha em direção à câmera com um olhar sedutor e tira a parte de cima do biquíni. Acho engraçado quando leio textos sobre o filme, escritos por jovens que viveram aquela época, salientando apenas a participação do Sean Penn. Ah, não sejamos hipócritas. Eu somente fui notar a presença dele no filme depois de anos. Na adolescência, não perdia uma exibição do filme no SBT, somente por causa da Cates e da doçura levemente sensual de Jennifer Jason Leigh. Para organizar essa lista, tive que despedir por algumas horas o meu lado “crítico”, resgatando apenas aquele garoto tímido de outrora, numa época sem internet e televisão a cabo, que torcia para chegar a Sexta-Feira à noite, somente para colocar na Bandeirantes e assistir os filmes do “Sexta Sexy”. “Picardias Estudantis” me remete diretamente a esse período da minha vida.


1 – Superbad – É Hoje (Superbad – 2007)
Seth (Jonah Hill) e Evan (Michael Cera) só querem sair com as garotas que gostam antes de ingressar na faculdade. Mas, para isso acontecer, eles precisam conseguir bebidas para a grande festa daquela noite. Com a ajuda do amigo Fogell, também conhecido como McLovin (Christopher Mintz-Plasse) e sua carteira de identidade falsa, os três partem em busca das bebidas. 

Por incrível que pareça, uma obra que não é “do meu tempo” de adolescente, acabou ficando com a primeira posição. Não há o elemento da nostalgia, mas é impressionante como esse projeto conseguiu unir vários símbolos eternizados no imaginário dos jovens cinéfilos, injetando um frescor que eu não achava que seria possível, ainda mais analisando o nível fraquíssimo das produções atuais no gênero. O humor é muito eficiente, mas também existe uma mensagem bonita sobre amizade, equilibrando com sensibilidade os aspectos grosseiros (essenciais) com uma bem-vinda sinceridade emocional, sem nunca permitir que os excessos prejudiquem a beleza de pequenos momentos, como a conversa entre Seth e Evan, próximo ao desfecho. Desde os créditos iniciais, com uma homenagem ao período do “Blaxploitation”, passando pela criativa ideia dos policiais como homens que buscam quebrar estereótipos, nós percebemos estar na companhia de personagens tridimensionais, que falam e agem como vários colegas que tínhamos na escola, ou até como nós mesmos. 

terça-feira, 29 de abril de 2014

"Viver", de Akira Kurosawa


Viver (Ikiru - 1952) 
Tive a oportunidade de rever recentemente esta obra de riqueza e sensibilidade ímpares na História da Sétima Arte. Mesmo não tendo sido novidade para mim, ainda não consegui me recuperar de seu impacto emocional. Diferente de seus celebrados filmes com samurais, com um estilo vibrante inspirado em John Ford, essa pérola na filmografia de Akira Kurosawa fala a língua universal do humanismo. Qualquer cultura no mundo iria compreender totalmente a sua mensagem.

O filme de 1952, com o roteiro inesquecível de Shimobo Hashimoto, Hideo Oguni e do próprio diretor, conta-nos através da narração de um Benshi (narradores do cinema mudo japonês) a história de Kanji Watanabe (Takashi Shimura), um velho funcionário da prefeitura que descobre estar com um câncer no estômago e que lhe resta pouco tempo de vida. Percebe que sua existência não teve um objetivo, um propósito. Que ele dedicou-se de corpo e alma ao seu trabalho burocrático e se esqueceu de amar e ser amado. Decide então empenhar-se em criar um parque onde as crianças pudessem brincar, já que a prefeitura sempre prometia, mas nunca realizava a construção. O seu esforço, mesmo combalido pela doença terminal, ganha recompensa na realização de seu sonho. A inspiração para o roteiro nasceu da inconformidade do diretor perante a onipresente corrupção corporativa no Japão do pós-guerra, sentimento que iria nutrir também seu futuro projeto “Céu e Inferno” (Tengoku To Jigoku, de 1963).

Não há como não se emocionar no lindo momento em que o protagonista entoa uma singela canção, com uma voz grave que esconde toda sua angústia, sentindo o peso de sua mortalidade nos ombros:

“A vida é breve,
Apaixonem-se, donzelas,
Antes que a flor carmesim desapareça dos seus lábios,
Antes que as marés da paixão esfriem dentro de você,
Para aqueles de vocês que sabem que não existe amanhã”.

Fugindo da pieguice com que o tema poderia se inundar, Kurosawa insere toques de humor que nos fazem simpatizar mais ainda com o personagem central. Takashi Shimura e sua constante dor física e emocional transparecem em todas as cenas. As lágrimas brotam não por pena, mas sim por inveja da dignidade humana que ele exala até o último momento. É o melhor exemplo de morte honrada já transposta para o cinema. Somente quando descobriu que estava morrendo é que ele decidiu viver. 

O filme foi lançado logo após o sucesso estrondoso de “Rashomon”, mas foi considerado “japonês demais” pelos distribuidores internacionais, que somente lançaram a obra oito anos depois. “Viver” é o Kurosawa mais humano, sensível e poético. Veja e repense seus conceitos sobre vida, morte e realização pessoal. 

"Noites de Cabíria", de Federico Fellini


Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria – 1957)
Caso você já tenha alguma vez sofrido uma rejeição amorosa, você entenderá Cabíria. Caso alguma vez tenha olhado para dentro de si e sentido um arrepio na coluna, enquanto percebe o deboche alheio, sentindo que o mundo parece sorrir a cada lágrima que desce em seu rosto, fazendo-o desejar chorar apenas para admirar a beleza do sorriso naqueles que lhe escarnizam, você entenderá Cabíria. Ela representa a busca incessante pelo amor nos outros, pelo sorriso de aprovação que muitas vezes não conforta tanto quanto deveria, por um entendimento tácito entre o coração e a razão. Cabíria é aquela flor que rompe o asfalto, desafiando todas as probabilidades, somente para aquecer-se ao calor do sol. Federico Fellini é o maestro que habilmente conduz esta sinfonia, esta ode ao amor não retribuído, com batutas envernizadas pela sua experiência de vida. 

Sua amada Giulietta Masina vive esta prostituta que consegue encontrar esperança mesmo após as maiores desilusões, acostumada ao som e fúria de uma sociedade hipócrita, que a discrimina por fazer público algo que muitos reservam aos recônditos de suas consciências. Uma alma que caminha pela noite italiana exibindo sem pudor sua intensa fragilidade, como que ingenuamente aguardando um cafuné que ninguém lhe reserva. Emocionante é a cena em que ela pega a mão de um homem e a conduz ao rosto, acarinhando-se com a mão alheia, como que se lhe bastasse este simples gesto para sentir-se humana. 

A confiança que se revela em seu olhar na brilhante cena final, mesmo sabendo que o mundo à sua volta não irá se modificar, tampouco a forma como a sociedade lida com sua incômoda presença, simboliza a mensagem que Fellini nos intenciona passar com esta linda obra: “A única coisa que poderei oferecer a meus personagens, sempre tão infelizes, será minha solidariedade: assim poderei, por exemplo, dizer a um deles: escuta, não posso lhe explicar o que não sei, mas em todo caso, amo-te o suficiente e te ofereço uma serenata”.

Ensaio de Orquestra (1978)


Ensaio de Orquestra (Prova d'Orchestra – 1978)
Dentre todas as analogias propostas por Federico Fellini em sua carreira, nenhuma foi tão direta e simples. Sua pouca duração acentua a feroz crítica social que o diretor cria, ao tentar compor um micro universo que reflita com clareza o macro universo em que vivemos. O cenário escolhido foi uma decrépita capela onde repousam túmulos centenários. A morte contracena com a vida o afinar dos instrumentos.

Com a chegada dos músicos, começamos a distinguir atitudes familiares. Aqueles mais sisudos, que levam com extrema seriedade sua profissão se misturam aos brincalhões e aos rebeldes. Nós somos representados pela câmera de uma equipe de televisão que registra o ensaio. Ao serem entrevistados, cada profissional salienta a importância essencial de seu instrumento. A exuberante pianista chega a afirmar com orgulho que o piano é superior porque não sai de seu lugar, ela é quem precisa se aproximar dele e tocá-lo. Já um músico obeso esquecido num canto diz que sua tuba é um instrumento solitário. Cada um naquele recinto se sente o protagonista da orquestra.

A primeira meia hora de filme demonstra o que o diretor italiano sabia fazer melhor: caricaturas perfeitas e com traços rápidos de elementos da sociedade. Como toda caricatura, sempre exageradas, mas com muito humor. Com a chegada do maestro e sua atitude autoritária, inicia-se um movimento de rebelião que encontra seu ápice numa apoteose lúdica e fantástica, envolvendo poeira, suor e lágrimas. Nas palavras do diretor: “uma parábola ética para provocar certa vergonha no povo, para mostrar que a loucura desorganizada das pessoas pode provocar a loucura organizada do Estado, a ditadura". 

A pequena obra fala acima de tudo, sobre a necessidade humana de sobrepor o indivíduo ao coletivo. Afinal, como um personagem deixa claro logo no início: todos nós tocamos nossos instrumentos apenas para nos deleitarmos com a aranha, que no teto se balança em sua teia.

A Sétima Arte como Forma de Cura.

O comum transtorno conhecido por histeria é a matéria-prima de várias indústrias que lucram diariamente com a fragilidade do ser humano. A pessoa que sofre desta patologia incorre com incrível frequência à teatralidade, suprindo carências e fantasias com uma constante atuação, onde afirmam nunca serem compreendidos ou amados, por conseguinte, acaba sendo “curada” pela mesma teatralidade.

O incrível poder da sugestão vai muito além dos placebos médicos ou das hipnoses, mostrando-se presente em variadas situações do nosso dia a dia. Imaginem uma senhora amargurada que procura um centro de macumba, para fazer um trabalho de magia negra contra uma ex-patroa, mas descobre que o lugar parece com qualquer escritório normal, sendo atendida por um “pai de santo” de gravata, sentado em uma mesa comum com apenas uma foto de sua família. Imaginem um especialista em homeopatia entregando para uma de suas pacientes um vidro de comprimidos, aconselhando de forma natural que se tome apenas duas vezes ao dia. Onde está a teatralidade nestas situações? São comuns, banais, humanas. Uma igreja sem rituais, um templo evangélico com um pastor que discursa em tom baixo e monocórdio, um político que suba em um palanque de bermudas, um cinema de luzes acesas. A teatralidade produz elementos que sugestionam para o bem e para o mal. Religiões e seitas lucram fortunas diariamente pelo poder da sugestão, fazendo o ser humano acreditar por alguns minutos fazer parte de algo mágico, desassociando-se momentaneamente da cruel experiência carnal diária. Dores somem ao toque das mãos de um pastor, para serem sentidas novamente horas depois. O choro de dias transforma-se em gargalhadas por duas horas, enquanto sua mente vive a arte do cinema. Vícios de anos sucumbem perante o ilusório efeito de comprimidos homeopáticos, sempre acompanhados de um extenso “manual de instruções” que auxilia no ato da sugestão. Quanto mais rebuscado e difícil o espetáculo, o “razzle dazzle”, maiores são as chances de surtir efeito. A duração do mesmo pode variar de horas até anos, dependerá da motivação da pessoa. A Sétima Arte utiliza a sugestão como elemento essencial. O cinéfilo investe seu dinheiro no ingresso, da mesma forma que o crente investe o seu dinheiro em sua crença, buscando um tipo de recompensa emocional instantânea. O dinheiro do cinéfilo mantém a indústria de cinema funcionando, assim como o dinheiro do crente mantém os carros importados e as mansões de seus pastores. Tudo é uma questão de prioridades. Conheço casos de suicidas saírem de sessões de cinema desistindo de darem fim às suas vidas, assim como casos de donas de casa que saem de um culto evangélico acreditando estarem curadas de tumores malignos. O que existe de comum nestes casos? O poder da sugestão.

Finalizo com o relato de um fato curioso, que envolve a realização do documentário “The Quiet One” (1948), como forma de agregar na reflexão que proponho nesse texto. O projeto narrava a vida conturbada de uma criança negra no Harlem, rejeitada pelos pais e pela sociedade. A produtora Janice Loeb precisava fazer com que o jovem demonstrasse em uma cena importante, uma expressão muito específica de angústia, simbolizando o momento em que o menino sente estilhaçar sua alma ao ser rejeitado pela mãe. A cena no roteiro seguia desta forma: o menino abandonado não se aguenta de felicidade ao poder matar a saudade de sua mãe, visitando-a na casa onde ela mora com o atual marido. A mãe abre a porta e recebe friamente aquele rosto desamparado, mas ainda assim esperançoso, que sorri para ela. Ela se dirige a ele sem nenhum traço de paixão, uma frieza mortal, destruindo a esperança do menino, que se vê envolto pela tristeza. Como conseguir fazer aquela variação de sentimentos tão radicais brotarem naquele menino? Além disso, como conseguir trabalhar essa cena de forma a sugestionar a emoção certa no público? Não poderia ser algo caricato ou teatral, pois a mente do espectador trabalharia da mesma forma que em qualquer dramalhão de Hollywood, inconscientemente sabendo que são artistas atuando. Janice então solucionou o problema da seguinte forma: deixou o menino passando fome durante algum tempo, depois ofereceu a ele uma suculenta torta de maçã (o olhar do menino ao ser recebido por sua mãe na porta), retirando-a de suas mãos no exato momento em que ele intencionava saciar sua fome (a tristeza no semblante dele ao perceber a frieza na voz da mãe). Neste processo a câmera seguiu captando tudo, bastando que ela depois editasse conforme o roteiro pedia. Criou-se a fonte perfeita para sugestionar a emoção que o diretor Sidney Meyers ambicionava em seu público. Assim como quem sofre de histeria sente intensa admiração pelos que atuam na medicina (representam inconscientemente “a cura”, devidamente imersos em rituais, que vão desde o branco na vestimenta até a escrita única dos doutores, difícil de entender), os cinéfilos buscam nos projetos dos diretores, uma realização pessoal, uma resposta, uma cura.

domingo, 27 de abril de 2014

Sobre os que lucram com o racismo...

O ator Morgan Freeman tempos atrás deu uma declaração inteligente ao ser abordado sobre racismo. Quando perguntado sobre a melhor forma de confrontá-lo, respondeu sem titubear: “não o mencione”. Ele também afirmou que considera ridículo o conceito por trás de um “Mês da Consciência Negra”, pois com sua existência apenas salienta o preconceito. Não existe “Mês da Consciência Branca” ou um “Mês da Consciência Judaica”, então qual a razão de resumir toda a importância dos negros na fundação dos Estados Unidos em apenas um mês? Psicologicamente tendemos a conferir homenagens simbólicas ao que consideramos diferente, posto que o que consideramos natural, nós simplesmente absorvemos em nossa rotina.

O “Dia do Índio” e o “Dia Mundial do Orgulho Gay” existem, ainda que a violência e o desrespeito contra índios e homossexuais continuem sendo exercidos com a mesma contundência em nossa sociedade. O racismo é um preconceito que nasce, como todos, da ignorância, tendo como base o discurso de que negros são diferentes de brancos. Nos restaurantes do sul dos Estados Unidos, na década de cinquenta, eram separadas as mesas para brancos e as mesas para negros, banheiros para negros e banheiros para brancos. Quando reforçamos a equivocada diferença, por meio de datas ou favorecimentos especiais, posicionamos um tijolo a mais no muro da segregação. A única forma de acabar com o racismo é eliminar qualquer tipo de hipócrita diferenciação, ou como Morgan Freeman muito bem opinou, parando de falar no assunto. Infelizmente este erro muitas vezes é cometido pelos próprios negros, que salientam a diferença, ao invés de defenderem o fato de que somos todos iguais. Aquele que veste uma camiseta com dizeres que afirmam algum senso exagerado de orgulho negro, inconscientemente está agindo ideologicamente de forma tão extremista, não tão violenta, quanto um neonazista. O racismo foi alimentado por décadas pela diferenciação, então a única forma de erradicá-lo é alimentar a igualdade.

Continuando no tema, quando Quentin Tarantino lançou seu faroeste “Django Livre” (Django Unchained), que tem como herói um escravo negro (vivido por Jamie Foxx), ele foi alvo de diversas críticas que acusaram o filme de racista. O diretor negro Spike Lee defendeu o tolo argumento: “não vi, não verei e não gostei”. Lee fez carreira salientando as diferenças, um tipo de blaxploitation panfletário, enquanto Tarantino brinca com o senso de igualdade (entre gêneros cinematográficos, principalmente), resumindo seu projeto a um conto de vingança com referências ao Western Spaghetti italiano. Em um ponto de vista de extrema liberdade criativa, fico pensando se, diferente de Tarantino, Lee se preocupa com a erradicação do racismo, pois não teria mais pelo que lutar/lucrar. Assim como os programas de televisão vespertinos que se nutrem da violência, que torcem para que o incêndio se alastre, para que a audiência aumente. Infelizmente esta reação apatetada de Lee acabou validando outros esforços similares, como os protestos que acabaram causando a interrupção da fabricação de bonecos com personagens do filme. O argumento utilizado foi o de que esses bonecos são altamente ofensivos aos ancestrais dos negros e à comunidade afro-americana. No ponto de vista dos que reclamaram, os bonecos representariam uma zombaria à escravidão. O real achincalhamento reside no ato de fingir não ver, desviar o olhar da realidade para uma ilusória bolha de proteção, cuja camada frágil não resiste sequer à gota da chuva.

Retirem das prateleiras os bonecos dos negros heróis do Velho Oeste, infelizmente ainda raros, deixando espaço para os usuais bonecos de cowboys e super-heróis brancos. Rejeitando a mescla de brancos e negros, inclusive nas lojas de brinquedo, com a desculpa de que se busca preservar a história dos negros, os grupos reclamantes parecem demonstrar preferência pela sustentação da diferença, como se a consequência dela fosse mais interessante para eles que os esforços por se homogeneizarem. O racismo será uma palavra extinta quando, tanto brancos quanto negros, perceberem que ela simboliza uma diferença inexistente.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Lançamentos da "Classicline" (Abril/2014)


A Intocável (Sea Wife – 1957)
Esta aventura melodramática acontece durante a II Guerra Mundial, após os britânicos evacuarem Cingapura em 1942. Um navio é torpedeado e apenas quatro pessoas sobrevivem: uma freira, um oficial da RAF, um magnata fanático ateu e um comissário de bordo negro. Os quatro ficam à deriva durante dias, sofrendo com diversos tipos de perigos e dificuldades, antes de chegarem a uma pequena ilha deserta. 


Esse filme foi uma grata surpresa, um exemplo de uma ideia simples e muito bem executada. Um roteiro enxuto muito à frente de seu tempo, correndo riscos em temas espinhosos como a discriminação racial. Joan Collins, talvez em seu melhor momento, interpreta uma freira diferente daquelas que o cinema costumava mostrar, enfrentando sem passividade os obstáculos marítimos e interpessoais. O inexpressivo Bob McNaught acabou assumindo a direção, quando Roberto Rossellini desistiu do projeto em cima da hora. É interessante notar que o carisma dos atores (especialmente Cy Grant e Richard Burton) consegue superar qualquer fragilidade narrativa.


Irmão Contra Irmão (Saddle The Wind – 1958)
O pistoleiro aposentado e ex-soldado confederado Steve Sinclair (Robert Taylor) está vivendo como um fazendeiro em uma pequena comunidade. Ele colabora com o proprietário principal Dennis Deneen (Donald Crisp), de quem aluga o rancho, para preservar a estabilidade comunal. Sua vida tranquila é interrompida pela aparição de seu irmão mais novo, o emocionalmente instável Tony (John Cassavetes) e a bela namorada de Tony Joan (Julie London). 


Muitos cinéfilos iniciantes, por não terem assistido muitos filmes do gênero, costumam apontar “Os Imperdoáveis” como original em seu tema sobre os efeitos corrosivos da violência nos pistoleiros. Mas existem vários projetos, especialmente na década de cinquenta, quando o faroeste ganhou contornos psicológicos, que lidam com o assunto de forma muito eficiente, como “Irmão Contra Irmão”. Por trás do clássico confronto entre irmãos, existe uma profunda análise sobre as repercussões psicológicas de se puxar um gatilho e tirar a vida de alguém. Já na cena que é emoldurada pelos créditos iniciais, numa ousadia narrativa, somos levados a crer que estamos assistindo a cavalgada do herói, quando na realidade estávamos acompanhando o trajeto de um cruel bandido, vivido por Charles McGraw. Outro aspecto interessante é que o roteiro foi escrito por Rod Serling, o criador da série de ficção científica “Além da Imaginação”. Uma ótima trilha sonora de Elmer Bernstein é a moldura perfeita, incluindo uma bonita música-tema cantada por Julie London.


A Mão Esquerda de Deus (The Left Hand of God – 1955)
O avião de James Carmody (Humphrey Bogart), um piloto americano, cai nas montanhas da China em 1947. Ele se faz passar por John O’Shea, o padre de uma missão, que tinha sido morto, para fugir da guarda pessoal de um renegado comandante militar chinês, Yang (Lee J. Cobb). Apesar de já ter trabalhado para Yang e mesmo não tendo nenhuma formação religiosa, James cativa os moradores e missionários de uma pequena aldeia chinesa, incluindo a bela enfermeira Anne Scott (Gene Tierney). 


O canadense Edward Dmytryk foi um dos diretores mais competentes de sua época, ainda que normalmente seja esquecido em listas do gênero. Mas o que mais chama a atenção nesse filme é a escalação de Humphrey Bogart como um padre, algo que deve ter causado impacto e grande interesse na época. Claro que o roteiro reserva surpresas sobre o personagem, um homem que vive em plena guerra, buscando voltar a acreditar na grandeza do homem e renovar sua fé, envolto em desesperança e violência. Como ponto negativo, Lee J. Cobb interpretando um asiático, numa das mais equivocadas seleções de elenco já feitas. Os diálogos espertos salvam os momentos em que ele interage com Bogart, reduzindo sensivelmente os danos. Cenas como a que o protagonista se encontra com um paciente moribundo em um hospital, recitando suas orações finais, elevam a qualidade do filme. Não é uma obra-prima, mas vale por termos a chance de ver o ator em uma de suas raras incursões fora de sua zona de conforto.


A História de Três Amores (The Story of Three Loves – 1953)
Essa obra conta três histórias conectadas pelo amor. A primeira conta a história de Paula (Moira Shearer), uma exímia dançarina que não pode viver verdadeiramente a menos que dance. Na segunda história, conhecemos Tommy (Ricky Nelson), que despreza sua tutora francesa (Leslie Caron), e odeia ser criança, sonhando poder ser adulto para que possa fazer o que quiser. Terceira história: Pierre Narval (Kirk Douglas) é um trapezista que fica sem trabalho quando a sua parceira morre fazendo uma manobra perigosa por sua influência.  


Filmes estruturados como antologias são sempre um risco, já que é difícil manter a qualidade em todos os segmentos. Mas Hollywood pegou carona no estilo que estava sendo utilizado na Europa, com resultados invariavelmente fracos. Dentre todos, talvez esse seja o que melhor resistiu ao teste do tempo. Além de uma belíssima trilha sonora do mestre Miklos Rozsa, o projeto conta com uma linda cena em que a bailarina Moira Shearer emula a si mesma (após o sucesso de “Os Sapatinhos Vermelhos”, em 1948) em uma dança ao som da monumental “Rhapsody on a theme of Paganini”, de Rachmaninoff, que décadas depois viria a ser utilizada generosamente em “Em Algum Lugar do Passado”. 

sábado, 19 de abril de 2014

"O Evangelho Segundo São Mateus", de Pasolini


O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo – 1964)
A mulher que chora desesperada ao testemunhar a crucificação do filho, na cena mais bonita do filme, é a mãe do diretor Pier Paolo Pasolini. Seu filho caçula na vida real, um jovem idealista, havia sido assassinado em 1945 por titistas num conflito entre dois grupos de partigiani. O registro eterno de sua dor somente mantém sua contundência visual por resgatar uma emoção real. E o sentimento genuíno é abraçado pela usual opção do poeta/diretor pelo naturalismo, utilizando pessoas do povo no elenco, cujos rostos castigados são procurados pela câmera com o afã de um arqueólogo, como que buscando extrair de cada vinco a intenção que nenhuma linha de roteiro poderia criar.

O Jesus de Pasolini, convicto ateu, perturba os líderes de sua época, destruindo-os em longas batalhas argumentativas. Ele é corajoso, firme, porém terno, mas sempre consciente da força de seus atos. Em uma mudança de atitude radical, quando comparado a outros filmes no mesmo tema, o protagonista vivido pelo espanhol Enrique Irazoqui é um revolucionário desarmado que faz tremer mais por suas palavras do que por seus feitos miraculosos, que são filmados até com indiferença, como se ele os utilizasse apenas para capturar a atenção daquele povo ignorante, na esperança de fazê-los entender sua mensagem. E esse conceito realista se reflete no cenário escolhido pela produção. Quando analisamos o contexto do cinema italiano da época, com o sucesso dos extravagantes épicos “sandália e espada” realizados nos estúdios da Cinecittà, torna-se ainda mais ousada a opção do diretor por caminhar na contramão, apostando em um projeto rodado todo em locações reais, onde a dura ação do tempo cria um espetáculo visual de ruínas em labirínticas cidades.

O sermão da montanha, visualizado numa série de jump cuts, atravessando noite e dia, chuva e sol, nunca foi retratado de forma tão ideologicamente impactante. E impactar era o desejo principal do diretor, que escolheu unir em sua trilha sonora hinos tradicionais gospel, como “Sometimes i feel like a motherless child” (algumas vezes me sinto como um órfão), com instrumentos tribais africanos, na versão da Missa Latina. É interessante perceber o impacto que o breve encontro com o Papa João XXIII, dois anos antes, surtiu no autor ateu, que acabou dedicando a obra ao líder religioso. Sua escolha por manter fidelidade total ao texto do evangelho é parte da crítica que ele insere, já que isso realça em vários momentos o quão metafóricos são alguns dos eventos relatados. O roteiro evidencia o aspecto anárquico do homem que a História manipulou com interesses escusos. Ele expõe em seus discursos uma antítese do que os sacerdotes vêm realizando em seu nome ao longo dos séculos, com clara denúncia aos males de uma vida controlada por dogmas.

***

O filme está sendo lançado pela distribuidora “Versátil” em DVD e Blu-ray, com imagens restauradas e extras espetaculares, como dois documentários sobre o diretor. Filme essencial na coleção de todo cinéfilo que se preze.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

TOP - Filmes Sobre Política (Parte 1 de 3)

Não é muito fácil estipular um mérito que identifique especificamente um filme político, já que a política é um elemento que move tramas dos mais diversos gêneros. “O Poderoso Chefão – Parte 2”, por exemplo, é profundamente político, mas devido à qualidade do projeto, ele acabaria sendo colocado numa posição de destaque, tomando a frente de obras mais identificáveis no contexto proposto pela lista. Ele não entrou na lista final. Então eu procurei ser o mais objetivo possível, organizando com base em meus favoritos, aqueles que eu revi e se mantiveram imperturbáveis à ação do tempo. Tentei abraçar vários gêneros e propostas, chegando a um total de vinte produções. Nessa primeira parte os comentários serão breves.

Esses são os meus favoritos:


20 – V de Vingança (V for Vendetta – 2005)
Na paisagem futurista de uma Inglaterra totalitária, o filme conta a história de uma pacata jovem que é resgatada de uma situação de vida e morte por um homem mascarado, conhecido apenas como “V”. Incomparavelmente carismático e extremamente habilidoso na arte do combate e destruição, ele inicia uma revolução quando convoca seus compatriotas a erguerem-se contra a tirania e opressão.

As máscaras de Guy Fawkes nas manifestações que tomaram o Brasil e o mundo de assalto no ano passado já bastariam para mensurar o impacto político da obra. O mérito é do escritor Alan Moore, responsável pelo original nos quadrinhos, mas é inegável que o filme levou o conceito para um público muito maior.


19 – Bananas (1971)
Fielding Mellish (Woody Allen) está apaixonado por Nancy, uma ativista política. Ela não o corresponde, porque deseja como companheiro um grande líder nacional. Fielding, então, foge para São Marcos, onde se alia aos rebeldes locais, tornando-se Presidente do País.

A metralhadora verborrágica e pantomímica de Woody Allen, em uma de suas obras iniciais mais engraçadas, se volta dessa vez para a política ditatorial da América do Sul, compondo o revolucionário cujo rosto verdadeiramente deveria estampar as camisetas dos jovens. 


18 – Frost/Nixon (2008)
Por três anos, depois de renunciar ao cargo de presidente dos Estados Unidos, Nixon permaneceu em silêncio. Mas, no verão de 1977, o rígido e perspicaz comandante-chefe deposto aceitou participar de uma entrevista intensa para confrontar as perguntas sobre seu tempo na Casa Branca e o escândalo do Watergate que o levou à renúncia. Nixon surpreendeu a todos ao selecionar Frost como o apresentador a quem iria confessar tudo com exclusividade. Da mesma forma, a equipe duvidava da habilidade de seu chefe para se segurar. Quando a câmera foi ligada, uma batalha entre os dois começou.

O diretor Ron Howard consegue captar a tensão crescente na histórica entrevista de Nixon ao subestimado David Frost. Um “jogo de xadrez” argumentativo de um homem experiente na arte da mentira e nos jogos políticos, enfrentando uma personalidade midiática sem muita respeitabilidade em sua área.


17 – Um Grito de Liberdade (Cry Freedom – 1987)
Nos anos 1970, apartheid na África do Sul, Donald Woods é um jornalista branco que se torna amigo de Stephen Biko, o importante militante pelos direitos dos negros. Quando Biko é morto na prisão em 1977, Woods percebe a necessidade de divulgar a história do ativista, a perseguição sofrida, a violência contra os negros e a crueldade do regime.

A direção meticulosa de Richard Attenborough em um dos melhores “filme-denúncia” da década de oitenta, resgatando a memória e os ideais pacifistas do ativista anti-apartheid Steve Biko, interpretado com maestria por Denzel Washington.


16 – Adorável Vagabundo (Meet John Doe – 1941)
Quando Henry Connell (James Gleason), seu editor, a demite, Ann Mitchell (Barbara Stanwyck), uma jornalista, publica sua última matéria, uma carta criada por ela e assinada por John Doe comunicando que cometerá suicídio no Natal em protesto contra corrupção e a pobreza, que invadem o país. Isto gera várias reportagens, nas quais Ann denuncia as injustiças sociais. Tal fato leva o jornal a procurar alguém para representar John Doe e o escolhido é Long John Willoughby (Gary Cooper), um vagabundo. Mas a popularidade de John cresce de tal maneira que os fatos saem do controle.

Uma poderosa crítica à política americana em pleno início da década de quarenta. Frank Capra discute o poder manipulativo da mídia, dez anos antes de “A Montanha dos Sete Abutres” (de Billy Wilder). Pioneiro em sua coragem, ainda que a obra mantenha o estilo esperançoso do diretor, especialmente em seu desfecho.


15 – A Confissão (L'Aveu – 1970)
Em um país comunista do Leste Europeu, Gerard, vice-ministro de Relações Exteriores, é inexplicavelmente preso por seus superiores. No interrogatório, o objetivo é lhe arrancar, a qualquer custo, a confissão de crimes pelos quais ele não tem a menor ideia de estar sendo acusado.

O filme inicia como um thriller político, com o protagonista percebendo estar sendo vigiado por estranhos onde quer que vá, mas assim que o herói Kafkiano (assim como em "O Processo", London se vê pagando um crime que desconhece que cometeu) inicia seu calvário, sendo algemado, vendado e forçado a caminhar em uma cela, o roteiro procura nos fazer sentir sua fome, sua sede e sua angústia por tentar conquistar alguns minutos de sono. Seus carrascos clamam por uma confissão. A forma como Costa-Gavras evidencia a cruel criatividade dos torturadores e a transformação física (e, ainda mais interessante, a psicológica) do protagonista, são os pontos altos da obra.


14 – Muito Além do Jardim (Being There – 1979)
Chance (Peter Sellers), um homem ingênuo, passa toda a sua vida cuidando de um jardim e vendo televisão, seu único contato com o mundo. Ele nunca entrou em um carro, não sabe ler ou escrever, não tem carteira de identidade, resumindo: não existe oficialmente. Quando seu patrão morre, é obrigado a deixar a casa em que sempre viveu e, acidentalmente, é atropelado pelo automóvel de Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um grande magnata que se torna seu amigo e chega a apresentá-lo ao Presidente (Jack Warden). Curiosamente, tudo dito por Chance ou até mesmo o seu silêncio é considerado genial. 

Além de todos os momentos brilhantes no filme, nunca me esqueço da linda cena em que Chance deixa sua casa pela primeira vez, ao som de “Also Sprach Zarathustra”. Mas diferente da obra-prima de Kubrick “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, aquele homem puro e honesto estava prestes a estabelecer contato com uma raça evolutivamente inferior: políticos.


13 – Dr. Fantástico (Dr. Strangelove – 1964)
Um general completamente insano, Jack Ripper, ameaça, durante uma reunião entre nações, neutralizar a U.R.S.S. com bombas nucleares, o que poderia gerar um Holocausto fulminante na Terra. Todos os outros membros fazem de tudo para evitar. Entre eles está o genial ator Peter Sellers, que retrata três das pessoas que podem impedir a tragédia: o Capitão britânico Mandrake, o presidente norte-americano Merkin Muffley e o alemão bêbado Dr. Fantástico.

Stanley Kubrick audacioso no auge da Guerra Fria, com a inesquecível cena do cowboy montado na ogiva nuclear, símbolo precioso da ideologia política americana. Impossível esquecer a clássica frase: “Vocês não podem brigar aqui. Isso é uma Sala de Guerra”.


12 – A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang – 2004)
Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) trabalhava como secretária de Adolf Hitler (Bruno Ganz) durante a 2ª Guerra Mundial. Ela narra os últimos dias do líder alemão, que estava confinado em um quarto de segurança máxima.

O filme nos coloca na mente do ditador, refletindo o colapso do sistema político em suas ações cada vez mais intempestivas. Um ótimo retrato de como os partidos e nações inteiras podem confundir ufanismo com discurso e guerra com ação política.


11 – O Grande Ditador (The Great Dictator – 1940)
Em meio a Segunda Grande Guerra Mundial, judeus estavam sendo esmagados pelo preconceito alemão. Chaplin, genialmente, interpreta os dois protagonistas da história: o ditador Adenoid Hynkel (numa clara referência a Hitler) e o barbeiro Judeu.

Somente o discurso final de Chaplin já serviria como mérito para a inclusão do filme na lista. O gesto político mais sincero e contundente já filmado na história do cinema, nascido da angústia de um artista apaixonadamente íntegro perante uma sociedade cada vez mais corrompida. 

Continua...

quarta-feira, 9 de abril de 2014

TOP - Comédias Sexuais Adolescentes (Parte 1 de 2)

Como era maravilhoso ser adolescente na década de oitenta. Quem viveu a época, sabe a sensação de ligar a televisão de tarde, após uma manhã estafante na escola, e escutar aquela trilha sonora eletrônica característica, que sempre emoldurava altas paqueras em Fort Lauderdale e Miami Beach. Aquelas belas garotas de biquíni e a consequente nudez eventual, que torcíamos para que ocorresse com mais frequência. Morríamos de rir com as tentativas desastradas dos rapazes, sem nos preocuparmos com a pobreza dos roteiros. Estávamos num estágio anterior aos “Emmanuelle’s” das madrugadas da Rede Bandeirantes, sendo presenteados de vez em quando pelas pornochanchadas nacionais que o SBT exibia nas noites de Domingo, como a inesquecível “Clara das Neves” vivida por Adele Fátima. Não tínhamos internet, nem TV a cabo. As comédias sexuais adolescentes eram verdadeiros eventos quando eram exibidas nas tardes, forçando-nos a atrasar a entrega dos deveres de casa do dia seguinte. Maldito “politicamente correto”.

Pensando nessa época maravilhosa, passei alguns dias revendo vários filmes do gênero. Alguns que eu achava muito bons outrora, como “Clube dos Cafajestes”, “Primavera na Pele”, “A Vingança dos Nerds” e “Uma Escola Muito Especial, Para Garotas”, perderam pontos nessa revisão. “O Último Americano Virgem”, uma cópia exata do israelense “Sorvete de Limão” (de 1978), dirigido pelo mesmo Boaz Davidson, foi outro que não sobreviveu tão bem ao teste do tempo. Alguns eu considerei limpos demais, como “Namorada de Aluguel” e “Loverboy”, o que resultou na exclusão deles do TOP 10, ainda que tenham ocupado posições próximas. Os que eu selecionei possuem elementos característicos, como certa grosseria no humor, audácia e sensualidade. E, claro, são garantia de um ótimo entretenimento, tão divertidos hoje quanto na época em que eu os assistia com o uniforme da escola.

Esses são os meus favoritos:


10 – As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless – 1995)
Em Beverly Hills, uma adolescente, filha de um advogado muito rico, passa seu tempo em conversas fúteis e fazendo compras com amigas totalmente alienadas como ela. Mas a chegada do enteado de seu pai muda tudo, primeiro por ele criticá-la de não tomar conhecimento com o "mundo real" e em segundo lugar por ela descobrir que está apaixonada por ele.


Normalmente os filmes do gênero se focam nas aventuras dos rapazes, então é válido celebrar o esperto roteiro de Amy Heckerling, que emula a sensibilidade de John Hughes ao retratar as angústias adolescentes femininas. O filme capta com perfeição a juventude consumista da década de noventa. Alicia Silverstone encarna a alienação da geração que recebia todos os cartões de crédito, mas carecia da atenção de seus pais. Uma legião de zumbis que peregrinavam diariamente aos Shopping Centers, com trejeitos e expressões calculadas e padronizadas.


9 – A Última Festa de Solteiro (Bachelor Party – 1984)
Rick Gasko, um motorista de ônibus escolar, está a ponto de se casar com Deborah Julie Thompson. Os pais dela o odeiam e o ex-namorado dela também, assim, usando o dinheiro que eles têm, planeja criar uma situação que faça com que Debbie, desista de Rick. Para complicar ainda mais, os amigos dele resolvem promover uma despedida de solteiro que, como todas as despedidas de solteiro, é em um hotel caro, com muita bebida, prostitutas e filmes pornográficos.


Já na primeira sequência, onde acompanhamos Tom Hanks dirigindo o ônibus escolar católico mais politicamente incorreto da cidade, percebemos estar diante de um roteiro audacioso. Sem concessões, as piadas grosseiras vão num crescendo, correndo riscos e sendo amparadas pela química do elenco. “Se Beber, não Case”, filho legítimo desse projeto, mesmo tendo sido realizado décadas depois, não consegue superar essa pequena gema em seu gênero.


8 – American Pie (1999)
A história de quatro amigos adolescentes que firmam um pacto totalmente "nerd" semanas antes de se formarem no ginásio. Segundo esse pacto, todos eles deveriam transar com alguma mulher antes de se formarem, ou até exatamente a noite de formatura. 


Após várias sequências fracas, muitas para o mercado de vídeo, podemos cometer o erro de banalizar a importância dessa comédia de baixo orçamento. Mas basta analisá-la em contexto, para constatarmos que o sucesso dela foi crucial no interesse dos produtores em resgatar a “comédia sexual adolescente”, que estava em coma durante a década de noventa. Sem “American Pie”, com certeza não teriam recebido sinal verde as comédias de Judd Apatow. O projeto também redirecionou a carreira de Eugene Levy (que vive o pai do protagonista), um excelente comediante que nunca havia sido realmente abraçado pelo grande público. Jason Biggs chegou a interpretar o protagonista de “Igual a Tudo na Vida”, sob a direção de Woody Allen. O filme serviu como uma nostálgica homenagem à fórmula, com uma ternura poucas vezes vista no gênero.


7 – Férias da Pesada (Fraternity Vacation – 1985)
Durante um feriado, dois jovens vão à caça de garotas em Palm Springs, eles levam o último dos nerds, Wendell, somente porque seus pais pagariam toda a viagem. 


Também conhecido como “A Primeira Transa de Um Nerd” e “Quando a Turma Sai de Férias”, esse eu perdi a conta de quantas vezes assisti quando adolescente. Eu me identificava demais com o personagem nerd vivido por Stephen Geoffreys (que fez “A Hora do Espanto” e, anos depois, virou ator pornô homossexual), mas não tinha amigos populares bacanas como os dele. É legal perceber a presença, numa ponta, do Sr. Tanner da série “Alf – O ETeimoso”, Max Wright, como o pai do jovem nerd. Tim Robbins, antes da fama por “Um Sonho de Liberdade”, interpreta um dos amigos do garoto. Dentre as cenas que continuam muito engraçadas, vale ressaltar o encontro do nerd com os pais de sua primeira namorada, vivida por Amanda Bearse (de “A Hora do Espanto” e da série “Married With Children”), além do hilário momento em que os dois rapazes populares se preparam para dividirem a cama com duas beldades, Barbara Crampton e Kathleen Kinmont. Existiam outros filmes do gênero melhores, mas nutro um carinho especial por esse, talvez porque naquela época eu sonhava que aparecesse alguma garota na turma como a belíssima Sheree J. Wilson, que visse além dos óculos e da timidez desajeitada do nerd.  


6 – Mulher Nota Mil (Weird Science – 1985)
Gary Wallace e Wyatt Donnelly são dois adolescentes nada populares com o sexo oposto. Eles resolvem criar no computador de Wyatt, a mulher que eles acreditam ser a ideal. Uma tempestade dá vida a ela, que é "batizada" como Lisa, que é sexy, bonita, determinada, fiel aos seus criadores, mas com um modo de ser que deixa desconcertados todos que cruzam o seu caminho.


Não podia faltar na lista uma obra do mestre John Hughes, ainda que seus projetos fossem refinados demais para o que estávamos acostumados no gênero. O roteiro falava diretamente ao desejo de cada adolescente introvertido, mostrando dois garotos criando no computador a mulher ideal, com a sensualidade absurda de Kelly LeBrock, que já havia desconcertado Gene Wilder em “A Dama de Vermelho”, no ano anterior. Como era característico, não podia faltar na trilha sonora uma contribuição do Oingo Boingo, gênese de Danny Elfman, parceiro constante de Tim Burton. A grande tirada do filme é a Lisa, desajustada na sociedade (como o monstro de Frankenstein), ajudando os garotos a serem respeitados por seus colegas. E é bacana encontrar, numa ponta, um jovem Robert Downey Jr. Mas a cena que lembro, sempre que penso no filme, é aquela em que os dois garotos (Anthony Michael Hall e Ilan Mitchell-Smith) estão tomando banho com Lisa. Todos os garotos da turma, no dia seguinte, só falavam nisso...

Continua...

terça-feira, 8 de abril de 2014

Razzle Dazzle - "The Rocky Horror Picture Show"


The Rocky Horror Picture Show (1975)

“Não sonhe, seja!”

Sempre que revejo o filme eu fico surpreso com a audácia do roteiro de Richard O’Brien (que interpreta o corcunda Riff Raff), seu desprezo por todas as convenções dos gêneros que homenageia, como os filmes B de ficção científica e terror, resultando em uma experiência sensorial única. Você pode terminar a sessão sem ter entendido absolutamente nada, confuso como se tivesse sido acordado de um sonho exótico.

E acredito que seja essa sensação de desorientação que defina o projeto, mais do que a qualidade questionável de suas canções ou o subtexto que confronta o glam rock de músicos como David Bowie, com os roqueiros da década de cinquenta, com brilhantina nos cabelos e certa ingenuidade em sua rebeldia. A cena em que Frank N’ Furter, vivido por Tim Curry, persegue o personagem de Meat Loaf com um machado, expressa sem sutileza alguma essa simbologia da “passagem de bastão”. Eddie, com sua jaqueta de couro, topete e motocicleta, havia sido liberado de sua criogenia por acidente, deslocado nesse novo mundo, mas acaba encontrando a morte pelas mãos de Frank. Como se já não bastasse esse desfecho sangrento para o intérprete de “Hot Patootie – Bless My Soul”, seu corpo ainda servirá de alimento no jantar. Uma curiosidade interessante é que nessa cena, nenhum dos atores sabia que o corpo estava escondido abaixo do pano da mesa, fazendo com que eles reagissem naturalmente assustados no momento da revelação.  

De certa forma, podemos enxergar essa obra como uma versão sem metáforas de praticamente todos os grandes clássicos de terror. Em “Drácula”, por exemplo, o ato de sugar o sangue servia como uma metáfora para o ato sexual. Seguindo esse raciocínio, podemos imaginar o casal extremamente ingênuo formado por Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), como sendo representativos daquela sociedade reprimida em que “Drácula” foi elaborado. Frank e seus amigos representam o elemento liberador, polissexual. Na época em que foi lançado, o preconceito aos homossexuais e sua busca por direitos era um problema social grave, assim como a repressão sexual nas mulheres em uma sociedade machista. Imaginem vocês o impacto de cenas corajosas como a de Curry revelando-se como um “sweet transvestite” (doce travesti) ou o encontro de Janet com a marombada criatura da noite, vivida por Peter Hinwood, onde ela se mostra feliz por finalmente aceitar seus desejos lascivos.

Como não rir nas cenas em que Curry, impagável, ilude o casal para que passem a noite com ele? Ambos, após descobrirem a real identidade do visitante noturno, acabam aceitando a sedução, mas somente após Frank prometer não contar nada para aquele que está sendo traído. Nessa brincadeira, o roteiro aponta o dedo para a hipocrisia humana e questiona o conceito de imoralidade. E, chegando ao final, percebemos que o radicalismo também cobra seu preço, quando todos os personagens acabam sendo padronizados à semelhança de seu “criador”, que alcançou um estado incontrolável de decadência. Claro, tudo isso em uma cena que remete aos musicais de Busby Berkeley, com Frank numa piscina simbolicamente se posicionando como a ligação entre “Deus” e o Homem, sobre uma boia salva vidas do RMS Titanic. Ao final, Brad e Janet irão renascer livres de seus preconceitos e medos, sendo reinseridos na sociedade como bebês engatinhando com dificuldade.

Acompanhe as instruções do criminologista (Charles Gray) e faça o “Time Warp”, sempre que o mundo parecer chato demais. 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Faces do Medo - "A Noite dos Mortos-Vivos" (1968)


A Noite dos Mortos-Vivos (Night of The Living Dead – 1968)
Existem filmes sobre zumbis que precedem a obra seminal de George Romero, como “A Epidemia de Zumbis”, de 1966, mas um dos motivos que tornaram “A Noite dos Mortos-Vivos” (e suas sequências), ao longo do tempo, mais do que um produto de seu gênero, foi sua utilização do tema como metáfora para problemas sociais, como o racismo. Não é por acaso que a trama se passa em uma cidade sulista americana.

Lançado pouco tempo depois do assassinato de Martin Luther King, no intenso fogo cruzado racial em uma América que ainda dividia a utilização de banheiros públicos pela cor da pele, o filme era protagonizado por Duane Jones, um negro. Sua apresentação, por volta dos quinze minutos de filme, insinua esse elemento ideológico. Desesperada, a jovem Barbra (Judith O’Dea) percebe que os zumbis estão se aproximando da casa, então ela corre para fora do local, assustando-se então com as luzes do carro que se aproxima. A câmera nos apresenta Ben (Jones) no mesmo ângulo utilizado para enquadrar os zumbis. Por alguns segundos, assim como a jovem, somos levados a crer que ele é um dos mortos-vivos.


Negros no cinema americano, até aquele momento, haviam sido utilizados com destaque apenas em projetos que abordavam exatamente o tema racial. Com exceção talvez de “O Caso Bedford” (de 1965), com Sidney Poitier. No próprio gênero, como em “Zumbi Branco” (de 1932) ou “Ouanga” (de 1936), os negros eram utilizados como escravos zumbis ou feiticeiros malignos praticantes de Vodu. A ousadia de Romero, indo contrário ao roteiro, que tratava Ben (caucasiano) como um estereótipo, foi permitir que Jones retrabalhasse os diálogos, inserindo atitude e tornando o personagem narrativamente mais interessante, um homem comum que simplesmente reage por instinto de sobrevivência. Ele compôs inconscientemente um amálgama do orgulho do Virgil Tibbs de “No Calor da Noite” com a agressividade dos heróis da posterior era “Blaxploitation”. Em uma situação de pânico da jovem, ele chega a agredi-la sem pensar duas vezes, numa atitude que seria comum em “Shaft” ou “Super Fly”, mas um risco tremendo em sua época. Sua morte ao final, sendo abatido friamente por engano, acentua ainda mais esse discurso.

Os zumbis hoje em dia são parte inerente da cultura popular, utilizados generosamente em todas as mídias. A qualidade da maquiagem está cada vez melhor e eles até correm, cada vez mais ameaçadores. Mas não acredito que essas produções serão lembradas no futuro, pois carecem do elemento da metáfora. A crítica ao consumo exacerbado em “O Despertar dos Mortos” e ao militarismo em “Dia dos Mortos”, foram negligenciadas nas suas respectivas refilmagens, que priorizaram o puro entretenimento. É muito bom revisitar a obra original de Romero e constatar sua coragem, ao mesmo tempo em que refletimos se não nos tornamos exatamente os zumbis alienados que ele vislumbrava. O apocalipse zumbi, ao que tudo indica, já está ocorrendo...
***
 

A excelente editora “Darkside Books” está lançando uma obra imperdível para os fãs do cinema de terror, a novelização de “A Noite dos Mortos-Vivos”, escrita por John Russo, com a adição do texto integral da continuação do filme, que não chegou a ser filmada, intitulada: “A Volta dos Mortos-Vivos” (sem ligação com o “terrir” homônimo). Acabamento em capa dura, com o refinamento já conhecido pelos leitores da editora. Item obrigatório na coleção de qualquer cinéfilo.

sábado, 5 de abril de 2014

O Legado de George Stevens


George Stevens foi um homem que lutou muito pela sua classe, acreditava que a função de um diretor não deveria se resumir a apenas um comandante de imagens e sim um criador com responsabilidade criativa total e irrestrita. Não gostava dos colegas que se faziam notar demais em suas obras, preferia que seus filmes tivessem qualidade e fossem vistos não por serem “filmes de George Stevens” e sim, por serem produtos extremamente bem feitos.

Quando teve a ideia de fazer “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun – 1951), encontrou enorme resistência dos produtores da Paramount, que o questionavam sobre refazer uma obra que já havia sido um fracasso de público e crítica,  décadas antes. Qualquer diretor em sua posição, ainda mais estando sem filmar a dois anos, iria desistir e realizar uma obra qualquer, porém Stevens lutou e fez sua vontade ser obedecida. A história provou que ele tomou a decisão correta.

Em 1965, quando o filme iria começar a ser exibido na televisão americana, com a usual inclusão de intervalos comerciais e prováveis pequenos cortes para que a obra coubesse no espaço da rede. Stevens considerava os intervalos um erro e lutou para que o filme não entrasse no ar, pois acreditava que os intervalos comerciais iriam criar uma distorcida, truncada e segmentada versão de sua obra. Não apenas comprou esta briga, como processou a Paramount e a rede NBC, com o honesto argumento de que ao ser contratado, haviam garantido a ele total controle sobre editar e cortar o produto. Logo, devia impedir que outros o fizessem por motivos puramente comerciais e sem nenhuma base criativa ou ideológica. Ele pensava em sua classe e na dignidade e respeito que todo diretor deveria receber dos estúdios.

Ele perdeu o processo, porém todos os seus colegas sentiram-se tão emocionados com sua conduta que no momento em que Stevens, pressionado pelos produtores por causa do alto investimento e lentidão na condução, precisou de ajuda para completar seu trabalho no épico bíblico “A Maior História de Todos os Tempos” (The Greatest Story Ever Told – 1965), diretores como Jean Negulesco e David Lean se propuseram a dirigir enormes sequências para o filme, sem levarem crédito ou dinheiro, apenas para ajudarem o colega.

Quando a Segunda Guerra Mundial estava em seu auge, após assistir um documentário sobre Adolf Hitler, Stevens largou o mundo do cinema e decidiu se alistar, sendo o homem responsável pelas melhores gravações, filmando momentos cruciais como o desembarque do exército aliado nas praias da Normandia e a libertação dos prisioneiros judeus do campo de concentração de Dachau. Até aquele momento seu melhor filme havia sido “Ritmo Louco” (Swing Time – 1936), que considero a melhor parceria de Fred Astaire e Ginger Rogers. Após receber o Oscar de direção por “Um Lugar ao Sol”, criou a obra prima do Western: “Os Brutos Também Amam” (Shane – 1953) e o monumental “Assim Caminha a Humanidade” (Giant – 1956), com Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean, que lhe garantiu um novo e merecido Oscar de direção.

Morreu vítima de ataque cardíaco em 1975, porém sua contribuição para o cinema é inestimável. Cada diretor que trabalha atualmente com um mínimo de liberdade autoral deve agradecer ao empenho visceral de George Stevens no passado e esforçar-se em produzir sempre filmes melhores, honrando seu legado.

Basil Rathbone como "Sherlock Holmes"


Sou completamente fascinado pela criação máxima de Arthur Conan Doyle, o detetive Sherlock Holmes. Um personagem tão rico em minúcias psicológicas, que muitos leitores acreditavam que ele havia realmente existido. Ficamos conhecendo-o mediante esparsas observações que o escritor nos entrega ao longo das várias novelas e contos, sempre pelo ponto de vista do Dr. John H. Watson, o que acaba nos incitando a utilizar os mesmos métodos de dedução lógica de Holmes, como forma de entender suas motivações. Esta investigação que o leitor empreende com o prazer que advém de toda literatura de qualidade, acaba viciando-o. Novas descobertas surgem a cada revisão, uma prova da genialidade de Doyle.

Os motivos citados no parágrafo acima são suficientes para demonstrar a tristeza que sinto, quando percebo que este complexo personagem é reconhecido hoje em dia pelos jovens, como o brincalhão bom de briga interpretado por Robert Downey Jr. nos dois filmes medianos de Guy Ritchie. Tendo lido alguns comentários de fãs dos filmes, que ao buscarem o material original consideraram muito chato, chego a triste conclusão que a juventude do início do século vinte, mesmo sem as facilidades tecnológicas de hoje, era tremendamente mais inteligente, ou menos preguiçosa, que os aspirantes a “Steve Jobs” de hoje.

Enquanto os filmes de Ritchie entregam um divertimento tolo e um personagem diluído em excesso, vale salientar a extrema qualidade da moderna série da BBC: “Sherlock”, criada por Mark Gatiss e Steven Moffat. Atualizando o cenário, porém respeitando a essência da criação de Doyle, os roteiros dos episódios são melhores que os de muitos filmes que aportam todas as semanas em nossas salas de cinema.

Meu intérprete favorito continua sendo Basil Rathbone, que capitaneou quatorze produções entre 1939 e 1946. As primeiras nos estúdios 20th Century Fox, os excelentes “Sherlock Holmes – O Cão dos Baskervilles” (The Hound of the Baskervilles – 1939) e “As Aventuras de Sherlock Holmes” (The Adventures of Sherlock Holmes – 1939, onde o protagonista fala o clássico: “Elementar, meu caro Watson”), foram pioneiras ao retratar o personagem no período Vitoriano (somente nos dois primeiros filmes), sendo coerentes aos livros. Quando as produções vão para os estúdios Universal beneficiam-se com a formidável química entre Rathbone e Nigel Bruce, que elabora um Dr. Watson mais bonachão, como um necessário alívio cômico. Meus três filmes favoritos dentre os doze feitos para a Universal são: “Sherlock Holmes – A Mulher de Verde” (The Woman in Green – 1945), “Sherlock Holmes – A Melodia Fatal” (Prelude to Murder – 1946) e “Sherlock Holmes e a Arma Secreta” (Sherlock Holmes and The Secret Weapon – 1943), dirigidos por Roy William Neill. Os três utilizam apenas referências a alguns contos, porém fazem-no de forma charmosa e inteligente, inserindo inclusive o personagem no contexto da Segunda Guerra Mundial, como era comum na época, em filmes e revistas em quadrinhos. 

Os filmes da série são ingênuos (o vilão Moriarty morre em três produções), mas tremendamente divertidos. Caso queiram uma adaptação inteligente que seja fiel ao cânone do escritor, prestigiem a série da BBC. Finalizando esta modesta homenagem ao legado de Doyle, devo dizer que dentre todos os livros e contos, recomendo a todos que estão interessados em conhecer o personagem, a leitura da primeira parte de “Um Estudo em Vermelho” (pois estabelece a relação entre os protagonistas), seguida daquela que considero a melhor obra: “O Signo dos Quatro”. Provavelmente ao virarem a última página, estarão extasiados com o tema e prontos para aventurarem-se com o detetive da Rua Baker pelo resto de suas vidas.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Marlon Brando


“O arrependimento é inútil na vida, ficou no passado. Tudo o que temos é o agora”. 
Marlon Brando era realmente uma força da natureza. Martin Scorsese estava certo ao afirmar que ele simbolizava um marco na história do cinema. Com relação aos métodos de atuação, nada mais seria o mesmo após sua chegada em Hollywood. Reconhecido não somente por sua excelência como ator, mas também por ser um aguerrido defensor de causas humanitárias, como a dos direitos civis e a dos índios americanos. Diferente dos astros de hoje, que se dizem politizados para aparecerem na mídia e venderem uma imagem de pessoas conscientes, Brando levava a sério sua função. Aproveitava toda oportunidade que tinha para falar sobre as causas em que acreditava, mesmo que isto lhe trouxesse problemas. Quando venceu em 1973 o seu merecido Oscar por “O Poderoso Chefão”, ele não compareceu à cerimônia, enviando uma atriz travestida de índia em seu lugar. Ela discursou em seu nome, protestando contra a marginalização dos índios promovida pela indústria de cinema e pelos Estados Unidos. Ela saiu do palco ao som de muitas vaias, porém Brando prosseguiria com seu objetivo. Meses após o evento, ele apareceu no palco do Talk Show de Dick Cavett e recusou-se a responder as perguntas do entrevistador, porém sem perder a educação e o respeito pelo anfitrião. A plateia achava graça enquanto Brando olhava gravemente para as câmeras e Cavett ficava completamente sem ação. Transtornado, questionou o apresentador sobre um produto, um dos patrocinadores, que havia sido colocado de propósito na mesa, recusando-se a participar do jogo comercial da emissora de televisão. Um exemplo de integridade cada vez mais raro no showbusiness.

Brando estudou em várias escolas de teatro, mas foi com a professora Stella Adler que ele teve seu primeiro contato com Stanislavski e definiu sua técnica. Sua professora percebeu o raro talento no jovem quando propôs aos alunos um desafio. Eles teriam que atuar como galinhas e em dado momento uma bomba iria cair próximo a elas. Quando a bomba explodiu, toda a classe se espalhou pela sala, correndo e balançando os braços, mas somente Brando se encolheu e escondeu-se calmamente embaixo da mesa, como se estivesse botando ovos. Ao ser questionado sobre a razão de sua atitude, ele respondeu que como uma galinha, não saberia nunca o que era uma bomba e o perigo que estaria correndo. Stella aplaudiu sua genialidade.

Em 1961, após alguns anos tentando viabilizar um projeto audacioso, procurando conseguir a direção de Stanley Kubrick e Sam Peckinpah sem sucesso, constatando que eles não conseguiam ver a obra da mesma forma que ele, decidiu então dirigir seu primeiro e único projeto, intitulado: “A Face Oculta”. O projeto final pouco se assemelhava com o livro no qual foi baseado, tendo tido seu roteiro reescrito por Brando. Após a estreia, houve certa polêmica na mídia especializada, sobre quem teria sido o real autor do filme, no que o colega ator Karl Malden, que também fazia parte do elenco, afirmou: “Só há uma resposta para sua pergunta e ela é Marlon Brando. Um gênio de nosso tempo”.

Dentre seus trabalhos, meus favoritos são “Uma Rua Chamada Pecado” (A Streetcar named Desire – 1951), “Sindicato de Ladrões” (On the Waterfront – 1954) de Elia Kazan, o genial “A Face Oculta” (One-Eyed Jacks – 1961), "Queimada" (Queimada - 1969), a adaptação de Shakespeare: “Júlio César” (Julius Caesar – 1953), o corajoso “Último Tango em Paris” (Last Tango in Paris – 1972) de Bernardo Bertolucci, “O Poderoso Chefão” (The Godfather – 1972) e “Apocalypse Now” (1979) de Francis Ford Coppola.

Brando faleceu em 2004, porém os ecos de sua lenda irão reverberar enquanto houver atores trabalhando no mundo. Um mito imortal.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Anselmo Duarte


(Resgato esse que foi o meu primeiro texto profissional, para o extinto veículo: cinema.com.br)

Hoje em dia, mesmo com os avanços realizados no cinema nacional, ainda não podemos dizer que alcançamos uma estabilidade criativa em nossos projetos. Muitos diretores ainda não aprenderam a linguagem da tela grande, ainda muito presos ao estilo de filmagem das novelas, com seus excessivos planos em zoom e outros vícios. Porém existem cineastas que além de serem apaixonados pela Sétima Arte, sabem dar o valor merecido aos gênios que vieram antes, sem patriotismo burro e arrogância.

Existiu uma época em que o Brasil nem constava no mapa do cinema mundial ou aparecia apenas como exótica curiosidade Cult. Houve um homem que enfrentou este panorama, desbravando mares nunca antes navegados, nos deixando um legado eterno chamado “O Pagador de Promessas”. Em 1962, um jovem chamado Anselmo Duarte, ator de filmes como “Sinhá-Moça” e “Aviso aos Navegantes”, resolveu dirigir uma história à frente de seu tempo. Além de dirigir, ele roteirizou (baseado em obra de Dias Gomes) a saga de um homem humilde, Zé do Burro (Leonardo Villar) que, após ver seu burrinho (seu melhor amigo) adoecer, precisa cumprir uma promessa feita em um terreno de candomblé, carregando uma pesada cruz por um longo caminho e deixá-la dentro da igreja de Santa Bárbara, onde a oferecerá ao padre (Dionísio Azevedo) local. Sempre acompanhado por sua esposa (Glória Menezes), o homem descobre que a missão não é fácil e que o padre não deixará que sua cruz entre na igreja, causando uma comoção imensa na pequena cidade. Com um roteiro ousado e muito inteligente, Anselmo realizou um feito até hoje não repetido: trouxe ao Brasil a Palma de Ouro no Festival de Cannes, além do prêmio especial do júri no Festival de Cartagena na Colômbia, o Golden Gate de Melhor Filme no Festival internacional de San Francisco e foi indicado ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Ao voltarem ao Brasil, o diretor e sua equipe foram recebidos com um desfile público em carro aberto. O filme não apenas levou o prêmio máximo, ele mereceu ganhar.

Infelizmente a carreira de Anselmo após o projeto foi prejudicada por divergências ideológicas e inveja no próprio meio profissional e ele não obteve mais o mesmo sucesso. Ele faleceu praticamente esquecido pelo seu próprio povo em 2009, aos oitenta e nove anos, após ter sofrido um acidente vascular cerebral hemorrágico. Seu legado para o cinema nacional é eterno, mesmo com a fraquíssima memória do brasileiro, que tende a somente valorizar as novidades, esquecendo-se assim de quem ousou outrora, sem muito patrocínio, décadas antes de nosso cinema virar um monopólio. Anselmo Duarte e seu “O Pagador de Promessas” é uma lição a todos os que pretendem fazer cinema por aqui e aos que ainda hoje, cinquenta anos depois, colocam a culpa pelo pouco público na falta de investimento, mascarando incapacidade criativa com uma confortável vitimização. Anselmo ensinou como um brasileiro pode ir sozinho para “Cannes” e, mesmo competindo com indústrias mais evoluídas e estabelecidas, trazer o prêmio máximo: “Faça melhor”.