sexta-feira, 25 de abril de 2014

Lançamentos da "Classicline" (Abril/2014)


A Intocável (Sea Wife – 1957)
Esta aventura melodramática acontece durante a II Guerra Mundial, após os britânicos evacuarem Cingapura em 1942. Um navio é torpedeado e apenas quatro pessoas sobrevivem: uma freira, um oficial da RAF, um magnata fanático ateu e um comissário de bordo negro. Os quatro ficam à deriva durante dias, sofrendo com diversos tipos de perigos e dificuldades, antes de chegarem a uma pequena ilha deserta. 


Esse filme foi uma grata surpresa, um exemplo de uma ideia simples e muito bem executada. Um roteiro enxuto muito à frente de seu tempo, correndo riscos em temas espinhosos como a discriminação racial. Joan Collins, talvez em seu melhor momento, interpreta uma freira diferente daquelas que o cinema costumava mostrar, enfrentando sem passividade os obstáculos marítimos e interpessoais. O inexpressivo Bob McNaught acabou assumindo a direção, quando Roberto Rossellini desistiu do projeto em cima da hora. É interessante notar que o carisma dos atores (especialmente Cy Grant e Richard Burton) consegue superar qualquer fragilidade narrativa.


Irmão Contra Irmão (Saddle The Wind – 1958)
O pistoleiro aposentado e ex-soldado confederado Steve Sinclair (Robert Taylor) está vivendo como um fazendeiro em uma pequena comunidade. Ele colabora com o proprietário principal Dennis Deneen (Donald Crisp), de quem aluga o rancho, para preservar a estabilidade comunal. Sua vida tranquila é interrompida pela aparição de seu irmão mais novo, o emocionalmente instável Tony (John Cassavetes) e a bela namorada de Tony Joan (Julie London). 


Muitos cinéfilos iniciantes, por não terem assistido muitos filmes do gênero, costumam apontar “Os Imperdoáveis” como original em seu tema sobre os efeitos corrosivos da violência nos pistoleiros. Mas existem vários projetos, especialmente na década de cinquenta, quando o faroeste ganhou contornos psicológicos, que lidam com o assunto de forma muito eficiente, como “Irmão Contra Irmão”. Por trás do clássico confronto entre irmãos, existe uma profunda análise sobre as repercussões psicológicas de se puxar um gatilho e tirar a vida de alguém. Já na cena que é emoldurada pelos créditos iniciais, numa ousadia narrativa, somos levados a crer que estamos assistindo a cavalgada do herói, quando na realidade estávamos acompanhando o trajeto de um cruel bandido, vivido por Charles McGraw. Outro aspecto interessante é que o roteiro foi escrito por Rod Serling, o criador da série de ficção científica “Além da Imaginação”. Uma ótima trilha sonora de Elmer Bernstein é a moldura perfeita, incluindo uma bonita música-tema cantada por Julie London.


A Mão Esquerda de Deus (The Left Hand of God – 1955)
O avião de James Carmody (Humphrey Bogart), um piloto americano, cai nas montanhas da China em 1947. Ele se faz passar por John O’Shea, o padre de uma missão, que tinha sido morto, para fugir da guarda pessoal de um renegado comandante militar chinês, Yang (Lee J. Cobb). Apesar de já ter trabalhado para Yang e mesmo não tendo nenhuma formação religiosa, James cativa os moradores e missionários de uma pequena aldeia chinesa, incluindo a bela enfermeira Anne Scott (Gene Tierney). 


O canadense Edward Dmytryk foi um dos diretores mais competentes de sua época, ainda que normalmente seja esquecido em listas do gênero. Mas o que mais chama a atenção nesse filme é a escalação de Humphrey Bogart como um padre, algo que deve ter causado impacto e grande interesse na época. Claro que o roteiro reserva surpresas sobre o personagem, um homem que vive em plena guerra, buscando voltar a acreditar na grandeza do homem e renovar sua fé, envolto em desesperança e violência. Como ponto negativo, Lee J. Cobb interpretando um asiático, numa das mais equivocadas seleções de elenco já feitas. Os diálogos espertos salvam os momentos em que ele interage com Bogart, reduzindo sensivelmente os danos. Cenas como a que o protagonista se encontra com um paciente moribundo em um hospital, recitando suas orações finais, elevam a qualidade do filme. Não é uma obra-prima, mas vale por termos a chance de ver o ator em uma de suas raras incursões fora de sua zona de conforto.


A História de Três Amores (The Story of Three Loves – 1953)
Essa obra conta três histórias conectadas pelo amor. A primeira conta a história de Paula (Moira Shearer), uma exímia dançarina que não pode viver verdadeiramente a menos que dance. Na segunda história, conhecemos Tommy (Ricky Nelson), que despreza sua tutora francesa (Leslie Caron), e odeia ser criança, sonhando poder ser adulto para que possa fazer o que quiser. Terceira história: Pierre Narval (Kirk Douglas) é um trapezista que fica sem trabalho quando a sua parceira morre fazendo uma manobra perigosa por sua influência.  


Filmes estruturados como antologias são sempre um risco, já que é difícil manter a qualidade em todos os segmentos. Mas Hollywood pegou carona no estilo que estava sendo utilizado na Europa, com resultados invariavelmente fracos. Dentre todos, talvez esse seja o que melhor resistiu ao teste do tempo. Além de uma belíssima trilha sonora do mestre Miklos Rozsa, o projeto conta com uma linda cena em que a bailarina Moira Shearer emula a si mesma (após o sucesso de “Os Sapatinhos Vermelhos”, em 1948) em uma dança ao som da monumental “Rhapsody on a theme of Paganini”, de Rachmaninoff, que décadas depois viria a ser utilizada generosamente em “Em Algum Lugar do Passado”. 

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