domingo, 29 de junho de 2014

Hitchcock - Um Corpo Que Cai


Um Corpo Que Cai (Vertigo - 1958)
Alfred Hitchcock prestava tremenda atenção nos detalhes e incitava seu público a acompanhá-lo nessa postura ativa, não apenas observando, mas fazendo parte da investigação. Basta nos lembrarmos da cena do infantilizado quarto de Norman Bates em “Psicose”, onde por alguns segundos, a câmera foca no vinil que repousava na vitrola: “Eroica, Sinfonia No. 3, E-flat major, Op.55 de Beethoven”. Na marcha fúnebre composta no século 19, à memória de Napoleão, está contido o trecho que serviu de inspiração para Bernard Herrmann emoldurar as facadas na cena do chuveiro. São detalhes que podem passar despercebidos, mas o mestre do suspense preferia nunca subestimar o indivíduo sentado na sala escura.

Em “Um Corpo que Cai”, um dos símbolos visuais mais fortes (além do verde como símbolo da morte) é a espiral, representando o vazio (o protagonista vive de frágeis ilusões mentirosas) e a impossibilidade do total controle emocional pelo ser humano. Na abertura clássica de Saul Bass ela aparece nos olhos de uma mulher. Quando o personagem de James Stewart olha para seu parceiro morto no asfalto, os membros de seu corpo formam uma espiral. Mais adiante na trama, a Carlotta pintada no quadro mantém seu cabelo preso em forma de meticuloso espiral, assim como Madeleine (a câmera foca nesse detalhe) que a observa. Judy ostenta um corte de cabelo com pequenas espirais caídas sem precisão sobre sua testa, como se simbolizasse um caos que Scottie (Stewart) precisará controlar. A morte do colega e a presença da enigmática mulher são fatores que auxiliam no gradual descontrole emocional do protagonista. A espiral retorna no brilhante desfecho, representada pela escada da igreja.

Analisando literalmente o roteiro, podemos (e boa parte da crítica da época assim o fez) vê-lo apenas como uma engenhosa história de detetive, mas pela ótica da psicologia a trama traça os meandros do labirinto da mente de um homem perturbado por um devastador sentimento de culpa, que o faz tentar desesperadamente transformar Judy (Kim Novak) em um objeto de fetiche, enquanto procura curar o deslocamento do seu ego. Ao resgatar Madeleine do afogamento certo, Scottie se torna Orfeu, disposto a tudo para trazer sua Eurídice de volta do Hades. Como Pigmalião, será sua insistência em recriá-la (recriar a perfeição que idealiza) no corpo de outra mulher a causa de sua tragédia, não sua recorrente acrofobia, um ótimo “MacGuffin”. 

O Mordomo da Casa Branca


O Mordomo da Casa Branca (The Butler - 2013)
Assim como o similar e superestimado “Histórias Cruzadas”, o filme do diretor Lee Daniels é um projeto que essencialmente vê o negro pelo olhar de uma sociedade branca, o que surpreende, já que ele é negro. Por trás de cada emoção manipulada com mão pesada, o roteiro é profundamente preconceituoso, pois utiliza os mesmos estereótipos da época em que os “generosos” brancos concederam à Hattie McDaniel o privilégio de desfilar no mesmo tapete vermelho, como se branca fosse. Infelizmente é dessa forma que os racistas disfarçados pensam. O prêmio não modificou sua condição como atriz na indústria, pois continuou atuando em variações da “Mammy” até o fim da vida.

É um tipo de “Blaxploitation”, só que sem coragem alguma. Não ajuda o fato de que, como cinebiografia, modifica tremendamente os fatos na vida do homenageado. Não podemos considerar nem como “livremente” baseado, já que o tipo caricatural que evidencia é criado unicamente para alcançar os efeitos dramáticos e desejos ideológicos do roteirista Danny Strong. Com uma clara e destorcida visão política, ele transforma os presidentes democratas em “ursinhos carinhosos” que se importam demais com os direitos dos negros, incluindo Lyndon B. Johnson, um dos maiores racistas na história americana. Strong evidencia no segundo ato a batalha pela igualdade entre os negros, porém com impacto anestesiado pela desnecessária utilização de subtramas, como a possível infidelidade da esposa de Cecil (Forest Whitaker), o homem de origem humilde que viria a trabalhar como mordomo de vários presidentes americanos, de Dwight Eisenhower (Robin Williams visivelmente desconfortável) a Ronald Reagan (Alan Rickman). É como se os realizadores não acreditassem no potencial da trama, apelando então para desgastados truques de manipulação emocional. 

Uma cena em especial transparece esse sutil preconceito, quando a personagem de Oprah Winfrey estapeia seu filho, após saber que ele havia entrado para o movimento “Black Power” e havia criticado seu pai (Whitaker) por ser um mordomo. A cena (sutil homenagem ao clássico “No Calor da Noite”) nos conduz a vibrar por sua atitude. A resistência armada feita pelos brancos é nobre e historicamente valorizada, enquanto qualquer imagem dos negros, que não seja uma resistência pacífica e subserviente, imediatamente é algo a ser duramente repudiado.

Fica claro que um dos lados recebe um olhar mais terno e condescendente. O filme oferece a história desta “guerra”, como é usual, pelo ponto de vista dos vencedores. Negros sendo salvos por brancos, mas continuando em funções servis. Cecil nunca contribui com ideias, apenas assiste os acontecimentos. Existem muitos negros cientistas, médicos e professores, com histórias de vida maravilhosas, mas que nenhum produtor de Hollywood se interessa em contar. Qual será a razão? 

A cultura da massificação ordinária

Nossa sociedade já foi mais inteligente. Ou na realidade seria esta afirmação mais um caso clássico em que a nostalgia, que possui o poder de embelezar tudo o que toca, remove todas as más recordações, deixando a impressão de que estamos sempre vivendo em épocas menos interessantes que a de nossos antepassados?

Não estaria nossa ignorância apenas tendo maior visibilidade, graças às redes sociais e a possibilidade, profetizada por Andy Warhol, de todos terem direito a seus quinze minutos de fama? Tenho pensado bastante nessa questão, analisando o histórico de nossa Arte, em especial a cinematográfica, e acredito ter chegado finalmente a uma conclusão satisfatória: nosso real problema não é puramente intelectual, mas também físico, com a maldita preguiça. O comodismo está destruindo nossa sociedade. Para que estimularmos nossa imaginação, adentrando no mundo proposto pelo cineasta, chegando a sentir até os odores, já que podemos simplesmente colocar um desconfortável óculos e ter a sensação fajuta de imersão com o 3D? Percebam como esse artifício está crescendo em popularidade.

Décadas atrás uma pessoa poderia passar dias tentando descobrir, por intermédio de conversas com vizinhos e ligações para aqueles familiares mais refinados, o nome de um filme antigo ou o sobrenome obscuro de algum artista famoso. Nunca me esqueço da mãe de um amigo meu, voltando da rua com “meio palmo de língua para fora”, frustrada de uma cansativa ida à biblioteca onde tentava encontrar um livro “x”, que poderia ajudar a encontrar uma informação “y” sobre um assunto, sei lá, “b”. Hoje em dia, bastaria ligar o computador e conseguir a informação em menos de dois minutos. Mas aí entra o problema: temos a ferramenta, mas não existe mais o interesse. Exatamente no momento mais maravilhosamente excitante de nossa jornada na Terra, quando as facilidades tecnológicas aproximaram continentes e homens, esses seres curiosos perderam completamente o interesse em aprender qualquer coisa. Senhoras se limitam a passar seus dias compartilhando nas redes sociais fotos de bichinhos fofos e notícias falsas, enquanto jovens divertem-se passando adiante correntes bobas e aprimorando uma técnica que consiste em escrever propositalmente errado, usando a desculpa de que é um artifício facilitador na comunicação pela internet. Não leem livros porque falta tempo, o que é compreensível já que passam dias inteiros enviando indiretas no Facebook ou narrando a conhecidos e completos estranhos, pelo Twitter, episódios tolos do seu cotidiano. A mesma ferramenta pode entregar, gastando os mesmos poucos segundos, uma obra literária ou um aplicativo bobo, que você nem lembrará que usou daqui a algumas semanas. Essa é a maior ironia de nosso tempo.

A desgraçada preguiça pode ser sentida também nos filmes de terror, em que toda a criação elaborada de clima, estabelecendo os propósitos dos personagens e seus conflitos, esquecidos em prol do imediatismo mastigado dos efeitos, os sustos, esquecendo-se das causas. Qual o intuito de ler trezentas páginas de uma obra da Agatha Christie, já que podemos abrir logo no último capítulo e descobrir o assassino? Qual a razão de exercitarmos nosso lado “arqueólogo”, descobrindo com prazer livros interessantes em sebos, já que podemos posar momentaneamente como intelectuais para nossos amigos, dizendo que estamos lendo a biografia do Steve Jobs, ou qualquer outro “livro da moda”, mesmo que nunca tenhamos tido nenhum interesse na vida do biografado ou em seu ofício antes de sua morte?

A sociedade dá valor aos TT´s no Twitter, sem se importar que eles normalmente envolvam temas completamente irrelevantes. A cultura da massificação ordinária infelizmente sobrepujou a elegância do refinamento pessoal. Os “quinze minutos de fama” de um vídeo de dez segundos onde um garoto mostra seu mamilo recebe enorme atenção e repercute internacionalmente, enquanto vídeos sérios que tratam de temas importantes são esnobados. A Sétima Arte reflete nossa sociedade com incrível perfeição. Caso olhemos atentamente o panorama atual desta Arte, perceberemos nossas recônditas fragilidades em cada problema que salientamos. A celebração exagerada do 3D, a péssima qualidade dos recentes filmes de terror, a falta de ousadia dos roteiristas, entre muitos outros. O espelho reflete apenas o que se põe à sua frente, portanto sejamos mais criteriosos e respeitemos nossa curta jornada nesta aventura fantástica e misteriosa chamada: Vida.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Ingmar Bergman - "O Rito"


O Rito (Riten – 1969)
Acusados de encenar uma peça obscena, três atores são interrogados por um juiz. Durante e entre os interrogatórios, os segredos mais íntimos de todos são revelados.


Essa produção feita para a televisão representa Ingmar Bergman em seu momento pessoal mais conturbado, existencialmente inseguro com as duras críticas negativas sobre suas peças, questionando a relevância de seus esforços no cinema e do teatro. “O Rito” é a resposta visceral para a pergunta mais terrível que pode atormentar um cineasta: o cinema, como linguagem, realmente possui valor? Na tentativa de encontrar a resposta, ele se divide em três personas, artistas de comportamentos radicalmente diferentes, mas que estão sendo analisados como micróbios sem valor em um microscópio. A primeira cena já mostra a figura do interrogador (Erik Hell), um homem que não entende absolutamente nada sobre a função daqueles que pretende censurar, empunhando uma lupa.

Hans (Gunnar Bjornstrand) é a faceta dócil, organizada e disciplinada do diretor, enquanto Sebastian (Anders Ek) é a sua insegurança infantil, o desequilíbrio emocional. O poético é perceber como, em suas metáforas por vezes herméticas, o roteiro defende que o artista maduro no comando conscientemente entenda que, por mais imprevisível e perturbado que seja seu lado “Sebastian”, nasce exatamente dele o seu impulso criativo. E Thea (Ingrid Thulin) simboliza os seus medos intuitivos, aquela pequena parte dentro de todos nós que busca se agarrar a qualquer muleta ideológica, por mais absurda e irracional que seja, contanto que traga uma paz momentânea. Ela é uma esponja emocional e busca a piedade dos outros, sente prazer em ser submissa, como é retratado na cena em que somos levados a crer que o interrogador está tentando cometer um estupro, quando na realidade a câmera nos mostra a jovem retirando tranquilamente sua calcinha, contrastando com os berros angustiados que escutamos. Bergman é a união lúdica desses três personagens, esse atrito constante de emoções tão antagônicas.

O ritual exposto como parábola no filme representa uma crença do diretor, uma forma de enxergar a Arte como um rito de cura, algo quase mágico/religioso, uma troca pungente entre o artista e o público/sociedade. O elemento dissonante nessa relação é representado pelo personagem do censor, um homem hipócrita demais e sem coragem alguma para cogitar participar desse ritual. Ele enxerga sua mediocridade na entrega sincera dos artistas, exatamente por isso deseja humilhá-los, posar com eles nas manchetes dos jornais, como o responsável pelo descrédito de suas funções. A faceta “Sebastian” em Bergman reconhece essa real intenção, tendo a impulsividade inconsequente de afirmar sua repulsa perante o homem, enquanto seu lado “Hans”, exímio na arte do “jogo de cintura”, em outro momento procura a saída mais fácil do suborno. O roteiro nos mostra o que acontece quando escolhemos o caminho interno mais fácil, contrariando nosso caráter, quando o censor faz Hans assinar um cheque, somente para rasgá-lo em sua cara, com a câmera mostrando em detalhe o sorriso malicioso pela momentânea vitória.

sábado, 21 de junho de 2014

Cine Samurai - "Yojimbo"

Link para os textos do especial:


Yojimbo (Yôjinbô - 1961)
Toshiro Mifune é Sanjuro, um ronin que chega numa cidadezinha a procura de emprego. O lugar é palco de uma guerra entre dois mercadores rivais, o samurai então se oferece aos dois para prestar serviços nada leais.


Akira Kurosawa buscou inspiração nos faroestes americanos e no livro “Seara Vermelha”, que Dashiell Hammett escreveu em 1929, carregando as artimanhas do detetive para o cenário do Japão na iminência da Restauração Meiji, transformando-o em um ronin com sérios problemas com piolhos, elemento que Toshiro Mifune trouxe para o personagem, fazendo seu constante balançar de ombros uma marca registrada. É interessante perceber o conflito modernidade/tradição, característica essencial em muitos faroestes, sendo representado pelo personagem Unosuke (vivido por Tatsuya Nakadai), sempre acompanhado de seu revólver.

A obra, além de ter servido de inspiração para Sergio Leone em “Por Um Punhado de Dólares”, foi também bastante representativa dentro de seu próprio gênero, estabelecendo com seu anti-herói atormentado, cínico e irreverente uma fórmula vencedora para os chambara subsequentes. Ao revê-la, constatei que talvez seja a mais acessível do diretor, mérito dos eficientes alívios cômicos e da narrativa objetiva, ágil e empolgante. Outro aspecto que considero válido salientar é a excepcional trilha sonora subversiva de Masaru Sato, um mestre que acompanhou Kurosawa desde “Trono Manchado de Sangue” e também trabalhou com o diretor Kihachi Okamoto (em “A Espada da Maldição”). Esse pouco reconhecido talento teve como mentor o grande Fumio Hayasaka, compositor de “Rashomon” e “Os Sete Samurais”. Com ousadia, Sato misturou influências europeias e jazzísticas americanas às tradições asiáticas, ajudando a moldar sonoramente o gênero, além de ter sido clara inspiração para o celebrado trabalho de Ennio Morricone nos Westerns Spaghetti.

Sanjuro decide seu destino jogando um graveto para o alto, seguindo a direção que o vento escolheu apontar. Aquela cidade esquecida pelo tempo, onde é recebido por um cão carregando uma mão humana na boca, parece sobrenatural, uma sensação que é reforçada pela trilha sonora. O único indivíduo que prospera naquele ambiente é o responsável pela construção dos caixões. Como moldura, a fotografia do sempre competente Kazuo Miyagawa, repetindo a parceria estabelecida em “Rashomon”. O protagonista age então como um anjo da morte no inferno, decidido a limpar aquele local de toda a corrupção.

*O filme está sendo lançado pela distribuidora Versátil, em versão recentemente restaurada com um ótimo documentário, num belo digistack que inclui a sequência do filme: “Sanjuro”.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Hitchcock - O Homem Errado


O Homem Errado (The Wrong Man – 1956)
Em Nova York, em janeiro de 1943, um músico (Henry Fonda) de uma casa noturna tem a vida remexida quando a mulher (Vera Miles) precisa de 300 dólares para tratamento dentário e ele vai a um escritório, para saber quanto pode conseguir de empréstimo com a apólice da sua mulher. Porém, ele é identificado erradamente pelas funcionárias como sendo o assaltante que tinha roubado o local um ano antes.


A razão principal de essa obra-prima ser usualmente esquecida em listas de melhores do diretor é exatamente o elemento que a torna grandiosa, sua total nudez estilística, sua abordagem quase documental, fugindo totalmente da fórmula exercitada pelo mestre do suspense em seus filmes mais famosos. Aquele que o assiste na expectativa de ser entretido pelas acrobacias narrativas do mestre, com certeza irá equivocadamente considerá-lo menor. O foco do tema estruturalmente reside no fator inesperado, não no suspense que antecede a probabilidade de eventos. E, dentre todos os projetos em que Hitchcock trabalhou o conceito do inocente condenado injustamente, acredito que esse tenha sido o mais complexo, um interessante e sóbrio estudo sobre os danos psicológicos causados no indivíduo, além dos efeitos da destruição moral que acomete todos em sua volta. 

Não era a primeira vez que o diretor abordava um evento real, mérito do impecável “Festim Diabólico” (Rope, 1948), que era inspirado no caso Leopold-Loeb, os dois estudantes assassinos. A inteligência do diretor e sua capacidade fantástica de síntese imagética, direcionando o olho do espectador objetivamente para somente aquilo que precisa ser mostrado, normalmente é celebrada na introdução do protagonista de “Janela Indiscreta”, mas gosto também bastante da forma como ele nos apresenta o personagem de Henry Fonda. Basta um breve sorriso de Manny Balestrero enquanto admira uma propaganda em um jornal, onde vemos um automóvel com uma mulher e duas crianças, para entendermos, por sua identificação emocional, que ele possui mulher e dois filhos. Em um momento posterior, podemos mensurar todos os conflitos internos que ele está vivenciando, simplesmente por mostrá-lo indefeso e fragilizado fisicamente enquanto os policiais registram suas impressões digitais.

A tragédia Kafkiana do herói comum, visualizada na maior parte das cenas por uma ótica quase Bressoniana, um filme que somente melhora a cada revisão.  

*O filme está sendo lançado pela distribuidora Classicline.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Chumbo Quente - "O Caminho do Diabo"


O Caminho do Diabo (The Devil’s Doorway – 1950)
Após voltar da Guerra da Secessão, um condecorado oficial indígena da Cavalaria Americana, Lance Poole, tem seus direitos de propriedade negados pelo simples fato de ser um índio. A situação acaba gerando um grande conflito com os criadores brancos da região.


Diferente do tematicamente similar “Flechas de Fogo”, lançado no mesmo ano, considero mais corajosa e realista a forma como o roteirista Guy Trosper (do excelente “A Face Oculta”, dirigido por Marlon Brando) aborda o preconceito contra os índios. Sob a direção de Delmer Daves, havia uma ingênua esperança de reconciliação, uma utopia simplista que o diretor Anthony Mann condena de forma crua.

A curta duração acentua o clima opressivo na trágica jornada do nativo americano vivido por Robert Taylor. Um homem que retorna da Guerra Civil como um herói, mas que acaba percebendo que sua competência em batalha servia apenas para salientar a incompetência dos brancos, que utilizam suas leis como arma. O índio quer viver em paz, decidindo até ir contra suas convicções na tentativa de se adequar às leis dos brancos, mas ele é visto na sociedade como um elemento sem valor algum, algo que precisa ser extirpado. A mensagem é clara e corajosa, sem rodeios e, exatamente por esse motivo, sobreviveu tão bem ao cruel teste do tempo.

A trama se esquiva das convenções do gênero à época, inserindo uma bela Paula Reymond no papel de uma advogada, um personagem tridimensional e ousado, utilizando-a numa crítica ao papel da mulher na sociedade da época (quatro anos antes de “Johnny Guitar” levar a crítica no gênero um patamar acima), não apenas uma adorável desculpa para um interesse romântico, numa relação tensa emocionalmente, resolvida na ótima frase dita pelo protagonista: “Há cem anos, poderia ter funcionado”. Toda a experiência de Mann no cinema Noir é perceptível nesse seu primeiro faroeste, reforçado pela excelente fotografia em preto e branco do parceiro húngaro John Alton, no último projeto que fariam juntos. O diretor publicamente declarava sua admiração pelo roteiro, que ele considerava o melhor que já havia lido. O produto final transparece esse sentimento. 

* O filme está sendo lançado em versão restaurada pela distribuidora Versátil.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Cine Bueller - "Rambo 2 - A Missão"

Nesse especial eu resgato nostalgicamente minhas lembranças de infância nos anos 80, com os filmes da "Sessão da Tarde" e do "Cinema em Casa", verdadeiros eventos para uma juventude que não tinha internet e TV a cabo...


Rambo 2 – A Missão (Rambo – First Blood, Part 2 – 1985)
“Eu morreria por ele (país). Eu quero o que eles (soldados resgatados) querem. O que todo cara que veio até aqui, que se arriscou e que deu tudo de si, quer. Que nosso país nos ame, tanto quanto nós amamos ele. É isso que eu quero”.
Resposta de Rambo ao ter seu patriotismo questionado pelo coronel Trautman.

Posso fechar os olhos agora, que irei escutar essa resposta na íntegra, na voz do saudoso dublador André Filho. Eu assistia tantas vezes a esse filme quando criança, que meu pai teve que eventualmente regravar, já que a fita VHS enrolou dentro do aparelho. Costumava repetir as cenas com meus bonecos dos “Comandos em Ação”, colocando um lutador asiático descamisado de Artes Marciais pra interpretar o protagonista, pintando a fita branca da cabeça dele de vermelho com caneta hidrográfica. Eu, como muitas crianças dos anos oitenta, tive festa de aniversário temática com direito até a fantasia: faixa vermelha na cabeça e metralhadora de plástico, com bandoleira de munição atravessada no peito. Eu tinha também dois pôsteres enormes do filme no quarto, o oficial de cinema em fundo preto e um de Sylvester Stallone empunhando seu arco e flecha sobre uma rocha.

Na época em que começou a passar com frequência na “Sessão da Tarde”, eu já não brincava mais de bonecos, mas era sempre um bom motivo para relaxar dos deveres de casa, deitar no sofá e rir dos defeitos que eu não percebia outrora. Eu sinceramente não considero um filme ruim, como muita gente afirma, considero até um dos melhores da década de oitenta em seu gênero, com várias sequências realmente empolgantes e uma trilha sonora impecável de Jerry Goldsmith, que continuo escutando com o mesmo carinho. Engraçado que só fui escutar a péssima canção “Peace in our Life”, cantada pelo Frank Stallone, quando comprei o filme em DVD, na época de faculdade, já que a televisão nunca passava os créditos finais. Hoje consigo visualizar o estilo eficiente de direção de Stallone do início ao fim, fazendo com que eu tenha certeza de que o inexpressivo diretor George P. Cosmatos tenha realmente sido um peão na produção, função que ele possivelmente repetiu em “Tombstone”, em que Kurt Russel teria sido o “ghost-director”.

A ação desenfreada é o elemento que todos recordam, mas eu me conectava mais com a mensagem passada em cenas menores, quase sempre esquecidas, como quando Rambo descobre que está sendo enviado para o Vietnã apenas para tirar fotos. A troca de olhares entre o herói de guerra e seu coronel, o único em quem ele realmente confia, com direito a um sorrisinho debochado de Trautman (Richard Crenna). A relação de confiança entre os dois, com o coronel sabendo, com indisfarçável orgulho, desde o início que seu amigo não iria se curvar perante a tarefa burocrática e mentirosa a que estava sendo submetido. Eu me conectava emocionalmente com esse sentimento. Era comum eu utilizar como argumento em várias situações a resposta de Rambo para o asqueroso personagem vivido por Charles Napier, quando ele exaltava as máquinas em detrimento à habilidade humana: “Para mim, a mente é sempre a melhor arma”. Todo o interlúdio romântico com a bela Julia Nickson, com direito ao triste monólogo sobre ser alguém dispensável (antecipando o título da franquia “The Expendables”) e a declaração de amor do herói ao seu facão, pode ser terrivelmente expositivo e clichê, mas funcionava tremendamente bem para minha contraparte infantil.

Eu lembro que ficava muito triste quando o helicóptero recusava-se a descer e resgatar o herói, imaginando com angústia se ele chegava a cogitar que seu amigo estava de acordo com aquela traição. Era nesses pequenos detalhes que minha mente infantil se prendia, muito mais que nas explosões que tomavam praticamente todo o terceiro ato. Toda a sequência que vai da prisão do herói até a fuga conquistada com a ajuda da agente Co Bao (Nickson), emoldurada pela trilha “Escape from Torture”, de Goldsmith, considero um exemplo de perfeição no gênero. O trovão que precede a clássica ameaça de revide, os cortes rápidos, os planos detalhe, uma cena que estruturalmente não ficou datada. Quando Rambo se preparava para a vingança, usando uma tira da roupa da falecida mulher amada como bandana, eu apertava o nó da faixa vermelha em minha testa. Era uma experiência sensorial, interativa, melhor que 3D. 

sábado, 14 de junho de 2014

Faces do Medo - "O Solar das Almas Perdidas"


O Solar das Almas Perdidas (The Uninvited – 1944)
Os irmãos Roderick (Ray Milland, que venceria o Oscar no ano seguinte, por "Farrapo Humano") e Pamela Fitzgerald (Ruth Hussey) compram uma mansão abandonada na costa da Inglaterra, por um preço muito abaixo do mercado. O que inicialmente parecia ser um ótimo negócio se torna um pesadelo, quando os irmãos descobrem que o lugar é assombrado por espíritos.

Fantasmas até então eram utilizados no cinema como alívio cômico, desmascarados ao final como simples truques. O diretor Lewis Allen, em seu primeiro longa-metragem, inovou ao adotar uma postura séria, ainda que o roteiro deixe transparecer em vários momentos certa preocupação mercadológica com essa atitude, abordando uma casa mal-assombrada por dois fantasmas. O humor está lá, mais do que deveria, mas em menor intensidade se comparado ao padrão da época. O roteiro de Dodie Smith e Frank Partos estabeleceu a fórmula que seria copiada nas décadas seguintes, como o conceito de que os animais temem um fantasma e a característica queda de temperatura que revela a presença sobrenatural, seguida pelo perfume que se espalha no local. A fotografia de Charles Lang Jr. é um primor, mostrando que muito se perdeu no gênero com a invenção de Thomas Edison, já que não há melhor moldura para o terror que um ambiente à luz de velas.   

O filme é adaptado do romance gótico de Dorothy Macardle, uma ferrenha feminista, que utilizou a história fantasmagórica como metáfora para compor uma narrativa sobre a relação entre mãe e filha, a peça central da trama, além de uma crítica à limitadora ideologia doméstica imposta às mulheres, com insinuações homossexuais menos sutis que em “Rebecca” (de Hitchcock, uma clara inspiração), entre a personagem Holloway e Mary, que perturbaram os censores do “Código Hays”. A trilha sonora de Victor Young legou para a humanidade a linda canção “Stella by Starlight”, que na trama é inspirada pela beleza da jovem homônima vivida por Gail Russell. Uma das provas da qualidade do filme é que, somente vinte anos depois, a indústria abordaria o tema com a mesma competência, no excelente “Desafio do Além” (The Haunting). 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

"Os Suspeitos", de Denis Villeneuve


Os Suspeitos (Prisoners - 2013)
Após a obra-prima “Incêndios” (2010), o diretor canadense Denis Villeneuve demonstra mais uma vez a sua excelência na, cada vez menos valorizada, arte do suspense. A elaborada atmosfera opressiva (clima criado pela ótima fotografia do veterano Roger Deakins), que é substituída por profissionais menos capazes pela utilização excessiva de fórmulas e truques, desgastando e pasteurizando todos os conceitos que Henri-Georges Clouzot, Alfred Hitchcock e outros gênios ajudaram a estabelecer. E o diretor trabalha com um tema bastante corriqueiro, uma variação do clássico conto de vingança, explorado em 9 de cada 10 projetos de ação. Já a forma como ele aborda essa trama, surpreende e eleva a qualidade da obra ao fugir da zona de conforto típica das produções de grandes estúdios. 

O desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças e a consequente prisão e liberação de um suspeito (vivido por Paul Dano), faz com que o pai de uma delas (Hugh Jackman em um de seus melhores trabalhos) se revolte e busque no intempestivo vigilantismo a resolução do caso. Terrence Howard vive o pai da outra menina, numa atuação de contido desespero, mas incapaz de aceitar conscientemente as atitudes do personagem de Jackman, que representa emocionalmente o exato oposto. É o tango entre esses dois elementos que conduz a história e nos prende na poltrona. Jake Gyllenhaal, como o detetive desconectado de qualquer emoção real e que parece saído de um “Noir”, recebe espertamente pouca atenção do roteiro, que nunca aprofunda suas motivações e seu passado. Com certeza é a interpretação mais difícil, já que ele precisa expressar sutilmente em gestos e tiques, todas as lacunas que nos são apresentadas. 

Ele escolhe deixar bastante claro nos primeiros três minutos, o leitmotiv (a eficiência de sua execução é mérito do roteiro preciso de Aaron Guzikowski) que irá reger a exploração moral dos personagens que são colocados no limite. Todos, de certa forma, são prisioneiros (poderiam ter mantido o título original) de um código de conduta que será colocado à prova. Iniciando com a oração do Pai Nosso emoldurando o abate de um cervo, seguido pela utilização da canção gospel “Put your hand in the hand” na trilha sonora e finalizando ao apresentar a personagem da mãe e da filha, através do vidro embaçado do carro, focando no crucifixo que se balança no retrovisor. Estamos diante de uma fábula que instiga profundos questionamentos morais, ainda que exista ação suficiente nele para entreter os menos interessados. Existe um pouco de “Sobre Meninos e Lobos” e muito de “Seven”, mas a longa duração pode entediar aqueles que irão assistir pensando se tratar de um “primo elegante” de “Busca Implacável”. O filme vai além do que as estruturas limitantes do gênero costumam suportar. Quão longe nós seríamos capazes de ir, contra nossas crenças? 

Gene Wilder e Richard Pryor - Opostos que se Atraem


Richard Pryor
Em uma palavra: Caos. Ninguém controlava sua avassaladora metralhadora verbal em seus espetáculos de stand-up comedy. Ele era o ídolo de Eddie Murphy, porém não idolatrava ninguém. Nos palcos era o equivalente a uma incontrolável floresta em chamas, no cinema era puro carisma, mas em sua vida real era uma criança em busca de atenção. Complexado, o artista não entendia como recebia milhões por seus filmes, enquanto sua avó havia trabalhado como dona de um prostíbulo, onde sua mãe era uma prostituta e seu pai um gigolô, e morrido na miséria. Em sua juventude passada praticamente toda dentro do prostíbulo da avó, o jovem sofria com a pouca atenção dada por sua mãe e com os constantes abusos, até sexuais, que sofria dos rapazes mais velhos. Aprendeu então muito novo a utilizar o humor como “arma de ataque” e com quatorze anos iniciou no teatro amador.

“Quando comecei, eu era um negro magrinho e de olhos grandes capazes de conter o mundo, com um largo sorriso que implorava por atenção, mas ninguém parecia ter tempo para me oferecer”.

Com o sucesso e uma cabeça perturbada vieram as drogas. Houve uma época em sua vida em que cocaína era consumida tal qual um cereal matinal. Seu ápice autodestrutivo veio quando em uma festa, ateou fogo em seu corpo embebido em rum e jogou-se pela janela. Após vários minutos agonizando no meio da rua, foi socorrido por uma ambulância e levado ao hospital. O óbito já estava praticamente consumado, algo já esperado por amigos e colegas de trabalho, que durante um bom tempo assistiram esta tragédia ser anunciada. Ele sabotava seus projetos profissionais, chegando a conceder uma entrevista no set de filmagens de “Loucos de dar Nó” totalmente fora de si, que pode ser encontrada no Youtube, deixando o entrevistador chocado com seu estado. Já no hospital, recebeu uma série de tratamentos excruciantes e algumas operações plásticas.

O renovado Pryor não se viu livre de seus demônios interiores e retornaria aos velhos hábitos. Algumas tentativas de reconquistar glórias passadas serviriam apenas para mostrar que, de certa forma, o criativo comediante realmente havia morrido naquele incidente explosivo. Suas participações em cinema, como em “Superman 3” e “O Brinquedo”, mostravam um leão domado. Seus salários aumentavam, porém a satisfação e o desejo de lutar já o haviam abandonado. Logo, os muitos anos dedicados ao abuso das drogas haveriam de clamar seu preço, quando no set de filmagens de “Critical Condition” (1986), tendo recebido o pedido do diretor para que refizesse uma cena, Pryor simplesmente não conseguia mover suas pernas e levantar-se de sua cadeira. Meses depois foi diagnosticado com esclerose múltipla. Nos últimos filmes que realizou com seu amigo Gene Wilder, o ator mal conseguia se locomover entre os cenários. Veio a falecer em 2005, após vários anos de sofrimento.


Gene Wilder
Em uma palavra: Ternura. O jovem judeu Jerome Silberman adotou seu nome artístico aos vinte e seis anos após já ter participado de algumas peças de teatro. O interesse pela arte nasceu aos oito anos, quando sua mãe estava de cama em estado grave e o médico lhe pediu que tentasse fazê-la sorrir. Muito tímido, desde jovem sofreu bullying por ser o único garoto judeu em sua escola militar. Mais tarde conheceu o diretor Mel Brooks, que na época era casado com Anne Bancroft, sua colega de peça na época, que lhe convidou a fazer o papel principal em seu filme: “Primavera para Hitler”. O jovem recebeu uma indicação ao Oscar como coadjuvante por sua brilhante atuação.

“Eu não gosto deste show business, eu amo o cinema e amo poder atuar para cinema”.

Seguiram-se muitos sucessos em sua carreira, como “A Fantástica Fábrica de Chocolates”, “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo” e “O Jovem Frankenstein”, e Wilder se viu preparado para seu próximo passo: a direção. Ele roteirizou, dirigiu e atuou em “O Irmão Mais Esperto de Sherlock Holmes” (1975). Pouco tempo depois recebeu uma proposta de roteiro para uma comédia de ação e disse que só faria caso seu parceiro em cena fosse o então iniciante Richard Pryor. “Expresso de Chicago” fez um enorme sucesso e foi seguido por mais um projeto autoral do artista, chamado “O Maior Amante do Mundo”, onde emulava o clássico astro do cinema mudo: Rodolfo Valentino.

Em “Loucos de Dar Nó” (Stir Crazy – 1980) retomou sua parceria com Pryor, que passava por sérios problemas com o uso abusivo de cocaína. Todos os obstáculos que apareciam nas filmagens não impediram o sucesso da obra. Já “Cegos, Surdos e Loucos” e “Um sem Juízo, Outro sem Razão” foram recebidos pela crítica com menos simpatia. Havia nas telas o carisma da dupla, porém a mágica sofria com os problemas de saúde de Pryor. Após essas duas tentativas, Wilder parou de trabalhar com o cinema, se focando em participações na televisão, chegando a ganhar um prêmio Emmy por sua colaboração na série “Will e Grace”.


Richard e Gene

“Eu nunca havia improvisado no cinema, mas com Richard eu sempre improvisava. Não havia outra maneira com ele”.
(Gene Wilder)
Em uma palavra: Amor. Duas pessoas com trajetórias de vida e condutas radicalmente diferentes. Pryor, a metralhadora verbal inconsequente, e Wilder, o doce e amável judeu, não cultivavam grande amizade fora das telas, porém profissionalmente eles eram a dupla perfeita. Bastava colocar os dois em cena para que as improvisações começassem. Todos que os assistem notam como eles se divertiam gravando, como se respeitavam e pareciam se entender com uma troca de olhares. O sucesso nasceu de forma espontânea, a dupla não era artificialmente produzida pela fábrica de sonhos de Hollywood. Simplesmente atendiam ao desejo do público que pedia mais filmes com eles juntos. A mágica pode ser encontrada em seu ápice em: “Expresso de Chicago” (Silver Streak – 1976) e “Loucos de Dar Nó” (Stir Crazy – 1980). Nesses filmes pode-se presenciar a dupla em ótima forma e com roteiros de qualidade. Assistindo-os, bate saudade.

Hitchcock - Os 39 Degraus


Os 39 Degraus (The 39 Steps - 1935)
Richard Hannay (Robert Donat) é um canadense de férias na Inglaterra. Uma mulher desconhecida (Lucie Mannheim) pede sua ajuda, alegando ser uma espiã cuja vida corre perigo. Apesar de seus esforços, ela acaba assassinada, mas lhe entrega um mapa, murmura algo sobre os 39 degraus, e o pede que fuja. Depois de escapar de homens que o esperavam do lado de fora, Richard descobre que ele mesmo está sendo procurado pela polícia por assassinato, mas resolve seguir as pistas que a espiã lhe deixou para encontrar os verdadeiros assassinos e provar sua inocência.


Baseado livremente na obra do escocês John Buchan, o roteiro, escrito em parceria com Charles Bennett e Ian Hey (responsável pelos ótimos diálogos), insere um interesse romântico para o protagonista, elemento inexistente no livro original. A escolha suaviza o foco no thriller de espionagem, abrindo espaço para o diretor exercitar sua ironia ao potencializar a química entre o casal vivido por Robert Donat, o inocente injustiçado da vez, e Madeleine Carrol, elaborando deliciosos momentos de sutil erotismo. O filme também marca a primeira vez que o diretor utiliza o conceito do “MacGuffin”, simbolizado pelos planos secretos memorizados pelo “Sr. Memória”. E, como sempre, ele oferece ao menos um momento inovador tecnicamente, com o grito de uma mulher que é abafado pelo apito de um trem.

Uma obra-prima que não perdeu seu frescor, mantendo-se, como todos os bons filmes, intacta em seu fascínio e seu humor. Hitchcock foi o "Mestre do Suspense", muito graças à admiração de Truffaut, que o idolatrava, mas eu gosto particularmente de seu incrível senso de humor. Já nos primeiros oito minutos, uma demonstração clara dessa habilidade pouco exaltada do cineasta. O apresentador pede que a plateia pergunte qualquer dúvida para o genial "Sr. Memória" que está se apresentando no palco, no que um senhor insiste em perguntá-lo sobre as causas de uma doença que dá no bico de aves domésticas. Como não recebe uma resposta, ele continua perguntando, mesmo nas horas mais estapafúrdias, como quando uma confusão se instala no ambiente. A forma como o diretor trabalhou a montagem da cena, potencializa o aspecto cômico, continuando eficiente como no dia de sua estreia. 

Vale salientar a interação entre Donat e Carroll, nas cenas em que estão conectados por uma algema. O diretor, famoso por aprontar brincadeiras maldosas nos bastidores, algemou os dois alguns minutos antes de se preparar para rodar a cena, mas mentiu dizendo que havia perdido a chave. O casal passou horas acreditando estarem presos de verdade, enquanto o diretor sorria satisfeito, pois estava colocando-os no clima certo para a posterior gravação. Com pelo menos um memorável filme no currículo (o mudo "O Pensionista", de 1927), Hitchcock conseguiu com "Os 39 Degraus" o seu primeiro grande sucesso. Três anos depois ele faria o excelente "A Dama Oculta", ainda em sua terra natal, para depois ser abraçado pela América, com o sucesso de "Rebecca - A Mulher Inesquecível", em 1940.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

"Meu Amigo Totoro", de Hayao Miyazaki


Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro – 1988)
Esse filme me leva de volta à primeira infância. Recordo aqueles anos iniciais, antes das preocupações com o horário de ter que acordar e ir pra escola, quando escutar uma narração de um livro de contos de fadas representava realmente adentrar no colorido daquelas páginas, chegando a sentir até o sabor dos doces da casa da bruxa em João e Maria.

O mundo era empolgante e convivíamos com elementos mágicos, seres que se escondiam nas sombras e que, com sorte, instigavam os pais a elaborarem explicações fantásticas que estimulavam ainda mais a imaginação dos filhos. Como o pai de Mei e Satsuki, que numa das cenas mais bonitas, pede uma reverência ao ser que sua filha diz ter visto, chamando-o de “guardião da floresta” e afirmando que ele irá aparecer para ela quando ele assim o desejar. Os pequenos seres de fuligem que tomam conta de locais vazios e que fogem quando alguém sorri, fazendo alusão à solidão e ao pó que se acumula em locais onde a tristeza/depressão domina. O pai é um homem inteligente, culto, um sábio professor, mostrado sempre em seu escritório como uma ilha rodeada por vários livros. Ele as ensina a superar o medo do desconhecido através do incentivo ao lúdico, diferente de muitos pais irresponsáveis que ensinam o medo do lúdico como forma de não perderem tempo explicando para os filhos o desconhecido. 

Algumas cenas são representações fiéis da cultura comportamental do povo oriental, como os alunos que se preocupam em limpar suas salas de aula, antes de voltarem para suas casas, numa demonstração de respeito e valorização por aqueles que os ensinam e pelo local de aprendizado. Obviamente que uma obra tão sensível e inteligente só poderia nascer da mente de um representante desse povo dedicado ao constante autoaprimoramento pessoal. O diretor Hayao Miyazaki mostra às crianças que a natureza retribui em dobro o carinho que recebe, optando por escolher como símbolo o fofo Totoro, uma figura que encanta imediatamente o público alvo. É emocionante a amizade entre as irmãs, com a adorável caçula Mei imitando todos os gestos da mais velha, repetindo todas as suas palavras e querendo apenas ficar perto dela o maior tempo possível, ainda que seja compartilhando a mesa durante uma manhã de aula na escola. A forma como o roteiro enaltece a força da comunidade em que elas vivem, com todos se importando com o próximo e se ajudando, como a vovó e o pequeno Kanta, tímido sempre que encontra Satsuki.

Existe uma teoria sombria que defende que a trama teria origem num caso de suicídio ocorrido no Japão na década de sessenta e que os seres representariam anjos da morte, mas basta apenas um olhar mais atencioso para ver que os argumentos são pífios e não resistem a uma análise séria, além do fato do próprio estúdio negar oficialmente essa inspiração fúnebre. Os seres que as meninas enxergam são os mesmos que os adultos afirmam terem testemunhado quando crianças. A própria música-tema ressalta esse detalhe. Querer encontrar cinismo nesse roteiro, eu tenho certeza, reflete mais a personalidade torta de quem procura essas possíveis conexões. 

Em nenhum momento é revelada a enfermidade da mãe, o que importa é o impacto emocional nas crianças, já que é através dos olhos delas que enxergamos o filme. Miyazaki é autobiográfico, já que sua mãe passou anos no hospital com tuberculose quando era menino, conseguindo sobreviver e voltar para o convívio do lar, assim como a mãe das meninas. E é válido salientar que, diferente das animações infantis ocidentais, não é mostrado que os problemas são plenamente resolvidos ao final, preferindo apresentar para as crianças um mundo realista onde devemos aprender a lidar com os eventuais obstáculos, sabendo que a verdadeira felicidade pode residir no meio termo entre a angústia e a esperança de solução. 
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A distribuidora Versátil está lançando o filme em DVD e Blu-ray, restaurado e com vários extras. 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sétima Arte em Cenas - "Ben-Hur"

Ben-Hur (1959)
Seria impossível selecionar apenas uma cena nessa obra que é a responsável por minha paixão pela Sétima Arte.


Escravo nas Galés
Em um soturno ambiente onde muitos homens já se mostram resignados e sem esperança alguma de liberdade, Judah (Charlton Heston) é o único movido pelo ódio. A trilha de Miklos Rozsa acompanha o ritmo das batidas dos martelos, que vão gradualmente acelerando por ordem do cônsul romano, que está informalmente testando a qualidade dos homens a serviço da embarcação. Ele os põe a prova, mas com a certeza de que não irão resistir ao árduo esforço.  A fortaleza nos olhos do número 41 coloca em risco suas convicções, ousando confrontá-lo como igual. Desde a primeira cena em que os dois se encontram, estabelece-se que o judeu é o único escravo que encara o cônsul e se dispõe a reagir instintivamente à sua agressão, porém com a sensatez de saber controlar seu impulso. A coragem é sempre uma qualidade valorizada pelos líderes. O sorriso irônico de Quintus Arrius (Jack Hawkins) passeia por cada corpo esquálido que tomba sobre seu remo, com a câmera de William Wyler enfatizando o foco no olhar de Judah, que mira diretamente seu momentâneo algoz. Quando ele permite que todos descansem, somente um homem se mantém em posição, como se mostrasse estar pronto para continuar na ingrata tarefa pelo tempo que fosse preciso. Ao escolher desacorrentar Judah, o dignitário romano já reconhecia nele a atitude de um caráter livre. O verdadeiro escravo sempre foi o próprio cônsul, como é demonstrado nas cenas anteriores ao resgate e de suas tentativas de suicídio. O romano chega a afirmar ao jovem sua desesperança pessoal, ao dizer que seus deuses não irão ajudar em nada, assim como os deuses do judeu. Ao ser questionado sobre a razão de sua desesperança, sua única resposta é a agressiva evasão argumentativa.


Corrida de Quadrigas
Esse marco na história do cinema, orquestrado por Yakima Canutt em eletrizantes cinco semanas de filmagens, empolga os sentidos e possui uma força maior ainda em sua mensagem.  A escolha pelo silêncio potencializa essa vibrante metáfora. Nem sempre o cavalo que leva mais chicotada é aquele que corre mais, pois o açoite é apenas uma forma de impor a insegurança do homem perante o animal que controla. A violência é o descontrole da emoção, um elemento que deve ser disciplinado. Messala (Stephen Boyd) precisa lembrar sempre a seus cavalos de que está no comando, enquanto Judah estabeleceu com os animais uma conexão de companheirismo e confiança, sem machucá-los em nenhum momento. No auge de seu desespero psicologicamente imaturo, o romano ludicamente busca adestrar seu antagonista, direcionando para ele o chicote. Ele percebe que Judah é uma força de caráter inabalável, com uma ideologia que não tomba nem diante do pior castigo, então apela para sua última opção: domá-lo a força. E nesse momento o roteiro entrega um detalhe importante, que diz muito sobre a personalidade do protagonista em seu arco narrativo. Ele revida energicamente as chibatadas no corpo do homem que causou toda sua desgraça. Essa cena rima com a que citei anteriormente, onde ele contém o impulso do revide após a chibatada de Quintus Arrius. Mas tão logo se surpreende com a queda de seu inimigo, o jovem rejeita vigorosamente aquele instrumento de ódio. Ao mesmo tempo em que ele quer empunhar a espada da guerra, existe uma faceta sua que acredita na paz como força transformadora. Ele precisa apenas conquistar o equilíbrio.


Milagre e Redenção
A câmera se mantém atravessando o rio formado pela chuva, que carrega e transporta o sangue do crucificado. A trilha de Rozsa exulta o aspecto divino na cura da lepra na mãe (Martha Scott) e irmã (Cathy O’Donnell), mas o real milagre ocorre internamente em Judah. A composição da cena de sua chegada em casa é magnífica, desde o belo detalhe de Esther (Haya Harareet) no reflexo da água da chuva que é chapinhada pelos pés do jovem, evidenciando a rima imagética da chuva que carrega o milagre encontrando o rapaz que busca redenção. Ele encontra inicialmente o resultado de sua agressividade na mezuzá danificada, que agora beija com renovado respeito. A trilha de Rozsa evoca sutilmente o tema de amor em sua forma original, reforçando que estamos novamente diante daquele casal em sua forma pura de outrora, antes de todas as desgraças que ocorreram a ambos. Judah encosta seu rosto no ventre da mulher, como se suas esperanças renascessem nela, afirmando que finalmente havia sentido a espada cair de sua mão. Rozsa então nos carrega pela mão num emocionante crescendo que resulta no forte tema heroico do protagonista, abraçado às mulheres de sua vida. Todo o tremendo esforço valeu a pena. Judah precisava apenas reencontrar-se consigo mesmo, com o espírito íntegro que possuía antes de ser contaminado pelo ódio e desejo de vingança. 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

75 Anos de Batman - "A Trilogia de Christopher Nolan"


Christopher e Jonathan Nolan acertam logo nos primeiros dez minutos de "Batman Begins" (2005), mostrando que o Bruce Wayne de Christian Bale é na realidade um homem consumido pelo ódio, um assassino em potencial, cujo heroísmo consiste no seu ato diário de disciplinar sua fúria, direcionando-a para outros assassinos que não compartilham de sua índole. O medo que inspira não nasce do símbolo, por mais que ele assim acredite conscientemente, ou do morcego que seu traje personifica, mas de sua atitude. Os bandidos que ele enfrenta são homens perdidos em seu próprio caos pessoal, Batman não representa um farol de inspiração para o bem, como Superman, mas o “para-raios” que atrai todo esse caos urbano para si próprio e o organiza. Um personagem fadado à destruição, pois não existe possibilidade de redenção para alguém como ele. Uma resistente gota de óleo em um oceano, que cedo ou tarde irá ser consumido, mas não sem antes modificar, para melhor ou pior, seu ambiente.

Um dos sintomas mais claros de que a intenção de Nolan era intrinsecamente ligada à riqueza psicológica comportamental do personagem, está na escolha do vilão Ra's Al Ghul, vivido por Liam Neeson, como elemento fundamental de criação do mito e motivo condutor da trilogia. Visualmente desinteressante, o personagem normalmente seria rejeitado por qualquer cineasta que tocasse o material sem a paixão necessária. Ra's admira o assassino latente em Wayne, e procura então moldá-lo aos seus interesses. Diferente da função formulaica em que sempre é inserido, inclusive nos quadrinhos, o mordomo Alfred (Michael Caine) aparece como aquele que é responsável por manter o jovem íntegro, como uma relíquia nostálgica de sua infância despreocupada, o último elo com um período em que ele recebia plena atenção e amor de seus pais.

Impondo-se perante o medo, abraçando seu ódio e potencializando-o para o que considerava um bem maior, Wayne torna-se um símbolo. A única forma de envolver o público nos anseios desse homem angustiado: traduzi-lo da forma mais verossímil possível. A ambição de Nolan com sua trilogia era mais profunda do que apenas mostrar um órfão que busca vingança vestido de morcego. Ele questiona o papel de uma sociedade devastada que vive vítima da impunidade. Batman é criação natural dessa sociedade corrompida, nascido de cada grito por ajuda nos becos, alimentado por cada gota de sangue que verte de um inocente. Quando Gotham City estiver limpa de toda sujeira, o cavaleiro das trevas não terá função. O único elemento capaz de perturbar a formação de um ideal é o caos. Em "O Cavaleiro das Trevas" (The Dark Knight - 2008), o Coringa (Heath Ledger) representa o desapego a qualquer civilidade, a bestialidade sem censura ou códigos éticos. Fisicamente, ele não constitui um perigo para o Batman, mas sua anarquia pode tornar o herói uma caricatura aos olhos do povo. Desacreditado, o símbolo perde todo seu poder. Exatamente o que o vilão faz com Harvey Dent (Aaron Eckhart), que era visto como o último bastião da justiça em sua cidade. O símbolo já havia se tornado inspiração entre os cidadãos, que patrulhavam as ruas vestindo o manto que representava para eles aquele ideal. Como o gerente do banco que surpreende o vilão com seu revide no início do segundo filme. 

Tanto o Coringa quanto o Espantalho (Cillian Murphy) necessitam essencialmente que as suas vítimas sintam medo, portanto a inspiração que o morcego incita no povo é algo a ser extirpado brutalmente. Alfred temia desde o início esse panorama, pois sabia que seria a única resposta possível a um grito tão puro de rebeldia. A “escalada” era iminente e impossível de ser contida. A questão nunca foi se o Batman estaria preparado para a revolução, mas sim por quanto tempo ele resistiria. E a inserção do vilão Bane (Tom Hardy), em "O Cavaleiro das Trevas Ressurge" (The Dark Knight Rises - 2012), foi ideologicamente coerente por representar um tipo de antagonismo físico que o herói não havia enfrentado. Uma chance narrativa para o personagem demonstrar sua resiliência e seu poder como símbolo, afetando diretamente o jovem policial vivido por Joseph Gordon-Levitt. No épico desfecho, sublimando a morte após seu maior ato público de coragem, o morcego se torna eterno aos olhos do povo, que sempre irá ignorar os rostos por trás da máscara, enquanto o indivíduo que ousou acender o fogo da revolução consegue enfim seu merecido descanso. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A Condessa de Hong Kong, de Charles Chaplin


A Condessa de Hong Kong (A Countess from Hong Kong – 1967)
Natascha, uma prostituta descendente da nobreza russa, e cuja família fugira para Hong Kong por causa da Revolução de 1917, conhece o empresário estadunidense Ogden Mears, quando seu navio aporta na cidade. Ela se esconde na cabine do empresário, pois pretende entrar escondida nos Estados Unidos. Inicialmente reticente, ele aos poucos aceita ajudá-la. 


Essa obra é considerada menor na filmografia de Chaplin, usualmente ignorada pelos seus fãs e pela crítica em geral. De certa forma, compreendo a estranheza que muitos sentem em um primeiro contato, pois foi assim comigo.

A maneira como reagimos a um filme nasce de impulsos variados, difíceis de serem explicados. Quando nos sentimos entediados, pode não ser culpa do ritmo do filme, mas a simples consequência natural de uma ansiedade que ocupa nossa mente no momento em que deveríamos estar prestando atenção na trama. O medo de ter deixado o gás ligado na cozinha, algum compromisso que iremos honrar após a sessão ou uma preocupação familiar que não sai de nossas cabeças nem no momento de lazer. Da mesma forma, por vezes podemos ficar apaixonados por um filme, independente de seus méritos técnicos e artísticos, mas apenas pela coincidência de termos assistido a ele em um dia especialmente feliz. Quem não recorda com emoção o primeiro filme que assistiu ao lado da pessoa que ama? O pior filme se torna um marco na vida daquele indivíduo. Podemos odiar um filme inteiro por causa da lembrança de uma única cena que nos causou revolta ideológica, ou lembrar ternamente de uma única cena boa, esquecendo o resto da trama. Mas aquele elemento que considero o mais prejudicial de todos é a expectativa. Quando assisti “A Condessa de Hong Kong” pela primeira vez, tinha acabado de conhecer todas as obras-primas clássicas do diretor. Tinha gostado bastante de “Monsieur Verdoux”, “Luzes da Ribalta” e “Um Rei em Nova York” e já antecipava profundamente o encontro do mestre com Marlon Brando e Sophia Loren, que captou a atenção do diretor com sua atuação em “Ontem, Hoje e Amanhã”, de Vittorio De Sica. Enquanto rebobinava o VHS, não conseguia aceitar a frustração. Hoje em dia, após muitas revisões, já o coloco no mesmo patamar dos três filmes anteriores, enxergando um diálogo contínuo com todos os seus projetos.

Chaplin afirmou publicamente que o considerava superior a “Luzes da Cidade”, tendo dificuldade em entender o critério utilizado pelos críticos da época. Ele acreditava que o tempo iria favorecer a obra aos olhos dos profissionais. Acho espetacular a sequência em que ele aparece, fazendo uso da pantomima ao espionar a personagem de Loren pelo buraco da fechadura. Também é fascinante testemunhar a genialidade na estruturação das cenas em que Brando reage fisicamente, em exagerado pastelão, às visitas inesperadas que tocam sua campainha. Não consigo conter o riso ao perceber a grande sacada autocrítica de Chaplin, fazendo piada com sua própria imagem pública como um homem de fortes convicções políticas, logo na primeira cena de Brando, vivendo um diplomata. Ele está se preparando para ditar um discurso político aparentemente profundo sobre a paz mundial, quando é interrompido por uma batida na porta. Seu visitante (vivido pelo terceiro filho de Chaplin, Sidney) questiona debochadamente sua preocupação eterna em salvar o mundo, quando existe tanta coisa mais interessante acontecendo fora daquela sala. Poucos segundos depois, o visitante se surpreende ao avistar com seu binóculo um chinês em Hong Kong. O humor do mestre estava tão apurado quanto em seus dias como o pequeno vagabundo. Nem mesmo o ódio do protagonista por seu diretor, causa de vários conflitos ao longo das filmagens, atrapalha a eficiência do produto final. O aparente desânimo real do ator acaba funcionando no arco narrativo de seu personagem. Os problemas efetivamente começaram já na pré-produção, com um combate de egos entre o agente de Brando e Carlo Ponti, que queria assegurar o nome da protegida em destaque nos créditos. Já nas filmagens, o método de interpretação de Brando entraria em conflito com o estilo de direção de Chaplin. O ator definiu sua participação como a de uma marionete, tendo até mesmo seus movimentos corporais em cena ditados pelo diretor.

O leitmotiv da dança como analogia para a vida, algo recorrente em sua filmografia, encontra sua simbologia mais evidente. A personagem de Loren evoca similaridades com o personagem do vagabundo, inclusive defendendo falas existenciais que caberiam perfeitamente nos intertítulos de sua contraparte silenciosa, outro aspecto que cresce em representatividade após várias revisões mais atentas. Não vejo o filme como o melancólico canto do cisne que muitos enxergam, mas um excelente exemplo de que o diretor estava em seu auge criativo, experimentando pela primeira vez com o cinema em cores. A pena é que não havia mais tempo para que ele executasse sua Arte com a mesma dedicação. Somente a morte poderia parar o incrível talento de Charles Chaplin.

domingo, 1 de junho de 2014

Chumbo Quente - Sua Última Façanha

Link para os textos do especial:


Sua Última Façanha (Lonely Are The Brave - 1962)
O caubói Jack Burns (Kirk Douglas) fica sabendo que seu amigo Paul Bondi foi preso por transportar imigrantes ilegais. Na tentativa de ajudar o amigo, Burns deliberadamente deixa-se prender para estar mais próximo de seu amigo. Frustrado por Bondi não querer acompanhá-lo na estrada, Burns, então, escapa da prisão, tornando-se um fugitivo. É quando o xerife Johnson (Walter Matthau) encontra sua trilha e passa a persegui-lo.


Impecável, ainda que pouco lembrada, obra roteirizada pelo sempre competente Dalton Trumbo. Ele havia sido convocado por Kirk Douglas, com quem havia trabalhado em "Spartacus", que se mostrou apaixonado ideologicamente pelo projeto (ele considera este o seu melhor projeto) e comprou os direitos do livro original do libertário Edward Abbey. Os jovens perceberão que o filme serviu de inspiração para o escritor David Morrel em seu: "First Blood" (e consequentemente, sua adaptação cinematográfica: "Rambo - Programado para Matar"). Já os fãs da série dos anos setenta: "O Incrível Hulk", poderão ver seu astro Bill Bixby em sua primeira participação no cinema, como o copiloto do helicóptero que caça Douglas na montanha.

Trumbo entrou pra lista negra de Hollywood ao recusar ser um delator em 1947, tendo que escrever por alguns anos com pseudônimos para conseguir trabalhar. Sua ideologia e rancor são visíveis no roteiro em vários momentos, como quando realça a recusa do protagonista a abandonar seu fiel cavalo Whiskey, mesmo sabendo que conseguiria escapar mais rápido sozinho, já que o animal não era páreo para a tecnologia de seus caçadores. Eles se manteriam juntos até o final. A bela fotografia de Philip Lathrop (que depois trabalharia no primeiro “A Pantera Cor-de-Rosa” e no excelente “À Queima-Roupa”, de John Boorman) realça o contraste entre o antigo e o novo, como faces da mesma moeda. 

O diretor David Miller busca clara inspiração nos trabalhos de Anthony Mann no gênero, primando pela atenção com a imensidão da paisagem. Logo em sua cena inicial, o roteiro nos mostra a clássica figura, imortalizada pelo cinema, do cowboy, contrastando-a com a passagem de aviões pelo céu. Referência imagética que encontra "rima" conceitual na emocionante cena que finaliza a obra, reforçando o que está em jogo: a velha sociedade contra a sociedade moderna, numa batalha onde a coexistência não parece ser possível. Douglas representa o elemento da natureza que se recusa a se adequar, forçando com que as leis naturais do "Zeitgeist" defendam-se sem piedade.

Faces do Medo - "Drácula" (1931) e "A Múmia" (1932)

Link para os textos do especial:


Drácula (Dracula – 1931)
A trama conta a história do advogado Renfield (Dwight Frye), que chega ao castelo do Conde Drácula (Bela Lugosi), na Transilvânia, para finalizar o contrato de aluguel de uma propriedade em Londres. Ele não sabe, mas seu nobre anfitrião é um vampiro. 


Bela Lugosi. Apenas esse nome já bastaria para indicar a importância dessa obra na história do cinema de horror. O primeiro filme falado a lidar com um tema sobrenatural, responsável por tornar o “Universal Studios” uma referência no gênero, superado apenas pela “Hammer”, décadas depois.

Como adaptação, possui falhas, como o fato de minimizar a personagem Lucy (Frances Dade), que se torna uma figura de decoração, e a equivocada alteração do Dr. Seward (Herbert Bunston), que se torna o pai da trágica Mina (Helen Chandler). O roteiro, no entanto, acerta com o personagem Renfield (Dwight Frye), que dá o pontapé inicial na trama (papel de Jonathan Harker, no original literário) transformando a esquisita caricatura imaginada por Bram Stoker em alguém tridimensional. Muitos críticos americanos afirmam, como elemento negativo, que o ritmo lento da narrativa se deve a uma maior fidelidade à peça teatral (iniciada em 1924) do que ao livro, mas é um pensamento equivocado. Mais de 40% da trama exposta no filme não existem na peça, como toda a sequência passada na Transilvânia, além de detalhes menores, como a viagem marítima do conde para a Inglaterra, um trajeto que ele percorre, na peça, de avião.

A direção de Tod Browning não envelheceu bem, assim como também não podemos ignorar alguns “buracos” (como a entrada de Van Helsing na trama), mas a fotografia de Karl Freund, trabalhando muito bem as sombras como ferramenta narrativa, estabelece o clima perfeito. É válido afirmar que o tempo foi mais generoso com a versão espanhola, dirigida por George Melford e protagonizada por Carlos Villarías, gravada ao mesmo tempo nos mesmos cenários, para o mercado latino, mas o charme e a atmosfera da versão americana continuam eficientes.


A Múmia (The Mummy - 1932)
Em 1921, uma equipe de arqueologistas no Egito, liderados por Sir Joseph Whemple, descobre a múmia do príncipe Imhotep, que vivera há 3.700 anos e que, por ter cometido um sacrilégio, teve como castigo ser enterrado vivo. 


É interessante analisar que, em seu tempo, a obra serviu como uma primária fonte de informação para a sociedade ocidental sobre o Egito antigo. Ele serviu como base para a visão que seria compartilhada por vários filmes similares ao longo dos anos. Assim como “King Kong”, mostra implicitamente a forma superior como os americanos enxergavam o Oriente, uma terra exótica, inferior e selvagem. 

O genial alemão Karl Freund, responsável pela fotografia de “Drácula” (e, anteriormente, “Metrópolis”, de Fritz Lang), foi escalado para dirigir a obra que teria a missão ingrata de manter a “Universal” no caminho da glória conquistada pelo já citado “Drácula” e “Frankenstein”. Ele chega a utilizar a mesma técnica de iluminar apenas os olhos, como forma de transmitir elegantemente a ameaça. Mais calcado no clima, que no “monstro” (vivido por Boris Karloff em conjunto com o excelente trabalho prostético de Jack Pierce), a produção ousou ao abordar um personagem que não havia se estabelecido no inconsciente coletivo do público na literatura, como os dois anteriores. Sem um molde para se basear, o roteiro segue em vários momentos a fórmula de “Drácula” (grande semelhança entre o “Dr. Muller” e o “Van Helsing”, por exemplo). O tempo foi generoso com o filme, sendo considerado hoje um dos melhores do ciclo de monstros do estúdio.