sábado, 30 de agosto de 2014

Cine Samurai - "A Fortaleza Escondida"

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A Fortaleza Escondida (Kakushi-toride no San-akunin – 1958)
Japão, século XVI. Um general escolta a bela princesa de um clã derrotado por território inimigo. Em sua viagem, cruzam com dois medrosos fazendeiros. É o início de uma série de incríveis aventuras.


“Um filme verdadeiramente bom é fácil de entender”. (Kurosawa)

Quando se fala nesse filme, quase sempre é pelo viés da comparação com o épico espacial de George Lucas e, com menor frequência, seu prelúdio lançado em 1999, mas, apesar dele oficialmente afirmar ter se inspirado num detalhe ou outro, apenas com um olhar até pouco atento, fica bastante óbvio perceber que a referência era dominante na estrutura de seus roteiros. Eu prefiro me ater unicamente à beleza desse trabalho. A frase citada em destaque acima simboliza a proposta cinematográfica de Akira Kurosawa. E, nessa obra, talvez ele tenha conquistado a simplicidade máxima, com uma trama cuja essência é universal, além de um perfeito equilíbrio entre o alívio cômico, o senso de aventura e as cenas de ação.

Os incomuns heróis da aventura são dois desajeitados que ambicionam apenas o enriquecimento, como uma versão ainda mais patética da dupla Takezo e Matahachi, do clássico literário “Musashi”. Eles acabarão cruzando o caminho de um general samurai, vivido por Mifune com a competência usual. O roteiro acaba se enveredando pela comédia, quando uma jovem princesa entra nessa equação, equivocadamente tida como surda e muda pelos dois amigos. O interessante é ver a transformação dela, de garota mimada à guerreira, graças ao convívio diário com a coragem de seus protetores. É linda a cena que superimpõe a bandeira de seu clã, no rosto da jovem em prantos, que acaba de entender a gravidade de sua responsabilidade. A metáfora mais interessante reside no conceito da aparência. O ouro que passa despercebido se escondendo dentro dos galhos, a nobreza heroica escondida pelos trapos que vestem os protagonistas, comuns e desleixados no exterior, podem passar por coisas sem valor algum.

O diretor estava criativamente empolgado, pois estaria utilizando pela primeira vez, já com extrema segurança, o sistema TohoScope, resposta japonesa ao CinemaScope americano, uma desculpa agradável para que ele experimentasse colocar os atores nas extremidades da tela sempre que possível. O artifício foi utilizado com maestria pelo diretor de fotografia Kazuo Yamasaki, que podia não ser muito bom em panning shots, mas emoldurou algumas das sequências mais belas no cinema samurai, como a inicial onde somos surpreendidos pela ameaça que faz tombar um guerreiro e, principalmente, a intensa batalha com Toshiro Mifune brandindo sua espada, montado no cavalo, enquanto persegue o oponente que galopa à distância.

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com quase uma hora de extras, pela distribuidora "Versátil".

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Make 'Em Laugh - "Bola de Fogo"

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Bola de Fogo (Ball of Fire - 1941)
Uma parceria entre Billy Wilder, no roteiro, escrito com Charles Brackett, e Howard Hawks, na direção, só poderia resultar em algo fantástico.  Um dos pedidos de Wilder, que estava se preparando para iniciar seu ciclo como diretor, foi poder acompanhar todas as gravações, para que pudesse absorver o máximo de aprendizado possível. E, ainda que o próprio tenha sempre afirmado sua admiração por Ernst Lubitsch, vejo claramente em seus trabalhos iniciais uma inspiração maior no estilo de Hawks.

A inspiração veio da "Branca de Neve" adaptada na animação da Disney. Os professores se portam como os anões, com direito a caricatos gestos e trejeitos, além de se posicionarem sempre juntos nas cenas. Já o lacônico Gary Cooper exercita seu talento como um professor de linguística, numa óbvia piada interna, brincando com a fragilidade de seu personagem, deixando a voluptuosidade de Barbara Stanwyck dominar cada frame. Vale destacar a fantástica cena dela no clube noturno, exalando sensualidade ao som de “Drum Boogie”, cantado por Martha Tilton, com a lenda da bateria Gene Krupa. Interessante perceber como Gregg Toland, o gênio por trás da fotografia de "Cidadão Kane" e "A Longa Viagem de Volta", resolveu a bela cena em que apenas os olhos de Stanwyck se destacam no escuro onde sua personagem se esconde. Toland pintou o rosto dela de preto, num truque bastante eficiente.

O contraste metafórico entre o controle rígido do personagem de Cooper, que vive desconectado do mundo real, e a liberdade criativa de Stanwyck, com o sugestivo nome: “Sugarpuss”, é o leitmotiv, simbolizado pela definição dada pelo professor para as gírias: “a língua que tira o casaco, cospe nas mãos e pega no batente”. No intuito de conhecer esse universo, ele terá que se afastar do conforto ideológico que recebe dos vários livros amontoados em seu ambiente.  Com um tema atemporal e o usual refinamento cômico dos diálogos criados por Wilder, “Bola de Fogo” é uma das melhores screwball comedies de sua época.

Faces do Medo - "A Tortura do Medo"

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A Tortura do Medo (Peeping Tom – 1960)
A coragem do diretor inglês Michael Powell, na vanguarda de sua abordagem, acabou prejudicando sua carreira. Lançado no mesmo ano de “Psicose” de Hitchcock, apresentava ao público um assassino cujos atos de loucura não eram diagnosticados ao final, como ocorre com Norman Bates. Mark, vivido por Karl-Heinz Boehm, que faleceu recentemente, não eximia o espectador da culpa pela possível identificação. A perturbação em sua mente, cuja origem é revelada sutilmente em flashbacks, tornava a empatia ainda mais latente. Bates era um monstro caricato que assistíamos de longe, mas Mark podia ser nosso vizinho, alguém que nos conduzia pela mão e nos tornava cúmplices em seu voyeurismo. 

Essa atitude foi determinante na receptividade negativa da crítica, que sequer deu tempo para o público assistir e formar uma opinião, destruindo a imagem do diretor, outrora celebrado por obras como “Os Sapatinhos Vermelhos”, que fez ao lado de Emeric Pressburger. O curioso é constatar que seu esforço solo resultou em um produto superior aos projetos da dupla, tendo sido abraçado ternamente pelo tempo. É claro que o choque perdeu impacto na sociedade atual, com a banalização da violência, mas dá para imaginar a reação daqueles que assistiram na sala escura em sua estreia. O efeito que se mantém é mérito da franqueza narrativa e do desinteresse do roteiro em julgar o protagonista, exatamente os elementos que motivaram as críticas negativas. Powell foi artisticamente assassinado em vida pelos produtores, que se recusavam a investir em seu talento, mas ressuscitado anos depois pela inteligência rebelde da juventude, composta por Martin Scorsese, Coppola e George Lucas, entre outros, que se esforçaram ao máximo para restaurar o conjunto de obra daquele senhor que já se considerava esquecido. 

Karl, marcado pela doçura de seu personagem no romântico “Sissi”, ousou mudar radicalmente sua imagem, entregando uma insegurança infantil ao protagonista, como se seus atos cruéis nascessem de uma carência por atenção materna, já que, desde muito cedo, com a morte dela, teve que se acostumar à presença de uma “substituta”, expressão que utiliza com desdém em sua narração. O pai, interpretado em uma única cena pelo próprio diretor, uma mente insana com diploma de psiquiatria, capaz de utilizar o próprio filho como cobaia em suas experiências diárias na busca pelo sentido do medo. Em uma época do cinema que primava por ameaças sem tons de cinza, o brilhante roteiro de Leo Marks se aprofunda no trauma do adulto emocionalmente imaturo, incapaz de se afastar de sua câmera portátil 16mm, instrumento que utiliza para eternizar o pavor nos olhos de suas vítimas. A satisfação que obtém ao observar repetidas vezes essas gravações o conecta diretamente ao seu passado, aquele momento perdido no tempo onde perdeu sua inocência, alguns segundos de prazer na tentativa impossível de regredir ao seu molde psicológico original inalterado. 

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com vários extras, pela distribuidora "Versátil".

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Cine Bueller - As Minas do Rei Salomão (1950)


As Minas do Rei Salomão (King Solomon's Mines - 1950)
No final do século XIX, o inglês Allan Quatermain (Stewart Granger) trabalha na África como caçador e guia de expedições quando recebe uma oferta de trabalho: partir em um safári para localizar o marido da rica Elizabeth Curtis (Deborah Kerr). O homem desaparecido deixou uma cópia do mapa, com a localização das lendárias Minas do Rei Salomão.


Muitas versões cinematográficas desta clássica história de H. Rider Haggard, publicada em 1885, foram realizadas, todas se desviaram bastante do original, incluindo um interesse amoroso, mas essa dirigida por Andrew Marton e Compton Bennett, removido durante a produção, por problemas com o protagonista, foi a que entregou um entretenimento de melhor qualidade, filmada em locação na África. Os jovens podem se lembrar do Allan Quatermain vivido por Richard Chamberlain na década de oitenta, mas elas eram obras que buscavam imitar a fórmula dos projetos com o arqueólogo Indiana Jones, construindo um desequilibrado misto de aventura e humor, com pouca personalidade. Rever Stewart Granger impondo dignidade ao papel é testemunharmos uma das inspirações de George Lucas.

Ajudando a compor o clima, a única trilha sonora que escutamos são os tambores e os cânticos nativos, o que, para a época, foi uma decisão inovadora. A fotografia premiada de Robert Surtees, que viria a participar também de "Ben-Hur" e "A Primeira Noite de Um Homem", entre tantos outros, se aproveita da imensidão e ajuda a criar momentos épicos, como a cena da debandada dos animais, que muitas produções tentaram imitar, mas nunca sequer igualaram. A personagem de Deborah Kerr, cuja interpretação foi clara inspiração para a Willie Scott de "O Templo da Perdição", busca encontrar seu marido na África selvagem, o que possibilita no primeiro ato um típico travelogue, com o protagonista explicando o conceito de caça e caçador na selva, mostrando didaticamente variados animais em ação predatória, além de algumas soluções que adiam a evolução da trama, únicos elementos que ficaram datados. Quando todas as peças estão no tabuleiro, incluindo o africano Umbopa, personagem essencial, mas com importância reduzida, o ritmo engata e somos presenteados com uma das melhores aventuras da era de ouro do cinema americano.

"O Capanga de Hitler" / "Os Carrascos Também Morrem"


O Capanga de Hitler (Hitler´s Madman - 1943)
O filme conta a história do assassinato de Reinhard Heydrich, comandante nazista, por rebeldes tchecos. Depois, houve a represália ao povo da Tchecoslováquia pelos nazistas, dizimando a cidade de Lídice.


Neste filme testemunhamos o primeiro trabalho de Douglas Sirk no cinema americano, com perceptível inspiração em Sergei Eisenstein e já mostrando muita coragem ao se impor em uma indústria diferente, além de traços narrativos recorrentes em sua filmografia, como o conflito entre as tradições e o novo regime totalitário. Trata-se de mais uma eficiente peça de propaganda, rodada em uma semana, porém com mais refinamento que a maioria que era produzida no período. O desfecho, onde o povo da cidade dizimada pelos nazistas clama diretamente ao público por um revide ideológico, ressalta a importância histórica da obra, ainda que seja um elemento que a deixe bastante datada.

Como ponto alto, a excelente atuação de John Carradine, como Reinhard Heydrich, organizador da Conferência de Wannsee, em 1941, que resultou na aprovação da monstruosa "solução final para os judeus": o holocausto. O roteiro evita a estratégia comum de buscar a empatia do público por um monstro das páginas históricas, inserindo-o em um contexto íntimo e ordinário, preferindo realçá-lo com tintas fortes. Em sua interpretação, assistimos o retrato de um sistema condenado, em que os homens devoravam a si mesmos, no intuito de destruírem a sociedade.


Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die! - 1943)
Franticek Svoboda é um médico tcheco membro da resistência que assassina um carrasco alemão. A Gestapo, então, resolve caçar o responsável e para conseguir o seu intento, os nazistas fazem execuções a cada hora de cidadãos tchecos, querendo forçar a população a entregar o assassino.


Escrito por Bertold Brecht, sua única contribuição para o cinema de Hollywood, com direção do sempre competente Fritz Lang, foi lançado na mesma época que "O Capanga de Hitler” e com tema similar, abordando o assassinato do nazista Heydrich. O maniqueísmo, usual nas peças de propaganda, aliado à atuação exagerada do elenco que compõe o núcleo nazista, acaba criando caricaturas. A fotografia expressionista é do grande James Wong Howe, responsável por "O Indomado", "O Velho e o Mar" e a gema injustamente pouco conhecida "O Segundo Rosto", de John Frankenheimer. 

No filme, podemos perceber que Lang, que auxiliou Brecht no roteiro, buscou inspiração em seu próprio trabalho nos filmes de "Dr. Mabuse", especialmente "O Testamento de Dr. Mabuse". Uma obra interessante do período em que a propaganda era uma arma utilizada na Segunda Guerra Mundial, em que o importante era incitar os valores do espírito humano defronte a possível aniquilação.

domingo, 24 de agosto de 2014

Sábio Silêncio - Parte 10

Links para os textos do especial:



Diário
13 de Janeiro – 1920 – 18:30

Pickfair já estava começando a parecer pequena, com poucos espaços onde alguém pudesse verdadeiramente ficar afastado dos grupos que conversavam animadamente. Como era literalmente um homem fora do meu tempo, estava evitando interagir, preferindo apenas observar e registrar. Sempre que Mary Pickford atravessava meu campo de visão, ela olhava zombeteiramente e piscava, sabendo que eu devia estar me sentindo em um parque de diversões.

Eu percebi que seria impossível abordar todos aqueles que eu havia imaginado, mas me foquei inicialmente no senhor de cabelos brancos que parecia bastante cansado, um dos poucos que se mantinham sentados no grande sofá central, segurando ternamente a mão de uma senhora que transbordava elegância. Tentando manter a calma, aguardei vagar um espaço próximo a eles no sofá e me sentei, proferindo o clássico “quebra-gelo”: “Bela festa, não?” O máximo que consegui em resposta foi um tímido sorriso da mulher. Para minha sorte, alguns segundos depois, ele iniciou em tom baixo uma breve conversa com ela. Como imaginei, ela era Mina Miller, segunda esposa do homem que estava quase cochilando ao meu lado, Thomas Edison.

Eu tentei atrair a atenção dele de todas as formas, mas o homem estava visivelmente abatido e sem humor para uma noite festiva. Acredito que ele estava torcendo para passar o tempo e poder voltar logo para sua casa. Arrisquei alto e usei a estratégia que não iria falhar. Eu me virei na direção dele e, após respirar fundo, iniciei:

- Sr. Edison, acreditaria que eu sou um viajante do tempo?

A esposa sorriu, mas ele, como imaginei, parecia ter acordado de um longo transe, chegando a se ajustar no sofá.

- Meu jovem, você está se sentindo bem?

Defendi o olhar mais sério que consegui, continuando a falar lentamente, estratégia que sempre torna qualquer disparate mais respeitável.

- Eu sei que o senhor está desperto para a transcendência da vida humana. Você está se comunicando nesse exato momento com um homem de outro mundo... – na ausência de expressão melhor, acho que confundi ainda mais meu novo amigo.

Ele trocou um olhar de choque com a esposa, mas havia nele uma fagulha de alegria quase infantil. Eu não sabia que ele já estava conduzindo secretamente uma pesquisa sobre a possibilidade de uma máquina que estabelecesse comunicação com os mortos. Alguns meses depois ele iria falar sobre isso publicamente. Prefiro pensar que tive alguma influência nesse sentido. Ele esqueceu completamente a festa e se virou para mim:

- Ninguém sabe disso, não pode ser uma coincidência. Você está habitando esse corpo por um tempo limitado?

Nesse momento percebi que havia me complicado bastante, mas pelo menos eu tinha conseguido atrair a atenção dele. Sem pensar duas vezes, respondi com ar solene:

- Foi o que eu consegui para hoje... – segurei o riso o máximo que pude, mas não aguentei.

Ele soltou uma gargalhada que atraiu a atenção dos mais próximos, apoiando a mão em meu ombro com o carinho de um amigo de infância.  Edison, o “feiticeiro de Menlo Park” que inventou a lâmpada elétrica, era um homem sério e introvertido, mas extremamente bem-humorado e gentil. Emendei sem dar tempo dele sequer respirar:

- Mas eu sou mesmo um viajante do tempo.

O homem gargalhou mais alto ainda, como imaginei que ele faria. O plano estava dando certo. Agora eu poderia abordar o assunto mais importante da noite, sua inestimável contribuição para a Sétima Arte.

***


O conceito da projeção de imagens em movimento era um dos muitos interesses de Edison. Ele procurava um instrumento que “estivesse para o olho, assim como o fonógrafo estava para o ouvido”. Em 1889, com a ajuda do fotógrafo William Dickson, desenvolveu o Cinetoscópio, um instrumento que permitia ver individualmente imagens em movimento através de um orifício na parte superior. Aquela invenção atraia cada vez mais interessados, então a produção teve que suprir aquela demanda. Em 1892 ele construiu o primeiro estúdio de cinema, o “Black Maria”, que se movia de acordo com a deslocação do sol e continha um telhado removível para possibilitar a entrada da luz. Os filmes eram basicamente breves números de vaudeville, como dançarinas e boxeadores cômicos. Não seguiam linhas narrativas, eles documentavam atividades triviais, como eventos esportivos ou a saída de operários de uma fábrica. Tudo mudou quando Edwin S. Porter foi contratado por Edison em 1900, começando então a utilizar aquela ferramenta para contar histórias. Em 1903, ele dirigiria o faroeste embrionário “O Grande Roubo do Trem”, colocando um dos personagens atirando em direção à plateia, ousadia que chegava a causar pavor em uma época mais ingênua. O sucesso dessa nova forma de narrativa visual levou à criação dos nickelodeons, pequenos teatros que exibiam esses filmes quase que ininterruptamente. O cidadão pagava um trocado, em qualquer hora do dia, para se distrair por alguns minutos. Nascia então o cinema.


***

Mary Pickford parecia feliz ao ver nosso entrosamento, quando se aproximou do sofá. Edison se levantou e deu um longo beijo na mão da anfitriã, antes de apontar o dedo em minha direção.

- Esse rapaz devia trabalhar com vocês, faz tempo que não rio tanto.

Mary piscou novamente para mim, antes de responder:

- Nesse ritmo, ele acabará nos dirigindo.

Ela beijou Mina e seguiu falando com os convidados, enquanto voltava a me sentar e, sem que ninguém percebesse, ligava o gravador. Ele foi o primeiro a falar, parecendo intoxicado pela passagem daquela mulher, que seguia com os olhos.

- Não existe atriz melhor que Pickford, um encanto.

- Por falar nisso, eu gostaria de saber sua opinião sobre esses filmes, essa Arte da imagem em movimento que você... – percebi que ele não prestava atenção em uma palavra do que eu estava dizendo, ainda muito compenetrado na figura de Pickford que desaparecia num oceano de ombros. – Sr. Edison, que fantástica atriz é a Pickford, não?

- Fantástica, meu rapaz. Você disse muito bem.

- E sobre os filmes, o que você sente ao ver... – percebi então que ele havia escutado muito bem minha pergunta anterior.

- Eu não fiz nada. Você devia perguntar isso ao Edmund Kuhn, William Dickson, que dirigiram os meus produtos. Meu interesse era nas máquinas individuais, mas como pode ver, pensei muito pequeno. Achei que não haveria público interessado nesses filmes. Quando vi “O Nascimento de uma Nação”, entendi que estava diante de algo muito maior do que tudo que havia imaginado. – por algum motivo que não compreendi, senti que aquele assunto havia irritado ele, então preferi abortar a tentativa.

- Mas como é linda a Pickford, não é?

Edison checou se a sua esposa não estava prestando atenção, virou-se para mim e, com o rosto próximo ao meu, afirmou sorridente:

- Demais, meu inteligente rapaz.

Continua...

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Tesouros da Sétima Arte - Quem é o Infiel?


Quem é o Infiel? (A Letter to Three Wives – 1949)
Deborah (Jeanne Crain), Lora Mae (Linda Darnell) e Rita (Ann Sothern) são três amigas, todas casadas, que estão a ponto de partir em uma viagem de barco ao longo do Rio Hudson. Até que um mensageiro entrega uma carta direcionada às três jovens, que ficam impossibilitadas de tomar qualquer atitude até retornarem. Addie Ross (voz de Celeste Holm), uma amiga linda, rica e muito admirada por todos, escreveu dizendo que fugiu com o marido de uma delas, mas sem mencionar com qual. Elas terão o tempo da viagem para repensarem suas vidas e compartilhar com o público, em flashbacks, a origem de suas crises existenciais.

O texto desse filme é uma prova da extrema competência de Joseph L. Mankiewicz, que no ano seguinte faria a obra-prima “A Malvada” (All About Eve), que, de certa forma, acabou eclipsando-o nas páginas da História do cinema. Ele conseguiu pegar uma novela medíocre direcionado às leitoras de uma revista feminina, cortando personagens e tornando as protagonistas tridimensionais em suas emoções e angústias, muito longe da caracterização banal e folhetinesca do trabalho original de John Klempner. O roteiro transforma a figura de Addie em algo misteriosamente espectral, invisível, onipresente. Não vemos, em nenhum momento, sua tão alardeada beleza e elegância, apenas sentimos seu profundo impacto nos relacionamentos. Ela é a insegurança que reside no interior de cada esposa. E a opção pelo desfecho ambíguo, algo raro em sua época no gênero, eleva ainda mais a qualidade do texto.

Outro ponto que merece destaque é a participação da excelente Thelma Ritter, com seu perfeito timing cômico, numa variação do papel que faria praticamente em todos os seus projetos posteriores, como “Janela Indiscreta”, “Confidências à Meia-Noite” e “Boeing Boeing”. Ela conseguia a proeza de atrair toda a atenção nas cenas em que participava, mesmo quando não falava uma palavra. Uma espécie de Groucho Marx de saias, infelizmente esquecida pela nova geração.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline". 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Kung-Fu Fighting - "O Protetor" e "McQuade: O Lobo Solitário"

Links para os textos anteriores do especial:



O Protetor (Tom Yum Goong – 2005)
Kham, um jovem lutador, precisa ir para a Austrália recuperar seu elefante roubado. Com a ajuda de um detetive, Khan tem que lutar contra todos, incluindo uma gang liderada por uma mulher maligna e seus dois guarda-costas mortais.


O tailandês Tony Jaa surpreendeu o mundo das artes marciais com “Ong-Bak”, mas era uma produção muito fraca, onde apenas as coreografias das lutas chamavam realmente atenção. Um filme do gênero precisa oferecer algo a mais, mesmo que seja na forma de um melodrama sacarina e medianamente satisfatório, para que não fique parecendo apenas uma exibição de técnica por parte dos lutadores. O filme seguinte do diretor Prachya Pinkaew equilibraria melhor essa equação, com um resultado superior em todos os sentidos. O tema, que trabalha a ligação espiritual dos tailandeses com os elefantes, poderia ser um empecilho em outras culturas, mas o roteiro simplório se mantém focado na busca de um homem por seu amigo, um conceito universal.

O mesmo coreógrafo do sucesso anterior, Panna Ritikrai, retorna com ambições maiores, construindo uma sequência impressionante com tomada única em tempo real, algo em torno de frenéticos quatro minutos, passada em um restaurante. Somente essa cena já validaria o projeto, mas ele ainda conta com, pelo menos, mais umas três excelentes cenas de ação, como aquela que mostra o herói quebrando os ossos de uma multidão de capangas. É um espetáculo de torções impecavelmente coreografado que dura por volta de quatro minutos. Jaa executa um combinado de Krabi krabong e Muay boran, que ele denominou Muay kodchasaa (boxe do elefante), um estilo que era totalmente desconhecido no Ocidente, o que explica o impacto de seus primeiros filmes nesse público. É impressionante ver o estrago que esse estilo faz, em uma cena num templo, contra três especialistas em Capoeira, Wrestling americano e Wushu.


McQuade – O Lobo Solitário (Lone Wolf McQuade – 1983)
Quando a vida de sua filha adolescente é ameaçada por sequestradores que estão tentando roubar um caminhão repleto de armas e munição, o assunto torna-se pessoal para McQuade.


Chuck Norris criou uma persona exótica nas telas, misturando filmes de artes marciais com cópias genéricas de baixo orçamento dos projetos belicistas que foram o símbolo da era Reagan. “Invasão U.S.A.”, que considero o seu melhor no subgênero “exército de um homem só”, não é de artes marciais. Ele resolve tudo na bala, sem mover um músculo do rosto. Já seus projetos no gênero, com exceção óbvia de seu clássico confronto com Bruce Lee em “O Voo do Dragão”, variam entre o medíocre e o insuportável. Eu considero “McQuade”, dirigido por Steve Carver, o melhor de todos. O grande chamariz da produção era a batalha épica entre Norris e David Carradine, evento que a ótima trilha sonora pomposa de Francesco de Masi capta com inspiração clara nos duelos dos spaghetti westerns. Toda a trama que envolve esse desfecho é pura desculpa, não fica retida na memória. A ideia é elaborar o suspense minimamente necessário para que esses dois mitos do gênero, como gladiadores modernos, partam para a ignorância. A luta dura em torno de quatro minutos do puro Karatê de Norris contra um misto, mais cenográfico que eficiente, de Kung-Fu e Tai-Chi.  

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Guilty Pleasures - "Robocop 3"

Link para os textos do especial:


Robocop 3 (1993)
É difícil defender esse prazer culposo, mas tentem entender o contexto em que ele foi inserido na vida da criança que fui outrora. Eu não tinha idade para assistir os dois primeiros no cinema, mas eles, especialmente o primeiro do Paul Verhoeven, praticamente moravam dentro do meu videocassete. Eu tinha as adaptações em quadrinhos e o álbum de figurinhas, aquele que tinha mais fotos do desenho animado que passava nas manhãs da TV Globo, que, aliás, foi um dos poucos que consegui completar. Eu cantarolava o tema de Basil Poledouris pela casa, as trilhas sonoras de cinema eram, por assim dizer, minha “Xuxa”. “Robocop 3” não seria apenas o primeiro do personagem que eu poderia ver no cinema, como também seria o primeiro que eu assistiria no cinema depois de um longo e tenebroso inverno afastado das salas de rua. Lá estava eu, aos oito anos de idade, nas férias escolares, acompanhado da minha mãe em um cinema de rua, empolgado para meu reencontro com o policial do futuro. Tenho certeza que me diverti muito e não achei nada esquisito no fato dele agora poder sair voando e enfrentar robôs ninjas. A ressaca viria anos depois, quando revi com os olhos mais treinados. 

O roteiro é horroroso, com o desgastado clichê da companheira mirim superinteligente e uma das piores batalhas finais de que me lembro, incrivelmente anticlimática, colocando um herói com sérios problemas de mobilidade contra dois robôs com sérios problemas técnicos. O diretor Fred Dekker, do bom “A Noite dos Arrepios”, até desistiu da carreira depois desse fiasco. Na intenção de atingir uma classificação etária mais interessante mercadologicamente, os envolvidos trocaram o vilão que é derretido no ácido pelo cidadão que é atingido por uma ameaçadora flecha. O policial do futuro, vivido dessa vez por um equivocado Robert John Burke, agora pode desatarrachar sua mão biônica e trocá-la por uma bazuca, transformando ele em um genérico robô de desenho animado. O cenário pretensamente apocalíptico, dominado pelos punks caricatos dos clipes do Michael Jackson, é tão inofensivo que a parceira Lewis (Nancy Allen) nem faz questão de usar colete de proteção, mas não se esquece de armar o cabelo como se estivesse indo a uma festa. Nem vou comentar as cenas de voo, uma ideia absurdamente tola, que me leva a pensar como alguém pode ter achado que seria visualmente interessante mostrar uma tora de madeira impulsionada por um foguete nas costas. Só faz sentido no departamento de brinquedos. 

E o desfecho? “Os meus amigos me chamam de Murphy, mas você me chame de Robocop”, com direito a sorrisos constrangedores dos coadjuvantes e o herói de mãos dadas com uma criança. Pior, impossível! Mas eu assisto sempre que pego passando na televisão, pura nostalgia, por me fazer recordar daquele garoto empolgado na poltrona do extinto Cine Carioca da Tijuca, louco pra escutar pela primeira vez aquela trilha sonora no cinema. 

"As Coisas da Vida", de Claude Sautet


As Coisas da Vida (Les Choses de La Vie – 1970)
Pierre (Michel Piccoli), um bem-sucedido engenheiro, sofre um acidente de carro e, ferido mortalmente, relembra seu passado e as pequenas coisas que fazem a alegria da vida.


Nesse delicado filme, que foi o primeiro da parceria entre o diretor e a bela austríaca Romy Schneider, fica claro o contraste de estilos entre o olhar refinadamente inteligente de Claude Sautet, que atraía público e agradava os críticos, e o cinema experimental, por vezes hermético, que era realizado na época pelos colegas franceses da Nouvelle Vague. A estrutura que move a trama, flashback dentro de flashback, trabalha em favor da narrativa, potencializando o impacto sensorial sem parecer existir apenas como um pedante exibicionismo. As lembranças do protagonista moribundo, que passeiam desde a ternura pela ex-mulher e seu filho até os idílicos encontros com uma nova namorada mais jovem, estão integradas à sua passividade física no tempo real, tendo sua duração sincronizada ao período de sua inconsciência.

O diretor nos leva a interpretar as motivações dos personagens no ato de observar eles em silêncio, estando mais interessado em registrar, por exemplo, um sorriso casual, do que o gracejo que o causou. Adentramos na privacidade daqueles estranhos imperturbáveis à ação do tempo, naqueles breves momentos que, em outros filmes, a câmera já teria se desviado ou teria sido desligada. A linda trilha sonora de Philippe Sarde emoldura os momentos de melancolia do protagonista, como na cena em que experimenta o amargor do arrependimento durante uma viagem noturna de carro. Pierre (Piccoli) ainda não se acostumou com a ausência de sua ex-mulher (Lea Massari), sentindo saudade daquela convivência em sua zona de conforto, então escreve impulsivamente uma fria carta de rompimento para a apaixonada jovem namorada (Schneider), mas se arrepende tarde demais. O acidente o imobiliza, incapacitando-o de exteriorizar suas emoções, impedindo-o de fazer o que desejou mais que tudo em sua vida: o simples rasgar de um pedaço de papel. 

* O filme, inédito no mercado brasileiro, está sendo lançado pela distribuidora Versátil.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

"Os 300 de Esparta", de Rudolph Maté


Os 300 de Esparta (The 300 Spartans - 1962)
O diretor Rudolph Maté, foi o responsável pela fotografia de obras imortais da Sétima Arte, como “A Paixão de Joana d'Arc” (1928) e “Gilda” (1946). Com “Os 300 de Esparta”, ele se aliou ao fotógrafo Geoffrey Unsworth (de “2001 – Uma Odisseia no Espaço” e “Superman – O Filme”) para contar um pouco da história da Grécia e de seu bravo herói Leônidas (Richard Egan), que desafiou o conceito de impossível, ao comandar 300 guerreiros contra um exército de aproximadamente 250.000 homens. Esse conto de coragem e sacrifício ajudou a delinear o curso da civilização ocidental, legando para filhos e netos a necessária esperança, ínfima outrora, para seguir na batalha. O roteirista de quadrinhos Frank Miller, do clássico “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, assistiu esse filme quando era criança, ficando profundamente marcado pela trama, que considerou a causadora da mais importante mudança em sua vida criativa. Anos depois, ele escreveria “300”, que acabou sendo adaptado para o cinema em 2006, com direção de Zack Snyder.

O roteiro trabalha com temas como “democracia vs. despotismo”, com uma sutil analogia à Guerra Fria, sendo não somente um ótimo exemplar do gênero “Espada e Sandálias”, como também uma excelente aula de História. Um dos poucos filmes que se propõem a ser fiel aos fatos. O elenco inclui o excelente Ralph Richardson, como Temístocles, e David Farrar, como o arrogante Xerxes, dando suporte para que Egan consiga transmitir a força interna de seu personagem. Interessante perceber que as batalhas conseguiam ser mais empolgantes, mesmo sem todas as facilidades tecnológicas modernas. Talvez porque, diferente de “300”, neste o foco está nas motivações individuais dos personagens, não no estilo e nos efeitos em computação gráfica. Uma obra que melhora em cada revisão. Um conto que deve ser passado de pai para filho, mostrando que a determinação de poucos pode modificar a realidade de muitos.

"Jane Eyre", de Robert Stevenson


Jane Eyre (1943)
Esta é a mais bela adaptação da obra de Charlotte Brontë, com uma linda fotografia de George Barnes e uma direção refinada do subestimado Robert Stevenson, sempre lembrado apenas por sua parceria de sucesso com a Disney. Alguns aspectos podem incomodar os que apreciam o livro, indo além da rápida compreensão de que as linhas narradas, nas cenas que detalham as páginas do livro, não condizem com a realidade literária. Joan Fontaine estava no auge de sua beleza, qualidade que a Jane do livro não compartilha, e falha na batalha intelectual com o Rochester vivido por Orson Welles.

Sua personalidade é frágil e seu carisma reside na piedade que suscita, não na força interna, o que fortalece o melodrama, objetivo claro do roteiro. Mas quando focamos demais na fidelidade, estamos ignorando que a linguagem cinematográfica é uma Arte própria, que pode complementar, nunca deve substituir. Como as luzes expressionistas que emolduram a pequena Jane, sentindo-se sozinha em um mundo cruel. Sua rebeldia contra a figura de autoridade, ao ver os cachos do cabelo da amiga sendo cortados, algo inexistente no livro, evidencia sua compaixão como a maior qualidade de seu caráter. Um detalhe que vale ser ressaltado é a participação do escritor Aldous Huxley, de “Admirável Mundo Novo”, na elaboração do roteiro, assim como uma ponta não creditada de uma pequena Elizabeth Taylor, já demonstrando incrível presença de cena.

Tesouros da Sétima Arte - A Estranha Passageira / John e Mary


A Estranha Passageira (Now, Voyager – 1942)
Adaptado do livro de Olive Higgins Prouty, conta a história de Charlotte Vale (Bette Davis), uma mulher tímida devido à sua repreensiva mãe, Mrs. Vale (Gladys Cooper). Emocionalmente perturbada, ela é ajudada por um psiquiatra, Dr. Jaquith (Claude Rains), que a incentiva a fazer mudanças radicais em sua vida. 

Um dos cinco melhores trabalhos de Bette Davis, seu maior sucesso comercial, e com certeza um dos melhores romances da década de quarenta, mas infelizmente esquecido nos dias de hoje. Um dos aspectos mais curiosos é que durante o segundo ato ele se passa no Brasil, garantindo belas imagens do “Pão de Açúcar” e do “Corcovado”, mas também um alívio cômico pra lá de duvidoso, um atrapalhado taxista brasileiro (“mezzo-italiano/mezzo-portunhol”) de nome “Giuseppe”, que pode entrar na seleta lista de representações de tipos mais ofensivos, junto com o asiático vivido por Mickey Rooney em “Bonequinha de Luxo”. O tema que a obra aborda é muito interessante: a influência de uma mãe superprotetora em uma filha submissa. Davis consegue com grande sutileza passear entre a timidez excessiva, o desejo por liberdade ainda com culpas e a resignação redentora ao final. 


John e Mary (John and Mary - 1969)
O diretor inglês Peter Yates é normalmente lembrado pelo excelente "Bullit", com Steve McQueen, mas o filme de sua carreira que mais revisito, sempre com prazer renovado, é esta pequena gema. Já li muitos críticos estrangeiros apontando erros, argumentando que os protagonistas não são desenvolvidos ou que a própria trama não se aprofunda na relação entre os dois. Então qual é a mágica que sobrepuja qualquer defeito que possa ser encontrado, tornando a experiência de rever Dustin Hoffman e Mia Farrow tão prazerosa? Quando um crítico analisa uma obra de arte como se estivesse resolvendo uma equação matemática, acaba racionalizando em excesso e perdendo a sensibilidade para os detalhes.

Os dois jovens se esbarram em um bar, completos estranhos que, sem imaginarem, carregam o mesmo medo, as mesmas preocupações. Ela busca conhecer alguém com quem possa passar uma noite, sem a preocupação de que o homem precise voltar para sua esposa antes do nascer do dia. Ele acabou de ser usado por uma modelo fútil, que se apoderou de seu apartamento por conveniência, não precisaria pegar mais táxi para o trabalho, o que o fez temer este tipo de aproximação, esta entrega emocional plena. Os nomes um do outro, desconhecem. Eles inicialmente buscam conhecer-se analisando discretamente seus pertences pessoais, sempre mantendo diálogos internos muito mais reveladores que os externos, algo resolvido de forma simples e eficiente no roteiro, similar ao que Woody Allen utilizaria anos depois em seu "Annie Hall". Adoro o momento em que ela conta onde e com quem mora, mas assistimos a narração pelo ponto de vista dele, o humor é muito bem trabalhado. Fica clara a influência estética dos primeiros filmes europeus da Nouvelle Vague.

Cine Noir - Amar Foi Minha Ruína / Brutalidade / A Sombra do Pecado


Amar Foi Minha Ruína (Leave Her to Heaven - 1945)
Embora seja noiva de um político (Vincent Price), Ellen (Tierney) seduz o belo Richard (Cornel Wilde) e casa-se com ele após conhecê-lo há poucos dias. Mas Richard logo descobre com sua irmã (Jeanne Crain) e sua mãe (Mary Philips) que o egoísmo e o amor possessivo de Ellen arruinaram a vida de outras pessoas. Quando seu próprio irmão se afoga sob os cuidados de Ellen e ela perde o filho que esperava, a suspeita de Richard sobre a insaciável devoção de Ellen aumenta cada vez mais.


Nada mais propício que utilizar no título uma frase contida em "Hamlet", para uma obra cuja protagonista vive uma constante batalha interior. Ainda que a direção de John M. Stahl não tenha envelhecido muito bem, com alguns problemas de ritmo, causando um segundo ato arrastado, a beleza hipnótica de Gene Tierney (que havia feito o excelente Noir "Laura", no ano anterior) e a complexidade que ela consegue inserir em sua caracterização, alternando entre a obsessão patológica e uma pureza infantil (ela foi indicada ao Oscar por esta interpretação), nos prende a atenção. O terceiro ato ganha pontos com a presença de Vincent Price, com sua verve teatral habitual, que acabaria "casando" perfeitamente em seus projetos no gênero terror. A fotografia de um colorido exuberante, de Leon Shamroy, conquistou um Oscar, mesmo contrastando com a história sombria que emoldura. Vale ressaltar também uma excelente, e subestimada, trilha sonora de Alfred Newman. A obra foi o maior sucesso financeiro dos estúdios Fox, na década de quarenta.


Brutalidade (Brute Force - 1947)
Baseado num artigo de jornal e com roteiro de Richard Brooks (A Sangue Frio), Brutalidade conta a história de um motim na prisão de Westgate. A ação é centrada na vida de seis homens que vivem na mesma cela. O líder do grupo é o gângster Joe Collins (Burt Lancaster). Eles se rebelam por causa das atitudes sádicas do Capitão Munsey (Hume Cronyn), o chefe da guarda da prisão. 


Excelente produção dirigida por Jules Dassin, em seu período pós-guerra, antes de comandar "Rififi", que continua entretendo da mesma forma que em seu dia de estreia, funcionando como um eficiente suspense e um pioneiro "filme de prisão". A forma franca como a violência é exibida, especialmente em seu terceiro ato, chocou o público e a crítica da época, porém a mensagem que o roteiro transmite é mais profunda. A frase que fecha a obra: "ninguém realmente escapa", complementa as cenas que são mostradas em flashback, com a vida pregressa de cada prisioneiro da cela R17, evidenciando as mulheres de suas vidas, deixando claro que não existe fuga para aqueles homens. Eles nunca serão os mesmos, nunca serão vistos pela sociedade como outrora. Esta crítica ao sistema carcerário, que não reabilita os prisioneiros na sociedade, torna-se o elemento que se mantém na memória dias após a sessão. Burt Lancaster impõe com sua rochosa presença física um tipo clássico, estereotipado, mas quem surpreende positivamente é Hume Cronyn (os mais jovens o reconhecerão como um dos velhinhos no clássico dos anos oitenta: "Cocoon"), vivendo um impiedoso chefe da segurança, que escuta Wagner (referência sutil à Hitler?) enquanto tortura um dos presos.


A Sombra do Pecado (Cast a Dark Shadow - 1955)
Um esperto caçador de fortunas (Dirk Bogarde), com uma propensão para o assassinato, mata sua esposa e consegue fugir.


O diretor britânico Lewis Gilbert ficaria famoso internacionalmente por comandar três produções emblemáticas da franquia "007" (como "O Espião que me Amava", em 1977), mas realiza nesta adaptação da peça de Janet Green (responsável por "A Teia de Renda Negra" e "Meu Passado me Condena") sobre um jovem "Barba Azul", um legítimo "Noir" da melhor qualidade. Muito ajudado pela vigorosa interpretação de Dirk Bogarde, como Teddy Bare (bom trocadilho com "Bear", "Ursinho Teddy"), um jovem que utiliza generosamente seu charme para acumular fortuna. Muito interessante a forma que a câmera enquadra a cadeira de balanço da viúva, como se nela estivesse retida a força vital da mulher, que continua perseguindo a consciência do homem, mesmo após a morte. O roteiro trabalha sutilmente a possibilidade de homossexualidade no jovem, interpretado com certa afetação por Bogarde, como quando ele é visto lendo uma revista de fisiculturismo masculino. Vale destacar a fotografia do excelente Jack Asher, que traria elegância para as produções de terror dos estúdios Hammer, que trabalha, como de costume no estilo, legado do Expressionismo Alemão, as sombras, como se gradualmente aprisionassem o protagonista, até uma cena importante em que apenas seus olhos são iluminados. O desfecho é surpreendente, não perdeu sua eficiência, e o filme merece constar entre os mais interessantes do gênero.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Hitchcock - A Dama Oculta / Correspondente Estrangeiro

Links para textos sobre outros filmes do diretor:


A Dama Oculta (The Lady Vanishes – 1938)
Durante viagem de trem pela Europa, a jovem Iris torna-se amiga da Srta. Froy. Mas a simpática senhora desaparece misteriosamente e, quando Iris investiga seu paradeiro, os passageiros negam tê-la visto.


O melhor filme da fase britânica de Hitchcock, com uma trama passada em uma viagem de trem, utilizando como McGuffin a figura da enigmática senhora Froy, que desaparece exatamente no fim do primeiro ato. E, mais genial ainda, temos um Meta-McGuffin na forma de uma melodia que aparece logo no início, mas que só se revela importante ao final. Interessante perceber que o elemento da espiral, que o diretor trabalharia de forma definitiva em “Um Corpo que Cai” (Vertigo – 1958), já se mostra presente em seus primeiros projetos. O título do romance no qual o filme se baseia: “The Wheel Spins”, alude ao movimento das rodas do trem, como símbolo e veículo onírico, ao mesmo tempo, de mobilidade e imobilismo. Não é coincidência que as rodas apareçam na montagem que acompanha o primeiro (serão cinco ao total) desmaio da personagem Iris (Margaret Lockwood), que está voltando para se casar com um homem que não ama, apenas pelo nome importante que ele carrega. Detalhes que são perceptíveis em revisões acentuam o fato de que ela, como alguém que busca se tornar uma “Lady” ao se casar com alguém de classe social mais abastada, representando a sociedade britânica da época, é quem está verdadeiramente “desaparecendo” (vanishing). 


Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent – 1940)
A história de Johnny Jones (Joel McCrea), um correspondente de um jornal de Nova York que vai à Europa com um nome falso, para cobrir aquilo que seria um inevitável começo da Segunda Guerra Mundial. Durante um turno de trabalho, presencia a morte de um diplomata holandês. Tudo se complica quando ele descobre que quem morreu na verdade não foi o diplomata, e sim um sósia, e que na verdade ele fora sequestrado por agentes que desejam um segredo seu. 


O filme que Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, considerou: “uma obra-prima da propaganda”, normalmente esquecido pelos jovens fãs que Hitchcock acumulou ao longo das últimas décadas, mas que se mantém firme e resiste ao teste do tempo, mesmo sendo claramente um produto das paranoias de seu tempo. Após um início esquisito na América com o premiado “Rebecca”, onde era inegável perceber que muito pouco do diretor estava presente na obra, parecia que o inglês aceitaria as imposições do estúdio americano e acabaria perdendo sua identidade, mas esse segundo esforço provou-se um teste de resistência para o realizador. O produtor Walter Wanger insistia em reescrever o roteiro, enquanto as filmagens estavam sendo realizadas. Algo inconcebível para o diretor, que respeitava demais seu próprio talento e não aceitaria ser um reles peão na indústria. Com duas sequências que coloco entre as melhores da filmografia do cineasta: o assassinato na chuva e o bombardeio de um avião, esse filme merece constar entre os grandes do mestre do suspense.

"Nebraska", de Alexander Payne


Nebraska (2013)
Em alguns momentos na beleza da fotografia em preto e branco, mérito de Phedon Papamichael, senti uma forte inspiração em “No Decurso do Tempo” (Im lauf der zeit – 1976). Os dois companheiros viajantes de Wim Wenders cruzavam o país como forma de expor uma realidade social decrépita, enquanto o diretor Alexander Payne utiliza o road movie como ferramenta estilística para evidenciar a viagem interna de um pai, tentando suturar as feridas abertas em seu passado, acompanhado de seu filho caçula e uma simples propaganda promocional enviada pelo correio.

A beleza maior nesse filme minimalista está na insinuação de que o velho cansado, disposto a caminhar uma absurdamente longa distância para requisitar seu prêmio, talvez seja o único com plena consciência de que não há tesouro algum no final da jornada. Ele também sabe que seu filho mais velho intenciona colocá-lo em um asilo. Todos os abutres que encontra ao revisitar seu passado, incluindo membros de sua própria família, aglomeram sobre o frágil homem com sorrisos falsos, desejando apenas uma fatia generosa desse bolo. Todos chegam a crer na possibilidade milionária em algum ponto dessa longa estrada até Nebraska, e o silencioso protagonista interpretado por Bruce Dern (Woody) está disposto a não quebrar a ilusão, pois após décadas de desgastante rotina, ele está sendo notado, até mesmo aplaudido.

A cena em que ele busca sua dentadura nos trilhos do trem, com o filho, serve como demonstração de sua lucidez ácida. Em seu rosto aparentemente frio na cena do videokê, podemos notar o choque por constatar a falsidade daquelas pessoas, ainda que o roteiro, ótimo trabalho minimalista de Bob Nelson, nos estimule a ver sua reação impulsiva conectada à emoção de estar sendo reconhecido. As canções selecionadas, nunca por acaso, potencializam a crítica comportamental: “Time after time”, “In the ghetto” (a letra com mais consciência social, ironicamente entregue àquele que menos a personifica na trama) e “Green, green grass of home” (a realidade que o homem encontra é a perfeita antítese da letra que incita a nostalgia do antigo lar).

Uma grata surpresa é o senso de humor eficiente que permeia o filme, personagens hilários como a mãe desbocada, aniquilando em poucos minutos a forte impressão de que seria uma experiência profundamente sorumbática. 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sétima Arte em Cenas - "O Milagre de Anne Sullivan"

Link para os textos do especial:


O Milagre de Anne Sullivan (The Miracle Worker – 1962)
Esse belíssimo filme conta a história real da professora, vivida por Anne Bancroft, que busca incessantemente mostrar as belezas do mundo a uma menina cega e surda, a jovem Helen Keller, uma atuação impressionante de Patty Duke, que já estava vivendo a personagem nos palcos, contracenando com Bancroft. Com muita persistência, ela consegue retirar a garota de uma realidade solitária e depressiva, levando-a a adaptar-se ao mundo, fazendo-a conseguir se expressar. Foi preciso pulso firme por parte de Anne, pois a família da jovem havia contribuído para que ela se colocasse em um “pedestal”, como revoltada vítima das circunstâncias, da qual foi retirada por intermédio de uma rígida disciplina amorosa. Ela sabia que seria difícil alcançar a alma daquela jovem, que estava perdida nas profundezas daquele enigma aparentemente impenetrável que os anos de escuridão e solidão haviam cruelmente forjado.

Para aqueles mais interessados, recomendo fortemente o excelente livro “Lutando contra as Trevas – Minha professora Anne Sullivan Macy”, escrito pela própria Helen, que adquiri por irrisórios dois Reais, alguns anos atrás em um sebo. Em um dos vários trechos que guardo em minha memória afetiva, ela escreve: “Nunca se deve consentir em rastejar quando se sente um impulso para voar”. E essa obstinação foi muito bem captada na peça e inteligentemente adaptada pelo roteiro de William Gibson, com a direção impecável de Arthur Penn, que faria “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” alguns anos depois.

A cena que motivou o texto dura por volta de oito minutos, sem diálogos ou trilha sonora, ocorrendo no primeiro momento em que as duas ficam sozinhas numa sala de jantar que se torna um intenso campo de batalha. Helen inicialmente busca atrair atenção se debatendo no chão, enquanto Anne calmamente continua almoçando. Minutos antes, ela havia percebido que a garota não conhecia limites, devorando os alimentos de todos os pratos como se fosse um animal enjaulado, sendo mimada pela piedade de sua família. A professora estava obstinada a não deixar a menina sair daquele ambiente sem aprender que devia comer apenas sentada à mesa e com talheres. A brutalidade da cena choca, fazendo com que a angústia progressivamente se torne mais insuportável, com agressões físicas de ambas as partes. Chego a imaginar que o diretor William Friedkin possa ter se inspirado nessa cena para achar o tom de grande parte de seu “O Exorcista”. Ao final, uma pequena grande vitória que é relatada pela professora à extasiada mãe: Helen come na mesa e com talheres, até dobrando seu guardanapo. Ainda havia um longo caminho pela frente, pois ela precisaria educar os verdadeiros deficientes da trama, os familiares da menina. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Adeus a Robin Williams


Patch Adams – O Amor é Contagioso (Patch Adams – 1998)

Que tem a morte de errado?
Por que temos esse medo mortal?
Por que não tratamos a morte com humanidade, dignidade, decência e até com humor?
A morte não é o inimigo.
Se quiserem enfrentar um mal, enfrentem o mal da indiferença.

A morte de Robin Williams está sendo lembrada por todos os veículos, então prefiro resgatar em minha memória emotiva e abordar especificamente o filme de sua filmografia mais presente em minha vida. Não é um ótimo filme, tampouco sua atuação nele é acima da média, mas a mensagem que ele transmite foi muito importante em minha formação. Eu tinha por volta de quatorze anos quando assisti pela primeira vez, estava sofrendo o auge do bullying na escola diariamente, buscando motivos para continuar acreditando que valia a pena seguir em frente. Eu era apenas o rato de biblioteca e sebo, aquele esquisito magricela que passava tardes inteiras na seção de clássicos das locadoras de vídeo.

Nas aulas de redação eu extravasava minhas angústias, enquanto todos os colegas se focavam nos simplórios temas pedidos pela professora, escrevendo o mínimo de linhas requisitado no exercício, eu desafiava a professora aprofundando os temas, normalmente criando enredos de fantasia ou suspense com personagens, praticamente contos, sempre excedendo as linhas e deixando minha imaginação voar pela página de trás em branco. O que me interessava não era a nota, mas o pequeno texto que a professora escreveria ao lado da nota, com sua opinião sobre ele. Eu, inconscientemente, exercitava aquilo que amo fazer até hoje. E, dentre tudo que escrevi nessas redações, acho que nada foi mais repetido que os trechos do discurso final do personagem Patch Adams no filme, quando ele enfrenta o Conselho de Medicina com seus argumentos sobre o valor inestimável de se tratar o paciente, nunca tratar a doença. Isso serve para tudo na vida.

Eu me emocionava quando o discurso é interrompido para a entrada do grupo de pais e filhos que tiveram a dor de suas vidas amenizadas pela terapia do riso praticada pelo personagem. A gratidão nos olhos deles, a lágrima que insinua rolar no rosto de Adams, pode ser um recurso narrativo demagógico, mas funcionava tremendamente bem para um estudante adolescente que tentava encontrar razões para entender em sua rotina diária a violência como resposta à afabilidade. Quando Williams defendia o amor de seu personagem pela função que exercia, enfrentando uma classe que não o considerava digno de coabitar o mesmo ambiente, eu me identificava e tremia por dentro. Ele, em dado momento, recebia o olhar carinhoso de aceitação do único professor que o respeitava. Todos nós temos na vida alguém assim, que coloca a mão no fogo por nossas convicções e aposta em nossos sonhos, mesmo quando parecem ser impossíveis. Alguém como o coronel cego vivido por Al Pacino em “Perfume de Mulher”, que afirma sua confiança no futuro glorioso do jovem vivido por Chris O’Donnell. É um elemento facilmente identificável.

E o que mais me agradava no filme era constatar que, ao hilário final, Patch continuava sendo um rebelde. Ele não se adequou à mediocridade, mas sim a subjugou implacavelmente. Era o estímulo que eu precisava. A humilhação constante podia ferir a alma, mas não me impediria de estudar, não me impediria de sonhar. Esse é o meu trecho favorito, daquele que muitos consideram um filme medíocre, sem valor algum. O clássico “Carpe Diem” de “Sociedade dos Poetas Mortos” viria em minha vida anos depois, com o mesmo impacto emocional motivacional. Então eu posso dizer que Robin Williams participou efetivamente de, pelo menos, dois momentos importantes em minha formação. Ele foi um dos que me fizeram rir em uma época em que o humor não era uma constante. Não há como não ser grato por isso. Descanse em paz, Robin.

E hoje, seja qual for sua decisão,juro que vou chegar a ser o melhor médico de todo o mundo.
Vocês podem impedir minha formatura.
Podem me negar o título e a bata branca.
Mas não podem dominar meu espírito, nem evitar que eu aprenda.
Não podem me impedir de estudar.

"Sabrina", de Billy Wilder


Sabrina (1954)
Sabrina (Audrey Hepburn) é a filha de um motorista de família rica. Ao se apaixonar por David (William Holden), filho mais novo da família, decide ir para Paris para esquecê-lo e lá se torna uma mulher deslumbrante. Ao voltar, acaba sendo disputada pelo playboy e por seu irmão mais velho (Humphrey Bogart).


Após muitos anos eu tive o prazer de rever o filme e fiquei feliz ao constatar que ele continua tão agradável quanto em minha memória. Incrível como os cento e dez minutos passam rápidos, com o fantástico roteiro de Billy Wilder compondo uma realidade que eu gostaria de continuar vivenciando por mais algumas horas, sem olhar para o relógio. Como desviar os olhos de Audrey Hepburn, uma das mulheres mais charmosas que o cinema apresentou ao mundo? A belga, mesmo interpretando inicialmente uma jovem simplória, exalava refinamento pelos poros. O tipo de mulher que mostrava no olhar a cultura que priorizava, ainda que soubesse valorizar o supérfluo elegante. Ela era irresistível, o que torna a química entre ela, William Holden e Humphrey Bogart, ainda mais interessante. E é interessante descobrir que nos bastidores, diferente de Holden, que ficou apaixonado por ela, Bogart não gostou tanto da experiência, reclamando de praticamente tudo e afirmando que ela era lenta em cena, numa possível demonstração de despeito, já que ele preferia contracenar com sua esposa Lauren Bacall. Ele acabou entrando no projeto de última hora, em um papel que seria de Cary Grant.

“A vida é como uma limousine. Tem o banco da frente e o banco de trás, mas uma janela entre eles”.

A filha do motorista, que se escondia nos galhos de uma árvore para poder se sentir parte, por alguns minutos, das festas refinadas dos patrões do pai, acaba tendo que se isolar em outra cultura. Ao voltar de Paris, ela não somente passa a ser notada, como desejada intensamente pelo homem que ela sempre acreditou amar. O beijo roubado quando criança, numa época em que as classes sociais felizmente não representam nada, foi o elemento que conduziu os sonhos românticos da menina. A forma como o roteiro trabalha o limbo social onde reside Sabrina, “que não pertence a uma mansão, tampouco em uma garagem”, dá margem para que Wilder brinque com símbolos, como quando a jovem visita o escritório do sistemático Linus (Bogart), sentando-se em sua poltrona de trabalho e rodando como uma criança desafiando a autoridade do adulto. Ela é exatamente a antítese do controle absoluto que o personagem gosta de exercer em todos os aspectos, sendo mostrado sempre na prática de seu ofício, mesmo durante uma animada festa em sua mansão. Quando o roteiro mostra sua decepção ao constatar que o curso de culinária em Paris é regido como uma linha de produção, com os alunos sendo variações de máquinas que produzem um alimento padronizado, não é apenas um alívio cômico estratégico, mas uma forma de mostrar que aquela jovem não será moldada por qualquer interesse externo. O impacto de alguém tão rebelde na vida de Linus é tremendo, sendo o ingrediente especial de sensibilidade feminina que o impedirá de ser absorvido irrecuperavelmente pela máquina industrial, numa analogia para o capitalismo americano, que, tendo a limousine como metáfora social, depende sempre de alguém no “banco da frente” conduzindo-o aos seus objetivos. 

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O Cinema de Ozu - "Uma Galinha no Vento"

Links para os textos anteriores:



Uma Galinha no Vento (Kaze no Naka no Mendori – 1948)
Passando por dificuldades e com o filho doente, Tokiko se prostitui por uma noite para poder pagar as despesas enquanto Shuichi, seu marido, está lutando no front.


Como sempre tive um espírito arqueológico, a primeira coisa que fiz ao receber o digistack da Versátil foi assistir ao filme que eu não conhecia. E que grata surpresa! Yasujiro Ozu demonstra que estamos testemunhando uma alegoria poética, já evidenciando desde a primeira cena a importância do cenário do Japão derrotado durante a ocupação americana, simbolizado pela favela industrial onde habita com dificuldade a jovem protagonista Tokiko (Kinuyo Tanaka) e seu filho pequeno, aguardando com esperança o retorno de seu marido (Shuji Sano), enquanto sobrevive da generosidade dos amigos.

Ela acaba agindo impulsivamente, indo contra todos os seus princípios, procurando a prostituição como forma de conseguir pagar o tratamento do filho doente. A jovem, como o Japão em guerra, perde a pureza. Ozu utiliza na execução da metáfora alguns artifícios incomuns em sua filmografia, como a violência, na forte cena em que o marido revoltado empurra a esposa, que rola escada abaixo. O interesse/foco narrativo está no esforço dela em se manter de pé, lutando contra a perna machucada, mostrando-se enfim resiliente aos olhos dele. O caminho mais fácil seria ela continuar deitada, implorando humilhada a pena dos outros, mas dessa vez ela irá resistir, aceitando o erro e aprendendo com a experiência, assim como a sociedade japonesa que estava se reconstruindo das cinzas.

*O filme está sendo lançado pela distribuidora Versátil no digistack “O Cinema de Ozu – Vol. 2”, que também conta com: “Pai e Filha”, “Começo de Primavera”, “Ervas Flutuantes”, “Fim de Verão” e “Flor do Equinócio”.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Faces do Medo - "A Noite do Demônio"

Link para os textos do especial:


A Noite do Demônio (Night of the Demon – 1957)
Uma série de estranhas mortes acontece quando um psicólogo americano viaja para um congresso em Londres, para desmascarar o líder de uma seita demoníaca.


Existem poucos filmes realmente bons que tratem especificamente de seitas satânicas, um tema que normalmente se equilibra na linha tênue entre o risível e o exagero. Eu gosto muito de “As Bodas de Satã”, dos estúdios Hammer, mas nenhum foi mais eficiente nas sutilezas que o diretor francês Jacques Tourneur. Claro que destoa a tola imposição dos produtores, exibindo em toda glória no terceiro ato o demônio como um monstro de seriados japoneses (chegaram a cogitar entregar o trabalho nas mãos de Ray Harryhausen), mas isso não desvaloriza toda a impecável construção de suspense que o roteiro de Charles Bennett, parceiro do Hitchcock da fase inicial britânica, executa desde o início.

O personagem vivido por Niall MacGinnis, o líder do culto, é mostrado de forma radicalmente oposta à caricatura usual, sendo apresentado como um afável filhinho da mamãe, amigo das crianças do vilarejo, que costuma entretê-las com mágicas inofensivas. Ao colocá-lo mais próximo dos corações dos inocentes, o roteiro cria um agente do mal muito mais inteligente e ameaçador. Ele também subverte o conceito geral das obras do gênero, que sempre ligam a presença do mal à escuridão da noite, inserindo uma tempestade em plena luz do dia, como uma simples exibição dos poderes do Dr. Julian (MacGinnis) a um perplexo Dana Andrews, que mesmo vivendo um período difícil onde se refugiava frequentemente no álcool, atua com segurança e representa muito bem o eterno conflito entre a racionalidade cética e as superstições sobrenaturais. É possível perceber a influência dessa cena em obras posteriores no tema, como o excelente “A Profecia”, de Richard Donner, além de “Os Pássaros”, de Hitchcock.

O ponto alto do filme está na questão que ele propõe ao final, fazendo-nos considerar a possibilidade de que exista uma realidade desconhecida que não desrespeite as leis da racionalidade, algo sombrio que simplesmente não possa ainda ser codificado pelo cérebro humano.

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada, pela distribuidora Versátil, no box "Obras-Primas do Terror".

O RoboCop de José Padilha


RoboCop (2014)
O primeiro erro que se pode cometer é buscar nesse projeto um produto que visa substituir o original. Não é essa a intenção do diretor José Padilha, que sabe, eu tenho certeza, quão bem o original de Paul Verhoeven resistiu ao tempo. É uma releitura que já demonstra sua legitimidade ao utilizar brevemente o tema composto por Basil Poledouris como parte da crítica corporativa. Ela deixa de emoldurar o heroísmo do protagonista, tornando-se uma fanfarra que simboliza mais os interesses dos engravatados por trás da máquina.  Até mesmo a utilização de algumas frases facilmente identificáveis é feita com sagacidade, especialmente a que ecoa o “Eu pago um Dólar por isso”, retirando o gosto amargo da utilização desse recurso em outras refilmagens com menos atitude, como “Planeta dos Macacos – A Origem”.

No original, o robô era apontado pela corporação OCP como a evolução máxima do policial, já que ele nunca entraria em greve. O novo atualiza a crítica social, inserindo na equação o elemento da cultura midiática do medo, situação que o brasileiro está acostumado a viver, com revoltantes programas policiais que acompanham o horário de almoço da família. Fica claro logo nas primeiras cenas o comprometimento autoral, que provavelmente rendeu uma batalha árdua para ser conquistado, fugindo do piloto automático com que os produtores costumam tratar projetos similares. A existência do filme se justifica nas discussões que o roteiro de Joshua Zetumer incita, deixando de lado o tom pomposo divertido, mas focando com seriedade na eterna questão: o que nos faz humanos? O excelente momento em que Alex Murphy (Joel Kinnaman) é apresentado ao que restou de seu corpo, por si só, já validaria a refilmagem. A vontade própria em RoboCop, quando atua em batalha, é somente ilusão?

É dado espaço para a ação, mas quem esperava a catarse do original, com certeza se frustrou. No filme de Verhoeven havia várias cenas em que o público vibrava, mas a sobriedade dá o tom da obra de Padilha, preocupado mais em passar uma mensagem, defendida especialmente pelo personagem vivido por Samuel L. Jackson, certeira o suficiente para ter irritado boa parte do público americano, o que explica a rejeição por lá. O elenco, com destaque para Gary Oldman (Norton), como o centro moral da trama, e Michael Keaton (Sellars), não foge dos estereótipos, tendo arcos narrativos bastante previsíveis, especialmente Keaton. A violência está lá, mas a proposta realista/detalhista, como Christopher Nolan fez com “Batman”, acaba minimizando a sátira social do original.

Excelente ao mostrar que é possível ser autoral em uma releitura, tornando-a válida, mas um pouco distante demais, frio. O novo “Robocop”, para o bem e para o mal, é um protagonista de filme B levado a sério, mas, ainda assim, levando em consideração o nível do Sci-Fi genérico que a indústria americana regurgita anualmente, resulta num produto acima da média.