sexta-feira, 28 de novembro de 2014

"Separados, mas Iguais", de George Stevens Jr.


Separados, mas Iguais (Separate but Equal – 1991)
A trama reconstitui o julgamento do caso Brown contra o Conselho de Educação (1954), no qual a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucional a separação entre estudantes negros e brancos nas escolas públicas, um dos episódios mais importantes na história dos Direitos Humanos. 


O racismo no início da década de cinquenta era avassalador. Brancos e negros não podiam compartilhar o mesmo banheiro nas cidades sulistas americanas. Ainda faltavam alguns anos para que um jovem Elvis Presley escandalizasse os pais através da nação, com seu gingado inspirado nos cantores negros que ele idolatrava. A situação era insuportável, com a segregação atingindo brutalmente as crianças. Cansado de tanto ver seu filho chegar cansado da escola, após uma longa caminhada, tendo seu foco nos estudos prejudicado, um pai decide ir até o professor do menino e implorar para que a escola proporcionasse um ônibus. Uma reação rude do superintendente deu início a uma série de petições judiciais, fundamentais para o fim da segregação racial nas escolas.

Era inadmissível para o dedicado advogado, vivido brilhantemente por Sidney Poitier, uma sociedade onde as mesmas crianças que brincavam juntas nas ruas, tivessem que ser separadas ao adentrarem o microcosmo escolar. Os longos e belos discursos são imbuídos de um fervor que transcende a simples atuação, podemos enxergar além do ator exercendo sua função, ficamos diante de um homem e sua verdade. E é importante salientar que o roteiro/direção de George Stevens Jr. evita simplificar a questão, abraçando os tons de cinza dos dois lados, sem apelar para equívocos narrativos cometidos usualmente até em celebradas obras modernas, como “12 Anos de Escravidão”, onde os brancos são definidos de forma maniqueísta, como cruéis seres insensíveis.

O peso das quatro horas de duração desse filme para televisão é aliviado com um refinado toque de humor, acertando também ao se esquivar das convencionais quebras de ritmo, sem desviar o foco para a vida pessoal dos personagens, na folhetinesca busca pelo melodrama. A atenção da obra está no hercúleo trabalho do advogado e de sua equipe, contra todas as probabilidades, sendo mal remunerados e trabalhando no limite de suas energias, objetivando algo que era considerado utópico.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil". 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Cine Bueller - "A Fortaleza" / "Paraíso Azul"

Link para os textos do especial:


A Fortaleza (Fortress – 1985)
A professora Sally Jones (Rachel Ward) e seus alunos estão em mais um dia comum na escola quando são sequestrados por homens mascarados - eles usam assustadoras máscaras de animais e de Papai Noel. Os bandidos levam Sally e as crianças para uma gruta e os deixam lá para resolverem as demandas do resgate. Só que as espertas crianças conseguem escapar para o meio do mato. Quando os sequestradores descobrem a sua localização, a professora e os jovens chegam ao seu limite, sendo obrigados a responder com crueldade e fúria diante de seus opressores. 

Tive acesso recentemente ao livro original, escrito por Gabrielle Lord, fiquei impressionado com a fidelidade da adaptação. A autora se baseou em um caso real ocorrido na Austrália, no início da década de setenta, uma professora que foi sequestrada com suas alunas e conseguiu escapar com as adolescentes, atitude que a fez receber uma premiação por sua coragem. O roteiro não se preocupa tanto com a verossimilhança, várias sequências são pensadas como alegoria, uma espécie de conto de fada subversivo. O nível de violência é alto, não era o tipo de entretenimento que costumava ser exibido naquela faixa de horário, o desfecho mostrava crianças ensandecidas assassinando friamente seus sequestradores, fazendo questão de manter como souvenir o coração do líder deles, guardado em um pote na sala de aula. Esse detalhe desperta uma questão interessante: ao ultrapassarem seus limites morais, dominados pelo instinto animalesco de sobrevivência, as crianças não somente perderam qualquer conceito de inocência, como também abraçaram a violência como força motriz em qualquer situação. Eles se tornaram exatamente o reflexo daqueles monstros que enfrentaram.

Hoje em dia esse telefilme australiano só seria exibido durante a madrugada televisiva. Eu, com a ingenuidade da idade, torcia para viver uma aventura dessas naquelas excursões da escola, mas a maior emoção de que me recordo foi uma vez que o pneu do ônibus furou e tivemos que esperar algumas horas para retomar a viagem. Eu lembro que assisti a reprise da minissérie “Os Pássaros Feridos” no SBT somente por ter gostado desse filme, já que teria a possibilidade de ver mais uma vez a bela Rachel Ward. Ela era a professora que todos nós gostaríamos de ter. Nunca me esqueço da cena em que ela, explorando a gruta com um dos alunos, ficava nua e atravessava nadando a água gelada. Era impagável a expressão do garoto, quando ela voltava dizendo que havia encontrado uma saída. Com toda certeza, por alguns minutos, ele até esqueceu que estava em uma situação de perigo. Mais adiante, quando ambos voltaram com o restante da turma, a professora nadou tranquilamente com as roupas de baixo, o que me deixava uma nítida impressão de que ela havia anteriormente provocado o aluno de propósito. Claro que era criação da minha cabeça pervertida de pré-adolescente introvertido, mas já bastava. Engraçado que, na mesma cena, havia uma linda aluna seminua envergonhada, mas eu só tinha olhos para a professora, acho que inconscientemente eu sempre preferi mulheres mais velhas.

A motivação dos sequestradores mascarados recebe alguma atenção no livro, mas o roteiro inteligentemente os transforma em forças inexplicáveis da natureza, o que intensifica o senso de perigo constante. Ao contrário de muitos projetos similares da época, “A Fortaleza” sobreviveu muito bem ao teste do tempo, especialmente em sua versão sem cortes. 


Paraíso Azul (Paradise – 1982)
Dois adolescentes escapam do ataque de mercador de escravos no meio do deserto. Únicos sobreviventes do massacre, o casal de jovens foge de camelo e se refugia num oásis onde se apaixonam e começam a descobrir a sexualidade.

Já começo afirmando que o filme é horroroso. O único motivo que me fez nunca esquecer sua existência atende pelo nome de Phoebe Cates. Mais um presente apimentado do “Cinema em Casa” do SBT para os pré-adolescentes, que compartilhavam a certeza de que o dever de casa seria postergado e que, durante sua exibição, a porta do quarto ficaria trancada. Em um mundo sem internet, assistir a nudez feminina nas tardes politicamente incorretas era como tocar o céu, motivo de ansiedade e expectativa. A conversa na sala de aula era: “Sabe qual filme vai passar hoje? Paraíso azul!” Era a mensagem cifrada que fazia com que o tempo corresse. Com a Phoebe nos aguardando em casa, não havia matemática que nos irritasse. Já ficávamos doidos com ela em “Picardias Estudantis”, mas nessa cópia fajuta de “A Lagoa Azul” ela aparecia o tempo todo, aquele rostinho inesquecível.

Não vou enganar você, caro leitor, afirmo que não me recordo de absolutamente nada sobre a trama. Na época, após gravar em VHS, assistia apenas as cenas em que ela aparecia mais, digamos, confortável. Eu marquei na contracapa da fita os minutos, então era possivelmente o filme em que mais gastava o botão FF do aparelho. Nunca me esqueço da conversa dela com o rapaz, onde ele dizia que a nudez era um pecado, já que Adão e Eva usavam folhas grandes. E ela então afirmava: “Como pode ser pecado algo tão belo?”. Segundos depois, somos conduzidos a uma cena em que a jovem se banha dentro de uma caverna, apenas para, com os queixos no chão, confirmarmos o argumento dela. 

"O Teorema Zero", de Terry Gilliam


O Teorema Zero (The Zero Theorem - 2013)
O eterno Monty Python Terry Gilliam retorna à boa forma de “Os 12 Macacos” e “Brazil”, exercitando seu estilo visual característico, mas com senso de humor reduzido. Uma jornada mais pessoal, onde ele, assim como o personagem, no início do filme, encara o vácuo em busca de respostas. Ele utiliza o talento de Christoph Waltz, totalmente careca e, pela primeira vez, como protagonista, para compor sua fábula distópica sobre paranoia institucional. Um hacker cuja existência se limita a trabalhar sem descanso para sua empresa, mas que anseia apenas poder se afastar ainda mais da sociedade, trabalhando em casa. Sendo muito competente, a empresa recompensa-o com seu desejo, porém ele precisa obrigatoriamente encontrar o Teorema Zero, uma equação que comprova que o universo é vazio e que todos nós rumamos inexoravelmente para o filosófico “nada”.

O maior problema do filme é que o roteiro do estreante Pat Rushin falha ao não se impor de igual perante as invencionices visuais do diretor, como a frequente utilização das lentes grande angulares, nunca aprofundando as críticas além da satisfação fonética mecânica pela repetição, como a gag ideologicamente pouco sutil que envolve o protagonista sempre se referir a si próprio no plural. Enquanto isso, algumas ideias mais elaboradas, como a câmera de segurança que é posicionada no lugar da cabeça de Jesus em um crucifixo, poderiam resultar mais contundentes. É agradável encontrar essa coragem nos diálogos, que podem não ser fluidos, mas eles estão inseridos com o único intuito de provocar o espectador, estimulá-lo à reflexão após um breve sorriso. Em um de seus melhores momentos, numa festa onde os presentes não conseguem tirar os olhos de seus celulares, Gilliam consegue realizar uma crítica comportamental muito similar à de Spike Jonze em “Ela”, uma obra que poderia muito bem ser complementar a essa experiência.

Essencialmente, por trás de toda a perfumaria sci-fi proposta no roteiro, trata-se de um simples confronto entre a razão/ceticismo, simbolizada claramente em uma cena com Matt Damon no terceiro ato, e a fé/religiosidade, simbolizada pelo telefonema que ele aguarda de uma divindade que sabe todas as respostas. Quando era mais jovem, ao lado de seus colegas ingleses, Gilliam debochava da necessidade de um sentido para a existência nos ótimos esquetes de “The Meaning of Life”, mas dessa vez encontramos um homem no crepúsculo de sua vida, com a mesma verve irônica maravilhosa, mas perceptivelmente perturbado pelo tema. O resultado final me resgatou boas lembranças do desfecho de “Hannah e Suas Irmãs”, onde o personagem de Woody Allen abraça a finitude com um olhar de fascínio exploratório, aceitando a beleza que se esconde nos detalhes. O personagem de Gilliam não sorri com os “Irmãos Marx”, mas parece entender que existe graça, ainda que melancólica, no caos. 

"O Que os Homens Falam", de Cesc Gay


O Que os Homens Falam (Una Pistola en Cada Mano - 2012)
Ao contrário do que muitos pensam, cinema não é só imagem. Diretores como Richard Linklater e Robert Altman, por exemplo, nos encantam com longas conversas, emolduradas pela ação das cenas. Essa estrutura, além de ser muito mais desafiadora para os atores, costuma tocar com eficiência no racional do espectador, enquanto a imagem exercita mais o emocional. É o caso dessa ótima comédia dramática do diretor espanhol Cesc Gay, dividida em seis segmentos que se unem apenas no desfecho, tendo em comum apenas personagens que estão vivenciando a crise dos quarenta anos. Num interessante exercício de psicologia, o roteiro tenta desnudar vários ângulos da insegurança masculina perante a inexorável consciência da mortalidade.

Todos os curtas são eficientes, mas o segundo é uma aula de como inserir gradualmente o humor em uma situação constrangedora, de forma elegante e com espaço até para referências pop nada convencionais. Nele, o personagem de Javier Cámara descobre que sua ex-mulher o trocou por um garoto, quando tenta insistentemente reconquistar seu amor. Com impecável timing cômico, o pobre homem afirma que ainda tem sonhos eróticos com a esposa, somente para escutar que também habita nos sonhos dela, mas de forma menos interessante, sempre tendo infartos. É uma tragédia pessoal similar ao do protagonista do primeiro curta, que confidencia a um amigo que não via há tempos toda sua angústia, revelando com pesar estar novamente morando com sua mãe, salientando ter completado quarenta e seis anos, como se fosse quase uma falha de caráter. Em outro segmento, o excelente Ricardo Darín também se aproveita da paciência de um amigo para confidenciar o adultério de sua esposa, ação que trará consequências. 

Cada situação evoca, com humor ácido e inteligente, uma crítica ao estado de espírito derrotista que pode atingir a pessoa em qualquer idade. A verdade é que grande parte dos problemas que são relatados provavelmente não teriam ocorrido caso os personagens não se preocupassem tanto em reverter o irreversível tempo, mas sim “mastigar” a delícia de cada momento como se fosse o último. A mensagem clara que a obra passa é que precisamos aproveitar tudo ao máximo e da melhor forma, até mesmo os obstáculos naturais que nos são atirados. A necessária maturidade emocional, como esses personagens demonstram, não chega com a idade adulta, mas com o despertar consciente e sem ilusões teoricamente benfazejas sobre a realidade de nossa finitude. 

"Grand Central", de Rebecca Zlotowski


Grand Central (2013)
Com o olhar detalhista de uma documentarista, a jovem cineasta Rebecca Zlotowski direciona suas lentes para uma realidade desconhecida pela maioria do público, a rotina diária dos trabalhadores de usinas nucleares, filmada em locação. O roteiro consegue, sem apelar para o melodrama, entrecruzar o romance com os conflitos físicos e emocionais gerados pelo arriscado trabalho. 

O personagem vivido por Tahar Rahim é inconsequente, com uma mancha criminal em seu passado, um homem estruturalmente fragilizado. Como é mostrado numa rápida cena inicial, onde ele displicentemente monta um touro mecânico, fica estabelecida sua atitude irresponsável perante o perigo. O contraste visual entre a necessária rigidez da prática diária na usina e os encontros passionais libertários do casal dá o tom da tensão que é mantida do início ao fim. Existe também uma crítica subliminar, que espertamente é deixada para ser trabalhada no inconsciente do espectador, em que nunca sabemos se as eventuais vítimas da radiação sofrem por estarem morrendo ou por estarem perdendo seus empregos. 

A metáfora principal é ainda mais interessante, já que o protagonista é consumido gradativamente por seu desejo pela bela noiva de seu colega, vivida por Léa Seydoux, tanto quanto pela radiação. Ele não se importa em colocar sua saúde em risco, contanto que se mantenha próximo da garota. A jovem, por outro lado, esconde por trás de sua atitude sexualmente desafiadora, representada também pelo seu vestuário, um terrível medo de se apaixonar. Esse medo intangível nos dois, simbolizado pela intoxicação radioativa e pela ousadia da escolha por um amor proibido, é realmente o leitmotiv da obra, o elemento que o diferencia dentre tantos romances convencionais.

"November Man", de Roger Donaldson


November Man - Um Espião Nunca Morre (The November Man - 2014)
Um genérico de espionagem eficiente, com uma estrutura convencional defendida por um ator que se mostra disposto a provar que foi retirado do jogo cedo demais. E é exatamente essa consciente metalinguagem que se torna o ponto alto do projeto, com Pierce Brosnan, que comprou os direitos da obra assim que foi dispensado, disposto a exorcizar os anos que perdeu com comédias românticas tolas, após ser colocado para escanteio pelos produtores da franquia 007. A vitalidade dele surpreende nas cenas de ação, mas também é possível perceber que ele repete várias características de sua versão de Bond, amalgamando-as ao amargor da abordagem do escritor Bill Granger, cuja série de livros sobre o personagem está mais para as confusas reviravoltas de John le Carré, do que para a ingenuidade pulp adolescente de Ian Fleming. A trama é consideravelmente fiel à essência do livro “There are no Spies”, o sétimo da série, atualizando a tecnologia oitentista para uma realidade de drones. 

O diretor Roger Donaldson, que costuma trabalhar bem com estruturas narrativas simples, com a ação constante desviando a atenção do espectador para os problemas do roteiro, demonstra pouca segurança ao lidar com as necessárias quebras de ritmo em um projeto que pede atenção aos detalhes, potencializando a previsibilidade das reviravoltas, sinalizadas com antecedência até pelos menos atentos. É uma pena que o antagonista, um elemento promissor por simbolizar na trama o conflito entre gerações e métodos diferentes, além do fator psicológico do embate entre mestre e aprendiz, seja interpretado de forma apática pelo australiano Luke Bracey, que não consegue impor em cena as qualidades que deveríamos crer que o seu personagem domina. 

Sem estofo nesse embate, com uma ameaça pálida, sobra apenas para o carisma inegável de Brosnan e a beleza hipnótica de Olga Kurylenko, cuja personagem só ganha alguma importância, além de cumprir a fórmula da “donzela em perigo”, no terceiro ato. A primeira meia-hora entrega um equilíbrio agradável entre os usuais tiroteios e resoluções Deus ex machina, mas a tensão diminui no segundo ato. Não há problema algum com a previsibilidade, contanto que seja eficiente e entretenha por aquele par de horas. Os últimos vinte minutos recuperam um pouco daquela pegada brutal do início, fazendo esse possível início de franquia soar bastante interessante. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Cine Samurai - "Trono Manchado de Sangue"

Link para os textos do especial:


Trono Manchado de Sangue (Kumonosu-jō – 1957)
Na primeira das três adaptações de Shakespeare realizadas por Akira Kurosawa, o mestre inteligentemente transfere Macbeth para o cenário do Japão feudal, utilizando o tradicional teatro Nô, que transmite variados níveis de emoção através de máscaras expressivas, porém estáticas, além de movimentos sutis e delicados do ator no palco, espalhando pela obra um verniz de lirismo que nunca seria alcançado pela estética tradicional. 

Essa escolha corajosa combina perfeitamente com os elementos sobrenaturais da trama, tornando grandioso e psicologicamente representativo até mesmo o simples ato de lentamente ajoelhar, quando executado após uma decisão importante tomada pelos personagens de Toshirô Mifune e Isuzu Yamada. É incrível perceber como o rosto de Yamada, inexpressivo como uma máscara na maior parte do tempo, consegue se transformar na pura face da loucura e do sentimento de culpa, na espetacular cena em que ela freneticamente tenta limpar suas mãos do sangue que somente ela enxerga. 

Movido pela cobiça, estimulada pela profecia que escuta de um espírito na floresta, Washizu (Mifune) inicia uma escalada trágica, gradualmente destruindo seus princípios, esquecendo qualquer conceito de honra. Teria ele sido vítima de seu inescapável destino, ou, como o roteiro aponta, teria sido dilacerado por sua própria índole torta? Reflexão que conduz ao clássico desfecho, onde o homem que conquistou tudo o que quis é, enfim, levado a compensar sua desonra com o próprio sangue. O impactante não é somente o balé de inúmeras flechas atravessando seu corpo, isso é pouco perto do olhar da vítima, transmitindo um misto de descrença e intenso pavor.

Ele, em seu orgulho, nunca iria imaginar que os pássaros que invadiram seu castelo, um fenômeno que o incitou ao deboche, estavam assustados devido aos guerreiros que cortavam as árvores na floresta, preparando a estratégia para a batalha que o consumiria. A força mítica da imagem das árvores se movendo contra o castelo, apenas a teatralidade poderia dar um fim digno para aquele que utilizou o lúdico como inspiração para extravasar seus desejos por riqueza e glória. 

* O filme está sendo lançado, em versão restaurada, pela distribuidora Versátil.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Chumbo Quente - "Disparo para Matar" (1966)

Link para os textos do especial:


Disparo para Matar (The Shooting – 1966)
A trama começa com o pistoleiro Willet, vivido por Warren Oates, chegando a um acampamento de mineração. Ele encontra um jovem, vivido por Will Hutchins, que fala e age como uma criança amedrontada. O rapaz explica ao pistoleiro que, durante sua ausência, um dos seus parceiros havia sido assassinado por um atirador desconhecido, após a partida inesperada do irmão de Willet, alguém que atende pelo sugestivo nome: “Coin” (Moeda). No dia seguinte, uma mulher, vivida pela bela Millie Perkins, chega ao acampamento e oferece farta recompensa aos dois, caso aceitem guiá-la através do deserto. Um jovem Jack Nicholson, emulando o vilão vivido por Jack Palance em “Os Brutos Também Amam”, passa então a seguir o grupo, com intenções enigmáticas.

O clima vai ficando cada vez mais onírico, quando percebemos no longo trajeto que, ao invés de encontrar sinais de que existe uma cidade próxima a ser alcançada, parece que o grupo se afasta cada vez mais da civilização, adentrando uma espécie de limbo existencial, onde as definições de tempo começam a não ter importância. O roteiro de Carole Eastman, sob o pseudônimo de Adrien Joyce, já demonstra as qualidades que a fariam ser indicada para o Oscar alguns anos depois, pelo ótimo “Cada Um Vive Como Quer” (Five Easy Pieces). Filmado com luz natural pelo diretor de fotografia Gregory Sandor, generosamente aproveitando a dimensão do cenário, invariavelmente posicionando os personagens como diminutos grãos de areia, potencializando os aspectos metafóricos da jornada de penitência empreendida pelo personagem de Warren Oates, que eventualmente se encontrará com seu outro lado da moeda, com um toque alucinatório sobrenatural.

A direção de Monte Hellman trabalha as charadas visuais com os pés fincados na realidade, deixando qualquer possível interpretação a cargo do espectador. O interesse dele é confundir, não explicar. Seria a mulher um “espírito” vingador do passado? Em certo momento é dito de forma despretensiosa que Coin matou uma pessoa pequena, provavelmente uma criança. Seria Coin, numa interpretação mais óbvia, o irmão gêmeo de Willet, ou, como prefiro acreditar, uma versão do próprio personagem do pistoleiro atormentado ao encarar profundamente o seu abismo nietzschiano interior? É interessante que ocorra no impactante final uma experimentação com o tempo fílmico, com a utilização da câmera lenta e do freeze frame, passando de forma eficiente aquela sensação que temos segundos antes de despertar de um sonho, ou, no caso do protagonista, um terrível pesadelo. 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Entrevista com Catherine Wyler


Todos que acompanham meu trabalho sabem sobre a importância do filme "Ben-Hur" em minha cinefilia. Charlton Heston na quadriga emoldura meu perfil nas redes sociais, o pôster fica ao meu lado na mesa de trabalho, enquanto outra imagem do filme veste a parte superior do laptop em que escrevo meus textos. Foi a obra que despertou minha paixão pelo cinema, quando o assisti pela primeira vez, aos quatro anos de idade. Gratidão eterna. Com o tempo, acabei conhecendo toda a filmografia espetacular de seu diretor: William Wyler. Bastaria eu citar alguns de seus projetos mais famosos, como "O Morro dos Ventos Uivantes" (com Laurence Olivier e Merle Oberon), "A Carta", "Pérfida" (ambos com Bette Davis), "Os Melhores Anos de Nossas Vidas", "Tarde Demais" (com Montgomery Clift e Olivia de Havilland), "Chaga de Fogo" (com Kirk Douglas), "A Princesa e o Plebeu" (com Audrey Hepburn e Gregory Peck), "Da Terra Nascem os Homens" e "O Colecionador", para você entender a tremenda importância desse cineasta que era avesso à autopromoção, o que explica em parte o fato de seu nome não ser lembrado como merece, mesmo tendo construído uma carreira impecável em diversos gêneros, enquanto outros de qualidade instável e limitados foram mitificados. 

Sua filha, Catherine Wyler, carinhosamente aceitou responder algumas questões sobre o legado do pai, fazendo questão de repetir o gesto de Laura Truffaut e Ginger Alden, enviando ao final essa foto, que faria o garoto de outrora, que cantarolava pela casa a trilha sonora de Miklos Rozsa, orgulhoso do profissional que hoje me sorri no espelho.


O - “Ben-Hur”foi o filme que me despertou a paixão pelo cinema, quando o assisti aos quatro anos de idade. Escrevi sobre essa experiência em meu livro: "Devo Tudo ao Cinema". Daquele dia em diante, eu me tornei um fã da incrível versatilidade de seu pai. Você poderia relembrar um pouco da sua experiência na época da filmagem? O que esse filme representava para ele? Como você analisa o impacto dele nos tempos atuais? 

W - Estar em Roma durante as filmagens de "Ben-Hur" foi uma experiência inesquecível e fabulosa, ainda que eu estivesse na universidade, então só pude acompanhar durante o verão; perdi muito com isso. 

Willy adorava desafios. Quando foi oferecido pra ele o projeto, ele acreditou que seria interessante fazer o que ele chamava de "um filme de Cecil B. DeMille". Ao invés de selecionar algum gênero específico, ele sempre quis fazer todos os tipos de filmes. Esse foi seu primeiro e único "épico". Não sei mensurar seu impacto hoje, mas eu posso garantir que raramente encontro pessoas que não tenham visto mais de uma vez. 

Hoje em dia acho divertido relembrar que aquela multidão durante a corrida de quadrigas, além das outras cenas imponentes, eram compostas por pessoas de carne e osso, não havia computação gráfica em "Ben-Hur". 

O - Seu pai dirigiu grandes atores: Davis, Olivier, Heston, Havilland, entre outros. Como ele lidava com o ego e o temperamento desses astros? Havia prazer e inspiração ao lidar com o elenco, ou ele apenas esperava que os atores fizessem o trabalho da forma como haviam trabalhado nos ensaios?

W - Eu acredito que ele tinha um sexto sentido sobre lidar com atores, uma inata sensibilidade que o ajudava a tratar com cada ator de maneira que ele conseguisse o resultado desejado, a melhor interpretação possível. Ele não gostava de trabalhar com atores amadores, sem treino, ele valorizava o talento e, acima de tudo, o profissionalismo. 


O - Ele fez parte da era de ouro de Hollywood, sendo considerado como amplamente responsável pela sua magia. Nós sabemos que o sistema dos estúdios era muito rígido e que não era fácil para muitos cineastas. As intervenções/imposições dos executivos deixavam ele irritado, ou ele considerava aquilo como um desafio a mais que inspirava sua criatividade? 

W - O sistema de estúdio tinha muitos prós e contras. Eu acho que ele considerava um desafio, mas também um incômodo. E ele nunca pensou duas vezes antes de lutar por aquilo em que acreditava. Invariavelmente, a fricção que ocorria entre ele e os produtores criava até um resultado superior ao que teria sem as discussões. 

O - Abordando uma faceta dele mais íntima, acredito que a música era um fator importante em sua mente criativa. Que tipo de música ele escutava em casa? Ele tinha algum método/mania peculiar durante a preparação e a filmagem de um projeto?

W - Meu pai tocava violino antes de perder muito de sua audição durante a Segunda Guerra. Ocorria muitas festas musicais em nossa casa, ele adorava todos os tipos de música. Após a guerra, ele não costumava escutar música como recreação, ele tinha dificuldade por causa do zumbido no ouvido. 
  
O único fato recorrente de que me lembro é que, em certo ponto, ele começou a ser atormentado por fortes enxaquecas que sempre iniciavam ao meio-dia. As filmagens de "Sublime Tentação" foram particularmente dolorosas por esse motivo. 

O - Seu pai atravessou as grandes transições de som e cor, sempre realizando ótimos filmes. Como era a relação dele com a cor em seus projetos? Ele se sentia mais confortável filmando em preto e branco? 

W - Eu acredito que ele gostava do colorido e do preto e branco por suas diferentes propriedades. Ele queria filmar "A Princesa e o Plebeu" em cores, mas em 1952 não haviam laboratórios em Roma que pudessem trabalhar o filme colorido. Ele teria que ser enviado de navio para os Estados Unidos, retornando antes que eles pudessem assistir as diárias. Era impossível. 


O - Na sua opinião, qual seria a reação de seu pai com o cinema digital? Acredita que ele abraçaria a tecnologia como um novo desafio? O que você sente, como filha, sabendo que a indústria irá refilmar "Ben-Hur"?

W - Assim como ele abraçou o som quando jovem, tenho certeza que ele aceitaria o desafio do cinema digital, mas provavelmente, ainda que não revelasse, com muita nostalgia pelo filme.  Sobre a refilmagem que estão fazendo, será interessante ver se ficará boa. A razão que faz com que o épico do meu pai seja lembrado até hoje é que as cenas intimistas eram reais, críveis. Acho que será difícil superar isso.

O - Você poderia abordar a coragem de seu pai ao levantar a espinhosa questão da homossexualidade no início da década de sessenta, algo que era proibido pelo Código de Produção, quando ele refilmou seu próprio "Infâmia", originalmente de 1936? E, continuando no tópico, qual sua opinião sobre esse tema em "Ben-Hur"? Seu pai concordou de imediato com o ponto de vista de Gore Vidal? 

W - Ainda que ele estivesse muito intrigado com a ideia de filmar a segunda versão de "Infâmia" , como ela havia sido originalmente escrita, quando o resultado não foi financeiramente bem-sucedido, ele criou para si um novo lema: "Você nunca deve refilmar seus próprios filmes". 

Sobre o relacionamento entre Judah e Messala, na época, o destino financeiro da MGM estava na corda bamba. Aquele estava sendo o filme mais caro já feito, o estúdio iria falir caso não fosse um sucesso. Willy disse ao Gore, sem rodeios, que nenhuma sugestão de homossexualidade deveria constar no corte que seria assistido, mesmo que esse elemento pudesse tornar o relacionamento entre os personagens mais compreensível e narrativamente interessante. 

O - Ele foi um dos mais celebrados e lembrados nas premiações da Academia. Qual era a opinião dele a respeito de prêmios? Como ele realmente se sentia? Ele ficava envaidecido, ou entendia aquilo como parte necessária na engrenagem que move a indústria? 

W - Ele sempre ficava feliz ao receber prêmios que significassem verdadeiramente algo. Ao mesmo tempo, ele se entediava com a necessidade da publicidade. Acho que hoje ele não é tão lembrado, quando comparado a outros de sua época, exatamente por nunca ter dedicado tempo em sua própria imagem. 


O - Você consegue identificar a influência de seu pai em diretores da atualidade? Algum diretor jovem já abordou isso diretamente contigo?

W - Eu sei que muitos diretores contemporâneos são grandes fãs do meu pai, como Alexander Payne, por exemplo, mas nunca discuti sobre isso com eles. Eu sinceramente espero que esses jovens valorizem a persistência do meu pai em sua batalha pela honestidade e realismo, seu hábito em contar histórias com real valor humano. 

O - Os meus filmes favoritos de seu pai, além de "Ben-Hur", são "O Colecionador", "Os Melhores Anos de Nossas Vidas", "Tarde Demais" e "Chaga de Fogo". Imagino que seus favoritos variem com o tempo, mas quais seriam seus favoritos hoje? 

W - Os meus favoritos são "Fogo de Outono", "O Morro dos Ventos Uivantes", "A Carta", "Memphis Belle", "Tarde Demais", "A Princesa e o Plebeu", "O Colecionador" e, acima de todos, "Os Melhores Anos de Nossas Vidas".

O - Catherine, você poderia deixar uma mensagem para meus leitores, que, assim como eu, admiram o legado artístico de seu pai? 

W - Obrigada pelo carinho, Caruso. É surpreendente, um tanto quanto triste, que as pessoas de outros países normalmente reconheçam mais os filmes dele, que os próprios americanos. Então só posso saudar carinhosamente os cinéfilos brasileiros, agradecendo por manterem vivos os filmes e a memória de meu pai. 


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

"O Rei e o Cidadão", de Joseph Losey


O Rei e o Cidadão (King and Country – 1964)
Poucos diretores souberam captar a crueldade humana como Joseph Losey, com um interesse investigativo naquilo que motiva alguém à sordidez, um olhar calculado e impiedoso. A forma como trabalha a câmera, sem exibicionismo, exercitando sua capacidade de síntese imagética em seus enquadramentos, abusando das fusões como representação quase onírica do que escapa ao texto, evidenciando que seu interesse está nas entrelinhas, uma entidade própria, como a consciência daqueles personagens que são analisados psicologicamente com sua lupa.

A angústia do soldado tido como desertor, inserido em um julgamento onde está à mercê do critério de loucos com autoridade sobre seu corpo, sendo defendido pelo personagem vivido por Dirk Bogarde, um capitão que já se mostra totalmente frustrado com aquele sistema que produz jovens heróis tombados e esquecidos na lama, comidos por ratos, mas, ao final do dia de batalha, simples estatística na mesa dos superiores. O roteiro transpõe com perfeição o ambiente claustrofóbico da vida nas trincheiras na Primeira Guerra Mundial, com foco na breve, porém intensa, relação que se estabelece entre o condenado e seu defensor. Para os loucos que anseiam por extravasar seus complexos com mais um disparo, pouco importa que o soldado tenha servido com eficiência durante longos três anos, atravessado um inferno diário. Não há como sustentar valores como o respeito ou lógica em um sistema absurdo onde a vida de um indivíduo é descartada em nome de uma subjetiva noção de paz. E Losey deixa claro seu entendimento dessa mensagem na forma como escolhe iniciar sua obra, fundindo a imagem de um monumento aos heróis de guerra com a desolação de cadáveres largados em um campo enlameado.

A trama nunca mostra o que ocorreu para conduzir a vítima ao julgamento, como obras similares fariam no intuito de introduzir o melodrama, a câmera segue perseguindo os atores em cena, até o impactante desfecho. E, mesmo nesse momento de catarse, Losey decide se focar no soldado do pelotão de fuzilamento que, ao escutar a ordem para atirar, sutilmente move sua mira para longe do colega. Nesse breve ato, o roteiro declara a esperança em um futuro onde os homens percebam o equívoco inerente à mitificação de pobres coitados que jogam fora suas vidas em nome da mentira de uma guerra.

* O filme está sendo lançado pela distribuidora "Versátil", em versão restaurada, no excelente box "A Primeira Guerra no Cinema".

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

"A Morada da Sexta Felicidade", de Mark Robson


A Morada da Sexta Felicidade (The Inn of the Sixth Happiness – 1958)
Existem dois pontos que considero muito relevantes nesse épico injustamente pouco lembrado do diretor Mark Robson, dois momentos que compensam o equívoco do interesse romântico forçado e sem química entre a missionária Gladys Aylward, interpretada por Ingrid Bergman, e o soldado chinês vivido pelo alemão Curd Jürgens. 

A jovem inglesa que consegue fazer o impossível, resgatando e zelando pela segurança das crianças chinesas no período opressivo da guerra, conduzindo-as numa exaustiva e perigosa caminhada através das montanhas para um local seguro, havia sido inicialmente impedida de realizar seu sonho por não ter as qualificações necessárias para o trabalho. Ela precisou lutar para conseguir o dinheiro para a viagem, além de ter que se contentar com o trabalho de doméstica em uma hospedaria numa aldeia remota. Situação que conduz diretamente para o segundo momento, que ocorre no terceiro ato, um discurso belíssimo de Robert Donat, que estava muito doente e morreria pouco tempo depois, interpretando o Mandarim que, profundamente comovido com a força do espírito inquebrantável daquela jovem, declara a ela sua conversão para o cristianismo, fazendo questão de que aquela informação constasse nos escritos de seu povo. 

O roteiro e a atuação evidenciam que aquele gesto simbólico não feria ou desrespeitava suas crenças pessoais, apenas sublimava o conceito de religião como um elemento que, pela sua etimologia, existe como um laço de piedade com o propósito único de religar os seres humanos ao conceito subjetivo do divino, algo maior do que os dogmas de qualquer ideologia religiosa. E é bonito que essa cena, exatamente a última gravada pelo ator, seja uma despedida. Entrevistado para a biografia do ator, o diretor afirmou que todos na equipe sabiam que ele estava utilizando suas últimas energias naquele trabalho. É possível notar essa aura de transcendência na cena. A emoção de Bergman é real, enquanto escuta seu esforçado colega afirmar que eles não se veriam novamente. Donat, sempre lembrado por “Os 39 Degraus” de Hitchcock, estava sem trabalhar por longos cinco anos, mas mostrava-se orgulhoso de poder morrer fazendo aquilo que mais amava, em um projeto tão bonito.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

"O Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima


O Império dos Sentidos (Ai no Korîda – 1976)
A polêmica obra do diretor Nagisa Oshima foi inspirada em um caso real ocorrido no Japão em 1936. Uma jovem prostituta, chamada Sada Abe, foi encontrada caminhando pelas ruas num estado de êxtase, tendo consigo o órgão sexual extirpado de seu parceiro, assassinado dias antes pela própria garota enquanto faziam amor. Seria muito fácil afirmar que o filme é pornográfico, já que se passa praticamente todo focado na intimidade do casal, com várias cenas explícitas, expostas com uma naturalidade que faria Calígula corar.

Os protagonistas deliberadamente decidem pelo isolamento social, aumentando gradativamente a intensidade de seus jogos eróticos. Todos os tabus são executados, até mesmo uma arriscada insinuação nada sutil de pedofilia, mas, por incrível que pareça, a sensação que o sexo causa no espectador é antagônica àquela que pode ser encontrada na pornografia. O clima opressivo fatalista se mantém até o último instante. A iluminação expressionista nos espaços confinados, onde podemos quase sentir o odor do suor, como se eles estivessem se sacrificando, expiando os absurdos da militarização, uma metáfora que fica clara na cena onde vemos Kichizo, vivido por Tatsuya Fuji, seguindo na direção oposta de um pelotão de soldados.  O sexo livre como oposição lúdica ao império japonês e ao conservadorismo do pós-guerra. O homem é consumido por um intenso sentimento de culpa e frustração com a sociedade em que vive, escolhendo então exercer o poder maior, o domínio da mente sobre o corpo, que consiste em se entregar plenamente à Sada, vivida por Eiko Matsuda, resultando em sua radical decisão final.

Analisando o contexto da época, fica evidente a corajosa transgressão de colocar a mulher como dominadora, deixando para o homem o papel de cobaia de suas experiências cada vez mais ousadas. Ela se liberta dele ao castrá-lo, numa das cenas mais impactantes, sobrevivendo à satisfação de seus desejos e, indo além, possuindo o órgão sexual dele, aquilo que definia sua importância aos olhos dela, negando definitivamente o ideal romântico da morte como suprema entrega. Não é de se surpreender que a verdadeira Sada tenha se tornado um símbolo feminista em sua nação. 

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Tesouros da Sétima Arte - "Viagem ao Fim do Mundo"

Link para os textos do especial:


Viagem ao Fim do Mundo (1968)
Enquanto aguarda a chamada para o embarque em seu avião, um rapaz procura na banca de jornal uma leitura para a viagem. Descobre uma edição de bolso das "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis. Unindo à curiosa equação uma forte inspiração nas obras da filósofa francesa Simone Weil, simbolizada nos monólogos existencialistas de uma freira sobre a hipocrisia da religião, inclusive, como ferramenta política, ponto extremamente atual em uma sociedade onde um candidato que se declare ateu não ganharia votos, o filme do diretor Fernando Coni Campos, ainda que faça parte do movimento do Cinema Novo, pode ser visto como antítese da linguagem de sofisticada rebeldia nas obras de Glauber Rocha, já que seu experimentalismo não parece buscar inspiração na melancólica poesia do neorrealismo italiano ou nas calculadas digressões da nouvelle vague francesa, estando mais próximo do cinema de Eisenstein e Dziga Vertov.

É espetacular a sequência que inicia com um resgate jornalístico do impacto dos ditadores no mundo, seguido por “A bomba está para explodir na praça enquanto a banda passa”, canção de Roberto Rei, cantor hoje esquecido e que no movimento da Jovem Guarda ousou enfrentar o regime militar, passando pelo discurso de que não existe mais divisão no mundo entre comunismo e capitalismo, ao som de “Guantanamera”, com o leitor de Machado enfrentando Pandora, a personificação da natureza, vivida pela bela Annik Malvil, responsável no livro por mostrar que o delírio do protagonista Brás Cubas é um movimento inexorável rumo ao caos. Outro momento que vale destacar é a brincadeira metalinguística que insere uma personagem que se autointitula um erro de continuidade.

A estrutura fragmentada desrespeita todas as normas, intercalando charges com Tropicalismo, sobrepondo desenhos de astronautas americanos no espaço com propagandas de sapatos masculinos, uma montagem que provoca exatamente por ser totalmente desinteressada em definir qualquer mensagem, qualquer verdade absoluta. Não há em Coni a preocupação de agradar o público, muito pelo contrário, ele ironiza o desejo do espectador pela narrativa linear. “O maior defeito deste filme és tu, espectador”. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Make 'Em Laugh - "A Gaiola das Loucas" (1978)

Link para os textos do especial:


A Gaiola das Loucas (La Cage Aux Folles – 1978)
Eu me recordo de uma época, quando eu era criança, em que esse filme era exibido com frequência na primeira madrugada de cada ano na Rede Globo. Mas não foi assim que eu conheci a obra dirigida por Edouard Molinaro. Minha mãe tinha alugado o VHS, dizia que era hilário, então acabei assistindo. A capa era esquisita, parecia atraente para crianças, já que era toda desenhada, mas eu me lembro de ter achado estranho o homem de bigode vestido de mulher. Só fui realmente entender o humor espetacular da trama ao rever já adolescente.

O roteiro esconde por trás de uma agradável leveza, captada com brilhantismo pela trilha sonora de Ennio Morricone, um ríspido dedo apontado na cara da sociedade, criticando a hipocrisia das noções convencionais de moralidade, representadas pelo personagem vivido por Michel Galabru, chocado por ter que fugir da imprensa para não responder aos escândalos do presidente da União da Ordem Moral, envolvido em um caso de adultério com uma prostituta menor de idade. O senador vive uma relação fria com sua esposa, quase não trocam olhares, enquanto o casal homossexual vivido por Ugo Tognazzi e Michel Serrault consegue cativar imediatamente o espectador com o carinho e o respeito que nutrem um pelo outro. O senador e sua esposa apenas se interessam em celebrar o casamento da filha como forma de desviar a atenção da imprensa, enquanto os pais do rapaz estão dispostos a negarem suas identidades por uma noite, transformando seu lar em um local irreconhecível para eles, apenas para assegurar a felicidade do filho.

A subversão corajosa já fica aparente na forma como a trama introduz o personagem do jovem filho de Renato (Tognazzi), fazendo o público crer, a princípio, que se tratava de uma válvula de escape sexual para o dono da boate, já que Albin (Serrault) havia estabelecido numa discussão anterior a sua crise de meia-idade. Quando o jovem avisa que irá se casar, o roteiro novamente inverte a expectativa do público ao mostrar a reação desgostosa de seus pais ao fato de que ele estava apaixonado por uma mulher. E é interessante perceber que o rapaz é mostrado como alguém extremamente educado, sensível, de fala mansa, um ser humano muito mais digno, tendo sido criado em um ambiente exótico de nightclub, do que a mãe que o abandonou, uma profissional respeitada na sociedade, de fachada séria, mas de caráter torto. Outro fator interessante é a cena de apresentação do hilário empregado do casal, um negro extremamente afeminado, incapaz de usar sapatos, em pleno auge do cinema blaxploitation. 

sábado, 15 de novembro de 2014

"Um Grito no Escuro", de Fred Schepisi


Um Grito no Escuro (A Cry in the Dark – 1988)
Nenhum corpo, motivo ou arma. Os fatos, no caso australiano de assassinato que envolveu Lindy e Michael Chamberlain, não se encaixam. Mas outras coisas sim: intolerância com a religião do casal. Um argumento retórico tomado como fato. E uma histeria que pareceu, em plenos anos 80, a caça às bruxas de Salem. Lindy vive o pesadelo de ter seu bebê carregado por um cão selvagem e ainda ter que suportar uma farsa montada no tribunal e na mídia.


Assistindo novamente após vários anos, fiquei impressionado com a relevância atemporal do filme dirigido por Fred Schepisi, um poderoso soco no estômago daquela parcela irresponsável da imprensa que se nutre de sangue e lágrimas, promovendo circos públicos no intuito de vender mais jornais ou conquistar melhores índices de audiência. O roteiro se desenrola na estrutura convencional dos dramas de tribunal, com Meryl Streep reservando toda a revolta de sua personagem nos olhos, evidenciando a naturalidade de suas atitudes imediatamente posteriores à tragédia, uma ingenuidade que foi utilizada implacavelmente pelos jornalistas. Esse é o foco da trama, o elemento que evitou que o produto ficasse datado.

A obsessão da mídia no caso foi brutal, com todos os programas de variedades tentando extrair de suas plateias uma reação, formadores de opiniões equivocadas e imediatistas. Como o sensorialmente morno não impede que o espectador troque de canal ou largue o jornal na mesa e procure outra forma de entretenimento, eles gradualmente manipularam as matérias para incitarem reações extremas, no caso, o ódio. Como o marido, vivido por Sam Neill, exercia uma vida de dedicação à sua crença religiosa adventista, não demorou muito para que os jornalistas estimulassem no público a possibilidade de que a bebê tivesse sido sacrificada pela mãe em um ritual satânico.

A justiça, trabalhando ainda sem o clamor popular, acreditou na óbvia inocência do casal, que era visto pelo povo com simpatia, mas a imprensa não descansou enquanto não arruinasse a vida dos dois, fazendo com que a opinião pública se virasse contra uma mãe que havia presenciado a sua filha ser devorada por um cão selvagem. A forma como o roteiro, do próprio diretor, insere frequentemente a opinião de pessoas comuns, que analisam o evento codificado pelos interessados no caos, porém com discursos rasos alicerçados em verdades absolutas, como se conhecessem intimamente aqueles estranhos, traz ainda mais profundidade à questão central.

Após a sessão, fica a reflexão do quão perigoso é julgar sem fatos. O erro da certeza que nasce após a leitura de uma manchete sensacionalista, algo tão atual em nossa realidade imersa nas redes sociais, um espaço onde pessoas compartilham notícias falsas sem preocupação alguma em checar as fontes. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

"O Homem Mais Procurado", de Anton Corbijn


O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man - 2014)
Com apenas três filmes no currículo, o diretor holandês Anton Corbijn consegue reafirmar sua segurança nessa ótima adaptação da melancólica obra de John le Carré, um dedo crítico apontado em desprezo aos métodos adotados pela inteligência americana da era Bush filho, que se torna ainda mais relevante por mostrar uma das melhores atuações do saudoso Philip Seymour Hoffman, como um solitário e desesperançado líder da agência secreta alemã contra o terrorismo, que, como é usual nos trabalhos do escritor, necessita resgatar a confiança em si mesmo e nos outros. É válido ressaltar a inteligência criativa de substituir o excesso de diálogos expositivos, usuais em tramas similares, pela utilização de elegantes metáforas visuais, que enriquecem a obra em uma revisão mais atenta.

A força do elenco ajuda a dar peso à trama, com destaque para Robin Wright, Daniel Brühl, Willem Dafoe e Homayoun Ershadi, parceiro de Kiarostami em “Gosto de Cereja”, que, mesmo limitado em um papel estereotipado, consegue impor sua presença. Um thriller adulto, coisa rara na indústria atual, onde as melhores cenas de ação ocorrem em trocas de olhares inebriados de uísque ou na fumaça do cigarro que o protagonista expele após mais uma desilusão. Um homem exaurido, um elemento que o ator sinaliza com a rouquidão da voz. Aquele tipo de suspense que depende exclusivamente do investimento emocional do público com o personagem, temendo pela consequência natural de seus atos.

E, diferente de outras adaptações do autor, o roteiro de Andrew Bovell não comete o equívoco de tentar abraçar todos os temas em duas horas, decidindo espertamente se focar no personagem vivido por Hoffman, cuja contraparte literária nem é tão interessante, mas que era enigmático o suficiente para ser explorado na linguagem cinematográfica. E o aspecto visual é um elemento essencial na condução da trama, graças à fotografia de Benoit Delhomme, com uma paleta azul fria que evidencia a onipresença da morte, não somente de forma literal, mas também ideológica. 

"Mesmo se Nada der Certo", de John Carney


Mesmo se Nada der Certo (Begin Again - 2013)
O roteirista e diretor irlandês John Carney repete aqui a fórmula de seu sucesso “Apenas Uma Vez”, mostrando o relacionamento amoroso por um viés de sutil doçura, contrastando com o excesso de beijos sôfregos dos romances da linha de produção americana. Nessa proposta, o ápice de uma cena romântica pode ser uma troca de olhares ou um toque das mãos, o foco está no sentimento que motiva a ação. Essa escolha pode incomodar aqueles que aguardam ansiosamente pelos clichês do gênero, defendidos normalmente por protagonistas de motivações fúteis e sem nenhuma complexidade psicológica. 

Todos os personagens são apresentados como seres pensantes, até anarquistas, na espiral descendente de suas vidas, mas, abraçando a contramão dos arcos narrativos redentores, que invariavelmente culminam em pouco críveis finais felizes, o roteiro se desenvolve na satisfação deles pela aceitação desses obstáculos como necessários no desenvolvimento de suas personalidades, naquele elemento que os diferencia numa sociedade formada, cada vez mais, por seres emocionalmente padronizados. Onde todos buscam a felicidade numa projeção utópica, eles aprendem que os reveses são também parte importante da vida. 

Gretta (Keira Knightley) e Dan (Mark Ruffalo) estão encarando uma profunda decepção profissional, com seus nobres ideais de carreira artística dando lugar à autocomiseração. Ele, um produtor musical falido, ela, uma compositora que perdeu toda a confiança em seu talento, após ser abandonada pelo namorado. O encontro dessas duas almas desesperançadas ocasiona, com o auxílio da bela trilha sonora, uma redenção poética. Sobra espaço ainda para uma corajosa crítica ao cenário musical atual, simbolizada pela presença de Adam Levine, da banda “Maroon 5”, interpretando com tinta forte um músico que trocou conscientemente sua integridade criativa pelo vazio do sistema industrial, que cria ídolos de barro imediatistas e canções com curto prazo de validade. 

É sempre prazeroso encontrar obras no gênero que recusem o conformismo sensorial, entregando relacionamentos críveis e verdadeiramente humanos. Costumo dizer que vejo mais robôs nos romances hollywoodianos do que nos filmes dos Transformers. A química entre o casal é cativante, as canções são de singela beleza, mas destaco a mensagem subliminar na cena que registra a declaração de resistência artística dos jovens, gravando seu disco nas ruas de Nova York, com aquela doce voz enfrentando a balbúrdia grosseira que a oprimia outrora. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Cine Noir - "Alma em Suplício"

Link para os textos do especial:



Alma em Suplício (Mildred Pierce – 1945)
O início do filme é espetacular, com a trilha de Max Steiner sendo interrompida pelo som dos tiros, seguido pelo tombar do corpo do personagem vivido por Zachary Scott, que pronuncia o nome da misteriosa protagonista. A forma como o roteiro, que adapta a ótima obra dramática de James M. Cain, o mesmo de “Pacto de Sangue”, para a estrutura pulp do Noir, incluindo o elemento do assassinato e a narração em flashback, sutilmente insere dicas sobre o mistério em pequenas atitudes, com a bela fotografia em preto e branco do genial Ernest Haller, trabalhando influências do expressionismo alemão, atuando praticamente como um personagem, tornando as revisões ainda mais prazerosas. É valorosa a coragem do roteiro, indo contra a censura do código Hays, de não fugir da insinuação de incesto entre a jovem filha, seu padrasto e a mãe. Ainda que a Mildred de Joan Crawford seja uma de suas melhores atuações, empalidece perante a complexidade de sua contraparte literária, uma mulher capaz de intensamente amar e odiar a filha. A adaptação mais fiel foi realizada recentemente, numa produção da HBO, com Kate Winslet.

A direção sempre precisa de Michael Curtiz, meticulosamente trabalhando o suspense na intenção de, como um ilusionista, fazer o público esquecer certos momentos, não perdeu sua contundência. Nos primeiros cinco minutos nós somos apresentados a uma cena de assassinato onde não vemos o assassino. Normalmente o foco é direcionado apenas para o preenchimento da lacuna detetivesca: “quem matou?”. O que torna o filme uma obra-prima no gênero é exatamente a audácia de inserir vários outros conflitos psicológicos na mesma sequência, como a verdadeira razão que leva a protagonista a tentar o suicídio, que serão revelados no sensacional desfecho. Claro que, devido à época em que foi feito, alguns dos truques de ilusão são, na realidade, manipulados de forma grosseira. O público da estreia não iria rever o filme diversas vezes no conforto de suas casas, então certos detalhes essenciais na resolução do enigma não eram percebidos, como a maneira com que a vítima fala o nome da protagonista na cena inicial, com um sentido totalmente diferente do que a maneira com que é falado na repetição posterior.

Um fato triste na produção, que simboliza bem o racismo da época, a participação de Butterfly McQueen, que havia atuado seis anos antes no épico “E o Vento Levou”, como uma estereotipada empregada doméstica que se mostra desajeitada até para atender um telefone. O impressionante é que, mesmo sendo presença marcante no filme, a atriz negra não foi incluída nos créditos. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

sábado, 8 de novembro de 2014

TOP - Filmes sobre Lobisomens


A licantropia já foi utilizada no cinema como analogia para a puberdade e para a crise da meia-idade, no fraco “Lobo”, com Jack Nicholson, até mesmo para aqueles infectados pelo HIV, como é o caso de Remus Lupin, imaginado pela escritora J.K. Rowling em sua saga “Harry Potter”. Diferente de outros monstros clássicos, não possui um cânone estabelecido, sendo imaginado desde a mitologia grega e tendo passado por vários “gatilhos” que explicavam a razão da transformação, o que motivou diversas interpretações ao longo dos anos. Por necessitar de muita caracterização, quase sempre os produtores decidem se focar nesse aspecto visual, deixando a criatividade narrativa em segundo plano. Existem muitos filmes sobre o tema, mas em sua maioria são esforços medíocres ou que não resistem em uma revisão. Para organizar essa lista eu revi cada produção, selecionando sem pensar no senso comum que se forma sempre entre os cinéfilos.

Esses são os meus dez filmes favoritos sobre lobisomens:


10 – A Noite do Lobisomem (El Retorno Del Hombre Lobo – 1980)
Somente aqueles cinéfilos mais apaixonados pelo gênero irão conhecer a saga espanhola do trágico Waldemar Daninsky, vivido em doze produções pelo halterofilista Jacinto Molina, ou Paul Naschy, como ficou conhecido fora de seu país. Com um orçamento mais generoso, esse é o único da série que realmente oferece um entretenimento de qualidade, colocando-o em confronto com uma vampira. A fotografia gótica é o melhor elemento, estabelecendo um excelente clima de pesadelo. A interpretação visceral de Molina, considerado o Lon Chaney espanhol, pode ser considerada uma das melhores já captadas pelas lentes do cinema.


9 – A Maldição do Lobisomem (The Curse of The Werewolf – 1961)
O único projeto sobre lobisomens dos estúdios Hammer mantém o estilo elegante de suas produções, ainda que não possa ser comparado em qualidade aos protagonizados pelo vampiro de Christopher Lee. Como opção à frente de seu tempo, recurso utilizado recentemente na série “Hemlock Grove”, a licantropia no personagem vivido por Oliver Reed é produto de sua concepção, tornando a situação da vítima ainda mais trágica. Nesse caso, foi utilizada uma analogia para o trauma de um abuso sexual, já que o garoto nasceu de um estupro. Esse aspecto reforça o interesse maior no desenvolvimento das motivações, em detrimento de cenas de ação, o que pode não agradar aqueles que buscam apenas a violência.


8 – Dog Soldiers – Cãos de Caça (Dog Soldiers – 2002)
Caso essa lista fosse formada pelas melhores cenas de ação com lobisomens, esse filme estaria em primeiro lugar. O diretor Neill Mashall, antes do sucesso com “Abismo do Medo”, consegue estabelecer um ritmo frenético com boa construção de suspense, como uma versão hardcore de “O Predador”. Lobisomens perturbadoramente altos e longilíneos compõem um visual novo e eficiente, outro mérito da obra que merece ser destacado. O problema é que, excetuando a adrenalina nas cenas dos confrontos entre os militares e os monstros, não há absolutamente nada no roteiro que eleve o projeto a algo mais que um ótimo videogame.


7 – Possuída (Ginger Snaps – 2000)
Esse projeto canadense parecia ser mais uma tolice visando o público jovem, mas já me surpreendeu de forma positiva inicialmente pelo excesso de “gore”, algo que o gênero parecia ter esquecido com o advento da computação gráfica. A protagonista vivida por Katharine Isabelle é atacada por uma fera selvagem, para o desespero de sua irmã, que luta para libertá-la dessa maldição. Sobram críticas à alienação adolescente e o conformismo, num viés espertamente feminista. Foram feitos dois filmes que mantiveram o nível, um sequel e um prequel, formando uma trilogia respeitável e que, pela abrangência de temas que suscita, como relacionamento de pais e filhos, transcende o próprio subgênero.


6 – A Maldição da Lua Cheia (The Boy Who Cried Werewolf – 1973)
Esse é muito pouco lembrado, mas me marcou profundamente quando assisti na televisão vários anos atrás, ainda que não tenha sentido medo. É uma produção barata, foi exibida nos Estados Unidos em sessão dupla com a pérola trash “O Homem Cobra”, que passava sempre no “Cinema em Casa” do SBT, mas compensa a ausência de sangue com um leitmotiv perturbador. Uma espécie de “Kramer Vs. Kramer”, com o divorciado pai sendo a vítima da mordida de um lobisomem, perante os olhos apavorados de seu filho pequeno. Por trás da licantropia imaginada em tom fabulesco, podem-se perceber temas pesados, como a analogia da maldição com o alcoolismo e os efeitos devastadores em uma família fragilizada, especialmente no psicológico de uma criança.


5 – Um Lobisomem Americano em Londres (An American Werewolf in London – 1981)
Caso essa lista fosse formada pelas melhores cenas de transformação, esse filme estaria em primeiro lugar. A lenta agonia do protagonista, enquanto presencia seu corpo sendo modificado grotescamente ao som de “Blue Moon”, cantada por Sam Cooke, inegavelmente é um dos melhores momentos já captados no gênero. O trabalho prostético de Rick Baker foi tão eficiente, que até nos esquecemos de como o roteiro é falho. O exagero no humor, especialidade do roteirista e diretor John Landis, acaba minimizando o impacto de vários momentos com potencial, como a abertura que remete ao clima dos filmes dos estúdios Universal.


4 – O Lobisomem (The Wolf Man – 1941)
O filme, fora de seu contexto, não é o melhor dentre os clássicos da época, como “Drácula”, “A Múmia”, “O Homem Invisível” e “Frankenstein”. Mas a importância dessa incursão dos estúdios Universal é tremenda, já que moldou muitas das particularidades que o personagem viria a apresentar nos esforços seguintes. A interpretação de Lon Chaney Jr., com a ajuda impecável do maquiador Jack Pierce, definiu para toda uma geração o conceito da licantropia, incluindo a ideia da clássica transformação nas noites de lua cheia, a infecção pela mordida e a periculosidade fatal da prata. Elementos criados pelo roteirista Curt Siodmak, que muitos acreditavam equivocadamente que havia se inspirado em lendas ciganas, copiados à exaustão até hoje.


3 – Grito de Horror (The Howling – 1980)
A maioria dos filmes sobre lobisomens abordam indivíduos amaldiçoados pela licantropia, normalmente em locais isolados. Esse projeto do diretor Joe Dante foi inovador por imaginar eles vivendo juntos, como um grupo social, em plena cidade. Outro aspecto interessante foi se desviar do clichê da relutância ao bestial, mostrando que existem pessoas que adorariam abusar desse poder destrutivo. E o excelente trabalho prostético de Rob Bottin somente é superado pelo realizado por Rick Baker em “Um Lobisomem Americano em Londres”. As transformações de Bottin ganham em realismo por causa da fotografia mais escura, que esconde melhor as limitações da época. E, diferente do citado clássico de Landis, considero mais ameaçador lobisomens bípedes.


2 – A Companhia dos Lobos (The Company of Wolves – 1984)
O diretor Neil Jordan, que anos depois viria a firmar seus pés com igual competência no cânone dos vampiros, com “Entrevista com o Vampiro”, realiza uma mistura surreal perfeita de fábula e horror. Deixando de lado qualquer premissa já estabelecida, ele bebe direto da fonte mitológica com total liberdade criativa. Ele compreende que, muito antes de Hollywood se apoderar da criatura, ela já existia no inconsciente coletivo do povo, então seu interesse reside nos alicerces psicológicos que asseguram sua longevidade. O roteiro busca referências no conto da “Chapeuzinho Vermelho”, utilizando a figura do lobo como simbolismo do desejo sexual, “gatilho” na transição da puberdade para a vida adulta. A atmosfera onírica é conquistada por mérito do designer de produção Anton Furst , do “Batman” de Tim Burton.


1 – A Hora do Lobisomem (Silver Bullet – 1985)
Subestimada adaptação do livro de Stephen King, responsável pelo roteiro, que transmite um clima único, um misto de nostalgia e pavor, valorizado pela ótima trilha sonora de Jay Chattaway. Corey Haim vive uma criança paralítica, que é perseguida por descobrir o terrível segredo de sua cidadezinha de interior: um padre querido por todos, mas que na realidade é um lobisomem. O conceito em si já é ousado e sombrio. Claro que ninguém acredita no menino, que acaba recebendo inicialmente o apoio da única pessoa que não tem crédito algum, sequer entre seus familiares, o tio bêbado vivido por Gary Busey. São vários elementos fascinantes, como a cadeira de rodas motorizada, que rende ao filme uma de suas melhores cenas, a da perseguição noturna pela floresta. Munido apenas de poucos morteiros, com um transporte frágil que pode desligar a qualquer momento, o garoto terá que enfrentar o temido lobisomem.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

"A Fita Azul", de Rebecca Thomas


A Fita Azul (Electrick Children - 2012)
Um tesouro indie, que merece ainda maior reconhecimento por ser a estreia de uma cineasta ousadamente autoral. Guardem esse nome: Rebecca Thomas. 

Rachel (Julia Garner, ótima em cena) é uma adolescente enraizada em uma tradição mórmon fundamentalista que a faz viver a negação da luz elétrica, do sexo antes do casamento e da música. Seu pai (Billy Zane) é apresentado como o frio interrogador que grava as respostas da filha no dia de seu aniversário, salientando um relacionamento que é estabelecido pela “fachada” e não por qualquer sentimento genuíno. O roteiro sugere possibilidades perturbadoras para sua gravidez, evento que choca a sociedade extremista em que está inserida, mas sabiamente posiciona o foco nos terríveis efeitos psicológicos advindos do fanatismo religioso e dos males de uma existência asséptica. 

A menina acredita que o prazer que sentiu ao escutar escondida o vibrante Rock and Roll, numa fita azul perdida em um porão, causou a sua gravidez. Em sua inocência, sente que o fruto imaculado de sua virgindade perpétua poderá ser o filho de Deus. Num detalhe esperto do roteiro, os pais se revoltam ao constatar a ingenuidade da filha, quando na realidade passaram a vida toda ensinando a menina a crer nas lendas mais absurdas e miraculosas, aplaudindo-a por não questioná-las em nenhum momento. Rachel é fruto direto de uma vida de irresponsável alienação. O roteiro também acerta ao não trilhar o caminho previsível e cômodo da farsa, da comédia nascida do contraste cultural. É encantadora a sinceridade com que Rebecca, que veio de uma origem mórmon, trabalha a aventura pessoal da protagonista, que decide abandonar os valores de sua família e fugir para Las Vegas em busca daquele que acredita ser o pai de seu filho, o dono da voz na fita. Como Dorothy, a jovem sai do Kansas e enfrenta o mundo de Oz. 

A direção nos faz entender as decisões da menina utilizando recursos oníricos, um realismo mágico que salienta a vívida imaginação de uma pessoa que enfrenta o mundo real pela primeira vez. O ótimo desfecho demonstra o desinteresse em revelar os mistérios, elementos que menos importam nesse “road movie” muito original. 

Evoluímos no "Planeta dos Macacos"?


Tudo começou com o livro do francês Pierre Boulle, uma intrincada fábula com extremo senso de humor, sobre a tripulação da primeira nave a fazer um voo intersideral, em 2500. O objetivo da viagem era encontrar a gigantesca estrela Betelgeuse, distante da Terra trezentos anos-luz. Ao descobrirem a existência de um planeta que se movia numa trajetória semelhante ao nosso, decidiram visitá-lo. Encontraram homens selvagens e primitivos sendo caçados por primatas inteligentes e que se comportavam tal como os terráqueos. No livro, o astronauta voltava ao planeta Terra após várias aventuras. Já no filme, numa inteligente mudança no roteiro, descobre-se que aquele planeta dominado por macacos era a própria Terra, após os humanos a destruírem com suas guerras nucleares.

O que no livro era apenas um conto divertido de ficção sem maiores pretensões, no cinema se tornou uma poderosa crítica social e atemporal. "O Planeta dos Macacos" (The Planet of the Apes - 1968), dirigido por Franklin J. Schaffner é estruturalmente perfeito. Personagens carismáticos (quem esquece o casal de chimpanzés Zira e Cornelius, vividos por Kim Hunter e Roddy McDowall?), construção inteligente de suspense durante os primeiros quinze minutos, fazendo-nos lentamente sentir parte da tripulação que chega naquele mundo inóspito, um ritmo que dificilmente seria repetido nos tempos de hoje, onde o público está bitolado em aceitar apenas edições frenéticas, fazendo com que na famosa cena da caçada humana sejamos surpreendidos tanto quanto os próprios personagens. Vilões maravilhosos como o Dr. Zaius de Maurice Evans e um desfecho que eu daria tudo para presenciar no cinema na época. Hoje, a imagem icônica dos destroços da estátua da liberdade na praia já foi vítima de muitas paródias e seu efeito se banalizou, porém em sua época causou enorme espanto. Vale ressaltar também a excelente trilha sonora de Jerry Goldsmith, inspirada no trabalho de Stravinsky, especialmente "Le Sacre du Printemps", com a inovadora utilização de tigelas de metal como instrumentos de percussão, além de outras opções curiosas, como a cuíca brasileira representando o som emitido pelos símios, criando uma identidade musical primitiva, ainda que pouco melódica, porém coerente com a trama.

"O Planeta dos Macacos: A Origem" se preocupou demais com a perfeição técnica, o ilusório realismo da computação gráfica, mas falhou em adicionar alma aos personagens, verdadeiras tiras de cartolina que caminham pelas páginas do fraco roteiro, defendendo diálogos banais que somente soam interessantes quando referenciam explicitamente as cenas do original. Já "O Planeta dos Macacos: O Confronto", que acaba de estrear nos cinemas nacionais, é um produto muito melhor, mas ainda assim um divertimento que esquecemos minutos depois dos créditos finais. Meu gosto pessoal, passional e racionalmente, reside no original que inteligentemente sabia rir de si mesmo, que não precisava de cenas de ação vertiginosa em câmera lenta para instaurar um senso de perigo, que contava com a presença forte de Charlton Heston no auge de seu histrionismo. A humanidade teria involuído em pouco mais de quarenta e cinco anos? A comodidade da indústria cinematográfica americana seria um reflexo dessa sociedade? Parafraseando o astronauta Taylor (mérito do excelente roteiro de Michael Wilson, de "Um Lugar ao Sol", "Lawrence da Arábia" e Rod Serling, responsável pela série "Além da Imaginação"), antes de descobrir-se em um mundo novo em seu futuro: "O homem, esta maravilha do universo, este glorioso paradoxo que me enviou às estrelas, continua guerreando contra seus irmãos? Continua deixando os filhos de seus vizinhos perecerem pela fome?". Os novos empalidecem perante esse refinamento.