quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Entrevista com Fernando Brito, curador da distribuidora "Versátil"


Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", conversei com o amigo Fernando Brito, curador da distribuidora Versátil, uma guerreira do home video nacional, responsável por resgatar filmes clássicos de diversos gêneros, na maior parte das vezes, inéditos no mercado brasileiro. Primando sempre pela excelência, tanto na apresentação, quanto no conteúdo, com material extra sempre legendado, a Versátil merece reconhecimento por seu trabalho de resgate cultural.


O – Fernando, sem maiores delongas, eu quero abordar algo que me irrita. Após todo o trabalho exaustivo que vai da seleção do material, inclusive os extras e preparação/tradução de legendas, passando pela apresentação do produto, até o pós-venda, a interação com os clientes, você se depara com aquele grupo que quer crucificar a distribuidora por não estar lançando tudo em Blu-ray. Você sempre responde educadamente, salientando que a relação custo/benefício está longe de ser interessante, especialmente na atual situação nacional, porém, eles sempre estão lá, por vezes, ríspidos e agressivos. Na maior parte das vezes, é uma garotada que parece valorizar mais o formato do que o conteúdo, eles são colecionadores de mídia, mais do que colecionadores de filmes. O tipo de comprador que adquire três edições diferentes do pior blockbuster, apenas para ficar bonito na estante. Como você analisa esse comportamento?

F - Eu entendo que uma parte dos colecionadores gostaria que (quase) todos os filmes fossem lançados apenas em Blu-ray no Brasil já há muito tempo, devido à inquestionável superioridade do formato, em termos de imagem e som, com relação ao DVD. Infelizmente, alguns desses colecionadores não percebem que, diferentemente do que ocorreu nos EUA e em alguns países da Europa, o Blu-ray não decolou no Brasil, devido ao alto custo de produção em todas as etapas – máster HD, autoração, replicação, e também a acolhida morna por parte do público, já que muitas pessoas ainda não têm um aparelho de Blu-ray em casa. Outro agravante no nosso caso é que a maioria dos filmes clássicos, cults, produções europeias e asiáticas ainda não estão disponíveis em alta definição mesmo no exterior, tendo sido lançadas apenas em SD. Portanto, mesmo se quiséssemos lançar tudo em Blu-ray a partir de agora, não seria possível contemplar obras-primas como “Soberba”, “Paixão Selvagem”, “O Ciclo do Pavor”, “Martin”, “O Segredo das Joias”... – isso para citar apenas algumas das maravilhas lançadas pela Versátil este ano.  Mas por outro lado, como você é testemunha, procuramos lançar cópias de excelente qualidade em DVD, oferecendo o que há de melhor no formato SD, sempre que possível acompanhado de farto material extra (entrevistas, documentários, trailers, comentários em áudio, etc.).


O – Tendo, assim como você, vivido plenamente a era do reinado do VHS, onde os filmes clássicos, aqueles que, por sorte, eram lançados, tinham pouquíssima qualidade de imagem e som, acredito firmemente que, hoje, vivemos o melhor momento do home vídeo nacional. E a Versátil tem papel fundamental nessa afirmação. Enquanto as distribuidoras majors reciclam, ano a ano, aquela mesma meia dúzia de clássicos, vocês estão, especialmente de uns três anos pra cá, abusando da competência e fazendo justiça ao nome da distribuidora, investindo em gêneros injustamente marginalizados, com o mesmo refinamento que dedicavam aos celebrados diretores europeus, ou, até ouso dizer, com mais refinamento. Citando apenas alguns, o Giallo, o Cinema Samurai, já na quarta caixa, os filmes de Yakuza, o Sci-Fi, o Terror, em três fantásticas caixas, Noir, Guerra, Faroeste, filmes italianos de zumbi, entre outros. Agora, pela primeira vez, o cinéfilo brasileiro pode ter, em sua cinemateca pessoal, um acervo verdadeiramente abrangente, formado, quase que em sua totalidade, por filmes que sequer haviam sido lançados em VHS por aqui, com excelente qualidade de imagem, som e material extra. Foi sua a ideia de apostar nessa versatilidade temática? Aborde a importância dessa valorização, pelo ponto de vista da formação de novos cinéfilos.

F - Há mais de dez anos, viajo em média duas vezes por ano à Europa, para participar das principais feiras de conteúdo audiovisual, na qual compramos os direitos autorais de nossos títulos. Nessas viagens, procuro observar o que tem sido feito lá fora pelas principais distribuidoras de home vídeo do mundo. Aliando esse conhecimento in loco do mercado exterior e também a minha cinefilia, cultivada com muita paixão e uma vontade incansável de pesquisar, percebi que o caminho a seguir era justamente esse – investir em coleções temáticas, oferecendo pequenas mostras de cinema ao colecionador brasileiro, ao escolher produções relevantes e raras, e um material extra de grande interesse, já que o filme não é apenas o filme, mas também tudo aquilo que o cerca. 


O – Um dos meus sonhos era, enquanto colecionador de filmes, ter na estante a obra completa de Mario Bava. Cheguei até a comentar isso contigo uma vez, quando ele estava estreando na distribuidora. Na realidade mercadológica de outrora, parecia algo impossível. Hoje, pouco tempo depois do início desse namoro da Versátil com o mestre italiano, vocês já lançaram praticamente todos os filmes dele, pelo menos, os mais importantes. E como sei que Bava é o objeto de um curso seu, peço que explique como nasceu essa admiração, aborde os aspectos que considera mais geniais em seus trabalhos, e, claro, fale sobre o curso. 

F - Conheci Mario Bava pela primeira vez quando trabalhava na 2001 Vídeo da Avenida Paulista, loja aliás que está fechando agora, isso no final dos anos 90. Na ocasião, a capinha do VHS de “O Planeta dos Vampiros” chamou a minha atenção. Mesmo vendo essa ficção-científica numa cópia escura, cortada e editada com nova trilha, fiquei fascinado pela inventividade visual daquela produção barata. Anos depois, já como curador da Versátil, nos ofereceram os direitos de um pacote de filmes do Bava e nos enviaram os screeners de filmes como “Lisa e o Diabo”, “A Maldição do Demônio”, etc. Gostei muito do que vi, mas fui voto vencido, já que a direção da Versátil resistia em entrar para o mercado de cinema de gênero. Com o lançamento de “Brecht no Cinema”, coleção temática pioneira, e de “Musashi – Trilogia Samurai”, consegui provar a viabilidade dos dois conceitos – cinema de gênero e coleções temáticas, e pouco tempo depois, o maestro do macabro estreou na Versátil com o lançamento de “O Chicote e o Corpo” na caixa “Obras-Primas do Terror” em agosto de 2014. 

De lá para cá, lançamos outros 13 filmes de Bava – “Lisa e o Diabo”, “O Ciclo do Pavor”, “A Maldição do Demônio”, “A Garota que Sabia Demais”, “Cães Raivosos”, “O Alerta Vermelho da Loucura”, “Banho de Sangue”, “O Planeta dos Vampiros”, “Seis Mulheres para o Assassino”, “Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror”, “Os Horrores do Castelo de Nuremberg”, “Os Vampiros” e “Schock” (os últimos quatro saem em fevereiro de 2016). Nesse meio tempo, fui convidado pela Cena Um para dar um curso num final de semana na Cinemateca Capitólio de Porto Alegre. Foi uma oportunidade única, com uma excelente aceitação dos alunos. Nos preparativos do curso, pude ver toda a filmografia “oficial” de Bava, 24 ou 26 filmes dependendo do critério. Resumir a importância do mestre maior do cinema popular italiano em poucas linhas é impossível, mas cito um trecho da apresentação do meu curso: “dimensionar a importância e o legado de Mario Bava é uma tarefa hercúlea devido à riqueza e à variedade de sua obra. Afinal, ele codirigiu o primeiro filme de horror do cinema italiano desde a era silenciosa (‘Os Vampiros’), criou as maiores obras-primas do terror gótico italiano (‘A Maldição do Demônio’, ‘As Três Máscaras do Terror’, ‘O Ciclo do Pavor’, ‘O Chicote e o Corpo’ e ‘Lisa e o Diabo’), codificou as convenções visuais e o sadismo voyeurístico do giallo com ‘A Garota Que Sabia Demais’ e ‘Seis Mulheres para o Assassino’, antecipou o slasher com ‘Banho de Sangue’, além de ter deixado obras-primas e filmes marcantes em muitos gêneros, como o poliziottesco (‘Cães Raivosos’), a ficção científica (‘O Planeta dos Vampiros’) e o peplum (‘Hércules no Centro da Terra’; ‘A Vingança dos Vikings’ e ‘Os Punhais do Vingador’)”. 

O – Sei que intensificou sua paixão pelo cinema frequentando a Cinemateca, cineclubes e atrás do balcão de uma videolocadora, indicando os filmes para os clientes. Você, como todo bom amante dessa Arte, tem o instinto do garimpeiro. Sempre digo que o resgate da memória cultural, a valorização do passado, é essencial em uma sociedade que preze por um futuro digno. Disserte sobre essa afirmação, salientando a importância desse instinto em sua função de curador.

F - O conhecimento da história do cinema, sem preconceitos de gênero, ano de produção ou país, é uma tarefa obrigatória de todos aqueles que se dizem cinéfilos ou mesmo que trabalham no audiovisual, além de ser uma jornada fascinante. Afinal, o passado, o presente e o futuro são inseparáveis, por mais que alguns pseudointelectuais e supostos/autoproclamados gênios tentem afirmar o contrário.


O – Eu lia seus textos sobre cinema clássico na extinta revista Sci-Fi News Cinema. Você é um excelente crítico, ainda que não se dedique a essa função hoje. Acredito que, pelo menos alguma vez, já passou por sua cabeça a ideia de roteirizar e dirigir um filme. Estou errado? E, aprofundando a pergunta, como você analisa o cinema brasileiro de hoje? O que pode melhorar?

F - Obrigado pelos elogios. Sim, já desejei roteirizar e dirigir um filme. Quem sabe, um dia, ainda consiga tirar esse sonho do papel. O bom cinema brasileiro hoje é aquele que busca fugir da estética televisiva que busca agradar multidões e que nivela tudo por baixo.

O – Sei que o faroeste é o seu gênero de formação. Eu também nutro carinho especial pelo gênero, cresci devorando aqueles livrinhos de bolso que eram vendidos nas bancas de jornal. Conte como as pradarias do Velho Oeste encantaram o menino de outrora? Quais filmes eram os seus favoritos na época? E, complementando, como você vê o resgate do gênero atualmente, em obras como o excelente “Dívida de Honra”, do Tommy Lee Jones?

F - Aprendi a amar o faroeste não só alugando fitas VHS nas videolocadoras quando adolescente, sempre na companhia do meu irmão mais velho, mas também com a leitura dos fumetti da editora de Sergio Bonelli, como “Tex”, “Zagor” e, sobretudo, o magnífico “Ken Parker”. Na época, já me encantaram “Rastros de Ódio”, “O Homem que Matou o Facínora”, “Sete Homens e um Destino”, “Um Homem Chamado Cavalo”, “Era uma Vez no Oeste”, “Rio Vermelho”, “Onde Começa o Inferno”, “Três Homens em Conflito”, “Por um Punhado de Dólares”, “Meu Ódio Será a Sua Herança”, “Jogos e Trapaças – Quando os Homens São Homens”, entre outros. Sou daqueles que vibra quando um faroeste contemporâneo é lançado. Gostei muito de “Dívida de Honra”, assim como “Pacto de Justiça”, “Desaparecidas”, “A Proposta”, entre outros raros faroestes recentes. E estou na expectativa de “Os Oito Odiados”, já que “Django Livre” deixou esse fã de faroeste decepcionado.


O – Acho fascinante a série “A Arte de...”, tipo de coisa que me remete ao garoto apaixonado por cinema que, na década de 80, rabiscava os títulos dos filmes, divididos tematicamente, gravados em EP, numa fita VHS. Compilar filmes importantes, significativos, de um diretor. Vocês já lançaram Samuel Fuller, John Cassavetes, Mario Bava, François Truffaut, Robert Altman, Andrei Tarkóvski, Dario Argento e Jean-Pierre Melville. Alguns destes, como Altman e Tarkóvski, sofriam em nosso mercado de home vídeo, que os ignorava, ou, na melhor das hipóteses, eram lançados sem qualidade alguma. Fale um pouco de como foi elaborada essa série e sobre a importância de jogar luz em cineastas mais obscuros. E, claro, podemos esperar mais títulos na série para 2016?

F - A série “A Arte de” foi concebida para oferecer, a um excelente custo-benefício, um recorte da filmografia de grandes cineastas, mesclando obras-primas consagradas já lançadas por aqui em cópias ruins ou de origem duvidosa e as famosas pérolas, filmes menos conhecidos, muitas vezes ainda inéditos no mercado brasileiro. Em 2016, a série continua a todo vapor, com dois volumes já em janeiro – “A Arte de Federico Fellini” e “A Arte de Brian De Palma”. Posso adiantar que, em março, o volume da coleção estará intimamente ligado à coleção temática do mês. Garanto que faremos a felicidade de muitos cinéfilos.

O – O meu gênero de formação foi o terror. Hellraiser foi minha “Turma da Mônica” (rs), meu pai cansou de alugar o VHS, após eu ficar horas admirando a arte de capa. Após o advento do DVD, pensei que poderia, finalmente, montar uma coleção bacana no gênero, mas, infelizmente, com exceção de lançamentos pouco inspirados, os clássicos (americanos, italianos, espanhóis, japoneses) estavam sendo ignorados. As poucas distribuidoras que tentavam nadar contra a corrente, como a “Darkside”, que chegou a lançar até filmes da Hammer, acabaram cansando rápido. Vocês estão realizando um trabalho primoroso, com um tratamento inédito no gênero, lançando pérolas como: “Terror nas Trevas”, “Os Meninos”, “À Beira da Loucura”, “Quando Chega a Escuridão”, “Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos”, o ciclo de adaptações de Edgar Allan Poe por Roger Corman, e “Zombie – Despertar dos Mortos”, entre outros, com farto material extra, devidamente legendado. Como foi o início desse namoro da Versátil com o terror? Sei que você é um estudioso da literatura gótica, então, conte sobre o fascínio do gênero em sua cinefilia. Quais são os seus filmes favoritos? E, claro, podemos esperar mais filmes do gênero para 2016?

F - Sou doutor em Literatura Inglesa, com uma tese sobre romance gótico. Sempre gostei de terror e procurei, desde adolescente, a conhecer a história do gênero, alugando fitas VHS e frequentando mostras na Cinemateca e em outros cineclubes. Difícil escolher meus favoritos, mas cito alguns (com certeza, já cometendo alguma injustiça rs): “Lisa e o Diabo”, “A Maldição do Demônio”, “O Ciclo do Pavor”, “O Chicote e o Corpo”, “Suspiria”, “Os Inocentes”, “O Exorcista”, “Halloween”, “O Massacre da Serra Elétrica”, “A Noite do Demônio”, “Sangue de Pantera”, “O Despertar da Besta”, “O Enigma do Outro Mundo”, “Kwaidan”, “Onibaba”, “Os Meninos”, “A Noiva de Frankenstein”, “O Gabinete do Dr. Caligari”, “O Iluminado”, “A Noite dos Mortos-Vivos”, “O Despertar dos Mortos”, “Nosferatu” (as duas versões), “A Hora do Lobo”, etc. etc. etc.


O – Muitos sinalizam para o fim das mídias físicas. Acredito que, por mais interessante que seja ter uma coleção de livros em um minúsculo pen drive, nada irá substituir a beleza de uma estante lotada de tomos. Editoras como a “Darkside Books” e a "Aleph", com um tratamento refinado, mostram a força do livro físico no mercado. Eu não troco uma edição de luxo da Versátil por uma sessão do filme na nuvem. O apaixonado preza pelo tangível, ele gosta de admirar seus filmes na estante, reler os dados da contracapa. Como você, estando inserido nesse mercado, analisa essa questão?

F - Concordo plenamente com sua constatação. O colecionador não se contenta em ter arquivos no HD. O produto de nicho, explorado pela Versátil no home vídeo e pela Darkside, Aleph e outras no mercado editorial, é o que sobreviverá às mudanças, já que oferece uma experiência completa (conteúdo – filme e extras, embalagem, cuidado na tradução, encartes, cards, etc.), impossível de ser comparada às nuvens do mundo virtual.

O – Fernando, obrigado pela entrevista, parabéns pela competência com que realiza seu trabalho de resgate cultural. Peço que deixe uma mensagem especial para os meus leitores, com certeza, clientes da Versátil.

F - Sem vocês, que cultivam seu amor ao cinema colecionando grandes filmes, nosso trabalho de cinefilia não seria possível.  

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Blaxploitation - "Dolemite"



Dolemite (1975)
Dolemite é um cafetão de sucesso que acaba sendo pego em uma armadilha do seu rival Willie Greene, passando vinte anos na cadeia. Um dia, sua parceira de negócios o ajuda a sair da prisão para que ele possa não só conseguir suas posses de volta, como também se vingar de Greene.


O herói, vivido pelo comediante Rudy Ray Moore, é um rapper com barriga de chope, um cafetão protegido por prostitutas treinadas nas artes marciais, um mestre na arte de acertar seus oponentes com golpes de karatê à distância, puro poder de sugestão, já que eles não chegam nem perto do corpo das vítimas. Essa atitude, uma espécie de desleixo fascinante, pode ser sentida em todos os aspectos do filme, como nos microfones que invadem várias cenas. O tiroteio final, clímax da trama ambientado no quarto de hospital, consegue resultar em um dos momentos mais confusos no gênero, graças ao posicionamento da câmera, que, ao que tudo indica, não tinha ideia de qual seria a coreografia adotada pelos atores.

O microfone acaba se tornando mais um personagem, enquanto tentamos compreender a lógica da situação, já que o roteiro deve ter sido escrito por mãos diferentes, em tempo real. As cenas de sexo, ponto fundamental no gênero, são iluminadas e atuadas de forma que ficam parecendo um pesadelo bizarro. Há um longo interlúdio musical, outro ponto fundamental, porém, protagonizado por uma banda terrível, um castigo para qualquer pessoa com um mínimo de bom gosto. Nada faz sentido, o que é um tremendo mérito. O que importa em um bom blaxploitation é o nível de audácia da proposta, a cara de pau, a malandragem da técnica, superando o baixíssimo orçamento, elementos dominantes nesse projeto.

“Dolemite” também consegue ser genuinamente engraçado, como quando o padre mulherengo e contrabandista de armas solta essa pérola para seus fiéis: “Vejam o escândalo Watergate. Se o líder da nossa nação está roubando e escapando ileso, que diabos eles esperam de nós?”. A sequência: “O Tornado Humano”, lançada em 1976, força a mão no humor, mas consegue um resultado muito inferior. 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cine Noir - "A Força do Mal", de Abraham Polonsky


A Força do Mal (Force of Evil – 1948)
Joe (John Garfield) é um inescrupuloso e ambicioso advogado que, representando um chefe do crime, quer unificar todos os controladores de jogos ilegais em uma única e poderosa organização. Para fazê-lo sem o uso da violência e sem transpor nenhuma lei, Joe precisará acabar com todos os pequenos empresários do crime. Mas entre eles está seu irmão mais velho Leo (Thomas Gómez).


Basta uma sessão do filme para perceber que estamos diante de um noir diferente, estruturalmente à frente de seu tempo, um texto que exala coragem e personalidade forte, qualidades que refletem o espírito do próprio diretor, Abraham Polonsky, que, após essa sua obra de estreia, entrou pra lista negra e ficou mais de vinte anos impossibilitado de exercer sua função. Não é difícil entender, pela forma valente com que abordou o tema, que ele tenha se negado a delatar companheiros para o comitê, sabendo que estava destruindo sua carreira no processo, um verdadeiro artista.

Destaco o cínico monólogo do protagonista, grande momento de John Garfield, sobre a imoralidade de se fazer o bem a troco de nada, uma cena que dá o tom do filme, defendido por personagens inseridos em um sistema que corrompe os idealistas, a “regra do jogo” na cidade, que é evidenciada como a força do mal, conduzindo-os inexoravelmente à traição ou ao sacrifício, um leitmotiv sem floreios que inspirou profundamente cineastas como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que claramente homenageou o impactante desfecho na cena mais famosa de “O Poderoso Chefão”, o assassinato no restaurante. Os diálogos são trabalhados em grandioso tom teatral, como uma tragédia poética, Caim e Abel, ao invés da pegada usual mais realista do gênero, algo que confere às sequências mais intensas uma característica quase de fábula.

Não há facilidade conveniente, coincidências que costumam dominar as narrativas do gênero, apenas um foco generoso no aprofundamento psicológico, segurança na execução, poucas sequências movimentadas, porém, muita ação interna. Os simbolismos visuais, como as escadarias que representam metaforicamente estruturas morais, dissecando o capitalismo em sua crítica, ganham pontos nas revisões. A fotografia de George Barnes, pegando inspiração nas pinturas de Edward Hopper, traduz o aprisionamento do homem em sua busca por mais dinheiro, algo muito mais traiçoeiro do que qualquer femme fatale.

* O filme, versão restaurada, está sendo lançado em DVD pela distribuidora Versátil, na caixa “Filme Noir, Vol. 4”, que inclui também, além de ótimos documentários: “Rififi” (Dassin), “Por Amor Também se Mata” (Berry), “Corpo e Alma” (Rossen), “Redenção Sangrenta” (Curtiz) e “Homens em Fúria” (Wise). 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Cine Bueller - "Esqueceram de Mim", de Chris Columbus

Link para os textos do especial:


Esqueceram de Mim (Home Alone – 1990)
Quando se é criança, a véspera do Natal pode ser o dia mais épico em um ano, uma alegria que compensa todos os problemas vividos na escola e em casa. Acho tolice quando os pais negam aos filhos pequenos essa magia inofensiva, uma fantasia que pode inspirar a criança a vencer seus obstáculos no chato mundo real. A programação da televisão ajudava muito nessa construção de clima, elemento que ultimamente vem perdendo força, já que não há mais responsabilidade alguma nos responsáveis pelas emissoras, com o entretenimento infantil sendo cada vez mais desvalorizado. A criança dos anos oitenta ligava a televisão, desde o início da manhã, para se encantar com os filmes natalinos. E, dentre todos os que fizeram parte das minhas lembranças mais ternas, com menção honrosa para “Férias Frustradas de Natal”, há um lugar especial para essa pérola do diretor Chris Columbus, presença marcante na “Sessão da Tarde” global. E ter a presença de John Candy, um dos meus atores favoritos na época, ajudava bastante.

Até hoje, quando penso em Natal, o bonito tema composto por John Williams invade minha mente e ajuda a adoçar a nostalgia. Não foi surpresa constatar, alguns anos depois, que o roteiro era do mestre John Hughes, o poeta da juventude, o homem que melhor soube compreender os anseios de toda uma geração. Por trás de todo o alegórico pastelão exagerado necessário na trama, o pequeno Kevin, vivido por Macaulay Culkin, representa a inocência infantil lutando para sobreviver às investidas do cinismo adulto, tolo e atrapalhado, como representado pelos bandidos, vividos por Joe Pesci e Daniel Stern, que tentam de todas as formas invadir sua casa. Ele é esquecido por seus familiares, encontrando improvável companhia na figura de um idoso vizinho solitário, vítima de falsos rumores sobre uma mancha criminosa em seu passado, que também foi esquecido por sua família. O garoto, com essa amizade, acaba ensinando que, ao contrário dos adultos em sua vida e na sociedade, ele consegue vencer o preconceito, o medo. Grande parte do público lembra apenas das armadilhas no terceiro ato, mas o coração do roteiro está nessa relação.

Ao conseguir lidar sozinho com as responsabilidades de casa, a criança mostra que, em essência, já possui o básico para a vida, as qualidades mais importantes, que, invariavelmente irão ser corrompidas no ato de envelhecer, o despertar da ganância, a luta por mais diplomas, melhores empregos, maiores mansões, enquanto os valores reais são esquecidos. A divertida aventura exploratória da infância se torna uma gélida busca pela aceitação do outro. 

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Faces do Medo - "O Despertar da Besta", de José Mojica Marins


O Despertar da Besta / Ritual dos Sádicos (1970)
O filme já começa com uma cartela de agradecimentos, ao som de “Ave Maria”, que é implacavelmente interrompida pelo som de um grito de pavor. Só esse elemento já seria suficiente argumento para a estúpida ditadura militar querer proibir a obra. Os oficiais da novilíngua não impediram apenas a exibição do filme nas salas de cinema, eles queimaram as cópias. Recuperado na década de oitenta, segue sem lançamento comercial. Com um roteiro primoroso de Rubens F. Lucchetti, baseado em argumento de José Mojica Marins, pleno em metalinguagem, que, no contexto da época, ousou um discurso sobre o comportamento humano que ainda hoje se mostra corajoso.

"Você descreve as proezas absurdas de um anormal como se fossem páginas poéticas de um romance de amor".

Em um debate sensacionalista, jornalistas insinuam que a violência urbana, com foco nos casos de perversão e sadismo mostrados episodicamente durante todo o primeiro ato, é uma condição estimulada pela arte, pelo escapismo de filmes de terror. Basta analisar argumentos tolos atuais, como os apresentadores mundo cão que atacam os videogames como responsáveis por assassinatos na vida real, para percebermos que pouca coisa mudou, a irresponsabilidade de pseudointelectuais e a psicologia de botequim continuam a dominar o entretenimento televisivo. Ao inserir até uma marchinha de Carnaval do Zé do Caixão, a trama reforça a figura do personagem como um representante do inconsciente coletivo popular.

Como repete a música-tema: “Guerra”, a real causa do problema é o medo, reconhecendo a existência de loucos, que já não eram poucos na época, que podem a qualquer momento destruir o mundo, motivados pela besta da guerra, uma besta que é despertada pelo próprio homem. Como prova o experimento final, a droga não era a responsável pelas alucinações das cobaias, mas, sim, a índole distorcida de cada um deles, tirando, na ignorância do efeito placebo, o peso da culpa pelo sadismo revelado. O roteiro finaliza de forma brilhante, mostrando duas jovens sendo abordadas na rua por estranhos em um carro, obviamente mal-intencionados, enquanto Mojica vê tudo à distância. Uma delas segue com os rapazes, a outra fica na calçada. O diretor sorri para o público, a confirmação metafórica de que tudo se resume a uma questão de opção.

Em plena ditadura militar, o filme defende que a droga intensifica apenas aquilo que já existe na índole daquele que a utiliza. O nosso cinema nacional atual, perto dessa coragem e segurança na execução, ainda é um bebê desajeitado tentando os primeiros passos.

“O meu mundo é estranho, mas digno de todos que queiram aceitar. E nunca corrupto como querem fazê-lo. Pois é composto, meu amigo, de pessoas estranhas, mas não mais estranhas que você!”

*** 


É impressionante o refinamento que a Editora DarkSide Books alcançou nesse relançamento da biografia de José Mojica Marins: “Maldito”, escrita por André Barcinski e Ivan Finotti. Um documento essencial para todos aqueles que amam cinema, especialmente os que intencionam desbravar essa área profissionalmente, já que relata a experiência de um artista que, contra todas as probabilidades, batalhou por seu sonho e venceu, inclusive, no mercado estrangeiro. O livro está sendo lançado em linda capa dura, com 666 páginas, aquele nível de excelência que os leitores da editora já conhecem. 

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

"Errado Pra Cachorro", de Frank Tashlin


Errado Pra Cachorro (Who’s Minding the Store? – 1963)
Considero exagerada a influência de Frank Tashlin nos voos solo de Jerry Lewis, não vejo o segundo como um pupilo, mas, sim, como um professor generoso. Basta rever as obras de ambos os diretores, para constatar que muitas comédias do primeiro, especialmente aquelas fora da parceria com Martin/Lewis, não resistiram ao teste do tempo, enquanto que os filmes dirigidos por Lewis seguem com a mesma força. Tashlin iniciou profissionalmente na área da animação infantil, um traço leve que ele carregou para seus projetos adultos. Os críticos franceses adoravam filmes como “Ou Vai ou Racha”, “O Rei dos Mágicos” e “Artistas e Modelos”, que eu considero medianamente suportáveis, prejudicados pela união da leveza exagerada dele com a tendência de Lewis para o sentimentalismo.

Mas, dentre todos os seus filmes, o meu favorito é “Errado Pra Cachorro”. É um dos poucos em que a trama central não envolve um protagonista interessado em uma escalada social. Muito pelo contrário, o Norman Phiffier, vivido por Lewis, faz questão de merecer cada centavo recebido nos trabalhos mais inusitados, ficando revoltado ao descobrir que sua namorada, vivida pela bela Jill St. John, a ascensorista da loja de departamentos, na realidade, é a filha rica do dono. Ele é pobre e se sente honrado com sua condição, enquanto que o núcleo da família da namorada é mostrado sempre em tons caricaturais, pessoas que se mostram pouco confortáveis em sua grandiosa mansão. A câmera, em ângulos que enfatizam a antinaturalidade daquele elefante branco, como na sequência inicial, passeia lentamente pelo local, que, com ajuda de espelhos, acaba tomando dimensões ainda maiores. A forma encontrada por Tashlin para criticar esse mundo é inserir um elemento de caos, a anarquia representada por Lewis, o atrapalhado que, sem intenção, acaba destruindo toda aquela falsidade. A bagunça episódica remete aos trabalhos de Jacques Tati, que, tenho certeza, aprendeu muito com o norte-americano, basta comparar tematicamente o seu “Playtime”, de 1966, com o pouco citado: “Em Busca de Um Homem”, dirigido por Tashlin em 1957.

As soluções para as gags visuais são, como em todos os trabalhos do diretor, puro desenho animado, pedindo ao público total suspensão de descrença. A cena mais lembrada é, tenho certeza, uma criação de Lewis, o concerto na imaginária máquina de escrever, um conceito brilhantemente simples, executado com maestria. Gosto muito também da minimalista reação dele ao encarar as pinturas das rabugentas esposas da família Tuttle. O roteiro inventa vários momentos complexos e movimentados, porém, a genialidade está mesmo nas cenas menores, como uma ambientada dentro do elevador, com Norman, sua namorada e o pai dela. Não me canso de rever essa comédia que fez parte da minha infância. 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

"Star Wars - O Despertar da Força", de J.J. Abrams


Star Wars - O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens - 2015)
Posso resumir a emoção da sessão informando que, ao final, quando o acender das luzes me forçou a dar os primeiros passos em direção à saída da sala escura, eu me esqueci de conduzir de volta para a realidade a minha criança interna. Ela continua lá, sentada na poltrona, imersa nos sonhos espaciais criados por George Lucas, cantarolando as melodias compostas por John Williams. A nostalgia é um fator essencial nessa experiência, mérito de uma franquia que conquistou em quase quatro décadas o investimento emocional de várias gerações, porém, ela não pode cegar o crítico em sua análise. Então prefiro abordar logo o maior problema do filme. O roteiro, escrito por J.J. Abrams, Lawrence Kasdan e Michael Arndt, por mais eficiente que seja, recicla sem originalidade a trama do original de 1977, adicionando os melhores momentos de “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”.

As semelhanças não são trabalhadas de forma sutil, existe a intenção óbvia de repetir as mesmas catarses utilizando o mesmo esquema visual. O fã mais hardcore, aquele que estudou todo o universo expandido e conhece todos os figurantes pelo nome, pode se sentir traído no que é, de fato, um reboot disfarçado, com uma substituição dos personagens velhos pelos novos, mas, basicamente, mantendo as mesmas funções narrativas. Já que citei o universo expandido, vale dizer que vários livros e quadrinhos exploraram com muito mais engenhosidade as variadas possibilidades abertas pela trilogia clássica. O futuro oficial, nesse novo cânone administrado pela Disney, além de abraçar informalmente algumas ideias boas dessas obras, peca pela preguiça em desbravar esse universo. Dito isso, está na hora dos fãs darem o braço a torcer, a trilogia prequel, mesmo com seus defeitos, ao menos ousou dizer algo novo, com uma estrutura nova. Lucas foi preciso ao afirmar recentemente, em tom irônico, que o novo filme entrega exatamente o que os fãs queriam ver. O ser humano não gosta de ser surpreendido, ele prefere receber o mesmo produto, com leves modificações.

Consciente de que o Episódio Sete é uma grandiosa homenagem que, nas entrelinhas, continua a saga, você começa a enxergar a beleza inerente ao projeto. A linda cena, mostrada no trailer, onde Han Solo afirma para os jovens que tudo que eles escutaram sobre os Jedi e o Lado Negro era verdade, na realidade, resume o leitmotiv do filme: Uma declaração de amor aos fãs da franquia, proferida com ternura por um dos personagens mais queridos, que, olhando diretamente para o público, confirma que a identificação que eles sempre tiveram com aquelas batalhas internas, o menino que aprendeu a vencer os medos com ajuda de seu sabre de luz de plástico, a Força usada como elemento motivacional pelos pais que tentam ensinar aos filhos pequenos os valores éticos e a necessidade de seguir o lado da bondade, o profundo carinho que eles depositaram nesse sonho, tudo é intensamente real e belo. Esse resgate de valores humanos mais nobres, simbolizado no roteiro pelo arco narrativo da jovem Rey, vivida pela encantadora Daisy Ridley, esse despertar, especialmente na época em que vivemos, com a sociedade lutando pra manter a esperança, ganha contornos épicos acalentadores. É tocante o respeito com que J.J. Abrams aborda esses estímulos, compensando os problemas com uma dose generosa de coração.

Lucas nunca foi um competente diretor de atores, logo, temos na figura linda e carismática de Ridley a melhor atuação de toda a franquia até o momento. A garota impressiona em todas as variações emocionais, exalando a elegância natural, sem esforço, de uma Audrey Hepburn, com um perfeito timing cômico. Aliás, o maior ponto positivo do projeto foi conseguir uma trinca de atores tão, ou até mais carismáticos (já que defendem diálogos mais orgânicos), do que o trio formado por Mark Hamill, Carrie Fisher e Harrison Ford. Os heróis da resistência: Ridley, John Boyega e Oscar Isaac, estabelecem um pano de fundo fantástico para ser desenvolvido nos próximos filmes. Você verdadeiramente é levado a se importar com suas ações, algo muito difícil de ser alcançado em um blockbuster que precisa dedicar bastante tempo em cenas de ação. O excelente primeiro ato ajuda nesse sentido, com uma introdução cuidadosa para cada um dos três.

A trilha de John Williams, ainda que recorra bastante aos temas famosos, consegue inserir pelo menos um tema que merece destaque, o tema da Rey, com sua base melódica que remete ao lúdico infantil, algo que pode ser trabalhado/expandido nas sequências. Outro ponto positivo que merece ser destacado é o humor, algo que nas prequels era trabalhado com mão pesada, volta à leveza contagiante dos originais. O robô BB-8, sem exagero, é um tremendo acerto, desde o design, que fala diretamente à infância de todos nós, até a maneira encontrada para ele se expressar. No outro espectro do sentimento, Adam Driver, como o sombrio Kylo Ren, transmite com precisão a angústia e a raiva que movem o personagem. Em revisão, algumas opções em sua atuação ganham ainda mais relevância. Já o personagem enigmático vivido por Andy Serkis, uma variação sem brilho do Imperador da trilogia original, precisa ser mais bem desenvolvido. Contrastando bastante com a opção acertada pelos efeitos práticos, a sua figura acaba servindo mais como distração, como um personagem de desenho animado inserido em um filme live action.

A maneira encontrada pelo roteiro para finalizar a obra, não somente é perfeitamente coerente com o leitmotiv, como também, visual e simbolicamente, mereceu cada aplauso emocionado recebido na sessão. Eu quero rever algumas vezes, nem que seja apenas pelo pretexto de ir buscar minha criança interna esquecida na poltrona. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

TOP - 2015


1 - Divida de Honra (The Homesman), de Tommy Lee Jones
“... Ela é uma mulher madura que sobrevive sozinha no Velho Oeste, enfrentando o preconceito da sociedade machista, rejeitando a subserviência ao provar competência em seu trabalho, porém, como uma alma sensível, capaz de aliviar as angústias diárias tocando imaginariamente as teclas de um piano bordadas em tecido, ela deseja ser verdadeiramente amada. O cenário rude, desolado, reflete metaforicamente a negação da sensibilidade, um berço de homens estúpidos que cospem suas mulheres de suas vidas, ao primeiro sinal de problema, figuras vistas como minimamente humanas, dispensáveis. Ao se dispor à difícil tarefa de conduzir três mulheres que perderam a sanidade, por conseguinte, impiedosamente despejadas por seus maridos, até uma cidade onde irão receber tratamento, Mary ousa vestir o manto de sacrifício por uma causa cujo escopo sequer poderia compreender. A alegoria é potencializada pela brutalidade que Tommy Lee Jones, enquanto diretor, não se intimida de mostrar. Ela, por outro lado, havia demonstrado na cena em que consegue estabelecer conexão emocional com uma das vítimas, após gentilmente abraçar a ilusão que a mantém viva, a disposição libertária para a mudança de pensamento. Ela, a mulher na sociedade, está aberta à discussão, mais preparada que qualquer homem. Ele, o machista impotente, segue surdo aos pedidos de respeito e igualdade. O faroeste é utilizado então como veículo estético para uma trama que nos conduz à gradual percepção desse homem, o Adão desencantado, que aprende a conviver com o feminino...” 


2 - Divertida Mente (Inside Out), de Pete Docter e Ronnie Del Carmen
“... Quando a mãe prende o cabelo, atitude que representa o resgate da diversão, o pai interrompe para atender ao telefone, a negação da pureza, o abraço no capitalismo, a ambição por ascender no emprego, o gradativo afastamento da família. O momento, comum em nossa existência, onde os pais passam a deixar a responsabilidade da criação dos filhos para a televisão, babás, o elemento externo. A menina não compreende nada disso, ela apenas sente falta, sofre em silêncio. A mente, representada pelos agentes de cada sentimento, começa a entender que a felicidade, as esferas douradas, vão minguando. A mensagem mais bonita, aquela que ficará na memória semanas após a sessão, fala diretamente a um dos problemas mais sérios na sociedade moderna, ocasionado pela imaturidade emocional: a incapacidade de lidar com os altos e baixos da vida. A obsessão equivocada pela imagem vencedora, uma falsa felicidade meticulosamente trabalhada para impressionar outrem nas redes sociais, mascarando a natureza humana com um verniz frágil. E essa recusa em lidar com a imprevisibilidade das ondas desse oceano acaba ocasionando o extremo oposto, a mais profunda depressão. A dor, a derrota, tem papel fundamental, uma função importante, como na cena em que a Tristeza resolve um problema apenas por ter escutado o desabafo melancólico do amigo imaginário. A Alegria, por si só, não consegue se colocar na pele de quem sofre, ela foge, vira a cara. A maturidade emocional só é alcançada quando a pessoa aprende a equilibrar esses impulsos naturais...”


3 - Birdman, de Alejandro González Iñárritu
“... O roteiro inteligentemente critica a indústria, apontando o dedo para algo que estamos presenciando, atores veteranos que estão evitando o risco, retornando aos seus papéis populares clássicos, ao invés de estarem experimentando novas emoções, reinventando-se sem a preocupação com o aplauso do público, o que é essencial para um ator. Como é explicitado nos intertítulos que iniciam a obra, tudo se resume à necessidade de se sentir querido. Esse é o real vilão da trama, o Coringa do Birdman: o desejo de se sentir amado, não somente pelo público, mas também pela filha problemática, vivida por Emma Stone, alguém cujo relacionamento foi prejudicado pela rotina profissional que ele escolheu. A busca pelo carinho dos outros, o reconhecimento artístico, que acabou afastando-o daqueles mais próximos. A crítica à sociedade, um ambiente que o protagonista não consegue aceitar, pode ser simbolizada na excelente cena que acompanha sua corrida, trajando apenas uma cueca, em plena Broadway. O evento bizarramente onírico, o que realça o contexto metafórico, conduz o personagem a descobrir que ele pode se esforçar em sua Arte por toda sua vida, arriscar nas mais diversas interpretações, que nada disso irá se igualar ao sucesso popular obtido pelos incríveis acessos nas redes sociais advindos de uma tolice qualquer. Vivemos em um período onde a vergonha alheia recebe atenção no horário nobre da televisão, enquanto os verdadeiros artistas morrem esquecidos. Essa melancólica constatação potencializa ainda mais o conflito interno do protagonista...”


4 - O Abutre (Nightcrawler), de Dan Gilroy
“... A melhor sequência, dentre várias que poderia destacar, representa a esperteza do roteiro em inserir o espectador na pungente crítica que direciona ao jornalismo baixo e imediatista que é realizado nos dias de hoje. Como eu sempre digo: a sociedade não cria os abutres, ela os alimenta. O momento mais inteligente ocorre quando ele adentra o quarto do bebê. Nós não sabemos absolutamente nada sobre aquela família, apenas visualizamos um quarto decorado de forma infantil, com um berço posicionado no centro. É quando o roteiro implacavelmente nos insere na crítica. O personagem se aproxima lentamente do berço, fazendo com que nós compartilhemos o mesmo frenesi daqueles que perdem vários minutos na frente da televisão acompanhando uma perseguição de carro ou um sequestro em tempo real. Nós, os abutres que somos alimentados por esse jornalismo cretino. Nós que não conseguimos desviar os olhos, numa mistura de sentimentos humanamente ambíguos, por um lado, desejando que o bandido seja preso logo, por outro, desejando que ele consiga driblar a polícia por mais tempo, para que aquela emoção da caçada nos tire de nosso cotidiano apático. A intenção é nos estimular a repulsa por algo que não vimos. O espectador comenta com sua companhia na sessão: “Nossa, ele filmou até o bebê morto, que monstro insensível”. Alguns minutos depois, como que com um sorriso sarcástico de quem provou sua tese com louvor, o filme revela que não havia bebê algum no berço, aquele quarto, provavelmente, estava sendo preparado para uma criança que ainda não nasceu. E, mais além, descobrimos que a mansão era de traficantes de drogas. Todo o investimento emocional do espectador, tanto o real, quanto o do noticiário na obra, foi manipulado pela irresponsável estação de televisão, que, numa atitude coerente à podridão de todos os atos anteriores, decide se negar a evidenciar essa conclusão. O mais importante para um jornalismo imediatista é que o público, resumido a números numa conta bancária, se mantenha na frente da televisão, ou folheando as páginas do jornal, pelo maior tempo possível. Contar a eles que a pobre família vítima dos assassinos era, na realidade, um bando de criminosos, iria afastar o público. Quando o jornalismo perde o senso de moral, ele se torna uma busca desesperada por manchetes sensacionalistas, simplificando qualquer discurso a imagens de impacto, visando o choque, nunca a reflexão...”


5 - Mad Max: Estrada da Fúria (Mad Max: Fury Road), de George Miller
“... O toque mais interessante foi transformar o Max de Tom Hardy em um coadjuvante de luxo, inteligentemente subvertendo, em tom claro de crítica, as funções usuais dos personagens em uma obra do gênero. Ao quebrar as expectativas do público, reservando para o herói todos os clichês narrativos que são normalmente relegados às mulheres, que podem ser resumidos na cena em que o ombro de Max serve de apoio para a mira da protagonista, vivida por Charlize Theron, Miller evidencia o desleixo da indústria na criação de heroínas fortes. As sequências longas de ação entorpecem os sentidos, não dão trégua, é uma aula de eficiência, sem o artifício comum de confundir o público, como forma de mascarar a pouca habilidade daquele que está no comando. A câmera aqui age como se estivesse filmando as danças de Fred Astaire, ela apenas capta o desenvolvimento natural dos conflitos, deixando para a montagem o trabalho de impor o ritmo e o tom. Nos aspectos técnicos, o filme é impecável. A fotografia de John Seale, coerente à ousadia narrativa já citada, uma atitude que respeita o cinema de guerrilha que foi o clássico australiano, rejeita a paleta visual óbvia de poucas cores, moldura de dez entre dez filmes ambientados em cenários pós-apocalípticos. Ao final, o que se mantém na mente de quem assiste é a postura desafiadora, soco no estômago, típica de filme B, um charme raro dentre tantas obras formulaicas do gênero que a indústria despeja anualmente. Não reinventa a roda, e nem precisaria, mas, sem dúvida, o septuagenário diretor deixou muito cineasta garotão, esses que são fabricados pelo hype de Hollywood, com inveja...”


6 - Capital Humano (Il Capitale Humano), de Paolo Virzì
“... A trama, com sua impecável estrutura em quatro capítulos, incita uma reflexão sobre a queda do império humano, partindo de um evento simples, o atropelamento fatal de um ciclista que não recebeu socorro. Ao costurar as narrativas de seus personagens envolvidos de alguma forma no acidente, o roteiro provoca questionamentos essenciais, críticas severas a um modo de vida cada vez mais egoísta, onde a capacidade de empatia se curva perante a necessidade de se obter vantagens. No primeiro capítulo observamos a rotina de Dino, uma espécie de variação do Kringelein de “Grande Hotel”, alguém disposto a tudo para viver “a vida real” na alta sociedade, um verme que vibra por saber que foi convidado para uma mesa elegante em uma festa, já que anseia por aquele refinamento ilusório, ainda que, como é evidenciado em uma cena breve, não entenda a diferença entre diversas grifes de água. O texto é claro, a crítica se esconde por trás da gag. Coloque um tecido simples em uma vitrine de uma loja de grife respeitada, que, sem pestanejar, a clientela irá gastar o triplo do valor real do produto, apenas para garantir seu conforto existencial, a satisfação de um status tolo que mascara, por pouco tempo, o complexo de inferioridade...”


7 - O Conto da Princesa Kaguya (Kaguya-hime no Monogatari), de Isao Takahata
“... A beleza não reside na trama, sem novidade alguma para aqueles que já conhecem a história, mas, sim, na forma como ela é contada, utilizando uma técnica de animação que prima pela simplicidade, inspirada na pintura japonesa feita com tinta de caligrafia, o Sumi-ê, que leva em consideração o sentimento do artista em sua execução, tentando deixar transparecer a alma e a harmonia interna, elementos mais importantes do que o tema que o artista está trabalhando. Como forma de perceber a riqueza desse estilo, analise como o traço é classicamente bonito e suave, por exemplo, nas cenas em que vemos a bebê adorável aprendendo a andar, contrastando brutalmente com o traço borrado nas cenas em que a protagonista está emocionalmente perturbada. E, inserido no contexto da narrativa, vale destacar a crítica que é feita à submissão feminina na sociedade, a pressão que a jovem sofre dos pais, que entendem o ritual do casamento como a óbvia definição da felicidade, quando, na realidade, ela quer apenas conviver com seus amigos de infância, correndo descalça pelo campo, sorrindo e chorando sempre que esses sentimentos brotarem espontaneamente. As regras dizem que, no intuito de conquistar seus ricos pretendentes, ela deve aprender a conter todos os rompantes de emoção. Quando alguém aprende a andar imitando os movimentos das rãs, tendo a natureza, com sua maravilhosa imprevisibilidade, como modelo na vida, acaba se tornando impossível a aceitação conformista de qualquer ritual criado e imposto pelos humanos...”


8 - La Sapienza, de Eugène Green
“... A trama aborda um arquiteto de meia-idade, vivido por Fabrizio Rongione, que se descobre intensamente frustrado ao perceber que desperdiçava seu talento em construções padronizadas, edificações que serviam apenas a uma funcionalidade que não dependia de qualquer traço de personalidade do seu criador. Ele decide então embarcar em uma longa jornada para reviver os passos de seu ídolo na profissão, um mestre barroco romano do século dezessete. A bela alegoria trata verdadeiramente da erudita viagem interna de alguém que deseja se reencontrar com sua paixão inicial pelo trabalho que realiza, implacavelmente se desintoxicando da medíocre geografia urbana globalizada. O segundo ato ganha pontos com a entrada do jovem estudante, vivido por Ludovico Succio, completamente apaixonado pelo tema, muito esforçado, mas sem o aprendizado técnico, um reflexo do arquiteto de outrora no espelho da vida. Inicialmente pouco disposto a servir de tutor, mas eventualmente cativado pelo amor do discípulo pela arquitetura, o homem terá uma chance perfeita de recuperar o entusiasmo perdido, descobrindo ao constatar no horizonte crepuscular de sua vida que a real sabedoria, leitmotiv expresso já no título, reside na dedicada preparação para esse utópico e subjetivo conceito. O sonho que motiva o esforço, elemento que nunca deve se perder nas curvas frustrantes da vida...”


9 - O Julgamento de Viviane Amsalem (Gett), de Ronit e Shlomi Elkabetz
“... Como roteirista, eu sempre acreditei que o melhor caminho criativo é a restrição do ambiente em que ocorrem os conflitos dos personagens. E o trunfo dessa produção israelense reside na subversão do cenário usual dos dramas de tribunais, trabalhando com eficiência a claustrofobia de forma interna, palpável no desespero da esposa, já que o elemento externo, a sala dos juízes rabinos, iluminada e em tons brancos, não poderia aparentar ser mais confortável e harmoniosa. Os alívios cômicos brotam de forma inteligente no roteiro, com a função de salientar o absurdo da situação, a estupidez do machismo dominante em quase todas as ideologias religiosas. Em uma das cenas, o próprio irmão da personagem, ao testemunhar em sua defesa, inicia dizendo que, por mais que a ame, o marido dela canta tão bonito na sinagoga, parece até um pássaro, um homem perfeito. Ele complementa, para o choque dela, que já está vivenciando esse pesadelo burocrático há anos: “Uma mulher precisa ter limites”. As leis são criadas pelos homens, que se protegem em sua estupidez e insegurança. O marido, uma amarga incógnita, não se preocupa em fornecer sequer um argumento para sua insistência no matrimônio, chegando ao ponto de, numa demonstração de total consciência do favoritismo da justiça, simplesmente se ausentar dos apontamentos no julgamento. Esse julgamento patriarcal que abusa de conveniências, o que se escora no subjetivo elemento divino, é um dos alvos da trama, que expõe o ritual desumano de divórcio naquela sociedade, encabeçado por aqueles que acreditam deter uma autoridade superior, sempre posicionando a mulher abaixo de um mínimo nível de dignidade, precisando do consentimento do marido para obter a liberdade. Um dos muitos acertos da produção é nunca questionar esses procedimentos, estimulando a visão crítica que nasce da simples constatação, às claras, da tremendamente injusta escalada de absurdos inerentes ao fundamentalismo religioso...”


10 - A Festa de Despedida (Mita Tova), de Tal Granit e Sharon Maymon
“... O que não me sai da cabeça após a sessão, dentre todas as emoções despertadas por esse lindo filme israelense, é a ideia de um homem que se predispõe a aliviar o sofrimento de estranhos, enquanto parece ignorar a gradativa perda da sanidade de sua amada esposa. O conceito de que ele, confrontando as leis naturais com sua máquina de eutanásia, está operando uma fuga da sua própria realidade, reveste a trama com uma camada extra de complexidade psicológica. Os diretores Tal Granit e Sharon Maymon, com tremenda sensibilidade, comandam uma aula de construção de personagens, sem caricaturas, elementos que agem de forma orgânica e inesperada, num equilíbrio perfeito de humor e drama, vale salientar, em doses muito corajosas. O roteiro, ao compor arcos de personagens essencialmente inconstantes, realistas, entrega para o público uma grande variação de argumentos divergentes. O foco não é a morte, ou como devemos lidar com o sofrimento, mas, sim, com a importância de saber viver com qualidade o pouco tempo que compartilhamos nessa incrível experiência. Cenas como a da reunião nudista, reforçam o valor do companheirismo entre soldados cansados da longa batalha em uma trincheira que será invadida, em breve, pelo exército inimigo. Uma resposta inteligente e adulta para outros projetos mais celebrados, como “Para Sempre Alice”, que disfarçam o tom exploitation da miséria, o que seria o Datena para o jornalismo, com uma abordagem que se leva a sério demais, o que desumaniza os personagens. É, com sua humanidade tocante, um dos filmes mais lindos do ano...”

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Sábio Silêncio - Parte 12

Link para os textos anteriores do especial:


Diário
13 de Janeiro – 1920 – 20:30

Voltei para o salão e, sem cerimônia, fui abraçado por Mary Pickford, que me conduziu para um dos poucos ambientes vazios no local. Ela demonstrava certo cansaço, percebi que aquelas convenções sociais não a agradavam muito. Eu senti que era o momento de arriscar uma entrevista informal, então liguei o gravador e iniciei a conversa.

- Quer que eu ajude você a colocar todo esse povo pra fora? – ela explodiu numa gargalhada, enquanto se ajeitava no sofá.

- Eu já me acostumei com essas grandes festas, mas não consigo entender porque elas duram tanto tempo. Por dentro, ainda sou uma garota simples, de hábitos simples.

- Já que tocou no assunto, como você entrou nesse mundo? – ela ficou alguns segundos com o olhar perdido no horizonte.

- Eu comecei muito nova no teatro, não sou uma dama da sociedade, não nasci pra isso, tive apenas três meses de educação formal, valorizo tremendamente aquele que aprende por dedicação, sozinho, lendo bastante, o verdadeiro artista. Tudo isso – e ela gesticula largamente, como se envolvesse todo o ambiente em seus braços delicados. – É ilusão. Nada disso vai sobreviver ao nosso tempo, por isso mesmo farei questão de deixar registrado que todos os meus filmes serão destruídos após a minha morte.

- Você está brincando?

- Não poderia estar falando mais sério, querido rapaz. Não quero que os netos do meu público de hoje debochem de nossas produções. – ela percebeu meu choque, tentou descontrair o clima com um daqueles sorrisos que conquistaram o mundo.

- Eu acho um crime impedir que as gerações futuras conheçam um trabalho tão bonito como “Stella Maris”.

***


“Stella Maris”, dirigido por Marshall Neilan em 1918, é um dos filmes mais importantes da carreira de Mary Pickford, onde ela interpreta dois personagens física e psicologicamente antagônicos, com a ajuda de truques pioneiros de superimposição.  
***

- Você é muito gentil, eu também tenho muito carinho por esse filme, mas, entenda, não existe futuro para o cinema. E eu não quero ser vista como uma velha aberração de circo. - novamente, ressalto que fiquei impressionado com a visão limitada dos profissionais da época sobre aquilo que produziam.

- Mary, se nem a Influenza te matou, eu tenho certeza que não será essa preocupação que vai te tirar o sono.

- E não me tira mesmo, pode acreditar. Só acho que tudo tem seu tempo. Quando me maquiaram pro meu primeiro teste pra Griffith, eu parecia o Pancho Villa, uma coisinha esquisita. Olhei no espelho e tive vontade de sair correndo e desistir de tudo. E nem isso me desmotivou, segui em frente... – cortei seu discurso, segurando em sua mão, deixando a emoção do momento me levar.

- A queda não importa, o nobre é saber levantar. Você não faz ideia de como seu trabalho será valorizado no futuro, querida. Não me pergunte como, apenas acredite. – percebendo que me exaltei e cometi um equívoco, tentei conduzir sorridentemente a conversa para outro tema, manobra facilitada pelo som dos latidos dos cães do casal que irrompiam do lado de fora. – Com o Douglas, foi amor à primeira vista?

- Como não seria? Ele, como um galante cavalheiro, desde o nosso primeiro encontro, sempre me resgata nos braços, protegendo-me de qualquer perigo. – por mais sinceridade que ela colocasse em suas palavras, senti um tom de teatralidade em seu olhar vago, que, somado ao pouco tempo que o homem dedicava à esposa na festa, acabou me deixando uma impressão de relacionamento forjado para os holofotes, um acordo interessante para os dois.

- Eu percebi que você não se dá muito bem com o Charlie. Estou certo? – ela demonstrou claramente o incômodo com a pergunta.

- Charlie é um sócio figurativo, empresta o nome, não a alma... – Indisfarçavelmente confuso, cortei o discurso e tentei fazer com que ela fosse mais objetiva.

- Você está se referindo à parceria na United Artists?

- Também, claro. Ele não se envolve como Dougie, Griffith e eu. Ele está preocupado demais com o tamanho do seu nome no cartaz. – percebendo meu desconforto, ela se aprofundou no tema, desviando da amargura com o colega. – Na realidade, antes de nos unirmos, os atores eram até alvo de deboche dos produtores, que nos mantinham afastados dos estúdios. Eu soube que os produtores estavam planejando retirar cada vez mais a participação dos atores, dos roteiristas, no filme pronto. Os salários também seriam acertados seguindo um padrão, os artistas não teriam mais opinião sobre o corte final. Charlie gosta de levar a fama, mas eu convoquei a primeira reunião.

- Entendo perfeitamente a sua posição.

Nesse momento, alguns convidados entram no ambiente, interrompendo a entrevista. Mary pega meu braço, agradece por eu tê-la salvado por alguns minutos daquela turba, e então, com extrema graciosidade, some entre os vários ombros do salão ao lado. Olho para a mesa próxima, onde o livro de visitantes de Pickfair repousa elegantemente. Em um rompante de coragem irresponsável, encontro o espaço em branco, assino meu nome, com uma pequena observação carinhosa ao lado: “Mary, não apague o seu legado profissional”. Hoje, sabendo que ela viria a se tornar uma defensora dedicada da preservação dos filmes, que chegou a apoiar a criação de um museu dedicado à arte cinematográfica, gosto de pensar que, com ajuda de Lillian Gish, que também aconselhou ela nesse sentido, tive algo a ver com essa mudança de pensamento.

Continua...

Rebobinando o VHS - "Karma - Enigma do Medo" e "Ritual Macabro", de Fauzi Mansur

Link para os textos do especial:


Meus primeiros contatos com a obra do diretor Fauzi Mansur, um dos poucos guerreiros nacionais que ousaram trilhar o gênero do terror.


Karma – Enigma do Medo (1984)
No século 19, pessoas são massacradas por bandidos numa casa de fazenda. Cem anos depois, o local foi transformado num hotel-fazenda, onde se reúnem diversos hóspedes que são a reencarnação das vítimas e assassinos do passado. Fenômenos estranhos e mortes violentas começam a acontecer.
Ritual Macabro (The Ritual of Death - 1990)
Raro e valioso livro contendo informações sobre antigos rituais indígenas de pajelança é roubado por integrantes de grupo de teatro. Eles planejam encenar uma peça baseada nos textos, mas durante os ensaios um dos atores é possuído e começa a matar os demais, enquanto seu corpo se deteriora.


O VHS de “Karma” foi resultado de um dos muitos garimpos que eu fazia no mercado popular da Uruguaiana, um clássico do Rio de Janeiro. Foi quando conheci o trabalho do diretor Fauzi Mansur, um dos grandes nomes da Boca do Lixo. A imagem que guardei daquela sessão foi o espírito mostrado sempre em negativo, um recurso que garante alguns bons momentos, o único ponto positivo que posso salientar. Infelizmente, em revisão, foi muito difícil chegar ao final, o que não é um bom sinal, considerando que são apenas oitenta minutos. As péssimas atuações e uma montagem confusa acabam transformando a experiência em algo praticamente insuportável. A trama, ainda que simplória, só é mais ou menos compreendida quando você lê a sinopse. Vale, sem dúvida, como curiosidade, já que se trata de um slasher nacional, especialmente em seu terceiro ato, quando deixa de lado as convenções dos filmes de casas mal-assombradas e abraça a matança generalizada.

“Ritual Macabro” não foi lançado em VHS no Brasil, mas consegui na época em uma versão alternativa. Um projeto feito por Mansur visando o mercado internacional, rodado em São Paulo, com o elenco ditando todos os diálogos em um inglês “the book is on the table” bem sem vergonha, mas, por incrível que pareça, o resultado é bastante superior. O filme, desconhecido por aqui, conquistou um espaço nas rodas de fãs norte-americanos do gênero, tendo recebido boas críticas em sua estreia. O importante é que o roteiro consegue estabelecer uma aura eficiente de pesadelo, com algumas sequências visualmente impactantes, como a cena de sexo na banheira, onde o casal se suja com o sangue que verte da cabeça decepada de uma cabra real, ao lado de um índio espectral fazendo uma dança exótica. É o tipo de material doentio e revoltante que apenas um realizador completamente irresponsável, no melhor sentido, poderia pensar em conduzir. O filme só ganha pontos nos momentos onde o gore domina, razão pela qual o projeto recebeu classificação X nos cinemas norte-americanos. Tem cenas que me remeteram aos trabalhos de David Cronenberg, não tanto pela competência técnica, mas, sim, pela criatividade insana.

Esses filmes nunca serão lançados em DVD, mas, em uma procura rápida, podem ser encontrados completos no Youtube. E pensar que fiquei semanas aguardando para receber a cópia em VHS de “Ritual” na época. Como é fácil ser garimpeiro cinematográfico hoje em dia... 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Cine Giallo - "O Gato de Nove Caudas" e "Terror na Ópera", de Dario Argento


O Gato de Nove Caudas (Il Gatto a Nove Code – 1971)
Um repórter e um jornalista cego aposentado tentam resolver uma série de assassinatos e acabam se tornando alvos do assassino. 


Esse é o meu favorito da Trilogia dos Animais, peças fundamentais no giallo, com o diretor demonstrando tremenda evolução em seu segundo trabalho, uma maior segurança em seu estilo, marcado pela utilização generosa da câmera subjetiva, representando o ponto de vista do assassino, transformando ele em um caçador urbano que persegue suas vítimas de forma quase animalesca, referência intensificada no uso constante de planos de detalhe no olho do assassino. Após “O Pássaro das Plumas de Cristal”, Argento ousa quebrar alguns paradigmas estabelecidos por ele mesmo no anterior, minimizando a violência, potencializando o impacto das cenas com truques de edição, seguindo os ensinamentos do mestre Alfred Hitchcock. Destaco aqui a fantástica sequência do ataque na estação ferroviária, o ponto alto do filme, que contém uma mordaz crítica ao culto das celebridades, já que toda a comoção pública com a tragédia é interrompida e esquecida, minutos depois, quando uma atriz famosa desce do trem. A parceria entre o jornalista cego (Karl Malden) e o repórter (James Franciscus), além de funcionar pela ótima química dos atores, é favorecida também pela presença da pequena e adorável neta do jornalista, tão inteligente quanto os dois, inserindo doçura e um toque de conto de fadas sombrio ao produto final.


Terror na Ópera (Opera – 1987)
Uma jovem soprano é perseguida por um assassino doentio durante a montagem da ópera “Macbeth” em Milão.


Argento cria aqui sua última obra-prima, uma declaração muito pessoal de amor à arte, ao inserir elementos de terror nesse giallo com toques de “O Fantasma da Ópera”, de Gaston Leroux, um tema muito querido pelo diretor. É fascinante perceber a conexão entre as árias utilizadas na trilha e as sequências emolduradas por elas, algo que eleva exponencialmente a qualidade da obra e, especialmente para os amantes de ópera, grupo em que me incluo, a sua eficiência em revisões. Ao usar a oração de paz, a ária mais famosa de “Norma”, de Bellini, como pano de fundo para a cena em que a jovem, escondida em seu apartamento, tenta sobreviver ao ataque do assassino, o roteiro nos coloca na pele do povo que, confrontando a paz desejada pela personagem na ópera, busca aos gritos os deuses da guerra. O público do giallo quer ser surpreendido com cenas de assassinato mais criativas, ele quer ver sangue. É uma metáfora muito sutil, uma demonstração de inteligência e, acima de tudo, sensibilidade. E, reforçando essas qualidades, nos momentos mais violentos, somos presenteados com um heavy metal, som totalmente alienígena no contexto já estabelecido, provocando um despertar sensorial. Vale destacar também a excelente sequência em que Argento utiliza sua usual câmera subjetiva em um complexo sistema de gruas e guindastes, para nos colocar no lugar dos corvos em voos rasantes dentro do teatro.








* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora Versátil na caixa “A Arte de Dario Argento”, com exclusividade pela Livraria Cultura, contendo também, além de ótimos extras, os filmes: “O Pássaro das Plumas de Cristal” e “Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza”.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Sétima Arte em Cenas - "Superman - O Filme"

Link para os textos do especial:


Superman – O Filme (Superman – 1978)
Tarantino explicou em sua obra "Kill Bill" as razões que o levam a preferir o herói de Krypton em detrimento de outros. No filme, David Carradine diz em seu monólogo que as histórias dos quadrinhos não são as melhores, nem as mais bem desenhadas. Seus vilões não são os mais interessantes, mas a sua mitologia é rica e fantástica. O Batman é Bruce Wayne, ele acorda como Bruce Wayne, torna-se o Cavaleiro das Trevas ao vestir seu uniforme, mudando sua voz e suas atitudes. O Superman já acorda sendo Superman, ele é o último filho de um planeta extinto, o seu disfarce é Clark Kent. Ao assumir a identidade do repórter do Planeta Diário, o filho de Krypton pode conviver com os mortais e estar próximo para defendê-los. Clark Kent exemplifica o modo como o herói vê os seres humanos: uma caricatura, tola e desajeitada.

O herói criado na década de 30 teve, desde seu início, uma conexão forte com o mundo do cinema. O nome para a cidade de Metrópolis nasceu da admiração dos criadores pelo filme alemão de mesmo nome, dirigido por Fritz Lang, assim como seu nome foi inspirado nos atores Clark Gable e Kent Taylor, tendo sua aparência física sido inspirada pelo cômico Harold Lloyd. É impossível falar do personagem sem mencionar Christopher Reeve. O primeiro filme marcou época por uma combinação de motivos, uma direção séria e competente de Richard Donner, que acreditava que devíamos realmente crer nesse herói, algo feito possível graças à escalação de Reeve para o papel. Um roteiro inteligente e adulto de Mario Puzo, que escreveu "O Poderoso Chefão", e uma trilha sonora inesquecível de John Williams que se tornou uma referência. É impossível desvincular qualquer um dos fatores que criaram esse clássico sem afetar o produto final.

Reeve mostrou-se um homem de caráter e moral inabaláveis após seu trágico acidente e reforçou mais ainda sua imagem como um verdadeiro herói. Ele acreditava na verdade e na justiça que o personagem defendia, a sua interpretação transparecia esse comprometimento. Na icônica cena de salvamento, onde vemos o homem de aço voando para salvar Lois Lane, nota-se que ele não duvida em nenhum momento de que irá impedir a queda daquele helicóptero. Como a propaganda nos cinemas dizia à época, ele realmente nos fez acreditar que um homem poderia voar. Quando foi fazer o teste de elenco para o primeiro filme, ele em nada se parecia com um "homem de aço", muito magro e terrivelmente nervoso, ostentou o famoso "S" no peito e buscou não aparentar ser um deus indestrutível, mas, sim, um educado e galante visitante das estrelas disposto a se ambientar em um planeta estranho. Sua postura chamou a atenção do diretor, que conseguiu ver além do que o físico franzino e o suor de nervosismo transpareciam. Ele viu naquele jovem que havia acabado de se profissionalizar como ator, sem nenhuma experiência significativa na área, os elementos que tornaram Superman um personagem tão importante no mundo: caráter, dignidade e educação. Como o diretor mesmo citou em algumas entrevistas, o jovem transbordava as qualidades essenciais para o personagem, somente foi preciso lapidar seu corpo com exercícios para que alcançasse o porte físico necessário. O mito irá viver eternamente. Enquanto houver esperança e uma necessária e lúdica ingenuidade em cada ser humano, poderemos sempre contar com o sorriso generoso e confortador dele, antes do fade out.

As adaptações de quadrinhos hoje são regra, com os produtores conseguindo qualquer astro importante e respeitado em seus cartazes, porém, houve uma época em que as adaptações de quadrinhos não eram apenas a exceção, como exalavam também uma aura de amadorismo, afinal, era considerado entretenimento para crianças pequenas e infantilizados adultos. Quando o diretor Richard Donner convocou Marlon Brando, simplesmente o ator mais respeitado na época, para interpretar o pai biológico do Superman, o mundo tremeu. Com ele no elenco, foi mais fácil encaixar outros nomes respeitados, como Glenn Ford, Gene Hackman, Terence Stamp, Trevor Howard, Maria Schell e Susannah York. E, tenho certeza, sem o jovem Christopher Reeve vivendo o herói, o filme seria hoje apenas uma curiosa nota de rodapé. Ele representava, fora das câmeras, todas as características nobres do personagem, enquanto a magia do cinema se responsabilizou pelos superpoderes.

A cena que insere o filme nesse especial ocorre por volta de uma hora de projeção, após o roteiro nos apresentar os primeiros passos de Kal-El na Terra e suas primeiras tentativas de emular os seres humanos, como o atrapalhado Clark Kent, em Metrópolis. É o momento da grande revelação, a celebrada cena do resgate do helicóptero. A meu ver, uma aula de como a trilha sonora pode funcionar como elemento narrativo. O compositor John Williams faz uma sutil referência ao tema que emoldura o trágico sacrifício dos pais do herói em Krypton, ligando a “morte” do bebê enviado ao espaço com o “renascimento” do adulto em sua vida pública. Ele utiliza no início instrumentos de sopro como forma de potencializar a urgência do momento, o desespero de Lois Lane em um helicóptero que perde seu piloto, ficando preso no topo do edifício do Planeta Diário. O povo começa a se aglomerar na calçada, enquanto a repórter se agarra a um fio, a queda é iminente, a trilha enfatiza isso. Quando ambulâncias são mostradas chegando ao local, Williams insere uma linha melodicamente mais terna, como que celebrando o potencial humano para a bondade, ainda que nesse caso não seja suficiente.

Clark aparece na calçada e percebe o chapéu de sua colega no chão. Na trilha, sutilmente, tomando o tempo, escutamos os primeiros movimentos do tema do herói, que vai tomando ritmo, ainda que despido de qualquer grandiosidade, quando o personagem busca um local para trocar de roupa. Ao finalmente revelar o símbolo numa corrida em direção à câmera, Williams apresenta a fanfarra de Superman em pequena escala, com maior ênfase nos elementos musicais que representavam sua origem alienígena. Ele resgata Lois, a fanfarra dá lugar brevemente ao tema de amor, tocado de forma calorosa, até que um som dissonante sinaliza a queda do helicóptero. E, quando Superman impede a queda, numa finalização emocionante, a fanfarra do herói é apresentada de forma apoteótica, pela primeira vez, com a orquestra completa, simbolizando o triunfo máximo do personagem: a sua harmonia interna, amalgamando os elementos sonoros alienígenas e humanos.