sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cine Noir - "Pacto Tenebroso"


Pacto Tenebroso (Sleep, My Love – 1948)
Produzida por Mary Pickford, com o diferencial no gênero de ter uma heroína, vivida por Claudette Colbert, esse é um ótimo representante da fase inicial em Hollywood do diretor alemão Douglas Sirk, com a elegante fotografia que usa generosamente a profundidade de campo, de Joseph A. Valentine, de clássicos de Hitchcock como “A Sombra de Uma Dúvida” e “Festim Diabólico”, em sua última incursão no Noir. Semelhante a “À Meia Luz”, de George Cukor, o roteiro aborda uma esposa que é manipulada psicologicamente pelo marido, o sempre eficiente Don Ameche, que intenciona se livrar dela e colocar outra mulher em seu lugar, a femme fatale vivida pela bela Hazel Brooks. 

Os elementos de hipnose podem ter ficado ingenuamente datados, assim como a recusa da trama, por causa da censura do Código Hays, em permitir maior afeto entre a esposa e o personagem vivido por Robert Cummings, mas nada que prejudique o entretenimento. É válido salientar a eficiência, ainda hoje, da ótima cena em que a protagonista, em estado hipnótico, é levada a subir no parapeito da varanda. E, um detalhe interessante, vale a pena prestar atenção nas cenas em que Ameche e Brooks aparecem juntos, com ele sempre sendo mostrado no enquadramento de forma subserviente. O uso da escadaria, quase uma referência a Fritz Lang, num dos momentos mais intensos do terceiro ato, também merece destaque. Durante várias cenas de suspense na residência da vítima, o filme parece confundir deliberadamente os limites de interior e exterior. A porta da frente é deixada aberta durante uma tempestade, conduzindo o público a uma forte sensação de ansiedade. Sirk corta para um ângulo alto da escadaria nessa cena, mostrando-nos o interior da casa e o exterior, através da porta. 

O diretor é capaz de interromper o crescendo de suspense, desviando o foco para uma subtrama de um casamento chinês, como forma de surpreender o espectador com um alívio cômico que, de tão deslocado, eleva a sensação de pesadelo que compartilhamos com a protagonista. Um exemplo de que, já em seu início, Douglas Sirk exercitava seu estilo com muita segurança.

*  O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

"Blind", de Eskil Vogt


Blind (2014)
O norueguês Eskil Vogt, em seu primeiro longa-metragem, consegue a proeza de nos transportar de forma original para a mente de uma mulher cega, vivida pela ótima Ellen Dorrit Petersen, operando menos na usual exploração das óbvias dificuldades locomotoras. O interesse está nas transformações internas, na angústia por querer ser mãe e no medo de não ser mais atraente para o marido. Somos conduzidos por sua narração, desafiados a entender o universo que se apresenta a nós de forma onírica, cortesia da fotografia de Thimios Bakatakis, misturando o real e o imaginário que ela cria como ponte para se reencontrar consigo mesma, através da percepção ampliada dela. É interessante, por exemplo, a forma como os personagens criados na mente de Ingrid se tornam mais inconsequentes quando ela está sob o efeito de alguns cálices de vinho.

Sensacional a cena em que ela se despe sensualmente, imaginando seu marido a admirá-la na cama, quando o som das teclas de um laptop quebra a ilusão, fazendo-a perceber que ele estava totalmente focado em seu trabalho. E ao escutar os dedos dele tocando as teclas, ela sabe que o trabalho que a torna invisível aos olhos dele se resume a flertes românticos com estranhas. Ela então, num ato de incrível abnegação, fecha os olhos e finge dormir, mas não aguenta a mentira por muito tempo. O desfecho da cena, em tom sutilmente cômico, mostra a resistência dela confrontando a tentação virtual com a segurança sexual de uma mulher que reconhece ter perdido apenas um de seus vários sentidos. Por mais que o fantástico roteiro se perca em alguns momentos na fria distância em que analisa a personagem, bastam esses três belos minutos para que ela se conecte emocionalmente com o público.

As crises existenciais continuam a atormentar, suas dúvidas ainda dominam grande parte de seus dias imersos na escuridão, mas ela já está mais preparada para fazer as pazes com seu corpo e com sua humana necessidade de carinho, aceitando sua situação e gradualmente entendendo que a reclusão não é a melhor solução.

"Você Não Me Pega, Papai", de Daniel Wolfe


Você Não Me Pega, Papai (Catch Me Daddy - 2014)
É promissora a estreia do britânico Daniel Wolfe em longas, ajudado no roteiro pelo irmão Matthew, com uma pegada que remete aos trabalhos de Sam Peckinpah, surpreendendo pela tranquilidade com que estabelece a trama aparentemente simples que envolve um casal em fuga, mas que aliada à fotografia de Robbie Ryan, ganha ares de um sombrio conto de fadas. Laila, vivida com competência pela estreante Sameena Jabeen Ahmed, é uma adolescente paquistanesa que decide ir contra seu pai repressivo, fugindo com seu namorado escocês Aaron, vivido por Conor McCarron, para uma idílica vida nas montanhas a base de lisérgicos.

É louvável a crença do roteiro na inteligência de seu público, já que limita os diálogos expositivos ao mínimo, com destaque para uma excelente montagem que combina uma cena de dança do casal, desfrutando daquela ilusória paz, com a aproximação de seus perseguidores. Vale destacar a forma como o filme trabalha a ideia da tradicional “morte honrada” muçulmana, solução buscada pela família da garota, aliada à gradual e sutil evolução de Aaron, que é mostrado cada vez mais adotando o senso de controle machista, refletindo exatamente o marido que ele poderia ser no futuro, não muito diferente dos radicalismos do pai da jovem. Até mesmo os brutais caçadores, como o vivido por Gary Lewis, ainda que monstruosos, não são escritos como caricaturas, tornando-se fascinantes, ao invés da via fácil que os tornaria repulsivos.

O terceiro ato tem falhas toleráveis, certo desequilíbrio entre a necessária resolução dos arcos narrativos e um desejo de também satisfazer em seu desfecho como produto do gênero thriller, mas são problemas compreensíveis, afinal, felizmente, Wolfe arrisca bastante. Fiquei curioso para acompanhar o diretor em seu próximo projeto, torcendo para que ele se mantenha com a mesma ousadia.

"Frank", de Lenny Abrahamson



Frank (2014)
Jon, vivido por Domhnall Gleason, é um músico esforçado, mas medíocre, que sofre caçando as letras de suas canções em passeios solitários pelas ruas, utilizando como inspiração qualquer elemento que atravesse em sua frente. Mesmo que seguido por míseras dezoito pessoas em seu Twitter, ele segue acreditando ser necessário detalhar sua rotina, uma ferramenta que o roteiro utiliza muito bem. Após um esforço árduo de criação, ele descobre que o máximo que havia conseguido era plagiar o trabalho de outro músico. Faltava a ele o elemento criativo do caos, que ele encontra por acaso ao presenciar a tentativa de suicídio de um artista, considerando então a possibilidade de tomar o lugar dele como o tecladista de sua banda de punk-rock. 

Esse microcosmo que parece saído de uma combinação das mentes de Lewis Carrol e Andy Kaufman, de nome coerentemente impronunciável, é formado por tipos esquisitos, como um empresário que acabou de sair de um hospício, uma jovem que simplesmente não sorri e um baixista que só fala francês. O grupo é liderado pelo enigmático Frank, vivido por Michael Fassbender, que esconde seu rosto com uma imensa e pesada cabeça de fibra de vidro, espertamente escondendo seus sentimentos com uma perene expressão infantil de alguém que se surpreende com o mundo ao seu redor. Jon tenta conduzir a banda, que realiza um som altamente experimental, para uma via mais comercial, o que permite ao roteiro inserir uma interessante crítica sobre esse dilema artístico tão comum nas mais variadas vertentes. O estranho Frank acaba se mostrando uma versão radicalmente projetada dos sonhos do rapaz, o metafórico reflexo narcisista do espelho que ele teme um dia encontrar. Revelar mais do que isso seria prejudicial para a experiência única que a obra oferece.

Com um terceiro ato surpreendentemente emocionante, esse estranho e fascinante filme do diretor Lenny Abrahamson encontra uma forma original de abordar a angústia do processo criativo, indo contra o conceito mitológico de que a loucura pode ser uma benéfica força-motriz para a Arte.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Cine Noir - "O Beijo Amargo"


O Beijo Amargo (The Naked Kiss – 1964)
O sonho do diretor Samuel Fuller era ser dono de um jornal, apaixonado desde criança pela emoção contida nas manchetes sensacionalistas. O seu trabalho refletia essa preferência pelo impacto, com um timing perfeito, como podemos notar na bombástica cena que inicia o filme. A personagem vivida por Constance Towers, uma prostituta com senso ético, extravasando toda sua raiva em seu proxeneta, uma explosão de ódio emoldurada pelo jazz da trilha sonora, capturada pela câmera de Stanley Cortez como uma espécie de coreografia de uma dança brutal, com a clara intenção de desorientar o público, que apanha no lugar do homem. O próprio Fuller, numa ação rápida, acrescenta maior surrealidade ao momento, retirando a peruca da mulher, que segue obstinada em seu rompante, inclemente aos apelos da vítima. Ela rouba o dinheiro do homem, já imobilizado no solo, deixando com altivez o local, enquanto o espectador procura se recuperar daquele frenesi.

O leitmotiv é claro, a crítica ao mundo de aparências e rótulos, elemento que fica ainda mais óbvio no decorrer da trama. A prostituta que decide mudar radicalmente de área de atuação, adentrando, como enfermeira, um hospital para crianças com deficiências físicas. Ela se apaixona pelo personagem elegante vivido por Michael Dante, um representante da alta sociedade aplaudido como herói de guerra e filantropo, que eventualmente será flagrado por ela tentando abusar sexualmente de uma criança. O pedófilo que se esconde com o verniz hipócrita da burguesia. A prostituta, marginal na sociedade, que canta uma emocionante canção com as crianças do hospital e se encanta na rua com um bebê em seu carrinho, demonstrando doçura e o desejo de ser mãe, mas que, por questões financeiras, pode voltar a vender seu corpo sem remorso algum. Não há espaço para soluções demagógicas no cinema de Fuller.

Genial a forma como o roteiro dribla a censura do Código Hays, na cena em que ela conversa num banco de praça com o policial vivido por Anthony Eisley, conduzindo para um momento de intimidade na casa dele, mantendo o diálogo sobre a venda de bebida como analogia para o seu verdadeiro trabalho, simbolizado sutilmente pela cédula que é mostrada pousada ao lado da garrafa de champanhe. Já o policial, símbolo da lei, acaba se revelando um facilitador para a prostituição, conduzindo belas jovens em dificuldades financeiras aos cuidados da dona do bordel da pequena cidade. O filme pede que olhemos além dos estereótipos, fugindo da demagogia, encarando o pesadelo da vida real.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", em "A Arte de Samuel Fuller", contendo ainda "O Quimono Escarlate", "A Casa de Bambu", "Paixões Que Alucinam" e um excelente documentário produzido pelo ator Tim Robbins, com participação de Quentin Tarantino e do próprio diretor. 

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Make 'Em Laugh - "Só Nos Resta Chorar"


Só Nos Resta Chorar (Non ci resta che piangere – 1984)
Um tesouro injustamente esquecido fora de sua nação, devidamente garimpado pela distribuidora “Versátil”, que também merece aplausos pelo excelente trabalho na tradução/adaptação, por se tratar de uma comédia alicerçada no rápido duelo verbal entre dois dialetos, o toscano de Roberto Benigni e o napolitano de Massimo Troisi, com muitos diálogos em que a piada poderia facilmente se perder na tradução. A sensação de liberdade que o roteiro exala transparece o estado de espírito de seus criadores, dois artistas que estavam experimentando o auge de suas carreiras. Benigni e Troisi, amigos fora das telas, dividem a direção e optam por improvisar em todas as cenas. Alguns momentos são difíceis de esquecer, como a insistente tentativa de tratar o fenômeno temporal como um transtorno psicológico, o hilário encontro com Leonardo da Vinci, onde o professor fica indignado ao perceber a ignorância do artista ao tentar ensiná-lo sobre a psicanálise Freudiana e o Marxismo, ou a cara de pau do zelador que corteja uma bela jovem afirmando ser o compositor de clássicos como “Yesterday” e “Nel blu dipinto di blu”.

É de intenso frescor a forma como a trama se mostra desinteressada em explicar o fenômeno nonsense da viagem no tempo, que conduz os amigos, um professor e o zelador da escola, ao período renascentista. A brincadeira esconde uma crítica, já que o objetivo deles consiste em impedir que Cristóvão Colombo descubra a América, como forma de evitar que, nos tempos atuais, o coração da irmã do professor seja partido por um soldado norte-americano. Há também uma crítica aos dogmas religiosos, tema que Benigni expandiria em “O Pequeno Diabo”, de 1988, ridicularizando a “hora da escuridão” ao meio-dia, estabelecida pelos fundamentalistas do padre Girolamo Savonarola, evidenciando o rebelde que se recusa a se esconder em sua casa e fechar sua janela, além da cena da cerimônia na igreja, onde os homens, totalmente desinteressados com o ritual, apenas encaram com desejo as mulheres e as seguem até suas casas. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil".

sábado, 24 de janeiro de 2015

Devo Tudo ao Cinema - S01E01 - Top Gun e a geração "Ases Indomáveis"

No primeiro programa, Octavio Caruso e Gui Monteiro batem um papo descontraído e nostálgico sobre Top Gun (dirigido por Tony Scott, em 1986) e seu astro Tom Cruise. 


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

"O País de Charlie" / "Der Samurai"



O País de Charlie (Charlie's Country - 2013)
O roteiro, escrito pelo diretor Rold de Heer em parceria com o protagonista David Gulpilil aborda de forma livre a vida do indígena em meio à intrusiva intervenção do governo australiano, tratando de elementos autobiográficos, como o vício no álcool e seu exílio, enquanto acompanha sua vida solitária na reserva e sua aventura na cidade grande. E, por mais que sua presença em cena seja hipnotizante, não dá para relevar a forma simplória como todos os personagens são construídos, alicerçados em estereótipos e com praticamente nulo aprofundamento em suas motivações. 

Há uma simplificação até mesmo nas questões sociais que o roteiro aborda, sem interesse em focar nos conflitos internos e externos dos personagens. O resultado é emocionalmente eficiente, mas existem vários momentos onde o roteiro parece não confiar na inteligência do espectador, enfatizando excessivamente com a trilha sonora de Graham Tardif o que já está estabelecido satisfatoriamente pela imagem. O protagonista consegue dizer tanto com pequenos gestos e com seu rosto expressivo, que acaba se tornando incômoda essa necessidade de sublinhar artificialmente cada emoção, longas tomadas que berram a intenção de fazer o público sentir até o aroma do local, um recurso que acaba se banalizando e desumanizando o elemento principal, um clássico caso onde menos seria mais.

Com adoráveis toques de humor, que ajudam a evitar que o filme se arraste em seu segundo ato, essa nova parceria entre o diretor e Gulpilil pode não ser a mais interessante, considero “The Tracker” bem melhor, mas vale tremendamente pela impecável atuação de seu protagonista. 

Der Samurai (2014)
Como na Alemanha, similar ao que infelizmente ocorre aqui, é difícil conseguir verba para projetos do gênero fantástico, o jovem diretor Till Kleinert acreditou em sua ideia e elaborou um plano. Um filme neo-giallo realizado por crowdfunding, um trabalho de conclusão de curso, exatamente o tipo de surpresa agradável que engrandece o conceito de um festival e nos faz aguardar com ansiedade as próximas obras do cineasta. Utilizando variadas referências, que vão de Argento, Bava, Soavi, Lynch, passando pelo ciclo de lobisomens das décadas de sessenta a oitenta, até mesmo os jidai-geki chambara japoneses e os trabalhos iniciais de Polanski, o roteiro enxuto constrói a partir desse amálgama uma visão que se impõe com personalidade, entregando um eficiente vilão samurai travesti, vivido com a mesma intensidade do Frank-N-Furter de “Rocky Horror Picture Show”, por Pit Bukowski. 

A trama, coerente com sua proposta, utiliza o jogo de gato e rato entre o sombrio vilão e seu extremo oposto, um jovem policial tímido e inexperiente, vivido por Michel Diercks, como alegoria para o autodescobrimento homossexual, repleto do gore caricato que remete ao das produções dos “Shaw Brothers”, tendo os assassinatos em série perpetrados pela louca projeção de seu id, seus impulsos primitivos, como metáfora visual para um extravasamento da repressão interna do policial, conduzido pela espada samurai como óbvio símbolo fálico.

"O Presidente" / "Massagem Cega"



O Presidente (The President - 2014)
O início do filme, dirigido por Mohsen Makhmalbaf, já deixa claro o tom de parábola, com o presidente de uma nação despótica sem nome, vivido por Misha Gomiashvili, sendo apresentado como uma caricatura capaz de assinar a permissão para diversas execuções, momentos antes de se juntar ao neto pequeno e inconsequentemente entretê-lo ordenando o ligar e desligar das luzes da cidade, traduzindo sem nenhuma sutileza o absurdo da imoralidade de um poder supremo. Quando é necessário que ele fuja, num toque esperto do roteiro, não são suas várias medalhas militares que o ajudam, mas seus talentos musicais. Mas, em outras cenas, o texto recorre ao melodrama desgastado, com o ponto mais baixo simbolizado por uma desnecessária subtrama envolvendo um prisioneiro que retorna para encontrar sua amada com outro.

O roteiro, escrito em parceria com a esposa Marzieh Meshkini, conduz o presidente, sempre acompanhado de seu neto, símbolo da pureza que ele abandonou ao optar pela ganância, a uma jornada onde terá que encarar incógnito os cidadãos oprimidos, vivenciando na pele o mal que causou. É interessante a forma como a trama, com óbvias referências ao “A Vida é Bela”, de Benigni, desenvolve a relação entre avô e neto, mostrando o ditador sendo questionado com contundência pelo pequeno; dúvidas que não soariam genuínas em uma narrativa que não fosse essencialmente fabulesca. Sua contraparte infantil, como uma flor de inocência, tentando romper o asfalto. Um road movie onde vários estereótipos atravessam a estrada do protagonista, numa intensa reavaliação de suas condutas pessoais. Uma alegoria que poderia ser mais eficiente se optasse pela sutileza, mas que ganha pontos pela objetividade de seu discurso, fazendo com que o projeto possa se tornar atraente no circuito mainstream, com sua importante mensagem atingindo um público maior.

Massagem Cega (Tui Na - 2014)
O aspecto mais interessante do filme em seu primeiro ato é a forma pouco sentimental com que o diretor aborda o tema, que nas mãos de qualquer cineasta poderia se tornar pura demagogia. Qualidade que vai se perdendo no segundo ato, quando o roteiro cede a algumas resoluções formulaicas típicas de folhetins. A frieza de seu olhar e seu completo desinteresse em satisfazer qualquer expectativa de seu público, elementos que poderiam limitá-lo em qualquer outra narrativa acabam funcionando nessa proposta, desmistificando o trabalho dessa instituição de massagistas cegos, deixando que as relações entre os profissionais fluam com naturalidade documental, alternando-se, como na vida real, entre a beleza das descobertas e a banalidade da rotina. O problema é que essa distância emocional acaba cansando, entregando um resultado final que repele mais do que atrai. 

É interessante a escolha por inserir um narrador que lê os créditos iniciais, um artifício que já nos coloca sensorialmente alertas, conscientes de que estamos adentrando um mundo novo, com suas próprias regras visuais. A trilha eletrônica de Johann Johansson opta pelo convencional, utilizando generosamente as distorções para traduzir sonoramente o desconforto e a desorientação dos personagens, mas também apelando para as óbvias cordas na hora de expressar o amor entre eles. Perto das tentativas do diretor em confundir o público, trocando excessivamente as perspectivas, essa moldura sonora acaba deixando um gosto amargo de preguiça criativa. O interesse do diretor Lou Ye está no despertar dos impulsos sexuais desses profissionais, atuando como voyeur em seus conflitos amorosos, mostrados de maneira franca e sem nenhum verniz, podendo chocar aqueles que equivocadamente pensem que a perda de um sentido impossibilita a necessidade de exploração dos outros. 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

"Sozinha" / "Blackfish - Fúria Animal"


Sozinha (San Zimei - 2012)
Wang Bing é um diretor destemido, o que provou com sua permanência em um hospital psiquiátrico, resultando numa extravaganza de 4 horas que repetiu a experiência avassaladora do documentário anterior, “Sozinha”, no Festival de Veneza. A rotina de três crianças abandonadas pela mãe, que sobrevivem em uma vila rural afastada e montanhosa.

São projetos bastante diferentes, mas a proposta é a mesma: causar desconforto no espectador, fazendo-o lutar contra seus sentidos para permanecer na sessão até o final. Ele claramente forma laços de amizade com seus observados, estabelecendo uma intimidade que o torna um elemento do cenário. Vulneráveis, as crianças tossem constantemente. Após certo tempo, os sons de seu sofrimento passam a perturbar o espectador. O investimento emocional se intensifica quando percebemos a alegria delas na visita do pai, que havia ido para a cidade procurar emprego. A brava resiliência delas nas mais insuportáveis condições, em contraste com a fragilidade infantil que demonstram ao agarrarem-se nas pernas do homem cuja feição modifica a cada longo período de afastamento.

As imagens que sua câmera captura, indo contra o padrão do gênero, não são pensadas objetivando um posterior trabalho na edição, deixando transparecer que seu interesse investigativo está exatamente nas arestas que muitos outros documentaristas aparam. O resultado é exaustivo para quem assiste, já que ele incorre muitas vezes em repetições imagéticas. Durante quantos minutos precisamos acompanhar os passos de seus observados em uma estrada? Quantas vezes precisamos assistir a longa preparação da comida que será dada aos porcos? Qual a sensação que ele quer transmitir? Bing não manipula a vida da pequena família chinesa que acompanhou por seis meses, apenas a observa.

Blackfish - Fúria Animal (Blackfish - 2013)
Se você é como eu, que se entristece quando passa pela jaula dos símios no zoológico e vê os animais, ditos, racionais se portando como acéfalos, provocando o animal e perturbando sua já limitada existência, prepare-se para sair revoltado da sessão desse ótimo documentário. A ideia de utilizar a baleia, um animal fora de seu habitat como fantoche, tentando domar o indomável, como bem salientado no próprio filme, será visto num futuro próximo como um ato de pura barbárie. Empresas como a SeaWorld, que são capazes de roubar a dignidade de um funcionário morto, apenas para não ter problemas judiciais, continuam exercendo suas atividades normalmente. Animais selvagens mantidos em cruel cativeiro, sofrendo stress diário e sendo brutalmente separados de seus filhotes, como numa das declarações mais contundentes, onde ex-treinadores relatam o longo desespero agonizante das fêmeas.

A angústia aumenta até que alguns ataques começam a ser contados, acertadamente, sem explorar as tragédias, cortando sempre antes dos ataques fatais, evidenciando que não são casos isolados causados por imperícia dos treinadores. A natureza sempre encontrará um caminho, por mais que os homens acreditem ser capazes de dominá-la de alguma forma. Utilizando como ponta de lança argumentativa a morte da experiente treinadora Dawn Brancheau em 2010, a diretora Gabriela Cowperthwaite assegura pela forma com que finaliza sua obra, que existe esperança no ser humano, ainda que as absurdas touradas sejam uma tradição e os homens ainda achem interessante verter sangue em octógonos. Como mostradas, as baleias que possuem o costume de viver em grupos e nunca atacam em seu ambiente natural, provam ser mais inteligentes que nós.

"Deus Ama Uganda" / "Viemos em Paz"


Deus Ama Uganda (God Loves Uganda - 2013)
Excelente documentário, que deveria ser visto obrigatoriamente pelos brasileiros. Nossa realidade não está distante desta que o trabalho do diretor Roger Ross Williams apresenta sobre a Uganda. Após a saída do ditador Idi Amin Dada, os evangélicos americanos notaram a incrível fonte de renda que essa nação poderia ser. A oportunidade de se instalarem em um local culturalmente em transição, onde metade da população era jovem o bastante para aceitar novas regras, sendo carentes emocionalmente e sem condições básicas de saúde e moradia. Em uma excelente transição, logo após as câmeras mostrarem a pobreza em que vivem as pessoas, somos levados para uma revoltante cena de coleta em uma das igrejas, mas apenas o tempo suficiente para que nossa indignação siga em crescendo até a próxima imagem, que silenciosamente surte o efeito de um soco no estômago: a refinada mansão onde vive o pastor evangélico. 

Dividindo-se entre a aventura dos jovens missionários e a triste consequência da doutrina de exclusão que defendem, acabamos nos surpreendendo com momentos que beiram o nonsense das melhores esquetes do Monty Python. A diferença é que são reais e provavelmente se repetem diariamente no templo ao lado de sua casa. Como a cena onde um pastor explica a rejeição aos homossexuais com uma exibição de slides, onde homens são vistos praticando sexo, enquanto a plateia berra apavorada. Não é muito mais absurdo que o pastor que assistimos na nossa televisão, vendendo no horário do almoço um pedaço do tecido de seu terno, como se aquilo fosse curar doenças. Homens que praticam uma lógica distorcida, manipulando inclusive a política. 

O documentário também causa gargalhadas involuntárias, como quando uma missionária evangélica revela que sentia desejos sexuais por mulheres em seu passado, após ter sido mostrada durante todo o primeiro ato pregando duramente contra os homossexuais. A obra manipula muito bem nossas emoções, fazendo-nos rir de um absurdo desses, mas em seguida nos encaminha para a tristeza de um estúpido assassinato causado por homofobia. Percebemos que não há motivo algum para rir, apenas devemos nos envergonhar de uma sociedade que se encaminha a passos largos e de mãos dadas ao ódio e a segregação. Rumo à extinção do “homo – não tão – sapiens”.

Viemos em Paz (We Come as Friends - 2014)
O maior mérito desse documentário, dirigido por Hubert Sauper, é a montagem, que, aliada à organicidade na abordagem do tema, evitando pesar a mão no discurso didático, conduz o espectador sem forçar seus olhos em qualquer direção, deixando-o absorver a informação passada e formar sua própria opinião. O diretor levou sua equipe para o Sudão em 2011, no momento em que ele estava prestes a passar por uma grande cisma, com a parte sul afirmando sua independência.

Ele visitou áreas dominadas por interesses externos, invariavelmente em detrimento de seu próprio povo. Uma invasão desumana que, por exemplo, no intuito de conseguir petróleo, não se importa de estar envenenando a água que aquelas pessoas irão beber. Num dos momentos mais revoltantes, uma criança sudanesa chora ao ser forçada por missionários evangélicos a colocar meia e sapato. E, obviamente, os invasores sempre argumentam que estão pensando no melhor para aquele povo, enquanto tentam transformá-los radicalmente em versões padronizadas e medíocres, ignorando suas crenças ao tentar obrigar eles a adorarem um deus que eles não conhecem. A câmera capta o orgulho daquele que celebra com sua família, confortavelmente através de sua webcam, um absurdo arrendamento realizado contra a vontade do dono da terra. E o desconforto aumenta gradualmente, contrastando com a beleza da fotografia.

O título que parece saído de um sci-fi encontra ressonância em ângulos de câmera e tomadas aéreas que sutilmente criam a ilusão de que estamos assistindo um mundo alienígena habitado por seres nus, onde os exploradores malignos são os engravatados. É um ótimo filme para assistir em conjunto com “Deus Ama Uganda”.

domingo, 18 de janeiro de 2015

"No Paiz das Amazonas" / "Copacabana, Mon Amour"


No Paiz das Amazonas (1922)
Na ocasião do centenário da Independência do Brasil, em 1922, o comendador J.G. Araújo, acreditando plenamente na capacidade do diretor Silvino Santos, em quem investia altas somas, convocou o amigo para produzir um filme que vendesse o Amazonas para o mundo. É difícil imaginar o impacto das imagens no público da época, já que basta trocar de canal, para encontrar a vida selvagem filmada em cores e em (super) câmera lenta, mas era uma mistura de espanto e deslumbramento. A câmera nunca se mostra passiva, é manipulada por alguém que entende a necessidade de utilizar a imagem como construtora de mitos, invertendo sequências, potencializando a tensão em uma realidade comum, com momentos de pura poesia visual. Ele registra em detalhes o trabalho com a extração de látex, a pesca dos pirarucus e dos peixes-boi, a rotina dos índios Parintintins, mas nunca resvala na monotonia. Assistir a obra, ainda hoje, faz qualquer apaixonado por cinema se quedar boquiaberto. É interessante analisar que, no mesmo ano, foi lançado o documentário celebrado mundialmente: “Nanook, o Esquimó”, de Robert Flaherty, que não sobreviveu ao teste do tempo com a mesma elegância. Um trabalho que mostra uma Amazônia lúdica, que faz parte do imaginário aventuresco e inteligentemente ordenado segundo o ponto de vista de Silvino, que, na adolescência, se apaixonou pelo local visto em uma gravura, tendo, desde então, objetivado capturar aquela versão mítica com sua lente.


Copacabana, Mon Amour (1970)
Na comédia experimental de Rogério Sganzerla, com trilha tropicalista de Gilberto Gil, a provocante Sônia Silk, vivida por Helena Ignez, é uma espécie de Barbarella que transita no universo caótico de personagens exóticos do morro carioca, perseguida pelo fantasma de sua loucura e constantemente maldizendo a velhice e a miséria. Um macumbeiro, uma prostituta que sonha ser cantora de rádio, elementos de um submundo que desconstrói as convenções, zombando de tudo e todos em tom gritado, com discurso subversivo, num espírito de anarquia que reflete o período conturbado em que o Brasil se encontrava. A câmera evidencia os dois mundos radicalmente opostos que habitam o mesmo espaço, o morro e o asfalto, preocupando-se mais em dar voz às reflexões dos personagens, sem uma estrutura linear, palavras soltas e repetições, intercalando pensamento falado e afirmação, como Saramago, uma linguagem literária em um meio audiovisual. A mulher que berra a negação de ser tarada, após sofrer uma tentativa de abuso sexual, como forma de apertar a ferida aberta de uma sociedade machista que, até hoje, culpa a mulher pelo estupro. A estranheza consequencial faz parte da catarse proposta pelo diretor. 

* Os filmes estão sendo lançados em DVD, pela distribuidora Versátil.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Sobre Gêneros Subestimados


Quem acompanha meu trabalho sabe que sou apaixonado pelos gêneros usualmente subestimados pelos críticos mais austeros, como terror, faroeste e artes marciais/samurai. Gosto muito dos filmes de Mario Bava, Hideo Gosha, Monte Hellman, Chang Cheh, Dario Argento, Lao Kar-leung, Lucio Fulci e Masaki Kobayashi. Sem pensar duas vezes, atendo-me a apenas dois nomes mitificados pela crítica, trocaria qualquer experimentação morosa do Godard pós-década de setenta, ou do Terrence Malick pós-"Days of Heaven", por um dos filmes desses diretores que citei anteriormente. Gosto de encontrar o refinamento onde menos se espera, ao procurar o traço autoral de diretores tidos como cartas fora do baralho.

É fácil filmar uma árvore se balançando ao vento por minutos, alguém sempre irá enxergar a arte na forma como uma folha cai do galho, o abstrato é um terreno fértil, você decide a imagem que quer visualizar em uma nuvem, mas é muito difícil trabalhar objetivamente as cores como fez Bava. Em um mundo justo, ele seria tão reconhecido e respeitado quanto Hitchcock. Uma das gratas surpresas que tive recentemente foi encontrar em seu filme "O Planeta dos Vampiros", de 1965, uma possível forte inspiração para a trama do clássico "Alien - O Oitavo Passageiro", de Ridley Scott. Martin Scorsese bebeu da fonte do diretor italiano para tornar sua refilmagem de "Círculo do Medo", o ótimo "Cabo do Medo", um projeto com marcante identidade visual própria, afastando-se do original inferior de J. Lee Thompson. Acho fascinante procurar essas conexões inusitadas, onde a cópia é celebrada, enquanto o copiado é marginalizado.

É impressionante o que o diretor Jackie Chan consegue fazer em seus filmes, especialmente os de sua fase áurea, não dá para ignorar o valor dele, enquanto tanto barulho se faz sobre o brilhantismo de Paul Greengrass. Existe um preconceito latente que precisa ser destruído pela crítica. O britânico é celebrado por tremer sua câmera nas cenas de ação, mas Chan, usualmente alvo do deboche dos intelectuais, desafiava constantemente a lei da gravidade. Ninguém consegue imitar o que ele fazia em seu auge como diretor. Como emular o carisma de Bruce Lee ou ignorar seu timing cômico, como diretor, em "O Vôo do Dragão"? Ninguém comenta sobre o uso da música nos filmes de Argento, mas, caso americano fosse, ele seria tido hoje como um gênio. "Profondo Rosso" é uma aula de construção de suspense e desconstrução das expectativas.

Quando eu era mais novo, antes de trabalhar na área, ficava entrando em contato com as distribuidoras que lançavam filmes clássicos de gênero, sugerindo possíveis lançamentos. Como era quase impossível encontrar essas preciosidades, eu ficava em estado de choque quando entrava em uma locadora de vídeo que tivesse raridades. Uma vez fiz minha mãe voltar pra casa, alguns bairros de distância, apenas para pegar o comprovante de residência, para que eu pudesse alugar o raro "Terror nas Trevas", de Fulci, de um selo de VHS carioca, mais raro ainda, chamado "Dado Group". Em breve, esse espetacular filme será lançado, com o refinamento usual, pela distribuidora "Versátil", numa caixa contendo outros clássicos do gênero. Aliás, vale destacar novamente o belo trabalho dessa distribuidora em resgatar importantes tesouros do cinema samurai e de terror. Sonho em ter toda a filmografia de Bava e Argento na estante.

Antes da "Versátil", teve a "Works/London Films", com seu selo "Dark Side", que era vendido nas bancas de jornal. Como era emocionante ser adolescente naquela época, sair de casa para comprar religiosamente a Revista SET, dar de cara com "Zombie - O Despertar dos Mortos", de Romero, em DVD, formato que dava seus primeiros passos, por inacreditáveis dezenove Reais. O coração chegava a bater mais rápido, uma sensação que a garotada de hoje não conhece, já que tudo se encontra facilmente em um clique do mouse. Tenho até hoje "Expresso do Horror", "Os Olhos da Cidade são Meus", "O Homem de Palha", "Possessão", "Suspiria", "A Sentinela dos Malditos", "Fome Animal", "O Castelo Maldito", entre outras raridades lançadas pelo selo. Alguns eu conhecia do meu garimpo na época do VHS, mas nunca imaginei que seriam lançados. Colocar pra rodar no aparelho esses títulos, ainda hoje, traz em minha mente a nostalgia daquelas tardes inesquecíveis na década de noventa, assistindo o Zé do Caixão em seu "Cine Trash", que era transmitido pela Rede Bandeirantes.

A Desigualdade nas Salas de Cinema

É válido reclamar da voracidade com que os blockbusters americanos invadem nossas salas de cinema, mas é preciso tomar cuidado para que o discurso não descambe para um conceito de patriotismo tolo. Como exemplo, o recente novo produto da franquia "Jogos Vorazes", estreou no Brasil em 1.340 salas, mais de 40%, um número expressivo. É praticamente uma imposição. Aquele cinéfilo menos dedicado, que deixa pra decidir a sessão na fila, dificilmente escolherá outro filme.

A indústria americana conquistou essa predominância ao longo de décadas plenamente dedicadas na construção e, mais importante, na manutenção da Sétima Arte. Nós preferimos historicamente nos dedicar às novelas, nosso produto de exportação. Eles valorizam o passado, investem no presente e garantem o futuro de sua indústria, com cineastas e produtoras demonstrando preocupação na restauração dos clássicos, na preservação de suas obras. Nós ignoramos o passado, não levamos a sério o presente e pouco nos importamos com o futuro, deixando apodrecer os filmes antigos, em cópias péssimas, com som inaudível e imagem destruída.

Com raras exceções, como o importante lançamento das obras de Glauber Rocha, pela excelente distribuidora Versátil, ou o esforço da Cinemagia, anos atrás, lançando com pompa a obra de José Mojica Marins, aquele que preza a História do cinema nacional fica à mercê de lançamentos obscuros e de péssima qualidade. Os filmes de Mazzaropi, por exemplo, são vendidos em cópias horrorosas. Os clássicos da Vera Cruz, os poucos lançados no mercado, chega a dar pena de tentar assistir. Lá fora, até mesmo os cineastas menos conhecidos, recebem tratamento de primeira qualidade, até com documentários produzidos especialmente para os DVD/Blu-rays. Enquanto não valorizarmos verdadeiramente o nosso cinema, continuarei achando que se resume a despeito essa tentativa de demonizar a presença do cinema americano em nossas salas. Eles fazem por merecer a atenção do mundo nessa área. Nós precisamos, antes de qualquer coisa, arrumar nossa própria casa, para depois querer exigir igualdade.

Querem outro exemplo? Tive a oportunidade recente de entrevistar as filhas de dois dos maiores nomes do cinema mundial: François Truffaut e William Wyler. Nem preciso explicar as razões que os fazem grandes. Entrei em contato com elas e, com extrema gentileza, deram toda a atenção possível para esse escriba, respondendo todas as questões com carinho, exalando profundo respeito pelo trabalho de seus pais. Tentei também o contato com filhos de cineastas brasileiros, cujos nomes obviamente eu não revelarei, mas querem saber como foi? "Eu gostaria de entrevistar você sobre o legado de seu pai, está interessado (a)?" Após muito tempo, chegava uma resposta fria: "Ok". Desisti das entrevistas, voltando minha atenção para os estrangeiros. É broxante. Você percebe que os próprios filhos não se importam em preservar o legado dos pais. Isso é sintomático de tudo o que escrevi nos primeiros parágrafos.

Os cineastas americanos, como George Lucas, Coppola, Scorsese e Spielberg, foram responsáveis por salvar carreiras de diretores de outras nacionalidades, como Akira Kurosawa, quando ele não conseguia financiar seus filmes. Os cineastas nacionais, salvo raras exceções, sequer ajudam seus próprios colegas. Excesso de picuinha e chorumela, carência de generosidade e ousadia. É como aquela velha discussão sobre a presença dos "enlatados" americanos na televisão brasileira. Analise os "novos" programas que as emissoras divulgam a cada semana. A triste realidade é que tiraram o espaço das séries e filmes americanos, mas o que existe hoje são programas brasileiros com formatos criados pelos americanos. Será que nossos produtores não conseguem ter criatividade para elaborar ideias originais? Como podemos reclamar da presença dos americanos na televisão, quando os nossos campeões de audiência são formatos comprados deles? Não temos essa moral.

Eu sonho com um futuro em que as salas de cinema brasileiras deem o mesmo espaço para filmes nacionais e estrangeiros, mas não ficaria feliz de ver uma comédia medíocre nossa tomando o lugar de um "Jogos Vorazes". Não é questão de patriotismo. Temos que desejar que o espaço seja conquistado por mérito. Isso apenas ocorrerá em longo prazo, envolvendo muito mais do que a burocracia de espaço nas salas. A atitude do brasileiro, partindo dos cinéfilos, passando pelos cineastas, até os executivos da área, no que tange sua própria memória cultural, deve se modificar radicalmente.

O Cinema Nacional Precisa se Libertar de Glauber Rocha


O mais recente filme do diretor Christopher Nolan, "Interestelar", possui muitos problemas estruturais, mas é louvável a ambição do roteiro em arriscar discussões profundas no cinemão mainstream americano, atualmente tão escravo das fórmulas, reutilizadas com pouca coragem. Você sai da sessão com vontade de reunir um grupo de amigos e sair falando sobre os conceitos de física quântica, matéria que muitos desprezaram na escola porque o professor não a fazia parecer interessante como conseguiu o cineasta. É uma obra que esbanja verba, mas a indústria já provou que é possível tratar de temas fantásticos, uma ficção científica de qualidade, com baixo orçamento. O que vale é a criatividade, a ideia é mais poderosa que a computação gráfica. Você pode insinuar que existe um monstro no nevoeiro, sem nunca mostrar ele, causando no espectador um medo maior do que se exibisse o monstro em gloriosa computação gráfica. Aquilo que reside nas sombras é tremendamente mais apavorante do que aquilo que conseguimos enxergar.

O gênero da fantasia é perfeito até para a evolução da própria linguagem cinematográfica, já que seus diretores precisam criar novas formas de equiparar a forma à liberdade criativa do conteúdo. Um bom exemplo é o de um adolescente Sam Raimi, na época um sonhador desconhecido e sem dinheiro, criando o que hoje é chamado de "Raimi Vision", a câmera presa em uma prancha de madeira, possibilitando em "A Morte do Demônio" aquelas sequências onde vemos, em POV (ponto de vista), a aproximação rápida do mal que ameaça os personagens. Ele foi obrigado, pela falta de recursos, a forçar sua imaginação na tentativa de transportar sua ideia para a difícil realidade do set de filmagem.

Temos poucos cineastas brasileiros que apostam no cinema fantástico, como Rodrigo Aragão, mas que não são devidamente abraçados por uma indústria preguiçosa que vive de ciclos. José Padilha, já celebrado após o sucesso de "Tropa de Elite", foi fazer cinema fantástico lá fora, com sua ótima refilmagem de "Robocop". Será que ele teria espaço/incentivo para realizar algo no gênero em sua própria nação? Caso analisemos apenas os anos recentes, vivemos a época da exploração da criminalidade nas favelas, seguido pelas comédias pensadas especificamente para um público menos criterioso, até os filmes de temática espírita, que, dependendo do ponto de vista, pode ser considerado uma espécie de ficção científica, chegando agora às cinebiografias. Sem o necessário incentivo aos jovens cineastas dispostos a se aventurar no cinema de fantasia, estamos fadados a um panorama de progressiva estagnação criativa.

Vivemos uma cultura complexada que parece se envergonhar do conceito de heroísmo, uma atitude de constante cinismo, que na realidade esconde um medo profundo de se arriscar em áreas já dominadas por artistas estrangeiros de competência comprovada. Um desprezo irracional pelo cinema de gênero, como se a liberdade autoral não pudesse inteligentemente coexistir com as necessidades mercadológicas da indústria. E, analisando de forma séria, podemos traçar uma possível origem desse desprezo nas ideias de Glauber Rocha, um cineasta que, assim como todos, moldou sua obra com referências estrangeiras, especificamente o cinema neorrealista italiano e a nouvelle vague francesa. O cinema nacional precisa urgentemente se libertar desse conceito medroso e limitante, abraçando com carinho aqueles cineastas que estão dispostos a fugir da zona de conforto. 

Star Wars e Eu


Eu consigo me lembrar da reação que tive ao assistir pela primeira vez "O Retorno de Jedi", aos sete anos, num VHS gravado de uma exibição na televisão. Não sabia nada sobre o filme. Foi uma reação de estranheza, já que parecia um show dos Muppets, com aquele adulto vestido de cachorro, mas o tom era sombrio demais. Eu tinha pesadelos com a imagem do Imperador, muito mais amedrontador que Darth Vader, que eu achava parecido com o vilão do Jaspion. Meu pai foi o responsável pela minha irreversível iniciação nos caminhos da Força, comprando, no distante ano de 1995, o box em VHS da trilogia, ainda intocada pelo seu criador. Somente aos dez anos é que fui assistir pela primeira vez o original e sua celebrada sequência, entendendo então a complexidade da saga de George Lucas. Eu via inúmeras vezes umas curtas entrevistas com ele, conduzidas pelo crítico americano Leonard Maltin, que iniciavam cada fita, pensando que eu adoraria ter aquela profissão, estar envolvido naquele mundo mágico de sonhos. Naquele ano eu me tornei um fã da saga, mas eu lembro que não tinha tanta coisa no mercado sobre os filmes, como bonecos, revistas em quadrinhos e álbuns de figurinhas. E eu já achava que estava bom demais, pois com minha imaginação, os bonecos dos "Comandos em Ação" se tornavam os heróis da Aliança Rebelde. 

Imaginem minha angústia quando, no final do mesmo ano, passeando em uma livraria com minha mãe, encontrei um exemplar de "Guerra nas Estrelas - A Última Ordem", de Timothy Zahn, uma bíblia pesada com uma bela capa, os desenhos de Han Solo, Leia, Luke Skywalker e uma personagem que eu não conhecia. Eu não acreditei quando vi aquilo, o mercado naquela época não era tão generoso para os nerds. Lendo a contracapa, descobri que se tratava de uma trilogia, eu estava fadado a seguir em meu carma de iniciar pelo capítulo final. O livro era caro, tive que implorar pra minha mãe comprar, mas valeu o esforço. Numa época sem internet, tive que caçar informações sobre aquele produto. Cheguei a pensar que se tratava de uma novelização de algum novo filme que estavam produzindo. Meses depois de finalizar a leitura, descobri que era praticamente impossível encontrar os outros dois volumes, acabei desistindo. Após um ano e meio sem novidades sobre a saga, achei que nada iria me surpreender.

Em 1997, com doze anos, vivi uma experiência que se recusa a sair de minha mente. Após descobrir por anúncios nos intervalos televisivos que a trilogia seria relançada nos cinemas, estava eu com meus pais no cinema do shopping center, o que era uma novidade pra mim, já que estava acostumado com os de rua, sem conseguir conter a ansiedade. Eu me lembro de ficar pulando de felicidade quando vi na banca de jornal, que ficava no mesmo andar das salas, uma edição enorme da Revista SET, especial sobre aquele relançamento, mostrando as modificações. Eu devorei a revista na longa fila de entrada, feliz com as insinuações de que haveria uma nova trilogia em breve. Era Natal fora de hora, foi uma das tardes mais felizes da minha infância. Escutar a trilha de John Williams na tela escura, assistir a grandiosidade daqueles personagens que cabiam com dificuldade na minha televisão de quatorze polegadas. Eu adorei as modificações dessa "Special Edition", não sou da turma dos revoltados. Tenho ressalvas sobre algumas realizadas, vários anos depois, para os lançamentos em DVD, mas nada grave.

Vivi intensamente o lançamento de cada novo episódio das prequels, acompanhando as notícias com mais tranquilidade nesse mundo maravilhoso da internet, acreditando que seria minha despedida daquela lembrança tão bacana da minha infância. Assisti o "Episódio 3" umas cinco vezes no cinema, com a mesma bonita melancolia do Andy ao se despedir dos seus bonecos ao final de "Toy Story 3". Era mais que o desfecho de uma trilogia, simbolizava um aceno nostálgico para aquele garoto que fui outrora, numa realidade lúdica sem tantas dificuldades. Agora, já com trinta e um anos, estou tendo a sorte de poder viver novamente o fascínio da ansiedade por uma nova trilogia, com a presença daquele elenco original que foi o responsável pela conexão emocional dos fãs com o projeto. O novo episódio, intitulado "O Despertar da Força", já está sendo vendido pelo ator Anthony Daniels, que faz C3PO, como a melhor sequência da saga. Torço para que o diretor J.J. Abrams capte a essência e acerte a mão. O que era sonho outrora, quando me via no lugar do Leonard Maltin, hoje é a minha realidade. Vivo o sonho. Já fui como Luke, vivendo uma realidade tremendamente chata e admirando os sóis de Tatooine, imaginando que desafios me esperavam naquelas estrelas. Aceitei encarar o desconhecido e, tenho certeza, a aventura da vida é espetacular, mesmo sem X-Wings e sabres de luz.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Nos Embalos do Rei do Rock - "A Mulher Que eu Amo"

Entrevista com Ginger Alden / Introdução:
Ama-me com Ternura:



Quando Elvis demonstrou seu desapontamento com a inserção de quatro canções no filme anterior, um projeto onde acreditava poder ser o início de uma carreira como ator dramático no cinema, sua grande paixão, seu empresário pediu que ele fizesse uma escolha. "Olha", explicou o coronel Parker, "é muito simples. Continuamos desse jeito, nós fazemos dinheiro. Mudamos para a sua maneira, nós não fazemos dinheiro”. Elvis estava começando, sabia o que era a pobreza, ele queria melhorar a vida dos pais, então abaixou a cabeça e decidiu assinar o contrato do próximo filme, totalmente focado em canções, colorido, uma diversão despretensiosa.


A Mulher Que eu Amo (Loving You – 1957)
Deke Rivers (Presley) vem do Sul, mas ele não se adapta ao mundo da música country. Uma promotora musical megera, interpretada por Lizabeth Scott, reconhece o talento único do jovem e o explora como um novo rosto que encanta o público. A mídia distorce seu encanto e o identifica como uma pessoa temperamental até ele provar que foi tão somente um mero engano.


A trama era praticamente uma cinebiografia do próprio cantor, que estava assustado com a rapidez de sua ascensão, com o estúdio recebendo cerca de duas mil cartas e quinhentas ligações diárias de fãs de várias partes do mundo. E o empresário se certificava de que todas as cartas recebessem resposta e, na maioria das vezes, com fotos autografadas. Os pais dele, sem nenhum envolvimento no meio artístico, batiam na porta da Paramount com a timidez de quem está visitando um empregado comum, uma postura que reflete a humildade do próprio Elvis. O jovem nunca recusou um autógrafo, nunca cobrou por fotos, atitude que manteria pelo resto da vida, mas que, em uma rotina de filmagens, acabava atrapalhando o cronograma, já que ele ficava horas atendendo as fãs. Como forma de compensar, ele não lanchava entre as tomadas, seguia direto até o crepúsculo do dia. Acreditando que ficaria melhor na tela grande em cores, ele pintou seu cabelo castanho claro de preto, visual que manteve até o fim da vida.

Foi o primeiro trabalho de Hal Kanter na direção, tendo sido roteirista de alguns filmes de Bob Hope e Jerry Lewis. Ele voltaria a trabalhar com Elvis, como roteirista, no sucesso “Feitiço Havaiano”. O produtor Hal Wallis escalou dois veteranos: Lizabeth Scott e Wendell Corey, para amparar o jovem em cena. A química entre Deke Rivers e a promotora musical, vivida por Scott, refletia o carinho que se estabeleceu entre os dois nas filmagens. Na primeira cena em que aparece, o pobretão Deke carrega uma caixa, com o olhar pousado no chão, o corpo transmite sua insegurança, enquanto admira um belo carro estacionado no local, o símbolo de estabilidade financeira. Elvis costumava presentear desconhecidos com carros, como quando abordou uma senhora que, vestida de forma simplória, admirava a vitrine de uma concessionária. Ele chamou o gerente, pediu a chave do automóvel e entregou na mão da mulher.

A profunda introversão de Elvis, um dos elementos de seu mito, é inserida nessa trama e, de forma mais eficiente, em “Balada Sangrenta”. Seu personagem é praticamente carregado para o palco em sua primeira apresentação, cantando de forma tímida a ótima “Got a Lot o' Livin' to Do”. A câmera se mantém no rosto dele durante a maior parte do tempo, mostrando que a fórmula de seus filmes estava sendo delineada, objetivando os gritos das adolescentes nas salas de cinema a cada quebra da quarta parede, especialmente o desfecho da canção, quando Elvis repete o olhar intimidador, marca registrada de suas apresentações ao vivo. Já mais seguro, minutos depois, o personagem defende outra pérola do rock: “Party”, composta por Jessie Mae Robinson, repetindo-a integralmente na sequência seguinte, mostrando maior desenvoltura em seus movimentos no palco. Segundos depois, uma montagem ao som de um medley com “(Let me be your) Teddy Bear”, “Got a Lot o’ Livin’ to Do” e a fraca “Hot Dog”, evidenciando a evolução do rapaz como músico, atravessando as estradas da nação. E, tudo isso, antes dos vinte e cinco minutos de filme. É clara a intenção de manter Elvis cantando o maior tempo possível, um caminho antagônico ao de “Ama-me com Ternura”. O público respondeu bem a essa estratégia, solidificando a fórmula para os próximos projetos.

O cantor conseguiu colocar no elenco seu trio de músicos: Scotty Moore, Bill Black e DJ Fontana, o quarteto vocal “The Jordanaires”, além de inserir seus pais como parte do público que aplaude ele no desfecho. Após a morte de sua mãe, em 1958, Elvis se recusou a rever o filme. Dentre as canções da trilha sonora, "Loving You" é uma linda balada, “Lonesome Cowboy” pode ser tola, mas a explosiva “Mean Woman Blues” emoldura uma cena icônica que representa a rebeldia do astro em seus anos iniciais, copiada em “Balada Sangrenta”, quando um valentão tenta intimidar o rapaz, a quem chama debochadamente de “costeletas”, em uma lanchonete, fazendo valer aquela máxima: não mexe com quem está quieto. Deke simplesmente faz o valentão assistir todas as garotas, até aquela que o acompanhava, vibrarem com seu requebrado. A cena se encaminha para uma pancadaria no estabelecimento, elemento que se tornaria tradicional em seus filmes seguintes, com o oponente se chocando com o jukebox, que começa a tocar um rock, exatamente como em “Saudades de Um Pracinha”. Os filmes de Elvis, já no início dos anos sessenta, haviam se tornado uma franquia autoreferenciável. O ator Ken Becker, que interpreta o valentão, iria repetir o tipo em “Garotas e Mais Garotas”, alguns anos depois.

A Seguir: “O Prisioneiro do Rock” (Jailhouse Rock)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

TOP - 2014


1 – Ela (Her), de Spike Jonze
“... O que nos faz humanos? A capacidade de sermos afetados pelo outro, sentir compaixão e desejo. O protagonista vivido por Joaquin Phoenix trabalha inserindo emoções no subconsciente de estranhos, criando cartas escritas à mão para seus clientes. O futuro se mostra através de aparatos tecnológicos requintados, mas a realidade dos homens é exatamente a que vivemos hoje: pessoas que se cruzam nas ruas e não se encaram; corpos carentes de calor humano mesmo quando próximos. A terrível solidão que se experimenta em grupo. Num toque de gênio, Jonze encaminha o protagonista a uma situação crucial, onde tendo a opção de, com a permissão de sua parceira, experimentar o sexo fisicamente com uma substituta, ele a considera algo menos real, incapaz de emular com ela os sentimentos que compartilha diariamente com Samantha. Ciúme, insegurança, medo. Autênticas emoções que nascem do convívio, nos longos momentos de cumplicidade serena após a usual satisfação sexual dos primeiros meses de uma relação. Ao lembrar-se de sua esposa, vivida por Rooney Mara (ele se recusa a formalizar o divórcio, mesmo sabendo que não há mais possibilidade de retorno), ele percebe que está apenas ativando uma versão dela em sua memória afetiva, algo facilmente manipulável. A nostalgia embeleza tudo o que toca. O que é, afinal, real? Como quando sentimos pena na poética morte de HAL 9000 no clássico de Stanley Kubrick, acabamos nos surpreendendo com o nível de afeto que desenvolvemos ao longo da trama pelo casal...”


2 – Boyhood – Da Infância à Juventude (Boyhood), de Richard Linklater
“... Parafraseando John Lennon, a vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado com outros planos. A breve e cruel experiência do aprender a desapegar, necessitando superar obstáculos que nos surpreendem nos momentos mais improváveis. Uma sucessão de erros e acertos cometidos por estranhos seres complexos que se descobrem compartilhando um mesmo universo de incertezas, unidos em uma sinfonia diária de perguntas cujas respostas nunca são encontradas. O diretor Richard Linklater ousou tentar decodificar esse enigma existencial em um projeto ambicioso em escala, mas com uma sensibilidade minimalista, capturando ao longo de quase doze anos as mudanças na vida do protagonista, a jornada fascinante que o leva da inocência de sua infância à maturidade precoce em sua juventude. O filme é impressionante na forma como nos faz refletir sobre nossas próprias vidas, sem apelar para os recursos emocionais tradicionais, resultando em um lindo e único retrato proustiano das várias etapas na formação do homem...”


3 - Até o Fim (All is Lost), de J.C. Chandor
“... É espantosa a precisão de Chandor, responsável pelo roteiro e direção, ao narrar essa batalha do homem contra as forças da natureza. Tendo passado por uma experiência quase fatal na adolescência, quando conseguiu se desprender das ferragens de seu carro, após uma forte colisão, ele constrói nesse filme uma fascinante parábola sobre a fragilidade da mortalidade, sobre a beleza triste de um homem que lamenta sua própria morte. Ponto essencial de ruptura: Não precisamos nos conectar emocionalmente com o personagem. O roteiro não perde tempo em flashbacks idílicos, sequer introduz dicas consideráveis sobre a vida do homem de quem não sabemos o nome. A Virginia Jean que dá nome ao barco pode ser sua esposa, sua mãe, sua filha ou ninguém em especial, não importa. O anel em seu dedo pode ser uma aliança, como também pode não simbolizar coisa alguma. Com exceção da narração no início, que pode ser direcionada a alguém ou à sua própria consciência, o filme praticamente é todo estruturado em silêncio. Cada espectador irá criar sua própria história sobre o homem e suas motivações. Não existe o elemento da outridade, clichê em qualquer obra similar. Até mesmo Ernest Hemingway presenteou o seu Santiago com um espadarte que lhe serviu de confidente silencioso. O homem que acompanhamos não interage ou interdepende de ninguém. Ele apenas existe a partir do outro, nesse caso, o espectador. No horizonte se insinua cada vez mais ameaçadora uma devastadora tempestade, que aniquilaria facilmente o barco mais resistente, um destino inevitável, como a morte. O barco de nosso Sísifo fica cada vez mais desgastado, após cada obstáculo superado, mas existe alguma força inexplicável que, contra todas as probabilidades, mantém o homem acreditando que aquele “corpo” irá resistir. Numa analogia ao O Velho e o Mar, o homem é o peixe, restando ao final apenas a alma. Apenas?...”


4 - O Homem Duplicado (Enemy), de Denis Villeneuve
“... O roteiro capta sutis analogias do autor ao totalitarismo e, como em toda fábula, as potencializa generosamente. Conhecemos o professor exatamente enquanto ele tentava ensinar aos seus alunos sobre a obsessão do Estado em controlar o povo, entregando pão e circo e mantendo-os ignorantes, pois é mais fácil manipular um gado com preguiça de pensar. Como educador, ele é o principal alvo daqueles que tencionam o regime ditatorial, já que é o responsável por incitar nos jovens o estímulo ao questionamento. Tomadas rápidas mostram o que parece ser uma teia de aranha sobre a cidade, ilusão criada pelo ângulo da câmera ao focar simples cabos elétricos. Em outro momento, uma rápida tomada aérea transforma vários prédios em um imenso labirinto, reforçando a batalha diária dos indivíduos que se espremem pelos corredores, muitas vezes sem encontrar sentido para tal esforço. Uma teia que anestesia enquanto sufoca gradativamente sua vítima. O totalitarismo, nas palavras do próprio professor, tolhe todas as formas de expressão individual, exatamente o que ocorre com ele quando descobre surpreso que não é mais um indivíduo, que existe uma duplicata exata sua, uma perfeita antítese, vivendo uma vida de aventuras, um artista especialista em representar outros papéis...”


5 - O Grande Hotel Budapeste (The Grand Hotel Budapest), de Wes Anderson
“... Existe um pouco da elegância cômica de Ernst Lubitsch, uma melancolia que ecoa a de O Tempo Redescoberto de Marcel Proust, criativas gags sonoras que remetem a Jacques Tati, uma respeitosa reverência à fictícia Freedonia dos Irmãos Marx, até mais explicitamente uma homenagem a Blake Edwards, em uma das situações mais engraçadas no terceiro ato e na inspiração em Clouseau, eterno Peter Sellers, nos trejeitos do personagem de Ralph Fiennes, mas também vejo grande similaridade com a abordagem metafórica, proposta por Vicki Baum em seu livro Grande Hotel, do estabelecimento de hospedagem como um microcosmo humano, um personagem que respira e evolui na história. O aspecto fabulesco, realçado pelo estilo visual inimitável do diretor, com a fotografia do usual parceiro Robert Yeoman, e pelo constante uso dos cenários pintados na paisagem, evidencia ainda mais a contundência emocional da mensagem, que se revela cada vez mais tocante em revisões. Somos presenteados com uma trama que é apresentada pela ótica criativa do autor, as lembranças que ele conta a partir das lembranças do dono do hotel, enquanto jovem impressionável, vivido por F. Murray Abraham e pelo promissor estreante Tony Revolori. Esse recurso narrativo possibilita, com o auxílio de uma espécie de MacGuffin, o quadro do garoto com a maçã, uma intensa experimentação com vários gêneros, como o filme de espionagem, o filme de prisão, o giallo italiano, a comédia pastelão e até o terror, representado especialmente pelo personagem vivido por Willem Dafoe... 


6 - Garota Exemplar (Gone Girl), de David Fincher
“... Falar sobre a trama, nesse caso, é um desserviço à obra, que se beneficia com a ignorância do espectador. A desconstrução de um modo de vida, onde o diretor flerta cinicamente com os clichês do gênero, exibindo a ferida aberta na imprensa sensacionalista, a manipulação da opinião pública, a teatralidade das investigações do desaparecimento da jovem, elemento que se confunde à teatralidade nos relacionamentos, simbolizado pelo ritual do casamento...”


7 - O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra
“... O filme é autoral e minimalista, mas inteligentemente não é anti-indústria. O impactante resultado final incita naturalmente o boca a boca no espectador, mérito exatamente das convenções do gênero bem executadas que a obra abraça. Não saberia por onde começar os elogios às atuações de Leandra Leal e Milhem Cortaz. A bela e talentosa atriz entrega um desempenho assustador, transmitindo na sutileza de olhares a vulnerabilidade da personagem, atravessando os diversos estágios psicológicos de seu arco narrativo, indo da doçura à intensa crueldade em questão de segundos. Até mesmo o personagem vivido por Emiliano Queiroz, aparecendo pouco e sem dizer uma palavra, acaba se mostrando narrativamente essencial no entendimento do enigma comportamental que envolve a protagonista. Cortaz continua sendo uma força da natureza, praticante da difícil arte de fazer todos os diálogos do roteiro soarem como improvisos naturais, sempre com um toque de ironia. Ele vive um homem preso em um relacionamento desgastado, que acaba encontrando a injeção de ânimo no arriscado desafio amoroso que enxerga numa jovem que conheceu num transporte público, um simbólico motivo condutor do roteiro e que se apresenta desde os créditos iniciais até o desfecho, representando o fator desconhecido que se esconde nas várias encruzilhadas decisórias diárias na vida de todo indivíduo...”


8 - A Balada de um Homem Comum (Inside Llewin Davis), de Joel e Ethan Coen
“... Com uma direção de fotografia inspirada na capa do disco The Freewheelin, de Bob Dylan, a trama, com toques do humor característico dos irmãos Coen, evidencia a angústia diária de um músico criativo enfrentando a mediocridade em sua indústria, que celebra canções padronizadas defendidas por artistas de barro, sem personalidade e estofo cultural. A narrativa conscientemente lenta, com todas as canções apresentadas na íntegra, estabelece um tom quase fúnebre, como se estivéssemos assistindo a gradativa morte dos sonhos profissionais do personagem, que, incapaz de conviver em harmonia com seus semelhantes, acaba se entregando emocionalmente ao elemento inesperado, um gato que cruza seu caminho por acidente. Mas o sorriso se mantém no rosto do espectador, já que seu fracasso consiste em não se vender para o esquema asqueroso do mercado. Mesmo perdendo, ele está ganhando...”


9 – Sobrevivente (Djúpið), de Baltasar Kormákur
“... O sentimento de desajuste social, sua timidez perante as câmeras, sua resiliência ao negar qualquer modificação pessoal causada pela tragédia, são elementos que demonstram a negação consciente do protagonista em ser transformado em um estereótipo de heroísmo por estranhos financeiramente interessados na eterna lembrança de sua desgraça. Ele viveu um momento ruim, mas isso não modificou sua essência, não fez com que ele se tornasse alguém mais interessante socialmente. Como ele mesmo insinua em uma cena, ninguém realmente se importa com o que aconteceu, tudo não passa de uma estatística midiática para preencher temporariamente as páginas dos jornais com manchetes sensacionalistas. Gulli nunca temeu a morte e recusa a falsidade daqueles que se aproximam dele pelo herói que ele nunca foi, ele quer apenas ser esquecido pelos urubus sociais, voltar ao trabalho e ao convívio diário com seu cachorro...”


10 - Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy), de James Gunn
“... Ao se conectar com seu passado através de um objeto tão frágil como um toca-fitas, Quill nos evidencia que sua anarquia é uma resposta imatura para os obstáculos da vida adulta. A lembrança triste da morte de sua infância, com seu desapegar forçado da mãe, não pode ser empecilho para a aceitação de sua missão ao lado de seus novos amigos. Somente quando ele abraça essa constatação, optando por verter a lágrima ao invés de retê-la, o jovem se mostra preparado para singrar o espaço sideral, como Luke Skywalker ao aceitar deixar seu conforto para acompanhar Ben Kenobi. É o clássico conto de amadurecimento que se repete a cada geração...”

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Mac - O Extraterrestre" / "Encaixotando Helena"


Duas fitas nostalgicamente sofríveis, a cópia fajuta de um dos maiores sucessos de Steven Spielberg, e uma das maiores bizarrices que já receberam sinal verde de uma produtora. Não fazem falta alguma no mercado de DVD.


Mac – O Extraterrestre (Mac and Me - 1988)
Encaixotando Helena (Boxing Helena – 1993)
É impressionante o número de crianças que dizem que morriam de medo do “E.T.”, mas, com certeza, elas não devem ter assistido “Mac – O Extraterrestre”. Eu literalmente corria da frente da televisão quando aparecia o alienígena ou os membros de sua família, com aquele modo de andar esquisito. Acredito que, por eles terem uma forma mais humana, a sensação de estranheza era maior. Diferente do sentimentalismo elegante do clássico de Spielberg, nessa pérola de ruindade do fraco diretor Stewart Raffill, cada cena é pensada com o objetivo de extrair as lágrimas do público. O menino que vira amigo do alienígena, Jade Calegory, é paralítico na vida real, um artifício utilizado pelo roteiro sem nenhum senso de sutileza. A produção, cópia vergonhosa da trama do irmão mais famoso, tem momentos que me remeteram aos filmes da fase final dos Trapalhões, quando o product placement era inserido de forma bizarra, levando a crer que estamos assistindo uma propaganda da Coca-Cola e do McDonalds, com direito até a uma absurda sequência de dança dentro do estabelecimento. E o final? Os alienígenas acabam se tornando cidadãos americanos, vestidos a caráter. Ao ejetar a fita do aparelho, surpreso, eu percebo que ainda morro de medo desse filme.

“Encaixotando Helena”, a bomba dirigida pela filha de David Lynch. Essa fita causou rebuliço na época, não parava nas prateleiras das videolocadoras. Meus pais alugaram escondidos, já que não queriam que eu assistisse. Até hoje eu me recordo do pavor deles, alguns meses depois, quando eu cheguei com o VHS de “Perdas e Danos”, com aquela capa maravilhosa. Não havia internet, então o boca a boca era poderoso, com pessoas que diziam que nunca haviam assistido nada mais chocante. O gerente da videolocadora, querendo lucrar, contava para os clientes que alguém já tinha devolvido a fita com raiva, reclamando que a esposa chegou a passar mal assistindo. Aquela informação era praticamente um cheque assinado em branco, os clientes pagavam até uma locação a mais, somente para que a fita ficasse mais tempo em seu poder. Meu pai trouxe o estojo preto numa Sexta à noite, sem fazer alarde. Claro que acabei assistindo antes deles. E, com o olhar de uma criança, já sabia que tinha perdido meu tempo com uma grande bobagem. Em teoria, a obsessão de um médico por uma garota, levando-o ao ponto de cortar seus membros e encaixotá-la, tinha tudo para resultar em um filme fantástico, mas a solução encontrada no terceiro ato é, no mínimo, broxante.
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Devido ao ótimo número de acessos, o especial agora fará parte do blog. Em breve, novos textos...

domingo, 4 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Hora de Matar" / "O Punho Demolidor"


Hoje escolhi abordar dois gêneros usualmente subestimados pela crítica, o faroeste e o filme de Artes Marciais, torcendo para que essas fitas ainda estivessem funcionando.


Hora de Matar (Il Momento di Uccidere – 1968)
O Punho Demolidor (Qi lin Zhang – 1973)
“Hora de Matar”, dirigido por Giuliano Carnimeo (o mesmo de “O Rato Humano”, já abordado nesse especial), foi, caso minha memória não esteja me pregando uma peça, o meu primeiro faroeste, fora os clássicos de John Wayne e os revisionistas modernos, como “Silverado”. Eu me lembro de ter estranhado o aspecto sujo da produção, aquelas roupas desgastadas e sem cor, que contrastavam bastante com aqueles figurinos coloridos de teatro infantil dos westerns americanos em Technicolor. Eu devia ter por volta de doze anos, costumava devorar aqueles livros de bolso que eram vendidos nas bancas de jornal, “Chumbo Quente” e “Oeste Beijo e Bala”, fazia coleção dos quadrinhos do “Tex”, alguns anos depois eu conheci “Blueberry”, enfim, adorava o gênero. Nem preciso dizer que um de meus videogames preferidos é “Red Dead Redemption”. E esses filmes realizados na Itália transmitiam uma realidade muito próxima daquele universo que eu alimentava em minha imaginação. Os roteiros podiam não ser tão elaborados, mas compensavam em outros elementos, como ação e trilha sonora. “Walk by my Side”, composta por Francesco de Masi, que emoldura os créditos iniciais, gruda no ouvido e você fica cantarolando pela casa. Gostava especialmente da cena de tiroteio no bar, mérito do diretor de fotografia Stelvio Massi, onde o personagem vivido por George Hilton utiliza os espelhos como forma de fazer o oponente gastar sua munição. Analisando hoje, a trama é fraca e convencional, o filme é ruim, mas o terceiro ato conduz a uma revelação final bem interessante.

Como posso esquecer o dia em que adquiri o VHS de “O Punho Demolidor”? Um símbolo de uma época sem internet, onde era difícil conseguir informação sobre qualquer assunto, ainda mais os obscuros. Eu sabia que o Bruce Lee tinha completado apenas quatro filmes em sua fase madura, já tinha adicionado todos na minha videoteca, mas aquela capa bizarra estampava sua imagem, levando a crer que ele fazia parte do elenco, e informava que ele tinha dirigido o filme. Até hoje lamento o valor irrisório que gastei. Voltei pra casa e, nem esperei muito, coloquei a fita pra rodar no aparelho. A sensação, impossível de descrever, era de intenso estranhamento. Além de estar numa qualidade de imagem horrorosa, a trama era lamentável, arrastada, com um protagonista sem o mínimo de carisma necessário, em suma, uma tragédia. E, o que mais me incomodava, eu não tinha reconhecido o Bruce Lee nas cenas. Nos últimos segundos, quando já estava me dirigindo pra frente da televisão, pronto para ejetar aquela fita e tacá-la pela janela, uma inserção rápida, com alguém que parecia o saudoso dragão abraçado a uma criança em um set de filmagem. Meus olhos esbugalharam, encostei o rosto na tela de dezesseis polegadas e apertei o rew.

Anos depois, com uma pesquisa rápida na internet, descobri que ele apenas aceitou ajudar na coreografia das cenas de luta, pela amizade de infância que tinha com o protagonista Sheau Chyh Lin, mas que odiou o resultado e a forma como a produção tentou capitalizar utilizando sua fama. A produtora Starsea Motion Pictures ofereceu a oportunidade para o rapaz, desconhecido como ator e lutador, com a garantia de que ele iria dar um jeito de colocar Lee no projeto. A tal cena que descrevi, por incrível que pareça, foi filmada secretamente, enquanto o astro ajudava nas filmagens. Uma exploração que não seria a única na carreira dele, já que, mesmo após sua morte, os estúdios continuariam realizando filmes com sósias, “Bruce Li”, “Bruce Le” e “Dragon Lee”, entre outros, um fenômeno curioso e de extremo mau gosto.  

sábado, 3 de janeiro de 2015

Rebobinando o VHS - "Direito de Morrer"


No início do reinado do VHS, era comum encontrar capas em inglês com o título original. Sempre fui fã de James Stewart, foi sua presença que me levou a adquirir esse filme na época. Um projeto praticamente desconhecido, feito para a televisão americana, mas que marca o encontro histórico de Stewart e Bette Davis. Não me recordo se a imagem era tão ruim quando adquiri a fita, mas, revendo agora, fiquei chocado com a péssima qualidade, até mesmo para os padrões limitados do formato. Uma trama emocionante e que, infelizmente, não foi lançada por aqui em DVD.


Direito de Morrer (Right of Way – 1983)
Um pacto de suicídio entre um casal de idosos, sem netos, após a constatação de que a esposa está com uma doença terminal, tendo que enfrentar a obstinada negação da filha. Impossível assistir a fita e não pensar em “Amor”, de Michael Haneke, guardadas as devidas proporções, celebrando a coragem da temática sobre eutanásia, ainda mais quando levamos em consideração que foi um filme de baixo orçamento feito para a televisão há mais de trinta anos, com todos os vícios de linguagem usuais em produções similares. É possível perceber que o diretor George Schaefer bebeu da fonte de “Num Lago Dourado”, para manter a leveza na abordagem, evitando sensacionalismo, com o alívio cômico reservado às menções aos gatos da casa, com nomes de artistas de cinema. A química dos atores reflete as complicações nos bastidores, com o ego de Davis falando mais alto, mas as cenas do casal no terceiro ato, retratando a cumplicidade que move as difíceis decisões tomadas, compensam todos os problemas.

É interessante a forma como a filha, vivida por Melinda Dillon, modifica sua forma de pensar, indo da máxima revolta ao terno sentimento de compreensão, simplesmente por se dedicar a estudar a questão, evitando qualquer submissão aos dogmas religiosos, adquirindo livros, como o ótimo estudo psicológico que aborda os cinco estágios do luto: “Sobre a Morte e o Ato de Morrer”, da doutora Elisabeth Kübler-Ross, e o campeão do prêmio Pulitzer de 1976: “Qual a Razão de Viver? Sendo Idoso na América”, escrito por Robert N. Butler.  James Stewart passou por caso semelhante, cerca de dez anos depois, após o falecimento de sua esposa Gloria, tornando-se recluso e evitando qualquer tratamento médico, passando a maior parte do tempo em seu quarto, saindo para se alimentar apenas por insistência de sua governanta.