quarta-feira, 29 de abril de 2015

A emoção de ter assistido "Jurassic Park" na infância


Quem era criança no lançamento do primeiro, com certeza, vai se lembrar com carinho do fenômeno que invadiu o Brasil. Em qualquer lugar que você entrava, tinha alguma coisa relacionada a dinossauros. Um fascínio compreensível, esses animais representam o fantástico tangível, cuja existência se pode provar em escavações. Nas bancas de jornal, fascículos sobre paleontologia, com esqueletos de plástico para você montar um Tiranossauro Rex que brilhava no escuro; nos Shopping Centers, exposições com dinossauros em tamanho real, que se moviam; na televisão, os programas no horário nobre despejavam reportagens sobre os monstros que conquistaram o planeta. Eu tinha nove anos, consigo sentir o aroma das pipocas sendo preparadas naquela tarde, enquanto aguardava com minha mãe na longa fila que dobrava a esquina do Cine Carioca, na Praça Sáenz Peña. O filme já estava em cartaz há algumas semanas, o sucesso de público diariamente divulgado na televisão, a expectativa era gigantesca. Minha mãe só conseguiu comprar ingressos para a sessão legendada, o que não me incomodou, nada justificaria o adiamento daquele momento, eu estava acostumado a assistir os VHS’s dos clássicos preto e branco legendados. É impressionante como conseguimos esquecer tanta coisa, porém, certas passagens seguem vivas em nossa mente, como se pudéssemos, num passe de mágica, retornar àquele local, reviver a situação.

Atrás do pipoqueiro, as pessoas caminhavam rapidamente na calçada, por vezes, olhavam com estranheza para aquele grupo de cinéfilos que aguardava ansiosamente a hora de entrar na sessão. Alguns metros atrás de mim, uma barraca improvisada vendia dinossauros de plástico, dos mais diversos, a preços exorbitantes. Pedi permissão à minha mãe para sair da fila e olhar aquele universo de brinquedos coloridos. Não tenho dúvida de que minha memória os torna mais bonitos do que eram na realidade. Ao lado do elegante portão de entrada, um display com várias fotos do filme. Como era emocionante viajar naquelas imagens, ignorando totalmente a trama, tateando no escuro, imaginando sequências inteiras e nomes de personagens. Todos na fila pareciam falar o mesmo assunto, havia um respeito que se perdeu hoje, uma dedicação verdadeira à experiência. A hora se aproximava, eu perguntava tanto para minha mãe se faltava muito, que ela passou a apenas mostrar o relógio de pulso. Aquela sensação mágica de saber que, ao acabar a sessão, a noite já teria caído sobre a cidade, aquela parte enigmática do dia, onde o ar era mais fresco, e, quanta inocência, as crianças já deveriam estar em casa.

O vento trazia até nós o barulho das pessoas saindo da sessão anterior, ao fundo, dava pra escutar também a trilha sonora dos créditos finais. Faltava pouco tempo, e, sem exagero, os pelos dos braços arrepiavam, eu sempre me sentia assim nesses minutos finais de espera. A fila começou a andar, eu puxei o braço da minha mãe, cheguei a tropeçar na senhora que estava à minha frente. Naquela época, antes mesmo do filme começar, essas preliminares já emocionavam. E então, como de costume, sem beber nada ou comer pipoca, com medo de desviar a atenção da tela grande, assisti pela primeira vez "Jurassic Park". Como esquecer aquela cena da revelação do imenso Braquiossauro? Spielberg, como o mestre que é, soube como poucos estabelecer o suspense, prolongando ao máximo a expectativa, com a câmera que se aproxima de Sam Neill, captando seu choque, conduzindo sua mão até o rosto de Laura Dern, virando-o na direção do animal. Aos olhos de qualquer criança naquela sessão, ele era real, conseguíamos sentir o peso da pata dele na grama. Nossos olhos ainda não estavam acostumados com a computação gráfica, a fantasia não havia sido banalizada. Uma sensação única, inesquecível, meu queixo literalmente caiu. Uma sala lotada de crianças e adolescentes, em completo e respeitoso silêncio. Quem viveu essa época mais elegante, sente a brutal diferença na sociedade atual, cada vez mais fria e indelicada. Hoje, em qualquer sessão de cinema, presenciamos apenas a grosseria generalizada. Que saudade da época em que não existiam celulares.

Eu lembro que gostei demais do filme, fiquei perturbado com aquela subtrama do funcionário traidor, ainda que esperançoso pela possibilidade da continuação com aqueles embriões refrigerados que caíram da mão dele, no ataque noturno, e foram parar na lama. Sem internet, o usual era discutir sobre a trama em família. Longos meses depois, mais uma espera angustiante, para poder locar o VHS, que saía mais rápido que pão quente. Eu ficava horas admirando, na locadora de vídeo, aquele estojo diferente que simulava ser feito de pedra. Conversando, passeando dentro da loja, fazia hora na esperança de que as fitas fossem devolvidas. Na parte de fora, com luz especial, um lindo display, com o símbolo, hoje clássico, do filme. Como o filme não era devolvido, eu acabava alugando outros, postergando em alguns dias aquela vontade desesperada de viver novamente aquela experiência. Amar cinema, naquela época, era, de fato, uma maravilhosa aventura.  

"Sexta-Feira 13" - Um passeio nostálgico por Crystal Lake


É impossível pensar em monstros do terror sem se lembrar de Jason Voorhees, ainda mais tendo sido criança na década de oitenta. Época maravilhosa, antes do maldito e hipócrita politicamente correto, onde você podia sair da escola, caminhar até a banca de jornal, somente para comprar os pacotes de figurinhas de seu álbum "Terror em Dose Dupla", protagonizado por Jason e Freddy Krueger, com cenas sangrentas dos filmes e, por incrível que pareça, simpáticas versões infantis dos personagens. Eu adorava esse álbum, foi um dos poucos que eu consegui completar. Alguns anos antes, eu ficava sentado horas na frente do meu Phantom System, versão brasileira do clássico console Nintendo 8-bit, tentando entender como se passar de fase no jogo "Sexta-Feira 13". Aquele Jason, versão púrpura, era amedrontador.

Eu lembro que minha mãe não me deixou ficar acordado pra assistir "Sexta-Feira 13 - Parte 6 - Jason Vive" numa "Tela Quente" global. No intervalo da novela, passava aquela cena do Tommy num barco, no meio do Lago Cristal, sendo perseguido pelo assassino da máscara branca. Eu só consegui ter liberdade de acompanhar pela televisão, que azar, quando foi exibido "Sexta-Feira 13 - Parte 8 - Jason Ataca em Nova York", o filme mais fraco da franquia. O que importa é que, anos mais tarde, aluguei quase todos os VHS’s na locadora perto de casa, aquelas capas lindas. Sempre achei que as capas dos filmes de terror eram as mais bonitas. Faltava apenas um, o primeiro, o único que eu ainda não tinha assistido. Esse era o mais difícil de encontrar em home vídeo. E como não tínhamos opções, o jeito era torcer para passar na televisão. Mais alguns anos se passaram, eu já sabia toda a trama, o "Pânico", de Wes Craven, já tinha brincado com a ausência do personagem no primeiro, porém, ainda não tinha conseguido ver o filme.

O destino irônico, como sempre. Em 1997, voltando de uma sessão de "Titanic", com minha mãe e minha irmã pequena, percebo a existência de uma locadora de vídeo inexplorada em minhas usuais garimpagens. Era bem aprazível, mesmo que pequena, com muitos títulos clássicos de sci-fi e terror. A esperança nascia de novo, meus olhos procuravam, em cada prateleira, qualquer raridade que pudesse ser adquirida e colocada em minha coleção. Foi quando adquiri o VHS de "Planeta Proibido", que acaba de ser lançado em DVD, pela distribuidora "Versátil". E, já indo embora, a visão periférica me revelou um estojo azulado, numa prateleira baixa, perto da porta de saída. Na imagem da lombada, uma jovem, com um machado enfiado na cabeça. Era o "Sexta-Feira 13" original, de 1980. E, para meu azar, não estava à venda. Não pensei duas vezes, chamei o gerente. A minha timidez ia embora nesses momentos. Após cerca de dez minutos de conversa, e olhares de desaprovação da minha mãe, que estava querendo voltar logo pra casa, consegui fazer com que ele me vendesse por um preço razoável.

A Seguir: TOP - Sexta-Feira 13, com uma breve análise sobre cada filme da franquia. 

"Quanto Mais, Melhor", de George Stevens


Quanto Mais, Melhor (The More The Merrier – 1943)
Washington. Durante a 2ª Guerra Mundial uma jovem, Connie Milligan (Jean Arthur), aluga metade da sua casa para Benjamin Dingle (Charles Coburn), um amável senhor. Ele por sua vez aluga metade da sua parte para Joe Carter (Joel McCrea), um sargento da força aérea.


Que deliciosa screwball comedy, também conhecida pelo esquisito título “Original Pecado”, uma das minhas favoritas, protagonizada pela bela Jean Arthur, dirigida por um dos maiores diretores americanos: George Stevens. É perceptível a influência de Lubitsch na coreografia das cenas, que não funcionariam sem a química perfeita entre Arthur, Joel McCrea e Charles Coburn. O roteiro consegue construir uma farsa adorável em um contexto de miséria, com a necessidade de acomodar a superpopulação causada pela movimentação da guerra. O cinema tinha o papel de, nesse período turbulento, onde o povo inseguro convivia com o medo, assegurar que tudo iria acabar bem, levantar a moral dos soldados e dos civis.

As mulheres estavam buscando empregos, o que conduz a uma das cenas mais engraçadas do primeiro ato, quando uma fila de funcionárias, que aguardavam bater o ponto no serviço, flertam descaradamente com o único homem presente. Agindo da mesma forma deselegante que os homens, com assobios e cantadas clichê, elas se transformam nas predadoras diante do objeto sexual. E, numa ousadia maior, rindo na cara da censura do “Código Hays”, o filme antecipa “Confidências à Meia-Noite”, clássico de Doris Day e Rock Hudson, inserindo, num truque visual, a imagem do casal na cama, divididos por uma fina parede. Como esquecer o erotismo latente na cena de sedução na escada, com Joel tentando, de todas as formas, tocar Jean, enquanto ela se esquiva? Um momento totalmente improvisado, como o ator afirmou em um documentário sobre o diretor. Outra cena que adoro: o casal sentado e, por incrível que pareça, dançando rumba, fingindo que não se conhecem, enquanto o noivo dela é entretido pelo personagem vivido por Coburn.

O filme ganha pontos por evitar o sentimentalismo, mantendo do início ao fim um leve tom de cinismo, o que, invariavelmente, potencializa os momentos dramáticos. Tente não se encantar com a forma com que Arthur quebra a quarta parede na cena da primeira noite em que divide o apartamento. Ela está particularmente sedutora na cena do topo do edifício, que mais parece um clube, em que os seus colegas se divertem lendo em voz alta os quadrinhos de Dick Tracy. “Quanto Mais, Melhor” é uma joia que merece ser apreciada com atenção redobrada. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

terça-feira, 28 de abril de 2015

Pérolas Subestimadas de John Ford


O Prisioneiro da Ilha dos Tubarões (The Prisoner of Shark Island – 1936)
Samuel Mudd, vivido por Warner Baxter, fazia juras de amor à sua amada esposa em uma noite tranquila, quando um homem ferido aparece à sua porta lhe pedindo ajuda. Ele não sabia que se tratava do famoso ator John Wilkes Booth, que havia acabado de assassinar o presidente Abraham Lincoln. Após entregar um generoso pagamento de cinquenta dólares ao médico, que lhe havia cobrado apenas dois dólares, o assassino continua sua jornada. O roteiro nos mostra, desde o princípio, que o protagonista possui um caráter íntegro, pois deixa claro que ele iria devolver o dinheiro, que considerava ter-lhe sido entregue por descuido, no momento em que batem à sua porta pela segunda vez. Sua esposa, vivida por Gloria Stuart, que viria a se tornar a versão adulta de Rose em “Titanic”, chega a brincar com ele: “Foi bom enquanto durou”. Na vida real, Samuel Mudd não era tão íntegro, realmente estava envolvido com Booth e o conhecia bem. Pode-se dizer que John Ford e o roteirista/produtor Nunnally Johnson, de “Vinhas da Ira”, agem como advogados de defesa de um réu culpado. A trama continua exercendo fascínio com uma noção perfeita de ritmo, levando-nos a nos importar pelo protagonista, que é condenado à prisão perpétua na Ilha dos Tubarões por ter auxiliado o assassino. Existe a preocupação de mostrá-lo como antiescravagista, fazendo com que um de seus escravos ajude-o, de uma forma inverossímil, mas narrativamente eficiente, em sua batalha por liberdade. Evento que não ocorreu na vida real, mas que funciona de forma impecável no filme. O desfecho é brilhante e, ainda hoje, mantém o público à beira da poltrona, preso emocionalmente, interessado até o fim. Envelheceu a estética, porém, sua essência mantém-se forte. Infelizmente não é tão reconhecido pelos fãs brasileiros do cineasta, que parecem valorizar somente os esforços dele no gênero Western.

A Longa Viagem de Volta (The Long Voyage Home – 1940)
Após o grande sucesso de crítica e público alcançado em sua adaptação da obra literária de John Steinbeck: “As Vinhas da Ira”, o diretor abraçaria quatro peças de Eugene O´Neill, que também foi consultor no filme, e construiria o que pode ser considerado uma “Odisséia”, clássico de Homero, pelos olhos de Jorge Amado, lembrei-me de “Mar Morto” de 1936. O próprio O´Neill afirmava ter apreciado muito o filme, assim como o próprio diretor, porém, mesmo com várias indicações ao Oscar, a obra nunca obteve popularidade entre os cinéfilos. Méritos ela possui, como a criativa fotografia de Gregg Toland, responsável por “Cidadão Kane”, que revolucionou a estética cinematográfica com seu uso inovador das sombras, que viria a influenciar profundamente o cinema Noir. Utilizando o cenário conturbado da Segunda Guerra Mundial, o roteiro analisa psicologicamente a relação entre marinheiros de um navio cargueiro, responsáveis por atravessar o oceano carregando dinamite. Como o Odisseu literário, o personagem de John Wayne busca retornar para sua casa, porém forças ocultas, duas camadas de interpretação: na mais literal ele é vítima de “Shanghaiing”, um recrutamento forçado para outro navio/o mar nunca libera seus homens, procuram impedir seu intento. A perfeita representação do comportamento de homens que são levados ao limite da pressão e do isolamento, com sofisticação e poesia. Algumas cenas ficam na memória de quem assiste, como a angustiante revelação de um dos marinheiros após ser acusado de espionagem. Um filme que merece constar, assim como o abordado anteriormente, nas listas de favoritos dos fãs do diretor, que ficou famoso por sua representação do Monument Valley nos faroestes, mas que conseguia ressoar mais profundo ao abordar os questionamentos do ser humano.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Faces do Medo - "Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos"

Link para os textos do especial:


Não se Deve Profanar o Sono dos Mortos (Non si deve profanare il sonno dei morti – 1974)
Conhecida também pelo absurdo título “Zumbi 3”, essa produção ítalo-espanhola dirigida por Jorge Grau, quatro anos antes do “Despertar dos Mortos”, de George Romero, tem a mesma pegada de crítica sociopolítica de “A Noite dos Mortos-Vivos”, com os abusos da ditadura franquista simbolizados na figura de autoridade estupidamente truculenta, o personagem do inspetor, uma caricatura asquerosa. A trama não tem pressa de satisfazer o desejo imediatista pelo gore, o primeiro ato é basicamente dedicado à construção de suspense, porém, quando os ataques iniciam, você consegue perceber claramente uma fonte que matou a sede de, entre outros, Lucio Fulci, com seu “Terror nas Trevas”.

O retrato da sociedade, como exibido nas cenas iniciais, salienta um aspecto que agrega maior relevância ao filme, um cenário devastado pela poluição, o resultado de décadas de irresponsabilidade. Os heróis da resistência, desajustados, um hippie motoqueiro, uma jovem drogada e sua irmã desequilibrada, que, comparados ao tradicionalismo representado pelos policiais fascistas, são o elemento caótico necessário para que alguma ordem se estabeleça. Os alienados não são os zumbis, na metáfora usual do gênero, mas, sim, os tidos normais, aqueles que contribuíram, com o comodismo preguiçoso dos inconsequentes, para a degradação da sociedade. Como forma de evidenciar essa superioridade, o zumbi possui força física suficiente para dominar o vivo, além de manter, em sua aparência, grande similaridade.

A maquiagem de Giannetto De Rossi faz com que eles se pareçam com vivos desorientados, com olhos vermelhos, como homenageado no “Extermínio”, de Danny Boyle, ao invés de corpos em estado de decomposição. Enquanto Romero apontaria o dedo para o consumismo, Grau ousa sinalizar para a irresponsabilidade do homem com o meio ambiente, colocando a culpa do apocalipse zumbi em um recurso experimental para deter uma praga agrícola. Essa modificação feita pelo diretor no roteiro original, onde essa máquina era algo saído do universo da ficção-científica, ajudou a obra a continuar tematicamente relevante nos dias de hoje, não apenas como a primeira a ousar pisar o mesmo terreno do emblemático clássico de Romero. E, acho válido salientar, a meu ver, o aspecto mais aterrorizante: o som gutural emitido pelos zumbis, incorporado na trilha sonora. 

* O filme está sendo lançado em DVD, pela distribuidora "Versátil", na caixa "Zumbis no Cinema", contendo ainda, além de extras, "A Noite dos Mortos-Vivos", "A Noite dos Arrepios" e "A Noite do Terror Cego". Imperdível para os fãs do gênero.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Cine Bueller - "Mortal Kombat"

Link para os textos do especial:


Mortal Kombat – O Filme (Mortal Kombat – 1995)
Só se fala agora da péssima dublagem da cantora Pitty no jogo “Mortal Kombat X”, então, aproveitando o tema, lembro com carinho da época em que eu comprava revistas que vinham com jogos detonados, achando que aquilo iria ajudar alguém, além dos editores da própria revista. Alguma manhã de Setembro, de 1995, vinte anos atrás. A decepção de alguns dias antes, tendo assistido no cinema o “Street Fighter”, com o Van Damme, ainda pesava na minha consciência e, com certeza, na de todos os meus colegas do prédio, aqueles com quem travei inúmeras batalhas no Super Nintendo. Quando “Mortal Kombat” entrou em cartaz, apenas um dos meus vizinhos se interessou em assistir, virou motivo de chacota. Vários meses depois, o filme foi lançado em VHS. A capa era chamativa, o cartucho de “Mortal Kombat 2” continuava sendo assoprado, os bons gibis em formato americano publicados pela Editora Escala, que eu comprava mensalmente na banca de jornal da esquina do meu colégio, continuavam sendo folheados, porém, não tive interesse algum em alugar a fita, que não parava na locadora de vídeo. Na época, estava focado em assistir toda a obra de Buster Keaton e todos os episódios da série clássica de “Jornada nas Estrelas”.

Um dia, na casa de um tio, após um bom par de horas tentando ativar com meu primo os fatalities na versão para Mega Drive, ele perguntou se eu gostaria de ver o filme, já que ele tinha conseguido alugar a fita. Com um muxoxo, larguei o joystick e me preparei psicologicamente para o que, em minha mente, seria um tremendo desperdício de tempo. Eu quebrei minha cara logo nos primeiros minutos, com aquela música-tema empolgante. Ao invés de uma palhaçada que desrespeitava o fiapo de trama do jogo, encontrei uma espécie de cópia competente de “Operação Dragão”, versão RPG Dungeons and Dragons. Os atores tinham carisma, pareciam com os personagens e agiam como os personagens, em ambientes que pareciam com os cenários do jogo, com exceção de algumas liberdades nada poéticas, era como assistir alguém jogando. E, com as exibições na “Sessão da Tarde”, na época maravilhosa onde podíamos chegar da escola e vibrar com pancadaria desenfreada na telinha sem o maldito politicamente correto, cheguei a memorizar falas inteiras dessa turminha do barulho que se metia em altas confusões para salvar o mundo dos ninjas coloridos de Shang Tsung. O filme depois entrou na grade do “Cinema em Casa”, do SBT.

O diretor Paul W.S. Anderson, hoje mais conhecido por “Alien Vs. Predador”, no ano seguinte, comandou a pérola sci-fi/terror “O Enigma do Horizonte”, que foi um dos primeiros VHS’s que selecionei na locadora de vídeos que tinha do lado da minha escola, onde também gastei várias moedas tentando zerar os jogos da franquia. A trama começa com um pesadelo do Liu Kang, vivido pelo Robin Shou, uma subtrama melodramática que é conduzida para um desfecho piegas no limite do aceitável, onde achei que, a qualquer momento, começaria a tocar “Unchained Melody”, enquanto o espírito iluminado do irmão dele viajava ao encontro dos outros espíritos. Continuando a episódica apresentação dos personagens principais, temos o Johnny Cage, vivido por Linden Ashby, que, imediatamente após o final das filmagens, passou a decidir todos os seus papeis de olhos vendados, o que é uma forma interessante de tentar entender como ele conseguiu participar de tantas bombas. Como esquecer a introdução de Rayden, o personagem mais poderoso do jogo, interpretado com toda a ginga e estrábica malandragem de Christopher Lambert? O ator é uma escolha tão aleatória, tão estapafúrdia, que acaba funcionando. É impossível não abrir um sorriso quando ele aparece em cena.

O ponto alto são as coreografias das lutas, que emulam com perfeição os movimentos dos lutadores do jogo, com destaque para os confrontos de Cage e Scorpion, e, especialmente, a batalha final entre Kang e Tsung. É decepcionante perceber como utilizaram mal a personagem Kitana, vivida pela linda Talisa Soto, que poderia facilmente ter sido substituída por uma cadeira de balanço. Além de não convencer como lutadora, a princesa enigmática aparece apenas, e convenientemente, para passar instruções para os heróis, não usa o leque nem pra afastar mosquito. Meu momento favorito, a cena que eu, quando moleque, aguardava ansiosamente, ocorre no desfecho, quando os heróis estão indo ao encontro do Rayden, em meio a bandeirolas azuis e brancas, após zerarem o jogo. Uma versão genérica do imperador Shao Kahn, parecendo mais o Esqueleto do filme do He-Man, acaba se materializando no céu e ameaça a equipe, com uma frase clássica do jogo. Rayden responde com segurança: “Eu acho que não”. Os heróis fazem pose, a música começa a tocar, e o filme acaba. Até hoje não sei a razão, mas, quando criança, esse final me arrepiava dos pés à cabeça. O tempo foi generoso com a obra, que ainda diverte bastante. Uma das melhores adaptações de jogos para o cinema. 

terça-feira, 21 de abril de 2015

Ingmar Bergman - "Na Presença de Um Palhaço"


Na Presença de Um Palhaço (Larmar Och Gör Sig Till – 1997)
Carl Akerblom, vivido por Börje Ahlstedt, um homem mentalmente desequilibrado, admirador do compositor Franz Schubert, com quem se identifica por ser um inventor que acredita que só será valorizado após a morte, vive na Suécia, nos anos 20. Quem já assistiu o excelente “Fanny e Alexander”, irá rever o personagem, que, aliás, comenta sobre uma ação hilária que viveu na obra citada. Depois de receber alta do hospital psiquiátrico onde esteve detido por ter tentado matar a sua namorada, decide fazer o primeiro filme sonoro, sobre os últimos anos de vida do compositor. Ingmar Bergman, na fase final de sua carreira, demonstrou que continuava buscando formas novas de expressar sua arte, nesse projeto, originalmente pensado para teatro, que acabou sendo feito para televisão. A loucura como forma objetiva de se realizar um sonho, o elemento capaz de garantir a plena liberdade criativa, instituindo a arte, mais importante que a vida, como antídoto para o caos do mundo real. Nesse mundo doente, a loucura é um sinal de saúde. 

O palhaço andrógino pintado de branco, sempre espreitando os passos do homem, desiludido com sua existência, simboliza a morte, finitude que ele, como afirma em uma das cenas mais bonitas, já está cansado de esperar. Sua primeira aparição, brincando com uma maçã, como a serpente do Jardim do Éden. Ele, encarando o estágio final, acaba se tornando uma criança amedrontada. Quando a apresentação do filme para o seleto público, todos relacionados de alguma forma ao homem, é interrompido por um incêndio, os atores decidem encenar o restante da obra à luz de velas, trazendo o público para o palco. Bergman faz uma declaração de amor totalmente original, não somente ao teatro, como também ao público que valoriza a arte. É um momento altamente simbólico e emocionante, ainda mais quando contextualizamos no período da vida do diretor, que coloca o teatro como o responsável pelo milagre. E é válido ressaltar que a fotografia ajuda a dar um tom ritualístico praticamente religioso nessas cenas, como se aquelas pessoas tivessem entrado em uma igreja. Como se, para o diretor, o cinema e o teatro tivessem substituído as missas no mundo moderno, entregando para os fiéis uma catarse similar, uma ilusão criada com luzes e sombras. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", com um excelente documentário focado no trabalho do diretor por trás das câmeras. 

domingo, 19 de abril de 2015

"Olympia", de Leni Riefenstahl


Olympia (1938)
Sabem o que é mais impressionante que perceber que um documentário de três horas sobre as Olimpíadas de 1936, mantém-se completamente atual em sua estética? É surpreender-se torcendo pelos atletas, reagindo como se o evento estivesse ocorrendo hoje. O mérito da primeira constatação é da excelente diretora Leni Riefenstahl, que forçou os limites da ferramenta que possuía em mãos, inovando em enquadramentos ousados, planos de corte criativos e intensos close-ups, que, não somente viriam a moldar todas as coberturas esportivas futuras nas televisões, como também demonstrou aos seus colegas diretores do mundo todo, que havia muito mais a ser explorado pelas câmeras de cinema. Já o mérito da segunda constatação é do corredor negro Jesse Owens, que com sua extrema competência abalou as convicções de Hitler.

A diretora, que estava acostumada a utilizar o cinema como propaganda nazista, viu-se pela primeira vez com um desafio. Diferente das obras anteriores, em que tudo era controlado pelo comando militar alemão e o próprio Fuhrer, dessa vez suas câmeras iriam documentar um evento livre de qualquer controle, uma celebração de âmbito internacional onde os resultados dependeriam apenas dos atletas. Ela teve a oportunidade de selecionar dentre toda a filmagem, aqueles momentos que considerava mais simbólicos e heroicos, enfatizando as competições mais emocionantes, e vale ressaltar a ótima trilha sonora de Herbert Windt, que muito contribuiu para o efeito. Muita atenção é dada aos corpos dos atletas, claramente mitificando-os e colocando-os em nível de igualdade aos deuses gregos. Existe algo sutil que merece maior atenção, pois deixa claro que a intenção de Riefenstahl não caminhava de total acordo com os objetivos nazistas. A preparação para a melhor sequência do projeto, onde o negro americano Jesse Owens, tendo vencido algumas provas, concentra-se para seu salto à distância. Hitler é evidenciado sorrindo em sua tribuna, confiante após a superação do difícil recorde europeu, alcançado minutos antes pelo competidor alemão. A câmera toma generoso tempo mostrando Owens, porém, não mostra a corrida, mas o movimento de cabeça do competidor alemão que assistia impávido seu recorde ser quebrado por aquele que considerava ser de uma raça inferior. No rosto do alemão alterna-se a tristeza e a admiração, algo que jamais seria concebível em uma obra que ambicionasse apenas a propaganda nazista, algo mais presente e de forma nada sutil no anterior “O Triunfo da Vontade”.

"Palavras ao Vento", de Douglas Sirk


Palavras ao Vento (Written on the Wind – 1956)
Tornou-se lugar comum afirmar que Douglas Sirk era o rei dos melodramas, quase sempre cruzando a fronteira da pieguice e adentrando no questionável mundo dos romances de banca de jornal, onde cada página lida causa riscos de hiperglicemia no leitor. A realidade não está muito distante desse lugar comum, porém, desvaloriza consideravelmente a extrema competência do autoral diretor alemão. O fato é que ninguém conseguiu emular seu estilo com a mesma elegância e eficiência.

A direção de arte exagerada trabalha a favor da trama, que aborda o vazio existencial daqueles que possuem tudo o que desejam. A própria estrutura, contada em flashback, não poderia ter sido exposta de forma mais açucarada: as folhas de um calendário que são viradas pelo vento. Kyle Hadley (Robert Stack) é um jovem herdeiro de um magnata do petróleo, acostumado a disfarçar sua covardia com o álcool, uma coragem líquida compartilhada com sua irmã Marylee (Dorothy Malone), permanentemente maquiada e vestida como se vivesse em uma casa de bonecas, sentimentalmente imatura e inconsequente. Mimados por uma cidade grata ao empreendedorismo do pai, usualmente são salvos de maiores gafes por colegas. Caso desmaiassem no meio da rua, haveria a certeza de que o dono do bar, da leiteria, da floricultura e do banco, iriam ligar imediatamente para o Sr. Hadley, que, estando muito ocupado, enviaria algum empregado ao resgate. A formação da família é uma crônica de uma tragédia anunciada, pois em nenhum momento fica claro existir amor entre os seus componentes. Por outro lado, temos a figura de Mitch (Rock Hudson), originário de um berço mais humilde e carinhoso, porém, amigo da rica família desde criança. Sempre íntegro e disposto a livrar a cara de seus irmãos postiços, conquistou com os anos o carinho do magnata. Extremos de conduta tão passionais iriam entrar em conflito inevitavelmente, com ou sem a bela presença da personagem vivida por Lauren Bacall, mas deixarei que o leitor descubra sozinho.

Vale destacar a importância simbólica do uso dos vários espelhos em cena, mérito do fotógrafo Russel Metty. Os enquadramentos perfeitos utilizam o reflexo como forma de ampliar as cenas, assim como enfatizar que estamos assistindo algo antinatural, simbolizado também no exagero das cores, pessoas que representam reflexos distorcidos no espelho da vida, sempre escondendo suas reais faces por trás de máscaras, normalmente estimuladas pelo álcool e, por conseguinte, comportamentais. Considero interessante sugerir uma sessão dupla desse filme com qualquer um do espanhol Pedro Almodóvar, para que o leitor perceba como o alemão influenciou o cinema do espanhol.

Cine Noir - "Vive-se Uma Só Vez"


Vive-se Uma Só Vez (You Only Live Once – 1937)
Sua curta e eficiente duração, cerca de oitenta minutos, trabalha bem o suspense, que aliado ao fator de identificação com o protagonista, mérito de Henry Fonda, que somente rivalizava nesse sentido com James Stewart, faz com que a trama evolua de forma bastante objetiva. Você não irá consultar seu relógio, pode ter certeza.

O diretor alemão Fritz Lang, neste que considero seu melhor trabalho em solo americano, trabalha o espinhoso tema: pau que nasce torto, nunca se endireita. O jovem Eddie (Fonda) acaba de ser liberado da penitenciária pela terceira vez, com a ajuda de sua devotada namorada (Sylvia Sidney) e um defensor público. Os crimes que ele cometeu eram sem expressão, porém, pela lei de seu estado, caso ocorresse uma quarta prisão, seria seu fim na cadeira elétrica. Apaixonado e dedicado a manter-se um homem de bem, o jovem busca empregos e sonha em constituir família, realizando o sonho americano. O problema, muito bem abordado no roteiro, é que a sociedade hipócrita passa a utilizá-lo como para-raios de seus próprios erros. Uma cena que simboliza bem esse leitmotiv ocorre próximo ao final, quando dois policiais, que se encontram na cena de um crime cometido pelo rapaz, falam ao telefone com seus superiores e os informam sobre o que foi roubado, mentindo sobre o dinheiro retirado da caixa registradora, que nem sequer havia sido tocada, insinuando que irão aproveitar a situação em benefício próprio. Independente de suas ações, ele será sempre um criminoso aos olhos da população.

Como curiosidade, acho interessante fazer uma comparação com outro personagem vivido por Henry Fonda, exatamente vinte anos depois, na obra-prima de Sidney Lumet: “Doze Homens e uma Sentença” (Twelve Angry Men – 1957). O Eddie é injustamente condenado em sua quarta prisão, por um crime que não cometeu, porém, não teve a sorte de ter no júri de seu caso, um homem obstinado como o jurado número oito, disposto a promover a mudança de atitude em seus colegas de mesa, fazendo-os perceber que é possível endireitar um caráter bem intencionado, levando-o a sentir-se reintegrado à sociedade. Outro ponto interessante que incita a reflexão é que, após essa negativa da sociedade, as atitudes violentas do rapaz tornam-se cada vez mais inconsequentes. A injustiça alimentou o selvagem bandido que habitava na alma de um rapaz desorientado.

"Rebelião em Alto-Mar", de Roger Donaldson


Rebelião em Alto-Mar (The Bounty – 1984)
Em 1789, um navio inglês empreendeu uma viagem até o Taiti para conseguir mudas de fruta-pão. O tenente William Bligh (Anthony Hopkins), comandante do Bounty, começa a agir de forma cada vez mais despótica, impondo castigos cada vez mais duros para a tripulação. Isto faz com que Fletcher Christian (Mel Gibson), o melhor amigo de Bligh, comande um motim, mesmo sabendo que este ato poderia ser punido com o enforcamento.


Esse momento marcante da história naval americana, ocorrido em 28 de Abril de 1789, tornou-se material para vários livros, inclusive, um escrito pelo próprio capitão Bligh, e adaptações cinematográficas. A mais famosa e criticamente bem recebida foi “O Grande Motim” (The Mutiny on the Bounty – 1935), com Clark Gable e Charles Laughton. Houve também a conturbada versão de 1962, onde o astro Marlon Brando acabou emulando o tom da obra e quis tomar o controle da produção, tirando-a das mãos de Lewis Milestone, criando falas no improviso, causando atrasos e prejudicando seus colegas. A versão filmada em 1984 é a que costuma ficar na sombra das duas já citadas, difícil competir com um clássico validado por um Oscar e os arroubos de “prima donna” de Brando, porém, em muitos aspectos, é a melhor adaptação da obra original. 

O personagem Christian, que nos livros não assume posição de destaque, em todas as adaptações torna-se um protagonista, sempre sendo defendido por um astro de popularidade estabelecida (Gable, Brando e Gibson). Um diferencial interessante na versão mais moderna é o foco da narrativa estar nas motivações de Bligh, diferindo bastante da estrutura dos livros, em como ele perdeu sua autoridade no motim, o que é ótimo quando o personagem é vivido por um ator altamente competente como Anthony Hopkins. Gibson demonstrou ser um dos melhores de sua geração, defendendo cenas difíceis, como seu rompante de fúria contra seu superior, outrora amigo, em comando. Vale ressaltar que o excelente roteiro de Robert Bolt, o mesmo de “Lawrence da Arábia” e “Dr. Jivago”, corajosamente utiliza um aspecto encontrado no livro de Robert Hough, a possível atração homossexual que Bligh sentia pelo jovem, o que explica bem a sua mudança radical de temperamento após perceber que Christian está se apaixonando por uma bela nativa. A direção competente de Roger Donaldson equilibra bem a tensão entre os marinheiros, entre eles, Liam Neeson e Daniel Day-Lewis, e a progressiva instabilidade emocional de seu capitão, estabelecendo um ritmo agradável de assistir. O tempo foi generoso com a obra.

"A Vida de Émile Zola", de William Dieterle


A Vida de Émile Zola (The Life of Emile Zola – 1937)
O escritor francês foi o precursor da literatura naturalista, e do teatro naturalista, que buscava quebrar os moldes cristalizados após décadas de tradição acadêmica, abordando sem floreios a realidade e a degradação, algo que chocava grande parcela da sociedade de sua época. Ele utilizava seu talento para defender as causas em que acreditava e que pareciam perdidas, como o famoso caso evolvendo o Capitão Dreyfus. Incriminado injustamente por seus superiores, por ser judeu, que encobriam a participação de outro oficial em um ato de traição, foi levado prisioneiro para a temida Ilha do Diabo na Guiana Francesa. Arriscando sua carreira, Zola escreveu em 1898 um texto chamado “Eu Acuso...”, uma carta para o presidente da república, onde denunciava claramente a ligação dos oficiais da armada francesa no embuste, emoldurando a página principal do jornal mais lido de Paris.  O “Caso Dreyfus” teve um final feliz, mas o escritor sofreu punição por sua atitude, sendo levado em julgamento. Fugiu para a Inglaterra e faleceu em 1902, intoxicado acidentalmente com vazamento de monóxido de carbono em sua casa.

Vencedor do Oscar de Melhor Filme, o projeto possui o mérito de ser talvez o menos pretensioso de todos os que foram celebrados nesse período de ouro da premiação. Como o personagem, vivido por Paul Muni, não manteve sua popularidade com o passar das décadas, a obra acabou sendo esquecida, figurando normalmente como uma curiosidade de sua época, lembrada graças aos prêmios que recebeu. Esse é um panorama triste, pois o homenageado e sua minimalista cinebiografia deveriam ser abraçados pelos jovens de hoje. Sua primeira hora é dedicada a apresentar o protagonista, porém falha ao desenhar uma caricatura com traços rápidos, onde a própria passagem de tempo é fracamente estruturada. Já o segundo ato é brilhante ao retratar a participação do personagem no “Caso Dreyfus”, com o competente diretor William Dieterle demonstrando a mesma sensibilidade de quando conduziu “A Vida de Louis Pasteur”, no ano anterior. O roteiro mantém-se atual, mostrando que um homem pode combater um sistema corrupto e a justiça ser feita, mesmo que a batalha seja árdua e longa. Joseph Schildkraut (Alfred Dreyfus) recebeu um Oscar de coadjuvante por sua correta atuação, explorando o contido desespero de um homem íntegro sendo utilizado como peão de interesses escusos. Dieterle foi indicado ao prêmio pela única vez em sua carreira, mas perdeu para Leo McCarey, por “Cupido é Moleque Teimoso” (The Awful Truth).

Cine Noir - "Amarga Esperança"


Amarga Esperança (They Live By Night – 1949)
Nos anos 30, o jovem Bowie e outros dois comparsas fogem de uma prisão no Mississipi. Bowie sonha em fugir com sua namorada e ter uma vida tranquila. Mas é convencido pelos companheiros a continuar no crime. E a polícia está em seu encalço.


Essa primeira produção de Nicholas Ray era considerada por François Truffaut como a melhor em sua filmografia. Já demonstrando sua empatia pelos rejeitados, que seria tema recorrente em sua carreira, o diretor abraça o jovem casal, Farley Granger e Cathy O´Donnell, que foge da lei, enquanto busca um recomeço. O filme inspirou, entre outros, “Bonnie e Clyde”, de Arthur Penn, “Terra de Ninguém”, de Terrence Malick, e “Assassinos por Natureza”, de Oliver Stone, porém, sua despretensão o coloca em um patamar superior.

Os jovens compartilham a ausência das figuras de autoridade. Suas mães fugiram com amantes. O jovem viu o pai sendo assassinado na sua frente, enquanto o pai da garota é vítima do alcoolismo, sendo motivo de deboche por onde passa. O amor entre os dois parece nascer, não da empatia entre eles, muito pelo contrário, fica bem claro que eles não possuem muito em comum, mas da carência compartilhada. Inexperientes e emocionalmente frágeis, assistem a vida por uma lente de ingenuidade, que o diretor capta perfeitamente. Bowie (Granger) acredita que sairá ileso da situação espinhosa em que se meteu, enquanto Keechie (O´Donnell) se compara a um cão fiel que não irá se afastar de seu dono, mesmo em sua ausência, demonstrando nessa analogia sua completa passividade.

A cena que representa a genialidade do diretor ocorre quando o casal intenciona se casar. A forma como os diálogos são conduzidos, com a desconstrução do ritual, colocando em evidência sua fragilidade, na pequena capela. Eles decidem apenas pelo básico, o texto padrão e sem música, mas precisam pagar a gorjeta dos dois desconhecidos que servem como testemunhas. Ao final, o dono do estabelecimento conclui que mantém seu serviço porque aquele ritual faz as pessoas felizes, concede-lhes alguma esperança, como ele afirma: “De certa forma, sou um ladrão exatamente como você”.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Make 'Em Laugh - "O Engraxate"


O Engraxate (El Bolero de Raquel – 1957)
Nos moldes de seu admirador mais famoso, Charles Chaplin, Mario Moreno conseguia equilibrar muito bem a gargalhada com a ternura, como ocorre nesse, que é um de seus melhores filmes. Ainda que, algo usual em sua filmografia, muitas piadas se percam na tradução, como a brincadeira no título, envolvendo a obra de Maurice Ravel e a atividade do protagonista, um trambiqueiro bolero (engraxate) que se apaixona por uma professora, vivida por Manola Saavedra, é impossível não se encantar com os improvisos do ator. Quando Cantinflas solta sua metralhadora verborrágica nonsense, seu famoso “cantinflear”, você precisa direcionar a atenção para o interlocutor, que se esforça herculeamente para não estragar a filmagem sorrindo fora de hora.

Em seu primeiro trabalho em cores, logo após conquistar fama internacional, e o prestígio da crítica, com o premiado “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, o mexicano demonstra estar no auge de sua inspiração, especialmente na hilária primeira hora, onde testemunhamos uma edificante aula de História que ele fornece a um estrangeiro, além de exibir, em estado de total sobriedade, toda a discrição e elegância que deveria ser o padrão nas cerimônias de funeral. Ele mostra que, o que verdadeiramente importa, é consolar a bela viúva e oferecer um ombro amigo para todas as mulheres presentes no ritual. E, claro, sendo um homem tão digno, ele ficou com a responsabilidade de cuidar do filho pequeno do compadre falecido, um operário de obra que, como bem explicado por Cantinflas, foi para o céu, após quicar do asfalto, tendo caído do décimo sétimo andar da construção onde trabalhava.

A cena mais famosa, sua desenvoltura como dançarino, é muito simpática, porém, o momento que se mantém em minha mente é o silencioso choque de realidade do personagem, após a triste despedida da criança, agarrado à bola colorida, símbolo de gratidão pela companhia do menino, que tanto lutou para conseguir pagar. Cantinflas é levado pela emoção, transmitida em seus olhos, uma cena que nos remete ao pagamento do tratamento da florista cega de Chaplin, em “Luzes da Cidade”. Assim como o vagabundo inglês, o peladito (pé rapado) mexicano aprende que a gentileza é um ato nobre que não pede recompensa, não necessita de reconhecimento, bastando apenas o sentimento de felicidade que sucede a lágrima, a constatação da genuína intenção carinhosa de quem a oferece. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Studio Classic".

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Nos Embalos do Rei do Rock - "O Prisioneiro do Rock"

Entrevista exclusiva com Ginger Alden, a última namorada de Elvis / Introdução:
Ama-me com Ternura:
A Mulher Que eu Amo:


O único filme protagonizado por Elvis a ser selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes (United States National Film Registry), por sua importância na cultura americana. O símbolo eterno de sua atitude rebelde, que causou impacto já em sua estreia, com relatos de brigas de gangues em suas sessões, uma juventude que começava a despertar, de forma compreensivelmente desajeitada, para a necessidade de evitar a simples cópia visual do molde paterno.


O Prisioneiro do Rock (Jailhouse Rock – 1957)
Enviado para a prisão após matar um homem acidentalmente, Vince Everett (Presley), resolve cantar atrás das grades. Um golpe de sorte o coloca, frente a frente, com uma bela caçadora de talentos (Tyler) de uma gravadora, e o rapaz tem a oportunidade da sair da cadeia e se tornar um astro do rock.


Dentre os vários contratos de cinema que o rapaz assinou sem ler, esse, seu primeiro projeto para a MGM, foi um dos maiores acertos do Coronel Parker. Após uma obra leve, simpática e de cores vibrantes, nada melhor que inserir o roqueiro em uma situação mais barra pesada, com um roteiro esperto escrito por um profissional premiado, Nedrick Young, que seria responsável, alguns anos depois, pelo excelente “O Vento Será Tua Herança”. Dá pra imaginar a felicidade do garoto, fanático por cinema, ao saber que iria utilizar o mesmo camarim de Clark Gable e, pela primeira vez, ser dirigido por um veterano respeitado na indústria, Richard Thorpe, de “Ivanhoé - O Vingador do Rei”. Era óbvio que o garoto agora estava sendo tratado com extremo respeito pelos produtores, tendo provado ser mais que apenas um ídolo momentâneo da garotada. Sem a necessidade mercadológica de sustentar seu nome no pôster com outros artistas mais experientes, pela primeira vez, Elvis segurava sozinho a bronca, com total confiança dos executivos.

Na pré-produção, o jovem se encontrou com Alex Romero, o coreógrafo que assistiu várias de suas apresentações, para inserir aqueles movimentos na grande cena, a apresentação da canção-título, composta por Jerry Leiber e Mike Stoller. A ideia inicial era seguir um estilo mais convencional de passos, mas, em pouco tempo, perceberam que seria um desperdício não aproveitar o estilo original do cantor. A sequência entrou para a história da cultura pop, considerada, por muitos, o primeiro videoclipe musical. Romero voltaria a trabalhar como coreógrafo com Elvis no filme “O Barco do Amor” (Clambake, de 1967). Judy Tyler, a bela morena que encanta o protagonista ao acreditar em seu potencial, e que chegou a namorar o cantor nas filmagens, faleceria alguns dias após o término da produção, decapitada em um terrível acidente de automóvel com o marido bailarino Gregory LaFayette. Elvis ficou inconsolável, recusando-se a sequer assistir o filme novamente pelo resto da vida.

A trilha sonora é empolgante, além da excelente canção-título, com temas como “(You’re so Square) Baby I Don’t Care”, “Don’t Leave Me Now” e “Treat Me Nice”, que, não somente funcionam na trama, como poderiam constar em qualquer lista de melhores canções gravadas pelo artista. Abner Silver e Aaron Schroeder contribuíram com a linda balada “Young and Beautiful”, que emoldura o emocionante desfecho. Sem a necessidade de ser simpático, defendendo o seu primeiro personagem verdadeiramente cínico, um bad boy, simbolizado na clássica cena em que, após roubar o beijo de uma gatinha, ele afirma: “Não são táticas, querida, é apenas a fera em mim”, Elvis teve a chance rara de exercitar sua atuação, que seria lapidada ainda mais no próximo trabalho.

A Seguir: “Balada Sangrenta” (King Creole)

Tesouros da Sétima Arte - "Cinco Dedos"

Link para os textos do especial:


Cinco Dedos (Five Fingers – 1952)
Quando se fala no diretor Joseph Mankiewicz, o cinéfilo pensa logo em “A Malvada”, porém, existem duas obras-primas dele que poucos lembram: “Quem é o Infiel?” e “Cinco Dedos”. O título pode parecer esquisito, mas, baseado em uma história real, a trama de espionagem ambientada na Segunda Guerra Mundial é uma desculpa para um exercício de criação de suspense, com o auxílio de uma ótima trilha sonora de Bernard Herrmann, que emoldura momentos de pura tensão. Com certeza, um trabalho que chamou a atenção de Hitchcock para a possibilidade de uma futura parceria, que seria iniciada três anos depois, com “O Terceiro Tiro”.

James Mason vive o empregado da embaixada britânica que sonha com um futuro de riqueza e glória no Rio de Janeiro, capaz de vender documentos para os nazistas, para realizar seu objetivo. Tentando impressionar uma bela condessa, vivida por Danielle Darrieux, um personagem criado no roteiro hollywoodiano, o homem não percebe que a mulher possui ainda menos caráter que ele, o que conduz para um desfecho sensacional, que, obviamente, não irei revelar no texto. Saliento também uma cena que ocorre no segundo ato, quando o protagonista desliga a eletricidade da mansão, para poder abrir o cofre e tirar fotos dos documentos. É impressionante o nível de tensão que a montagem estabelece, alternando as ações do homem, correndo contra o tempo, sem saber que, do lado de fora, a faxineira procurava formas de ligar novamente a eletricidade, para poder limpar o chão. Uma verdadeira aula. Diello (Mason) é um vilão, porém, graças ao seu carisma, acabamos torcendo por ele.

Uma obra-prima que merece ser redescoberta por todos aqueles que amam a Sétima Arte.

* O filme acaba de ser lançado em DVD pela distribuidora "Classicline". 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Devo Tudo ao Cinema - S01E03 - A Nostalgia nas Locadoras de Vídeo

Amigos leitores, queridas leitoras, nesse programa, Gui Monteiro e eu, num papo descontraído sobre a época de ouro das locadoras de vídeo, gravado na locadora da minha infância. Grato, desde já, pela gentil atenção. 


sábado, 11 de abril de 2015

"Assim Falou o Amor", de John Cassavetes


Assim Falou o Amor (Minnie and Moskowitz – 1971)
“Eu penso tanto em você, que até me esqueço de ir ao banheiro”.

A simplicidade dessa frase, uma síntese perfeita do romantismo naturalista do personagem vivido por Seymour Cassel: Seymour Moskowitz, um homem inculto que se mostra incapaz de se comunicar com o sexo oposto. Ele, longe de ser um galã, com seu jeito desajeitado e descortês, o representante do mundo real que existe por trás das ilusões criadas pelo mundo do cinema, a enganação de que existe amor verdadeiro, algo alimentado desde as primeiras sessões, ainda na infância, como citado pela personagem vivida por Gena Rowlands: Minnie Moore. Uma mulher culta e bela, que foge do contato visual, sempre se escondendo atrás das lentes escuras de seus óculos de sol, buscando encontrar alguém como o Rick Blaine de “Casablanca”, um de seus filmes favoritos. Ele, por outro lado, prefere se identificar com o Sam Spade de “O Falcão Maltês”. A adoração por Humphrey Bogart parece ser o único elemento em comum entre os dois.

A direção de John Cassavetes explora, em várias cenas, com seu senso de humor peculiar, a falha na comunicação, evidenciada nas atitudes violentas de seu personagem, um amante emocionalmente desequilibrado. A sua maneira libertária de conduzir seus colegas atores, possibilitando que eles exercitem o improviso, aliado ao fato de colocar seus familiares nos projetos, acaba se traduzindo, em todos os seus filmes, em um clima de vivaz camaradagem. Sua mãe, Katherine Cassavetes, interpreta a hilária mãe de Seymour, responsável por uma das cenas mais divertidas, quando ela elenca todos os motivos que deveriam fazer a namorada dele pensar duas vezes antes de seguir em frente com a relação. A personagem dela praticamente quebra a quarta parede, corroborando a visão do público, salientando o quão absurda é a união daquelas duas pessoas completamente diferentes, algo que foge de qualquer explicação racional. A opção deles por uma rotina convencional de encontros românticos: sorveteria, dançar, passeios noturnos e conversas existenciais, por mais que tentem com genuína boa vontade, acabam sempre em desastre. Eles descobrem que o ato de se apaixonar nasce exatamente nos constrangedores silêncios que antecedem qualquer tentativa de consumar uma atitude clichê, o sorriso espontâneo que brota após uma canção, numa tentativa desafinada de sedução.

Em sua crítica ao gênero, Cassavetes se utiliza de todos os recursos clássicos, até mesmo o pastelão, na ótima cena de briga noturna em que, por engano, Minnie é nocauteada por Seymour. É interessante a forma como a obra retorna, em seu irônico desfecho, ao conceito de ilusão apontado pela protagonista no início, entregando um casamento após apenas quatro dias de relacionamento, o clássico happy ending hollywoodiano,  encantador como os das melhores screwball comedies, porém altamente inverossímil.


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Versátil", na caixa "A Arte de John Cassavetes", contendo ainda: "A Canção da Esperança", "Amantes" e o documentário "Cassavetes: O homem e a sua obra".  

"Vício Inerente", de Paul Thomas Anderson


Vício Inerente (Inherent Vice - 2014)
É fácil preencher parágrafos salientando a impossibilidade de resumir a trama, algo que sequer tentarei, estabelecendo comparações com outras obras, mascarando com uma cotação alta a ausência de argumentos que justifiquem cada elogio, ainda que a grande maioria sinalize a necessidade de assistir mais algumas vezes, para compreender alguma coisa, afinal, é um filme de Paul Thomas Anderson, que já provou ser um dos mais competentes diretores dessa geração. O difícil é afirmar, sem ficar em cima do muro da subjetividade, que, dessa vez, o roteiro não acompanhou a pretensão de um projeto que audaciosamente buscou adaptar o difícil livro de Thomas Pynchon, uma interessante viagem metalinguística com o próprio cinema sobre os escombros da contracultura norte-americana do início da década de setenta, amalgamando elementos dos melhores pulps de Raymond Chandler, transpostos para a realidade desiludida dos hippies que acordavam sobressaltados do sonho lisérgico, com toques sutis de Adam Diment, autor de “Dolly, Dolly Spy”, resultando em um estilo libertário comparável ao de Jack Kerouac. 

O caos das páginas do livro não afasta o leitor, soa orgânico e acolhedor, a imaginação do leitor preenche naturalmente as lacunas do labirinto, porém, em um veículo com regras sensoriais diferentes, o roteiro arrastado e complicado dificulta o necessário investimento emocional, provocando um desconfortável distanciamento. A trama do clássico Noir “À Beira do Abismo”, de Howard Hawks, também não fazia sentido algum, porém quarenta minutos passavam depressa, com um elenco carismático e diálogos brilhantes, já em “Vício Inerente”, dez minutos parecem demorar uma eternidade, o que diz muito, caso entendamos que a duração total é de quase três horas. O senso de humor é tolo, sem timing, banalizando gags visuais, como a exótica predileção do personagem de Josh Brolin por simbologias fálicas, algo que perde, pela repetição estendida, sua função de evidenciar uma possível conotação homossexual entre o protagonista, vivido com a competência usual por Joaquin Phoenix, e seu alter ego, o policial violento. 

A composição visual de Doc, aliada à sua atitude na linha tênue do caricatural, é a representação de um homem deslocado no tempo, sem saber como se adaptar ao novo mundo. O caso que ele investiga, com todos os seus desdobramentos, não importa, o foco está na forma como ele lida, num estado quase constante de torpor psicotrópico, com seus demônios pessoais. O maior mérito nos filmes do diretor é a entrega dos atores, mais que o próprio roteiro, porém, o equívoco desse foi não conseguir tornar minimamente identificáveis os conflitos do protagonista, fazendo com que, até mesmo a forma resmungona com que ele se expressa, ao invés de agregar significado implícito a algum traço de personalidade, acabe se tornando um recurso irritante. A quantidade absurda de informação que envolve cada novo personagem que brota do nada, acaba conduzindo à frustração, já que o terceiro ato sequer insinua o interesse em torná-los relevantes. 

Não posso deixar de mencionar que, mesmo nesse que considero seu filme mais fraco, chato como poucos, existem méritos técnicos valiosos, como o frequente senso de desconforto alcançado pelas lentes da fotografia de Robert Elswit. Anderson novamente exercita sua paixão pelo trabalho de Robert Altman, conseguindo a proeza de compor um retrato fragmentado e fiel do livro original, com toques de sutil inteligência, como na cena em que evidencia o lado frágil do personagem durão de Brolin, mostrando ele em casa sendo manipulado pela esposa, filmada pelo ponto de vista de uma criança. A experiência pode ser pouco recompensadora, mas contém em seu cerne aquele brilho no olhar, uma coragem de arriscar, algo que, por si só, já merece reconhecimento.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Make 'Em Laugh - "Flint Contra o Gênio do Mal"

Link para os textos do especial:


Flint Contra o Gênio do Mal (Our Man Flint – 1966)
Por mais que eu esteja gostando muito da nova fase da franquia James Bond, encabeçada por Daniel Craig, sinto falta do senso de humor debochado que fazia parte, em variadas porções, dos espiões vividos por Sean Connery, Roger Moore e Pierce Brosnan. Até Timothy Dalton, que levava a proposta da seriedade como primeira diretriz, foi protagonista de momentos absurdos, como quando utilizou um estojo de um violoncelo para esquiar na neve. Essa atitude sangue nos olhos do novo espião não me vende, com naturalidade, a ideia de que ele é um mulherengo, já que nenhuma mulher se interessa por homens sem emoção, sem humor. Bateu saudade do Derek Flint, vivido por James Coburn, nessa hilária resposta americana aos gracejos elegantes do herói inglês criado por Ian Fleming.

Vamos combinar que, em matéria de defesa pessoal, não tem como comparar os dublês das produções britânicas com os ensinamentos do mestre Bruce Lee. Coburn, que foi aluno do grande dragão na vida real, utiliza sua técnica em várias cenas verdadeiramente empolgantes. Um dos acertos do filme, mérito da direção de Daniel Mann, algo que foi ignorado na inferior sequência, é trabalhar as lutas como algo sério, com senso de perigo, ainda que, invariavelmente, elas terminem com algum alívio cômico, como a que ocorre dentro de um banheiro. A geração atual teve uma versão genérica, bastante superestimada, vivida por Mike Myers, na série “Austin Powers”, que abusava do mau gosto em várias gags, com alguns lampejos de criatividade. Flint é fruto de seu tempo, porém, direciona sua crítica bem-humorada aos excessos de psicodelia, potencializando-a de forma estereotipada, na sequência da hipnose das garotas, com direito até a um ambiente reservado às frenéticas danças da época, todos fazendo os mesmos movimentos, reforçando o ponto de que aquela sociedade estava robotizada, submissa a um padrão limitador de hábitos e costumes. Até Elvis Presley, dois anos depois, protagonizaria o filme “Meu Tesouro é Você”, em que também ocorria a mesma crítica social, travestida pela comédia.

Adoro a forma como a produção emula os gigantescos cenários, como o esconderijo do vilão dentro do vulcão, elemento clássico estabelecido pelo designer de produção Ken Adam, na franquia 007. Ela faz isso de uma forma tão segura, que o sorriso nasce da simples constatação de que são tolos elefantes brancos, funcionais apenas no cinema. Sem sutileza alguma, o roteiro chega a mostrar uma jovem descartando um livro, cópia exata das capas das obras de Fleming, afirmando que é um absurdo acreditar naquela tolice. Vivendo em seu harém, com quatro belas mulheres submissas, situação trabalhada em tom de indisfarçável ridicularização, fica implícita também uma crítica, à frente de seu tempo, ao machismo do espião britânico, no contexto do período pós-Connery, quando as mulheres eram, com raras exceções, objetos sexuais dispensáveis nas tramas. 

* O filme foi lançado em DVD pela distribuidora “Ocean Pictures”.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Personagens - Obi-Wan Kenobi


George Lucas escolheu apresentar o personagem Obi-Wan Kenobi, vivido por Alec Guinness, em “Star Wars”, de 1977, como uma cambaleante figura escondida em seu manto, capaz de afastar a ameaça do povo da areia à distância, emulando o som de um predador, logo após termos presenciado o jovem herói Luke Skywalker ser derrotado facilmente por eles. Ao mostrar sua face, quando ele se dirige gentilmente ao robô, percebemos que se trata de um senhor de idade avançada, voz mansa, uma postura elegante demais para aquela região selvagem. É o sábio mentor mais velho, como trabalhado na Jornada do Herói de Joseph Campbell, o responsável por guiar o jovem em sua missão de amadurecimento.

É interessante contrastar com a apresentação do jovem Kenobi, vivido por Ewan McGregor, em “A Ameaça Fantasma”, de 1999, também como uma figura escondida em seu manto, aparentemente uma exata réplica de seu mentor Qui-Gon Jinn. Ao revelar seu rosto, com a utilização da frase símbolo: “Eu tenho um mau pressentimento quanto a isso”, ele demonstra extrema lucidez e coragem, já que confronta, com a mesma voz mansa, a tranquilidade de seu mestre com a certeza do perigo. Ele é sensato ao respeitar a posição do mestre, porém, segundos depois, elabora questões que novamente afirmam sua preocupação. Kenobi, em sua versão jovem e adulta, é o símbolo da rebelde elegância, a representação mais perfeita do que simboliza, em essência, os Cavaleiros Jedi. Alguns textos afirmam que o personagem vai amadurecendo ao longo das prequels, porém, basta uma análise mais atenta, para enxergar que ele já se mostrava preparado desde a primeira cena, maduro o suficiente para, consciente dos deveres como aprendiz padawan, respeitar as decisões dos superiores, enquanto, com delicadeza, os conduz a agirem exatamente como ele acredita ser melhor.

Anakin perde sua figura paterna, a mãe que é assassinada pelo povo da areia, ficando incapaz de controlar suas emoções. Kenobi perde sua figura paterna, o mestre Qui-Gon que perece na batalha com Darth Maul, reagindo ao trauma com compreensível impetuosidade, buscando a vingança imediatista, porém, exibindo total controle emocional, assumindo a tarefa do mestre. Ele é o único personagem na saga que se mostra totalmente seguro com a Força, conseguindo manter o foco nas situações mais tensas, longe de qualquer remota possibilidade de sedução pelo Lado Negro. 


* A Editora Aleph acaba de lançar o livro "Kenobi", escrito por John Jackson Miller, revelando aventuras que o personagem viveu enquanto estava escondido em Tatooine. 

sábado, 4 de abril de 2015

TOP – Woody Allen (1966-1983)

Link para os textos do especial:


12 – O Que há, Tigresa? (What´s up, Tiger Lilly? – 1966)
Allen demonstra já em seu primeiro trabalho a sua tremenda cara de pau, no bom sentido, se é que existe um, ousando pegar uma sátira japonesa dos filmes de espionagem, em ascensão à época, graças ao James Bond de Sean Connery, e redublar. Logo nas primeiras cenas, vemos o diretor sentado em um respeitável escritório, explicando que ele havia sido convocado por Hollywood a fazer o filme de espionagem definitivo. Quando questionado sobre o ineditismo de tal façanha, a redublagem, ele responde que o mesmo já havia ocorrido outras vezes, como em “E o Vento Levou”. Bastam três minutos para o jovem cineasta mostrar seu talento. Hoje em dia é comum vermos esse artifício ser utilizado em programas de televisão, filmes, como o horrível “Kung-Pow – O Mestre da Kung-Fu-são”, e até sucessos do Youtube, como “Bátima - Feira da Fruta”, realizado por Antonio Camano e Fernando Pettinati, mas na década de sessenta ele foi o pioneiro dessa arte extremamente duvidosa.


11 – Sonhos Eróticos de Uma Noite de Verão (A Midsummer Night´s Sex Comedy - 1982)
O roteiro foi concebido em apenas duas semanas, encomendado pelo estúdio no intuito de tapar o buraco que seria causado pelo atraso na produção de "Zelig". A pressa é facilmente perceptível no trabalho concluído, com personagens pouco desenvolvidos, como o médico que é mostrado como uma pessoa centrada, mas que tenta se suicidar por não ter o amor de uma mulher que acaba de conhecer, ainda que ele possua algumas cenas muito boas, o seu conjunto é bastante irregular. Buscando inspiração em seu ídolo Ingmar Bergman, especificamente em "Sorrisos de Uma Noite de Amor", de 1955, o roteiro explora o jogo de flerte entre três casais que se reúnem em um idílico local, para celebrar o casamento de um deles. Foi o primeiro projeto que contou com Mia Farrow, numa longa parceria que renderia ótimos frutos artísticos e um problemão na justiça. Dentre os pontos altos, destaco o rompante de libido de Adrian com o marido, após receber da espevitada Dulcy, algumas dicas de sexo (Allen: "Não podemos fazer sexo no lugar onde nos alimentamos, além do mais, tem um homem entoando o Pai Nosso na sala, iremos ficar cegos"). Simplificando sua opinião sobre a importância das relações sexuais, o personagem de Allen afirma: "Sexo alivia a tensão, enquanto o amor causa tensão". Após o elegante Leopold contar sobre seu sonho erótico selvagem com Dulcy, ela assustada o questiona: "Jesus, o que você comeu antes de ir dormir?". São pequenos momentos onde podemos perceber que, mesmo criando algo de forma apressada, Woody consegue fazer um filme de qualidade. 


10 – Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo, Mas Tinha Medo de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex But Were Afraid To Ask – 1972)
Similar ao que ocorreu com sua primeira obra, Allen não tinha em mente abordar esse conceito. A United Artists comprou os direitos do livro homônimo, escrito em 1969, pelo popular Dr. David Reuben, uma espécie de Dráuzio Varella da época, só que tarado. Woody ficou revoltado quando Reuben foi ao tradicional programa “Tonight Show” e citou uma das frases cômicas dele, sem dizer a fonte. O jovem cineasta então utilizou toda sua verve cômica e adaptou o livro da melhor forma possível, salientando os aspectos mais absurdos em uma comédia de esquetes. Dentre seus sete segmentos, existem dois que considero obras-primas na carreira do diretor: “O que é sodomia?” e “O que acontece durante a ejaculação?”, expõem um roteirista em pleno desenvolvimento, buscando subjugar os limites e ultrapassá-los. No primeiro, Gene Wilder vive um médico que se apaixona por uma ovelha. O brilhantismo está no fato de Wilder atuar de forma séria, como se fosse um personagem saído dos romances de Ian McEwan. Já no segundo, Allen interpreta um espermatozoide que passa por uma crise existencial, poucos minutos antes de seu grande momento, enquanto Burt Reynolds e Tony Randall comandam o cérebro de um jovem que busca fazer sexo com sua parceira. Os outros segmentos são divertidos, porém, pouco memoráveis.


9 – Bananas (1971)
O filme é bastante episódico e irregular, o que demonstra o quanto Woody ousou, arriscou. Ele ainda estava aparando suas próprias arestas. Existem cenas que considero geniais, como a tortura com opereta e aquela em que nosso herói organiza a fila dos rebeldes condenados à morte. Allen chama pelo número vinte e um, quando um cidadão no meio da fila acena eufórico seu bilhete. A felicidade daquele condenado é hilária, assim como a afirmação do revolucionário popular que é levado ao poder ditatorial, esquecendo-se de todas as promessas feitas anteriormente e pensando apenas em seu próprio enriquecimento e na escravidão de seu povo, pelo poder da ignorância controlada, algo que nunca acontece no mundo real, convenhamos... Certo?


8 – O Dorminhoco (Sleeper – 1973)
Após iniciar com uma despretensiosa brincadeira e dirigir três produções que eram colagens de ótimas ideias cômicas, esquetes, sem um fio condutor forte, Allen encarava seu primeiro desafio narrativo: um projeto “com pé e cabeça”, além de um nariz que comandava um sistema ditatorial. Engraçado do início ao fim, o filme representa perfeitamente a fase inicial do diretor, onde ele desejava apenas levar humor ao público. Miles Monroe, vivido por Allen, dá entrada em um hospital para uma operação simples, mas acaba acordando duzentos anos depois, em um mundo inspirado nas obras de H.G. Wells, Ray Bradbury e George Orwell. O diretor chegou a conversar com o mestre da ficção científica Isaac Asimov, avaliando a forma de abordar esse distópico mundo do futuro. A bela Diane Keaton interpreta Luna, uma pacifista poetisa que normalmente serve de escada para os ferinos one-liners de Allen, que aproveita a ambientação para criticar o governo de seu país, como quando se refere à “Associação Nacional do Rifle”, dizendo: “Uma organização que ajudava criminosos a conseguirem armas, para matarem cidadãos. Era chamada de serviço público”. O diretor começava a demonstrar um humor mais corajoso, com gags mais elaboradas.


7 – Memórias (Stardust Memories - 1980)
No filme, Allen explora um dos aspectos consequenciais da fama, o arregimentar de um séquito de admiradores, alguns até fanáticos, que buscam no realizador uma satisfação de seus desejos pessoais. Seu personagem procura um novo caminho, um desafio artístico, experimentando em gêneros diferentes, mas seu público o questiona debochadamente e o rejeita. Com certeza se trata de um desabafo do cineasta após a recepção fria do público com seu projeto dos sonhos: "Interiores". Seus fãs são interpretados pelos figurantes mais feios e caricatos já reunidos em um único projeto. Eles o abordam constantemente com argumentos absurdos, analisando suas obras fora de contexto e interpretando-as da forma mais equivocada ("o humorista é um símbolo para a homossexualidade"), interrompendo-o em situações rotineiras para pedir emprego para um parente ou jogando currículos em suas mãos. Até mesmo seres do espaço descem de suas naves para afirmarem a ele que preferem seus filmes cômicos de início de carreira. E é nesse filme que Woody solta aquela que considero sua melhor frase: "Para você sou um ateu, mas, para Deus, sou uma leal oposição".


6 – Interiores (Interiors – 1978)
O sucesso comercial de “Annie Hall” apenas firmou mais ainda na mente do diretor o desejo de demonstrar ser capaz de emular seu ídolo: Ingmar Bergman. Ele sempre subestimou o valor de suas próprias obras, comparando-as com os trabalhos que eram realizados por outros diretores mais engajados da época, sem perceber que a gargalhada critica com mais contundência que a austeridade. O caso é que o filme lida com um tema muito forte, sem nunca apelar para o necessário subterfúgio do alívio cômico, tornando tudo muito reflexivo. Em sua ânsia por impor uma profundidade na estética, que seria mais bem equilibrada nos posteriores “Setembro” e “A Outra”, Allen anestesia o espectador. O tema é bem conduzido, bela analogia é feita entre a preocupação da mãe com a decoração de interiores e o ruir das estruturas familiares, mas não cumpre com eficiência plena o seu potencial. O excelente diretor de fotografia Gordon Willis, elemento essencial na evolução de Allen como diretor, retoma a parceria iniciada no filme anterior, e que se estenderia até “A Rosa Púrpura do Cairo”, em 1985, garantindo longas tomadas sem cortes, potencializando os diálogos brilhantes do autor.


5 – Um Assaltante Bem Trapalhão (Take the Money and Run – 1969)
Os dez primeiros minutos são geniais, pois ficamos conhecendo os primeiros passos do jovem Virgil, vivido por Allen, no mundo do crime. Claro que antes ele tentou uma vida simples, como um violoncelista. O problema era acompanhar a bandinha da rua, com o seu instrumento numa mão e, na outra, uma cadeira. Não havia jeito, pois a rota do crime parecia estar em seu destino. Após pequenos furtos, acabou sendo preso pela primeira vez. Inspirado, tentou fugir utilizando uma barra de sabão e sua perícia artesã. Dias depois, com seu perfeito revólver de sabão pintado com graxa de sapato, ele se aventurou a cruzar os muros que o aprisionavam. Azarado, não percebeu a torrencial tempestade que castigava aquele local, fazendo com que, em poucos segundos, para a surpresa dos policiais, seu revólver virasse uma grande bola de espuma. Novamente atrás das grades, aceitou ser cobaia em um experimento com uma revolucionária vacina, pois aquilo iria atenuar sua pena. Ninguém imaginava efeito colateral tão absurdo: Virgil tornou-se um rabino, de barba longa, e pregou belos sermões para os oficiais. Foi o primeiro “mockumentary” (falsos documentários) da história do cinema, um estilo que o próprio diretor revisitaria posteriormente em “Zelig”.


4 – A Última Noite de Boris Grushenko (Love and Death – 1975)
Nessa comédia, Woody explora os limites de sua zona de conforto, utilizando referências ousadas ao trabalho literário de Dostoiévski e Tolstói, vale lembrar que em seus trabalhos anteriores, ele havia se amparado mais no pastelão e no humor popular, além de começar a demonstrar seu fascínio por seu ídolo Ingmar Bergman, notem a forma como ele filma, logo no início, um russo que fala diretamente à câmera, e em específico seu filme favorito “O Sétimo Selo”. A grandiosidade da produção impressiona e o diretor demonstra total confiança em sua técnica. Diane Keaton novamente preenche a tela com seu carisma e beleza, vivendo a prima do protagonista. Apaixonado pela complexidade da jovem, que defende diálogos muito espirituosos em seu existencialismo, elemento novo na obra de Allen, que viria a se tornar um padrão, frustra-se ao perceber que ela não o vê com os mesmos olhos de arrebatador desejo. O roteiro parece querer demolir aquela austera seriedade que normalmente se faz presente ao discutir esses temas.


3 – Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall – 1977)
O filme mais popular do diretor, laureado com o principal Oscar da Academia, além de justos reconhecimentos à atuação de Diane Keaton e à direção de Allen. O ápice na fase inicial de sua carreira, que começaria no ano seguinte a tomar caminhos mais ousados, com o inseguro autor acreditando cada vez mais em sua capacidade, arriscando mostrar para o público que não era apenas um excelente comediante, mas também um pensador existencialista, seguindo os passos de seu grande ídolo: o sueco Ingmar Bergman. O estilo mais sóbrio já demonstra a mudança de atitude logo nos créditos iniciais, título em fonte Windsor branca, contrastando com o fundo preto, adotando o formato que viria a acompanhá-lo pelas décadas seguintes. Depois de brincar com o futuro e o passado da sociedade, subvertendo como caricatura, Woody pela primeira vez se mostra como um personagem com o qual o público pode se identificar. Existe muito dele próprio no roteiro, tornando ainda mais interessante acompanhar seus relatos sobre sua infância, em especial a ótima sequência em que seus colegas de classe revelam o que se tornarão quando adultos, incutindo uma analogia simples e muito eficiente: a casa em que cresceu ao som das brigas dos pais, sob uma montanha-russa. Porém, meu momento favorito é quando Allen encontra um chato na fila do cinema, que berra sua pretensa cultura cinematográfica ao tentar impressionar sua namorada. Quem nunca passou por isso? Aquela pessoa que fala alto, por si só, um sinal de deselegância, na fila: “Todos os filmes desse diretor são uma droga”, quando na realidade a pessoa sequer conhece sua filmografia, ou “Só você mesmo para me arrastar para ver uma chatice em preto e branco”, da mesma empresa que trouxe até você as célebres frases: “de triste, já basta a vida”, e o insuperável: “putz, esses atores todos já morreram”.


2 – Zelig (1983)
Em sua genialidade, Woody estrutura esse filme como um documentário, repetindo o estilo de “Um Assaltante Bem Trapalhão”, sobre Leonard Zelig, um camaleão social da década de vinte. Sem nenhum esforço, ele é capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer pessoa com quem se relaciona. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente em francês, com direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente fascina no roteiro é a forma como o personagem se adapta socialmente, como quando discute jargões de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento sobre a área. A crítica é certeira, mostrando como as pessoas se moldam, até o caráter, no intuito de agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com os mais diversos interesses passam a utilizar suas palavras como alegoria para suas atividades. Zelig acaba se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”, o jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia Farrow vive uma doce doutora que acredita que o fenômeno seja psicológico, uma manifestação de alguém que não consegue se expressar, levando o roteiro a abordar também o machismo da época, mostrando a reação agressiva dos médicos a essa nova hipótese. O processo de tratamento é tão eficiente, que ele passa a conseguir até discordar de outras opiniões, algo impensável em sua realidade de outrora. 


1 – Manhattan (1979)
O melhor trabalho de Woody como ator, essa obra representa o fechamento do primeiro ciclo na carreira dele, após refinar o molde com "Annie Hall", e se arriscar em seu primeiro drama, com "Interiores", é a junção perfeita de drama, romance e comédia, sendo pioneiro no que muitos chamam de "Fórmula Woody". Desde o início, ao som de "Rhapsody in Blue", de Gershwin, emoldurando imagens da cidade, até o excelente diálogo final entre Woody e Mariel, onde ele descobre ser menos maduro que ela, nós encontramos um escritor confiante e em seu auge criativo. A fotografia em preto e branco de Gordon Willis, que afirmou ter sido esse o seu melhor filme, concede ainda mais elegância ao projeto, incluindo a icônica cena da conversa junto à ponte Queensboro, e o uso das sombras na conversa no planetário. A forma como Mariel se porta, sua naturalidade ao confrontar-se com Diane Keaton, quando ela pergunta sobre a ocupação da jovem, que responde: "vou à escola", e a sua latente admiração pelo homem mais velho, de gosto refinado, fazem com que um tema complicado, a diferença de idade no casal, soe extremamente natural. O texto é ótimo, coescrito por Marshall Brickman, repetindo a parceria de "O Dorminhoco" e "Annie Hall".