sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Sobre a importância da parentalidade consciente

A criança aprende pelo exemplo, ela começa imitando aqueles que a cercam, ela precisa escutar os pais folheando as páginas dos livros, após um dia longo de trabalho, ou numa manhã de um final de semana tranquilo. Ela precisa ser surpreendida com o desligar da televisão e do computador, após o jantar na casa humilde ou na mansão, sendo estimulada a acompanhar os pais, sentada no sofá ao lado, compartilhando o sábio silêncio de mentes trabalhando. Enxergar perifericamente os olhos do adulto se aproximando do final de uma página, fascinada por aquele universo que o encanta, tentando igualar aquela velocidade, vencer a figura terna de autoridade. E, inteligente, o adulto carinhoso, consciente dessa linda batalha lúdica, deixa o filho acreditar que é mais rápido.

Com esperta teatralidade, a mãe desliga as luzes e acende velas, captando a criatividade da criança com o bruxulear mágico, formando sombras nas linhas que os pequenos olhos perseguem com o dobro de atenção.  As aventuras elaboradas pelos autores se amalgamam à emoção despertada pelo ambiente, uma sensação que nenhum jogo eletrônico poderia emular. Ao invés de despejarem um smartphone ou um tablet nas mãos das crianças, os pais responsáveis presenteiam seus filhos com livros. A criança precisa assistir os pais admirando por vários minutos aquela estante repleta de capas coloridas, tendo sua curiosidade instigada na direção de descobrir quais maravilhas se escondem naqueles tomos.

O pai inteligente pode até se dar ao luxo de inicialmente reprimir a aproximação da criança, afirmando teatralmente que ela precisa ter muito cuidado com aqueles objetos extremamente importantes, já que o proibido é um elemento que atrai com maior intensidade. O filho pequeno entenderá que, ao tocar aqueles livros especiais, está se empoderando e agindo como um homenzinho, adentrando um mundo novo de incríveis possibilidades. Então, o pai, com o sorriso de quem sabe que está criando um ser humano potencialmente valoroso, promete ajudar o filho a desbravar aquela magnífica aventura literária. Os pais precisam ser os heróis da criança, liderando sempre pelo exemplo, conquistando o respeito por merecimento. Caso todos os brasileiros tivessem essa consciência, nossa nação não estaria atravessando esse miserável momento cultural.

Colocar um filho no mundo precisa ser uma atitude consciente. A parentalidade irresponsável é a gênese de grande parte dos nossos maiores problemas.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"Gêmeos - Mórbida Semelhança", de David Cronenberg


Gêmeos - Mórbida Semelhança (Dead Ringers – 1988)
Em um esforço visual aparentemente mais sutil, David Cronenberg realizou, talvez, seu experimento ideologicamente mais repulsivo, um filme cujo terror aumenta, na medida em que relembramos suas cenas, a jornada dos irmãos gêmeos ginecologistas Elliot e Beverly Mantle, vividos pelo excelente Jeremy Irons. Vale destacar o primor da adaptação, já que o livro original, escrito por Bari Wood e Jack Geasland, “Twins”, não poderia ser mais medíocre. O roteiro pega algo comum e enriquece com simbolismo.

O sobrenome “Mantle”, manto, fachada que envolve e esconde o lado sombrio na relação dos dois. Bev+Elly = O começo e o fim de um mesmo nome, indissociáveis e, acima de tudo, complementares enquanto espelho psíquico. Bev é introvertido, gentil e emocionalmente dependente. Elly é o extremo oposto, extrovertido, rude e incapaz de demonstrar empatia. Ginecologistas especializados em infertilidade feminina, eles compartilham suas conquistas amorosas, pacientes fragilizadas e carentes, que ignoram participar desse jogo infantil de imitação. O problema ocorre quando Bev se apaixona por uma de suas vítimas, uma atriz, vivida por Geneviève Bujold, o elemento que engatilha a ruptura na relação dos irmãos. Ela, tratada pelo frio Elly como uma mutante de útero trifurcado, alguém incapaz de ser mãe, um desafio profissional insolúvel para quem se julgava tão poderoso a ponto de modificar a natureza, será a responsável por fazer nascer em Bev, inteligentemente após uma perturbadora cena de dança/sexo simbólico, a necessidade de construir uma identidade própria, tema recorrente nas obras do cineasta, um processo complexo de dissociação, a consciente rejeição ao complementarismo outrora tão atraente e confortável.

E desse esforço, representado no magnífico terceiro ato, utilizando generosamente o vício em drogas como analogia para os efeitos físicos desse confronto interno, ocorre uma fusão existencial, que, metaforicamente, origina uma terceira versão, atualizada e emocionalmente mais segura, revelação exposta já no cartaz original do filme. 

* O filme, inédito em home video por aqui, está sendo lançado em DVD, pela distribuidora "Versátil", com o refinamento usual, incluindo excelentes documentários que aprofundam as discussões filosóficas despertadas pela trama.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Cine Noir - "O Ídolo Caído", de Carol Reed


O Ídolo Caído (The Fallen Idol – 1948)
Phillipe, filho de um diplomata, faz amizade com Baines (Ralph Richardson), o mordomo da embaixada. Baines conta-lhe tremendas histórias, onde sobressai seu heroísmo, e torna-se o ídolo do garoto. Quando a esposa morre, o menino começa a suspeitar dele. Daí, para protegê-lo, Phillipe tenta confundir a polícia com pistas inventadas.


O filme, parcialmente financiado por David Selznick, foi o primeiro de três produções importantes que resultaram da parceria entre o diretor Carol Reed e o escritor Graham Greene. Normalmente eclipsado pelo célebre “O Terceiro Homem”, esse precioso thriller, contado pelo ponto de vista de um menino de oito anos, merece ser mais celebrado.

O que me encanta nele é a forma como o roteiro se divide em duas realidades: os eventos como realmente são, em sua simplicidade desinteressante, e os mesmos eventos absorvidos e codificados pela inocência da criança, vivida de forma impecável por Bobby Henrey. E essa particularidade da obra ganha pontos com a opção tradicional de Reed pelo enquadramento com ângulos inclinados, o “Dutch Angle”, que sempre agrega estranhamento e um senso onírico às cenas. Essa dualidade é muito bem representada na trilha sonora de William Alwyn, injustamente pouco lembrado hoje em dia, como na cena onde o menino flagra o encontro do mordomo com sua amante, vivida por Michèle Morgan, com o compositor traduzindo o sentimento da paixão reprimida com uma base delicada no violoncelo, respondida por uma variação do tema principal no violino, numa representação das emoções que estão em jogo no momento.

A amizade entre o garoto e o mordomo nasce de uma profunda identificação, um sentimento de solidão que ambos compartilham: o adulto que se sente preso a uma relação conjugal vazia; a criança que não conheceu a mãe e que tem, na figura do pai, a dor da ausência de alguém que prioriza o trabalho e vive fora de casa. A Sra. Baines, impecável Sonia Dresdel, inicialmente mostrada nas sombras, deveria constar nas listas de personagens mais cruéis do cinema, exercendo pura insensibilidade sádica como forma de extravasar sua frustração matrimonial. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Obras-Primas do Cinema".

"Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte", de Anne Fontaine


Gemma Bovery - A Vida Imita a Arte (Gemma Bovery - 2014)
O sentimento de insatisfação existencial da Bovary de Flaubert percorre a trama dessa curiosa, ainda que irregular, homenagem, comandada por Anne Fontaine. O elegante padeiro francês, vivido por Fabrice Luchini, estabelece a analogia, enxergando na jovem turista inglesa, uma atuação impecável de Gemma Arterton, uma visão idealizada de sua heroína literária, o elemento sensual que irá perturbar seu conforto matrimonial. 

A abordagem indiferente, na frente e por trás das câmeras, no entanto, não consegue sustentar a mão pesada do texto, que minimiza o potencial de encantamento ao forçar, até mesmo nas situações mais triviais, um verniz de austeridade pretensamente intelectual. É eficiente a maneira como o roteiro desenvolve a identificação do personagem masculino com a imagem projetada de suas frustrações românticas, porém, a ironia dominante na graphic novel de Posy Simmonds não é transposta com fluidez, resultando, na maior parte do tempo, em tentativas ingênuas de metalinguagem, nascidas de um excesso de coincidências tolas, ambientadas em um belo cenário. Essa aparente preguiça narrativa é coerente com muitas das soluções propostas, uma visão sexista antiquada, que caberia perfeitamente dentre as comédias misóginas da década de sessenta. 

A protagonista, com sua inocência provocante, parece saída do erotismo nostálgico dos filmes de Bigas Luna, uma musa objetificada, o que contrasta com a visão profundamente humana da anti-heroína de Flaubert. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"A Hora da Estrela", de Suzane Amaral


A Hora da Estrela (1985)
Não é difícil concluir que essa linda adaptação de Suzane Amaral para o livro de Clarice Lispector, fiel à essência e eficiente em sua execução, seja o melhor filme nacional da década de oitenta, verdadeira flor no asfalto, um período historicamente vergonhoso em nossa cinematografia, ainda que projetos superestimados como “Pixote, a Lei do Mais Fraco” e “Memórias do Cárcere” tenham seus ardorosos defensores. Vale destacar também a boa fotografia de Edgar Moura, que, pela desgraça de nosso vazio enquanto indústria de cinema, posteriormente desperdiçou seu talento em produções bizarras protagonizadas pela Xuxa. O único desafiante a esse posto, outra pérola pouco lembrada, “Filme Demência”, do saudoso Carlos Reichenbach, merece menção honrosa.

A sensibilidade do roteiro, que trabalha com uma simplicidade pouco usual no período, uma época em que todos os cineastas brasileiros pareciam tentar emular a cacofonia visual de Glauber Rocha, que, por sua vez, emulava os experimentos franceses, cativa o espectador logo nas primeiras cenas, quando conhecemos a protagonista: Macabéa, vivida por Marcélia Cartaxo, a “datilógrafa virgem que gosta de Coca-Cola”. Uma nordestina de coração puro, ingênua e que ainda não aprendeu a ser escrava dos cosméticos, o rígido padrão de beleza que rege a sociedade, praticamente um bebê jogado na selva de pedra, tentando sobreviver ao amargor dos homens. Ao se apaixonar, sentimento que tateia no escuro âmago de sua existência, quer a todo custo evitar o silêncio, por medo de que o outro, aquela imagem projetada de seus sonhos, implacavelmente se desfaça no ar de suas castigadas ilusões, então, na falta de assunto, afirma que gosta muito de parafuso e prego. Como Kaspar Hauser, ela não foi habituada ao convívio social, sem o discernimento necessário para se precaver ante a crueldade do mundo, vive de devaneios pueris, com seu reflexo no espelho mostrado sempre embaçado, detalhe importante e que agrega maior simbologia à trama.

A hora de sua estrela brilhar, o despertar de uma tímida esperança, sentimento que nunca teve coragem de estimular, envolve o desfecho agridoce com um manto de ternura. A tristeza final, em estranha alquimia, acaba se transformando na mais graciosa beleza, já que, analisando os monstros cruéis que a rodeavam, o generoso acaso a presenteou com a negação definitiva do conceito de humanidade torta que, ainda hoje, parte desalmadamente os corações genuinamente bons.  

TOP - Filmes Sobre a Arte da Pintura

Como sempre faço, revi todos os filmes e conheci outros, na tentativa de incluir nessa lista dez obras importantes, algumas subestimadas, famosas e valiosos tesouros escondidos, sem ordem de preferência, com breves introduções objetivando o despertar do interesse. Levei em consideração as cinebiografias e roteiros que envolvam pintores, reais e fictícios, ou a arte da pintura.


Sede de Viver (Lust for Life – 1956)
Com direção de Vincente Minnelli, Kirk Douglas, em grande momento, vive Van Gogh, em um roteiro de estrutura linear, que se foca nos conflitos internos do artista, sem romantizar o homenageado, expondo seu gradual abraço na insanidade, com as telas exibidas durante as cenas, um recurso que traz ainda mais elegância ao projeto.


Frida (2002)
Salma Hayek, em seu melhor trabalho, vive Frida Kahlo, em um roteiro bastante fiel, sem se intimidar com os aspectos mais cruéis dos vários obstáculos que ela superou, sem apelar para o melodrama piegas, e que funciona como uma excelente introdução aos estudos sobre a pintora mexicana. E, emoldurando a trama, uma fotografia impecável de Rodrigo Pietro.


Os Amantes de Montparnasse (Les Amants de Montparnasse – 1958)
Cinebiografia dirigida por Jacques Becker, que retrata o atribulado último ano de vida do pintor italiano Amedeo Modigliani, vivido pelo francês Gérard Philipe, depois que ele conheceu e se apaixonou loucamente pela colega artista Jeanne Hébuterne. O roteiro se aprofunda no vício dele pelo álcool, atormentado por seus fracassos, a incapacidade de vender suas pinturas a um público que não compreende seu trabalho.


Agonia e Êxtase (The Agony and The Ecstasy – 1965)
A competente direção de Carol Reed equilibra os excessos histriônicos de Charlton Heston, que vive o pintor e escultor renascentista Michelangelo, com o roteiro focado na eterna disputa entre ele e o Papa Júlio II, vivido por Rex Harrison, enquanto ele trabalhava na pintura do teto da Capela Sistina. A trama tem problemas de ritmo, porém, isso é compensado pelos excelentes diálogos, abordando a relação entre arte e fé, a impossibilidade de domar os instintos de um criador ao delimitar o terreno de sua imaginação.


Andrei Rublev (1966)
A Rússia do século XV passa por um período turbulento, o povo sofre injustiças e está fragilizado pela fome. Nesse cenário, acompanhamos um pouco da vida do pintor Andrei Rublev, que mais tarde abandonaria seu ofício para dedicar-se a Deus. Um dos melhores trabalhos do diretor Andrei Tarkovski, uma obra-prima intimista do cinema mundial, que somente melhora a cada revisão. “O que hoje é elogiado, amanhã será criticado e depois de amanhã, esquecido. Eu e você seremos esquecidos. Todos serão. Tudo se resume a vaidade e é transitório. Tudo gira num ciclo eterno. Se Cristo voltasse à Terra, seria crucificado novamente”.


Edvard Munch (1974)
O diretor Peter Watkins, da pérola pouco conhecida: “Privilégio”, comanda a cinebiografia, misto de documentário e ficção, do pintor expressionista norueguês responsável por obras como “O Grito”. A opção de filmar quase sempre em primeiro plano, buscando o que se esconde por trás dos olhos, nas intenções dos atores, explorando camadas de narrativa sobrepostas, oferecendo um retrato visceral da juventude de um artista que, em vida, teve seus trabalhos hostilizados por grande parte do público.


Basquiat – Traços de Uma Vida (Basquiat – 1996)
O diretor Julian Schnabel, que viria a comandar o ótimo “O Escafandro e a Borboleta”, nos transporta para a década de oitenta, abordando a ascensão meteórica do jovem grafiteiro Jean-Michel Basquiat (Jeffrey Wright), que foi descoberto por Andy Warhol, no cenário artístico contemporâneo. O roteiro se destaca pela sensibilidade com que retrata o homenageado vanguardista, evidenciando o preconceito racial e os meandros da indústria. “E nunca poderá se explicar para alguém que usa os dons de Deus para escravizar, que você usou os dons de Deus para ser livre”.



A Bela Intrigante (La Belle Noiseuse – 1991)
O processo criativo do recluso Édouard Frenhofer, pintor fictício vivido por Michel Piccoli, que encontra sua musa renascida na namorada de um colega. Depois de anos de inatividade e falta de inspiração, a jovem revigora sua carreira artística. Obra pouco citada do ótimo diretor Jacques Rivette, que merece ser redescoberta. Não se intimide pela longa duração, quase quatro horas, esse é um daqueles filmes que você irá indicar para seus filhos e netos.


Cristo Parou em Éboli (Cristo si è Fermato a Eboli – 1979)
Adaptação refinada, dirigida por Francesco Rosi, da obra autobiográfica do pintor Carlo Levi, que relata o período de sua prisão política domiciliar em uma atrasada e remota vila italiana, onde, longe dos intelectuais, incapaz de exercer seu trabalho, o artista irá entrar em contato com hábitos simples, misticismo religioso, e viverá experiências que irão fazer com que ele reavalie sua função na sociedade. Outra obra pouco citada, que, com certeza, entrará na sua lista de filmes favoritos.


Sonhos (Dreams – 1990)
Nessa última obra-prima de Akira Kurosawa, num dos episódios, intitulado: “Corvos” (referência a “Campo de Trigo com Corvos”), protagonizado pelo diretor Martin Scorsese, um estudante de artes descobre-se dentro do vibrante e, por vezes, caótico mundo dos trabalhos de Vincent van Gogh, durante uma visita a um museu de artes. Num passeio onírico pelas telas, ele encontra o próprio artista e conversa com ele.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Make 'Em Laugh - "O Rato Que Ruge"


O Rato Que Ruge (The Mouse That Roared – 1959)
O pequeno ducado de Grand Fenwick passa por maus momentos. Então, a Duquesa e o Primeiro Ministro bolam um plano infalível para salvar seu país da falência: declarar guerra aos Estados Unidos e perder, para conseguir grandes quantidades em ajuda econômica de pós-guerra. Só não avisaram ao chefe das forças invasoras que a intenção era perder a guerra.


Uma das minhas lembranças cinematográficas mais queridas da infância foi ter assistido essa comédia britânica na televisão, verdadeiramente única na forma como satiriza o jogo político de uma guerra. O segundo ato, especialmente, mostrando o retorno dos soldados, é brilhante. Anos depois, já no ginásio, faltei um dia de aula, para ficar acordado de madrugada assistindo ao filme dirigido por Jack Arnold em uma exibição no “Corujão” global. Não bastava só colocar o aparelho VHS para gravar, eu fiz questão de matar a saudade em tempo real. Quando comecei minha coleção de DVD’s, cansei de enviar mensagens para as distribuidoras, pedindo o lançamento dessa joia subestimada na carreira de Peter Sellers, em seu primeiro grande trabalho interpretando múltiplos personagens.

Conheci o seu atrapalhado marechal Tully Bascomb, autoridade da menor nação do mundo, o Grão-Ducado de Fenwick, anos antes de morrer de rir com o famoso Inspetor Clouseau. Como esquecer a graciosa duquesa, novamente Sellers, que se assemelha a grande parte dos políticos brasileiros, totalmente desorientada, indiferente aos problemas de seu povo e ansiosa pela emoção da batalha? Dentre as grandes produções britânicas da época no gênero, como “O Quinteto da Morte” e “O Mistério da Torre”, acredito que essa seja favorecida por um tema universalmente atraente, executado de forma inconsequentemente descompromissada. Até mesmo a desnecessária subtrama romântica é favorecida pela presença encantadora de Jean Seberg, como a filha do cientista criador da bomba com formato de bola de futebol americano, um ano antes de protagonizar “Acossado”, de Godard.

O desfecho, que obviamente não irei revelar, contém uma mensagem poderosa, fiel ao livro do irlandês Leonard Wibberley que o roteiro adapta, traduzida em uma cena que nunca esqueci. O cinema já produziu diversos filmes antiguerra com momentos grandiosos de puro simbolismo, porém, nenhum mais eficiente em sua simplicidade que a sequência final de “O Rato Que Ruge”.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora: “Obras-Primas do Cinema”, em uma edição que inclui a excelente participação de Sellers no “The Muppet Show”, exibido em 1978, em versão integral e com legendas. 

"Minha Vida", de Bruce Joel Rubin


Minha Vida (My Life - 1993)
Michael Keaton sempre foi um grande ator, algo que muitos passaram a perceber apenas com o sucesso de “Birdman”. Ele é popularmente reconhecido por filmes onde explorou extremos de interpretação, como o histriônico “Beetlejuice”, porém, com “Minha Vida”, que ainda considero seu melhor desempenho, ele teve a chance de utilizar os elementos de seu início como comediante stand-up, inserido em uma trama cruelmente realista, vivendo um workaholic que descobre, num curto espaço de tempo, que irá ser pai e que está morrendo de câncer nos rins. A abordagem do diretor/roteirista Bruce Joel Rubin, que escreveu “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, encanta pela forma felliniana com que ele constrói o leitmotiv da necessidade de aprender a perdoar.

O protagonista é mostrado no início como uma criança altamente criativa, contagiando seus colegas de escola, que, aceitando um convite do menino, aparecem na frente da casa dele, esperando a apresentação de um grupo circense. A fantasia do garoto seria a materialização de um pedido feito a uma estrela, na noite anterior. Os pais dele, exatas réplicas do tipo de pessoa que ele viria a se tornar profissionalmente, recebem com frieza aquele evento, envergonhados pela atitude do filho, acabam optando pela punição, o castigo que irá bloquear o lúdico da criança.

Já adulto, ele adota uma postura cínica e debochada, projetando suas frustrações existenciais em uma ambição exagerada pela realização profissional. Ele nunca perdoou os pais, simplesmente se afastou, numa tentativa de reestruturar sua psique, com o auxílio da terna esposa, vivida pela bela Nicole Kidman. É interessante a forma como o roteiro evidencia a importância da jovem, quando, em uma reunião familiar, os pais dele demonstram mais alegria ao vê-la. Aquela que sempre foi o maior elo entre as famílias, que, por trás dos panos, sempre tentou resgatar a pureza do menino de outrora, mantendo os pais dele informados sobre tudo. A resistência doce, no difícil convívio com um homem que havia se tornado a antítese de tudo que desejava ser. O câncer acaba sendo o instrumento que ressuscita o caráter original, o adulto que o menino sonhava ser.

“Não ouse tirar minha esperança, ela é tudo o que eu tenho”.

O filme trabalha a lógica do desapego material, com o pai decidido a registrar em vídeo o máximo possível de informações, ensinamentos, para o filho que, pelas estatísticas médicas, ele não chegaria a conhecer. De coisas simples, como a maneira certa de se barbear e seguramente apertar a mão de desconhecidos, até relatos emocionantes das razões que fizeram ele se apaixonar pela mulher, uma linda corrida contra o tempo, visando o legado. E, quando paramos pra pensar, a única coisa que verdadeiramente importa na vida é o legado. O quarto que decoramos com tanto carinho, selecionando a cor da parede e dos móveis, esse receptáculo de emoções tão intensas e diversas, onde o amor é expresso em sua forma mais primitiva, irá, um dia, testemunhar a vida de outras pessoas, indiferentes à existência dos moradores anteriores. A morte não precisa ser o esgotamento do valor inspiracional de quem deixa de existir, o ser humano se perpetua em suas ações, que podem reverberar por séculos. O pai continuará presente, na tela da televisão, com sua aparência intacta, saudável, protegendo o amado filho de todos os obstáculos que irá enfrentar.

São várias as cenas bonitas que eu poderia ressaltar, porém, não quero estragar a experiência de quem ainda não conhece a obra. É manipulativa em excesso, mas, sem dúvida, eficiente. Tenho certeza que você não irá esquecer o momento em que o homem, já em estágio terminal, perdoa o pai, enquanto ele carinhosamente faz a barba do filho pela última vez, fechando o ciclo da vida.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

"Um Só Pecado", de François Truffaut


Um Só Pecado (La Peau Douce – 1964)
François Truffaut, com a discrição usual de todo cavalheiro, verdadeiramente amava as mulheres, especialmente aquelas que protagonizavam seus filmes. A sua câmera percorria os corpos delas, com a admiração de um poeta por sua musa. E nenhum outro projeto em sua carreira foi tematicamente tão pessoal quanto “Um Só Pecado”, como ele mesmo definia: a autópsia de um adultério. Aquela sensação trabalhada tão bem por David Lean em seu “Desencanto”, o amor que nasce indiferente aos rituais conformistas da sociedade.

Ele deixa de lado a ternura inerente aos seus filmes anteriores, optando por um enfoque mais sombrio e linear, no roteiro que escreveu com Jean-Louis Richard, o que explica a reação negativa do público na época. O escritor de meia-idade, vivido por Jean Desailly, um homem erudito, casado com uma bela mulher e pai de uma menina, conhece em uma viagem uma jovem comissária de bordo, a estonteante Françoise Dorléac. Truffaut compartilha com o público sua adoração pelas pernas femininas, mostrando a personagem, parcialmente coberta pela cortina próxima à cabine dos pilotos, trocando seu sapato comum por um sensual salto alto. Esse gesto sutil, que revela o potencial sedutor daquela atraente desconhecida, encanta o voyeur. Quando penso na trama, reverencio a beleza sutil da cena do encontro do casal no elevador, com o tempo dramático substituindo o tempo real, emoldurando a troca de olhares, alguns poucos andares que, para os dois, parece durar uma eternidade. No retorno solitário do homem ao seu andar, a desinteressante realidade se faz presente, com a câmera em primeira pessoa presenteando o público com o retorno do chato tempo real.

A pele macia, delicada, do título original, confrontada pelo desejo natural que é controlado pelas rédeas sociais, o conceito de pecado, o risco, o beijo que a câmera registra nas sombras, o jogo de emoções fortes que faz parte da rica experiência humana. O diretor consegue construir algo que foge aos julgamentos morais, uma visão intensamente madura, uma obra que merece maior reconhecimento.  

* O filme está sendo lançado em DVD, em versão restaurada, pela distribuidora “Versátil”, na caixa “Nouvelle Vague”, que contém ainda, além de excelentes documentários, os filmes: “O Ano Passado em Marienbad”, “Os Libertinos”, “Banda à Parte”, “A Baía dos Anjos” e “Paris nos Pertence”.  

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

"O Nascimento de Uma Nação", de D.W. Griffith


O Nascimento de Uma Nação (The Birth of a Nation – 1915)
O cenário é ambientado na Guerra Civil americana. Um tribunal formado por negros, mostrados como um bando de deselegantes e bagunceiros, onde acaba de ser oficializada a lei que permite o casamento entre raças. No mesmo momento, todos os negros, dentro e fora do tribunal, começam a perseguir as mulheres brancas, com a câmera evidenciando o olhar de tarado, os maneirismos de um louco, enquanto os pais tentam proteger as filhas. Mais adiante, um intertítulo debocha do que seria uma “nova aristocracia”, mostrando negros, ou, melhor dizendo, brancos com maquiagem, em trajes nobres, bebendo vinho em volta de uma elegante mesa. E essas são apenas duas cenas extremamente revoltantes, dentre as várias que a trama apresenta. Os membros da Klu Klux Klan são os salvadores da pátria, os heróis que resgatam os desamparados brancos das garras dos desordeiros e loucos negros. O mais importante, porém, é não deixar que esse contexto odioso afaste você desse importante marco histórico cinematográfico. O desconforto é um ótimo sinal, ainda mais quando percebemos que, nos dias de hoje, cem anos depois de sua estreia, o racismo continua existindo e um beijo homossexual na novela causa comoção pública. O cinema ainda irá registrar muita estupidez da raça humana, até que ela verdadeiramente evolua e exercite seu potencial pleno.

Quando o diretor D.W. Griffith escolheu adaptar o livro “The Clansman”, algo que toma praticamente toda a segunda metade do filme, uma narrativa que descaradamente defendia que os membros do clã salvaram o sul do domínio dos negros, negando a eles o direito ao voto, ele abraçou uma absurda causa perdida já em sua época. Ele foi corajoso, isso deve ser salientado, ao conduzir uma adaptação tão fiel àquela asquerosa ideologia. E, muito provavelmente, caso a estrutura fosse convencional, sem os avanços técnicos e de linguagem, nós nunca teríamos ouvido falar de “O Nascimento de Uma Nação”. O curioso é que seria uma tremenda injustiça, já que o projeto é um primor em sua execução, com um ritmo ágil que torna suas três horas de duração, em silêncio, mais instigantes que muitos blockbusters barulhentos modernos. Do choro escondido da personagem de Lillian Gish, ao ver seus irmãos indo para a guerra, passando pela bela composição das grandiosas batalhas em campo aberto, até a sutileza sombria de um pai que se prepara para matar a filha, ao perceber que ela será violentada pela turba que tenta invadir a sua casa, Griffith preenche cada situação com um impressionante senso de detalhe, sendo pioneiro até no uso de simbolismo visual, como na cena de luta entre dois gatos, preto e cinza, que antecede um conflito familiar. Com maestria, ele interligava múltiplos planos de ação, o tempo dramático substituindo o tempo real, a montagem paralela que o próprio havia executado pela primeira vez no curta “The Lonely Villa”, de 1909. O que acontece é que a maioria daqueles que analisam a obra negativamente, ou com pura indiferença, assim eu creio, efetivamente não dedicaram tempo em uma revisão integral.

Em “Django Livre”, Tarantino realizou uma paródia estilo “Looney Tunes” de alguns dos momentos mais degradantes do épico mudo, porém, o cineasta moderno não possui em toda sua pretensão infantilizada, por mais divertidos que seus filmes sejam, o brilhantismo estético que Griffith esbanjava em seus trabalhos. 

Guilty Pleasures - "Hércules, Sansão e Ulysses"


Hércules, Sansão e Ulysses (Ercole sfida Sansone – 1963)
O poderoso Hércules sai em busca de Sansão para entregá-lo aos Filisteus em troca de seu amigo Ulysses, que foi capturado. Depois de tentarem combater, os heróis acabam unindo forças para salvar a Grécia das mãos dos filisteus, lutarem contra um monstro do mar e assim salvar a nação grega.


Quando se pensa em adaptações de gêneros cinematográficos pelos italianos, somos conduzidos diretamente ao Spaghetti Western, que, de tão interessante, acabou influenciando o faroeste pós-John Wayne que seria feito no cinema americano, porém, poucos se lembram dos peplum, uma variação de baixo orçamento dos filmes “espada e sandálias” que eram feitos em Hollywood. Os protagonistas eram fisiculturistas que não sabiam recitar duas linhas de diálogo com um mínimo de naturalidade, envoltos em uma ambientação de Grécia antiga, onde, vez ou outra, o enquadramento deixava à mostra linhas de energia no horizonte. O astro de “Hércules, Sansão e Ulysses”, no papel do primeiro, é Kirk Morris, no original, Adriano Bellini, que chamou a atenção dos produtores italianos por se parecer bastante com Elvis Presley. Ele defende com empenho uma das cenas mais incríveis do primeiro ato, o épico embate com o temível monstro marítimo, que, na realidade, era uma foca filmada de perto.

Esse filme é perfeito para assistir com um grupo de amigos, já que são muitos os momentos de humor involuntário. Cinema também é diversão descompromissada, o que esse projeto entrega com louvor. Como não admirar a beleza da maravilhosa Dalila vivida por Liana Orfei, que hipnotiza o público em uma cena de dança? A temática da obra já chama a atenção, prometendo o embate entre Hércules e o herói bíblico Sansão, algo como unir, numa mesma trama, Hórus, Osíris e Jesus. No mínimo, o roteiro merece menção pela ousadia de colocar o mitológico grego naufragando convenientemente na Palestina. A direção é de Pietro Francisci, experiente no gênero, que consegue trabalhar as cenas com um charmoso senso de aventura adolescente. Ulysses, vivido por Enzo Cerusico, tal como sua contraparte homérica, contrasta fisicamente com os outros dois heróis, ele é um filé de grilo muito espirituoso e sagaz. E sempre me impressiono, quando revejo o filme, com as mulheres gregas que, literalmente, passam os dias inteiros nos rochedos, olhando languidamente para o mar, aguardando o retorno de seus amantes. Não assisti muitos peplum, mas, sem dúvida, dos que assisti, esse é o mais divertido.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline". 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Tesouros da Sétima Arte - "Os Que Sabem Morrer"


Os Que Sabem Morrer (Men in War – 1957)
O tenente Benson (Robert Ryan) está tentando desesperadamente resgatar seus soldados do território inimigo quando encontra Montana (Aldo Ray), que está escoltando seu coronel comandante para um lugar seguro. Eles unem forças para encontrar o caminho de volta para o quartel-general, mas encontram a montanha tomada pelos coreanos comunistas. Numa batalha sangrenta e selvagem para retomar a colina, poucas vidas serão poupadas.


Muito pouco lembrado, esse é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema, dirigido com baixo orçamento pelo mestre Anthony Mann, com uma interpretação visceral de Robert Ryan. É impressionante como o roteiro consegue estabelecer tensão focando apenas no isolamento do pelotão, extraindo latente terror em cenas como a do campo minado, extremamente eficiente ainda hoje, praticamente sem mostrar a ameaça dos soldados inimigos. O diretor utilizou toda sua experiência com tramas noir, exercitando o aprofundamento dos personagens psicologicamente perturbados, nesse inferno interno ambientado na Guerra da Coréia. O roteiro de Ben Maddow, de “O Segredo das Joias”, tem a mesma pegada realista de “Capacete de Aço”, que Samuel Fuller dirigiu seis anos antes, corajosamente salientando, especialmente no belo desfecho, a desumana dispensabilidade dos peões nesse tabuleiro cruel.

O que mais gosto no projeto é a forma como é trabalhada a relação entre os personagens de Robert Ryan e Aldo Ray. O primeiro é essencialmente humano e honrado, alguém regido por fortes convicções éticas, que enxerga seus companheiros de batalha como indivíduos altruístas. Ele se importa em registrar os nomes dos mortos em seu bloco de notas, valorizando o legado daquele sacrifício. Já o segundo, frio e prático, simboliza o soldado perfeito, alguém que acredita apenas em seus instintos, o caráter forjado para a manipulação governamental, ainda que deixe transparecer a frustração de ter sido enganado pela máquina de guerra. A trama mantém esses dois em constante conflito, até o momento em que irão precisar unir forças no impactante final. Em uma evolução madura dos usuais roteiros no gênero, Mann foca sua câmera em dois soldados que lutam do mesmo lado, porém, com divergentes pontos de vista sobre a função da batalha.

Exatamente por não ser um filme tradicional no gênero, sem aqueles estereótipos clássicos e desgastados, ele se mantém poderoso em revisão. Inovador, antes de Godard e seu “Acossado”, Mann já brincava generosamente com o recurso dos jump cuts como elemento narrativo, refletindo a desorientação dos personagens. Um tesouro que merece ser redescoberto pelo grande público.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Nos Embalos do Rei do Rock - "Saudades de Um Pracinha"

Entrevista exclusiva com Ginger Alden, a última namorada de Elvis / Introdução do especial:
Ama-me com Ternura:
A Mulher Que eu Amo:
O Prisioneiro do Rock:
Balada Sangrenta:


Elvis havia conseguido provar aos críticos seu talento como ator em seu filme anterior: “Balada Sangrenta”, mas perdeu dois anos sendo domado, acorrentado ao serviço militar, longe de seu público. O cenário musical havia mudado bastante, Chuck Berry estava preso, Little Richard estava num monastério, Buddy Holly estava morto. O jovem viu a necessidade de se reinventar enquanto artista, expandindo seu carisma para além da atitude roqueira, demonstrando abrangência vocal ao entoar a operística “It’s Now or Never” (O Sole Mio) e abraçando o tipo de produção cinematográfica que poderia se encaixar perfeitamente ao estilo de seu ídolo Dean Martin, a comédia musical romântica. Com “Saudades de Um Pracinha”, Elvis deixou o nicho de rebeldia adolescente e conquistou um público que era formado por crianças, pais e avós.


Saudades de Um Pracinha (G.I. Blues – 1960)
Tulsa McLean (Elvis) é um soldado cujo maior sonho é ser dono de um "Night Club". Para conseguir o valor em dinheiro para que ele possa abrir o seu empreendimento, ele aceita participar de uma aposta, onde, na qual, ele deve passar uma noite com uma bailarina famosa (Juliet Prowse) no local, porém, os dois acabam se apaixonando.


Com o sucesso avassalador de “Ama-me Com Ternura” (Love Me Tender – 1956), uma produção de baixo orçamento, os estúdios perceberam que havia um forte potencial financeiro nos projetos direcionados aos adolescentes americanos. Os produtores entenderam o clamor dos jovens, interessados principalmente em retirá-los de frente da televisão, essa invenção que estava tirando o sono dos executivos de cinema, focando toda atenção nesse cantor extremamente carismático que os levava a assistir diversas vezes suas produções, qualquer que fosse o nível do entretenimento em que estivesse inserido.

“G.I. Blues” era o quinto filme na carreira do cantor, um retorno muito aguardado pelos fãs e curiosos, algo que motivou até mesmo um especial televisivo onde Frank Sinatra se encarregava de dar as boas-vindas ao pracinha roqueiro. A Paramount não poupou despesas, aceitando o risco de que os jovens americanos já não estariam mais tão interessados no rapaz de Tupelo, Mississippi. O produtor Hal Wallis se encarregava de filmar algumas locações na Alemanha, enquanto Presley ainda tinha seis meses de serviço militar pela frente. O investimento era considerável, acreditando que a ausência do astro na mídia durante aquele longo tempo teria servido para aumentar o mito do artista. O diretor escolhido foi o veterano Norman Taurog, que havia sido um dos responsáveis pelo clássico “O Mágico de Oz”, além de ter comandado comédias de Bing Crosby e da dupla Martin/Lewis, como “O Meninão” e “O Rei do Laço”. Em entrevistas à época das filmagens, o diretor louvava a educação do jovem e sua sensibilidade como bom ouvinte, qualidade essencial de um bom ator. Sua relação com Elvis foi tão bacana que ele acabaria dirigindo mais oito produções protagonizadas pelo Rei do Rock.

O conceito inicial previa uma comédia musical com uma trilha sonora que abraçasse diversos gêneros, evidenciando a versatilidade de um cantor que havia aprimorado bastante seu talento desde seus primeiros escandalosos rebolados em rede nacional. Com impecável entrega, Elvis revisitou o rock embrionário de Carl Perkins “Blue Suede Shoes”, o rockabilly diluído de “Shoppin’ Around”, o bate-estaca divertido de “Frankfurt Special”, a balada romântica em “Doin’ the Best I Can” e “Pocketful of Rainbows” (de Ben Weisman e Fred Wise), e, versátil como nunca antes, foi da música de ninar “Big Boots” a uma versão da clássica opereta “Barcarola” de Jacques Offenbach: “Tonight’s So Right For Love”, passando com desenvoltura por “Wooden Heart”, baseada em uma tradicional canção folclórica alemã, além da marchinha militar “Didja Ever” que finaliza a obra, sempre com um sorriso contagiante no rosto. É interessante notar o gradativo desinteresse do astro ao longo de sua década dedicada quase que exclusivamente à Hollywood, especialmente após 1965, onde era cada vez mais raro perceber alegria genuína em suas atuações. A ótima seleção musical é encabeçada por “G.I. Blues”, uma das pérolas subestimadas de Elvis na década de sessenta, especialmente o registro do sexto take, a versão que deveria ter sido a master, lançada comercialmente em uma caixa de CD’s alguns anos atrás.

Vale destacar a ótima fotografia, de Loyal Griggs, responsável também pela obra-prima “Os Brutos Também Amam”. O filme foi um sucesso de bilheteria, tendo recebido críticas favoráveis e até uma importante indicação ao “Writers Guild of America”, como “Melhor Roteiro de Musical”, além da indicação ao Grammy como “Melhor Trilha Sonora”. A parceria em cena com a bela dançarina Juliet Prowse pode ser considerada apenas um degrau abaixo da química que ele alcançaria anos depois com Ann-Margret em “Amor a Toda Velocidade” (Viva Las Vegas – 1964). Ela era namorada de Frank Sinatra na época, o que não intimidou o jovem, que teve um caso com ela durante as filmagens. Era indiscutível que aquele garoto rebelde que havia revolucionado o mundo com sua música havia se tornado um adulto sofisticado, um genro que toda mãe gostaria de ter. Mas essa constatação não diminui o brilho de seu carisma em cena, capaz de carregar nas costas uma produção.

A Seguir: “Estrela de Fogo” (Flaming Star)

"O Melhor Pai do Mundo", de Bobcat Goldthwait


O Melhor Pai do Mundo (World’s Greatest Dad – 2009)
Robin Williams, com exceção de suas breves participações em “Uma Noite no Museu” e “Happy Feet”, estava amargando uma longa sequência de fiascos. O último filme realmente interessante em que havia participado era “Insônia” (2002), de Christopher Nolan, onde teve mais uma chance de demonstrar sua competência em dar vida a personagens sombrios, algo que já se mostrava presente no subestimado thriller “Retratos de Uma Obsessão”. Exatamente por causa dessa maré de indiferença, poucos foram os que perceberam essa pequena pérola, uma tremenda injustiça, já que se trata de um dos filmes mais interessantes em seu gênero, verdadeiramente original, com uma direção corajosa de Bobcat Goldthwaith, comediante stand-up, conhecido pela geração anos 80 como o pirado Zed, de “Loucademia de Polícia”.

Interpretando uma espécie de antítese de seu personagem em “Sociedade dos Poetas Mortos”, Williams vive um professor de poesia frustrado, que sempre sonhou em ser um escritor valorizado. O seu filho adolescente, intensamente grosseiro e tarado, acidentalmente se suicida em uma experiência sexual, fazendo com que o pai, pensando no legado do filho, decida escrever um falso bilhete de despedida, modificando a cena do acidente. A reviravolta ocorre quando o texto acaba se tornando um sucesso em sua escola, inspirando os alunos a enfrentarem seus medos e suas fragilidades. O garoto que era odiado, desprezado por todos, passa a ser o ídolo da garotada. A emoção na cena em que o pai encontra o filho asfixiado é potencializada em revisão, já que traça óbvios paralelos com a morte do ator, que, numa cena posterior, chega a afirmar que o suicídio é uma solução permanente para um problema temporário.

A interpretação contida transparece a ressonância do tema no homem por trás do personagem. Abaixo da camada de humor, vários pontos são levantados, como a necessidade de acreditar em sua vocação, além da imediata beatificação dos mortos em nossa sociedade. A obra também oferece uma das melhores utilizações de uma canção popular no cinema recente, inserida inteligentemente em seu contexto, no bonito desfecho ao som de “Under Pressure”, a inesquecível parceria de David Bowie e Queen. A cena, um literal mergulho apoteótico e libertário, onde o homem, despido de todo o verniz hipócrita de uma existência escravizada pela opinião dos outros, celebra sua vitória interna, o ato de ter abraçado a dura verdade, sorrindo como um bebê que havia acabado de nascer. 

Chumbo Quente - "Um Clarim ao Longe"


Um Clarim ao Longe (A Distant Trumpet – 1964)
O Tenente Hazard, que acabou de sair da Academia de Westpoint, chega ao Território do Arizona pelo quente e empoeirado Fort Delivery. Aterrorizado pela relaxada disciplina da tropa, ele restringe seus privilégios e os submete a árduo rigor. Ao mesmo tempo, ele se acha apaixonando-se por Kitty, a esposa de seu oficial comandante. Esse romance fica complicado quando sua noiva de Back East decide fazer-lhe uma visita. 


Nem mesmo a atuação fraca do péssimo Troy Donahue prejudica essa nobre despedida do diretor Raoul Walsh, uma digna incursão no subgênero dos filmes de Cavalaria, obras de faroeste em que o foco está mais direcionado para a relação de camaradagem entre os homens da lei. Ele ainda tentou realizar “Monte Walsh”, que acabou se tornando “Um Homem Difícil de Matar”, dirigido por William Fraker. É bonito perceber que o cineasta, já no crepúsculo de sua vida, mantinha o entusiasmo pela criação, exalado em cada sequência, trabalhando o tema da igualdade de direitos, especialmente o do índio americano, que recebe nesse projeto uma apaixonada defesa.

Ele queria John Wayne como protagonista, porém, objetivando a imediatista atenção do público jovem, os produtores tomaram a decisão mais equivocada, escalando o canastrão Donahue como o honrado tenente Matt Hazard. Aproveitando a química do jovem com sua futura esposa Suzanne Pleshette, no sucesso popular: “O Candelabro Italiano”, lançado alguns anos antes, o estúdio considerou interessante repetir a dose, em uma ambientação completamente diferente. O ponto alto, algo que confirmei nessa revisão, é a participação da bela e pouco lembrada Diane McBain, como a noiva que percebe o despertar da paixão do seu amado pela gentil viúva, vivida por Pleshette. Outro detalhe importante, um diferencial que agrega maior mérito à obra, é que Walsh fez questão de que, nas cenas, os índios falassem em sua própria língua. Kevin Costner faria o mesmo, décadas depois, em “Dança com Lobos”.

A fotografia de William Clothier, habitual colaborador de John Ford, impressiona nas sequências de ação filmadas no Novo México. “Um Clarim ao Longe” é um faroeste revisionista, atitude simbolizada na cena do julgamento, onde o general afirma que a imprensa livre e o eleitor são as únicas armas possíveis na luta para que os índios recebam um tratamento digno.

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Studio Classic Filmes".

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

"O Conto da Princesa Kaguya", de Isao Takahata


O Conto da Princesa Kaguya (Kaguya-hime no Monogatari - 2013)
Como se fosse necessário ainda citar algum exemplo da total irrelevância do Oscar, principalmente enquanto parâmetro de qualidade, eu acredito que bastaria mencionar a derrota ultrajante dessa refinada obra-prima dos estúdios Ghibli para a grande bobagem esquecível que é “Operação Big Hero”. O diretor/roteirista Isao Takahata, responsável pela pérola “O Túmulo dos Vagalumes”, opta por realizar uma adaptação extremamente fiel da mais antiga narrativa folclórica japonesa existente, “O conto do cortador de bambu”. 

A beleza não reside na trama, sem novidade alguma para aqueles que já conhecem a história, mas, sim, na forma como ela é contada, utilizando uma técnica de animação que prima pela simplicidade, inspirada na pintura japonesa feita com tinta de caligrafia, o Sumi-ê, que leva em consideração o sentimento do artista em sua execução, tentando deixar transparecer a alma e a harmonia interna, elementos mais importantes do que o tema que o artista está trabalhando. Como forma de perceber a riqueza desse estilo, analise como o traço é classicamente bonito e suave, por exemplo, nas cenas em que vemos a bebê adorável aprendendo a andar, contrastando brutalmente com o traço borrado nas cenas em que a protagonista está emocionalmente perturbada. 

E, inserido no contexto da narrativa, vale destacar a crítica que é feita à submissão feminina na sociedade, a pressão que a jovem sofre dos pais, que entendem o ritual do casamento como a óbvia definição da felicidade, quando, na realidade, ela quer apenas conviver com seus amigos de infância, correndo descalça pelo campo, sorrindo e chorando sempre que esses sentimentos brotarem espontaneamente. As regras dizem que, no intuito de conquistar seus ricos pretendentes, ela deve aprender a conter todos os rompantes de emoção. Quando alguém aprende a andar imitando os movimentos das rãs, tendo a natureza, com sua maravilhosa imprevisibilidade, como modelo na vida, acaba se tornando impossível a aceitação conformista de qualquer ritual criado e imposto pelos humanos. 

É forte a cena, emoldurada pela linda trilha sonora de Joe Hisaishi, em que enxergamos a alma da menina se quebrar, enquanto ela tem suas sobrancelhas raspadas, em preparação para uma maquiagem pesada que a impeça de verter lágrimas. Ao debochar da necessidade de escurecer os dentes, retirando facilmente a tinta numa escovada, para o espanto de sua colega, Kaguya evidencia quão frágil é a teatralidade que, ainda hoje, move o mundo, nos mais variados setores. A relevância dessa discussão é muito atual, basta estudar sobre a princesa japonesa Masako Owada, a “princesa triste”. Por baixo da camada de fantasia, o que me cativou foi a inteligência de transmitir valores tão importantes, de forma tão ousadamente direta, em um projeto que tinha tudo para ser compreensivelmente convencional.

domingo, 9 de agosto de 2015

Você já caiu num trote hoje?

Não sei exatamente a razão, pode ser algum tipo de superpoder especial mutante, mas consigo perceber o subtexto manipulativo em várias situações. Fenômenos midiáticos que invadem as redes sociais e, em pouco tempo, se espalham como fogo numa floresta, mobilizando uma massa que não parece interessada em questionar suas ações, apenas seguir a manada. Desconhecidos sem carisma que, da noite para o dia, são vendidos como ídolos em suas áreas. Com uma variação do Olho de Thundera, eu já visualizo com clareza o trambique de marketing, a negociação nada artística, os reais interesses que estão por trás daquela armação. Uma espécie de olho treinado para constatar o óbvio. E esse teatro está ficando cada vez menos sutil, ou o público está ficando menos esperto.

Usando um exemplo recente, a afirmação pública do diretor James Cameron, elogiando generosamente o novo projeto da franquia "O Exterminador do Futuro". Na hora, sem pensar duas vezes, enxerguei a razão: o filme é uma bomba nuclear. É como a Globo Filmes divulgando nos intervalos comerciais da emissora as opiniões agradáveis dos espectadores na saída da sessão dos filmes da Xuxa, uma jogada desesperada de marketing. Tudo que é muito ruim, acreditem no que digo, investe muito mais em propaganda. Quando o astro de uma franquia amada internacionalmente, alguém que nunca foi conhecido por ser desenvolto com a imprensa, decide se tornar uma variação do rapaz das propagandas das Casas Bahia, aparecendo para divulgar o projeto até como animador de festa infantil, abram os olhos, é furada na certa. Quando a produtora despeja uma quantidade absurda de spots/trailers, revelando praticamente todas as cenas importantes de um filme, não há dúvida, nem mesmo o diretor confia no material.

Eu acompanho alguns youtubers divertidos, o tipo de entretenimento rápido que relaxa o cérebro entre um texto e outro na madrugada. Semanas atrás, alguns deles começaram a repercutir um desafio, uma variação da brincadeira do compasso, tal de "Charlie, Charlie", onde a pessoa se comunica com espíritos, esses desocupados, utilizando dois lápis e um pedaço de papel. Na mesma hora, meu cérebro começou a trabalhar, uma espécie de sentido de aranha, pensei: isso é uma estratégia de marketing para o lançamento futuro de algum filme de terror. E era exatamente isso. Nessa semana, estava lendo sobre o futuro lançamento de "A Forca", dos mesmos produtores de "Atividade Paranormal". A brincadeira paranormal que aterrorizou crianças no Brasil, fez com que alunos de Manaus passassem mal e até motivou um exorcista espanhol oportunista do Vaticano, do nível de um entrevistado do programa "Superpop", a alertar as pessoas a respeito dos perigos envolvidos, não passava de uma estratégia de marketing para o lançamento de um produto que, nem preciso ter superpoderes para prever, será uma tremenda bomba.

As pessoas não estão mais exercitando o questionamento, aceitando que o artista "x" é o mais querido do Brasil, quando, na realidade, ele apareceu do nada, out of the blue, como um truque de mágica. Analisando a fundo, você descobre que ele é namorado do diretor da empresa. Nem preciso citar muitos exemplos, quem acompanha as redes sociais já consegue identificar. É tão patético quanto reality shows, que proliferam sobre os mais variados temas, com sua realidade artificial de novela mexicana. Alguém realmente acredita que esses programas são fincados em algum senso de realidade? O mestre mandou todo mundo vestir uma camiseta amarela e postar: #SomosDesocupados. A sociedade precisa urgentemente ler mais, praticar a arte do questionamento no dia a dia, para que o precioso tempo não seja ocupado como joguete de marketeiros, nas mais variadas áreas, com os mais diversos interesses.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A Psiquiatria no Cinema

Talvez o público brasileiro ainda não conheça como deveria Nise da Silveira, psiquiatra alagoana admirada por Carl Jung, que combateu os agressivos métodos convencionais de tratamento de doentes mentais: lobotomia, insulinoterapia, confinamento e eletrochoque, oferecendo uma opção linda, a cura pela arte. Como todos aqueles pioneiros que ousam fugir do senso comum, ela teve que enfrentar vários obstáculos no próprio sistema, porém, o seu legado eterno em sua área continuará sendo celebrado, décadas após o silenciar de todos aqueles que se opuseram ao seu estilo. A sua história está sendo contada no filme “Nise”, do diretor Roberto Berliner, protagonizado por Gloria Pires, em fase de pós-produção.

O cinema sempre abordou o tema, desde o clássico mudo do início da década de vinte: “O Gabinete do Dr. Caligari”, passando pela pérola de Hitchcock: “Quando Fala o Coração”, o extremamente popular “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman, até o mais recente: “Ilha do Medo”, de Martin Scorsese. Selecionei duas dicas para o final de semana, dois tesouros que merecem maior reconhecimento, afinal, essa é uma das funções essenciais de uma lista, direcionar o foco da luz para os cantos escuros da memória cultural.


A Cova da Serpente (The Snake Pit – 1948)
Virginia, vivida por Olivia de Havilland, sofre um ataque de nervos logo após seu casamento, sendo internada num manicômio. Tudo piora quando a enfermeira-chefe ameaça transferir ela para a “cova das serpentes”, o Pavilhão 33, onde são colocados os pacientes sem esperança de cura. Com a ajuda do marido e do psiquiatra, ela se recupera, mas é testemunha dos maus tratos e das péssimas condições às quais as outras internas estão submetidas. Analisando a obra no contexto de sua época, ela se torna essencial para psicólogos que queiram enxergar como a arte refletia o processo inicial de revolta pública na luta antimanicomial. A psicoterapia como filosofia de vida, o conceito de transferência, evidenciado na lucidez da protagonista ao entender-se curada por não se sentir apaixonada por seu psiquiatra. Vale destacar também a defesa da psicanálise como ferramenta importante no tratamento dos pacientes mais graves, dentro de instituições psiquiátricas, algo que, ainda hoje, é discutido na área. O roteiro retrata diversas variações do estado psicótico, de forma quase didática, emocionando ainda mais pelo pioneirismo de sua abordagem direta.


Paixões Que Alucinam (Shock Corridor – 1963)
Poucos diretores foram tão corajosos quanto Samuel Fuller. Ele apertava o dedo nas feridas abertas da sociedade, de forma crua, impiedosa. Não deixe o título nacional te enganar, a trama, que coloca o jornalista Johnny Barrett (Peter Breck) simulando insanidade para ser internado em um hospício e investigar o misterioso assassinato de um louco cometido dentro da instituição, utiliza a interação do personagem com os suspeitos como forma de criticar manchas históricas norte-americanas, como a Guerra Civil, a paranoia nuclear e o racismo. Vale salientar a fantástica sequência do ilógico temporal dentro da instituição, algo que parece saído da mente de Luis Buñuel. Com um desfecho marcante, evidenciando no protagonista os resquícios de mais uma mancha histórica, a obsessão pelo frágil sonho americano, representado pelo prêmio Pulitzer que motiva o profissional, o filme permanece como uma joia rara, o tipo de produção audaciosa que nunca receberia o sinal verde hoje.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Curta de lançamento do livro "Devo Tudo ao Cinema" (2013)

Um curta despretensioso que filmei em Agosto de 2013, como forma de divulgar o lançamento do meu livro "Devo Tudo ao Cinema", pela Editora Litteris, na Bienal do Rio de Janeiro. Contei com a carinhosa participação dos dubladores: Guilherme Briggs, Marisa Leal, Ricardo Schnetzer, Maíra Góes, Manolo Rey, Christiano Torreão, Mônica Rossi e Mabel Cezar.


"Vício Frenético", de Abel Ferrara


Vício Frenético (Bad Lieutenant – 1992)
Nesse, que é um dos melhores filmes da década de noventa, o diretor Abel Ferrara conseguiu construir um clima opressivo, narrando a queda e a redenção de um homem escravizado por todos os vícios mais degradantes, um tenente, vivido de forma irrepreensível por Harvey Keitel, que conscientemente sente prazer em abusar do seu poder, sendo capaz de roubar o produto do furto de bandidos, ou persuadir belas jovens que dirigiam sem carteira de habilitação a evitarem a prisão, satisfazendo seu imediatista desejo sexual em um estupro verbal.

O nome dele nunca é mencionado, o que reforça o aspecto simbólico da trama, que aborda, em essência, o conflito entre o corpo e a alma. A interpretação de Keitel, em seu melhor momento, transpira coragem e vulnerabilidade, carne trêmula falhando em encontrar resquícios de humanidade. O roteiro, escrito em parceria com a atriz Zoë Lund, utiliza um caso real que escandalizou a sociedade da época, o estupro de uma freira, como elemento condutor, já que o corrupto policial não consegue compreender o sentimento de perdão que move a vítima. É quando ele percebe que pode haver redenção em seu horizonte, por mais sombrio que seja o caminho até a luz, visualizado através do filtro de sua crença católica. Perceba o impacto imagético da cena em que o policial se encontra com a freira na igreja, a batalha definitiva entre o espírito e a carne, praticamente um ato de exorcismo. O efeito das drogas, enquanto válvula de escape, já não o ilude mais, o seu organismo já se acostumou. Ele reconhece, em seu choro seco e angustiado, a proximidade do fim e a urgência de sua missão.

Um dos elementos mais interessantes, trabalhado com pouca sutileza, pode ser percebido em uma cena breve, quando o tenente espia a bela freira nua no quarto do hospital. Ele, nesse momento, indo contra suas convicções religiosas, compartilha o mesmo desejo sexual dos dois estupradores, como se, pela primeira vez, ele estivesse se sentindo mal por se colocar no lugar dos bandidos. Essa constatação acaba se refletindo em sua atitude no desfecho, que obviamente não irei revelar. 






* O filme está sendo lançado em DVD, em versão restaurada, pela distribuidora "Versátil".

domingo, 2 de agosto de 2015

"Para Sempre, Alice", de Richard Glatzer e Wash Westmoreland


Para Sempre, Alice (Still Alice - 2014)
Se, por um lado, o roteiro do filme é estruturado como um projeto televisivo exploitation da década de noventa, há de se aplaudir a coragem na escolha do tema, que precisa realmente ser discutido, ele precisa estar nos holofotes. Com exceção de “Amor”, de Michael Haneke, “O Filho da Noiva”, de Campanella, e “A Separação”, de Asghar Farhadi, o Alzheimer normalmente é utilizado com excesso de melodrama, um recurso pouco elegante, apelativo. “Para Sempre, Alice”, do diretor Richard Glatzer, não chega a entrar nessa categoria, por pouco, porém, é vítima de uma utilização minuciosamente calculada, o que dá a impressão de que trata a doença como força motriz banal para um gradual crescendo de suspense, buscando lágrimas, algo que se poderia esperar, por exemplo, de uma telenovela mexicana.

A atuação de Julianne Moore, que vive uma professora de linguística que começa a perceber estar esquecendo as palavras, acompanha a proposta folhetinesca da condução da trama, porém, em pequenos momentos, muito discretos, ela demonstra grande inteligência, como quando, no início do filme, ela, em um discurso público, enfatiza sua preocupação exagerada com cada sílaba proferida, enriquecendo, em subtexto, a fragilidade do roteiro. Essa atitude diz muito sobre a personalidade dela, e, especialmente, sobre a importância psicológica de sua formação profissional, enquanto alicerce principal de sua segurança. Ao perceber os primeiros sinais da doença, ela perde sua confiança, desaba, já que todos os elementos externos, família, amigos, são coadjuvantes de luxo em sua vida. Moore preenche com essas sutilezas o histórico de sua personagem, que o filme se limita a revelar, de forma canhestra e convencional, em flashbacks bucólicos.

O filme acerta ao retratar os vários estágios da doença, a desorientação, as distorções visuais, a reação dos familiares, como o marido, vivido por Alec Baldwin, que prefere fingir crer que não há nada de errado, como forma de mascarar sua preocupação. Outro ponto importante que é salientado, o fato de que, diferente do senso comum, o estereótipo que se limita aos devastadores estágios finais, o Alzheimer já passa a ser uma árdua batalha desde a averiguação inicial dos sintomas, que causam no indivíduo uma perda total de autoestima, os primeiros passos de uma jornada solitária por uma longa estrada cada vez mais escura. O medo usualmente faz com que as pessoas temam tocar no assunto, o que é sempre prejudicial. Quanto mais filmes e livros forem feitos sobre o tema, maiores serão as chances de que, num futuro próximo, as vítimas tenham um problema a menos para se preocuparem: a ignorância da sociedade.

"Vida Cigana", de Emir Kusturica


Vida Cigana (Dom Za Vesange - 1988)
Perhan é um jovem que mora com a avó na periferia de Sarajevo e sonha se casar com Azra. Para isso, é convencido por Ahmed a ir para a Itália, a troco de uma promessa de fortuna rápida. A viagem revela-se uma armadilha, onde o jovem descobre que o “emprego”, na verdade, tem a ver com o tráfico de crianças. O grande público pode se lembrar de “Arizona Dream”, com Johnny Depp e Jerry Lewis, que é um excelente ponto de partida para a obra verdadeiramente única do diretor Emir Kusturica, mas, para esse escriba, os quatro melhores filmes dele são: “Vida Cigana”, "Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios", “Gata Preta, Gato Branco” e “Underground – Mentiras de Guerra”. 

O cineasta iugoslavo, como sempre, direciona sua atenção para as camadas menos favorecidas da sociedade, utilizando humor e generosas doses de realismo mágico, a difícil arte de captar o elemento surreal a partir de uma encenação fincada na realidade, criando sequências que realmente permanecem na mente por um longo tempo após a sessão. Adoro todos os momentos de interação entre o garoto e sua avó, o coração da trama, especialmente na cena em que ela defende o neto da verborragia preconceituosa da gananciosa mãe da namorada dele. Como esquecer também o hilário “sequestro” das paredes da casa da família, o ato desesperado de um viciado em jogo? O roteiro utiliza a comunidade cigana como microcosmo, com todos os diálogos falados na língua romani, tendo na figura de seu protagonista, vivido por Davor Dujmovic, o relato clássico do inocente que desce ao inferno, em essência, um conto de amadurecimento. 

E vale destacar a importância da trilha sonora de Goran Bregovic nessa encantadora imersão que a obra nos proporciona, uma espécie de paixão à primeira vista. Temas como “Scena Perhanove Pogibije” e “Glavna Tema”, com sua fascinante aura de melancolia, e, claro, a impressionante “Ederlezi”, uma versão de uma canção folclórica balcânica, que toca na cena onírica ambientada na festa de São Jorge.