segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Cine Bueller - "O Casamento dos Trapalhões", de José Alvarenga Jr. (Entrevista com Nádia Lippi)

Link para texto sobre “Cinderelo Trapalhão”:

Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso sobre a produção com a amiga Nádia Lippi, que viveu o par romântico de Renato Aragão em "O Casamento dos Trapalhões". Conheci a Nádia quando atuamos no longa "Histórias Íntimas", dirigido por Julio Lellis e Breno Pessurno, filme que recebeu o prêmio máximo em sua categoria no Los Angeles Brazilian Film Festival de 2014.

O – Querida Nádia, essa é uma questão que sempre quis te fazer, como era o clima nos bastidores de uma produção dos Trapalhões? Havia liberdade de improviso, ou o roteiro era seguido à risca? Você tem histórias interessantes/divertidas de bastidores? Como era a sua relação com cada um dos quatro? Disserte à vontade sobre essas questões.

N - Bem vamos lá...

Quando se pensa em Trapalhões imediatamente vem na cabeça a graça de cada um, o estilo mocó de Didi ser, a risadinha tímida e jocosa, típica de Zacarias, o linguajar inventado por Mussum e a gaiatice do galã do quarteto, o Dedé, certo? 

Pois é, tudo existia na frente e atrás das câmeras nas filmagens, mas nunca a ponto de atrapalhar o ritmo dos trabalhos. O mais sério, ou melhor, menos brincalhão, sempre foi Mauro, o Zacarias, mas sempre participando das brincadeiras fora de cena também. O Mussum era o mais encapetado sempre (rs).

Renato alternava com Dedé, sempre um contradizendo o outro. Na brincadeira, claro, mas era divertido sempre.

Quando era necessária a troca de câmeras de lugar ou a iluminação ter que ser refeita, aí demorava mais, e se fosse sequência direta com os atores, ficávamos nas marcas e aí rolava tudo de engraçado. As falas quase sempre eram alteradas à maneira de cada personagem do quarteto, mas sem tirar significado. Horários eram respeitados e hierarquias também. Acima de tudo os Trapalhões eram super profissionais.

Nunca me esqueço, no último dia de gravação, quando Mussum já chegou soltinho no set, e as cenas que foram gravadas ao redor de uma mesa numa cena de jantar. Demorou tanto pra mexerem na iluminação, que uma roda de samba se instalou no set e aí nesse dia a continuidade dos trabalhos foi difícil. Boas lembranças. Mussum “atacadésimo” era uma loucura!

Minha relação maior sempre foi com Renato já que convivia com a família toda e a Thalita (filha) era muito amiga de Juliana, a filha mais nova de Renato e Marta. Não via o Renato como Didi e sim como o meu amigo. Renato já me conhecia desde que eu tinha uns 15 anos, em sua passagem pela TV Tupi. Faz tempo, né? (rs)

O – Você já havia participado de “O Trapalhão na Arca de Noé”, o projeto solo do Renato Aragão, mas como foi o convite para “O Casamento dos Trapalhões”? Sendo uma apaixonada por cinema, creio que a homenagem ao clássico musical “Sete Noivas Para Sete Irmãos” tenha sido um precioso estímulo, certo?

N - Sim eu já havia feito o Arca, e fiquei muito honrada, já que a atriz que faria o filme seria, segundo me disseram, a Regina Duarte, e, como ela não pôde fazer, achei um luxo, até porque eu já estava ausente da televisão ha alguns anos.

Era o filme da separação e o clima era bem esquisito pra mim, pois via um Renato mais introspectivo e a equipe que tinha muita gente da própria família de Renato, toda mais pragmática e preocupada talvez com o momento delicado de Renato, que demonstrava certa melancolia a meu ver. O clima das filmagens não foi ruim nem tenso, apenas sem a alegria deles juntos. Quem quebrava a seriedade era o Sergio Malandro. Mas foi legal assim mesmo.

Agora o outro, o do Casamento, nossa, foi bárbaro! Quando recebi o convite, nem acreditei. Pois já afastada de tudo, receber de novo um convite de Renato pessoalmente foi uma honra. Era o casamento de Didi Mocó e eu seria a sua parceira. Um luxo!

Foi o maior presente que eu poderia receber da família Aragão, aliás, saiba que sempre fui querida por todos e guardo lembranças muito agradáveis da convivência com a família Aragão e com a família Trapalhões.

Estar atrelado ao filme “Sete Noivas para Sete Irmãos”, para mim, não teve peso.

O – Qual você considera que foi a maior contribuição do diretor José Alvarenga Jr. para o projeto?

N - Bem, eu acho que o talento de Zé Alvarenga é hoje indiscutível e acho que mesmo já tendo dirigido um filme, o Trapalhões na Selva, foi no projeto do Casamento dos Trapalhões, já em outros tempos e com uma produção mais rica, que ele pôde trabalhar cada personagem e suas particularidades. Acho que foi a escolha perfeita, pois todos já se conheciam e existia a confiança profissional que permitia ousar.

Além de ser um diretor calmo, alegre, sem estrelismos e com muita competência. Eu adorei! Se tivesse que voltar à TV, adoraria trabalhar com ele. Sou fã!

O – O Dedé Santana, algo que muitos não valorizam, teve fundamental importância em vários filmes do grupo, até mesmo como diretor informal (e oficial em cinco, como “A Filha dos Trapalhões” e “Atrapalhando a Suate”), fazendo uso de um excelente timing cômico e dos ensinamentos de J.B. Tanko e Adriano Stuart. E como ele já afirmou que os musicais de Hollywood são sua grande paixão, eu creio que ele tenha demonstrado maior empolgação nesse filme. Você testemunhou alguma filmagem em que ele cooperou além da função de ator, para o resultado final?

N – Sim, uma pessoa pra lá de importante para a história do quarteto, com certeza. Uma pessoa extremamente do bem, carinhoso parceiro de cena, amigo verdadeiro de todos. Esse pra mim sempre foi Dedé.

Como já disse, conheci o grupo há muitos anos e uma coisa que admiro são as pessoas que não se transformam com o sucesso, o Dedé sempre foi um exemplo disso. Vivi todas as fases do quarteto e sua maneira simples ao me encontrar em qualquer lugar sempre me chamou a atenção.

Quanto à sua importância no grupo é incontestável. Ele era a escada para toda graça de Didi. Consegue imaginar o Gordo e o Magro sem o Magro? Ou os três patetas sem um deles? Pois é, muitos não se davam conta da importância de cada um deles.

O – A crítica nunca prestou muita atenção nos filmes do quarteto, algo que sinceramente não consigo compreender. A comédia popular nunca é valorizada em seu tempo, até mesmo Jerry Lewis era desprezado pelos críticos norte-americanos, ainda que fosse idolatrado pelos franceses. Como você enxerga essa constatação? E, complementando, você teve a sorte de participar de um fenômeno cinematográfico que nunca foi sequer equiparado no Brasil. Como você analisa a importância dessa parceria com o grupo, no contexto de sua carreira profissional?

N - As produções da época das Chanchadas foram também discriminadas pela crítica, mas atualmente se tornaram ícones da história do cinema brasileiro. Acho que isso responde a sua pergunta.

O quarteto provou a sua importância pra gerações e sempre ocupará a lembrança de todos. E quanto à importância dentro da minha história, inegavelmente, uma das maiores honras pra mim.

Um dia, quando meus netos pesquisarem minha vida, saberão e irão rir por terem tido uma vó " trapalhona" (rs).

O – Eu revi o filme para escrever meu texto e, surpreendentemente, ele segue eficiente e simpático como na época em que o vi pela primeira vez, na minha infância. Como você analisa “O Casamento dos Trapalhões” em retrospecto?

N – Concordo. O filme é atemporal. Aliás, em sua maioria, os filmes do quarteto sempre serão atemporais. Isso, acho, faz parte da magia do humor tão bem demonstrado por eles.

O filme veio coroar o trabalho deles, os personagens criados por eles e tão bem definidos no filme. Cada um mostrando seus personagens com maiores características do perfil de cada um, vivendo histórias verossímeis e mais próximas da realidade. 

Acho que é assim que defino o sucesso do filme “O Casamento dos Trapalhões”, maior proximidade com a realidade.


O Casamento dos Trapalhões (1988)
Quatro irmãos, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, são caipiras que vivem na área rural. Didi vai até uma cidade próxima e, após entrar em uma briga com Expedito, conquista Joana, que o segue até o seu rancho. Eles resolvem se casar, apesar dela não se sentir muito à vontade com a presença dos seus irmãos, que são bem pouco educados.


Eu tenho um carinho especial por esse filme, já que ele foi lançado no período em que eu realmente me divertia com o quarteto em várias mídias. Eu nasci em 1983. Quando ele começou a ser exibido na “Sessão da Tarde”, eu passava horas entretido com os RPG’s: “Didi Volta Para o Futuro” e “Didiana Jones e a Ilha dos Dinossauros” (antes de me aventurar nos livros-jogo “Aventuras Fantásticas”, de Steve Jackson e Ian Livingstone), além de colar nas paredes do quarto os pôsteres que vinham no centro da revista em quadrinhos: “As Aventuras dos Trapalhões”, pela Editora Abril, que mostrava o grupo em paródias de filmes de Hollywood. E a animação de abertura do filme utilizava o mesmo traço infantil simpático dos personagens nesses gibis. Eu não peguei a fase dos quadrinhos da Editora Bloch. No vinil “Parque de Diversões”, de 1988, a última canção do segundo lado do disco era o animado tema do filme, com frases como: “Vida boa, boa nada, sem muié pra namorar... Vida boa, boa nada, tô querendo me casar”. Era uma overdose de humor circense, na televisão, no cinema, nos quadrinhos, uma fase que me traz recordações muito agradáveis.

A direção de José Alvarenga Jr. consegue estabelecer com muita naturalidade um clima de harmonia que transparece nas cenas, um tom muito menos formal do que era comum nos filmes que o quarteto realizou na década de setenta. Essa irresponsabilidade criativa, altamente técnica, conseguiu até mesmo inserir as necessidades mercadológicas, o product placement e a participação da banda Dominó, elementos que causam constrangimento em outras produções dessa fase final do grupo, com alguma relevância no contexto da trama, ou executadas de forma rápida e indolor, como quando o sorridente boneco Bocão das gelatinas Royal paquera a namorada de um dos integrantes da boy band formada por sobrinhos urbanos dos quatro caipiras. Sobrinhos urbanos, por sinal, que ainda tentam conquistar as gatinhas com piadotas de “Joãozinho”.

É uma ingenuidade que funciona bem com as crianças e ganha contornos irônicos que só os adultos percebem. Gosto também da sequência emoldurada pela boa canção “Alegria”, de Sullivan e Massadas, mostrando Didi e Dedé executando várias acrobacias circenses em uma apresentação pública, um momento que captura a magia única desse grupo. É, guardadas as devidas proporções, como ver as sequências musicais dos Irmãos Marx, com Chico tocando piano, Harpo se balançando e Groucho desferindo sua metralhadora verbal. O cerne criativo dos Trapalhões está registrado nessa cena. 

Entrevista com Rafael Spaca, autor do livro: "O Cinema dos Trapalhões"


Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso com o escritor Rafael Spaca, responsável pelo livro: "O Cinema dos Trapalhões - por quem fez e por quem viu", que promete preencher uma grave lacuna, já que os filmes do quarteto sempre foram desprezados por grande parte da crítica, ainda que amados pelo público. 


O - Rafael, como o cinema dos Trapalhões impactou sua vida? Disserte sobre sua experiência pessoal com os filmes do quarteto (o primeiro que assistiu, o mais marcante e a razão). E como nasceu a ideia de preparar esse livro?

R - Os Trapalhões contribuíram, juntamente com outros elementos e referências que tenho, para influenciar minhas escolhas profissionais. Eles promoveram grandes experiências sensoriais na minha infância. O impacto foi de tal maneira que me motivou a escolher esse caminho (da produção e da pesquisa cultural) como meio de vida. Minha primeira ida ao cinema, levado pelos meus pais, foi para ver “Os Trapalhões e o Rei do Futebol”. Com as exibições na televisão e a chegada do videocassete, consegui acompanhar toda a filmografia deles.

Esse livro nasceu da vontade de preencher uma lacuna: a bibliografia relacionada aos Trapalhões é ínfima perto da importância que eles possuem na nossa história fílmica.

O - Durante muitos anos a crítica silenciou a respeito desses filmes. Como você analisa essa reação de parte da crítica com os filmes populares?

R - A crítica não silenciou, ao contrário, ela esculachou os filmes dos Trapalhões.

Hoje, com o distanciamento histórico, e com uma nova geração de críticos que não possuem um olhar enviesado para o popular, os Trapalhões se tornaram cults. Acredito que em breve serão reavaliados em festivais e mostras de cinema pelo país. 

O - É uma pena que muitos ignorem a importância de Dedé Santana nos bastidores. Ele atuou como diretor informal em alguns filmes, tendo aprendido com J.B. Tanko e Adriano Stuart, além de dirigir oficialmente alguns projetos, como "A Filha dos Trapalhões". Aborde essa faceta pouco comentada dele, com base nas pesquisas que realizou para o livro.

R - Dedé Santana é um artista nato. Natural do circo, a arte corre em seu sangue. Leva até hoje todo o conceito do circo para a sua vida: alia talento com esforço, dedicação e a paixão pelo ofício. Transitou em quase todas as áreas do cinema. Chegou a produzir filmes na Boca do Lixo de São Paulo. Além de ser considerado o maior escada de todos os tempos, com sua vontade de fazer acontecer, chegou a dirigir filmes dos Trapalhões, e se saiu muito bem. Ainda hoje sua importância é subestimada.

Sem Dedé Santana nenhuma piada nos Trapalhões teria o efeito que tinha. Ele é um dos gigantes da nossa comédia.

O - É comum dizer que Zacarias, o Mauro Gonçalves, era o grande ator do grupo, até por ele ter sido o único que realmente encarnou um tipo caricato. Mas poucos entendem que Mussum, com sua naturalidade fantástica, fazia algo também muito difícil. Dedé, o escada, um dos trabalhos mais difíceis para um ator. O comediante é sempre desvalorizado, ainda que faça o mais difícil. Marlon Brando, por exemplo, não conseguiria fazer "escada" com a competência de Dedé. Como você analisa cada membro do quarteto, no que tange a atuação deles, especialmente nos filmes.

R - A comparação feita no Brasil sempre é feita para nivelar (por baixo), simplista demais. A análise tem que ser muito mais complexa do que nominar bom ou ruim. O que seria dos Beatles e dos Rolling Stones sem um ou dois dos integrantes da sua base? Certamente a nossa percepção seria outra a respeito deles.

Os melhores filmes dos Trapalhões, à exceção de “Uma Escola Atrapalhada”, têm os quatro no elenco. Ou não?


O - Qual diretor que trabalhou com o grupo você considera que agregou mais qualidade à filmografia deles? Disserte à vontade sobre as razões.

R - São dois. J.B.Tanko pelo tempo da parceria, pelos clássicos que realizou e pelo conceito de cinema e de linguagem que atrelou aos Trapalhões, e José Alvarenga Jr., um iconoclasta que ousou desafiar certos tabus (como a questão da afetividade, do relacionamento amoroso do personagem Didi nos filmes) e deu um sopro de energia e de magia nos últimos filmes do quarteto.

O - Já na fase final dos filmes, o product placement foi ficando cada vez menos sutil, assim como deram espaço para a participação cada vez maior de grupos musicais como Dominó e Polegar, além de participações nada gloriosas de figuras como Gugu e Conrado. Como você analisa o envolvimento desses artistas nos projetos? Desses últimos filmes, quais são os que você considera que tenham sublimado esses obstáculos mercadológicos (e a razão)?

R - O ingresso destes artistas com apelo no público jovem foi para manter e também atrair mais público nas salas de cinema. Os Trapalhões começaram a dividir o protagonismo. Não gostei dessa estratégia. A mim sempre causou um estranhamento. Na minha visão eles eram autossuficientes o bastante para utilizar este tipo de expediente.

É possível notar no roteiro que a história ganha uma gordura desnecessária para atender a mais personagens na história do filme. O público, em sua maioria, não reclamava e isso se tornou um padrão. 

O - Tem alguma história divertida/curiosa dos bastidores de sua pesquisa, do contato com os artistas para o projeto do livro?

R - O que mais me emocionou durante a produção deste livro foi o engajamento dos profissionais que se dispuseram a falar comigo. Todos, sem exceção, demonstraram grande satisfação ao saber que estava a caminho um livro a respeito dos Trapalhões. Me ajudaram indicando profissionais e assim fui construindo uma rede de contatos que me permitiu entrevistar mais de 130 profissionais.

Uma curiosidade: o livro terá dois álbuns de fotos. Essas imagens foram cedidas pelos próprios entrevistados que disponibilizaram o seu acervo para compartilhar com os leitores. Muitas imagens são raras e inéditas.


O - Qual você considera que é o maior legado do quarteto para o cinema nacional, não na questão da bilheteria, já muito explorada, mas no que tange a qualidade do conjunto de obra?

R - Os Trapalhões mantiveram acessa a chama do cinema nacional. Criaram postos de trabalho, revelaram talentos, formaram plateias, criaram o hábito de ir ao cinema em milhares de pessoas.

Agora, pra mim, o mais significativo: fizeram um cinema para a família.

O – Os meus três filmes favoritos dos Trapalhões são: “Cinderelo Trapalhão”, “Os Saltimbancos Trapalhões” e “Os Trapalhões no Auto da Compadecida”. Quais são os seus três filmes favoritos do grupo (e a razão)?

R - “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” por marcar minha primeira ida ao cinema. “Os Saltimbancos Trapalhões” e “Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão”. Eles estavam no auge nestes dois filmes.

O - Rafael, por gentileza, deixe uma mensagem final para os meus leitores, e, fique à vontade para divulgar os eventos de lançamento do livro.

R - O livro “O Cinema dos Trapalhões – por quem fez e por quem viu”, sairá pela Editora Laços. Faremos dois lançamentos no mês de abril. Um em São Paulo (https://www.facebook.com/events/1194204233967168/) e outro no Rio de Janeiro (https://www.facebook.com/events/1661941954058570/).

Convido todos os leitores a irem ao lançamento. Será uma grande oportunidade de encontrar ou reencontrar muitos profissionais que ajudaram a construir a história do grupo.


domingo, 28 de fevereiro de 2016

"A Noviça Rebelde", de Robert Wise (Entrevista com Miguel Falabella)


O colega ator/roteirista/diretor Miguel Falabella, grande fã do musical, em uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", aborda o impacto da obra em sua vida. 

Entrevista com Miguel Falabella:

O - Você consegue recordar a experiência de ver o filme pela primeira vez? Como foi? E nessa primeira sessão, quais aspectos do filme te cativaram com mais intensidade?

M - Lembro-me perfeitamente de ir ao Cine Palácio, na Cinelândia, levado por minha avó, com meus irmãos. O filme me causou forte impacto pois, para além da cinematografia, enredo e canções, trazia um dado muito especial: um elenco infantil que estabelecia uma imediata identificação com a plateia mirim. Havia mesmo um menino da minha idade no elenco, de modo que, de certa forma, o filme assinala a minha primeira vontade de fazer "aquilo que eles faziam". Há igualmente uma frase que ouvi e que repito até hoje. "A reverenda madre sempre diz: quando Deus fecha uma porta, em algum lugar abre uma janela." Lembro também que saímos todos cantarolando do cinema e fomos assim até à Ilha, numa alegria e despreocupação que só quem viveu os anos sessenta pode avaliar.

O - Você já gostava do trabalho do diretor Robert Wise quando viu o filme? Foi um projeto muito diferente de tudo o que ele havia feito, mesmo sendo um musical (como "Amor, Sublime Amor", feito por ele dois anos antes), a abordagem era totalmente diferente. Você, como diretor teatral com experiência no gênero musical, considera que essa opção por suavizar os elementos da peça original (apresentada pela primeira vez em 1959), o que resultou em uma narrativa menos "teatral" que sua versão para West Side Story, foi acertada?

M - Não conhecia o trabalho do Wise, só vim a conhecer e a identifica-lo como diretor anos mais tarde. Acho que as propostas de West Side Story e Noviça são completamente diferentes. A própria música conceitua ambos os produtos de forma diferente. West Side Story tem música provocadora, inovadora, mais consistente, já a Noviça segue a tradição da velha Broadway, com canções que qualquer um é capaz de cantarolar após ouvi-las pela primeira vez. Em termos de produto para o "mainstream" não poderia ter sido uma decisão mais acertada, haja visto o êxito do filme internacionalmente. De qualquer maneira, é um clássico e não se imagina mais a obra de outra forma. Eu vi montagens em que a ascensão do nazismo e a vida no claustro eram olhados com mais dureza e a coisa simplesmente não funcionava.

O - Você tem alguma história interessante/divertida que envolva o filme em sua vida? Você costuma rever com frequência?

M - Não vejo o filme há muitos anos, mas acho que a minha geração toda se imaginou correndo por aquela mítica Salzburg, cantando os clássicos do filme. Eu ainda tive a sorte de ver a montagem teatral, no teatro Carlos Gomes, com Norma Suely e Carlos Alberto fazendo o Capitão Von Trapp. Canto até hoje aquelas versões: Flor da manhã enfeitada de orvalho/Uma chaleira compondo o fogão/Um passarinho cantando no galho/Coisas que eu guardo no meu coração! Eu me lembro do programa da peça, acredita? Fiquei impressionado pois havia três elencos infantis. A Monique Lafond fazia a Louisa, se não me engano. Djenane Machado e João Paulo Adour eram a filha mais velha e o namorado-carteiro. Não me lembro quem fazia a baronesa. Era de São Paulo, Mas tive uma alegria, pois certa vez escrevi uma crônica n'O Globo falando sobre minha experiência com a peça e a Norma Suely, que ainda estava viva, me ligou profundamente emocionada. Foi bonito.

O - Na época foi uma atitude arriscada apostar em Christopher Plummer, um ator respeitado em papéis dramáticos, mas sem experiência em musicais. Ele brinca até hoje dizendo que considera o filme sentimental ao extremo, não era o ator que se pensaria como óbvio na época para o personagem. Você considera que essa atuação, com o sucesso do projeto, acabou conduzindo ao cenário que vemos hoje, onde não há mais esse equivocado rótulo, com atores sem experiência em musicais se aventurando no gênero?

M - Ainda que ele não esteja totalmente à vontade no gênero, Plummer tem um charme e um magnetismo muito fortes e seu Capitão Von Trapp estabelece a autoridade sem a qual a história não caminharia. Era um homem muito bonito e, como sua própria carreira demonstrou, um ator de recursos. Acho que os atores têm uma área de conforto, todos nós temos - aquela região onde você encontra suas raízes, sua respiração, etc. Mas é interessante aventurar-se para além dos limites do conforto. O preconceito existe até hoje. Como diria Hugh Jackman, quem acreditaria em um Wolverine que dança e sapateia? Eu acreditaria, mas enfim, eu não sou todo mundo, é claro.

O - Julie Andrews quase não foi escalada para o papel. Ela também foi vítima do rótulo, por ser atriz de teatro. O que a salvou foi que a Disney mostrou pro diretor alguns rough cuts de "Mary Poppins", que estava sendo filmado. Você consegue imaginar esse filme sem a presença dessa talentosa atriz? Fique à vontade pra discorrer sobre os elementos que ela trouxe para a personagem e que fizeram a diferença.

M - Julie Andrews é insubstituível no papel. Carisma, talento e voz irretocáveis. É claro que não havia qualquer transgressão (e nem a obra pedia) em seu trabalho. Ela atravessa o filme sem uma mácula, acho que ninguém imagina uma transa entre Maria e o Capitão Von Trapp, afinal eles dançam comportadamente nos jardins da mansão, etc e tal. Mas ela está soberba e faz tudo aquilo com uma graça e leveza impressionantes. Nunca mais ninguém imaginou Julie numa cena de sexo e olha que até os seios ela mostrou em S.O.B. Mas é matadora como Maria, uma lenda do entretenimento e deixou o nome escrito nas estrelas.

O - Minha cena favorita é a do festival ao final. A canção "Edelweiss" cantada pela família no contexto dramático da fuga da família. E, para você, qual a melhor cena do filme e a razão da escolha.

M - Minha cena favorita, entre tantas, é o balé dos adolescentes na estufa, logo antes da tempestade, em "I Am Sixteen...".



A Noviça Rebelde (The Sound of Music - 1965)
Como em todo bom filme, existem várias formas de se assistir esse musical. Você pode ver pelo ponto de vista da jovem Maria (Julie Andrews), acompanhando sua jornada de autoconhecimento. As fantasias adolescentes que a faziam correr e buscar refúgio no topo da montanha, com sua maturidade personificada pela personagem da Madre Superiora (Peggy Wood), que a desafia a tomar as rédeas de sua vida. Visto por esse prisma, as músicas nascem quase que naturalmente e expressam emoções impossíveis de serem contidas. A alegria incomensurável de “The Sound of Music”, a inocente arrogância frente ao perigo em “I Have Confidence” e o nascimento da paixão em “Something Good”.

Podemos assistir pelo ponto de vista do amargurado e sisudo capitão Von Trapp (Christopher Plummer), que após o falecimento de sua esposa, dedicou-se a uma vida de reclusão. Seus sete filhos são o reflexo perfeito de sua criação distante e fria. Rebeldes e medrosos, sempre tentam afastar as pessoas de suas vidas. Ao conhecerem a nova governanta, que os trata como iguais, respeitam-na como uma amiga. O mesmo ocorre com o capitão, que pouco a pouco percebe a luz que irradia afastando as sombras de sua mansão, sempre que Maria está presente. Com a jovem noviça ele reaprende o amor pelo canto e faz por merecer a admiração dos filhos. Por esse prisma, as canções se tornam protestos velados, pequenas batalhas interiores, como na bela e patriótica canção “Edelweiss”, que em sua primeira versão transforma o capitão amargurado no homem admirável que ele escolheria ser a partir daquele momento. Já em sua versão interpretada no festival de música, torna-se um grito de protesto contra os nazistas que tomavam o controle de seu amado país. Numa linda analogia, próximo ao final da música, a voz embargada de Plummer intenciona perder a força, somente para vermos a união da família que invade a canção em coro, empolgando toda a plateia que responde em uníssono, com orgulho e emoção renovados. 

Um musical ingênuo, um drama poderoso, uma comédia deliciosa e, acima de tudo, uma história de superação. A obra eterna do diretor Robert Wise irá continuar a atrair públicos de todas as idades, não somente por sua excelência técnica ou pelas atuações carismáticas de todo o elenco, mas pela enorme variedade de emoções contidas e envoltas nas mais adoráveis canções da dupla Rodgers e Hammerstein.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Aos guerreiros das locadoras de vídeo

Estava eu, um magricela de óculos, com pouco mais de quatorze anos de idade, procurando um raríssimo filme russo, que conheci lendo a biografia de um cineasta. O livro já foi uma dificuldade pra achar, pois não tinha sido lançado traduzido por aqui. Pedi para um parente trazer de uma viagem ao exterior. Mas o que importa é o filme. Só tinha o título original, ano de lançamento e poucas informações, como sinopse e alguns atores que compunham o elenco. Numa época pré-internet, dúvidas desse tipo nós tentávamos elucidar perguntando aos mais velhos da família ou, com sorte, alguns amigos próximos que também apreciassem o tema. Eu fui com meus pais em todas as locadoras do bairro, mas nenhuma tinha essa relíquia. Na maioria, nem sabiam da existência dele. Aproveitava qualquer oportunidade de passeio fora da minha área de atuação, escola-casa, para explorar as locadoras em busca desse Graal. Mesmo depois de quase cinco meses, minha cruzada não havia trazido frutos.

O dono de uma locadora com ótimo acervo de clássicos europeus conhecia o filme, mas me informou que era impossível achar uma cópia dele em VHS no Brasil. Eu chegava a sonhar com as cenas criadas pela minha imaginação, já que no livro não tinha nenhuma foto da produção. Será que ele era tão bom quanto imaginava no meu roteiro em parceria com Morfeu? Continuei procurando, tentei reservar com um dono de locadora com jeitão meio mafioso, que disse que conseguiria uma cópia, sem legenda, numa remessa que iria receber. Minha mãe pagou adiantado o considerável preço cobrado e ele nunca me trouxe a tal fita. Esperei dois anos para que meu parente viajasse novamente ao exterior, para escutar ele dizer que nas lojas de lá ele também não tinha encontrado. Exatamente quatro longos anos após minha procura inicial, desisti oficialmente de achar o tal filme.

Alguns anos atrás, por curiosidade nostálgica, após lembrar o nome da obra numa conversa divertida em família, coloquei o nome do filme russo no Google (Sadko - 1953) e, voilà, eu encontrei umas dez formas de se baixar, com imagem em alta definição e com legendas em português e inglês. Dez minutos depois estava finalmente assistindo, confortavelmente sentado, com uma taça de vinho ao lado. E, noventa minutos depois, descubro surpreso que o filme é incrivelmente, terrivelmente ruim.

Eu continuo me lembrando, com fascínio e ternura, da minha infância passeando pelas locadoras de vídeo, em meu livro, inclusive, utilizei bastante essas memórias afetivas, mas compreendo a razão que as levou a se tornarem hoje uma relíquia empoeirada. Pagando o valor de um misto com café com leite na padaria, posso ter ao alcance dos dedos um ótimo acervo no Netflix, por exemplo, ou sem pagar nada, baixando no computador ou assistindo completos no Youtube aqueles clássicos mais difíceis de encontrar. A locadora, como genérica distribuidora de mercadorias, não resiste hoje. Mas existe algo nela que nenhum download satisfaz: o aspecto humano. O atendente que realmente entende do assunto, guiando o cliente em suas escolhas. O dono, que busca sempre melhorar o acervo, organizando os filmes por diretor ou elenco, dando a mesma atenção para os blockbusters e os clássicos europeus. Aquele que ousa abrir uma locadora hoje precisa ser um apaixonado pela Sétima Arte. E, posso garantir, não existe nada mais prazeroso que adentrar uma locadora por curiosidade e perceber que se ficou mais de uma hora conversando com o atendente e seus clientes, sobre os filmes do Sokurov e a importância da fotografia nos projetos do Bergman. Posso garantir, pois aconteceu comigo.

Então, como uma pincelada final, afirmo que é puramente compreensível a extinção das locadoras de vídeo nesse mundo em que as informações estão felizmente ao rápido alcance dos dedos. Mas o que nós, cinéfilos apaixonados e aqueles interessados em adentrar esse mundo, perdemos com essa facilidade? Não seria uma solução melhor, por exemplo, aprimorar o conceito desses estabelecimentos, potencializando o valor do aspecto humano, deixando de vê-los como simples mercados de filmes? Existem bravos guerreiros que se mantém firmes na batalha... E esse texto eu dedico a eles.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Tesouros da Sétima Arte - "Possessão", de Andrzej Zulawski

Link para os textos do especial:


Possessão (Possession - 1981)
Nessa polêmica trama de amor obsessivo e psicose sexual, Isabelle Adjani e Sam Neill estrelam como um casal atormentado pela instabilidade emocional e a infidelidade carnal.  


À primeira vista encontro dificuldade em categorizar a obra em algum gênero específico, já que possui muitos elementos de horror, ainda que, em seu cerne, seja um drama existencialista. Evitarei revelar alguns pontos nesse primeiro parágrafo, para preservar a experiência daqueles que ainda não conhecem o filme. O diretor polonês Andrzej Zulawski conduz sua narrativa utilizando metáforas. Muito pouco do que se vê pode ser compreendido de forma literal, o que transforma várias cenas em pesadelos perturbadores que fariam o David Lynch ficar arrepiado. Ao mesmo tempo, essa escolha criativa pode tornar a obra incompreensível para o tipo de público que espera algo mais linear. A obra fala direto ao emocional, deixando para a razão uma participação meramente figurativa. Poucas cenas no cinema ficaram tão gravadas na minha memória quanto os encontros furtivos de Adjani e o seu misterioso amante, num apartamento soturno e decrépito. “Possessão” é, acima de tudo, um relato muito pessoal do diretor sobre as consequências do fim de um relacionamento. Uma experiência intensa e inesquecível. Ok, você ficou interessado? Veja o filme e volte para ler o restante do texto.

É interessante que muitos enxerguem a referência ao trabalho de H.P. Lovecraft na figura da bizarra criatura, criada por Carlo Rambaldi, que satisfaz sexualmente a protagonista, mas esse elemento não seria suficiente para explicar como a trama ganha pontos em revisões, sempre revelando novas camadas de interpretação. A reviravolta certamente impressiona na primeira sessão, chegando até a eclipsar a mensagem central, mas o que se sobressai na revisão é a profundidade filosófica com que o relacionamento do casal é tratado. O filme, como os textos dos grandes pensadores, propõe o choque, o insuportável desconforto, como forma de incitar o inconformismo. Sem exagero, pode ser comparado a alguns trabalhos de Ingmar Bergman, como “Cenas de Um Casamento” e “Persona”. O monstro, a cada encontro, vai se tornando mais humano, enquanto os humanos vão se tornando cada vez mais instintivos e animalescos.

A cena forte ambientada numa passagem subterrânea pode ser o momento mais lembrado, sua simbologia é irretocável, mas gosto mais da forma como a trama trabalha o personagem Bob, o filho pequeno do casal, a ponte que impede a separação total dos dois apesar de toda a hostilidade que dominou a relação, passa grande parte do filme se escondendo, sendo impelido a passar o maior tempo possível sem respirar, como se desafiasse ludicamente sua própria morte, representada pelo divórcio dos pais, já que ele é o “produto” nascido daquela união. Ele acaba perdendo a batalha contra a estupidez egoísta dos adultos, enquanto o monstro se torna uma réplica idêntica do marido, para o espanto do moribundo. A mulher repete o erro, movida pelo desejo carnal que faz o ser humano trocar frequentemente seis por meia dúzia.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

"O Quarto de Jack", de Lenny Abrahamson


O Quarto de Jack (Room - 2015)
* Quanto menos souber da trama, melhor será a sua experiência. E não dá para analisar com alguma profundidade certos aspectos do filme sem abordar pontos relevantes. Então, caso não tenha lido o livro, recomendo fortemente que leia o texto após ver o filme.

O livro de Emma Donoghue, lançado em 2010, foi inspirado no Caso Fritzl, ocorrido na Áustria alguns anos antes. Uma mulher foi mantida pelo pai por vinte e quatro anos em cativeiro com seus sete filhos, nascidos da relação incestuosa forçada. No livro, a autora provavelmente buscou inspiração também na clássica obra “O Colecionador”, de John Fowles, aliviando um pouco a carga trágica da história real, substituindo o elemento do incesto por um caso de sequestro muito parecido com o do psicopata do livro. O fator mais interessante foi narrar tudo pelo ponto de vista do menino Jack, de cinco anos, que não conhece o mundo fora do quarto onde é mantido prisioneiro com sua mãe. O filme, roteirizado pela própria autora, emula isso ao inserir eventuais narrações da criança, recurso intrusivo raramente eficiente em outras produções, mas que nesse caso trabalha a favor da história, funcionando melhor devido à atuação impecável do pequeno Jacob Tremblay.

Antes de salientar os muitos pontos positivos, preciso citar alguns detalhes que me incomodaram. O filme revela o rosto do sequestrador muito cedo, ainda no primeiro ato, e, pior, numa câmera subjetiva, representando os olhos do menino. No livro, quando eventualmente ele o encontra pela primeira vez, aquele monstro desconhecido, Jack chega a cogitar que ele tenha um rosto de pedra. Quando o homem abre os olhos, o menino então fica apavorado por descobrir que ele é humano. Donoghue, conhecedora da linguagem literária, mas sem experiência com a linguagem cinematográfica, minimizou um aspecto importante: o deslumbramento da criança com o desconhecido. Como o tempo é menor do que no livro para estabelecer essa rotina dos dois no cativeiro, esse tipo de deslize prejudica o resultado.

Mais pra frente, numa cena noturna onde um carrinho de controle remoto tem uma função angustiante no livro, o roteiro desleixadamente tira toda a força dramática da cena. Com tanta fidelidade às páginas durante a maior parte da produção, diálogos literalmente transportados para o filme, porque escolher modificar desajeitadamente um dos momentos mais impactantes? Teria sido mais eficiente dramaticamente deixar para revelar a aparência do homem na cena em que mãe e filho tentam escapar, o que potencializaria o medo da criança na situação.

O primeiro aspecto brilhante que saliento é a atuação de Brie Larson. Vale perceber como ela reage quando o filho pede um cachorro. “There’s not enough room... Space, there’s not enough space”. Ela se pune internamente por ter dito a palavra “quarto” (room) levianamente, substituindo rapidamente pela palavra “espaço”, já que ela fez a criança acreditar que nada havia além daquele ambiente em que eles vivem: o Quarto (com letra maiúscula). Já fora do cativeiro, perceba como ela segue falando em tom extremamente baixo, até mesmo quando não há ninguém por perto, evidenciando o trauma de anos sendo levada a não chamar atenção. Pequenos detalhes que demonstram o cuidado do filme, sublinhando sutilmente as consequências psicológicas da terrível experiência na personagem.

Esse recurso da ilusão mantida como forma de proteção incita reflexões que vão muito além do tema, que pode ser visto como alegoria para o sistema de crenças humano. O menino questiona a mãe sobre o mundo do sonho: “Quando sonhamos, nós entramos na TV?”. Ele acha que além das paredes há apenas o espaço sideral. Aquele é o universo que ele conhece como prisioneiro na caverna de Platão, criando possibilidades a partir dos elementos que enxerga ao seu redor. O real é apenas o que ele consegue tocar. A comida e as roupas, aos olhos dele, são trazidas pelo “Velho Nick”, o fator amedrontador, desconhecido e onisciente, que opera através da TV, por mágica. O que ele desconhece é explicado pelo sobrenatural.

A mãe, em dado momento, começa a entender que o filho, com cinco anos, já tem idade para deixar de se apoiar na muleta da ilusão, então deixa de incentivar isso nele. O objetivo outrora era fazer com que ele se acostumasse a viver naquele ambiente. Mas a única forma dela conseguir reunir forças para escapar daquela prisão é com os dois pés fincados no mundo real. Ao explicar para ele como o mundo funciona, o menino se revolta, não consegue compreender, ele precisa viver aquela ilusão, por mais desumana que seja. Num toque genial, o roteiro mostra que Jack era mais alegre em seu Quarto. Ele descobre que o mundo real, aquele universo que ele desconhecia, é todo em tons de cinza.

É no terceiro ato que o diretor Lenny Abrahamson executa uma crítica social poderosa, complementando essas reflexões despertadas desde o início. A mulher, já em casa, está sendo preparada para uma entrevista televisiva. Os maquiadores e as luzes artificiais, auxiliados pelos ângulos da câmera, reforçam o desconforto dela na situação. Não seria aquilo uma forma de prisão? O enquadramento coloca a protagonista sentada no centro, cercada de forma opressora pelos operadores de câmera. Quando a apresentadora oportunista deixa claro o enfoque sensacionalista da reportagem, pedindo que ela especule sobre o dia em que pretende contar ao filho sobre o pai dele, a mulher se mantém firme, diz que não há pai, que Jack é só dela. A apresentadora e sua equipe não conseguem esconder a frustração, já que não conseguiram extrair lágrimas e declarações melodramáticas. Ela segue tentando provocar a jovem, sem sucesso. A mídia se aproveita de seu sofrimento como forma de conquistar melhores números de audiência. A vítima é apenas uma estatística que precisa ser bem maquiada para aparecer na tela. Assim como em “Violência Gratuita”, de Michael Haneke, o roteiro insinua que o psicopata encontra cumplicidade no comportamento do povo.

“O Quarto de Jack” é uma ótima adaptação cinematográfica de um dos melhores livros dos últimos anos. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Faces do Medo - "Violência Gratuita", de Michael Haneke


Violência Gratuita (Funny Games – 1997)
O que seria um bucólico período de férias à beira de um lago, transforma-se num pesadelo quando uma família recebe a visita de um casal de jovens psicopatas, que os submetem a um tenso jogo de tortura psicológica.


Quando me pedem sugestão de filmes sobre a temática da psicopatia, ao invés de optar pelos óbvios “Psicose” e “Laranja Mecânica”, ou “O Silêncio dos Inocentes”, cito dois menos conhecidos: “Henry – O Retrato de Um Assassino”, uma atuação irrepreensível de Michael Rooker como o assassino Henry Lee Lucas, e “Violência Gratuita”, que depois viria a ser desnecessariamente refilmado de forma quase idêntica pelo próprio Michael Haneke. O toque genial do roteiro é sugerir que o público se identifica com os dois psicopatas, uma relação de cumplicidade firmada em alguns momentos de quebra da quarta parede, culminando na sequência mais ousada em forma e conteúdo, quando o rebobinar da fita nega às vítimas qualquer possibilidade de revide.

Analise o comportamento do brasileiro que consome diariamente programas policiais sensacionalistas, da hora do almoço até o jantar, um show de violência apresentado por broncos que berram por sangue e lágrimas, pois sabem que se o sequestrador demorar mais com o revólver na cabeça da vítima, essa tensão vai se refletir imediatamente numa audiência mais expressiva. O tipo mais desprezível de jornalismo, que só existe na televisão brasileira com tantas opções porque há uma quantidade absurda de abutres que consomem vorazmente esse material imundo. O que difere o espectador desses programas e o personagem Paul, o mais sádico da dupla? O ser humano está deixando a bestialidade tomar conta de seus atos, corrompendo o caráter e cavando a própria sepultura existencial. Quando Paul brinca de “quente e frio” com a mulher, enquanto ela procura desesperada o seu cachorro que foi brutalmente assassinado, ele olha nos olhos do espectador e sorri. A raça humana está perdendo o senso de empatia, contaminada por discursos de ódio, incentivada pelo próprio sistema a tomar posições em guerras estúpidas, como forma de facilitar a manipulação. O rapaz das luvas brancas sabe que você prefere ver o sofrimento dela por mais tempo, então ele complica a brincadeira.

As cenas longas, trabalhadas como forma de intensificar o desconforto. A câmera, quase sempre estática, facilitando uma rápida imersão, força o olhar na direção da degradação familiar, conduzindo você a refletir sobre a cultura do medo, o fascínio pelo sangue no asfalto, os vídeos de mutilações que esse público que voa baixo sobre a carniça compartilha avidamente nas redes sociais, disfarçando o sadismo compactuado com o hipócrita capuz da indignação. Ao optar conscientemente por não mostrar a nudez da mulher, obrigada pelos rapazes a ficar nua na sala diante do marido e do filho pequeno, mantendo o enquadramento acima da linha do pescoço, o diretor sabe que boa parte do público masculino irá desejar que ele tivesse passeado com a câmera pelo corpo dela. Na realidade, o espectador é o responsável por pegar o controle remoto e prolongar ainda mais aquele espetáculo de dor e sofrimento. 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Cine Bueller - "Clube dos Cinco", de John Hughes


Clube dos Cinco (The Breakfast Club – 1985)
Eu me emociono sempre que penso nesse filme, não somente pela nostalgia gostosa que me remete às exibições na “Sessão da Tarde” em minha adolescência, motivo que o insere nesse especial. É como se eu tivesse compartilhado aquele Sábado com os alunos, introvertido e tentando entender porque os outros debochavam de mim. O bullying era uma constante no período, de uma gengiva perfurada em um bebedouro por um soco forte na cabeça, passando pelos usuais empurrões nos corredores, até a humilhação verbal constante, o que mais afeta o psicológico, destruindo gradativamente a autoestima. 

Quando conheci o filme, enxerguei meu reflexo no personagem do Anthony Michael Hall, o tímido Brian, o garoto magricela que tentava apenas sobreviver dia após dia. E, ao contrário dele, eu não tirava sempre ótimas notas, apenas nas matérias que me interessavam. Em exatas eu sempre fui mediano. Mas o fato de ser elogiado pelas professoras pela minha educação e pelas redações incomodavam vários colegas. Nas provas, era comum eu utilizar a parte de trás da folha para aprofundar os argumentos, ou, no caso das redações, enriquecer as histórias. O meu interesse não estava nas notas, mas, sim, nos pequenos textos que as professoras escreveriam ao lado delas.

John Hughes, que sabia como ninguém compreender a realidade complicada dos adolescentes, trabalhou os estereótipos mais comuns no filme. Brian, ao final do dia, acaba sendo nomeado pelos colegas como o responsável pela redação, pois era o único capaz de elaborar uma resposta crítica forte, porém, elegante. Sem a ousadia inconsequente do delinquente, vivido pelo Judd Nelson, o grupo não teria coragem de cogitar aquela resposta. O delinquente descobre que o introvertido sofre tanto quanto ele, a diferença é que um extravasa na rua os abusos que sofre em casa, enquanto o outro carrega para o convívio familiar cicatrizes psicológicas dos abusos que sofre na rua. Duas faces da mesma moeda.

A garota popular, vivida por Molly Ringwald, descobre nesse convívio forçado que esconde suas frustrações com o tom alto de seus discursos, enquanto a menina esquisita, vivida por Ally Sheedy, mantém o tom existencial sempre sussurrante, como forma de se esconder, ficando fora do radar dos moldes impostos pela sociedade. As duas compartilham em segredo altas doses de medo e insegurança, assim como o esportista vivido por Emilio Estevez, sofrendo extrema pressão dos pais que não admitem um perdedor na família. Ao entender que os resultados do time definem sua importância no seio familiar, o rapaz inveja a coragem do delinquente e a capacidade de internalizar os medos do introvertido, que sorri buscando aceitação, enquanto por dentro corta os pulsos.

Ao contrário do que os cinco pensavam no início do dia, eles não eram diferentes, e, mais que isso, eles entenderam que poderiam conquistar qualquer objetivo caso trabalhassem em equipe. Os traços de comportamento que outrora os separavam eram exatamente as armas únicas que cada um poderia agregar nesse “Clube do Café da Manhã”, os elementos que os tornavam fortes. Unidos, eles conseguiriam vencer todos os obstáculos da jornada adolescente. 

“Quando você se torna adulto, seu coração morre”. A frase, dita no filme pela menina esquisita, resume uma grande verdade: grande parte dos adultos desiste de seus sonhos, deixa os interesses individuais morrerem, abraçando as convenções da sociedade, os rituais executados para a satisfação dos outros. E esses adultos, já desencantados com a vida, não aceitam encarar o brilho nos olhos dos jovens. Hughes, num toque de gênio, opta iniciar o filme com um trecho da canção “Changes”, de David Bowie, que afirma: “E as crianças em que você cospe, enquanto tentam mudar os mundos deles, são imunes às suas consultas, eles estão perfeitamente conscientes do que estão atravessando”. De certa forma, com esse roteiro, o diretor também critica os adultos responsáveis pela visão limitada e caricatural dos adolescentes na indústria de cinema da época, quase sempre reduzidos a tolos que só pensam em sexo, atrevidas animadoras de torcida e nerds que só servem como alívio cômico.

O coordenador Vernon, vivido por Paul Gleason, desencantado com sua rotina e emocionalmente imaturo, incapaz de demonstrar empatia, propôs o castigo e acabou sendo o indivíduo que aprendeu a maior lição.

Brian: "Caro Sr. Vernon, aceitamos o fato de que nós tivemos que sacrificar um sábado inteiro na detenção, pelo que fizemos de errado... Mas acho que você está louco por nos fazer escrever um texto dizendo o que nós pensamos de nós mesmos. Você nos enxerga como você deseja nos enxergar, nos termos mais simples e com as definições mais convenientes. Mas o que descobrimos é que cada um de nós é um cérebro..."
Andrew: "... um atleta ..."
Allison: "... um caso perdido ..."
Claire: "... uma princesa ..."
John: "... e um criminoso ..."
Brian: "Isso responde a sua pergunta? Sinceramente, o Clube dos Cinco."

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Nos Embalos do Rei do Rock - "Feitiço Havaiano"


Os fãs costumam desprezar esse filme, como sendo o responsável por destruir a carreira de Elvis no cinema, já que seu sucesso avassalador nas bilheterias mostrou que o público estava disposto a pagar várias vezes para ver o ídolo em musicais leves. O Havaí e o cantor acabaram se tornando sinônimos na cultura pop. Quando os filmes dele começaram a perder público, não pensaram duas vezes, colocaram o astro novamente nesse cenário, achando que a mágica se repetiria. Visto fora desse contexto, não dá pra negar que é um trabalho tremendamente satisfatório, verdadeiramente encantador.


Feitiço Havaiano (Blue Hawaii – 1961)
Após prestar o serviço militar, um jovem (Elvis Presley) volta para a casa dos pais em Honolulu, no Havaí, e começa, contra a vontade deles, a trabalhar em uma agência de turismo. 


Enquanto as músicas de seus filmes anteriores eram compostas por ótimos profissionais, a trilha sonora desse projeto já começava a refletir certo desleixo, com alguns pontos altos, como o resgate de ótimas canções temáticas havaianas (“Blue Hawaii” havia sido cantada por Bing Crosby em um de seus filmes da década de trinta, “Aloha Oe” foi composta em 1878 por uma princesa havaiana no exílio, “Hawaiian Wedding Song” é uma adaptação de “Ke Kali Nei Au”, composta em 1926 para a opereta “Prince of Hawaii”), um pop já bastante diluído nas agitadas “Rock-A-Hula Baby” e “Slicin’ Sand”, um sample da tradicional canção infantil francesa “Alouette” em “Almost Always True”, uma versão para o clássico espanhol “La Paloma”, que se tornou “No More”, e a excelente “Can’t Help Falling in Love”, adaptada da francesa “Plaisir d’Amour”, balada que se tornaria um símbolo na carreira do cantor, que sempre finalizava seus shows com ela. A cena, uma das mais emblemáticas na cinematografia de Elvis, mostra o jovem presenteando a avó da namorada com uma caixinha de música. Mantendo a qualidade, sobra espaço na trilha para agradáveis temas inofensivos, como “Ku-U-I-Po”, “Moonlight Swim”, “Hawaiian Sunset”, “Island of Love”, “Beach Boy Blues” e a desprezível “Ito Eats”, um vislumbre do tipo de bobagem embaraçosa que ele seria obrigado a defender em filmes posteriores. Não há sequer um legítimo Rock and Roll. Todo o disco foi gravado em duas noites intensas.

Juliet Prowse, a dançarina de “Saudades de Um Pracinha”, havia sido escalada para coprotagonizar a obra, mas ela desistiu algumas semanas antes do início das filmagens, sendo então substituída por Joan Blackman, uma bela morena de olhos verdes que repetiria sua parceria com Presley em “Talhado para Campeão”. Ela vive uma personagem que sofre com o assédio feminino sobre seu namorado, um rapaz recém-saído do exército e que deseja usufruir das belezas naturais do Havaí, mantendo-se o mais afastado possível das pouco estimulantes responsabilidades profissionais incentivadas por sua mãe neurótica, vivida por Angela Lansbury, num momento caricato hilário. Tornar-se um funcionário na “Companhia Sulista de Frutas Havaianas” da família é viver das glórias de outros, acomodar-se na sombra projetada pelos vários anos de trabalho de seu pai.

Chad Gates quer vencer por si próprio, fazendo o que gosta. Qual adolescente não se identificaria com esse dilema? O roteiro é simples e objetivo, com espaço suficiente para a inclusão de várias canções que funcionam muito bem em seus contextos, algo que se tornaria cada vez mais difícil de alcançar nos filmes que o cantor fez pós-1965. A direção do experiente Norman Taurog, que iniciou carreira na década de vinte e, com Elvis, fez parceria em nove filmes, soube utilizar bem o carisma do protagonista, colocando-o em situações onde pôde demonstrar seu senso de humor, ainda que nunca em cenas que representassem qualquer desafio. Ainda é perceptível a preocupação com as coreografias das sequências musicais, com destaque para a dança na praia, ao som de “Slicin’ Sand”, um momento genuinamente empolgante.

O seu personagem no musical “Saudades de Um Pracinha” tinha características de personalidade interessantes, ele era um mulherengo meio trapaceiro, mas em “Feitiço Havaiano” temos a criação do personagem padrão: o bom moço que canta nas horas vagas, um tipo que ele repetiria, com raras exceções, até seu último filme. A alquimia estava completa, a indústria havia conseguido em tempo recorde, de roqueiro rebelde e perigoso a uma asséptica variação de Rodolfo Valentino. Em uma das cenas mais lembradas, outro sintoma da transformação, Chad dá palmadas morais no traseiro de uma garota rebelde. De contestador do sistema a guardião dos bons costumes.

A Seguir: “Em Cada Sonho Um Amor” (Follow That Dream)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

"A Garota Dinamarquesa", de Tom Hooper


A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl - 2015)
A história de amor real entre as pintoras dinamarquesas Lili Elbe (Eddie Redmayne) e Gerda Gottlieb (Alicia Vikander). Obrigada a viver como Einar Wegener desde o nascimento, em 1930, Lili foi uma das primeiras mulheres a passar por uma cirurgia de transgenitalização.


A forma como o protagonista, logo no início, toca suavemente nas roupas femininas penduradas, enquanto caminha por elas, é uma maneira simplista do roteiro, de Lucinda Coxon, evidenciar sua condição. Essa característica se faz presente do início ao fim, com o roteiro evitando qualquer aprofundamento psicológico, limitando-se a repetições de obviedades. Sabemos que o personagem é uma mulher presa no corpo de um homem, não é preciso que a história reforce isso constantemente, das maneiras mais clichês. Um transgênero não quer apenas se vestir como mulher. Um indivíduo é muito mais do que sua sexualidade. Como nos filmes anteriores do diretor, fica a sensação de que ele subestima descaradamente o seu público, o que nunca é um bom sinal.

Por mais que tenha muitos defensores, eu não considero Eddie Redmayne um grande ator, porque em todo momento, até mesmo nas cenas mais despretensiosas de seus filmes, ele faz questão de deixar perceptível que está atuando. É um constante piscar de olhos para os votantes das premiações, o que acaba cansando, já que, apesar de todo o hype que praticamente o tirou da obscuridade do dia para a noite, o rapaz não tem muito carisma natural, tudo nele é forçado, calculado. A frieza na abordagem do filme, que parece estar mais interessado em exibir sua impecável direção de arte (uma atitude “for your consideration” que vem se tornando cada vez menos sutil na indústria), não ajuda o resultado, essa mania moderna de confundir austeridade vazia com elegância, boicotando uma história realmente interessante, com um grande potencial.

O ponto alto é a personagem Gerda, grande momento de Alicia Vikander, essa sim, uma tremenda atriz com muito carisma. A esposa de Einar (Redmayne), uma artista tentando conquistar seu espaço, que sofre a perda do parceiro ao enxergar a feminilidade latente nele, porém, possui a maturidade emocional para ajudá-lo no difícil processo de aceitação, em uma época onde a mudança de gênero era algo inadmissível pela sociedade conservadora e hipócrita. 

"Irmãs Diabólicas", de Brian De Palma


Irmãs Diabólicas (Sisters – 1973)
Irmãs siamesas, criadas por freiras num orfanato, são finalmente separadas depois de vários anos vivendo literalmente unidas. Mas a separação causa um transtorno irreparável e as irmãs passam a rivalizar uma com a outra. É nesse cenário que surge um assassinato, e uma das gêmeas está diretamente ligada ao crime.


Ainda que não tenha sido o primeiro filme do diretor, foi com “Irmãs Diabólicas” que ele abraçou sem medo as suas influências, demonstrando maior segurança e operando milagres com baixo orçamento. Compreendendo profundamente o estilo de Hitchcock, especialmente o seu peculiar senso de humor negro, ele desenvolve a sua predileção pelo tema do duplo numa estrutura clássica e irresistível de suspense.

Ele opta por iniciar com uma exibição televisiva que espetaculariza o voyeurismo, uma espécie de câmera escondida onde uma jovem cega, vivida por Margot Kidder, tira a roupa sem saber que está sendo vigiada de perto, mostrando que o público, na hora de especular sobre qual será a reação do homem, está propenso a crer que ele irá se aproveitar da situação. Ao revelar que o homem educadamente vai embora, a plateia expressa sonoramente sua frustração. Pouco tempo depois o roteiro sugere que o homem, apresentado outrora como vítima da pegadinha, era um contratado do programa. E, claro, a jovem não era cega. Essa introdução, mais do que apresentar dois personagens importantes, serve como um retrato fiel da nossa sociedade, um espelho estilhaçado de mentiras que, infelizmente, segue sendo o mesmo. Mais pra frente, o tema é retrabalhado em uma eletrizante sequência em tela dividida, mostrando que nós somos exatamente como a plateia do programa, vivendo o dilema de torcer para que os criminosos escapem, pois será mais emocionante, e, ao mesmo tempo, querer que a justiça seja feita.

Utilizando generosamente o recurso da tela dividida como forma de progredir a história, ele transmite visualmente o psicológico fragmentado da protagonista, além de conscientemente aniquilar a imersão, reforçando o cinema enquanto ferramenta criativa de ideias visuais, aproveitando para fazer uso de vários cacoetes clássicos do mestre do suspense, como a esperteza de antecipar sempre para o público o perigo que o personagem está para encontrar. A trilha imponente de Bernard Herrmann facilita ainda mais essa associação. O assassinato, especialmente o local escolhido para esconder a prova do crime, pode ser visto como o MacGuffin da trama. Mas o elemento verdadeiramente fascinante é representado pela personagem de Jennifer Salt, a vizinha jornalista que viu tudo acontecer pela janela. A mulher comum inserida em uma situação extraordinária, que fica obcecada em elucidar o mistério, indo contra todas as sugestões de sua mãe superprotetora que gostaria que a jovem largasse a profissão e se tornasse dona de casa, uma eficiente crítica sobre a representatividade da mulher.

O detetive informal, vivido por Charles Durning, protagoniza o excelente desfecho, provavelmente a maior ousadia do filme, a tragicômica e incômoda constatação de que o crime nunca será solucionado e a ordem nunca será restaurada. É nesse ponto que De Palma se afasta de Hitchcock, cujas tramas quase sempre finalizam deixando o público em um estado cômodo, provando que, apesar de muitos defenderem que ele sempre foi um imitador competente, na realidade, ele se serviu da gramática do britânico para criar um produto muito mais rico em camadas de interpretação. O problema é que o norte-americano nunca teve competência para desenvolver uma persona carismática.

* O filme, até então inédito no home vídeo nacional, está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria impecável de Fernando Brito, na caixa “A Arte de Brian De Palma”, que inclui também: “Um Tiro na Noite” e “O Fantasma do Paraíso”, além de documentários sobre as produções. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

"Os Russos Estão Chegando! Os Russos Estão Chegando!", de Norman Jewison

Link para os textos do especial:


Os Russos Estão Chegando! Os Russos Estão Chegando! (The Russians are Coming! The Russians are Coming! – 1966)
O atrapalhado capitão de um submarino russo deixa a embarcação encalhar nos bancos de areia nas proximidades de uma ilha da Nova Inglaterra, na costa estadunidense. Ele encarrega seu imediato, o tenente Rozanov, de liderar um pequeno comando para conseguir secretamente um barco para puxar o submarino e desencalhá-lo. Os marinheiros saem em busca da tal embarcação, mas se metem em confusões que colocam em pânico os habitantes da pequena cidade, e logo um boato sobre a invasão russa e uma possível 3ª guerra mundial, toma conta de todos.


No auge da Guerra Fria, com a máquina propagandista alimentando diariamente a cultura do medo, o povo norte-americano era instruído sobre como se proteger de uma explosão nuclear em vídeos educativos nas salas de cinema. A lucidez era algo quase inimaginável, o que engrandece ainda mais o esforço corajoso do diretor Norman Jewison, que ousou fazer rir com uma trama onde os russos não eram mostrados como vilões unidimensionais. Pela primeira vez, eles eram mostrados conversando em sua língua no cinema. Focando em personagens comuns, dos dois lados, que acabam descobrindo com a convivência forçada o quanto são parecidos, o filme nos remete à abordagem de John Hughes sobre a juventude em “Clube dos Cinco”. Assim como na comédia oitentista, os personagens aprendem que a união é sempre a melhor solução.

O crédito de abertura já mostra uma batalha entre bandeiras, emoldurado por uma trilha que contrapõe Song of the Volga Boatmen e o Yankee Doodle Dandy, dando de início o tom absurdo da trama. É interessante salientar que o cinema, apesar de refletir, por vezes, de forma brutalmente honesta a sociedade, também pode servir como um elemento transformador. Ao expor no roteiro, pelo viés cômico, a histeria norte-americana com relação aos russos, que eram demonizados pela própria indústria por mais de vinte anos, o filme colaborou para uma essencial mudança de atitude. “Dr. Fantástico”, de Kubrick, realizado dois anos antes, deu relevante abertura para essa abordagem, mas Jewison fez uso do humor com mais eficiência e de forma mais direta, em um projeto popular de maior alcance, potencializando a crítica. Muitas produções tentaram imitar essa hilariante obra, sem sucesso, pois deixaram de fora o elemento mais importante: a ternura com que trabalha todos os personagens.

Recomendo fazer uma sessão dupla com “O Rato Que Ruge”, excelente comédia protagonizada por Peter Sellers, com temática similar, que a mesma distribuidora lançou recentemente.

* O filme, até então inédito no home vídeo nacional, está sendo lançado em DVD pela distribuidora: “Obras-Primas do Cinema”. 

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Woody Allen - "Édipo Arrasado"

Link para os textos anteriores desse especial que se leva tão a sério quanto o próprio Woody:

“O adulto de hoje, que enfrentou na infância desafios como o Enduro e o River Raid do Atari, está mais do que preparado pra todos os obstáculos da vida”.
                                                                                                                             (Amenázzio)

Amenázio da Mata Roxa, o popular Amenázzio, com dois z’s, incentivado por sua numeróloga, desistiu de procurar emprego na selva de pedra, algo cada vez mais difícil devido à crise que a nação deseducadora está passando, investindo então todas as suas economias, conquistadas em seu bico como figurante na televisão, em sua nova profissão. Ele agora faz fortuna como Coach, o homem certo para encaminhar estranhos inseguros, aqueles que paguem bem, no rumo de uma vida mais focada, utilizando um agradável repertório de frases feitas e citações de livros de autoajuda, que nunca chegou a ler, tiradas fora de contexto. Como ele mesmo defendeu em uma aparição pública polêmica: “Que mal há nisso? Os pastores neopentecostais compraram uma emissora de televisão fazendo o mesmo”.

Ao entrar em seu escritório, com minha equipe de reportagem, fomos recebidos por ele de pé, sorriso amplo no rosto maquiado. Nas paredes, estantes tomadas por livros de Danielle Steel, dividindo espaço com biografias de subcelebridades, como a da jovem Janete Menezes, que fez várias operações plásticas pra se transformar em uma boneca viva, mas acabou sendo internada num hospício após ser encontrada pelo gerente de uma loja de departamentos, quase desfalecida, ao tentar passar o final de semana dentro de uma caixa. Amenázzio se recostou em sua poltrona e, sem maiores exigências, afirmou que seria uma honra para nós aquele breve contato com alguém tão especial. Após beijarmos sua mão, de joelhos no chão acarpetado, começamos a entrevista.

- Como é para você, quase um analfabeto funcional, ser dono hoje de uma das maiores fortunas da nação?

- A ignorância é uma bênção no Brasil, caro jornalista. Somente aqui o filme de maior bilheteria estreia sem público, a presidente não tem habilidade em oratória, o ex-presidente se orgulha de não ter o hábito da leitura, a dona de casa morre afogada em sua garagem na chuva, os youtubers de conteúdo mais cretino fazem fortuna, a melhor cantora do ano não sabe cantar, o apresentador de televisão abre caixão de um artista no horário nobre, a escritora mais lida tem o livro escrito por um ghostwriter...

- Ok, nós já entendemos o seu ponto. Você tem razão. Mas você não tem vergonha de utilizar essa ignorância como forma de alimentar esse império?

- Eu tenho vergonha de não ter enfiado ainda a mão na sua cara, caro jornalista. Você me garantiu que a entrevista seria apenas para divulgar meu novo curso: “Aprenda como ser alguém importante”.

- É que o curso não existe. Nós checamos e você nunca ministrou curso algum. Não podemos mentir para o nosso público.

- Quem é você para dizer que eu nunca ministrei um curso? Você... Ponha-se no seu lugar... Você... Você não é importante o suficiente pra discutir comigo.

- Você é uma farsa, Amenázzio. Esses livros todos da estante, a maioria tem fundo falso, você roubou de uma loja de decoração. Temos o depoimento do gerente e o vídeo da câmera de segurança.

- Como ousa? Quer ganhar fama com meu nome? Fazendo seu próprio “Caso Waternázzio”? Saia já do meu escritório!

- Você alugou esse escritório na tarde de ontem, após nós confirmarmos a entrevista, temos os papéis com a sua assinatura.  Você mora, na realidade, no subúrbio, em Vila Valqueire, com sua mãe e seus dois irmãos. Temos fotos.

Nesse momento, lívido e transpirando muito, o homem que já foi chamado de “o novo Cidadão Kane”, levantou a mão direita na direção da janela, com o dedo indicador apontado em riste. Todos nós olhamos para a janela, enquanto ele corria para fora do escritório, entrando no elevador. Nós caímos no truque mais baixo daquele vil escroque.

Nunca mais veremos Amenázzio. E ele ainda conseguiu roubar minha carteira...

Notícia que tomou a imprensa de assalto na manhã seguinte:
Um homem, muito parecido com o popular Amenázzio, foi visto na noite de ontem, trajando um vestido verde de matrona e com uma longa cabeleira morena, tentando adentrar no retiro dos artistas. A polícia foi chamada, assim que ele, emocionalmente descontrolado, perturbou os vizinhos ao começar a cantar num tom insuportável o clássico dos anos oitenta: “Qualquer Jeito (Não Está Sendo Fácil)”, sucesso da cantora Kátia.


Édipo Arrasado (Oedipus Wreck – 1989)
Sheldon, um advogado neurótico, não consegue se livrar da influência de sua mãe superprotetora. O problema se intensifica quando, após participar de uma exibição de mágica, a senhora inexplicavelmente se torna uma entidade nos céus da cidade, contando para todos os transeuntes os hábitos e manias do filho.


Impulsionado pela leveza do formato de antologia, Woody exercita com grande frescor o seu talento cômico. E, sem dúvida, o seu média-metragem é o responsável por “Contos de Nova York” ainda ser lembrado hoje em dia. Os esforços de Coppola e Scorsese são, na melhor das hipóteses, inofensivos. Após uma total imersão nos dramas existencialistas de “Setembro” e “A Outra”, o diretor revisita seu lado mais divertido, misturando temas já trabalhados em textos e inserindo vislumbres de situações que ele viria a aperfeiçoar em suas produções dos anos 2000, como em “Scoop”, onde um truque de mágica é utilizado como gatilho narrativo.

É impagável a cena onde Allen, inicialmente perturbado com a mãe (Mae Questel, incrivelmente parecida com a mãe do diretor) sendo chamada para auxiliar no truque do mágico, não consegue esconder a alegria ao ver o profissional enfiando várias espadas na caixa onde ela foi colocada. A insatisfação dela com a noiva do filho, vivida por Mia Farrow, é o motivo sobrenatural que faz com que ela se mantenha como uma entidade nos céus de Nova York. Somente quando ele reencontra um amor antigo, a cartomante/clarividente vivida pela brilhante comediante Julie Kavner, a pobre mãe, demonstrando sua aprovação, retorna ao seu estado normal. Sheldon não se interessa em compreender como o fenômeno ocorreu, ele está mais interessado em resolver sua relação com ela. O inexplicável, tema recorrente em seus filmes, novamente utilizado como um meio inquestionavelmente absurdo e tolo, porém, aceitável para alcançar um bem maior. 

* O filme "Contos de Nova York" está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline". 

"Satyricon", de Federico Fellini


Satyricon (Fellini Satyricon – 1969)
Baseado na obra homônima de Petrônio, Satyricon apresenta o jovem Encolpio, que ressente pela perda de seu amante, Gitone, pelas mãos de seu melhor amigo, Ascilto. Após descobrir que Ascilto vendeu Gitone para o ator Vernacchio como escravo, Encolpio inicia a sua busca por seu ex-amante.


O primeiro problema ao encarar essa obra é buscar nela alguma mensagem oculta, algum sentido maior, uma trama no sentido convencional. “Satyricon” é, acima de tudo, um exercício de estilo que se utiliza da estrutura fragmentada do que restou da obra original de Petrônio, escrita por volta do ano 60 d.C., para compor um olhar extasiado sobre a Roma antiga. Fellini, como um documentarista que descobre uma civilização mitológica esquecida pelo tempo, deslumbrado com o exotismo dessa terra estranha, faz o que é comum a todo ser humano, busca traçar paralelos entre eles e nós, criando uma espécie de ficção científica ambientada no passado. O traço exagerado, caricatural, o sempre celebrado toque felliniano, nunca foi utilizado de forma tão coerente com o tema.

No auge do movimento hippie, enxergamos nos jovens do filme os mesmos instintos de rebeldia e compulsão pela satisfação do prazer carnal. Essa abordagem original, como em tudo que é movido pelo novo, corre riscos, erra e acerta, não é uma unanimidade entre os fãs do diretor. A atuação do elenco é quase bressoniana, com os atores reagindo timidamente aos comandos que o diretor ia ditando ao lado da câmera. Além disso, para reforçar o senso de estranheza, não há muito sincronismo com relação à dublagem para o italiano, um toque genial do diretor, evidenciando que o interesse está no distanciamento, no antinatural, o que acaba enfatizando aqueles seres como alienígenas em uma terra inexplorada. É impressionante perceber como a indústria de cinema atual, em comparação com essa experiência, está apática e preguiçosa. 


* O filme, até então inédito no home vídeo nacional, está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria impecável de Fernando Brito, na caixa “A Arte de Federico Fellini”, em parceria com a Livraria Cultura. Vale destacar a presença de “Roma”  e “A Voz da Lua”, última produção do diretor, protagonizada por Roberto Benigni, além do excelente documentário “Ciao, Federico!”, feito à época das filmagens de “Satyricon”, um precioso registro do mestre italiano atuando nos bastidores.