terça-feira, 31 de maio de 2016

"A Garota do Livro", de Marya Cohn


A Garota do Livro (The Girl in The Book - 2015)
É interessante constatar o efeito de manada que ocorre com a recepção da crítica em certos projetos. Em produções mais modestas, como “A Garota do Livro”, estreia da roteirista/diretora Marya Cohn, filme de baixo orçamento, finalizado com uma campanha no kickstarter, esse tipo de análise desinteressada pode prejudicar fatalmente a obra. Evito ao máximo ler textos de colegas antes da primeira experiência, exatamente pra não correr o risco de já conhecer a trama com qualquer rótulo definido. A expectativa, positiva ou negativa, é a pior coisa que um crítico pode nutrir. Ao final da sessão, não tive dúvida, inseri o título na minha lista dos melhores filmes vistos nesse ano. Então fui ler algumas críticas e percebi que o filme está sendo massacrado por grande parte dos meus colegas. Serei seu advogado de defesa.

O primeiro aspecto que saliento é a tremenda atuação do trio principal, formado por Emily VanCamp, Michael Nyqvist e Ana Mulvoy-Ten. Emily, uma das melhores atrizes de sua geração, consegue compor uma personalidade frágil, sem cair nos vícios do coitadismo, com uma ternura que nem mesmo as piores atitudes que comete, em sua espiral descendente, são capazes de abalar. A sua Alice, tendo sofrido abuso sexual na adolescência, busca suprir lacunas emocionais com o imediatismo de relações casuais com estranhos. Ao ser psicologicamente agredida pelo seu mentor literário, a primeira pessoa em quem ela confidenciou seu sonho de ser escritora, ela não se calou. O problema foi que os pais estavam preocupados demais com os próprios umbigos e não acreditaram em suas palavras.

O arco narrativo dela é fascinante, da inocência infantil, passando pela fuga do carro (estabilidade) dos pais, até a redescoberta do amor próprio após o problema com o novo namorado, evento que conduz ao necessário confronto com seu abusador e o consequencial revide na arena literária do pedófilo, cada passo é retratado com muita eficiência no roteiro inteligentemente enxuto, que faz bom uso da estrutura de flashbacks. Vivendo o agressor, Nyqvist impõe uma figura asquerosa que alterna momentos de covardia extrema com demonstrações de arrogância intelectual, trabalhada como mecanismo de defesa, uma máscara social que esconde a profunda insegurança artística de Milan, já que seu único livro de sucesso foi todo alicerçado nas experiências que teve com a jovem. Esse livro é o gatilho que faz com que Alice, quinze anos depois, reviva seu trauma. Perceba a expressão no rosto de Ana, vivendo sua contraparte adolescente, na cena em que ela descobre as reais intenções por trás da bondade do adulto. Em questão de segundos, o olhar dela se torna a cristalização do pavor, você enxerga a inocência sendo brutalmente extirpada da menina.

No terceiro ato, quebrando as expectativas, o roteiro envereda brevemente por alguns recursos típicos de comédias românticas, acompanhando o relacionamento da jovem com Emmet, que é vivido por David Call, uma decisão ousadamente crítica que evidencia quão pueril costuma ser a visão da indústria sobre a complexidade do amor entre duas pessoas. O namorado, um espírito altruísta e puro que, como num reflexo do espelho da vida, permite a ela enxergar no outro, agora de forma ativa, o mesmo estilhaçar de sonhos que viveu outrora. Ao invés de se esgueirar em autopunição, como agiu com o abuso sofrido, ela decide lutar pelo seu objetivo, reconquistar a confiança dele e, claro, honrar seu próprio amadurecimento.

Outro ponto que agrega valor à obra é o desenvolvimento da autoconfiança da protagonista. Alice é uma assistente editorial que já provou diversas vezes ser competente, mas que é impedida de crescer profissionalmente pelo seu superior, que, intimidado por seu talento, enxerga ela como uma espécie de quebra-galho, a mulher do cafezinho. Até mesmo seu pai, bem-sucedido agente literário, faz questão de decidir o que a filha irá comer no restaurante. A baixa autoestima, consequência do trauma, impede que ela se revolte contra esses absurdos, o que a faz adotar uma apatia constante, aliviada apenas quando está na presença da única amiga que conquistou. Em sua festa surpresa de aniversário, outro detalhe importante que pode passar despercebido, mais da metade do grupo era formado por convidados que desconheciam a jovem.

Com esse competente filme de estreia, eu estou curioso para acompanhar a carreira de sua diretora. 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Cine Bueller - "As 7 Faces do Dr. Lao"

Link para os textos do especial:


As 7 Faces do Dr. Lao (7 Faces of Dr. Lao – 1964)
Um misterioso circo chega numa pacata cidade do oeste americano pra apresentar atrações exóticas, que irão despertar curiosidade e constrangimento nos habitantes e problemas para um rico fazendeiro local. Entre as criaturas do circo do dr. Lao estão - Merlin o mágico, Apolônio, Deus Pã, a serpente gigante, o abominável homem das neves e a mitológica Medusa.


O mundo inteiro é um circo se você souber olhar para ele.
O modo como o sol se põe quando você está cansado e nasce quando você se levanta, isso é magia de verdade.
O modo como uma folha cresce.
O canto dos pássaros.
O modo como o deserto fica à noite, quando a luz da lua o envolve.
Oh, meu garoto isto é circo bastante para qualquer um.
Toda vez que você assiste um arco-íris e sente seu coração se maravilhar com isso.
Toda vez que você apanha um punhado de areia e não vê a areia, mas um mistério, uma maravilha, lá na sua mão.
Toda vez que você para e pensa: "Eu estou vivo e estar vivo é fantástico".
Toda vez que isso acontece você faz parte do Circo do Dr. Lao.


O trecho acima, um diálogo entre o enigmático Dr. Lao, vivido por Tony Randall, e uma criança, resume muito bem a beleza dessa pequena joia do cinema familiar dos anos sessenta, dirigida por George Pal, que passava com muita frequência na “Sessão da Tarde” do final dos anos oitenta e início dos anos noventa. Alguns elementos ficaram datados, como os efeitos visuais, outros não funcionavam muito bem nem mesmo em sua época, o desenvolvimento dos personagens é raso, mas a mensagem é de uma profundidade filosófica pouco usual em projetos pensados para o público infantil, o texto é quase sempre encantador e com várias camadas de interpretação. Quando o circo chega à cidade, encontra uma sociedade de valores morais deturpados, com exceção de um repórter obstinado e uma bibliotecária viúva. O Dr. Lao então encontra uma forma prática de fazer com que essas pessoas reflitam sobre seus erros e entendam a necessidade da mudança de conduta, não somente pelo bem delas, mas também pela harmonia da comunidade. 

Gosto bastante da cena sombria em que Apolônio, o vidente, confronta uma senhora com um futuro triste e solitário, um choque de realidade que revolta a cliente. A crítica é clara e corajosa, o ser humano não está disposto a enfrentar a verdade, quando paga o vidente, ele compra o sonho, ele quer ser iludido, ele precisa ser levado a crer em possibilidades fantásticas, vida após a morte, um paraíso florido, a reciprocidade de um novo amor, em suma, respostas fáceis para perguntas difíceis. O tom do filme se assemelha muito ao do tcheco "Um Dia, Um Gato", realizado no ano anterior. Outro momento que faço questão de salientar é a dança da sedução de Pã, o deus dos bosques, para a bela bibliotecária, vivida por Barbara Eden. É impressionante que esse momento esteja inserido em um projeto infantil, o que causa uma estranheza perturbadora que agrega à experiência. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”, com opção de dublagem, em lançamento exclusivo em parceria com a Livraria Cultura. 

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Nos Embalos do Rei do Rock - "Em Cada Sonho Um Amor"

Links para os textos anteriores do especial:


Numa demonstração fascinante de autoparódia com seus sucessos cinematográficos anteriores, Elvis entoa a canção-título deitado confortavelmente na areia da praia, enquanto coça displicentemente as costas. A ingenuidade de seu personagem estava longe da atitude rebelde que os fãs de rock queriam ver em seu ídolo na tela grande, o que prejudicou as bilheterias. Ao invés de redirecionar esse elemento, a culpa recaiu na trilha-sonora, com apenas cinco músicas. A preocupação imediatista nublou a percepção de todos, já que "Em Cada Sonho Um Amor", em retrospecto, é um dos cinco melhores filmes protagonizados por Elvis.


Em Cada Sonho Um Amor (Follow That Dream – 1962)
Toby só quer saber de tocar violão, mas se vê completamente envolvido com burocratas do governo, chefões do crime e até com duas gatinhas apaixonadas, após seu pai resolver se aproveitar de uma lei de ocupação de terras e instalar a família em uma praia pública.


O produtor Walter Mirisch havia pensado em refilmar o clássico protagonizado por Humphrey Bogart: “Kid Galahad”, que constava na lista de aquisições da United Artists, para ser o próximo veículo para Elvis, mas enquanto trabalhava no roteiro ele ficou encantado com o livro “Pioneer Go Home!”, de Richard Powell, que considerou o projeto perfeito para o rapaz naquele momento, deixando então a refilmagem para ser explorada no ano seguinte. O experiente Gordon Douglas que já havia dirigido Stan Laurel e Oliver Hardy, o cultuado sci-fi: “Them!”, e que depois trabalharia em produções protagonizadas por Frank Sinatra, fez apenas esse filme com Elvis, mas conseguiu extrair do jovem uma de suas melhores atuações, nessa que considero sua melhor comédia. 

O título original, o mesmo do livro, foi trocado para “Follow That Dream”, refletindo a aposta do produtor no sucesso da canção composta por Fred Wise e Ben Weisman, uma pérola subestimada que Bruce Springsteen afirma ser uma de suas favoritas do repertório de Elvis. Na trilha sonora, com exceção das tolas “Sound Advice” e “I’m Not The Marrying Kind”, ainda é possível perceber a dedicação do cantor na suingada “What a Wonderful Life”, de Sid Wayne e Jerry Livingston, e na bela “Angel”, de Sid Tepper e Roy C. Bennett, que fecha a obra. Ainda acostumado a defender canções de qualidade respeitável em seus projetos cinematográficos, ele se revoltou com “Sound Advice”, apresentada em uma cena simpática onde Arthur O’Connell imita os movimentos do cantor, exigindo que ela fosse descartada em qualquer disco relacionado ao filme. O’Connell, que havia sido indicado recentemente ao Oscar por “Anatomia de Um Crime”, o pai simplório e corajoso, vale ressaltar, entrega uma das melhores atuações dentre todos os coadjuvantes de produções com Elvis. A química deu tão certo que ele voltaria a viver a figura paterna em “Com Caipira Não se Brinca”. 

Anne Helm, que vive a irmã de criação que é apaixonada pelo caipira Toby, garante o tom de doçura que a personagem precisa, sem deixar que a ingenuidade dela soe forçada. O romance, como a atriz afirma em várias entrevistas, não ocorreu apenas no roteiro, os dois ficaram juntos por um bom tempo, enquanto a imprensa especulava sobre o futuro casamento dele com Priscilla Ann Beaulieu. Com Joanna Moore, que vive uma assistente social sem escrúpulos, a relação era de ciúme, já que a colega parecia obcecada em conquistar o ator, um atrito que é transmitido em cenas como a do empurrão no rio, que era pra ser dado por uma das crianças, mas que Anne pediu ao diretor para fazer. O próprio Elvis, tendo a rara chance de equilibrar drama e comédia, defendendo um tipo ingênuo e correto, entrega a melhor atuação de sua segunda fase em Hollywood. Analise o timing cômico das cenas em que, representando a lei do local, enfrenta os mafiosos da jogatina, ou quando ele recorre à tabuada como mecanismo de defesa para evitar casamento, comparando essas sequências com a ternura que envolve seu discurso perante o juiz pela guarda dos irmãos de criação.

A Seguir: "Talhado Para Campeão" (Kid Galahad)

quarta-feira, 25 de maio de 2016

"Donnie Darko", de Richard Kelly


Donnie Darko (2001)
O primeiro erro que se pode cometer ao escrever sobre essa pérola é tentar explicar sua história, existem muitos blogs, sites e fóruns de discussão que esmiúçam cada elemento da trama, o que resulta numa leitura técnica bastante entediante, matando todo o fascínio que a obra naturalmente desperta, o equivalente ao mágico que trabalha revelando os truques dos colegas. O prazer está no mistério elaborado pelo roteirista/diretor Richard Kelly, nas descobertas em cada revisão atenta, e, acima de tudo, na compreensão de que é impossível ligar todos os pontos. O recurso da viagem no tempo sempre foi muito utilizado no cinema e na literatura, mas são poucos os títulos verdadeiramente brilhantes nas duas mídias. “O Fim da Eternidade”, de Isaac Asimov, por exemplo, subestimada joia, considero o melhor livro a tratar do assunto. “Donnie Darko” está na minha lista de cinco melhores filmes no tema.

É bonito perceber as sutis homenagens do cineasta ao seu ídolo Steven Spielberg, das bicicletas em perseguição noturna que remetem à “E.T”, passando pela hábil inserção de um típico susto spielberguiano na exploração na casa da vovó morte, até a óbvia participação de Drew Barrymore. A atriz, num ato de grande generosidade e inteligência, leu o roteiro daquele garoto sem histórico relevante na área, ficou impressionada com o talento dele e se comprometeu a, não somente atuar, como também produzir o filme. Com o nome dela apoiando o projeto, o que seria um exercício independente de baixíssimo orçamento fadado ao mercado de vídeo acabou atraindo atenção de outros nomes grandes da indústria, como Patrick Swayze e Katharine Ross. O protagonista, impecável atuação de Jake Gyllenhaal, entrega na sala de aula a melhor definição para a experiência proposta no roteiro, aprofundando questões levantadas por um conto de Graham Greene, o paralelo entre a destruição e a criação, a esquizofrenia como gatilho psicológico para a constante reinvenção de um indivíduo, a esquizofrenia como metáfora para as possibilidades de realidades alternativas exploradas em viagens no tempo.

O ato de incendiar a casa do palestrante motivacional foi imprescindível para que os policiais descobrissem um quarto secreto com material de pedofilia, mas não apenas isso, também foi o evento que possibilitou o fechamento do universo tangente onde se passa praticamente todo o filme, uma anomalia que colocava em risco a existência do próprio universo. Na realidade, Kelly criou uma elegante graphic novel de super-herói ambientada na década de oitenta e com elementos bem executados de terror. Com a prisão do palestrante, a mãe do protagonista foi obrigada a acompanhar a filha e as colegas dela na viagem de avião, deixando a casa vazia para que ocorresse a festa de Halloween e a subsequente tragédia que leva o jovem a matar Frank, que retorna no tempo com sua fantasia de coelho (referência ao personagem que conduz a Alice de Lewis Carroll em sua aventura) para salvar Donnie de ser atingido pela turbina no quarto. Nessa vida alternativa, até mesmo um relacionamento amoroso com uma bela colega de classe consegue desabrochar, sentimento que ele opta por valorizar em seu sacrifício final. 

O herói também é levado a confrontar de forma prática algumas instituições opressivas, inundando sua escola que doutrina com base em um código de valores equivocados, punindo professores que intencionam abrir as cabeças dos alunos, além de desconcertar sua psiquiatra em diversos momentos, provando para a profissional que nada que ela aprendeu nos livros explica de forma minimamente aceitável as variantes de seu comportamento. O ser humano não pode ser etiquetado, padronizado, sem levar em conta os matizes que compõem sua complexa personalidade, ensinamento que Donnie tenta transmitir também para uma de suas professoras, na cena do “amor e medo” na lousa, um dos bons alívios cômicos. 


A editora "Darkside Books" está lançando o livro "Donnie Darko", com o roteiro integral e uma longa entrevista com o cineasta, além de "A Filosofia da Viagem no Tempo", uma reprodução de trechos do livro escrito no filme pela vovó morte. Um tomo indispensável na estante dos fãs do filme.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O Cinema de Mizoguchi - "Elegia de Osaka", "Crisântemos Tardios", "Os Músicos de Gion", "O Intendente Sansho", "A Mulher Infame" e "Rua da Vergonha"


Elegia de Osaka (Naniwa Ereji – 1936)
Osaka, anos 30. Uma jovem se torna amante do patrão para poder sustentar a família. 

Excelente para ver numa dobradinha com “As Irmãs de Gion”, esse foi o filme em que Mizoguchi sentiu que havia alcançado a maturidade profissional, o perfeito equilíbrio entre ideia e execução, amparado pelo roteiro de Yoshikata Yoda, o primeiro nessa longa parceria. Seu vasto currículo pré-1936, cinema mudo e falado, foi perdido, uma lástima saber que nunca iremos conhecer os passos iniciais dessa jornada de amadurecimento. Filmada em apenas vinte dias, a trama simples e, de certa forma, pessimista, ia de encontro ao momento ufanista dos japoneses, o que levou o projeto a ser banido das salas de exibição. A protagonista, vivida por Isuzu Yamada, sofre a pressão da sociedade e a rejeição da família ao aceitar envolvimento romântico com seu patrão, um homem casado e com ótima condição financeira, o que garantiria a ela a verba para resolver seus problemas. O que a torna fascinante e engrandece a simbologia da sequência final é que ela não se coloca como vítima, Ayako tenta se adequar ao molde tradicional da mulher de sua época, mas percebe que as figuras masculinas ao seu redor são apáticas, o que a leva a buscar formas de sobreviver, agir ao invés de reagir, formas de manter seu espírito vivo em uma realidade que a presenteia com um código de conduta absurdamente rígido em sua submissão. Numa analogia ao bunraku, teatro de bonecos onde cada “personagem” é manipulado por três titereiros, representado no filme em uma das cenas mais importantes, a protagonista manipula e é manipulada constantemente. Ao final, dúbio para alguns, mas que vejo com um significado bastante óbvio, a jovem caminhando na ponte, abandonada por sua família e pelo ex-namorado, reflete brevemente sobre as possibilidades em seu futuro. A cena inicialmente insinua que ela cogita cometer suicídio, mas, num belo gesto de coragem, o diretor ousa entregar uma espécie de final feliz para sua heroína, totalmente livre pela primeira vez, no rosto a cristalização da altivez, caminhando com passos firmes na direção da câmera. 


Crisântemos Tardios (Zangiku Monogatari – 1939)
O filho adotivo de um ator renomado descobre que só é elogiado nos palcos e poupado das críticas por causa de seu pai.

A primeira obra-prima de Mizoguchi, um geido-mono (melodrama envolvendo cenário artístico) psicologicamente adulto, trata da importância da verdade como elemento transformador. É bonito que o roteiro minimize as insinuações de romance entre o ator e a empregada, uma jovem que conquista seu respeito por ser a única pessoa que o confronta com a necessidade de melhorar muito em seu ofício. A amizade é forjada a partir de um despretensioso passeio noturno dos dois, com um enquadramento intimista que faz o trajeto parecer que está sendo feito em um hanamichi, a extensão do palco da tradição do teatro kabuki que é representado lindamente em algumas cenas. Há doçura na interação, desde a melancia compartilhada, passando pela reza silenciosa dela, até a preocupação com a ausência dela no trem. Em contraste com o peso da rejeição da sociedade com o relacionamento, essa doçura ganha ares de elegante rebeldia, no que, de fato, simboliza a revolução interna do rapaz. Kikunosuke, motivado pelas críticas de Otoku, pelo interesse dela em proteger ele da decepção que inevitavelmente viria com a falsa ilusão de grandiosidade, decide se tornar um ator competente. Mas há um viés curioso no desfecho, o que pode explicar o apelo do filme na época com o Ministério da Educação: o ator acaba fazendo as pazes com o sistema conservador que prejudicou seu relacionamento com Otoku, essa sim, a grande heroína da história, que se sacrificou em diversos momentos e se manteve fiel às suas convicções até o fim. Ele, mais do que o autoaprimoramento, buscava a aceitação profissional de outrem, reservando para a mulher que salvou sua vida uma discreta reverência, um agradecimento perdido entre tantos que oferta a uma multidão de estranhos em seu triunfal desfile de barco. 


Os Músicos de Gion (Gion Bayashi – 1953)
Pós-guerra, distrito de Gion em Kyoto. A gueixa Miyoharu aceita Eiko, de apenas 16 anos, como aprendiz.

Com a morte da mãe, uma adolescente se vê obrigada a trilhar o mesmo caminho dela, tornando-se uma gueixa, como forma de fugir do assédio sexual de seu tio, o elo com o conceito familiar, alguém que estava disposto a fazer a menina pagar pelo funeral com sua virgindade. Novamente, Mizoguchi aborda a questão da representatividade da mulher na sociedade japonesa, o conflito entre a tradicional submissão/exploração e o aflorar dos impulsos naturais por uma individualidade livre de rituais predeterminados. Ao procurar o treinamento de gueixa com a experiente Miyoharu, uma relação tratada inteligentemente pelo roteiro com bastante ternura, com alguns enquadramentos sugerindo até mesmo um corajoso romance, ela decide forjar sua resiliência injetando um elemento novo na equação desgastada, a recusa de se deitar com homens que ela não considera interessantes, além da insinuação de que qualquer abuso cometido contra uma gueixa deveria ser punido por lei, um pensamento revolucionário pra época. Eiko encontra a voz de sua resistência, rejeitando a ideia de ter um generoso patrocinador. Quando seu pai aparece endividado e implorando por dinheiro, sem se preocupar com a origem do mesmo, a jovem percebe que sua função não a fez ser menos decente.  


O Intendente Sansho (Sansho Dayu – 1954)
Japão, século XI. A família Taira é separada pelas lideranças feudais e passa por todo tipo de sofrimento. 

É impossível transmitir a emoção que esse filme causa no espectador. Não há uma viva alma capaz de sair indiferente de uma sessão de “O Intendente Sansho”, essa é a obra perfeita para mostrar aos que, por desconhecimento, rejeitam o timing do cinema oriental clássico. O roteiro essencialmente fabulesco carece de um maior desenvolvimento psicológico dos personagens principais, estruturalmente recorrendo a flashbacks como forma de preencher algumas lacunas de acontecimentos, mas sem se aprofundar na forma como os mesmos afetam as pessoas envolvidas, um mundo interno que fica aberto a interpretações. Longe de ser um problema, essa postura narrativa reforça o real elemento importante para Mizoguchi, a mensagem que emoldura a belíssima sequência onde o filho visita o túmulo do pai, um governador que foi duramente punido por tratar com humanidade os camponeses da região. A necessidade de ser misericordioso, ainda que o sistema te conduza a agir de forma contrária, o que o falecido deixou como único legado para os filhos, lição preciosa, encontra ressonância na reação do povo do local, que, movido pela gratidão, faz questão de cuidar das flores que embelezam e dignificam o altar de sua memória. É nesse momento que o jovem Zushio compreende plenamente que o status social de prestígio que alcançou não tem valor algum quando comparado ao respeito que se conquista de pés descalços e caráter ereto, por ações corretas sem intenção de reconhecimento, o que o faz renunciar o cargo sem pensar duas vezes após cumprir seu objetivo, a libertação dos escravos do Intendente Sansho. A doce irmã, Anju, que sacrificou sua vida para que ele pudesse ter uma chance de redenção, acaba se unindo ao lamento da mãe, representada na trilha sonora como a flauta renitente que clama pelo reencontro, não tanto o físico de mãe e filho, mas o reencontro existencial do rapaz com valores nobres de sua infância, virtude que ele, por inclemência do destino, chegou a renegar. Mais do que uma obra-prima na filmografia de seu cineasta, esse filme é um patrimônio inestimável da história do cinema mundial. 


A Mulher Infame (Uwasa no Onna – 1954)
Kyoto, anos 50. Uma jovem entra em conflito com a mãe, dona de um bordel. 

Em sua execução, o filme menor da caixa, o único que eu não havia visto, comprova que até mesmo em um momento menos inspirado, o mestre japonês conseguia emocionar. Retomando o tema da prostituição após alguns projetos mais fabulescos, o roteiro foca na filha, vivida por Yoshiko Kuga, que, após anos de estudo de piano na cidade grande, retorna para casa e entra em confronto com a mãe, estupenda Kinuyo Tanaka, orgulhosa dona de um bem-sucedido bordel, ocupação que representa pra a jovem uma tradição vergonhosa, além de ter sido o motivo que fez com que o homem que amava a abandonasse. O figurino e o corte de cabelo remetem a uma jovem Audrey Hepburn, simbolizando a ocidentalização da menina. A postura dela causa revolta nas prostitutas, que trabalharam para pagar esse refinamento, uma educação que elas conscientemente sabem que nunca terão. O tom é menos melancólico do que os seus outros projetos no tema, mas a repetição do discurso é trabalhada com pouca criatividade. 


Rua da Vergonha (Akasen Chitai – 1956)
O cotidiano de um bordel japonês do pós-guerra e os dramas pessoais de suas prostitutas. 

Uma obra-prima crepuscular de um mestre que se manteve tematicamente coerente durante toda sua longa carreira no cinema. Para entender a importância de suas décadas dedicadas à crítica ferrenha da submissão da mulher na sociedade, motivada principalmente pela tristeza de ter visto sua irmã sendo vendida para a prostituição, basta analisar que, pouco depois da estreia desse filme, que foi peça fundamental nas discussões sobre a questão exatamente por não tentar romancear a vida degradante em um bordel, foi votada uma lei que bania a prostituição. O foco do roteiro não é tanto a figura feminina exposta à humilhação, ainda que a narrativa seja guiada pelas desventuras de cinco prostitutas que lidam com o trabalho de formas bem diferentes, mas a função social que permite esse tipo de tratamento. Mizoguchi novamente salienta a força de espírito das mulheres e evidencia a fraqueza dos personagens masculinos. Não é dada atenção à causa que as fez entrar pra essa vida, o interesse está em evidenciar que, apesar delas nutrirem esperanças em longo prazo de mudanças positivas, o destino será inevitavelmente sombrio e decepcionante. O final, mostrando uma jovem prestes a perder sua inocência na função, carne fresca que não compreende a dimensão do universo que está adentrando, cercada por possíveis clientes que caminham livremente, evidencia um ciclo injusto de poder e subjugação que não parece disposto a ser interrompido. Meses depois da estreia, o diretor faleceu de leucemia, mas sua mensagem foi passada com louvor em seu conjunto de obra.


Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, na caixa "O Cinema de Mizoguchi, Vol.2", que tem como conteúdo extra: apresentações em vídeo do colega crítico Sérgio Alpendre sobre cada obra. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Faroeste Spaghetti - "Dias de Ira", "Tepepa", "Cemitério Sem Cruzes" e "O Dia da Desforra"


O Dia da Desforra (La Resa dei Conti – 1966)
John “Colorado” Corbett, um justiceiro com aspirações políticas, persegue um atirador de facas mexicano.

O diretor Sergio Sollima aceitou uma sugestão de Sergio Leone que modificou radicalmente o desfecho da história original, escrita por Franco Solinas e Fernando Morandi, trocando a punição injusta do carismático personagem de Tomas Milian pelo reconhecimento de sua inocência e a união com o implacável caçador de recompensas Corbett, vivido por Lee Van Cleef. O engraçado é que não dá pra imaginar o filme sem esses emocionantes dez minutos finais. A intenção de Sollima era seguir caminho inverso ao do frio homem sem nome dos projetos de Leone, dando voz ao marginalizado Cuchillo, cuja atuação me remete ao personagem de Toshiro Mifune em “Os Sete Samurais”, um mexicano pobre e explorado pelo sistema dos grandes donos de terra, que, numa boa simbologia, opta revidar com facas e atiradeiras, o que conduz a um dos duelos mais criativos do gênero. E perceba como, nesse duelo, a forma como Cuchillo estende os braços salienta a imagem da crucificação cristã. Perceba também a beleza do alinhamento das balas na tora de madeira, logo na primeira sequência do filme, pouco antes do confronto entre Corbett e três saqueadores. Na direção de arte de Carlo Simi, detalhe que fica mais aparente em revisão, a sugestão de que existe um interesse político por trás das ações do homem da lei é evidenciado em seu figurino elegante. Dá até pra dizer que, com sua temática libertária e humanista, o roteiro é um precursor dos projetos norte-americanos da contracultura. São toques sutis como esses, além da poderosa trilha sonora de Ennio Morricone, que engrandecem a obra para além de sua importância em seu gênero, “O Dia da Desforra” transcende essa limitação, não se trata apenas do melhor filme de Sollima, como também entra facilmente em minha lista de melhores filmes da década de sessenta. 


Dias de Ira (I Giorni Dell'ira – 1967)
Na cidade de Clifton, um homem pacato e menosprezado se torna discípulo de um experiente pistoleiro.

Um jovem e impulsivo órfão, vivido por Giuliano Gemma, vagava solitário pelo Velho Oeste selvagem, aceitando qualquer tipo de trabalho, sem nenhuma confiança ou amor próprio. Esvaziar baldes de esterco enquanto escutava o deboche alheio já havia se tornado praticamente uma rotina. Seu caminho uma tarde se cruza com o do experiente pistoleiro Frank Talby, Lee Van Cleef, recém-saído do épico “Três Homens em Conflito” e prestes a encarar “Sabata”, que não somente o trata com dignidade, como o defende. O tema “professor/aluno” foi muitas vezes abordado no gênero, como no excelente “Quando os Brutos se Defrontam”, de 1967, mas considero essa tentativa do diretor Tonino Valerii, de “Meu Nome é Ninguém”, a mais acertada. Estruturalmente bastante simples, o roteiro utiliza os ensinamentos do pistoleiro como base. São dez lições que, como qualquer fã já pode imaginar, serão eventualmente utilizadas pelo aprendiz em combate contra o seu mestre, simbolizando o amadurecimento do jovem. O duelo final é um dos mais emblemáticos na história do faroeste spaghetti, com o uso da empolgante trilha sonora de Riz Ortolani aliada aos sentimentos de ambos, que mesmo sabendo estarem em confronto mortal, ainda sentem resquícios da relação pai/filho que tinham. A admiração entre ambos é latente, estabelecida com eficiência ao longo da trama e facilitada pela ótima química entre os dois protagonistas. Vale ressaltar também a bela fotografia de Enzo Serafin, que captura a essência primitiva do cenário.


Cemitério Sem Cruzes (Une Corde, Um Colt... – 1969)
Manuel, um pistoleiro que usa uma luva preta em apenas uma das mãos, é envolvido por uma mulher numa trama de assassinato. 

O ator e diretor Robert Hossein colocou na cabeça que faria o primeiro faroeste francês, respeitando a mitologia do gênero e homenageando seu amigo Sergio Leone, o que resultou nessa pérola pouco lembrada, inteligentemente resgatada na caixa por Fernando Brito. O tema muito utilizado da vingança ganha um contorno psicologicamente mais denso, já que o interesse em cada cena está na emoção suprimida pelos personagens, com poucos diálogos, como a tristeza perene no rosto do protagonista, ao invés do usual desfile de poses e frases espirituosas que tentam apelar para o inconsciente mítico do Velho Oeste. Não há também uma clara definição entre mocinhos e bandidos, todos cometem atos vis e nobres, as motivações são muito bem trabalhadas. A bela Michèle Mercier, logo após terminar a saga romântica “Angélica”, vive uma viúva determinada a humilhar os responsáveis pela morte de seu marido. Ela não é uma figura de decoração narrativa, como boa parte das mulheres no gênero, ela é uma mistura enigmática de vítima e algoz, nada menos que a força motriz de todo o filme. Com o dedo de Dario Argento no roteiro, “Cemitério Sem Cruzes” aborda com tom fatalista o ciclo inescapável da vingança, o remorso de um homem apaixonado pela esposa do melhor amigo e que tenta, consciente de que está caminhando para seu túmulo, honrar o nome do falecido como forma de se perdoar.


Tepepa (1969)
O líder guerrilheiro Tepepa e seus correligionários lutam contra as forças do governo. 

O faroeste tortilla foi uma variação do spaghetti que acompanhava o clima político da época, com a popularização do comunismo entre os intelectuais europeus e o que muitos consideravam que era o prenúncio de uma revolução iminente, com o contexto da revolução mexicana servindo como analogia para essa realidade possível. Com “Tepepa”, o diretor Giulio Petroni, o discurso esquerdista é trabalhado de forma generosa, com o protagonista, vivido com o carisma habitual por Tomas Milian, sendo um pobre e analfabeto agricultor que acaba se tornando o líder do movimento revolucionário contra os tiranos aristocratas, ocupando terras e enfrentando o cruel coronel Cascorro, vivido de forma extravagante por Orson Welles. Sem o refinamento visual de um Leone, Corbucci, ou um Sollima, Petroni tem dificuldade em fugir do óbvio, por exemplo, a simbologia em um momento importante é simplista como a ideologia socialista: um grupo de trabalhadores submissos empurra o carro elegante e modernista do doutor. Ele emula cacoetes visuais dos diretores já citados, mas peca no exagero, o que prejudica quase sempre o potencial dramático em um projeto que se beneficiaria com um tempo de duração mais econômico. Por outro lado, a trilha sonora de Ennio Morricone é brilhante, captando com perfeição a personalidade de Tepepa. 


A distribuidora Versátil, com a curadoria do sempre competente Fernando Brito, está lançando em DVD a caixa "Faroeste Spaghetti", com os quatro filmes e mais rico material extra. 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Cine Bueller - "Lili", de Charles Walters

Link para os textos do especial que resgata os filmes que marcaram minha infância e adolescência na “Sessão da Tarde” e “Cinema em Casa”:


Lili (1953)
É ótimo que essa edição lançada agora em DVD pela distribuidora “Obras-Primas do Cinema” resgate a clássica versão dublada, com Leslie Caron na voz da grande Nair Amorim, o que facilitou tremendamente no fator da nostalgia, trazendo de volta a mesma emoção, com um filme que eu não via desde aquela época. A linda canção “Hi-Lili, Hi-Lo”, que embalou minha infância na versão cantada por Gal Costa e Trem da Alegria, tem uma aura de pureza e sonho, aquela elegância que o mundo moderno substituiu pelo cinismo. 

O filme, dirigido pelo especialista em leveza: Charles Walters, de “Alta Sociedade”, “Desfile de Páscoa” e “Ciúme, Sinal de Amor”, consegue inserir toques sombrios, como a tentativa de suicídio da protagonista logo no início, em um contexto que se assemelha ao de um livro infantil, mas sem o melodrama forçado que se esperaria após a leitura da sinopse. Caron encanta como a adolescente ingênua Lili, que acaba de perder os pais e precisa compreender sua pequenez diante dos conflitos da maturidade que se vislumbra no horizonte. Mel Ferrer, como o titereiro que se apaixona por ela, transmite nos olhos a gentileza que foi suprimida por sua experiência traumática na guerra. Ele esconde seus sentimentos por trás dos bonecos, o lúdico da criança que ele extirpou como forma de proteção. E a jovem promove inconscientemente esse reencontro. Lili enxerga nos bonecos o acolhimento parental recentemente perdido, ela enxerga além da mão que os manipula, a sua docilidade intocada pela hipocrisia adulta os transforma em seres vivos, um dos elementos mais bonitos do roteiro. 

Na sequência musical onírica do terceiro ato, onde os bonecos efetivamente ganham vida, a protagonista tenta lutar contra seus impulsos românticos, símbolo da maturidade, enquanto se afasta daquele universo que a havia abraçado. Cada boneco tem a chance de uma última dança, antes de tomar a forma do titereiro e se fundir aos passos já trilhados no caminho. A poesia nesse momento é das coisas mais lindas que o cinema mostrou em sua década. E vale ressaltar que a coreografia nessa cena, inicialmente comum, vai se tornando cada vez mais sensual, uma representação óbvia de que a menina está se permitindo tornar mulher. A imagem do desfecho me emocionava na época e me emocionou nessa revisão. É simples, mas poderosa em sua simbologia. 

* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Obras-Primas do Cinema".

sábado, 14 de maio de 2016

"Guerra do Paraguay", de Luiz Rosemberg Filho


Guerra do Paraguay (2016)
A primeira reação de um crítico ao se deparar com uma obra cuja linguagem possui regras próprias é tentar encontrar figuras reconhecíveis nas nuvens, um ponto de partida, uma base para trabalhar as possíveis reflexões despertadas pela experiência. É nesse processo que o profissional pode se perder em malabarismos argumentativos prolixos, criando até mesmo camadas de interpretação inexistentes no material original, o que obviamente agrada o cineasta e os envolvidos diretamente na produção, mas foge um pouco da função primordial do texto crítico. Então, antes de abordar os pontos positivos, preciso ressaltar os pontos que me incomodaram.

O cinema de Luiz Rosemberg Filho é teatro filmado, com o elenco defendendo longos discursos antinaturais, movidos por uma forte/agressiva ideologia política que os deixa ainda menos fluidos, uma estética que não tem pretensão alguma de ser comercial, o que não é um demérito. Quando a protagonista atriz propositalmente se utiliza da teatralidade estereotipada em algumas cenas, como naquela do monólogo sobre hipocrisia do “Don Juan”, de Moliére, o efeito da estranheza é minimizado, já que ela repete, com pouca variação e maior gestual, o tom farsesco predominante de todos os diálogos. A dedicatória inicial cita “Tempo de Guerra”, de Godard, e “Dr. Fantástico”, de Kubrick, dois filmes que utilizam de maneira muito inteligente um humor anárquico como elemento principal de desconstrução da guerra, evidenciando com eficiência, cada diretor à sua maneira, a imbecilização que aflora no ser humano, a ignorância daquele que acata ordens sem compreender absolutamente nada do que motivou sua convocação, movido pela ilusão fabricada por aqueles verdadeiramente interessados, que sempre veem tudo do alto, confortáveis em suas posições hierárquicas, tão ilusórias quanto, representadas por medalhas de latão. Mas falta o humor no texto de “Guerra do Paraguay”, a austeridade excessiva acaba por esfriar o espectador, por mais incisivas e criativas que sejam as palavras proferidas em cena, diminuindo consideravelmente o impacto que esses momentos deveriam ter. No primeiro encontro do soldado (Alexandre Dacosta) com as duas mulheres, a mais velha (Patrícia Niedermeier), atendendo aos apelos da mais nova (Ana Abbott), coloca um pedaço de pão na boca e leva seus lábios aos dela, uma das mais bonitas representações visuais do instinto maternal de proteção, um detalhe breve e silencioso de rico simbolismo que infelizmente se esvai, espremido num debate que parece interminável, uma verborragia entediante que nada revela sobre os tipos na tela, logo, não estimula interesse pelo que ocorre com eles, um equívoco essencialmente nobre que denota a paixão do autor pelo próprio material, impossibilitando o importante distanciamento, a empatia de se colocar no lugar do público. Como toda obra que se arrisca, “Guerra do Paraguay” possui problemas, mas criticar construtivamente é abraçar carinhosamente o amigo que respeitamos.

É imprescindível reconhecer o valor do produtor Cavi Borges, um guerreiro incansável da cultura e do cinema nacional, que estreia com muita competência nesse projeto como diretor de arte. Gostei bastante dos primeiros quinze minutos, uma prova da coragem do grande Rosemberg, acompanhando o esforço físico das mulheres carregando pela estrada uma carroça que serve metaforicamente como uma espécie de teatro desmontável, a arte combalida e pouco valorizada que elas lutam para manter relevante em um cenário desolador, onde, como a mais velha afirma melancolicamente, somente o imediatismo tolo do entretenimento televisivo consegue sobreviver, aquele produto diluído que habita terrivelmente confortável entre intervalos comerciais. A bela fotografia em preto e branco potencializa esse desamparo existencial compartilhado pelos personagens. O soldado, cego em sua ideologia, repete frases vazias, padronizado peão, uniformizado encabrestado, a antítese perfeita dos valores libertários representados pela atriz. A esperança resiste no olhar da mais jovem, autista, inocente flor que luta para romper o asfalto, encontrar sua voz. O roteiro é, acima de tudo, sobre a resiliência da arte no confronto diário contra a mediocridade e a mentira.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

"Relatos Selvagens", de Damián Szifrón


Relatos Selvagens (Relatos Salvajes – 2014)
O diretor argentino Damián Szifrón levou sua experiência de televisão, a linguagem popular e objetiva de uma mídia que se espreme entre intervalos comerciais, para essa rara antologia cinematográfica onde todas as seis histórias funcionam muito bem.

O humor é elegante até mesmo nas situações mais absurdas, como na última trama ambientada na festa de casamento, visualmente rimando com várias cenas do “Titanic” de James Cameron, representando o choque de realidade de uma mulher que acreditava que sua relação com seu marido era “inafundável”, resultando em uma crítica inteligente dos rituais tolos que envolvem uma cerimônia que, em sua essência, elimina toda a espontaneidade do romance em favor de um conjunto de regras antinaturais, onde o casal se torna um espetáculo desgastado da Broadway, dois indivíduos com personalidades fascinantes transformados em um padronizado souvenir para ser apreciado pelos convidados, em grande parte, estranhos bem vestidos, numa festa que simboliza o desejo por aceitação na sociedade, mais do que a celebração do amor. Ao final, despidos de toda a maquiagem social, após um clímax que é coerentemente filmado quase como uma sessão de exorcismo, os dois se reencontram com a espontaneidade que os uniu outrora, eles se surpreendem com a constatação de que o sentimento havia sido suprimido pelos rituais.

O leitmotiv do filme, a selvageria que é despertada nos homo sapiens em situações extremas, encontra nesse conto final a sua melhor definição. Nos anteriores, como o da briga cartunesca dos motoristas na estrada, o da garçonete que se culpa por querer vingança, o do pai que protege sua cria entregando um funcionário para o sacrifício, ou o grandioso revide moral do tipo James Stewart vivido por Ricardo Darín, todos trabalham o conceito da negação da racionalidade em alguém que é levado às últimas consequências, a estupidez tragicômica da obliteração da lucidez. Somente no episódio do casamento temos uma reflexão realmente profunda que evidencia o fato de que somos selvagens domados por rituais diários autoimpostos, com a plena consciência de que são frágeis ilusões, alegoricamente representadas pela festa que oficializa o contrato, animais passionais que buscam instintivamente pelo cabresto, que beijam a mão daquele que os cerceia, que encontram paz na convicção em deuses que seguram firmemente a coleira. 

TOP - Sexta-Feira 13


Foi através de Jason Voorhees que conheci os gialli italianos em minha pré-adolescência, percebi que eles exerceram mais do que uma influência, os diretores norte-americanos dos slashers estavam copiando descaradamente sequências inteiras, os mesmos enquadramentos. Mas essa constatação não diminuiu meu carinho pelas peripécias do jovem filhinho da mamãe de Crystal Lake. Revendo toda a franquia para preparar essa postagem, reafirmei meu desprezo pelos episódios 5, 7, 8 e 9, bobagens que não funcionam como terror, nem como terrir. “Jason X” e “Freddy Vs. Jason” são curiosidades bizarras, com o último ganhando alguns pontos pela oportunidade de ver Robert Englund pela última vez no papel do carismático pedófilo de Elm Street. Eu irei escrever sobre os filmes no especial “Faces do Medo”, então eu não vou fazer análises longas aqui sobre cada obra, apenas despretensiosos comentários abordando a razão da posição na lista, que está, vale ressaltar, em ordem de preferência.


1 - Sexta-Feira 13 – Parte 2 (Friday the 13th - Part 2 - 1981)
O motivo principal que o faz constar na primeira posição da lista não é sua trama, nem a estilosa versão 1.0 do protagonista. O diretor Steve Miner, em seu primeiro filme, consegue criar a atmosfera perfeita de medo, copiando os melhores truques dos gialli italianos. Mais do que o gore, o clima constante de pesadelo é o grande mérito da produção, com destaque para os atordoantes quinze minutos finais. Os personagens, algo raro na franquia, são minimamente interessantes e carismáticos. 


2 – Sexta-Feira 13 – Parte 4 - Capítulo Final (Friday the 13th: The Final Chapter - 1984)
Com a responsabilidade de dar um fim ao personagem, algo que seria desrespeitado de forma pífia na produção seguinte, o fraco diretor Joseph Zito foi além de suas capacidades, compensando o roteiro tolo com o maior número possível de mortes criativas, ajudadas pela técnica do mestre Tom Savini em um de seus melhores momentos. É o filme que simboliza os méritos da franquia, com um Jason plenamente estabelecido e uma subtrama ousada envolvendo uma criança, com toques de "A Profecia", Corey Feldman antes de se tornar um dos Goonies. 


3 – Sexta-Feira 13 – Parte 6 (Jason Lives: Friday the 13th - Part 6 - 1986)
A esculhambação começou no anterior, ainda que tentasse ser sério, mas nessa incursão temos um Jason que homenageia a criatura do clássico da Universal Studios: "Frankenstein", sendo ressuscitado por um raio, uma cena inicial que dá o tom divertido que foi o recurso encontrado por todos os monstros da época. A metalinguagem que homenageia a franquia 007, com Jason e seu facão no cano da arma, outro momento impagável. Com roteiro e direção de Tom McLoughlin, na única produção relevante de sua carreira, o resultado é surpreendentemente bom. 


4 – Sexta-Feira 13 – Parte 3 (Friday the 13th - Part 3 - 1982)
O charme do 3D, recurso banalizado hoje, foi o grande mote dessa produção dirigida novamente por Steve Miner, a responsável pelo visual clássico do personagem. Com um irritante grupo de vítimas saído de uma caravana hippie e uma gangue de motoqueiros estereotipados, torcemos pelo silencioso e imponente assassino, o que é o objetivo da obra. O gore é prejudicado pela necessidade de favorecer o 3D, com alguns erros indisfarçáveis.


5 – Sexta-Feira 13 (Friday the 13th - 1980)
O original tem seu valor no contexto do subgênero, tentando capitalizar com o sucesso de "Halloween", mas a realidade é que a trama não se sustenta, a reviravolta final é bastante óbvia. A melhor cena é exatamente o último jump scare, de arrepiar os pelos da nuca, mas o suspense é mal trabalhado. Tem seu charme, mas o roteirista/diretor Sean S. Cunningham, que comandaria alguns anos depois o clássico do "Cinema em Casa": "Primavera na Pele", nunca foi muito competente em seu ofício. 

quarta-feira, 11 de maio de 2016

"O Milhão", de René Clair


O Milhão (Le Million – 1931)
Quem me apresentou esse filme adorável, meu primeiro contato com a filmografia do francês René Clair, foi o extinto programa “Cine Vida”, apresentado pelo saudoso crítico José Tavares de Barros e pelo Brancato Jr., que passava há uns quinze anos no horário nobre dos Sábados no canal católico “Rede Vida”. A programação era formada só por biscoitos finos, passava Irmãos Marx, Chaplin, Hitchcock da fase britânica, William Wyler, obras clássicas que eu não encontrava nos garimpos nas videolocadoras, então gravava tudo em VHS.

“O Milhão” é um dos poucos filmes que vejo do início ao fim com um sorriso no rosto, uma trama simples, onde um rapaz endividado vende o seu casaco sem saber que tinha um bilhete premiado de loteria no bolso. A estrutura da história contada em um estilo de vaudeville, fonte do material original de Georges Berr e Marcel Guillemaud, com a arriscada adição do elemento da opereta como forma de transformar os diálogos da peça em canções, resultou em um projeto que mantinha o charme da comédia muda na atuação do elenco, enquanto todos ainda se adaptavam ao recurso do som, experimentando ousadamente um musical onde as letras são inseridas criativamente nas cenas, trabalhadas de forma tão brilhante que esses interlúdios não quebram o ritmo da ação. Na sequência inicial vemos uma festa barulhenta que faz com que dois vizinhos adentrem tentando entender a razão de tanta alegria, o roteiro nos conduz então em um flashback, mas sem interesse em despertar dúvidas a respeito do destino do protagonista. Não há reviravolta chapliniana, o herói acabará nos braços da bela jovem, o bilhete será encontrado. Esse positivismo, sem traço algum de cinismo, faz falta nas comédias modernas.

Adoro a sequência da ópera, com o casal de cantores vendendo a ilusão do romance no palco, enquanto o casal protagonista, escondido no fundo do cenário, redescobre o amor e a cumplicidade outrora abalada numa mímica cômica de tudo o que está sendo cantado pelo tenor. Quando pensamos que a cena havia esgotado suas possibilidades, Clair insere uma hilária disputa pelo casaco, filmada como uma partida de rugby, com direito a ovação da plateia, um recurso inventivo onde o som divergia totalmente da realidade do momento, algo que os jovens da Nouvelle Vague fizeram na década de sessenta e muitos achavam cool. O diretor normalmente é lembrado por filmes menos despretensiosos, como “A Nós a Liberdade”, homenageado por Chaplin em “Tempos Modernos”, mas o meu favorito dele continua sendo “O Milhão”.

terça-feira, 10 de maio de 2016

TOP - Filmes Wuxia

Foi lançado nos cinemas nacionais no último final de semana o excelente “A Assassina”, de Hou Hsiao-Hsien, uma incursão poética no subgênero wuxia, filmes de época que misturam fantasia (personagens que voam, por exemplo) com artes marciais, sobre protagonistas que prezam a honra e a justiça, o molde que George Lucas usou na criação de seus Cavaleiros Jedi. Fiz uma maratona e revi os meus filmes favoritos, além de conhecer alguns novos, para preparar essa lista. Foi interessante perceber que, ao contrário de boa parte dos gêneros cinematográficos, a nostalgia não favorece os clássicos, considero que o avanço da tecnologia nos últimos trinta anos foi essencial para os wuxia. Muitos dos títulos importantes no contexto histórico, como eu pude comprovar nessa revisão, não foram beneficiados pelo teste do tempo. Alguns já tiveram textos aqui no blog, outros terão em breve, então eu não vou fazer análises longas sobre cada obra, apenas despretensiosos comentários. A lista está em ordem de preferência.


1 – Herói (Ying xiong – 2002)
É impressionante como o filme dirigido por Zhang Yimou se mantém tão emocionante quanto eu me lembrava, como o equilíbrio perfeito entre os impulsos wudang (força interior) e shaolin (força exterior) que movem o guerreiro sem nome vivido por Jet Li. A beleza contemplativa nos enquadramentos, uma fotografia deslumbrante, divide espaço com sequências verdadeiramente empolgantes.


2 – A Assassina (Nie yin niang – 2015)
Quando eu me lembro de “Barry Lyndon”, uma das obras-primas de Kubrick, as imagens se sobrepõem à trama, fortes e de uma beleza de se admirar de joelhos. O mesmo ocorre com essa preciosa incursão do taiwanês Hou Hsien-Hsiao no subgênero, subvertendo as expectativas de todos ao abraçar respeitosamente a tradição sem perder contato com seu estilo contemplativo.


3 – O Grande Mestre Beberrão (Da zui xia – 1966)
Hoje a indústria norte-americana celebra fortes protagonistas, heroínas que não dependem dos homens, mas esse filme pioneiro no subgênero, dirigido por King Hu, já fazia isso em meados da década de sessenta, com a temida Andorinha Dourada, vivida por Cheng Pei-Pei. Utilizando a técnica de dança da heroína na coreografia das lutas, Hu consegue elaborar um estilo elegante, onde cada movimento é friamente calculado, um contraponto interessante ao estilo despretensioso do bêbado, que é tão competente, que consegue fingir que não há disciplina alguma.


4 – Cinzas do Passado (Dung che sai duk – 1994)
Esse foi melhorando com o tempo, acho que eu não tinha maturidade suficiente na estreia para absorver os temas abordados, estranhei as poucas cenas de lutas. Quando saiu a versão Redux, em 2008, foi como ver algo totalmente novo, compreendi a relação entre a vastidão dos cenários e a pequenez dos personagens. Wong Kar-Wai estabelece um clima tão hipnótico que a trama, seja ela qual for, não se torna relevante. Não pode ser reduzido a apenas um wuxia memorável, ele é um dos filmes mais bonitos de todos os tempos.


5 – Era Uma Vez na China (Wong Fei Hung – 1991)
Uma ótima introdução para o subgênero, já que mistura elementos dos wuxia com a ação menos fantasiosa e o senso de humor dos projetos mais populares de artes marciais. O diretor Tsui Hark, da geração que renovou o gênero no final da década de setenta, também entregou uma sequência tão boa quanto, mas o último projeto da trilogia é fraco. Jet Li vive o herói histórico que lutou para encontrar paz trilhando um caminho honrado em meio a um conflito entre culturas.


6 – O Tigre e o Dragão (Wo hu cang long – 2000)
Talvez seja o mais popular wuxia de nosso tempo, um projeto pensado para exportação, o seu sucesso de público e crítica foi avassalador, mas não apresentou grandes novidades para aqueles que já conheciam o subgênero. Ang Lee é um artesão minucioso, o que se reflete em cada cena. A trama de conceitos diluídos, um romance no diapasão ocidental, mas emoldurada com raro requinte. Vale destacar a química entre o trio de protagonistas: Michelle Yeoh, Chow Yun-Fat e Zhang Ziyi.


7 – O Clã das Adagas Voadoras (Shi mian mai fu – 2004)
O desfecho poderia ter sido mais bem pensado, prejudica o filme, mas a soma dos fortes méritos na condução de Zhang Yimou faz valer a experiência. Mais sentimental e romântico do que “Herói”, esse é o filme perfeito para apresentar o subgênero para aquela sua namorada que diz não suportar filmes de artes marciais. A sequência da batalha na floresta de bambu é impressionante, as lutas coreografadas por Ching Siu-Tung são inesquecíveis, intensamente criativas na utilização de elementos do cenário.


8 – A Tocha de Zen (Xia nu – 1971)
Esse clássico influente de King Hu fez história ao ser premiado em Cannes, um selo de prestígio que alçou o gênero ao patamar que merecia, mas a sua longa duração, mais de três horas, não ajudou no teste do tempo, percebi nessa revisão que a trama se arrasta em diversos momentos, com desajeitado equilíbrio entre a lenta primeira metade e o excesso de ação na segunda. Mas os seus pontos fortes, a fotografia que me remete ao “Kwaidan” de Kobayashi, o simbolismo dos valores budistas e a jornada espiritual representada nos confrontos do terceiro ato, compensam com folga os problemas.


9 - Dragon Gate Inn (Long men kezhan – 1967)
Mais um importante filme de King Hu na lista, cineasta que precisa ser resgatado pelas distribuidoras de nosso home vídeo, para que a nova geração não tenha que garimpar tanto quanto eu precisei na minha adolescência. Em essência, um filme de câmara, que tenho certeza que foi uma das inspirações mais fortes de Tarantino em seu recente “Os Oito Odiados”, com uma primeira hora brilhante, que se perde um pouco no segundo ato.


10 – The New One-Armed Swordsman (Xin du bi dao – 1971)
Por mais que seja importante valorizar o pioneirismo do original “One-Armed Swordsman”, de 1967, não consigo gostar do filme. Assim como Howard Hawks, que reutilizou a trama de “Rio Bravo” em mais dois projetos, o excelente diretor Chang Cheh consegue com essa reinvenção aprimorar todos os elementos já trabalhados no primeiro e no segundo, tendo com David Chiang um protagonista mais talentoso. Mas vale destacar que a obra não tem a elegância dos filmes já citados na lista, seguindo mais a pegada das produções de artes marciais dos Shaw Brothers, nem representa o que de melhor o diretor fez fora dos wuxia, como “Vingança”, “O Assassino de Shantung”, “Os Cinco Venenos de Shaolin” e “Shaolin Martial Arts”. 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sétima Arte em Cenas - "Um Dia, Um Gato", de Vojtech Jasný

Link para os textos do especial:


Um Dia, Um Gato (Az Prijde Kocour – 1963)
Essa joia tcheca pouco comentada, uma fábula infantil lírica com uma forte crítica comportamental, recebeu o prêmio especial do júri em Cannes. A trama é simples e brilhante. Um vilarejo, microcosmo para a nossa sociedade, recebe a visita de um mágico, uma bela jovem e seu gato de óculos escuros. Com poderes especiais, o felino vê os seres humanos com cores diferentes, de acordo com o caráter e os sentimentos deles, por exemplo, um casal de namorados em intensa cor vermelha, os hipócritas e mentirosos em roxo, resultando em um show de cores vibrantes que garantem ao filme uma estética verdadeiramente única, um tom antirrealista onde os personagens dançam sem música, um agradável sonho lúcido. É interessante constatar que os ilusionistas profissionais da trupe circense atuam exatamente retirando o véu de ilusão/falsidade que move os personagens, o que obviamente não os torna uma unanimidade em popularidade no local, já que o mero vislumbre do gato passa a incitar o pavor daqueles que, até por profissão, precisam defender mentiras. 

A cena que justifica a inclusão do filme nesse especial ocorre quando Diana, vivida pela encantadora Emília Vášáryová, retira os óculos do gato em um espetáculo noturno de magia, apresentando ao público, pela primeira vez, essa peculiaridade do animal. Mesmo sem saber o significado das cores diferentes, grande parte da população se desespera e corre para fugir do alcance dos pequeninos olhos. As crianças, puras, intocadas pela hipocrisia adulta, não se incomodam com esse fenômeno, assim como os avermelhados apaixonados, absortos em suas esperanças românticas. Enquanto os adultos caçam o gato, símbolo da queda de suas máscaras sociais, as crianças protegem o bichinho de todas as formas. Uma das alegorias mais bonitas da história do cinema, que nunca resvala no moralismo panfletário, estimulando uma profunda reflexão humanista. 

sábado, 7 de maio de 2016

Cine Samurai - "A Assassina", de Hou Hsien-Hsiao


A Assassina (Nie Yin niang - 2015)
Quando eu me lembro de “Barry Lyndon”, uma das obras-primas de Kubrick, as imagens se sobrepõem à trama, fortes e de uma beleza de se admirar de joelhos. O mesmo ocorre com “A Assassina”, preciosa incursão do taiwanês Hou Hsien-Hsiao no gênero wuxia, uma mistura de fantasia com artes marciais, subvertendo as expectativas de todos ao abraçar respeitosamente a tradição sem perder contato com seu estilo contemplativo.

A ação, quando ocorre, é abrupta, turva momentaneamente a água de um rio plácido, gestos rápidos e frios, anti-ação, porque o interesse do diretor está nos sentimentos dúbios que movem os personagens em seu cotidiano, não nos consequentes impulsos imediatistas. Os confrontos, doce ironia, são coerentes à realidade intensa desses guerreiros, altamente precisos e ágeis, sem a glamourização excessivamente elaborada, visando empolgação e não reflexão, que o cinema consagrou. Mas vale ressaltar que a narrativa não simplifica esses sentimentos com diálogos expositivos, o roteiro pede que o público absorva com dúvida a informação fornecida, já que as poucas palavras ditas parecem contrastar com o que nos transmitem os rostos enigmáticos, que lutam para encontrar alguma emoção possível em meio ao caos, um desconforto constante realçado na tensão criada pela impecável trilha sonora.

Essa escolha por superestimar o interesse do olhar do outro, como boa parte da crítica corrobora, resultou em um produto que será tido por muitos como insuportavelmente lento, especialmente aqueles que, estimulados pelo título e desconhecendo os trabalhos anteriores do diretor, esperam um convencional espetáculo de violência. O estudo dedicado sobre o período da dinastia Tang, pesquisa que se reflete na primorosa direção de arte fiel à arquitetura e ao estilo de vida, serve à adaptação do conto “Nie Yinniang”, de Pei Xing, como um estofo de realidade que inteligentemente evidencia ainda mais os elementos utópicos, com a fotografia de Ping Bin Lee, do inesquecível “Amor à Flor da Pele”, atuando em vários momentos de forma subjetiva, como se enxergasse o mundo pelos olhos da etérea protagonista, vivida por Shu Qi, uma assassina treinada para se misturar às sombras e se mover como o vento, metáfora visual executada com elegância, uma mulher consciente de que está se esvaindo existencialmente, consciente de que nunca terá o conforto de um lar, punida severamente por ter demonstrado piedade, punida por ser humana.

A câmera pacientemente esculpe o tempo, como nas obras de Tarkóvski, conduzindo o espectador a apreciar cada detalhe do enquadramento. Jogado sem muito cuidado em poucas salas de cinema brasileiras, entre tantas bobagens facilmente esquecíveis, esse filme será melhor servido pelo tempo, senhor da razão, uma obra-prima rara em nosso circuito. 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

"A Greve" e "O Encouraçado Potemkin", de Serguei M. Eisenstein

Link para os textos do especial sobre cinema mudo:


Em um dos textos de seu livro: “O Sentido do Filme”, Eisenstein define magistralmente a importância da montagem na linguagem cinematográfica. Mas antes de abordar isso, acho válido salientar que muitos apreciadores sequer conseguem diferenciar as palavras “edição” e “montagem”. E como esse entendimento é fundamental pra entender a posição de Eisenstein na história dessa arte, resgato aqui a explicação que escrevi em um texto antigo, intitulado: “A Engenharia da Emoção”. O diretor filma um longo diálogo entre dois atores num único ambiente, mas percebe que a mensagem já havia sido transmitida com eficiência no primeiro minuto. Ele então pede para cortar os minutos restantes, deixando apenas o desfecho, onde ambos se despedem. Na sala de edição, uma cena que duraria cinco minutos, acaba entrando no filme com apenas dois minutos. Já a montagem é uma técnica da edição, onde planos separados são reunidos em um sistema dinâmico, favorecendo a narrativa. Voltando à definição do mestre russo, ele evidencia que é natural da mente humana a automática sobreposição de imagens no dia a dia, buscamos figuras reconhecíveis em nuvens, rostos em formações rochosas. Caso te entreguem duas fotos distintas, um túmulo no cemitério e uma mulher vestida de negro chorando, você vai automaticamente pensar que é uma viúva a chorar a morte do marido. Isso não ocorre apenas com imagens, mas também com palavras. A montagem é a condução deliberada das associações do espectador. Eisenstein não estava interessado em adotar o sistema comum, na busca por um resultado coeso que respeitasse a continuidade lógica, ele explorou as possibilidades criativas da união de duas sequências na criação de um terceiro elemento novo e impactante. Numa analogia simples, ele pegaria as duas fotos já citadas e, por sobreposição, faria o espectador crer que a mulher de negro chora de dentro do túmulo, abrindo variações filosóficas mais interessantes do que se pensaria ser possível a princípio.


A Greve (Stachka – 1925)
“A Greve”, que considero superior ao mais famoso “O Encouraçado Potemkin”, apresenta um cineasta jovem iniciando com sangue nos olhos, disposto a experimentar suas ideias ao máximo, num projeto que foi encomendado como produto panfletário comunista, defendendo a cultura do proletariado na visão simplista do socialismo, sem tons de cinza, onde os patrões, gordos e esbanjadores, são sempre monstros insensíveis e cruéis que precisam ser abatidos. Assim como em “O Nascimento de Uma Nação”, pouco importa a discutível ideologia defendida, mas, sim, a eficácia da técnica e a fluência do produto final. Acho triste que essas obras acabem sendo reduzidas a material didático em faculdades de cinema, já que são grandes filmes que precisam ser sentidos e abraçados emocionalmente pelo público em geral, não apenas estudados minuciosamente em sala de aula. É de beleza sem igual uma cena que mostra três operários cruzando os braços, sobreposta à imagem de uma roda que para de girar. O pássaro que descansa no topo de uma chaminé de fábrica desativada, a natureza tomando de volta o que a ganância do homem havia dominado. Os cavaleiros da burguesia adentrando a vila dos operários, uma catarse de selvageria, enquanto duas crianças, a nova geração proletária, brincam com seus cavalinhos de pelúcia. Não dá pra imaginar o cinema de hoje sem a contribuição de Eisenstein. A intenção do choque, simbolizada na sequência final que relaciona o abate de um boi no matadouro à opressão contra os operários em greve, ainda mantém seu impacto revoltante hoje, mas posso imaginar a sensação que causou no público da época. Como peça de propaganda, o filme é imbatível, o intertítulo conclama o cidadão a lutar pelos seus direitos, o espectador saía da sessão trincando os dentes, desejando apenas o revide. É a expressão máxima do que o diretor chamava de "cine-punho", contrariando o passivo "cine-olho" de Dziga Vertov.


O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin – 1925)
Sempre lembrado pela sequência genial do massacre na escadaria de Odessa, imagens que inspiraram trabalhos do pintor Francis Bacon, a hierarquia onde o povo se coloca em superioridade numérica saudando a revolução dos marujos rebeldes, atitude corajosa que conduz à criança que morre pisoteada pela multidão e o carrinho de bebê que despenca sem rumo, símbolos máximos na ideologia defendida pela obra do desamparo da nova geração caso o proletariado perca a batalha contra os monstros burgueses, nesse filme encontramos um Eisenstein mais discreto em suas experimentações, com exceção de uma montagem satírica próxima ao final, mostrando a estátua do leão que guarda a casa de ópera assustado com os tiros de canhões do encouraçado em revide aos assassinatos. O nível de tensão em vários momentos se mantém eficiente hoje, a comprovação da competência do diretor. Um prato de sopa causa o motim, mas também possibilita a motivação necessária para que o povo tome conhecimento do problema e abrace a causa, o que ocorre na bela sequência que mostra os marujos recebendo com alegria o carinho dos populares, que em barcos vão ao encontro deles. A produção foi encomendada como forma de celebrar o aniversário de vinte anos da revolta do Potemkin, evocando na cena final a camaradagem entre marinheiros de toda a frota que permitiu que o navio de guerra seguisse seu curso sem precisar utilizar seus canhões. Assim como em "A Greve", ele funciona impecavelmente naquilo que se propõe, incitar no espectador o desejo raivoso do revide. E, exatamente por isso, essas obras foram consideradas perigosas a ponto de serem banidas em seu tempo. 

A Seguir: “Ivan, O Terrível – Partes 1 e 2”.