quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"A Paixão de Joana D'Arc", de Carl T. Dreyer


A Paixão de Joana D’Arc (La Passion de Jeanne d'Arc – 1928)
Creio que poucos títulos da era muda tenham sobrevivido tão bem ao teste do tempo quanto essa obra-prima de Dreyer, retratando toda a tensão das últimas horas de vida da militar francesa. A opção inteligente de filmar os rostos de perto, sem maquiagem, em ângulos desconcertantes, tendo ao fundo paredes brancas, propositalmente destacando sobremaneira cada vinco, cada verruga, até mesmo os sutis e tão significativos desvios de olhar dos algozes, captando o sorriso orgulhoso de anciões que conspiram com prazer sádico, enquanto a jovem vítima sente nos lábios ressecados o sal amargo de suas lágrimas. A atuação de Maria Falconetti é usualmente citada como a melhor já registrada pelas lentes do cinema, ela consegue transmitir nuances de emoções com um simples meneio de cabeça, você sofre com seu martírio ainda que nenhuma informação tenha sido passada sobre os acontecimentos anteriores à sua captura pelos ingleses, o que é um tremendo mérito. 

A câmera, quando atua como os olhos da protagonista, por várias vezes encara o espaço vazio acima dos juízes, seus rostos cortados no enquadramento, enfatizando a irrelevância daqueles tolos diante de sua crença. A objetividade quase documental nas sequências do julgamento ganha contornos metafóricos de muita sensibilidade, como na cena em que ela, já sendo amarrada ao poste para ser queimada, percebe que a corda desliza de seu braço e cai no chão, o que a faz se abaixar e pegar de volta a peça que garantia o seu sacrifício, para a incredulidade do homem que executava o serviço. A morte é a liberdade do justo em uma realidade dominada por desonestos. A câmera faz questão nesses momentos finais de manter sempre no horizonte o símbolo da hipocrisia, a cruz no topo da igreja. Joana outrora havia se emocionado ao enxergar a figura geométrica na sombra das vigas de sua cela, ela entra em desespero ao ser afastada do objeto que representa sua crença religiosa, mas o espectador é levado pelo diretor a refletir além da imediata empatia, através dos enquadramentos utilizados, evidenciando o templo como testemunha imponente do sofrimento, a mesma cruz na cena atuando como fagulha de esperança e juiz impiedoso alicerçado na mentira.

É impressionante o impacto da sequência em que ela é levada para a sala de tortura, uma adolescente analfabeta de origem camponesa cercada por variados instrumentos de dor e humilhação, mas que é capaz de encontrar refúgio para minimizar a angústia em suas inabaláveis convicções, e, por conseguinte, amedronta os covardes, negando aos seus carrascos a satisfação de sua submissão.






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, numa versão definitiva com opção em 20 e 24 quadros por segundo, além de um excelente documentário sobre o diretor e uma entrevista com a filha da atriz.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

TOP - Filmes dos Trapalhões


1 - Os Trapalhões no Auto da Compadecida – 1987
Impecável tecnicamente, direção de Roberto Farias, essa continua sendo a melhor adaptação cinematográfica da obra de Ariano Suassuna. João Grilo e Chicó são enriquecidos pelas personalidades de Didi e Dedé, amparados por um elenco refinado. Um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos.


2 - Os Saltimbancos Trapalhões – 1981
Adotando a estrutura de um musical, vale ressaltar a habilidade do roteiro em não descaracterizar os personagens. Como ousado pano de fundo, a bela mensagem dos artistas reunidos como valente oposição aos desmandos de um ditador, elemento que engrandece o desfecho com um simbolismo emocionante.


3 - Cinderelo Trapalhão – 1979
É um simples conto de moralidade bastante eficiente, temperado com a riqueza da cultura circense, representada nos primeiros vinte minutos, feitos quase sem diálogos, focados em peripécias do grupo inseridas coerentemente no contexto da trama. Sobra espaço até para Aragão emular Cantinflas.


4 - O Casamento dos Trapalhões - 1988
A direção de José Alvarenga Jr. estabelece com naturalidade um clima menos formal do que era comum nos filmes do quarteto. Essa irresponsabilidade criativa, altamente técnica, inseriu com relevância na trama as necessidades mercadológicas: product placement e a participação da banda Dominó.


5 - O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão – 1977
Sem Zacarias, mas já tendo encontrado o equilíbrio perfeito entre aventura, humor e drama, o diretor J.B. Tanko aprimora a fórmula de sucesso, com compreensão plena dos anseios de seu público-alvo infantil, com o roteiro misturando culturas nacionais e estrangeiras como bem fazia Monteiro Lobato. 





* Matéria escrita para a revista "Preview", edição 81, de Junho/2016. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Faces do Medo - "A Mosca", de David Cronenberg

Link para os textos do especial:


A Mosca (The Fly – 1986)
Como agradeço hoje aos meus pais por não terem me criado, quando criança, afastado dos filmes de terror. Sempre me ensinavam que aquilo era tudo maquiagem e truques, o horror não era real, simples lições que todos os pais deveriam legar aos filhos. Eu vi “A Mosca” pela primeira vez aos cinco anos, mas poderia dizer que não vi, já que passava a maior parte do tempo com os olhos fechados. Perguntava pra minha mãe: “Já passou a cena?”. Se ela dissesse que sim, somente então eu abriria os olhos. Era medo misturado às gargalhadas que dávamos, com cada imagem medonha que aparecia subitamente na telinha. Depois de várias reprises foi que consegui realmente assistir ao filme. Mas eu me recordo vividamente o quanto me perturbava, nos anos seguintes, durante boa parte da minha adolescência, ligar a televisão de madrugada e dar de cara com o Jeff Goldblum. Esse é um dos poucos filmes do gênero que estabelecem o tom de angústia logo nos créditos iniciais, com a ajuda da trilha incrível do Howard Shore, você se sente impelido emocionalmente a desligar a televisão pelo desconforto que sabe que irá sentir, acho que só “O Exorcista” pode ser comparado nesse quesito. David Cronenberg é o responsável por essa refilmagem que é superior em todos os aspectos ao original, “A Mosca da Cabeça Branca”, de 1958.

A degeneração do corpo, única certeza humana, a consciência da finitude, o morrer um pouco a cada dia, conceitos que são incorporados metaforicamente na trama. Seth Brundle, com a racionalidade típica do cientista, conclui já em estado avançado de transformação que é um inseto que sonhou ser homem, no desespero pra não perder sua sanidade, abdicou de sua condição como homo sapiens na busca por encontrar alguma lógica em sua experiência. O seu guarda-roupa evidencia o desinteresse prévio pelos rituais de convívio social, várias camisas e calças idênticas, ele valoriza o intelecto, aquilo que não se pode exibir facilmente. Como deve ser desanimador para alguém assim ter consciência plena do natural desgaste físico e mental. Ao sentir os efeitos iniciais da sua fusão com a indesejada mosca na máquina de teletransporte, maior força muscular, maior resistência, ele euforicamente toca a possibilidade de, como cientista, entregar ao mundo a resposta definitiva contra as limitações corpóreas. O que era uma tentativa de conquistar glória profissional com o teletransporte acabou se tornando uma realização pessoal, a arrogância emotiva sobrepujou a racionalidade do estudante dedicado. O motivo que o fez se precipitar e que causou o problema foi o ciúme que ele sentiu pela namorada jornalista, vivida por Geena Davis, quando descobriu que ela estava mantendo um relacionamento com o seu editor. Uma atitude impulsiva enquanto estava bêbado, ser cobaia em seu experimento, aliada a uma situação inesperada, a entrada da mosca na máquina, uma equação nascida da negação de sua personalidade e que, como revide da natureza, resultou em tragédia.

Um momento especialmente comovente ocorre no terceiro ato, com a subtrama da gravidez da jornalista. Ela teme o ser que está se formando em sua barriga, em seus pesadelos ela dá vida a um monstro, mas encontra a resistência de Brundle ao optar pelo aborto, ele enxerga no bebê o seu único legado, a lembrança do que ele um dia representou. O bebê terá chance de nascer? O filme inteligentemente não entrega ao espectador essa resposta, algo que foi equivocadamente destruído com a tola sequência. A lenta transição de Brundle para Brundlemosca, com o devido mérito à equipe de efeitos de Chris Walas, coloca o personagem em confronto com elementos orgânicos naturais, como o vômito e o suor, que são reprimidos ou minimizados nos rituais sociais, rejeitados pelo verniz de ilusória elegância que segrega seres biologicamente idênticos. Ele, que até então desprezava o corpo e valorizava apenas a mente, passa então a se orgulhar da complexidade de sua composição física, chegando a depositar suas orelhas e unhas perdidas na metamorfose em uma espécie de altar, o que ele chama de “Museu de História Natural de Seth Brundle”. Como alguém que vivencia prematuramente a velhice, ele sofre por se manter lúcido e mentalmente ágil, mas preso em uma matéria que se decompõe rapidamente. Essa é a metáfora do roteiro, o real terror que todos nós, com sorte, iremos um dia conhecer. Por mais que lutemos para manter nossas mentes ativas, estamos condenados à degradação do corpo. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Ave, César!", de Joel e Ethan Coen


Ave, César! (Hail, Caesar! - 2016)
Livros como “Moviola”, de Garson Kanin, e “Fedora”, de Thomas Tryon, conduziam o leitor para as engrenagens da indústria cinematográfica norte-americana da era de ouro dos grandes estúdios, desconstruindo habilmente a fábrica de mitos. Com “Ave, César!”, os irmãos Coen arriscaram esse mesmo nicho de público, aqueles cinéfilos dedicados com estofo cultural no tema, conscientes de que muitos espectadores poderiam se sentir como penetras em uma festa de desconhecidos. Essa coragem autoral, desestimulada naturalmente pelas exigências de mercado, confirma a importância dessa dupla no cenário atual pós-apocalíptico de baixa criatividade em Hollywood. O roteiro é ambientado na década de cinquenta, período fascinante em que a teatralidade dominava todos os setores da sociedade, traçando um paralelo inteligente dessa realidade com o elemento essencial da glorificada farsa exibida na tela grande da sala escura.

O espetáculo dos épicos bíblicos, recurso mais eficiente dos produtores da época na tentativa de retirar jovens e adultos da frente dos televisores, coerentemente toma papel de destaque na trama, com a simbologia do subtítulo: “Um Conto de Cristo”, copiado de “Ben-Hur”, representando a alienação ideológica daqueles que movimentam financeiramente o negócio. Ao comandar uma reunião em seu escritório com dignitários de várias vertentes religiosas, estranhos sem autoridade naquele templo, para checar se estão sendo respeitados os aspectos teológicos da obra, o esforçado executivo não consegue esconder a estupefação, os líderes se mostram incapazes de chegar a um acordo sobre os detalhes mais simples a respeito da figura de Jesus. As discordâncias são radicais, o tom das vozes aumenta exponencialmente na discussão dominada por frases feitas e conceitos memorizados, fica evidente que estamos diante de personagens tão caricatos quanto os que nascem das mentes dos roteiristas. A teatralidade no sistema religioso retorna nos encontros do executivo com o padre na cabine de confissão, na forma displicente com que o sacerdote redime os pecados ministrando “quatro Ave-Marias”, como doses de um placebo homeopático.

A doçura sorridente que a nadadora exibe em suas coreografias aquáticas que encantam as famílias, símbolo de inocência comercializada, ilusão que se desfaz após a filmagem ser interrompida, revelando uma personalidade grosseira, uma atriz cínica que esconde a gravidez com a ajuda do estúdio por não saber quem é o pai. A teatralidade que forja imagens mentirosas alimentadas pela indústria da fama, representada pelas gêmeas jornalistas que disputam o furo da notícia. Ao fazer delas irmãs idênticas, o roteiro evidencia a ausência de escrúpulos que move essa atividade. O sequestro do ator veterano pelo grupo de roteiristas comunistas, confortáveis em um salão elegante, ressaltando a teatralidade política, a farsa de um movimento que utiliza o proletariado como bengala até conquistar o poder. Um deles é encontrado dormindo ao tentar ler uma revista intitulada: “Vida Soviética”. A paranoia que possibilitou o macarthismo é trabalhada também na absurda sequência do submarino, uma solução visual divertida para mostrar como era ingênua a forma de pensar do povo, amedrontado por uma ameaça tão teatral quanto aquela lua pintada no cenário do filme do vaqueiro cantor, ou a antinatural dança dos marinheiros sobre as mesas do bar. A vida real é fundamentada em fantasias tão impressionantes quanto as mirabolantes ideias que movimentam a indústria de cinema. 

* Texto escrito para o catálogo da Retrospectiva "Irmãos Coen - Duas Mentes Brilhantes", exibida de 16 a 31 de Agosto de 2016, no Cine Sesc Palladium, em Minas Gerais.

Edgar Allan Poe no Cinema


Dois Olhos Satânicos (Due Occhi Diabolici / Two Evil Eyes – 1990)
Pensado originalmente como uma antologia de quatro contos, o projeto acabou reduzido às excelentes contribuições de Dario Argento e George Romero, mestres no gênero de estilos bem diferentes. Em sua versão de “O Gato Negro”, melhor segmento do projeto, Argento utiliza elementos de outros contos de Poe, como “Berenice” e “O Poço e o Pêndulo”, demonstrando o seu respeito pela obra do autor, com destaque para uma atuação impecável de Harvey Keitel e a intensa criatividade cênica usual na carreira do italiano. Romero utiliza “O Estranho Caso do Senhor Valdemar” como moldura para trabalhar seu tema favorito, o ataque ao capitalismo, sendo ajudado pela competência nos efeitos de Tom Savini, elemento que garante o alto nível de uma produção que teve vários problemas de orçamento.


Histórias Extraordinárias (Histoires Extraordinaires – 1968)
É muito curioso que dos três contos utilizados no filme, aquele que no papel é o menos interessante, “Nunca Aposte Sua Cabeça Com o Diabo”, um desabafo literário do autor contra os analistas que procuravam lições de moral em suas histórias, acabou sendo o grande destaque, sem dúvida, a razão do filme ainda ser lembrado hoje. O mérito é do mestre Federico Fellini, auxiliado pela trilha maravilhosa de Nino Rota, que entende a essência corajosa do original e faz de “Toby Dammit” uma crítica à cultura da fama emoldurada em um perturbador pesadelo metalinguístico. Roger Vadim, que dirige o primeiro segmento da antologia, conseguiu retirar o impacto visual estimulado pelas palavras de Poe em “Metzengerstein”, reduzindo tudo à sua especialidade: fotografar belas mulheres intensamente sexualizadas. Jane Fonda está deslumbrante, mas o resultado salienta os aspectos negativos de um cineasta que parece tocar na câmera com a destreza de um chimpanzé tocando violino. Já o segundo segmento, “William Wilson”, adaptando a boa história do duplo, apresenta um Louis Malle mais contido, visivelmente inseguro em um terreno desconhecido, mas ganha pontos pela atuação irrepreensível de um paranoico Alain Delon. Ao sermos conduzidos para o último segmento, parece que estamos vendo um curta moderno que foi inserido em uma produção datada, o impacto é tremendo, do estilo visceral na atuação de Terence Stamp, passando pela direção de arte surrealista, até a esperta homenagem a Mario Bava na personificação do demônio na forma da menina loira de “O Ciclo do Pavor”. Fellini firma seu traço autoral na trama, mostrando que só não se tornou um cineasta reconhecido no gênero do terror porque não quis. O purgatório do ator britânico vivido por Stamp é o falso paparico dos repórteres em sua viagem à Itália para promover um novo projeto, o palco excessivamente iluminado que divide espaço com a extrema pobreza, cenário onde todos estão sempre maquiados e com sorrisos mecânicos, figuras vazias, caricaturas deprimentes de sombras que o cortejam em seu caminho para o inferno.


O Corvo (The Raven – 1963)
Ao apostar no humor como tom dominante para o filme, Roger Corman criou uma pérola que se distancia dos outros projetos do ciclo da AIP, utilizando o melancólico poema de Poe como espirituosa desculpa para colocar em cena medalhões como Vincent Price, Boris Karloff e, como a própria ave do título, Peter Lorre, protagonizando o mais divertido duelo de magos da história do cinema. Até mesmo os efeitos visuais trabalhados com o baixo orçamento mantém um charme fascinante, algo que nos remete aos livros de fantasia que líamos na infância. Vale destacar o hilário relacionamento do personagem de Lorre com o filho, vivido por Jack Nicholson, um jovem que o idolatra, mas que recebe como resposta apenas grosseria. O roteiro de Richard Matheson explora todas as possibilidades cômicas, forçando a mão algumas vezes, mas sempre amparado pelo carisma matador de Price. Ainda que muitos críticos avaliem negativamente o clima da obra, o despojamento aparente na leveza das cenas é o símbolo máximo da competência do diretor, já que o mais difícil é fazer com que a superação diária de obstáculos no set de filmagem não transpareça para o espectador, encantado com a naturalidade do elenco no que parece ser uma festa entre amigos de longa data.


Gato Negro (Gatto Nero – 1981)
Um projeto despretensioso feito como um favor de Lucio Fulci ao produtor Giulio Sbarigi, com fantásticas cenas de gore envolvendo chamas e objetos pontiagudos, abusando dos seus característicos planos de detalhe nos olhos, mas com um cuidado maior na construção de clima em um cenário bucólico inglês, resultando em um verniz mais elegante do que o diretor costumava apresentar à época. A trilha de Pino Donaggio ajuda a reforçar o tom sobrenatural e a tristeza da sina de um amaldiçoado, preenchendo as lacunas usuais dos roteiros de seus filmes. O conto é o mais famoso de Poe, tem um final inesquecível e já foi inspiração para vários projetos, como “No Quarto Escuro de Satã”, de Sergio Martino, que a Versátil está lançando na caixa “Giallo, Vol. 3”, até Mario Bava bebeu dessa fonte em seu “Schock”. Vale comparar a versão de Fulci com a comandada por Dario Argento em “Dois Olhos Satânicos”, presente na caixa. 






* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora Versátil, com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, no digistack "Edgar Allan Poe no Cinema, Vol. 2", em parceria exclusiva com a Livraria Cultura. 


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Cine Bueller - "Rompendo Correntes", de Oz Scott

Link para os textos do especial:


Rompendo Correntes (Bustin’ Loose – 1981)
Joe é um motorista atrapalhado convocado a dirigir para crianças de um centro especializado em menores problemáticos, como forma de amenizar seu problema com a justiça. Ao receber a missão, o motorista não gosta nem do ônibus velho, nem das crianças. Com o tempo, no entanto, aprenderá a apreciar a ambos.

Richard Pryor foi um dos melhores comediantes norte-americanos, muito pouco lembrado pelos brasileiros, alguém que conseguiu moldar seu estilo indomável no palco para a comportada câmera de cinema. A parceria com Gene Wilder rendeu pérolas como “O Expresso de Chicago”, “Loucos de Dar Nó” e “Cegos, Surdos e Loucos”, mas o filme que resgato nesse texto me conduz diretamente à minha adolescência, ele era presença frequente na sessão vespertina do “Cinema em Casa”, do SBT. 

Em uma entrevista para Bill Boggs, disponível no Youtube, ele dá uma declaração corajosa sobre a questão do racismo: “Faz parte do capitalismo promover o racismo, porque isso separa as pessoas. Quando as pessoas não se odeiam, então elas começam a interagir, o que as faz descobrir o real problema: pessoas gananciosas”. Uma das cenas mais interessantes do filme aborda o tema, o momento em que o protagonista acaba se infiltrando sem perceber em uma caminhada noturna de um grupo da Ku Klux Klan, uma sequência tão visualmente impactante que foi utilizada no pôster. O ator enfrentava a depressão com sua arte nos palcos, mas durante as filmagens ele tentou o suicídio, ateando fogo em seu corpo e correndo pela rua. Socorrido, retornou meses depois para terminar a obra. 

Gosto das canções compostas pela Roberta Flack, “Children’s Song” e “Just When I Needed You”, ajudam a dar o tom esperançoso e humanista do projeto. Mas vale ressaltar a ousadia de certas escolhas do roteiro, como quando o personagem de Pryor estapeia o menino rebelde, ensinando que ele não deve se vitimizar, um leitmotiv que se repete na sequência emocionante onde ele afirma de forma contundente para as crianças que elas não são perdedoras. O sentimento de desprezo pela função vai gradualmente sendo substituído pela certeza de que aquela é uma missão de redenção, o encorajamento na cena é direcionado na realidade para a sua própria criança interior, o que ganha um contorno ainda mais emotivo ao percebermos que a história foi escrita pelo ator, que também exerce pela primeira vez o cargo de produtor pleno. Oz Scott pode ser o diretor, mas é o coração de Pryor que escutamos batendo em cada minuto da sessão. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A ressaca coletiva após a ilusão olímpica

A festa acabou e os visitantes estrangeiros estão se preparando pro retorno às suas nações, o impressionante reforço policial que garantiu a segurança nos locais tocados pelo evento vai se despedir também da noite para o dia, toda a maquiagem cara já começou a borrar com a chuva, os fogos de artifício no estádio iluminaram ruas da região que estavam sem luz devido aos ventos fortes. As vaias constantes do público aos adversários nas competições são o símbolo do baixo nível educacional e da hipocrisia nacional, vendemos bem a imagem da cordialidade conveniente, mais folclórica do que real.

"Sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor". Patriotas barulhentos que molham a bandeira de lágrimas na hora de cantar o hino, mas que preferem passar as férias no exterior. E não os culpo, todo indivíduo precisa buscar sempre as melhores condições de vida, assim como muitos dos nossos atletas, que, no desejo de alcançar um nível competitivo, precisaram buscar no exterior o aprimoramento de suas habilidades. O Brasil está longe de ser uma potência olímpica, mas é essencial que cada bravo e desamparado atleta brasileiro seja muito respeitado, todos batalharam além de suas limitações, todos são vencedores, medalhistas ou não, apesar de estarem inseridos em um sistema que nunca os valorizou.

Atletas, professores, policiais e médicos, a lista de profissionais vergonhosamente desvalorizados por aqui é longa. Sem salários, sem condições dignas de trabalhar, qual será o impacto do "legado olímpico" pra esses elementos fundamentais da sociedade? Sabemos bem o que acontece com arenas esportivas depois que os holofotes da imprensa mundial são apagados, elefantes brancos mantidos a um custo absurdo, em uma nação que não oferece mínima qualidade em serviços básicos para aqueles que pagam altos impostos. Acho curioso que a festa bonita e o desempenho dos atletas tenham surtido o acachapante efeito do orgulho nacional em muitos brasileiros, algo que provavelmente será esquecido na dura ressaca coletiva, o choque de realidade que já se faz visível no horizonte.

Foi agradável ser respeitado como cidadão durante esses dezesseis dias? Sem dúvida! Caminhei pelas ruas do meu bairro sem medo de ser assaltado, policiamento até de madrugada, tipo aquela amostra grátis de um perfume caro que você nunca vai conseguir comprar. É muito bom até a última gota. Agora bate a tristeza profunda, o justo sentimento de revolta, o desespero ao constatar que não há sequer uma réstia de luz no fim do túnel, não há opções válidas na política, apenas a certeza de que o prejuízo olímpico vai pesar bastante nos bolsos de todos os brasileiros. Há esperança, tenho absoluta certeza, mas ela não está nas mãos dos bobos alegres. Esses se satisfazem com a usual política do "pão e circo", claro, enquanto tiverem oportunidade de comprar as bugigangas mais baratas lá fora, ou enquanto enxergam a nação através das janelas de seus condomínios de luxo. A esperança reside naqueles que encaram o precipício e se recusam a sorrir para o abismo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O cinema como recurso educacional


Um dos erros mais terríveis que um professor pode cometer é subestimar seus alunos. Sei que hoje em dia o ambiente escolar é bem diferente do que eu vivi outrora, os pais omissos acreditam que é dever exclusivo do estabelecimento educar as crianças, pequenos delinquentes que só faltam bater nos mestres, sem qualquer respeito pela figura de autoridade. Mas eu creio estar escrevendo agora para jovens muito bem educados e pais presentes e responsáveis. Quando eu era pré-adolescente, a minha escola indicava a leitura de obras tematicamente pouco interessantes, aquelas histórias genéricas que vinham com a faixa etária do leitor indicada na capa. Eu estava acostumado a tentar decifrar os mistérios da Agatha Christie no sofá de casa, aquelas aventuras bobinhas eu lia em um par de horas, apenas pra fazer os exercícios. Então eu compreendia a reação sonolenta de meus colegas de classe que não utilizavam livro sequer como aparador de porta. Se o objetivo da escola era incentivar o hábito da leitura, estavam falhando miseravelmente. O mesmo ocorria com relação ao uso do cinema em sala de aula.

Eu entendo que uma escola não pode arcar com um profissional responsável pela curadoria cinematográfica, mas bastaria bom senso e um mínimo de empatia para perceber que mostrar um filme nacional ruim sobre a época do Brasil colonial para uma turma de crianças não era uma boa ideia. Se eu já não fosse apaixonado por filmes, desde que conheci “Ben-Hur” aos quatro anos, em VHS, provavelmente aquelas sessões escolares teriam me traumatizado para o resto da vida. Esses erros ocorrem porque a criança usualmente é vista pela escola como uma caricatura estereotipada, padronizada, ao invés de um jovem adulto em formação. Eu tive a sorte de ter um professor rebelde e conhecer em uma dessas sessões o trabalho anárquico do Monty Python. Quem me apresentou esse grupo inglês foi Luís Felipe, meu professor de História em um colégio de freiras, um herói que ludibriou a supervisora dizendo que “A Vida de Brian” tinha bonitas mensagens católicas. Ele ensinou, com essa atitude, que o cabresto nunca é uma opção válida. Até hoje eu me recordo da gargalhada coletiva da turma em vários momentos do filme, enquanto as freiras vigiavam do lado de fora da sala, tentando entender o motivo de tanta alegria, afinal, nunca havíamos nos comportado assim nas exibições usuais de filmes religiosos e do Telecurso.

Tudo o que aprendemos nas salas de aula, as informações que memorizamos para tirar boas notas em todas as matérias, nada disso ajuda a formar um bom caráter. A aluna mais inteligente da turma, aquela que se força a acertar sempre todas as questões das provas, pode ser um monstro dentro de casa, ignorando sua empregada doméstica e tratando os pais como lixo. O rapaz que passou no vestibular com louvor e está sendo aplaudido pela família por ter escolhido a faculdade de Direito, pode estar interessado apenas em aprender maneiras rentáveis e legais de passar a perna nos outros. Uma dica para os pais: Não se preocupem tanto com as notas de seus filhos na escola, incentivem neles desde criança o hábito da leitura e o amor pelos filmes. Apenas o interesse pelo garimpo cultural realmente forja o caráter e os valores de um indivíduo. O cinema é uma ferramenta importantíssima na educação escolar, como irei abordar de forma didática abaixo:

- Apresente para a turma duas versões cinematográficas para uma mesma história, por exemplo, “O Conde de Monte Cristo” de 1975 e 2002. E, ainda melhor, complemente indicando a leitura da obra original de Alexandre Dumas, pai. A trama de vingança será devorada pelas crianças, uma aventura que eles nunca irão esquecer. Apresente também versões em quadrinhos. E estimule o debate sobre as diferenças que eles notaram entre as duas versões, quais aspectos foram mais bem trabalhados em cada adaptação, o que poderia ter sido mais fiel ao livro, ou se a opção pela liberdade poética foi um acerto do filme. O cinema ajuda a despertar o senso crítico do aluno.

- Ao invés do professor de História estimular a memorização de perguntas e respostas, que ele desperte no aluno o real interesse pelo assunto abordado. E qual a melhor forma de conseguir isso? Indicando como dever de casa uma sessão de um filme que aborde o tema. Se o tema é a Segunda Guerra Mundial, prepare um debate na semana seguinte sobre a experiência dos alunos com “A Noviça Rebelde”, “A Lista de Schindler”, “O Pianista” e “Cemitério dos Vagalumes”. Quatro produções que abordam o tema de maneiras completamente diferentes, com estilos distintos: musical, drama e animação. O cinema ajuda a despertar a empatia do aluno pelo tema abordado na matéria.

Você não precisa ser analista do comportamento humano para constatar que a situação atual da educação no Brasil está vergonhosa. É o momento exato pra que a zona de conforto educacional seja abalada positivamente por um ímpeto criativo ousado. Que os professores de amanhã entendam que o mais importante é ajudar na formação de bons caracteres, indivíduos que verdadeiramente tenham sido incentivados corajosamente a romper moldes, na busca pelo aperfeiçoamento constante. São esses jovens de amanhã que irão fazer dessa nação uma terra digna em que o orgulho ufanista seja uma realidade tangível, não uma série de discursos vazios. A raiz do problema está na base educacional. O cinema pode ajudar...

terça-feira, 16 de agosto de 2016

"De Vento em Popa", de Carlos Manga


De Vento em Popa (1957)
Num transatlântico, Chico (Oscarito), um falso taifeiro e Mara (Sonia Mamede), sua parceira numa dupla sertaneja, querem participar de um show a bordo. O show é promovido por Sérgio (Cyll Farney), que volta dos Estados Unidos onde fora estudar energia nuclear a mando do pai, mas que acabou se interessando mesmo em aprender bateria e música popular. Seu sonho: montar uma boate. Tentando iludir o pai e realizar seu sonho, Sérgio convence Chico a se passar por um famoso professor de energia nuclear, e Mara, sua assistente. 

“De Vento em Popa”, dirigido por Carlos Manga, não é simplesmente a melhor produção da Atlântida, eu o considero um dos melhores filmes nacionais de todos os tempos e uma das melhores comédias musicais da história do cinema. É uma pena que nossa indústria não valorize a memória, pois tenho certeza que se esse trabalho fosse restaurado iria cair nos braços do público jovem atual. A imagem e, principalmente, o som, muito ruins da cópia que é comercializada, comprovam o descaso vergonhoso da nação com a própria cultura. Muitos celebram a parceria entre Oscarito e Grande Otelo, mas creio que não supera a química entre Oscarito e Sonia Mamede. O que me impressiona na trama é como ela utiliza diversas vertentes cômicas com a mesma eficiência, trabalhando o leitmotiv do contraste entre o erudito e o popular, algo que já se mostra presente na trilha sonora dos créditos iniciais, alternando um estilo clássico instrumental com o samba mais despretensioso. De maneira didática, exemplifico abaixo com sete variações:

1) Humor que interage entre cenas pela edição: A montagem em que Dóris Monteiro se olha no espelho e se sente feia, que segue para a cena em que um avaliador constata a necessidade de reparos no local da festa (“realmente está um pouco maltratada”).

2) Humor na subversão de construção de personagem: Sonia Mamede discute com o pianista italiano na língua dele, surpreendendo o arrogante maestro. O roteiro subverte o tipo caricatural nordestino que havia sido estabelecido desde a apresentação dela como clandestina no navio. E, na mesma cena, logo depois de Monteiro cantar “Chove Lá Fora”, Mamede retoma o sotaque carregado com um hilário elogio: “Até que tu tem um gargarejo positivo”.

3) Humor como elemento crítico: A empregada da mansão argumentando sobre o que é uma entrevista jornalística (“Entrevista? Entrevista é tudo aquilo que a gente diz e não sai publicado”).

4) Humor físico: A empregada bêbada chocando a famosa cantora lírica, vivida por Zezé Macedo, lutando para se manter de pé. Gag similar seria vista anos depois em “Um Convidado Bem Trapalhão”, de Blake Edwards, e até no francês “A Gaiola das Loucas”, de Édouard Molinaro.

5) Humor silencioso: Sequência genial entre Oscarito e Zezé Macedo, ignorando que dividem o mesmo quarto. A brilhante execução me remete à clássica cena do espelho humano em “O Diabo a Quatro”, dos Irmãos Marx.

6) Humor puramente verbal: O roteiro entrega uma cacofonia de tom popular, vulgar, como “O álbum da minha vida”, mas também brinca superestimando o público, uma piada que valoriza o estofo cultural, como quando Macedo aborda sua experiência na ópera “La Traviata”: ‘Que tuberculosa linda que eu fiz!”. O público de hoje provavelmente não compreenderia essa piada.

7) Humor musical: A letra de “Mocinho Bonito”, cantada por Monteiro, aborda com humor a hipocrisia dos que tentam se passar por cultos, elegantes, construindo uma fachada frágil, um verniz que se desfaz ao primeiro sinal de confronto intelectual. A música encerra o arco narrativo dos personagens, dando lugar na sequência para o grand finale, a apresentação de Oscarito como Melvis Prestes, paródia impagável do rei do rock norte-americano, cantando “Calypso Rock”. Ao optar inteligentemente por não forçar a mão na caricatura, solicitando que Carlos Imperial ensinasse ao ator os movimentos da dança, Manga entrega um retrato fiel da explosão do gênero na década de cinquenta, com a câmera acompanhando os passos frenéticos de Mamede e Oscarito, com direito a bola de chiclete e muitas piruetas. Elvis uniu o erudito e o popular, ninguém melhor que ele pra ser homenageado nesse desfecho. 

Ao contrário de muitas produções nacionais da época, todas as músicas são excelentes e são muito bem inseridas na trama. Perceba a beleza na fotografia elegante da sequência romântica à meia-luz, ao som de "Dó Ré Mi", de Fernando César, entoada delicadamente por Dóris Monteiro acompanhada ao piano por Cyll Farney. É o momento mais bonito já capturado nas produções da Atlântida. Oscarito e Mamede dão show de carisma em "Tem Que Rebolar" e "O Delegado no Coco". Para finalizar, ouso dizer que nenhum filme do Cinema Novo conseguiu exibir, de forma tão ousada e, acima de tudo, eficaz, críticas sociais como as propostas por Manga nessa comédia popular. Oscarito cofiando sua barba feita de pelo de rabo de cachorro, mantendo seu disfarce de cientista aristocrático, acerta o alvo com mais pungência do que todos os exercícios umbilicais dos diretores nacionais usualmente mimados pelos pseudointelectuais. 

domingo, 14 de agosto de 2016

"Taxi Driver", de Martin Scorsese


Taxi Driver (1976)
Inspirado por “O Diário de Um Padre”, de Bresson, o roteirista Paul Schrader evoca o tema do homem esforçado que lida com o fracasso em um cenário hostil nessa obra-prima dirigida por Martin Scorsese. Travis Bickle, vivido brilhantemente por Robert De Niro, quer se misturar aos elegantes cidadãos que utilizam diariamente seu trabalho como motorista de táxi nas madrugadas, como ele mesmo afirma, quer ser exatamente como aqueles estranhos que analisa minuciosamente pelo espelho retrovisor e pela janela, mas nunca se interessou por cultura, despreza os livros, típico analfabeto funcional, uma ignorância que alimentou o machismo e o racismo que já se faziam presentes em sua personalidade.

Sem noção alguma de elegância, carrega uma jovem que acaba de conhecer para dentro de uma sala de cinema pornô. Em outro momento, ele aponta um revólver para a imagem de um negro sorridente na televisão. Ele não sabe se comportar socialmente, como veterano de guerra na Marinha foi acostumado apenas a seguir ordens sem questionamento, experiência traumática de vida que garantiu a ele uma insônia crônica, motivo principal que o leva a escolher essa profissão. A violência estimulada em sua formação militar é a única forma de expressão que ele considera confortável.

Ele não é julgado pela lente da câmera, grande mérito, o espectador é convidado a acompanhar de forma intimista suas ações cada vez mais radicais, tentando compreender suas motivações psicológicas. A cor vermelha que ilumina seus olhos na cena de apresentação, a mesma que retorna ao final como prenúncio de que o personagem continua se sentindo desafiado pela sociedade, o simbolismo de alerta no sinal de trânsito que obriga o motorista a parar seu veículo para a passagem dos pedestres, seres que ele considera inferiores na lei da estrada. O elemento do desafio é musicalmente definido pelo crescendo de suspense no tema de Bernard Herrmann, em sua última composição, uma sucessão de acordes clusters representando o desespero de um solitário que se considera um intruso em um sistema corrompido, desembocando eventualmente em um melódico e suave saxofone jazzístico, símbolo de uma Nova Iorque romântica, ilusória, que existe na mente do personagem como projeção de futuro, após ele efetuar a limpeza de toda a podridão que infesta suas ruas.

Ele até tenta orquestrar um atentado político contra um senador, motivado por uma ideologia que ele sequer compreende bem, mas o plano não dá certo, ele então redireciona o alvo para uma fonte de maldade mais óbvia, sem tons de cinza, o malandro de rua (Harvey Keitel) que agencia os serviços sexuais de uma criança (Jodie Foster). Como todo ignorante, Travis é um conservador extremista totalmente inseguro, inclusive de sua masculinidade, o que pode ser constatado na cena mais famosa da obra, onde ele encara seu reflexo no espelho e teatralmente ensaia variações de sua reação agressiva aos possíveis valentões que tentarem bloquear seu ato de heroísmo, para, logo depois, ser mostrado deitado descansando em posição fetal. Na tentativa de minimizar a insegurança, ele modifica seu corte de cabelo comportado para um rebelde moicano, a única maneira de colocar em prática suas ideias é transformando aquele reflexo em outro indivíduo irreconhecível.

A catarse provocada pelo massacre que ele desajeitadamente promove no prédio do cafetão incita uma crítica social que ainda se mantém atual. Travis, o psicopata monstruoso, acaba sendo visto pelo povo e pela mídia como um herói celebrado em manchetes de jornais, que ele orgulhosamente cola nas paredes de seu quarto. Até mesmo a mulher de seus sonhos, bela Cybill Shepherd, demonstra sentir remorso pela maneira rude como o tratou anteriormente. A sociedade estúpida coloca assassinos em destaque nas capas das revistas, o herói da favela é o dono da boca, aquele que espanca e prende um bandido no poste é aplaudido, o político que irresponsavelmente defende o atroz conceito de direitos humanos pra humanos direitos é mitificado como luz no fim do túnel, enfim, a glorificação do absurdo. A ironia máxima, o taxista de Scorsese se torna, da noite para o dia, o ídolo de uma cidade que ele odiava. 

sábado, 13 de agosto de 2016

"Uma Noiva em Cada Porto", de Howard Hawks


Uma Noiva em Cada Porto (A Girl in Every Port – 1928)
Com essa comédia tematicamente simplista, o roteirista/diretor Howard Hawks mostrou que tinha talento para equilibrar classe na execução com cativante leveza no tom, característica que o faria ser reconhecido no futuro como o maior símbolo de versatilidade da indústria norte-americana. Analisando fora do contexto, não é um grande filme, nem pode ser considerado especialmente relevante dentre os projetos da era do cinema mudo, mas é o melhor trabalho da primeira fase de Hawks, um roteiro que insinuava caminhos narrativos que seriam explorados durante toda a sua carreira.

Na trama estruturada de forma episódica, dois marinheiros, vividos por Victor McLaglen e Robert Armstrong, lutam pela preferência das garotas que encontram em todos os portos. Os nomes dados aos dois enfatizam o humor fálico popularesco: Espeto e Salame. Eles marcam presença até no Rio de Janeiro, onde, claro, o sobrenome da fogosa dama vivida por Maria Casajuana e o seu endereço enfatizam nossa língua pátria, pelo menos aos olhos do mundo, o espanhol. Eles chegam a interromper uma típica briga de bar, para investirem juntos contra a força policial do local, uma camaradagem que evidencia a beleza da competitividade amistosa. Na conclusão, a amizade acaba falando mais alto que a disputa deles pelas garotas, iniciando o que seria um leitmotiv clássico em sua filmografia, a história de amor entre dois homens.

O elemento que realmente faz do filme algo a ser lembrado leva o nome de Louise Brooks. A jovem, que havia largado a dança para se focar na atuação, era casada com um amigo do diretor. O seu jeito irreverente, seguro e espevitado acabou caindo como luva em sua Marie, artista circense, sempre mostrada vestindo um maiô colado na alma, defendido por um dos rostos mais bonitos de sua época. A cena em que ela provoca o amigo do atual namorado na frente dele é de uma sensualidade impressionante. Ela aparece numa sequência que dura cerca de vinte minutos, tempo suficiente para atrair a atenção do diretor austríaco G.W. Pabst, que imediatamente tirou Marlene Dietrich da jogada e ofereceu para a garota do corte de cabelo exótico, rebeldia irresistível, o papel principal em “A Caixa de Pandora”, obra-prima muda que a tornou mundialmente conhecida e desejada. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Chumbo Quente - "O Homem Com a Morte nos Olhos", de Burt Kennedy


O Homem Com a Morte nos Olhos (Welcome to Hard Times – 1967)
O prefeito Will Blue (Henry Fonda), do vilarejo de Hard Times, é um homem de 50 anos que veio àquele lugar isolado para fugir de confusão. Essa cidade é agitada de tempos em tempos, quando trabalhadores de uma mina próxima aparecem para se divertir no saloon. Mas afora esses momentos, o lugarejo fica deserto. Mas a tranquilidade desejada por Blue é abalada quando chega um misterioso pistoleiro ao saloon. Em poucas horas, ele mata impiedosamente várias pessoas e coloca fogo nos poucos barracões que formavam a cidade. A maioria dos habitantes deixa o lugar, mas Blue fica, pois sabe que o assassino um dia irá voltar. E para esse novo encontro o prefeito estará determinado a não fugir.

O projeto foi inicialmente feito para a televisão pela MGM, buscando alcançar o público jovem norte-americano do flower power, mas acabou sendo exibido em salas de cinema. O roteirista/diretor Burt Kennedy, responsável pelos roteiros psicologicamente instigantes dos faroestes do ciclo Ranown, de Budd Boetticher, adapta com bastante fidelidade o livro homônimo de E.L. Doctorow. O refinamento ficou garantido com a fotografia impecável de Harry Stradling Jr., complementada por um elenco de grandes nomes, como Henry Fonda, Lon Chaney Jr., Warren Oates, Elisha Cook Jr. e Keenan Wynn, mas quem realmente impressiona é Aldo Ray, vivendo o silencioso e enigmático “homem de Bodie”, que justifica o nome da cidade (hard times, tempos difíceis) com sua passagem destruidora. O filme, assim como o livro, trabalha a desconstrução da imagem mítica do Velho Oeste, algo mais próximo do que os italianos estavam fazendo com o gênero no período. Ainda que o ritmo irregular do segundo ato prejudique um pouco a experiência, os últimos vinte minutos complementam muito bem o excelente primeiro ato. Todos os esforços do protagonista em reconstruir a cidade são frustrados, assim como são frustradas as suas tentativas de retirar do menino órfão o ímpeto pela vingança, subtrama que soa como uma paródia proposital da relação de Shane e seu pequeno admirador em “Os Brutos Também Amam”. 

O elemento destruidor é representado em tons oníricos, sempre com um sorriso mefistotélico e sem qualquer justificativa para suas ações, quase como se fosse uma força primal destinada a corromper a cidade, microcosmo da civilização. E, vale salientar, não se trata de um índio, figura usualmente demonizada no western norte-americano, o que potencializa o direcionamento ousado da trama. O prefeito, consciente de que está sendo punido por sua covardia no primeiro ataque, terá que enfrentar até mesmo sua insegurança com um revólver, outro detalhe que engrandece esse anti-western. Ele chega a afirmar: “Qualquer homem pode portar um revólver, mas você precisa sozinho apertar o gatilho”. Blue não é o herói clássico das pradarias, está longe disso, ele defende uma postura que poderia ser considerada essencialmente feminina, preocupado apenas em estabelecer um local seguro, enquanto a prostituta Molly (Janice Rule) adota a postura típica dos vaqueiros de Hollywood, determinada a meter uma bala no meio da testa do vilão, um aspecto que pode ter colaborado para as injustas críticas negativas que a obra recebeu à época.

* O filme está sendo lançado em DVD, com a opção da dublagem clássica da BKS, pela distribuidora “Classicline”.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

"Coração de Cachorro", de Laurie Anderson


Coração de Cachorro (Heart of a Dog - 2015)
Quando a criança estava deitada na cama do hospital, paralisada após um acidente numa piscina, uma enfermeira sentava ao seu lado e lia uma historinha envolvendo um coelho cinza fujão, um livro infantil. Essa memória é terrível, a menina já estava habituada a ler obras mais instigantes, ela já conhecia “Crime e Castigo”, de Dostoievski, mas era obrigada a escutar por horas aquela bobagem. Ela, inconscientemente, tomava conhecimento naquele momento de que os seres humanos são movidos por padrões, buscando reconhecer em outrem uma espécie de código de conduta. Aqueles que não correspondem ao padrão da linha de produção são automaticamente rejeitados. A enfermeira, como grande parte das pessoas, enxergou a criança como um produto padronizado, cujos interesses e sistema de comportamento são facilmente codificados em uma imagem estereotipada unidimensional. Dessa mesma forma enxergamos tudo o que nos cerca, todos os assuntos, dos mais triviais aos mais complexos, especialmente aqueles nutridos pelo elemento do desconhecido, como a morte.

A cineasta Laurie Anderson utiliza a sua relação de amor com Lolabelle, sua falecida rat terrier, como pano de fundo para uma reflexão profundamente emotiva sobre essa questão. Se nós somos definidos pela habilidade da comunicação verbal, como Wittgenstein afirmava, “se você não puder falar sobre, não existe”, precisamos compreender a comunicação dos animais para que possamos codificar o relacionamento. Quando a cadela ficou cega, foi incentivada a tocar nas teclas do piano, produzindo sons que não são reconhecidos como melódicos pela forma humana de codificar música, mas por isso deixam de ser música? A narração afirma que o que escutamos de fundo é a gravação de uma canção natalina da artista canina, um registro especialmente emotivo para a mulher, são sons produzidos pelo toque das patinhas de sua querida filha do coração, um registro de um ser que não existe mais, apenas em sua memória. Se o conceito de beleza musical nasce de sons que codificamos, o que impede esse registro de ser tido como música? Não é exatamente o mesmo critério que utilizamos com o trabalho dos pintores? A mão do artista pode se movimentar livremente pela tela, sem obedecer a qualquer código, o pequeno borrão no canto de uma tela vazia, ou a mistura de cores que não forma uma figura identificável, o resultado sempre será visto e respeitado como arte. Lolabelle também pintava, passando suas patinhas em uma tela.

O elemento desconhecido supremo, a morte, é trabalhado no documentário traçando um paralelo entre um passeio da diretora com sua cadela nas montanhas e o impacto da tragédia de 11 de Setembro no psicológico dos norte-americanos. Na tentativa de reconhecer e codificar as formas de expressão de Lolabelle, para estabelecer real comunicação com ela, Laurie parte com a querida companheira em uma experiência nas montanhas. Após algumas horas, a incrível beleza do local acaba desviando o foco da dona, que se esquece do plano e decide aproveitar aquele tempo brincando com a cadela. A vida é assim, tentamos traçar metas existencialistas, perdemos horas preciosas buscando compreender a lógica da finitude, chegamos até a abraçar a tristeza de não sermos capazes de responder essas questões, mas acabamos encontrando algo divertido no processo que desvia nossa atenção, uma piada bem contada, um bom filme, um bom livro, os primeiros passos de um filho, a ternura no olhar de um cão. 

O medo da morte nasce na cadela ao perceber em seu passeio um perigo que ainda não conhecia: as aves que tentavam se aproximar, caçadoras de um terreno inexplorado. A dona enxerga uma mudança no olhar do animal, algo que ela havia encontrado nos olhos dos seus vizinhos nos dias que se seguiram à queda das torres gêmeas. O medo da morte é parte essencial de um processo importante e que não deve ser negado. O padrão dos veterinários, assim como o livro escolhido pela enfermeira, ao discursar um conteúdo memorizado sobre a possibilidade de acabar com o sofrimento do animal com apenas uma injeção, impede que o animal utilize o tempo necessário para reconhecer a finitude. O envelhecimento, essa aproximação natural da morte após a breve juventude, possibilitou que a diretora enxergasse em suas recordações o momento exato em que se sentiu amada por sua mãe, algo que parecia ter sido bloqueado em sua mente. Laurie propõe, acima de tudo, um convite para que o espectador também analise com carinho a efemeridade da vida, para que ele não perca precioso tempo em rituais que satisfaçam outrem, ou obedecendo a padrões desgastados. Crie seu próprio ritual, codifique sua linguagem única. 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

TOP - Comédias Dirigidas por Jerry Lewis

Aos 90 anos, Jerry Lewis está retornando às telas com “Max Rose”, demonstrando mais uma vez seu brilhantismo como ator dramático, o que vai surpreender quem não conhece sua participação no excelente “O Rei da Comédia”, de Scorsese, em “Arizona Dream”, de Kusturica, ou na pérola esquecida feita pra televisão: "Luta Pela Vida", de 1987. Sempre lembrado como ator, poucos valorizam seu trabalho como diretor. Sua originalidade na construção do cenário inovador de "O Terror das Mulheres" já bastaria para reverenciarmos sua ousadia. Ele também criou um artifício que muitos operadores de câmera hoje em dia nem fazem ideia que foi ele o inventor. Até aquele momento, o diretor filmava as cenas e tinha que esperar vinte e quatro horas para poder visualizá-las. Lewis, procurando resolver esse problema, patenteou um sistema onde colocava uma câmera de vídeo ao lado da câmera de filmagem, os dois compartilhando a mesma imagem. Assim ele poderia voltar e ver sua cena sempre que quisesse, realizando pequenos ou grandes ajustes. Esse protótipo hoje recebe o nome de “Assistente de Vídeo”, sendo presença obrigatória em todos os sets. Seu livro "The Total Film-Maker", o material de suas aulas na faculdade de cinema, é simplesmente uma das melhores obras sobre todas as etapas do processo de filmagem.

Como grande admirador de seu trabalho, revi todos os filmes dirigidos por ele na tentativa de selecionar os cinco melhores. Não deu certo, tive que ignorar meu lado sistemático e aceitar seis títulos, seis obras-primas que justificam a inclusão de Lewis em qualquer lista de melhores cineastas da história do cinema. Um reconhecimento que ele merece receber em vida.


1 – O Terror das Mulheres (The Ladies Man - 1961)
Adotando em parte o estilo cômico cartunesco de Frank Tashlin, um de seus mentores, Lewis força seus limites na função de diretor e explora ao máximo as possibilidades de situações em um único espaço. Com toques de fantasia surrealista, seu Herbert H. Heebert faz uso de todo o repertório cômico do ator. Seis anos depois, Tati realizaria "Playtime", talvez o único artista cujo trabalho podemos tentar comparar, mas seu Hulot carece de simpatia, os seus esforços, por mais interessantes que sejam, soam forçados, em Lewis tudo é natural. 


2 – O Professor Aloprado (The Nutty Professor - 1963)
Na fábula cômica de Lewis, a figura esquisita de Kelp, uma óbvia caricatura, representa a forma distorcida como o personagem se enxerga no espelho, não há poção mágica, Buddy Love sempre existiu e, como a engraçada cena final salienta, com a bela Stella Stevens guardando um pouco da poção, não deve nunca ser obliterado, já que exerce função importante na personalidade do indivíduo. A autoconfiança precisa complementar a humildade, um elemento não vive bem sem o outro. Essa resolução emocionalmente madura é o que engrandece o filme, que poderia ser apenas uma farsa tola, uma das várias releituras de “O Médico e o Monstro” que a indústria já criou.


3 – As Loucuras de Jerry Lewis (Cracking Up - 1983)
Com sérios problemas de saúde, vício em remédios para dores na coluna, e o fim do relacionamento de trinta e oito anos com a esposa, Lewis, que estava afastado do cinema e focado em seus Telethons, logo depois sofreria uma complicada operação cardíaca. Esse filme é claramente o trabalho de um homem livre, no sentido transcendental da expressão, alguém que renasce das cinzas criativamente com mais coragem do que exibia em sua juventude. Ele corre riscos, acerta e erra, mas o que impressiona na estrutura de esquetes é a aura de jovialidade, renovando o estoque de gags com a esperteza do que se fazia no período, mas com um pé no futuro. É perceptível um tom mais pessoal, sem concessões. Um tesouro que merece maior reconhecimento. 


4 – O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy - 1960)
É sua primeira produção com total poder criativo, feita com baixíssimo orçamento, onde interpreta um mensageiro de hotel que não fala uma palavra durante toda a projeção. Seu trabalho nessa obra faz referência a astros do humor como Jacques Tati, Chaplin e Stan Laurel, seu grande ídolo e amigo, sendo na realidade uma linda homenagem ao cinema do gênero. Nessa joia está contida o amálgama de tudo em que Lewis acreditava, com facetas de vários estilos de humor, o grotesco, físico, inteligente, cínico e o infantil, ingênuo e inocente. 


5 – O Otário (The Patsy - 1964)
Além de eternizar sequências hilárias como a do professor de piano, um dos momentos mais engraçados da história do gênero, ele foi responsável por mais uma inovação cenográfica, quando ao final do filme, as câmeras se distanciam deixando exposto que o ambiente era um estúdio de gravação. Ele se mostra, não como o personagem, mas sim como o diretor Jerry Lewis, desconstruindo o sonho da maneira mais engraçada possível. Fellini fez parecido em “E La Nave Va”, quase vinte anos depois, e foi considerado original. Jerry já havia ousado muito antes. 


6 - O Mocinho Encrenqueiro (The Errand Boy - 1961)
O alvo de Jerry nesse filme são os bastidores da indústria de cinema, impagável o momento em que ele utiliza genialmente a pantomima para debochar da arrogância dos chefes de estúdio. O elegante jazz emoldurando uma ilusória reunião de negócios onde o patrão gargalha após despedir seus funcionários, como se Lewis evidenciasse que, por trás do véu de nobreza de astros e estrelas, a imagem vendida pelo setor de publicidade, o público ignora o cruel jogo de interesses que movimenta a roda da fortuna. A narração no início já ressalta a coragem do diretor: "Hollywood irá te levar a qualquer lugar que você desejar, menos atrás de sua própria fachada". 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Faces do Medo - "Kwaidan", de Masaki Kobayashi


Kwaidan – As Quatro Faces da Morte (Kaidan – 1964)
O greco-irlandês Patrick Lafcadio Hearn, que trocaria seu nome para Yakumo Koizume, foi um escritor apaixonado pela história do Japão. Em um de seus trabalhos mais importantes, o livro homônimo que deu origem ao filme de Masaki Kobayashi, ele compilou lendas folclóricas de temática sobrenatural advindas de uma tradição oral milenar. O título remete a contos fantasmagóricos ambientados no Período Edo, também chamado de Era Tokugawa, marcado pela sistematização do bushido, o código de conduta dos samurais. A antologia consegue o feito raro de manter a qualidade nos quatro episódios, abordando o horror sempre alicerçado no sentimento de profunda tristeza que move os personagens, característica madura que se faz presente nos grandes filmes do gênero.

A trilha sonora de Tôru Takemitsu apela diretamente aos instintos mais primitivos, utilizando sons pouco convencionais, sem estrutura melódica, como forma de enfatizar a estranheza inerente às tramas. Os efeitos sonoros de Hideo Nishizaki, ao contrário das produções japonesas de terror modernas, não tentam instruir o espectador, direcionando sua atenção para os corriqueiros jump scares, eles atuam quase numa frequência zen, complementando elegantemente os estímulos visuais. Os cenários e desenhos de fundo, inteligentemente inspirados em mestres da pintura, faziam uso generoso do formato Tohoscope em glorioso Fujicolor, sendo esse o primeiro projeto em cores do diretor, visivelmente disposto a testar os limites do recurso. O público internacional que apreciava o cinema japonês, acostumado ao preto e branco de Ozu e Kurosawa, ficou impressionado com aquela experiência multicolorida de ousada inventividade. Algo tão além de seu tempo que os próprios japoneses não captaram muito bem, “Kwaidan” fez mais sucesso no mercado estrangeiro, ganhando o prêmio do júri no Festival de Cannes.

Se “O Cabelo Negro” trabalha impecavelmente o remorso como leitmotiv, “A Mulher da Neve” segue o caminho da lição moral, com o protagonista aprendendo de maneira brutal a importância de não romper uma promessa. “Hoichi – O Sem Orelha”, o conto mais longo e esteticamente elaborado, é fundamentado no respeito aos mortos honrados, resultando nas cenas mais emocionantes do filme. “Em uma Xícara de Chá” não é uma adaptação direta do livro original, evoca o elemento do duplo em narrativa metalinguística e se debruça generosamente no mistério como força motriz, com um desfecho que desafia o espectador a decifrar seu enigma.






* A distribuidora Versátil, com a curadoria impecável de Fernando Brito, lança o filme em DVD numa versão restaurada e integral, contabilizando três horas de puro deleite visual. Como extras, um excelente depoimento do diretor (15 min.) e uma reveladora entrevista (20 min.) com Kiyoshi Ogasawara, que trabalhou como assistente de direção e participou ativamente do projeto de restauração da obra. 

sábado, 6 de agosto de 2016

TOP - 2011


1 - Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris), de Woody Allen
"... Woody, demonstrando uma fascinante lucidez, desconstruiu o senso nostálgico que embeleza tudo o que toca, evocando elementos da ficção científica, com uma ternura encantadora que me remeteu ao seu "A Rosa Púrpura do Cairo". Ao optar por fazer a viagem no tempo executada pelo protagonista representar a constatação de que o passado, por mais fascinante que seja, não era tão perfeito como ele havia idealizado, o roteiro evidencia a importância do indivíduo buscar a satisfação plena em sua própria realidade. Uma visão madura e emocionante de um cineasta que se recusa a abraçar o conformismo criativo..."


2 - A Pele Que Habito (La Piel Que Habito), de Pedro Almodóvar
"... Uma homenagem ao clássico "Os Olhos Sem Rosto", de Georges Franju. Quando o personagem vivido por Antonio Banderas adentra sua mansão, ocorre algo imperceptível aos olhos do cinéfilo menos atento: ele se encaminha para o quarto da vítima, porém rapidamente rejeita tal escolha, analogamente uma rejeição à sua condição natural, e segue para o quarto ao lado, onde continua a espioná-lo pela câmera. Outro exemplo de que nada é por acaso em obras de qualidade: a câmera segue a mão de Banderas, que pega um controle remoto num criado-mudo. O momento dura frações de segundo, mas ao lado do controle encontra-se um livro coerente à abordagem do diretor: “O Gene Egoísta” de Richard Dawkins, que apresenta uma teoria que explica a evolução das espécies na perspectiva do gene e não do organismo, renovando o Darwinismo, que vê os genes como simples veículos através dos quais os organismos se reproduzem..."


3 - Cisne Negro (Black Swan), de Darren Aronofsky
"... A protagonista valida o conceito freudiano da projeção, inconscientemente atribuindo características negativas de sua própria personalidade a outros personagens, especialmente Lily e sua mãe, que acredito ser uma criação de sua mente. No dia de sua consagração, totalmente livre e confiante, “mata” sua projeção, simbolizada por Lily, e alcança a perfeição no palco ao transformar-se no “Cisne Negro”, recebendo empolgada ovação da plateia que grita seu nome. “Matando” sua projeção, “mata” a si mesma, encerrando a obra de forma genial. Em minha interpretação ela não morreu, mas sim aquela sua versão insegura de outrora, que vivia sob uma constante pressão da “mãe”. Seu colapso mental vai se intensificando com o tempo, os arranhões nas costas, cada vez maiores, terminando por “matar” sua sanidade, sacrificada em prol de uma perfeição ilusória, em nome da arte..."


4 - Bravura Indômita (True Grit), de Ethan e Joel Coen
"... A beleza da trama reside exatamente na progressiva transformação interna do pistoleiro, cada vez mais admirando a impetuosidade inconsequente daquela que aprende que deve proteger. Ele tentou afastá-la de todas as formas, mas acabou encontrando na bravura dela a sua última chance de redenção. Bridges trabalha esta dualidade com excelência, deixando transparecer sutilmente o carinho que passa a sentir por aquela que o desafiava. O conflito não consiste na caçada pelo assassino Tom Chaney (Josh Brolin), mas no desesperado desejo de Rooster em se mostrar vivo perante aquela que depositou confiança em sua competência. Ele sabe que está fora de forma, extremamente cansado e que provavelmente ninguém no futuro lembrará seu nome, mas mesmo assim encara o perigo de frente. A bravura do velho pistoleiro gravaria um legado eterno no caráter da jovem, que aprende que o sabor da vingança é amargo, uma cicatriz que se carrega pelo resto da vida..."


5 - A Falta Que Nos Move, de Christiane Jatahy
"... A melhor forma de assistir essa desconhecida obra-prima é adentrar na casa junto com os atores, sem conhecer o truque, por essa razão evitarei comentar muito sobre o que ocorre. O mérito maior da equipe foi ter construído um produto que não perde valor enquanto mágica revelada, somente instiga ainda mais, levando-nos a procurar entender que aquele microcosmo reflete perfeitamente o macro. O choque de constatar que somos todos atores em tempo integral, seguindo mediante a aceitação de nossas fragilidades e frustrações, aprendendo a lidar com a inexorável aproximação do fim. Somos parte de uma experiência, independente que a façamos ser prazerosa ou plena em autocomiseração, escolhemos rotas conforme os limites da estrada nos são revelados..."


6 - Namorados Para Sempre (Blue Valentine), de Derek Cianfrance
"... Prejudicado no Brasil por um título equivocado que vende a antítese do que o roteiro oferece, o filme provavelmente ganhará maior reconhecimento em longo prazo. Poucas vezes o cinema retratou com tanta honestidade, de forma brutalmente comovente, o triste momento em que os laços de carinho e respeito se desfazem em um relacionamento amoroso..."


7 - Margin Call - O Dia Antes do Fim (Margin Call), de J.C. Chandor
"... Uma experiência claustrofóbica sustentada por um elenco afinado, um raro roteiro direcionado para o público adulto. Escolhendo focar no ser humano e nas emoções, ao invés de jogar luz nos aspectos burocráticos que conduziram ao colapso financeiro da trama, o roteiro consegue soar universal e atemporal..."


8 - Medianeras - Buenos Aires da Era do Amor Virtual (Medianeras), de Gustavo Taretto
"... A importância de quebrar as barreiras que separam indivíduos em uma metrópole, obstáculos que conduzem o espectador a torcer para que os dois solitários se encontrem. A atuação do casal e a ousadia do diretor no terceiro ato fazem com que o filme seja um oásis perdido no meio de um deserto de marasmo no gênero..."


9 - A Árvore do Amor (Shan Zha Shu Zhi Lian) de Zhang Yimou
"... É inegável se tratar de um filme previsível e manipulador, um clássico tearjerker que nos remete a "Love Story" e tantos outros similares. Mas é impossível evitar se apaixonar pela forma sensível como o relacionamento do casal é retratado, impossível não se encantar com o refinamento de Yimou..."


10 - Balada do Amor e do Ódio (Balada Triste de Trompeta), de Álex de la Iglesia
"... O diretor do ótimo, ainda que pouco conhecido, "O Dia da Besta", retorna com uma das pérolas visualmente mais interessantes do ano, uma mistura criativa de terror, drama, ação e comédia, com elementos de Kusturica, Guillermo del Toro e Tarantino..."

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Faces do Medo - "A Noiva de Frankenstein", de James Whale


A Noiva de Frankenstein (Bride of Frankenstein – 1935)
Grande parte dos cinéfilos considera “A Noiva de Frankenstein” superior ao original, mas eu discordo em gênero, número e grau. É, de fato, um produto bastante diferente, com uma proposta menos debruçada na construção de clima, maior interesse cômico, um monstro comunicativo e um viés timidamente subversivo, representado em falas do Dr. Pretorius (Ernest Thesiger), como aquela em que ele deixa implícito o caráter fabulesco do livro sagrado católico, e, de maneira mais sutil, na forma como o roteiro trabalha a homossexualidade, elemento que o diretor James Whale utiliza corajosamente, o que provavelmente fez com que ele aceitasse comandar essa sequência, após lutar por muito tempo contra esse desejo do estúdio. 

Tanto no terno encontro do monstro com o violinista cego, duas almas solitárias buscando aceitação em uma sociedade que parece não ter sido pensada para eles, quanto na rejeição violenta da “noiva” (Elsa Lanchester) criada para satisfazer o personagem de Boris Karloff, obviamente confrontando os convencionais papeis sexuais dos gêneros, nós podemos encontrar sob o verniz do horror uma mensagem socialmente revolucionária para a época. A personagem misteriosa que nasce no terceiro ato, fruto da união de Pretorius e Henry Frankenstein (Colin Clive), ao som de uma versão macabra da marcha nupcial por Franz Waxman, acaba sendo destruída para que seja celebrada na cena final a relação heterossexual, socialmente aceitável, do doutor e Elizabeth (Valerie Hobson). O monstro, com lágrimas nos olhos, afirma para seu "pai" que ambos pertencem aos mortos, antes de acionar a alavanca que destrói o local. 

Apesar desse subtexto ousado, a execução prejudica o resultado, com a caricata irlandesa Una O’Connor ganhando um destaque exagerado como alívio cômico. A figura do monstro era mais imponente no primeiro, com o rosto cadavericamente magro do ator intensificando o impacto de suas aparições. Karloff ganhou peso, um rosto com aparência mais saudável, além de se mostrar visivelmente contrariado com a ideia de dar voz ao personagem. O que mais gosto na trama é a inclusão da sequência inicial mostrando a escritora Mary Shelley, vivida pela própria “noiva”, como a bela e doce mulher da alta sociedade que é capaz de criar o pesadelo mais aterrorizante em sua mente, conceito que agradava sobremaneira Whale.