quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Palestra "O Cinema por Octavio Caruso" e exibição do curta "Se" no Cine Joia (Copacabana - RJ)


Que momento lindo, verdadeiramente inesquecível, o evento foi um sucesso! O dia 20 de setembro de 2017 ficará guardado para sempre em minha memória. Agradeço a cada pessoa que me emocionou com sua presença. Abaixo, algumas fotos desta noite especial.


Tereza Filardy, Eduardo Doria, Teresa Cristina e Mônica Foroni, elenco do curta "Se".


Com Zaira Zambelli, minha primeira professora de teatro (em 2002).
Com Julio Lellis, que me dirigiu no longa "Histórias Íntimas".



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

"It: A Coisa", de Andrés Muschietti


It: A Coisa (It - 2017)
O ano está excelente para o horror, “It: A Coisa” é mais um título que não tem prazo de validade curto, merece constar nas listas de melhores adaptações das obras de Stephen King, mérito do diretor argentino Andrés Muschietti, responsável pelo arrepiante cartão de visita chamado “Mamá”, de 2008, curta que em apenas três minutos conseguiu atrair a atenção dos produtores da indústria norte-americana, que o escalaram para comandar também a versão em longa-metragem lançada cinco anos depois. A primeira adaptação do livro foi uma minissérie em dois episódios bastante fraca, que alternava entre o núcleo infantil e suas contrapartes adultas e só se salvava pela presença irretocável de Tim Curry, vivendo o palhaço Pennywise.

A decisão de focar toda esta primeira parte em apenas um período temporal foi muito inteligente. Agora a responsabilidade não precisa pesar tanto nos ombros de Bill Skarsgård, o grupo de crianças é encantador, o clube dos perdedores, cada uma representando uma característica que socialmente é vista como obstáculo, o gago, o asmático, o gordinho, o magricela de óculos, em suma, indivíduos que enfrentam diariamente a estupidez do bullying escolar. E o roteiro de Gary Dauberman, Chase Palmer e Cary Fukunaga consegue retratar este aspecto com tremenda sensibilidade, verdadeiramente emocionando, como no momento em que a menina bonita encontra o caderno do gordinho sem assinaturas e decide demonstrar carinho. Estes pequenos gestos, situações simples, vão construindo arcos narrativos sólidos, conduzindo o público a se importar, de fato, com o bem-estar deles. A reconstrução de época, o resgate da nostalgia da geração dos anos oitenta, não soa artificial como em “Stranger Things”, ou “Super 8”, que se preocupavam demais com a estética, o figurino, mas falhavam em captar a essência libertária e o senso de humor despretensioso. Muschietti evidencia as referências, Molly Ringwald é citada, toda a aura de ameaça representada pelo palhaço reverbera os ataques oníricos de Freddy Krueger, a camaradagem orgânica que se estabelece entre as crianças remete à “Patrulha B.R.A.T.”, “Conta Comigo”, “Os Goonies”, fruto de uma geração que cresceu escutando músicas infantis que enalteciam o poder da amizade e a importância de lutar pela honra. O que as crianças escutam hoje?

A “coisa” representa o medo em duas fases distintas na vida em que a insegurança parece tomar o controle, quando a criança percebe estar amadurecendo e quando o adulto encara a proximidade da finitude, elemento que engrandece o livro e que é inteligentemente retratado no filme, com a computação gráfica possibilitando a pluralidade de versões que ele pode assumir na mente de cada vítima. O monstro se alimenta da insegurança, o seu objetivo é fazer nascer no espírito puro o medo, ele se mostra presente nos momentos em que o indivíduo se mostra existencialmente fragilizado diante do desconhecido, logo, ao encontrar crianças marcadas a ferro e fogo pela exposição diária à estupidez de seres sem empatia, psicopatas em estado embrionário, o agente do mal encara pela primeira vez a resistência. A forma como o roteiro trabalha as sequências de horror não é altamente original, nem precisaria ser, exatamente por tratar do medo como instinto primitivo, ele se apoia em convenções como jump scares e efeitos sonoros alarmantes, com instigante utilização das sombras, mérito da fotografia de Chung Chung-hoon, a execução é impecável. 

"Loja do Doido", de John Paddy Carstairs


Loja do Doido (Trouble in Store - 1953)
Norman Wisdom, Norman Sapiência, sobrenome perfeito para a comédia, especialmente considerando que o tipo que o tornou famoso é um tremendo pateta, espécie de Jerry Lewis britânico que nunca chegou a ser muito conhecido no Brasil, apesar de ter salvado a indústria de seu país durante a década de cinquenta.

O garimpo na internet me possibilitou entrar em contato com suas obras, que não foram lançadas por aqui nem em VHS. Ele fez mais de quinze filmes, foi citado por Charles Chaplin como seu “palhaço favorito”, mas a qualidade das obras varia muito, o seu melhor momento está registrado em “Loja do Doido”, a sua premiada estreia, em que recebeu o BAFTA de revelação mais promissora do ano, um exagero, grande parte do mérito da obra está na criatividade visual da direção, gags como a do carro e da bicicleta logo no início. A voz aguda dele em situações de desespero, a gargalhada contagiante e a personalidade ingênua são características muito similares às que facilmente identificamos no tipo que Lewis já defendia nas produções da Paramount com Dean Martin, mas é possível que Frank Tashlin tenha se inspirado neste filme para trabalhar o conceito de “Errado pra Cachorro”, realizado dez anos depois e protagonizado por Lewis, também ambientado em uma loja de departamentos.

A trama é simples, Norman, que trabalha no almoxarifado, conhece o novo chefe e já comete uma tremenda gafe, o que faz com que seja despedido. Ele então passeia pela loja, tomando laranjada num saloon estilizado do velho oeste, ajudando indiretamente nos furtos de uma idosa (a respeitada Margaret Rutherford) bastante ousada, declarando desajeitadamente seu amor de forma musical para uma jovem atendente, até que consegue seu emprego de volta, o que abre diversas possibilidades cômicas, pastelão de alto nível, como a ótima sequência em que tenta provar sua competência como vitrinista. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"Na Mira do Atirador", de Doug Liman


Na Mira do Atirador (The Wall - 2017)
Com esta pérola ambientada em 2007, na fase crepuscular da guerra do Iraque, Doug Liman prova que é um dos mais competentes cineastas em atividade, construindo tensão utilizando espaço cênico reduzido, a parede em ruínas que serve como proteção, apenas dois atores e um terceiro personagem que se comunica por rádio. E considerando que o soldado vivido por John Cena é abatido logo nos primeiros minutos, o roteiro de Dwain Worrell tem o desafio de prender nossa atenção por oitenta minutos, sem apelar uma única vez para recursos convencionais como flashbacks ou trilha sonora emotiva, apoiando toda a carga dramática nos ombros de Aaron Taylor-Johnson, excelente ao transmitir, entre uma teatral exibição de bravata patriótica e outra, a fragilidade inerente à motivação de sua presença naquele inferno.

Como todo bom filme de guerra, o interesse maior está em evidenciar quão estúpida e sem sentido é aquela realidade. Apesar do péssimo título em português, simplificação que, como sempre afirmo, ressalta o baixo nível educacional do brasileiro, a mensagem poderosa reside na metáfora da parede que separa o soldado norte-americano e o atirador de elite iraquiano (voz de Laith Nakli), a incapacidade de um compreender o outro, os olhares turvos pelo véu de manipulação doentia e gananciosa que os posicionou naquela situação. “Irônico, a mesma parede que seu país veio destruir, agora você tenta a todo custo evitar que caia. Esta parede em que você se esconde já foi uma escola. ” O diálogo sintetiza a riqueza crítica do texto, algo pouco usual em obras do gênero, quase sempre movidas pela construção de cenas de ação progressivamente mais empolgantes. Em “Na Mira do Atirador”, o estímulo intelectual é mais contundente que qualquer explosão.

A voz tranquila do caçador que demonstra conhecer mais sobre a cultura norte-americana do que aquele que teoricamente está lá para defender a pátria, a opção consciente por tomadas longas que intensificam a sensação de frustração crescente da vítima, a fotografia bruta de Roman Vasyanov emulando o torpor causado pela exposição ao sol ardente do deserto, elementos que engrandecem o resultado.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre o caso da exposição no Santander Cultural

Um pouco de lucidez, uma reflexão simples: O ato de censurar arte é sintoma de um sistema desprezível composto por indivíduos claramente desequilibrados emocionalmente, movidos pelo instinto baixo de traçar uma linha imaginária na areia e defender que algo não deve ser considerado relevante (questão de opinião que deve ser respeitada) e, por conseguinte, não merece existir (algo indefensável). Nem mesmo o argumento moralista utilizado desta feita é novidade, a Alemanha nazista e sua exposição "Arte Degenerada" já segregava pintores como Picasso e Matisse na década de 30. Ray Bradbury mostrava em seu "Fahrenheit 451" uma sociedade distópica em que todos os livros eram queimados, obra adaptada para o cinema por François Truffaut em 1966. O tempo passou, mas os seres humanos seguem chafurdando na lama da estupidez. É vergonhoso que este tipo de coisa ainda suscite discussões em 2017.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

"Um Acidente de Caça", de Emil Loteanu / "Cossacos de Kuban", de Ivan Pyryev


Um Acidente de Caça (Moy Laskovyy i Nezhnyy Zver – 1978)
Adaptado da novela de Anton Chekhov, publicada como folhetim em 1884-85 e considerada precursora do romance policial psicológico, o filme penetra no vazio moral da aristocracia decadente ao narrar o drama da jovem Olga, filha de um servo, cobiçada por três homens de meia-idade.

O primeiro elemento que emociona na obra é a trilha sonora maravilhosa composta por Eugen Doga, especialmente a valsa de casamento, que atravessou a fronteira cinematográfica e entrou na cultura popular, tendo sido escolhida em 2014 pela UNESCO como a quarta obra-prima musical do século vinte. A sequência que a apresenta ao público esbanja requinte, qualidade perceptível até nas cenas filmadas em ambientes claustrofóbicos, com a câmera isolando o rosto da jovem Olga (Galina Belyaeva) durante a dança, evidenciando em sua expressão a satisfação por ter conquistado finalmente o status social de nobreza que sempre desejou. Ela, a terna besta do título, em sua inconsequência adolescente, brinca com os sentimentos dos três adultos, que enxergam nela a glória perdida de uma aristocracia em ruínas, a projeção saudável e radiante de seus ímpetos de poder. Os pilares podem estar descascando, o torpor do álcool já não consegue mais ser controlado, o único prazer advém da caça, do ato de abater seres incapazes de se defender. Aquela bela jovem, sem esforço algum, faz deles presas patéticas. A fotografia de Anatoliy Petritskiy, responsável pelo “Guerra e Paz”, de Bondarchuk, agrega uma aura onírica sombria, a presença constante da morte à espreita, tragédia anunciada, reforçada pelo peso que cada componente do elenco injeta no texto, algo que felizmente afasta o tom de melodrama que poderia ter sido adotado por um cineasta menos competente. É um grande filme que merece ser mais conhecido pelo público brasileiro.



Cossacos de Kuban (Kubanskie kazaki – 1950)
Ambientado nas estepes do rio Kuban, nos primeiros anos do pós-guerra, o filme conta a história de dois kolkhozes (cooperativas agrícolas) que competem para ver quem consegue colher mais trigo. Realizado em cores, foi a maior produção musical do cinema soviético.

Como peça explícita de propaganda, um primor em cada detalhe, a sequência inicial nas montanhas representa muito bem a utopia comunista de Stalin, com os trabalhadores agrícolas sorridentes a cantar, enquanto na vida real o povo passava fome. Ao contrário de Eisenstein, que encenava a revolta popular com sujeira e agressividade, o gênero que realmente servia ao propósito da máquina comunista era o musical, o único que satisfazia plenamente o interesse em glorificar/mitificar o ideal de seus pensadores, como “Volga-Volga”, de 1938, não por acaso, o filme favorito de Stalin. “Cossacos de Kuban” foi lançado já na fase crepuscular, talvez por isto seja tão desesperado, tão forçado, o desejo de imprimir felicidade excessiva em cada cena pintada em cores vibrantes. Era a tentativa dos soviéticos de seguirem o molde industrial de Hollywood.


* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "CPC - Umes Filmes".

domingo, 10 de setembro de 2017

"O Cair das Folhas", de Alice Guy Blaché

Alice Guy Blaché
O Cair das Folhas (Falling Leaves - 1912)
Em 22 de Março de 1895, a francesa Alice Guy Blaché é convidada pelos irmãos Lumière para testemunhar uma demonstração do cinematógrafo. No ano seguinte, apaixonada por aquela nova ferramenta que, ao contrário dos seus anfitriões, enxerga como potencial recurso de entretenimento, ela escreve e dirige “La Fée aux Choux”, com apenas sessenta segundos, mas pioneiro na utilização da narrativa ficcional, quando o usual era captar cenas comuns do cotidiano. Ela foi a responsável por inserir teatralidade na equação. Quase sempre eclipsada por Georges Méliès nas páginas da história, ela teve papel fundamental no processo inicial de amadurecimento desta arte, fazendo questão de manter total controle criativo em suas produções, da escolha de figurinos, passando pela seleção de elenco, até a pesquisa para encontrar as locações adequadas. Infelizmente, grande parte de seus trabalhos foram perdidos, mas aqueles que sobreviveram seguem inspiradores. Como admirador dos textos de O. Henry, gosto especialmente do curta “O Cair das Folhas”, inspirado livremente em um de seus contos mais bonitos: “The Last Leaf”, que também foi adaptado em “Páginas da Vida”, de 1952.


A trama simples evoca a pureza da criança. Ao escutar o médico da família informar elegantemente que sua irmã mais velha, com tuberculose, “morrerá ao cair da última folha de outono”, a pequena, vivida por Magda Foy, idealiza um plano para impedir a fatalidade, ela inocentemente utiliza fios de barbante para prender as folhas nos galhos e devolver aquelas que já haviam caído. A linda atitude impulsiva da menina, deixando a cama e desobedecendo a ordem dos adultos, possibilita que seu caminho se cruze por acaso com o de um médico que passeava na região. Ao revelar a razão por trás de seu gesto exótico, ele, que estava trabalhando em uma cura, vai ao encontro da enferma, conduzido pela mão daquela corajosa menina de seis anos de idade que ousou lutar contra algo que era tido como impossível pelos mais velhos. A poética inocência venceu o medo. A opção pela naturalidade nas atuações, marca registrada da diretora, garante alguns momentos encantadores. 

sábado, 9 de setembro de 2017

Sobre o boicote (sutil) ao filme "Polícia Federal - A Lei é Para Todos"

Acaba de ser lançado o filme "Polícia Federal - A Lei é Para Todos", percebo a clara intenção de boicote de parte do público, atitude que sempre repudio. Uma breve reflexão: a beleza do cinema é também a capacidade de abordar o mesmo evento por perspectivas diferentes. Você pode ver um clássico alemão de propaganda nazista e a resposta norte-americana incitando os jovens à guerra, "Suss the Jew" (1940) é antissemita até o talo, enquanto "Confissões de um Espião Nazista" (1939) desfere um soco de direita no queixo de Hitler.

Por este motivo não consigo acreditar quando leio um texto crítico profissional tentando deslegitimar o filme nacional utilizando como base o argumento de que retrata a versão de apenas um lado da história. Não há argumento mais tolo, um desserviço à função da crítica como ferramenta filosófica que prima pela pluralidade de pontos de vista. Ficando no mesmo tema, "Lula, o Filho do Brasil" era imparcial? Que os dois filmes sejam vistos, nunca boicotados (ainda que de forma sutil), que a pluralidade de abordagens agregue à experiência de cada espectador.

Pretendo escrever em breve sobre a obra, mas já adianto que gostei do ritmo e, com algumas ressalvas, considero um importante passo no gênero de thriller político, vertente poucas vezes trabalhada no cinema nacional. Qualquer tentativa da nossa indústria de se aventurar fora da zona de conforto narrativa deve ser incentivada.

Lançamento do meu segundo livro (dias 4 e 9 de setembro)


Esta foi uma semana muito especial em minha vida, estou lançando meu segundo livro. "A Arte do Guerreiro Lúcido" é uma obra sobre esperança, uma celebração apaixonada do poder inspirador da cultura em momentos de crise.


O artista dedicado que vive no Brasil já se acostumou com a frustração, basta ver o material que é valorizado e divulgado nos veículos diariamente, a vergonha alheia ganhando cada vez mais espaço, escritores sérios morrendo à míngua em estandes vazios na Bienal do Livro, enquanto tolos midiáticos imediatistas arrebanham multidão. Apesar de divulgar bastante nas redes sociais o novo livro, poucos são os profissionais que demonstram interesse em ajudar neste processo. Já me acostumei a ler mensagens de colegas que pensam em desistir, compreendo cada impulso, não é fácil trabalhar dependendo do interesse de outrem pelo aprimoramento intelectual constante. Boa parte sequer mensura a importância de se lançar um livro, afinal, nunca terminou a leitura de um tomo.


"Um país se faz com homens e livros", Lobato afirmava. Eu acredito plenamente. Agradeço o carinho da editora Jaguatirica com o meu trabalho. E agradeço o carinho de todos que puderam estar presentes na Livraria Blooks de Botafogo no dia 4, e no estande da editora na Bienal do Livro (RJ) no dia 9, compartilhando comigo esta emoção. Que a minha paixão por cinema e literatura nunca esmoreça diante do cenário lastimável em que estamos inseridos.


TOP - 2003


1 - Oldboy (Oldeuboi), de Park Chan-wook
"... A melhor adaptação de quadrinhos no cinema, quem diria, não veio da indústria norte-americana. O coreano Park Chan-wook provoca catarse sensorial ao contar uma história que me remeteu em sua essência ao clássico "O Enigma de Kaspar Hauser", de Herzog, e "Muito Além do Jardim", protagonizado por Peter Sellers, adaptado do livro "O Videota". A principal diferença é que o protagonista vivido por Choi Min-sik busca a vingança após o confinamento..."


2 - Dogville, de Lars von Trier
"... Apesar de insuportavelmente pretensioso, este é o trabalho mais poderoso do diretor, aquele em que a estética verdadeiramente agrega, ao invés de servir apenas como exibicionismo. Uma crítica à sociedade que rejeita empatia, uma análise contundente sobre a propensão do ser humano ao apedrejamento..."


3 - A Viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi), de Hayao Miyazaki
"... Lançado em 2001, mas estreia agora no Brasil, um trabalho sensível e encantador do estúdio Ghibli sobre a coragem necessária para se enfrentar o caminho do autoconhecimento, o melhor filme de Miyazaki até o momento..."


4 - Sobre Meninos e Lobos (Mystic River), de Clint Eastwood
"... O roteiro espertamente subverte as expectativas geradas pela sinopse, compondo um retrato melancólico do devastador efeito das cicatrizes existenciais, a comprovação da maturidade de Eastwood como diretor..."


5 - Memórias de Um Assassino (Salinui Chueok), de Bong Joon-ho
"... Suspense de altíssimo nível com toques de humor envolvendo os perigos de uma investigação irresponsável, uma aula coreana que poderia ser assimilada pela indústria de Hollywood..."


6 - Extermínio (28 Days Later...), de Danny Boyle
"... Uma releitura criativa dos zumbis de Romero em uma produção de baixo orçamento, com destaque para, desde já, uma das sequências mais impactantes do gênero: a perseguição ao som da "Ave Maria", de Gounod..."


7 - As Confissões de Schmidt (About Schmidt), de Alexander Payne
"... Gratíssima surpresa que impressiona com as atuações de Jack Nicholson e Kathy Bates, um estudo sobre o tédio, o peso da melancolia e o aprendizado precioso que a simples empatia pode suscitar..."


8 - As Invasões Bárbaras (Les Invasions Barbares), de Denys Arcand
"... Temas profundos sendo abordados com leveza, Arcand consegue se superar em sua crítica à intelectualidade academicista após o ótimo "O Declínio do Império Americano"..."


9 - Simplesmente Amor (Love Actually), de Richard Curtis
"... O conceito pode ser considerado brega, mas a execução é primorosa, especialmente considerando o estado criativo vegetativo em que o gênero da comédia romântica se encontra..."


10 - Igual a Tudo na Vida (Anything Else), de Woody Allen
"... Na figura de Jason Biggs, opção ousada de Allen, encontramos a versão jovem do tipo que o cineasta defendeu por boa parte de sua carreira. O roteiro constrói um emaranhado filosófico bem-humorado a partir de uma situação simplória ocorrida em uma viagem de táxi..."

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

"Histórias Que Nossas Babás Não Contavam", de Osvaldo de Oliveira


Silvio Santos foi um generoso pai para toda uma geração de garotos, a programação do SBT apimentava as tardes com comédias adolescentes eróticas e presenteava as nossas noites de Domingo com clássicas pornochanchadas. “Histórias Que Nossas Babás Não Contavam”, de 1979, costumava ser transmitida com frequência na “Sessão das Dez”, as chamadas nos intervalos do “Topa Tudo Por Dinheiro” já bastavam para que eu, na época, um pré-adolescente excessivamente introvertido, sentisse aquele maravilhoso frio na espinha, antecipando uma noite mágica na frente da televisão e o atraso considerável na escola na manhã seguinte.

“Se você já desconfiava das histórias que a babá contava, tinha toda razão! Ela lhe contou uma outra versão. O lado que você conhecia era só fantasia, história de príncipe e princesa sempre acaba em safadeza. ” (Tema musical de abertura)

Hoje em dia a moda é discutir a agitada vida sexual dos reis, rainhas e príncipes de “Game of Thrones”, mas nada surpreende aquele que cresceu vendo a princesa Clara das Neves sendo disputada em sorteio por seis anões tarados, já que o sétimo, Zangado, amargava o orgulho ferido após perder o monopólio sexual da turma de “filhinhos da... floresta”, como o roteiro espirituosamente define o grupo. A maravilhosa Adele Fátima, dublada com a voz sensual de Marly Marcel, ficou marcada para sempre no imaginário coletivo da garotada. Meiry Vieira, outra beldade, vivia a maldosa rainha que era aconselhada pelo espelho mágico homossexual, vivido por Renato Pedrosa. O príncipe, vivido por Dênis Derkian, dublado por Marcelo Gastaldi, teve a sorte de atravessar horizontalmente neste filme o caminho de duas das mulheres mais lindas do cinema erótico nacional, mas, em uma reviravolta que nem M. Night Shyamalan cogitaria, acaba sorridente nos braços do anão rejeitado. E pensar que o cinema engajado atual acredita estar sendo revolucionário. 

“A história da maçã é fantasia, maçã igual àquela o papai também comia. ” (Marchinha de Carnaval entoada pelos anões)

Conversei com o Dênis sobre as lembranças das filmagens e de como ele foi escalado para o projeto, depoimento exclusivo para o “Devo Tudo ao Cinema”.

D - Caro Octavio, vai aí um resumo do que lembro quanto ao projeto, já não me recordo com precisão de nomes e lugares, mas descrevo a situação. Eu lembro que estava numa roda de pessoas ligadas ao cinema da boca, rua do Triunfo, e discutia-se os rumos do cinema, como sempre difíceis. A conversa começou séria, depois de algum tempo, como sempre entre um copo e outro, alguém disse: já que está tudo uma merda mesmo, podíamos fazer um filme satirizando os contos de fadas, mas tudo na sacanagem, aí saiu um: puta que pariu! Alguém criticou, disse que isso ia dar merda, que a crítica ia cair de pau; outro disse: que se dane a crítica. E começou a viagem: que tal chapeuzinho vermelho e o lobo mau? A coitada da chapeuzinho, o lobo mau e vovozinha foram sacaneados por algum tempo pela turma, até que alguém deu a ideia da Branca de Neve, começou outra sessão de sacanagem, até que alguém disse que isso daria um filme. Quem fará a Branca Neve? Daí começou a esculhambação, até que alguém disse que precisava ser uma mulata gostosa, tipo aquelas do Sargentelli. Daí saiu outro “puta que pariu”. E a Rainha? Vários nomes sugeridos. E o caçador? Alguém disse: Costinha, daí veio outro “puta que pariu”. E o Príncipe? Saiu o terceiro palavrão, seguido de “você, bonitão! ”. Aquilo só podia ser brincadeira! Só que não foi, aconteceu!

O - Osvaldo de Oliveira foi um grande diretor de fotografia, trabalhou na série “Vigilante Rodoviário” e em “O Caso do Irmãos Naves”, e, como diretor, ele tinha feito alguns filmes voltados para a música sertaneja (como “No Rancho Fundo”, de 1971), antes de entrar no filão da pornochanchada. Como ele lidou com o material do filme? Vocês tinham boa relação? E seu relacionamento com o elenco?

D - Sobre a minha relação com o diretor, na verdade não tínhamos proximidade, nos víamos às vezes, mas não existia nenhum vínculo de amizade até a filmagem propriamente dita, eu conhecia o profissional, os filmes e histórias engraçadas. Ele era uma figuraça, no set só confirmou o profissional conhecedor de seu ofício e sua intimidade com as lentes e enquadramentos, muito técnico, deixou seu legado, um diretor do cinema feito na raça, em um tempo de titãs. Saudades do velho Carcaça! Quanto a relação com o elenco, conhecia Felipe Levy, os demais fui conhecer no dia das filmagens, não existia essa prévia, tipo leitura de texto, apresentação do elenco, discutir personagem etc... Era no grito, se vira nos trinta. Logicamente que coisas inéditas aconteciam no set, o Príncipe montava um belo garanhão branco, cheguei mais cedo no set de filmagem para poder criar um vínculo de confiança com o animal, já que tratava-se de um puro sangue, logo obtive domínio do animal, fiz com ele várias vezes o percurso da estreita picada pela qual deveria passar montado, estava tudo bem, posicionaram a câmera na lateral da picada, na cena eu teria que passar por ela montado no belo animal, fizemos alguns ensaios de passagem pela câmera, mas na hora do valendo, o bicho pegou, pois a câmera produzia um som que lembrava o guizo de cobra cascavel. Quem disse que esse cavalo passava pela câmera? O belo puro sangue foi substituído por um pangaré, no filme ninguém percebeu a troca (risos). Tem uma falha curiosa na película, eu fumava na época, numa das cenas onde estou montado no cavalo, entre os ensaios da cena que se repetiu várias vezes, o diretor filmou o ensaio, e nesse momento acendi um cigarro, pois era ensaio, não estava valendo. Eu penso que na montagem prevaleceu o take em que estou com o cigarro entre as rédeas (risos). E guardo uma lembrança hilária do Costinha. Ele não voa, tinha medo de avião. Eu perguntei a ele a razão, ele respondeu: já pensou se é o dia do piloto morrer e eu estou junto? (risos)

O - Como é que você enxerga, em retrospecto, este trabalho?

D - Sinceramente, penso que não existiu intenção de fazer crítica, ninguém estava levantando qualquer bandeira social, muito menos intelectual, nem mesmo indicando uma nova tendência, acho que a intenção era que a ideia fosse reverter em bilheteria, talvez o produtor tenha imaginado um fenômeno de bilheteria. O filme, pelo que acompanhei e soube, teve carreira normal. O curioso é que depois, no decurso dos anos, ele foi despertando curiosidade de diferentes públicos, e é assunto de jovens cineastas, continua gerando riqueza para seu produtor. Hoje é Cult. No âmbito do reconhecimento, nada mudou. Eu nunca recebi um só centavo de direitos autorais. Na esperança que o produtor algum dia disponibilize em algum banco os valores correspondentes que nós atores temos direito, contudo sigo “cinemando”, tomando cuidado redobrado para não mais trabalhar com picaretas, prometo oferecer ao público mais alguns bons filmes. 


sábado, 2 de setembro de 2017

Kung-Fu Fighting - "China O'Brien" e "China O'Brien 2", de Robert Clouse


China O'Brien - A Herdeira do Dragão (China O'Brien - 1988)
China O'Brien 2 (1990)
O cinema oriental de artes marciais consagrou várias mulheres ao longo das décadas, mas no ocidente apenas uma conseguiu se provar rentável nas bilheterias: Cynthia Rothrock. E ela, baixinha e de aspecto meigo, meteu o pé na porta da indústria no momento em que os heróis de ação norte-americanos representavam o auge do fisiculturismo. Vale salientar também que, ao contrário de suas imitadoras, ela não ligava sua imagem cinematográfica à sensualidade, o seu desejo era, como professora de karatê na vida real, criar uma persona nas telas que inspirasse as meninas. Como comparação, analise a forma como Ronda Rousey é trabalhada nas cenas de suas produções, as coreografias dos filmes protagonizados por Mimi Lesseos, ou a personagem de Kathy Long em “The Stranger”, pura satisfação de fetiche masculino, com as curvas do corpo realçadas pelo figurino e pelos ângulos da câmera.

Infelizmente, Rothrock é pouco lembrada hoje em dia, não participou de obras especialmente importantes, mas registrou seu “chute do escorpião” (quando ela neutraliza o oponente que a agarrou por trás chutando acima de sua cabeça e diretamente em seu rosto) em várias pérolas de baixo orçamento que faziam a festa da garotada nas locadoras de vídeo. Ela chamou atenção inicialmente em produções de Hong Kong, foi parceira de Michelle Yeoh no bom “Justiça em Dose Dupla”, de 1985, mas seu grande momento solo foi em “China O’Brien”, para o estúdio Golden Harvest. Quem jogava “Streets of Rage” no Sega Genesis vai perceber a clara inspiração para a estética do jogo, o trio de heróis formado por Rothrock, Richard Norton e Keith Cooke (que faria alguns anos depois o Reptile em “Mortal Kombat”) é propositalmente uma caricatura pueril, são tipos carismáticos que caberiam perfeitamente nas páginas dos quadrinhos infanto-juvenis. A policial China (inspirada na história real do corajoso xerife Buford Pusser, que, sozinho, decidiu limpar sua cidade da máfia) jura não utilizar mais armas de fogo após atirar em um marginal adolescente. O enigmático Dakota (Cooke), com aparência de índio e uma mão imobilizada, exibe um estilo de luta mais acrobático e busca vingança contra o chefão da região, que matou sua mãe. Matt (Norton), namorado de China, tem um estilo de luta altamente teatral, sendo capaz de desferir cinco socos no rosto da vítima em poucos segundos.

A direção dos dois filmes é de Robert Clouse, responsável por “Operação Dragão”, o clássico de Bruce Lee. Os roteiros são simplórios, as coreografias são empolgantes, acho curioso que no final dos dois, os vilões principais não enfrentam a protagonista, algo nada usual no gênero, eles são assassinados por mulheres fragilizadas, aquelas que sofriam diretamente com suas atitudes. A personagem de Rothrock age como elemento transformador de inspiração, modificando o ambiente em que vive e, de forma indireta, resgatando o amor próprio daquelas que haviam sido subjugadas. 

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"A Ceia dos Acusados" e "A Comédia dos Acusados", de W.S. Van Dyke


A Ceia dos Acusados (The Thin Man – 1934)
A Comédia dos Acusados (After The Thin Man – 1936)
Uma das minhas lembranças mais agradáveis envolvendo a época do Natal foi quando preparei uma maratona caseira com os seis filmes da série, material que era impossível de encontrar em VHS, mas que consegui nos primeiros anos de garimpo na internet. Na época, minha única preocupação era a escola, aproveitava cada segundo das férias com cinema em casa e livros. Eu ainda não havia lido nada de Dashiell Hammett, mas já tinha lido sobre a adaptação de sua obra mais leve, “The Thin Man”, uma mistura deliciosa de suspense detetivesco com screwball comedy. E, claro, a presença de uma das minhas musas cinematográficas mais queridas, Myrna Loy, interpretando Nora Charles, ajudou a intensificar o desejo de ter contato com estas produções. Ela não era só linda, sensual e charmosa, também exalava intelectualidade, em suma, irresistível. William Powell, que vive Nick Charles, é bem diferente do tipo descrito no livro, não é decadente, nem está fora de forma, mas como só li a obra mais tarde, não me incomodou. Vale ressaltar que “thin man” (magro) se refere à vítima do assassino, já li muitas críticas brasileiras que ligam o título ao protagonista. É impossível enxergar outro ator no papel, o domínio de cena, o timing cômico, a maneira como ele defende o texto, a química matadora com Loy. 

O caso a ser resolvido nunca faz sombra ao show da dupla nos momentos mais comuns, tentar acompanhar as reviravoltas é pedir para ficar confuso, o desenvolvimento é problemático, sendo bastante sincero, as tramas dos seis filmes se misturam em minha mente, não há nada especialmente interessante nas investigações. A maneira como o casal interage de forma desaforada é que engrandece o resultado. É como Nick explica logo na primeira cena do primeiro filme, mostrando para um atendente do bar como preparar melhor a bebida com a coqueteleira: “O mais importante é o ritmo”. O crime a ser resolvido é apenas a moldura para situações de cumplicidade encantadora. Ele, um detetive aposentado bon vivant que vive sob o efeito do uísque, trata sua profissão como algo comum, sem encanto. Ela, refinada dama da alta sociedade, fascinada pela aventura e pelo perigo, gosta de ser uma espécie de “Watson” na vida de seu marido. Entre eles, Asta, um adorável e ciumento fox terrier. Os dois primeiros filmes são os melhores, mas recomendo que todos sejam vistos em ordem cronológica. 

“A Ceia dos Acusados” foi filmado em apenas dezesseis dias, mérito do milagreiro diretor W.S. Van Dyke, de “Tarzan – O Homem Macaco”, que gostava de fazer poucos takes, o que explica o feeling espontâneo no set, algo que ajudou bastante na equação de sucesso da obra. Ele também foi o responsável por direcionar o foco dos roteiristas Frances Goodrich e Albert Hackett, casados na vida real, ao relacionamento do casal, deixando o mistério policial em segundo plano, atitude que não foi bem recebida pelos executivos da MGM. E pensar que já li um famoso crítico brasileiro se referir ao W.S. Van Dyke como “medíocre”. O sucesso inesperado de público garantiu a continuação com orçamento triplicado, “A Comédia dos Acusados”, título nacional horroroso, que traz um jovem James Stewart em um papel desafiador. Hammett foi contratado para escrever uma nova trama, a troca de farpas do casal é ainda mais hilária, até Asta recebe mais atenção, protegendo sua esposa canina dos galanteios de um cão vizinho. O filme foi um sucesso, o roteiro foi indicado ao Oscar.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Guilty Pleasures - "Aeroporto 75" e "Aeroporto 77"


Aeroporto 75 (Airport 1975 - 1974)
Aeroporto 77 (Airport '77 - 1977)
“Aeroporto”, dirigido por George Seaton em 1970, adaptado do popular livro de Arthur Hailey, inaugurou a era mais celebrada dos filmes de desastre, com sua estrutura narrativa que remetia ao clássico “Grande Hotel”, de Edmund Goulding. O elenco refinado e de relevância internacional, Burt Lancaster, Dean Martin, Van Heflin, George Kennedy, Jean Seberg e Jacqueline Bisset, o tema de amor composto por Alfred Newman e que virou sucesso na versão de Vincent Bell, além da utilização ousada da tela dividida, garantiram o interesse do público, o filme foi um tremendo sucesso nas bilheterias, apesar de ser chato como poucos, elegante e bem produzido, mas interminável.  Três filmes foram feitos inspirados livremente no conceito, artistas respeitados que representavam diferentes gêneros e épocas inseridos em uma situação de grave perigo. Sem ligação direta com o original, com exceção da participação de George Kennedy, os roteiros enfocavam no melodrama folhetinesco, com alívios cômicos rasos e uma satisfatória construção de suspense. 

“Aeroporto 75”, “Aeroporto 77” e “Aeroporto 80 – O Concorde”, apesar de abordarem tragédias aéreas, são, de fato, ferramentas de marketing positivo para os aviões em destaque, já que os problemas nunca são causados por falha técnica, as máquinas são tão avançadas tecnologicamente que até mesmo uma aeromoça sem experiência pode tomar o lugar do piloto e dar conta do recado. A quarta produção é lastimável, nem mesmo a presença da maravilhosa Sylvia Kristel, eterna “Emmanuelle”, consegue fazer a experiência ser menos constrangedora. Mas eu nutro carinho especial por “Aeroporto 75” e “Aeroporto 77”, ainda que estejam longe de ser considerados bons. A trilha sonora de John Cacavas, especialmente em 75, pode ser considerada uma das melhores da década. Os pilotos, Charlton Heston (75) e Jack Lemmon (77), dignidade e credibilidade indiscutíveis, você realmente acredita que eles seriam capazes de salvar o dia. O cinema de horror é representado em 77 por Christopher Lee, o Drácula da Hammer, e em 75 pela figura adorável da jovem Linda Blair, que agora, já livre da possessão demoníaca, faz amizade com uma freira cantora e passa o tempo inteiro deitada em uma cama. Gloria Swanson (75), James Stewart (77), Myrna Loy (75), Joseph Cotten (77) e Olivia de Havilland (77) representam a justa reverência à época de ouro da indústria, uma noção de respeito à memória cultural que infelizmente se perdeu em Hollywood. 

“Aeroporto 75” não foi pensado como uma espécie de releitura, a ideia original do roteirista Don Ingalls, nome respeitado na televisão, envolvia um típico projeto imediatista despretensioso para a tela pequena, mas o produtor da Universal ficou empolgado com a possibilidade de lucro certo ao revisitar o sucesso do início da década. O roteiro insere a figura descaracterizada do personagem de George Kennedy como tentativa desesperada de estabelecer alguma ligação. A direção ficou sob a responsabilidade de Jack Smight, nome sem créditos relevantes, que obviamente se divertiu muito com o material, o tom é assumidamente debochado. Não por acaso, 75 foi o escolhido pelos irmãos Zucker como base para as gags mais hilárias do espetacular “Apertem os Cintos... o Piloto Sumiu! ”. Karen Black abraça com muita dignidade o papel da pessoa comum que enfrenta uma situação absurda. Ao contrário do original, o interesse do roteiro está no exótico material humano dentro do avião, pouca atenção é dedicada aos profissionais em terra, elemento que facilita o investimento emocional do espectador. A sequência em que o piloto substituto é transferido, preso em um cabo de aço, do helicóptero para o avião, entrando pelo buraco na fuselagem, apesar de todos os truques visuais datados, segue eficiente. Produzido ao mesmo tempo que seu primo rico: “Terremoto”, dividindo boa parte da equipe técnica e elenco, “Aeroporto 75” vence com folga no cruel teste do tempo.

“Aeroporto 77” é pura picaretagem, adorável, maravilhosa picaretagem. “O Destino de Poseidon”, que considero o melhor filme catástrofe de todos os tempos, havia elevado os padrões em 1972, enchendo os cofres da FOX, mostrando a luta por sobrevivência em um transatlântico que vira de cabeça para baixo após ser atingido por uma onda. Por que não investir em uma trama em que um Boeing 747 atravessa o Triângulo das Bermudas e afunda no oceano? Unir o medo de voar com o medo de morrer afogado. Há um pouco da mística que envolve o local e, claro, a possibilidade de criar angustiantes sequências submarinas. Os roteiristas Michael Scheff e David Spector aceitaram o desafio e operaram um considerável milagre. A trama é muito mais absurda que a de 75, mas o tom não é de deboche, o trunfo do filme é se levar a sério, com a ajuda importante da interpretação sóbria e respeitável do sempre competente Jack Lemmon. 

sábado, 26 de agosto de 2017

Sobre a incompreensão da função da crítica e a parcela de culpa dos profissionais da área

Quando eu comecei a escrever sobre cinema, a imagem do crítico era menosprezada neste país pelo grande público, ele era visto como o "chato do contra", o "dono da verdade", aquele que diz o que deve ser visto e o que deve ser desprezado. Uma das minhas metas era, em longo prazo, melhorar este triste panorama. Mas parte considerável de culpa por esta equivocada visão que alimentou por décadas a incompreensão sobre a função da crítica recai nos ombros de muitos profissionais da própria crítica cinematográfica. Aqueles que segregam, aqueles que querem se sentir especiais, aqueles que diminuem os esforços dos outros sem pensar duas vezes. 

Quando o profissional utiliza o cinema como base possível para extravasar sua arrogância, ele acaricia o próprio umbigo, satisfaz o ego, atrai seus semelhantes (pedantes que necessitam de autoafirmação intelectual) e afasta todos aqueles que verdadeiramente amam a arte, ou que estão começando a se interessar, uma fagulha que deve ser sempre estimulada. O crítico medíocre precisa traçar uma linha imaginária na areia e garantir que está com os pés fincados no "lado certo", deslegitimando os outros, tolos, amadores, irrelevantes. Para ele, "a regra é clara". Só que não existe uma regra, uma única maneira de se escrever profissionalmente sobre cinema. A crítica profissional acadêmica é estruturada nos critérios do profissional que a escreve, logo, naquilo que ele defende como correto, ele não segue uma tabela. François Truffaut, por exemplo, escrevia movido por paixão. Ele então não pode ser considerado um profissional da "crítica acadêmica"? Escrever com paixão não é o mesmo que escrever sem embasamento teórico. 

Como sempre afirmo, a fascinação pela arte crítica reside exatamente na pluralidade de análises, especialmente naquelas que argumentam visões opostas. Se a análise acadêmica fosse conduzida por robôs (única forma de não ser subjetiva), obviamente não haveria oposição de ideias, mas também não creio que haveria público. Como o palestrante chato que passa duas horas falando em tom monocórdico e sem brilho nos olhos, com trinta livros abertos na mesa, para meia dúzia de rostos bocejantes. Ele busca apenas o status social/profissional, não se importa com o receptor. O que fascina o cinéfilo é sentir, por trás de toda a exposição teórica, o profundo amor do profissional pelo material que analisa. O ideal seria que todos os veículos impressos presenteassem o público com o maior número possível de textos sobre cinema, mas creio que isto não seja financeiramente atraente, o que diz muito sobre o nível educacional do brasileiro. Mas, como salientei em texto recente, aquele que não é impedido pela preguiça intelectual sabe que veículos impressos são apenas uma fonte de informação.

Eu celebro todos aqueles que escrevem na área movidos pela paixão e contaminados pelo vírus do garimpo intelectual. O crítico de cinema não é chato, o chato é ser arrogante em qualquer área. 

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

"Bingo: O Rei das Manhãs", de Daniel Rezende


Bingo: O Rei das Manhãs (2017)
O cinema brasileiro está começando a entender que a versatilidade temática é fundamental na construção de uma indústria, as histórias menos convencionais podem operar a mágica do encantamento que urge pela revisão. É exatamente o que acontece em “Bingo: O Rei das Manhãs”, dirigido por Daniel Rezende e com fotografia de Lula Carvalho, uma obra em que podemos sentir em cada cena, em cada detalhe, o amor profundo pelo material. Quem era criança na década de oitenta será automaticamente hipnotizado pela impecável recriação da época, desde toques sutis como a fonte da legenda que remete às fitas VHS, passando pela seleção musical matadora, até algumas soluções narrativas propositalmente ingênuas (como o interlúdio musical onírico de revide e o recurso visual de comunicação entre pai e filho) que evocam a doçura poética de clássicos do período, como “Cinema Paradiso”.

O roteiro de Luiz Bolognesi equilibra com maestria o drama e a comédia, sem medo de ousar nos dois, inserindo doses generosas de pimenta e recusando se desviar do lado mais sombrio da trama, sendo espertamente coerente com o espírito anárquico do protagonista. O texto cômico é extremamente eficiente, ajudado por um elenco verdadeiramente inspirado. Se a trava emocional imposta pela devoção religiosa da diretora do programa limita seus movimentos, opção física inteligente que sugere desconforto e a necessidade de ser respeitada profissionalmente, Leandra Leal permite que a natural revolta interna de Lúcia seja liberada em breves e intensos segundos de descontração. É brilhante a forma como o filme trabalha o elemento da teatralidade, força motriz no circo televisionado e no púlpito do templo evangélico, versões altamente diluídas de impulsos genuínos e que visam prioritariamente o lucro financeiro.

A mãe do palhaço, maravilhosa Ana Lúcia Torre, atriz sensível que é afastada dos palcos e passa a ser subutilizada pelos produtores em funções tolas, obrigada a ver jovens de rostos bonitos e mentes vazias dominando o cenário artístico nacional. A cena em que ela enfrenta com dignidade esta realidade é emocionante, um primor técnico, envolvida e acariciada pelas sombras de suas glórias de outrora, esquecida por um povo sem memória. Vladimir Brichta, vivendo Augusto/Bingo, está impressionante, irrepreensível, como é triste ver um talento como ele sendo usualmente desperdiçado em rasas telenovelas. Perceba como ele constrói o personagem inicialmente no olhar, nos gestos que gradativamente vão se tornando mais claudicantes à medida em que seu psicológico já fragilizado (pela insegurança profissional, por querer ser mais do que um corpo nas pornochanchadas) avança rapidamente em espiral descendente com o vício das drogas, até que, no terceiro ato, despido existencialmente, porém, com sua vaidade intacta, ele limita seus movimentos, seu espaço físico, rimando com o ponto de partida da mulher que ama, que, por sua vez, tendo conquistado segurança profissional, aceita relaxar um pouco. Os dois se completam.

Inspirado livremente na vida de Arlindo Barreto, o filme é o clássico conto do azarão que consegue a grande chance e, inebriado pela fama, perde contato com suas raízes e precisa reencontrar o caminho. No limiar do abismo ele percebe que a resposta estava ao seu lado o tempo todo, o filho pequeno, seu legado. O azarão temático em um gênero nacionalmente dominado por mínimas variações afinadas por um mesmo diapasão, “Bingo: O Rei das Manhãs” é um dos melhores filmes do ano.

TOP - 2004


1 - Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of The Spotless Mind), de Michel Gondry
"... O roteiro brilhante de Charlie Kaufman nos induz a questionar a nossa frágil psique, com a angústia de alguém em lidar com a indiferença do outro. Apaga-se a memória, mas ele ainda existe..."


2 - Peixe Grande (Big Fish), de Tim Burton
"... A perspectiva da morte faz com que o jovem busque conhecer aquela incógnita falastrona, que sempre o deixava envergonhado em suas festas com seus arroubos criativos. Angustiado com a recusa do pai em se mediocrizar, tornar-se comum, o seu filho então decide conduzir uma pequena investigação, que acaba levando-o a constatar que somente a fantasia, o lírico, realmente satisfaz de forma plena..."


3 - Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de Sofia Coppola
"... A insegurança demonstrada na posição fetal da jovem e o tédio que ele expressa no desleixo com que preenche seu lado da cama. Lentamente percebemos a mão dele vencendo o medo da entrega do sentimento, a insegurança pela diferença de idades, procurando o toque que simboliza naquele momento muito mais que um beijo..."


4 - Colateral (Collateral), de Michael Mann
"... A estética e o ritmo, aliados à competência de Tom Cruise e Jamie Foxx, garantem o impacto sensorial em um dos melhores filmes do gênero nos últimos anos..."


5 - Má Educação (La Mala Educación), de Pedro Almodóvar
"... O diretor insere temas perturbadores de uma forma onírica e demasiadamente humana, desafiando o espectador a acompanhar seu raciocínio, proposta corajosa..."


6 - A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de Mel Gibson
"... Por trás da ideologia questionável de Gibson, anestesiando os ensinamentos de amor e compaixão do personagem ao favorecer a agonia da purificação pela dor, não há como negar que a obra é um primor técnico..."


7 - Todo Mundo Quase Morto (Shaun of The Dead), de Edgar Wright
"... Esqueça o título nacional horroroso, Edgar Wright é uma das melhores surpresas do cinema na história recente, subvertendo as expectativas do público e firmando uma caligrafia autoral no gênero da comédia..."


8 - Primer, de Shane Carruth
"... O segredo reside no desinteresse do autor em construir algo convencional, agradável, para o público, o que resultou em uma trama que nunca seria comprada por qualquer estúdio, nenhum teria coragem de arriscar perder dinheiro com algo tão desafiador..."


9 - Diário de Uma Paixão (The Notebook), de Nick Cassavetes
"... O filme de romance que, sem querer reinventar a roda, renova as esperanças no gênero, comandado pelo competente filho de John Cassavetes, que aproveita o embalo e presta linda homenagem à sua mãe, Gena Rowlands..."


10 - A Vila (The Village), de M. Night Shyamalan
"... O diretor brinca com sua característica mais conhecida, a reviravolta final, trabalhando o conceito vazio do resgate do passado histórico como forma de lidar com um grande trauma, uma sociedade que conscientemente rejeita a lógica por uma mentirosa sensação de conforto..."

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Guilty Pleasures - "Sexta-Feira 13 - Parte 7" e "Jason Vai Para o Inferno"


Sexta-Feira 13 - Parte 7: A Matança Continua (Friday the 13th Part 7: The New Blood - 1988)
Jason Vai Para o Inferno: A Última Sexta-Feira (Jason Goes to Hell: The Final Friday - 1993)
O primeiro filme é bom, o segundo é excelente, o terceiro e o quarto são muito bons, o quinto é desprezível, o sexto é ótimo, apesar de representar uma mudança drástica de tom, mas os quatro posteriores costumam ser sempre citados como bombas nucleares. E, de fato, eles são mesmo. “Jason X” e “Sexta-Feira 13 – Parte 8: Jason Ataca Nova York” merecem constar na lata de lixo da história do gênero. O problema é que eu tenho um carinho especial por “Sexta-Feira 13 – Parte 7” e “Jason Vai Para o Inferno”, ainda que enxergue todos os defeitos, são meus guilty pleasures na querida franquia do assassino imortal de Crystal Lake.

O diretor John Carl Buechler pode não ter demonstrado muito talento em seu ofício, as atuações no sétimo filme estão entre as piores da série, mas é inegável que contribuiu impecavelmente para a cultura pop mundial ao lutar com os produtores pela escalação de Kane Hodder, amigo com quem havia trabalhado em um projeto anterior, para viver Jason Voorhees. Os engravatados do estúdio não enxergavam no rapaz o senso de ameaça, afinal, qualquer dublê poderia defender as cenas do monstro mudo com o rosto coberto por uma máscara. Mas o diretor sabia que Hodder traria algo novo, seguiu sua intuição, os fãs agradecem até hoje! O segredo é que ele realmente amedrontava as suas vítimas nas filmagens, a respiração pesada, a movimentação do corpo, a brutalidade com que executava as coreografias intencionava transmitir para o elenco o real sentimento de alguém que percebe que está nas mãos de um louco extremamente agressivo. Aliada ao toque visual inteligente do diretor, que decidiu fazer pela primeira vez a figura do assassino remetendo diretamente às várias “cicatrizes de guerra” sofridas nas produções anteriores, esta versão consegue resgatar o senso de perigo de um personagem que já havia se transformado em deboche. Quando Jason é libertado da corrente que o manteve debaixo do rio por dez anos, apesar da motivação tola envolvendo o trauma de infância da telecinética Carrie genérica (vivida por Lar Park Lincoln), você se sente atraído por aquela inexplicável força da natureza. Outro elemento que retorna em doses generosas após o monástico sexto projeto é a nudez gratuita, maravilhosa distração que compensa os diálogos constrangedores e o desenvolvimento patético dos coadjuvantes jovens.

O nono filme já não é tão fácil de defender, qualquer pessoa acima dos dez anos de idade é capaz de concluir que não é bom. O problema é que eu tinha dez anos quando ele estreou no Brasil. Aluguei várias vezes o VHS nos anos seguintes, vibrei com a sequência final em que a luva do Freddy Krueger aparece e carrega a máscara de Jason para o inferno, em suma, guardo boas lembranças. Mas, analisando carinhosamente, vale ressaltar uma qualidade inegável, o nível de gore é impressionante, algo que não era comum na franquia. O diretor Adam Marcus consegue ser menos expressivo que o Buechler, o tom é de projeto amador, o roteiro inventa uma irmã para Jason e uma adaga mágica que, mesmo tendo visto várias vezes a obra, ainda não consigo entender como se encaixa na trama. Kane Hodder infelizmente aparece menos desta vez, explode logo no início, reaparece ao final como se nada tivesse acontecido, o “espírito” do monstro vai possuindo corpos de vítimas, opção que, em teoria, serviria como sopro de ar fresco, caso o conceito fizesse qualquer sentido na história. É uma adorável bobagem despretensiosa com jeitão de picaretagem independente, sobra espaço até para uma homenagem a H.P. Lovecraft e ao “Evil Dead”, de Sam Raimi, utilizando em uma cena o livro Necronomicon, obviamente guardado na casa dos Voorhees. A sequência inicial propõe uma crítica hilária às convenções do slasher e da própria série, com a equipe da SWAT armando uma cilada para o assassino, utilizando como cobaia uma beldade policial disfarçada de descerebrada seminua adolescente.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

TOP - 25 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos


O cinema brasileiro é rico em temas, o problema é que muitos diretores não conseguem fazer seu trabalho ser comercialmente disponível, poucos conseguem atravessar o funil e ir além dos festivais de cinema. Há uma massa de intelectuais brasileiros que desprezam o cinema de gênero, professores de faculdades de cinema estimulam em seus alunos esta atitude errada. Uma nova geração de críticos, da qual faço parte, está lutando diariamente para mudar esta triste realidade em longo prazo.

Alguns destes filmes que eu selecionei nem sequer são lembrados por estes profissionais veteranos, mas demonstram a versatilidade, coragem e bom humor destes artistas que geralmente trabalham com orçamento muito baixo. Da era silenciosa aos tempos modernos, todos os gêneros, drama, romance, suspense, comédia, horror, documentário, filmes infantis e intensos filmes de ação. Aqui estão os 25 melhores filmes brasileiros:

25 – Os Saltimbancos Trapalhões (1981)
"Os Trapalhões" eram um grande sucesso no Brasil, um grupo de comédia amado por crianças e adultos, mas nunca fizeram algo tão ousado quanto este filme. Adotando a estrutura de um musical infantil (músicas escritas por Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, adaptado ao português por Chico Buarque), vale a pena enfatizar o roteiro ousado, a bela mensagem dos pobres artistas de circo unidos como uma oposição corajosa aos atos ultrajantes de um ditador, um elemento que engrandece o resultado com um excitante simbolismo.

24 – Noite Vazia (1964)
Walter Hugo Khouri, inspirado por Antonioni e os jovens cineastas franceses da Nouvelle Vague, lida com a angústia de quem, em teoria, não teria motivos para sofrer, os problemas existenciais da burguesia. Os personagens são hipócritas incapazes de exercer o esforço necessário para escaparem da inércia, o confinamento no apartamento simboliza o medo de enfrentar o mundo.

23 – Assalto ao Trem Pagador (1962)
Com base em um caso real que aconteceu no Rio de Janeiro, quando uma gangue atacou o trem pagador da Central do Brasil, Roberto Farias consegue criar um ótimo filme de assalto com muito pouco orçamento, pressionando o dedo sobre a ferida da sociedade preconceituosa e racista da época. O elenco brilhante, com destaque para Eliezer Gomes, Grande Otelo e Reginaldo Faria, ajuda a elevar ainda mais a qualidade do filme.

22 – O Caso dos Irmãos Naves (1967)
O filme de Luís Sérgio Person, corajosamente nos anos da ditadura militar, conta a verdadeira história de prisão, tortura e morte de Joaquim e Sebastião Naves, injustamente acusados ​​de um crime. Presos e torturados, os irmãos são obrigados a confessar um crime que não cometeram. Um dos casos mais emblemáticos de erro judicial no Brasil.

21 – O Bandido da Luz Vermelha (1968)
Rogério Sganzerla, com muito pouco orçamento, experimentou (e subverteu loucamente) com as convenções do thriller de Hollywood. Fugindo da lógica populista dominante no Cinema Novo, não há heroísmo na pobreza, não há esperança, apenas a devastação direcionada a tudo e a todos.

20 – O Gato de Madame (1957)
Amácio Mazzaropi foi um dos maiores nomes do cinema brasileiro, profundamente amado pelas pessoas, apesar de ser humilhado na vida por críticos profissionais que desprezaram seu trabalho. Ele lutou para estabelecer uma indústria cinematográfica autossustentável no país. Neste projeto, dirigido por Agostinho Martins Pereira, ele foi favorecido por um roteiro corajoso que extraiu o humor ácido das críticas sociais, zombando de praticamente todos os conceitos estabelecidos, principalmente sobre políticos e a utopia socialista, com citações como: "Democracia é como uma melancia, verde de esperança por fora, mas vermelha por dentro, queimando com o desejo de mandar em tudo."

19 – Abril Despedaçado (2001)
Walter Salles tornou-se conhecido no mercado exterior com "Central do Brasil", mas foi com o projeto seguinte que conseguiu o equilíbrio sensorial perfeito. Inspirado pelo livro do albanês Ismail Kadaré, adaptado ao cenário do nordeste brasileiro, o roteiro é um conto de vingança entre duas famílias, mas não se concentra na violência, o interesse é no desenvolvimento de personagens expostos aos níveis mais profundos da miséria humana.

18 – Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010)
O primeiro filme explodia na cara do espectador como uma espingarda, o segundo é como um tiro de bala dumdum, penetra no corpo e causa maiores danos internos. A reflexão crítica que o roteiro de José Padilha propõe é o elemento que o torna um produto superior no gênero ação, o inimigo não é apenas o criminoso violento nas ruas, mas também o sistema político podre que governa a sociedade em que a violência está inserida.

17 – Lavoura Arcaica (2001)
A fidelidade ideológica de Luiz Fernando de Carvalho às páginas do livro de Raduan Nassar pode ser percebida inicialmente na preocupação do diretor por uma construção detalhada, desde o uso do texto original, através das ideias inteligentes no figurino de Beth Filipecki, até a elegância funcional do Gordon Willis brasileiro: Walter Carvalho.

16 – Pixote - A Lei do Mais Fraco (1981)
A realidade cruel das ruas é evidenciada pelo diretor Hector Babenco, em seu melhor trabalho, abordando a perda de inocência em crianças expostas a um mundo de crime e prostituição. O pequeno Pixote é enviado a um reformatório, mas descobre que o sistema está corrompido, e que talvez ele estivesse mais seguro longe das garras da lei.

15 – Ganga Bruta (1933)
Iniciado em 1931, este filme mudo dirigido por Humberto Mauro sofreu consideráveis ​​atrasos. O produtor Adhemar Gonzaga sonhou em filmar o projeto na Amazônia, que acabou por não acontecer, com problemas de dinheiro. Ainda assim, a produção simbolizava uma maturidade profissional do cinema brasileiro, com cenas internas capturadas por quatro câmeras, algo usual em Hollywood na época, mas novidade para a indústria cinematográfica brasileira.

14 – Viagem ao Fim do Mundo (1968)
Com forte inspiração nas obras da filósofa francesa Simone Weil, simbolizada no monólogo existencialista de uma freira sobre a hipocrisia da religião, especialmente como uma ferramenta política, um ponto extremamente atual em uma sociedade em que um candidato que se declara ateu não vence a eleição, o filme do diretor Fernando Coni Campos, embora seja parte do movimento Cinema Novo, pode ser visto como uma antítese da celebração da rebelião sofisticada nas obras de Glauber Rocha, já que seu experimentalismo visual não parece buscar inspiração na melancolia poética do neorrealismo italiano.

13 – O Lobo Atrás da Porta (2013)
O roteiro do diretor Fernando Coimbra, que estreia de forma promissora com a coragem de um veterano como Michael Haneke, se atreve a seguir o caminho do gênero de suspense com personalidade, ajudado pelas ótimas atuações de Leandra Leal e Milhem Cortaz.

12 – Terra em Transe (1967)
Glauber Rocha disse que estava tentando fazer algo que fundisse o cinema intelectual que foi feito na Europa (o surgimento da Nouvelle Vague), com Hollywood. Misturando John Ford e Eisenstein. Em "Terra em Transe", ele conseguiu criar sua obra-prima, aproximando-se mais eficientemente de seus desejos artísticos.

11 – Casa de Areia (2005)
A riqueza do roteiro complementada por uma entrega magistral das atrizes, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real, cria poesia orgânica, que convida o público a pensar e se emocionar neste inesquecível conto de solidão dirigido por Andrucha Waddington.

10 – A Hora da Estrela (1986)
Não é difícil concluir que esta bela adaptação de Suzane Amaral para o livro de Clarice Lispector, fiel à essência e eficiente na sua execução, é o melhor filme brasileiro da década de oitenta, verdadeira flor no asfalto. A sensibilidade do roteiro, que funciona com uma simplicidade incomum no período, uma época em que todos os cineastas brasileiros pareciam tentar imitar a cacofonia visual de Glauber Rocha, que, por sua vez, emulava experimentos franceses, cativa o espectador já nas primeiras cenas, quando conhecemos a protagonista: Macabéa, vivida por Marcélia Cartaxo.

9 – Cabra Marcado Para Morrer (1984)
Eduardo Coutinho fazia uma espécie de cinema intensamente emocional, original, corajoso, que forjava uma audiência consciente e crítica, um elemento essencial, principalmente por causa da maneira como sua lente aborda um tema que, em outras mãos, poderia se tornar algo panfletário, manipulador, reduzindo tudo a uma visão simplista.

8 – Filme Demência (1986)
Produzido pela Embrafilme, um roteiro escrito por Carlos Reichenbach e Inácio Araújo, esta pérola ainda é raramente comentada por cinéfilos brasileiros, o trabalho mais pessoal do diretor. Idealizado em tempos de crise nacional, a ideia original teve que ser abortada após cortes no orçamento e acabou por ser transformada em uma versão para "Fausto" de Goethe.

7 – De Vento em Popa (1957)
O movimento Cinema Novo dos anos 70 capitalizou com a pobreza, mas a crítica política e social desses filmes empalidece em comparação com a imagem de Oscarito mantendo seu disfarce como cientista aristocrático, um conceito cômico que atinge o alvo com mais pungência do que todos os chamados "revolucionários" cineastas brasileiros fariam nos anos seguintes.

6 – Navalha na Carne (1969)
O diretor Braz Chediak conseguiu estabelecer uma atmosfera opressiva praticamente insuportável, dominada por planos fechados e longas tomadas, com um uso sábio do silêncio, que vai além dos primeiros trinta minutos com apenas sons diegeticos. O texto corrosivo de Plínio Marcos, defendido de forma naturalista pelos atores consome o ambiente claustrofóbico, a sala fétida e desorganizada que serve como microcosmo de uma sociedade hipócrita.

5 – Vidas Secas (1963)
A inteligência do diretor de fotografia Luiz Carlos Barreto, com lente nua, sem filtros, deixando a luz explodir, esmagando os personagens no terreno escaldante. O chiado das rodas do carro de boi é a trilha sonora ensurdecedora, colocando o espectador em um estado alterado e desconfortável, imediatamente imerso na realidade desesperada da família sertaneja.

4 – O Despertar da Besta (1970)
O filme já começa ao som de "Ave Maria", que é implacavelmente interrompida pelo som de um grito de horror. Somente esse elemento seria um argumento suficiente para a estúpida ditadura militar agir como censura. Eles não apenas impediram que o filme fosse exibido nos cinemas, queimaram as cópias. Recuperado nos anos oitenta, continua sem lançamento comercial. Com um roteiro refinado de Rubens F. Lucchetti, baseado em um argumento de José Mojica Marins cheio de metalinguagem, que, no contexto da época, ousou falar sobre o comportamento humano de uma forma que ainda hoje é corajosa.

3 – Limite (1931)
Este belo filme mudo foi amado por David Bowie e selecionado para restauração por Martin Scorsese. Desconhecido pelo público brasileiro, reconhecido no exterior como obra-prima, o filme de Mário Peixoto usa a sobreposição poética de imagens desarticuladas e muito simbolismo, abordando o infortúnio da humanidade diante da limitação universal.

2 – O Pagador de Promessas (1962)
Em 1962, um jovem chamado Anselmo Duarte, ator em filmes como "Sinhá-Moça" e "Aviso aos Navegantes", decidiu dirigir uma história à frente de seu tempo. Ele trouxe a Palma de Ouro, do Festival de Cannes, despertando a inveja de seus colegas.

1 – Cidade de Deus (2002)
Fernando Meirelles conseguiu capturar a revolta brasileira com as taxas crescentes de violência urbana e o sentimento absurdo de impotência diante de um sistema que parece proteger os criminosos, a impunidade em todos os níveis, canalizando essa raiva coletiva para a estética de seu filme. É rápido, é brutal, é real.

* Lista preparada para o site norte-americano "Taste of Cinema". Link para a postagem original, com os textos em inglês e sem cortes: http://www.tasteofcinema.com/2017/the-25-best-brazilian-movies-of-all-time/