terça-feira, 25 de abril de 2017

Cine Bueller - "O Rapto do Menino Dourado", de Michael Ritchie


O Rapto do Menino Dourado (The Golden Child - 1986)
Esse filme, com a dublagem espetacular de Mario Jorge, fez minha infância mais feliz. Em uma época sem internet, a garotada ficava repetindo na sala de aula as frases do filme, como: “Eu quero o punhal”, “Não, nem morto, nojo”, “Só quero umas batatinhas”, “Viva o Nepal”, “Tira essa meleca do casaco antes que ela congele e arranhe você”, “É a continuação de um livro chamado: Tora Doce, sobre toras confeitadas”, “Você viu um anãozinho hare krishna nu por aí, correndo com uma nota de cem dólares? ”, “Me engana que eu gosto” e “Parece um bagulhão, passa a língua e fuma”. E todos entendiam o contexto, porque ele havia sido exibido na “Sessão da Tarde” do dia anterior. Lançado na mesma época que o tematicamente similar “Os Aventureiros do Bairro Proibido”, muitos se referem a ele como um dos primeiros escorregões na carreira de Eddie Murphy, não consigo entender o argumento, considero superior a “Um Tira da Pesada” e “48 Horas” juntos!

O roteiro foi escrito por Dennis Feldman, responsável por um dos melhores filmes adolescentes dos anos oitenta: “Quase Igual aos Outros” (Just One of The Guys), inserindo o tipo urbano malandro de Murphy em um cenário de exótico misticismo, com personagens que poderiam ter saído das aventuras fantásticas de Ray Harryhausen, como a mulher dragão. O equilíbrio perfeito entre humor e ação dá o tom da missão que é dada pela linda Charlotte Lewis ao investigador especializado em localizar crianças perdidas: Salvar o Menino Dourado, a criança que nasce a cada mil anos com o poder de espalhar o bem, ou o mal, pela face da Terra, das mãos do demônio vivido com sobriedade shakespeariana pelo sempre competente Charles Dance. O projeto inicialmente seria protagonizado por Mel Gibson, mas acabou tendo que ser modificado radicalmente com a entrada do comediante que estava em franca ascensão. O diretor Michael Ritchie vinha do sucesso com “Fletch – Assassinato por Encomenda”, veículo para Chevy Chase. É perceptível que ele deu sinal verde para improvisações, o elenco se mostra bastante relaxado, sentimento que é transmitido para o espectador e consegue transformar diálogos, no papel, comuns, em material cômico de alto nível.

Vale destacar o exemplo mais deliciosamente cara de pau de product placement, a cena da latinha dançante de Pepsi, ao som de “Putting on the Ritz”, produzida pelos magos da ILM, de George Lucas, utilizando técnica pioneira que depois seria trabalhada em “Uma Cilada Para Roger Rabbit”. Para a criança brasileira que estava acostumada a ver o Bocão da Royal jogado de qualquer maneira nas cenas dos filmes dos Trapalhões, esse refinamento publicitário era uma lufada de ar fresco. 

sábado, 22 de abril de 2017

"Vida", de Daniel Espinosa


Vida (Life - 2017)
O filme dirigido pelo sueco Daniel Espinosa é um terror sci-fi extremamente competente, infelizmente prejudicado pelo setor de marketing que o vende como uma homenagem ao “Alien” de Ridley Scott. Esse tipo de estratégia causa um problema grave, insere o elemento da expectativa na equação.

É tolice comparar o cenário da indústria hoje com o do final da década de setenta, o ritmo da narrativa do clássico hoje não seria aceito pela garotada imediatista que vai para a sala escura para extravasar as frustrações sociais, falar alto e frequentemente checar mensagens no celular. Se o filme antigo, exatamente como ele é, tivesse sua estreia hoje, seria um fracasso nas bilheterias. É uma triste constatação de como a sociedade culturalmente deu passos largos para trás. A informação hoje precisa ser transmitida com rapidez publicitária, o roteiro apresenta os personagens, insere o conflito e conduz, com muita ação, até o desfecho, essa é a fórmula. E, como crítico e público, aplaudo sempre que vejo um projeto no gênero que ousa se desviar dessa armadilha.

O roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick não cria algo especialmente novo, mas utiliza um modelo desgastado como laboratório criativo, a câmera caótica no início desorienta o espectador, aproveitando a falta de gravidade no ambiente, refletindo o estado psicológico dos astronautas, longe de seus familiares e forçados a um convívio alimentado por sentimentos essencialmente artificiais. Com poucas cenas, não mais que vinte minutos, o companheirismo é estabelecido eficientemente. Ao mostrar eles respondendo questões de crianças no monitor, ou carinhosamente saudando o colega que acaba de conhecer em uma transmissão de vídeo o seu filho recém-nascido, o espectador é levado naturalmente a se importar com aqueles indivíduos, mérito que merece ser salientado. O elenco ajuda nesse sentido, o foco não é a construção de personagens, mas Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Olga Dihovichnaya e Aryion Bakare são carismáticos o suficiente, ainda que com poucas oportunidades dramáticas.

Quando a ameaça alienígena se faz presente, visualmente inofensiva a princípio, “Vida”, não tendo nenhuma relação com a criação de Ridley Scott, acaba se mostrando mais fiel ao espírito perturbador do primeiro “Alien”, que as sequências oficiais protagonizadas pelo xenomorfo. Outro ponto que merece ser ressaltado é a forma como a trama termina, utilizando um truque que sintetiza a mágica do cinema, a montagem como o ilusionista. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Woody Allen - "Hannah e Suas Irmãs"

Link para os textos anteriores desse especial que se leva tão a sério quanto o próprio Woody:

"Euclides levantou da cama, admirou a vista da janela, agradeceu à chuva por lavar seu carro, tomou um shot de uísque para despertar seu organismo, desceu a escada em direção à cozinha, percebeu que seu cão havia fugido novamente, discou o número do vizinho, constatou que não havia ninguém em sua casa, piscou duas vezes os olhos para umedecer as vias lacrimais, pensou por um momento em como seria interessante o conceito da Terra plana para quem tem pés chatos, depois levantou a mão direita na direção do rosto e afastou com delicadeza o mosquito que tencionava se alojar em sua pele para sugar..."

O editor não conseguia acreditar naquilo que estava lendo, ele jogou os originais do autor na mesa e pediu para sua secretária entrar em contato com o rapaz imediatamente. A reunião foi marcada para aquela tarde, o destino literário de Ashton Moser estava por um fio.

Ashton Moser, pseudônimo de Cícero Adamantino, entrou no escritório com a segurança de um narcisista em uma sala de espelhos, ele representava o futuro da nação, o jovem que trocou uma carreira promissora na loja de calçados por uma possibilidade de inserir seu nome dentre os imortais das letras. O único obstáculo era sua capacidade impressionante de ser desprovido de qualquer talento na área. Ele se sentou e aguardou os elogios.

- O seu herói se chama Euclides? – O editor tentou iniciar no amor.

- Exatamente. Um espião à serviço secreto de sua majestade...

- O sabiá? – O corte debochado do seu superior perceptivelmente não o agradou.

- Como? Não estou entendendo.

O editor se levantou, contendo seu impulso de esmurrar o nobre mentecapto, trabalhando cada palavra com a leveza de um boxeador.

- É pedir demais que você se atenha ao cenário nacional? O seu texto é chato porque você quer passar uma imagem de algo que não conhece, nem sequer estuda o tema. Você é tipo aquele diretor de cinema metido a culto que filma uma árvore ao contrário por cinco minutos e chama isso de arte. Eu não vou te enrolar, o seu texto é insuportável!

- Eu já te contei do meu outro projeto engavetado? – A animação do autor surpreendeu o editor.

- Você escutou uma palavra do que eu disse?

O jovem se levantou também, aquele feedback negativo não parecia ter abalado sua confiança.

- Olha, imagine isso, uma história que vai agarrar o público pelo bolso...

- Diga, Cícero, não me faça sofrer por antecipação.

- Uma mulher, dois homens, um corretor de imóveis...

- Ok, já escutei o suficiente. Chega! Leve seus originais e, por favor, pense no que eu te disse. Você precisa se alimentar, está magro demais, precisa tomar um sol, sair um pouco e se divertir.

- Eu tentei começar um treino na academia de ginástica.

- É isso! Esse é o caminho. Não está treinando?

- Eles exigiram um exame físico, eu disse que já havia passado por uma bateria de exames médicos de vídeos de ASMR, a personal trainer não aceitou...

O editor, prezando por sua sanidade, abriu a porta do escritório e esperou o rapaz abandonar o local. Aquele era o fim da promissora carreira literária de Ashton Moser, o mito nacional, a lenda.


Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters – 1986)
A filha mais velha de um casal de artistas, Hannah (Mia Farrow) é uma dedicada esposa, mãe carinhosa e atriz de sucesso. Uma leal defensora de suas duas confusas irmãs: Lee (Barbara Hershey) e Holly (Diane Keaton), ela é também a espinha dorsal de uma família que parece se ressentir de sua estabilidade quase tanto quanto dependem da mesma.


Inspirado em "Fanny e Alexander", de seu ídolo Ingmar Bergman, Allen trabalha a evolução de um núcleo familiar através de três celebrações anuais, pela ótica do leitmotiv defendido em cena: "O coração é um músculo muito, muito elástico". Na cena mais bela do filme, ele captura aquela que considero a melhor explicação para a vida. Seu personagem acreditava estar prestes a morrer, entristecido também pela impossibilidade de sua esposa engravidar, sem paixão com relação ao futuro, então ele caminha pela cidade sem rumo por algumas horas, guiado apenas pela centelha de esperança que se recusa a ceder perante a doença fatal que acredita ter. Ele chegou a apontar o cano de um rifle para a própria cabeça, acreditando não haver motivação alguma em sua existência. Nada parecia fazer sentido, até que ele entra numa sala de cinema e, mesmo naufragando em um oceano de depressão, ele se surpreende sorrindo com uma comédia dos Irmãos Marx.

O personagem conclui que, mesmo a vida sendo um passeio numa montanha-russa de mais baixos que altos, aqueles breves momentos de conforto e alegria valem o preço do ingresso. E o elemento desconhecido inerente a todos nós, que o perseguia com tantos questionamentos, nunca seria plenamente revelado, independentemente do quão insistentemente perguntasse. Ele então relaxa na poltrona, com todos os seus conflitos internos sucumbindo ao peso daquele leve entretenimento, e se permitiu o prazer da diversão. O ânimo adquirido naquela sessão motivou seu espírito a enfrentar mais um dia. E, um ano depois, envolvido em uma relação muito mais feliz com outra mulher, num ato inesperado do destino, ele se emociona por ter realizado o sonho de ser pai.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Como Hollywood trabalha a figura de Jesus


Quando o cinema aborda temas religiosos, dificilmente faz de forma original. Há basicamente duas maneiras de se tocar no assunto, com exagerada reverência, ou correndo os riscos de se abraçar a contestação crítica. Não existe o meio termo. Algumas das melhores obras que a sétima arte nos legou no passado tocam exatamente nestes temas. Produções grandiosas como “A Bíblia” (1966), do lendário John Huston, prestam-se a forçar no didatismo, deixando de lado a fluência de um ritmo mais cinematograficamente sedutor, favorecendo a retratação simples de várias passagens do livro sagrado católico. A longa duração não ajuda a tornar a experiência mais agradável, criando um enfadonho e nada orgânico retrato dos textos milenares. Problema parecido sofre o pomposo “A Maior História de Todos os Tempos” (1965), de George Stevens, com Max von Sydow interpretando um Jesus um tanto quanto apático e pouco marcante. De qualquer modo, a culpa não pode recair no ator, mas no roteiro truncado e, para piorar, na direção megalomaníaca (a várias mãos) e perceptivelmente desorientada. No cinema mudo, o diretor francês Carl Theodor Dreyer eternizou a imagem de Renée Falconetti como uma sofrida Joana D’Arc no ótimo “A Paixão de Joana D’Arc” (1928). Algo raro, mesmo o filme sendo contrário à igreja católica, conseguiu entrar na seleta lista dos indicados pelo Vaticano.


Existem filmes de menor apuro técnico com o intuito central, não menos importante neste gênero, de doutrinar o público. Essas produções podem ser encontradas aos montes nas seções religiosas das locadoras, estampando por vezes em suas capas artistas renomados. Estas obras não possuem méritos que as tornem referências. Honestamente, eu prefiro aquelas incursões de diretores autorais e com roteiros audaciosos, como “A Última Tentação de Cristo” (1988), de Martin Scorsese. O filme nos propõe uma instigante releitura da vida de Cristo que evita as suas virtudes divinas e dedica generosa atenção às suas inconfessáveis fraquezas humanas. Considerado pela igreja católica como algo abrasivo e herético, acabou sendo proibido em diversos países. Baseado no ótimo livro de Nikos Kazantzakis, o roteiro se foca no conflito interior entre o messias predestinado por Deus ao derradeiro sacrifício e o homem comum, que ambiciona constituir família e desfrutar de uma vida pacífica em pleno e confortável anonimato. Em sua ânsia de proteger o legado de Cristo (e, claro, seus próprios interesses), a igreja deixou de perceber o quanto o filme é essencialmente cristão. Scorsese apenas mostra durante as quase três horas de duração uma alucinação de Jesus já na cruz, garantindo que, ao final, ele esteja consciente de que seu suplício final era necessário. Não existe nada de herético em se apresentar uma segunda versão, ainda mais quando ela não tem pretensão alguma de ser vista como a oficial. Afinal, se nós somos criações à imagem e semelhança de “Deus”, porque ele se furtaria a refletir o que temos de mais humano, a nossa própria natureza cheia de conflitos? Esta releitura de Scorsese e Kazantzakis, junto ao roteirista Paul Schrader, mostra-se muito mais interessante que a concepção tradicionalmente acatada, tão destituída de humanidade.


O diretor húngaro Ladislao Vajda filmou em 1955 o terno e sensível “Marcelino Pão e Vinho”, que trazia como protagonista o jovem e carismático Pablito Calvo. A obra cativou públicos de todas as idades com a história de um menino órfão que é deixado em um mosteiro. Solitário e ingênuo, o pequeno acaba fazendo amizade com uma enorme estátua do Cristo crucificado, com a qual conversa. É encantadora a forma como a trama trabalha a pureza da criança. O meu filme favorito do gênero, o responsável por minha paixão pelo cinema, como já citei em textos anteriores, não aborda centralmente Jesus, mas acredito que é o que melhor se utiliza de sua figura: “Ben-Hur” (1959), de William Wyler, com Charlton Heston no elenco. No épico embate entre o judeu vivido por Heston e seu inimigo romano, vivido por Stephen Boyd, na clássica corrida de quadrigas, existe uma motivação muito bem construída. Judah Ben-Hur outrora havia sido um príncipe. Ele perdeu tudo após ser traído por seu amigo de infância: Messala, que cresceu e se tornou um centurião romano ambicioso e arrogante. Após uma infeliz tragédia, o príncipe vê sua vida destruída ao ser levado para as galés. 


O roteiro deixa claro que a cada virada de seu remo, o ódio e o desejo de vingança crescia nele, junto à angústia de não saber o paradeiro de sua mãe e irmã, abandonadas no vale dos leprosos. Na obra literária de Lew Wallace e na versão muda de 1925, o personagem de Jesus e o contexto bíblico são muito presentes, quase que dividindo a obra em duas partes distintas. Na celebrada refilmagem, Cristo se mostra menos presente visualmente, mas seus atos ecoam ao longo de toda projeção. Ele ensina ao jovem revoltado que o caminho da espada nunca é solução, o ódio só alimenta o ódio, a maior rebeldia em um mundo corrupto é se manter íntegro. Outro grande acerto dos produtores foi não mostrar seu rosto, fazendo com que sua presença fosse notada pelo uso magistral da impressionante trilha sonora de Miklos Rozsa. Wyler não quis fazer sermão para ninguém, apenas contar uma bela história que poderia ter como pano de fundo qualquer período histórico. Acredito que este filme transcende qualquer tipo de limitação filosófica, religiosa ou cultural.

Mesmo um ateu pode perceber que a história de Jesus tem todos os elementos de um grande herói mítico, com a glória, queda e a redenção ao final. Mel Gibson conseguiu transpor a sua visão da queda de maneira excruciante no ótimo “A Paixão de Cristo” (2004). Poucas cenas são tão emocionantes quanto uma desesperada Maria indo socorrer seu filho caído no chão, após não ter suportado o peso da cruz. A beleza da edição, que intercala o momento trágico com um flashback da mãe e do filho ainda criança, aliado a uma linda trilha sonora de John Debney, já valem a experiência difícil de assistir o sofrimento que o diretor intencionalmente nos mostra ao longo da projeção. Uma obra completamente antagônica à visão de Gibson é “Rei dos Reis” (1961), do mestre Nicholas Ray. Aproveitando o sucesso que os épicos religiosos estavam fazendo na época, com filmes como “Os Dez Mandamentos”, “Quo Vadis” e “O Manto Sagrado”, Hollywood decidiu dar uma face ao personagem central do catolicismo. Escolheram para esta missão o jovem Jeffrey Hunter, que possuía fama de bom moço e nunca havia se envolvido em nenhum escândalo que abalasse sua persona pública. O filme, narrado por Orson Welles, reconta de forma bastante didática e poética os eventos descritos no Novo Testamento. Com a ajuda da imponente trilha de Miklos Rozsa são apresentadas cenas de incrível beleza estética, que acabaram tornando-se referências no gênero. Passagens como o sermão da montanha exalam refinamento e emocionam sobremaneira. É, sem dúvida alguma, a versão cinematográfica de Jesus mais elegante já realizada. 


Já o italiano Franco Zefirelli exagerou no didatismo em seu monumental “Jesus de Nazaré” (1977), esquecendo que estava criando um produto para todos os tipos de público, não uma exibição de slides para uma palestra católica. Rico em informações, mas estruturalmente fraco e com esparsos momentos de genuína emoção. O grupo inglês Monty Python, com sua genial verve cômica, nos convida a ver a história do messias por outro ângulo em seu precioso “A Vida de Brian” (1979). Caso assistido em sessão dupla com outra obra prima do grupo: “O Sentido da Vida” (1983), mostra-se uma experiência que abre mentes e amplia conceitos enquanto diverte. Um bom exemplo de crítica eficiente ocorre no segundo filme citado, um pai católico explica à sua extensa prole que terá que doar as crianças para experiências científicas, já que o Vaticano proíbe os métodos anticoncepcionais e ele está financeiramente quebrado. A cena é conduzida como um grande musical, com direito a freiras dançarinas e um refrão que defende: “Caso um esperma seja jogado fora, Deus ficará muito irado”.

O cinéfilo pode escolher sua versão favorita: O Jesus humano e questionador (logo, combatido pela igreja católica) de Scorsese e seu polêmico “A Última Tentação de Cristo”, o Jesus puramente simbólico e inocente que ajuda Pablito Calvo no clássico “Marcelino, Pão e Vinho”, o Jesus didático de Zeffirelli em seu gigantesco “Jesus de Nazaré”, o Jesus poético, loiro e de olhos azuis de “Rei dos Reis”, o Jesus transgressor e musical de “Jesus Cristo Superstar”, entre muitos outros. O cinema une a todos e nos faz discutir ideias e subverter conceitos. Seria louvável se as organizações religiosas criadas pela ganância do homem também fossem assim.

"12 Homens e Uma Sentença", de Sidney Lumet


12 Homens e Uma Sentença (12 Angry Men - 1957)
É possível escutar os tambores de guerra no horizonte, vivemos tempos sombrios, líderes políticos promovendo ódio, segregação cruel, valores invertidos em todos os níveis da sociedade, medo e dor, angústia e fome, o mundo parece estar nas mãos de loucos e psicopatas, o apedrejamento nunca foi tão incentivado nas redes sociais, justiceiros virtuais que compartilham notícias falsas e são facilmente manipulados, aderindo a modismos imediatistas, frases repetidas pelo prazer de se sentir parte da manada, gostos moldados servindo aos interesses dos titereiros, vivemos a era da informação ao alcance de todos, mas grande maioria do povo perdeu o elemento fundamental do interesse.

Um adulto alfabetizado que enxerga alguma verdade na estratégia torpe de um programa televisivo que melhora seus pontos de audiência com uma polêmica grosseiramente engendrada. Um jovem alfabetizado que aplaude fervorosamente um político estúpido defensor do clássico “direitos humanos para humanos direitos”. Figuras que respiram, comem, caminham e falam, mas não passam de zumbis em estado vegetativo, intelectualmente vazios. O mundo precisa urgentemente de pessoas como Davis, o personagem vivido por Henry Fonda.

O roteiro gira em torno do julgamento de um jovem porto-riquenho que é acusado de ter matado o próprio pai. Doze jurados são convocados para decidir a sentença. Onze deles, movidos por razões egoístas e por puro preconceito, votam sem pensar duas vezes pela condenação. O jurado número oito (Fonda) é um homem de caráter íntegro, ele acredita que o jovem deve ser considerado inocente até que se prove o contrário. Os seus colegas se revoltam com essa atitude, a pequena sala de júri é abafada, o calor intensifica os ânimos. Não há qualquer senso de empatia deles pelo rapaz, uma vida dispensável, o estranho responsável por aquela tarde perdida. A voz dissonante é a mais baixa na mesa, o homem introvertido, elegante, de poucos gestos, o rebelde que pede apenas para que seus pares argumentem, dedicando tempo ao caso, atenção sincera, em suma, um clamor por humanidade.

O senso comum forja verdades frágeis, convicções são alimentadas por sentimentos pequenos, a memória é capaz de criar situações impossíveis, as provas teoricamente inabaláveis podem ser aniquiladas caso analisadas por outro ponto de vista, o ser humano enxerga aquilo que quer ver, projetando no outro as suas frustrações e desejos mais íntimos. O brilhante diretor Sidney Lumet, trabalhando o roteiro de Reginald Rose, reduz ao máximo o espaço cênico, a trama se passa quase que inteiramente nesse único local, uma decisão muito acertada. O suspense é estruturado nos diálogos, no embate franco de ideias. A solução se dá a partir do questionamento, recurso cada vez mais raro em nossa sociedade.

É fundamental que os seres humanos despertem desse coma existencial, não é possível que essa tragédia anunciada não possa ser evitada. A minha esperança reside naquele indivíduo que, contra todas as probabilidades, levanta a mão e pede a palavra, ousando confrontar o pensamento medíocre dominante.

terça-feira, 11 de abril de 2017

"Dogma", de Kevin Smith


Dogma (1999)
O mundo corre o risco de desaparecer. Tudo por causa de Bartleby (Ben Affleck) e Loki (Matt Damon), dois anjos expulsos do céu e que querem retornar a qualquer custo. Para tanto, eles têm um plano: Cruzar o portal de uma igreja em New Jersey para, absolvidos de seus pecados, poderem retornar ao paraíso. Só que tal ato provaria que Deus é falível e, como consequência, a realidade se desmancharia. Para evitar que a tragédia ocorra é montada uma equipe de combate aos anjos, formada pela última descendente de Jesus Cristo (Linda Fiorentino), um 13º apóstolo negro (Chris Rock), dois profetas (Jason Mewes e Kevin Smith) e uma Musa Inspiradora (Salma Hayek).

Eu lembro que tomei conhecimento do filme à época da estreia nas páginas da revista Sci-Fi News, o tema e a abordagem me fizeram vibrar por antecipação. Eu já gostava muito do trabalho do roteirista/diretor Kevin Smith, “O Balconista” e “Barrados no Shopping”, que gravei de exibições no Telecine, quando a televisão a cabo ainda era uma novidade lá em casa. Ele é o tipo de pessoa que consegue transformar qualquer assunto em algo hipnoticamente interessante, basta ver como ele domina a plateia até hoje em suas apresentações com um senso de humor muito afinado. O roteiro é brilhante, a cantora Alanis Morissette interpreta “Deus” como uma criadora com senso de humor, Chris Rock faz um apóstolo negro amargurado por não ter sido citado na Bíblia, Salma Hayek e Alan Rickman aproveitam cada segundo, cada linha espirituosa de texto, como figuras divinas nada convencionais. 

Para um adolescente questionador, ávido leitor de Carl Sagan, Isaac Asimov e outros mestres do gênero, nada poderia ser mais bem-vindo que uma divertida crítica à religião organizada. E “Dogma”, como já se poderia esperar, foi muito apedrejado pelos encabrestados religiosos, apesar de ser essencialmente uma celebração da fé. É como salienta o anjo supremo Metatron, vivido por Alan Rickman, os humanos só se importam em conhecer a matéria na superfície, eles são capazes de manter crenças sem qualquer conhecimento sobre o tema. Logo nas primeiras cenas, uma personagem afirma que se cansou de ir às missas e não sentir nada, o ritual é a perfeita antítese de tudo o que Jesus pregou, ele era o primeiro a dizer que a oração devia ser um ato solitário do indivíduo, ele odiaria saber que templos foram levantados em seu nome. Mas, nesse mundo moderno tão exótico, até mesmo feministas podem ser católicas, o estudo é algo cada vez mais menosprezado, adultos alfabetizados ainda enxergam alguma relevância divina na figura de um Papa, nada mais justo que Smith convocar o saudoso comediante George Carlin, ateu fervoroso, para viver um padre que busca uma imagem simbólica mais boa praça do Cristo, algo menos depressivo que o corpo crucificado usual para tentar renovar o interesse do povo pela igreja, o sorridente “Buddy Christ”, profetizando, de certa forma, a estratégia eficiente que colocou Jorge Mario Bergoglio como o atual Chefe de Estado do Vaticano, alguém que é capaz até de, numa ousadia tremenda para alguém acima de seis anos de idade, afirmar publicamente que Adão e Eva não são reais. E, o pior, a imprensa do mundo todo repercutiu essa atitude altamente polêmica. Alguns analisam que a civilização humana não está preparada para o encontro com alienígenas. Já eu, mais pessimista ao constatar esses fatos, creio que ela não está preparada sequer para decidir se vai comer pão com manteiga ou ovos mexidos no café da manhã.

Ao final da sessão, a proposta de reflexão é irresistível. A fé é preciosa, Jesus ensinou que o amor é a única verdade, mas as organizações religiosas foram criadas pela ganância humana, pelo gosto do homem por poder, possibilitando absurdos como os cometidos pelos pastores neopentecostais televisivos, a redução da mulher ao papel de causadora de todos os males históricos, a segregação de homossexuais, o cruel sentimento de culpa nos fiéis que se relacionam sexualmente antes do casamento, ou nos divorciados, a omissão criminosa nos atos de Hitler, os assassinatos cometidos pela Santa Inquisição, entre muitos outros. É preciso querer abrir os olhos. Será que a massa facilmente manipulada está preparada para isso?

domingo, 9 de abril de 2017

"Os Picaretas", de Frank Oz


Os Picaretas (Bowfinger - 1999)
Sendo um produtor/diretor de cinema independente, eu me identifico profundamente com a angústia do personagem vivido por Steve Martin, Bobby Bowfinger, um sonhador que cria as próprias oportunidades, utilizando os recursos disponíveis. O roteiro escrito pelo ator é, de fato, por trás de todas as sequências hilárias, uma declaração de amor aos cineastas independentes. “Chubby Rain” (gotas de chuva gordinhas), invasão de alienígenas em gotas de chuva, conceito absurdo pensado por um contador sem experiência na área, que, aos olhos de um desesperado falido, simboliza um oceano de possibilidades criativas. O problema é que o protagonista, o astro internacional Kit Ramsay, não pode saber que está sendo filmado e que fará parte do filme. É quando a trama encontra a solução em uma crítica maravilhosa à cientologia criada pelo escritor L. Ron Hubbard, seita tola defendida no mundo real por nomes como Tom Cruise, John Travolta e Will Smith, uma prova de que dinheiro não aprimora a inteligência do indivíduo. Eddie Murphy, em seu último grande papel cômico, homenageia novamente Jerry Lewis ao abraçar duas personas radicalmente opostas, o arrogante astro de cinema e seu irmão Jiff, tímido, desajeitado e ingênuo. 

Quando o riso é causado ao colocar sapatos femininos nas patas de um cão, artifício encontrado para criar a ilusão que será montada na sala de edição, você pode enxergar uma gag visual simplória, mas, na realidade, a ação sintetiza a mágica do cinema, arte que nasceu de um acidente técnico, evoluiu anos depois com Méliès descobrindo no susto que a edição poderia operar truques, até cair nas mãos dos russos, que revolucionaram a narrativa visual pela montagem. Bowfinger une a gravação anterior da atriz solitária na locação com a cena do cão seguindo o astro que ignora estar sendo filmado, típico material que faria Ed Wood vibrar, basta lembrar o que ele fez com Bela Lugosi em “Plano 9 do Espaço Sideral”, inserindo um sósia escondendo o rosto para não desperdiçar os segundos que já haviam sido gravados antes de seu falecimento. A equipe reunida para essa missão não tem qualquer conhecimento básico sobre o tema, o diretor resgata alguns imigrantes ilegais mexicanos na fronteira, convoca uma jovem (Heather Graham) que está disposta a se deitar com todos os profissionais envolvidos no projeto, uma tragédia anunciada. É picaretagem passional, o sentimento que guiou nomes como Jess Franco e os genéricos de Bruce Lee na década de setenta, força que move atualmente cineastas como Kevin Smith, gente que verdadeiramente ama o que faz e que não se permite ser impedida de trabalhar por qualquer motivo. 

"Os Picaretas" é uma das melhores comédias da década de noventa. Veja, nem que seja apenas pela impagável sequência em que Jiff precisa atravessar correndo a autoestrada, acreditando que os carros são dirigidos por dublês. Ao chegar do outro lado, já traumatizado para o resto da vida, ele precisa escutar Bowfinger pedir mais uma tomada. Tudo pelo amor ao cinema. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

TOP - 2009


1 - O Lutador (The Wrestler), de Darren Aronofsky
"... Poucos filmes conseguiram retratar tão bem a decadência de um indivíduo. O lutador acostumado a fingir dor na arena, percebe que o pior oponente é a solidão, a culpa, a consciência de que não é aceito na sociedade..."


2 - Gran Torino, de Clint Eastwood
“... O preconceito, o medo do desconhecido, o retrato perfeito da ignorância é representado pelo personagem vivido por Clint Eastwood, inserido em uma sociedade que só dá valor ao próximo enquanto ele a serve de alguma forma...”


3 - A Partida (Okuribito), de Yôjirô Takita
"... O que morre é o corpo, desaparece nas labaredas da cremação ou é dissolvido de volta à mãe terra. Sobrevive o legado, as boas atitudes que continuarão inspirando próximas gerações, o sentimento passado e que, de tão sincero, continua a ressoar em todos aqueles que foram tocados por sua presença. Como aceitar que a máquina responsável por essa infinidade de sensações, após seu desligamento, seja manipulada com desleixo por estranhos?..."


4 – Lunar (Moon), de Duncan Jones
“... Nada mais justo que o filho de David Bowie, “O Homem que Caiu na Terra”, ser o responsável pelo melhor filme sci-fi dos últimos anos. O isolamento do astronauta na lua estimula reflexões no nível dos melhores livros de Isaac Asimov...”


5 - Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds), de Quentin Tarantino
“... Só a longa sequência inicial protagonizada por Christoph Waltz já seria mérito suficiente, mas Tarantino, equilibrando bem seus impulsos de violência, consegue entregar algo que transcende a diversão escapista, o roteiro ludicamente reescreve as páginas da História...”


6 - Mártires (Martyrs), de Pascal Laugier
“... O melhor filme de terror do ano é francês, uma pérola gore de baixo orçamento que me remete à época em que o gênero não tinha receio de agredir os sentidos...”


7 – Alexandria (Ágora), de Alejandro Amenábar
“... A história da matemática grega Hipátia, que chocou a sociedade de sua época por sua paixão pelos estudos, desafiando os dogmas católicos e a mentalidade machista que a queria ver intelectualmente vazia...”


8 - Up – Altas Aventuras (Up), de Pete Docter e Bob Peterson
“... Os primeiros dez minutos sintetizam a sensibilidade impressionante com que os diretores trabalham o relacionamento humano, uma maturidade emocional difícil de encontrar até mesmo nos dramas convencionais mais celebrados...”


9 - Dúvida (Doubt), de John Patrick Shanley
“... O tema espinhoso do padre acusado de pedofilia é trabalhado com elegância, alicerçado nas atuações poderosas de Meryl Streep, Amy Adams, Viola Davis e Philip Seymour Hoffman, compondo um retrato que permite ao espectador analisar os pontos de vista com lucidez...”


10 - (500) Dias Com Ela ((500) Days of Summer), de Marc Webb
“... Um revigorante sopro de ar fresco que subverte o gênero da comédia romântica, buscando inspiração em “Annie Hall”, com a sensibilidade conectada ao seu tempo, Marc Webb é um jovem diretor de futuro promissor...”

domingo, 2 de abril de 2017

Tesouros da Sétima Arte - "Os Verdes Anos", de Paulo Rocha


Os Verdes Anos (1963)
O cineasta português Paulo Rocha faleceu aos setenta e sete anos no dia 29 de dezembro de 2012, após um acidente vascular cerebral. Deixando para trás uma carreira estável como advogado, o jovem preferiu seguir seu sonho e absorver a arte dos franceses, em especial Jean Renoir, de quem foi assistente, voltando para seu país disposto a redefinir o cinema que lá era feito. Nas décadas anteriores, o povo português abraçava o humor simples das comédias de Vasco Santana, enquanto que filmes mais pretensiosos, quase sempre medianos, como “Saltimbancos”, que Manuel Guimarães lançou em 1951, falhavam em estabelecer conexão com seu público. No início dos anos sessenta, influenciados pelo neo-realismo italiano e pela nouvelle vague francesa, diretores como Fernando Lopes, do média-metragem: “Belarmino”, José Ernesto de Sousa, de “Dom Roberto” e Paulo Rocha, abriram novas possibilidades para o cinema português.

Levando suas câmeras para as ruas de Lisboa, sem medo de expor os contrastes sociais, ele filmou seu primeiro trabalho: “Os Verdes Anos”, contando de forma simples a relação entre um jovem (Rui Gomes) ingênuo recém-chegado do interior e uma empregada doméstica (Isabel Ruth) da cidade grande. O roteiro, em pouco tempo, estabelece eficientemente a essência de cada personagem. O garoto inseguro que se defende dizendo: “Um homem sem dinheiro é como um carro sem gasolina”, ou que se intimida no salão de dança ao som de um rockabilly. A menina deslumbrada que desfila para ele, trajando os vários vestidos de sua patroa. Salvo por um americano de uma briga com seu tio (Paulo Renato) em um bar, o garoto caminha pelas ruas acompanhado de seu novo amigo, sem que nenhum dos dois entenda o que está sendo dito pelo outro, o americano afirma em dado momento: “Não entendo uma palavra do que diz, mas estou inclinado a concordar”, traduzindo de forma brilhante o conflito do rapaz com a hipocrisia da cidade e de seu povo, numa crítica bem-humorada e ainda atual. Ao final, como em uma das variações da canção “Construção”, de Chico Buarque, a simbólica morte da sua juventude ingênua e interiorana, acarretada por uma decisão intempestiva e inconsequente, acabou atrapalhando o tráfego.

O tema e a condução podem ter envelhecido de forma pouco generosa, mas a sua trilha sonora, composta pelo genial e saudoso guitarrista Carlos Paredes, que respondeu ao convite do diretor e identificou-se com o tema, resiste bravamente, emocionando como sempre. Um filme que precisa ser garimpado pelo cinéfilo brasileiro dedicado.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Tesouros da Sétima Arte - "A Fúria dos Justos", de Mark Robson


A Fúria dos Justos (Trial - 1955)
Um tesouro que precisa ser garimpado, nunca lembrado quando se escreve sobre os filmes de tribunais, “A Fúria dos Justos” é dos melhores no tema já feitos, incrivelmente atual no cenário político brasileiro. O projeto chamou atenção à época por ter sido o primeiro a ter um juiz negro, vivido por Juano Hernandez.

Inspirado no caso conhecido como “Sleepy lagoon murder”, que chocou a opinião pública na Califórnia de 1942, o roteiro brilhante de Don Mankiewicz não força suspense algum sobre a inocência do adolescente mexicano acusado de homicídio, o espectador sabe desde o início, assim como seu advogado de defesa, interpretado por Glenn Ford, que o rapaz não matou a menina norte-americana na praia. Ela tinha sérios problemas cardíacos, os dois estavam namorando, o júri não teria dificuldade em agir com sensatez. O problema é que o homem que contratou o advogado não está interessado em liberar o garoto, ele quer um mártir para seu discurso comunista. O personagem, vivido por Arthur Kennedy, realiza comícios festivos para, supostamente, angariar recursos para os custos legais, quando, na realidade, faz fortuna para o partido com a mesma lábia torpe dos pastores neopentecostais, chega até a converter a mãe da vítima, vivida por Kathy Jurado, utilizando o show como plataforma política.

É interessante analisar a cena do julgamento, quando Barney (Kennedy), ao sentir que está perdendo terreno, passa a tentar de todas as formas desestruturar o ambiente, provocando o juiz com insinuações racistas, a estratégia comunista de incitar a guerra, dividir para conquistar, cortina de fumaça na intenção de prolongar o anúncio do veredito o máximo possível. David (Ford), um professor de direito que abraça a causa por senso de ética e amor à justiça, percebe rapidamente a espetacularização promovida pelo seu colega e se revolta, com plena consciência de que está colocando tudo a perder. Sem prática nos tribunais, inserido no esquema para não prejudicar os planos nefastos do seu superior, ele vai provar que não há força que subjugue um caráter íntegro.


* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora "Classicline". 

quinta-feira, 30 de março de 2017

"Ghost in The Shell", de Mamoru Oshii


Ghost in The Shell (Kôkaku Kidôtai - 1995)
Antes de você perder tempo com a adaptação norte-americana que está estreando hoje em nossos cinemas, dirigida por Rupert Sanders, do terrível “Branca de Neve e o Caçador”, eu recomendo que conheça o genial material original, o mangá de Shirow Masamune (pseudônimo de Ota Masanori), de 1989, e a animação dirigida por Mamoru Oshii, em 1995. É importante estabelecer inicialmente o contexto da obra, que remete diretamente ao livro “O Fantasma da Máquina”, escrito por Arthur Koestler, lançado em 1967, que critica o comportamentalismo de B.F. Skinner e o dualismo cartesiano de Descartes. Não há distinção de mente e corpo, o “fantasma” é o id na casca (shell), que nessa sociedade futurista dominada pela inteligência artificial pode ser substituída a qualquer momento.

A protagonista, Motoko Kusanagi, ciborgue que comanda a força-tarefa da Seção 9, apresentada nos quadrinhos com leveza e muitos toques de humor até os complexos capítulos finais, ganha contornos mais sóbrios no filme, uma introspecção coerente com o pouco tempo disponível para trabalhar todos os temas. Ela pode se comunicar através de cabos no pescoço, conceito pioneiro, muitos anos antes da existência no mundo real do usb e wi-fi, elemento que, dentre muitos outros, seria reverenciado generosamente (para não dizer copiado) em “Matrix”. O perigo é representado na figura do mestre dos fantoches, um software hacker com consciência, logo, que se considera uma forma de vida, passível de asilo político, ao invés da prisão por seus crimes. Quem, como eu, ama “Blade Runner” e aprecia a literatura cyberpunk, o mestre William Gibson e a trilogia formada por “Neuromancer”, “Count Zero” e “Mona Lisa Overdrive”, vai encontrar terreno fértil para discussões filosóficas na trama. O que é ser humano? Quais os malefícios da inescapável perda de individualidade? Uma memória implantada no cérebro causa a mesma emoção de uma experiência real? Um computador pode ter “alma” (o fantasma)? Se a vida consiste na preservação da informação, o software não pode ser reduzido a qualquer objeto inanimado. A solução encontrada para o problema também inspirou vários projetos posteriores, até mesmo videogames como a brilhante trilogia “Mass Effect”, que, em um dos desfechos possíveis no terceiro jogo, propõe o próximo passo evolutivo, a síntese entre homem e máquina.

A belíssima animação dedica tempo precioso ao silêncio em uma sequência que evidencia a dependência tecnológica na cidade, ajudando a compor o clima com a trilha sonora minimalista de Kenji Kawai. É possível encontrar também uma referência visual ao “Persona”, de Ingmar Bergman, na cena de “diálogo” entre Motoko e o mestre dos fantoches, o espelhamento no enquadramento dos rostos, refinamento pouco usual. "Ghost in The Shell", mangá e animação, obras-primas que somente melhoram em revisão. 

segunda-feira, 27 de março de 2017

"Übermensch", meu primeiro curta, está disponível na plataforma "Looke"


Link para o filme no Looke:

Sinopse: A angústia de um escritor desempregado tentando lidar com a perda da mulher amada em meio a uma invasão alienígena.

Elenco: Ademilson Júnior, Teresa Cristina Oliveira, Octavio Caruso, Andréa de Oliveira Barbosa e Bruna Oliveira Sampaio.

Trilha-Sonora: Mário PC.

Argumento, Roteiro e Direção: Octavio Caruso.

sábado, 25 de março de 2017

"Fragmentado", de M. Night Shyamalan


Fragmentado (Split - 2016)
Os últimos segundos do filme transformam o que era até aquele momento um bom suspense, eficiente e acima da média em diversos aspectos, em uma épica e surpreendente proposta de construção de universo cinematográfico. O recurso banalizado atualmente em produções direcionadas ao público infanto-juvenil, fórmula desgastada, recebe uma injeção de adrenalina no peito. Sem estragar a experiência, afirmo que M. Night Shyamalan encontrou novamente o caminho autoral, após mais de uma década desperdiçada em bobagens mainstream como “Fim dos Tempos” e “Depois da Terra”.

O grande problema de sua persona como cineasta é ter incutido no espectador o desafio de representar um enigma a ser decifrado em cada obra, a existência obrigatória da reviravolta final prejudica a imersão e, invariavelmente, faz qualquer solução do roteiro ser menos interessante que as mil possibilidades que nós, detetives informais na sala escura, ficamos conjecturando no decorrer da trama. Não há nada pior no cinema que a expectativa, exatamente por isso Hitchcock inseria sua aparição em cena logo nos primeiros momentos de seus filmes, evitando assim que o público deixasse de prestar atenção na história para ficar buscando ele na tela. O roteiro brinca, de certa forma, com a comparação estabelecida a partir de “O Sexto Sentido” entre o indiano naturalizado estadunidense e o mestre britânico, “Psicose” e a dupla personalidade de Norman Bates, referências óbvias, apesar de James McAvoy ser um ator muito mais competente que o saudoso Anthony Perkins. É impressionante como ele consegue abraçar várias identidades emocionalmente antagônicas em uma mesma tomada, sem o auxílio de vestuário, maquiagem ou objetos de cena, as linhas do rosto insinuam, em questão de segundos, a personalidade dominante.

Anya Taylor-Joy, um dos grandes méritos do recente “A Bruxa”, entrega vulnerabilidade e resiliência na mesma medida, algo difícil quando suas motivações são gradualmente reveladas. Ela vive uma das três adolescentes que são capturadas pelo perturbado protagonista, numa espécie de variação do tema da preservação da pureza trabalhado no livro “O Colecionador”, de John Fowles, e, posteriormente, na adaptação dirigida por William Wyler em 1965. O seu envolvimento potencializa o importante elemento de fábula, que, felizmente, evita rompantes demagógicos na conclusão de seu arco narrativo, uma opção que merece ser salientada. 

Com "Fragmentado", Shyamalan volta a ser relevante na indústria após um longo inverno.

sexta-feira, 24 de março de 2017

"Eu, Daniel Blake", de Ken Loach


Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake – 2016)
Ken Loach tem uma filmografia muito coerente, confesso que o estilo dele não me agrada muito, mas “Eu, Daniel Blake”, o mais recente, apresenta o cineasta britânico em sua melhor forma, o protagonista me conquistou já nos primeiros minutos. Um carpinteiro experiente, vivido com brilhantismo pelo comediante Dave Johns, que sofre um ataque cardíaco e fica impedido de trabalhar pelos médicos. O sistema, no entanto, faz com que ele entregue currículos diariamente na tentativa de conseguir o auxílio financeiro. Ele enfrenta a ausência de empatia dominante no reino dos burocratas, com vários diplomas na parede, porém, ignorantes no básico, incapazes de tratar com humanidade o indivíduo. 

Vivemos a era da aparência, da teoria, o que importa é inserir uma melodia tranquilizante no call center, os atendentes agem como máquinas, complicando ao máximo cada etapa do processo na esperança de que a paciência do cliente resista pelo maior tempo possível, longas ligações representam cifrões. A praticidade, a gentileza, a habilidade de se colocar no lugar do outro, valores que se perdem a cada cidadão que se revolta e decide silenciar, como o vizinho jovem que encontra uma forma fácil de lucrar com tênis importados da China, sem os impostos, tirando proveito da situação. É a estratégia do “cada um por si”, a malandragem, vendendo escalpos retirados sem esforço de índios explorados e assassinados. Abraçar a causa e lutar por ela dá trabalho. A analogia é válida, já que as engrenagens cruéis operam destruindo aqueles mais necessitados. 

Katie, a mãe solteira, vivida impecavelmente por Hayley Squires, passa fome para conseguir alimentar suas crianças. No auge de seu desespero, quando tenta roubar uma loja de conveniência, ela acaba se tornando vítima de funcionários sem caráter, que aliviam seu crime, na esperança de que ela os ajude financeiramente em um esquema de prostituição. Não há altruísmo nesse mundo podre, não há solidariedade, até as vítimas se canibalizam, Loach então propõe que a união é o único caminho. A atitude rebelde de Daniel, grafitando sua revolta, expressão primitiva, quase selvagem, em resposta à moderna acessibilidade virtual que tanto o perturba, a única vitória possível, tão simbólico quanto o grito por humanidade de John Merrick em “O Homem Elefante”, o testamento em vida de pessoas que, conscientes da derrota, insistem em resistir. Como o discurso no desfecho evidencia, o protesto é mais importante que o personagem, os alívios cômicos, a impagável cena do aprendizado na utilização do computador, recursos importantes para adocicar a experiência panfletária, a proposta é política. 

O relacionamento de amizade formado entre Daniel, Katie e seus filhos, elemento que brota naturalmente a partir de um simples gesto de carinho dele com a jovem, um olhar atento quando todos fingiam não perceber sua presença, proporciona momentos de linda delicadeza e refinado simbolismo, como a estante feita à mão na esperança de que suporte no futuro o peso dos livros acadêmicos da amiga, a salvação pela cultura. 

quarta-feira, 22 de março de 2017

"Ser Ou Não Ser", de Ernst Lubitsch


Ser Ou Não Ser (To Be or Not to Be - 1942)
Falar do diretor alemão Ernst Lubitsch sem citar o famoso “Lubitsch Touch” (Toque Lubitsch) seria impossível, pois faz parte de sua mitologia. A expressão que busca descrever o estilo único do diretor tem sido discutida, através das décadas, por cinéfilos e profissionais da crítica. Dentre as várias definições já elaboradas, cada uma mais criativa que a outra, esta é a minha favorita: “O elegante uso da piada sobreposta. O roteiro já serviu a piada ao público, que sorri satisfeito. Então o roteiro apresenta na sequência uma piada ainda mais engraçada, que o público não esperava”. Billy Wilder, um dos maiores fãs dele (em seu escritório havia uma placa que dizia apenas: “O que Lubitsch faria? ”), definiu a arte de seu ídolo: Sempre surpreender o público. Algo que o pupilo aprendeu muito bem e fez uso em seus trabalhos, como no clássico e inesperado: “Ninguém é perfeito”, no desfecho de seu “Quanto Mais Quente Melhor”. Eu definiria de forma um pouco diferente, pois acredito que a genialidade do diretor residia na sua incrível capacidade de manter suas obras simples e acessíveis, mesmo envoltas no maior refinamento. Os temas podiam ser sofisticados, os diálogos muito inteligentes, mas sua forma de apresentá-los era humilde e generosa. Como um bom anfitrião, ele queria que todos se divertissem em suas festas.

Utilizar o nazismo como pano de fundo para uma comédia era algo bastante arriscado na época. Chaplin havia enfrentado Hitler dois anos antes, em “O Grande Ditador”, o seu filme era um drama com toques de humor, onde o ponto alto consistia em um belo e sério discurso humanista. Lubitsch gargalhou na cara dos nazistas sem nenhum subterfúgio. A sua ousadia foi tanta que causou o fracasso da obra em sua estreia, com o público se recusando a pagar para rir de algo tão ameaçador quanto os nazistas. Frases ditas no filme, como a sensacional resposta do oficial alemão quando perguntado sobre o ator, vivido por Jack Benny, causaram polêmica: “Eu o conheço, ele protagonizou uma vez em Hamlet. O que ele fez com Shakespeare, nós estamos fazendo com a Polônia”. Para os jovens cinéfilos que estão iniciando nesta maravilhosa jornada, reflexos deste filme podem ser percebidos em “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino. Em ambos, o nazismo é vencido ludicamente pela arte.

Os componentes da companhia teatral estão em constante disfarce, utilizando o talento como arma contra a violência bestial. Eles começam procurando vencer o medo com humor, satirizando Hitler em suas apresentações, acabam descobrindo que a gargalhada apenas adia ou enfraquece o medo, não o subjuga. O medo do personagem vivido por Jack Benny é compartilhado por quase todos os atores: A rejeição. A sua esposa, vivida por Carole Lombard, que viria a falecer logo depois das filmagens em um desastre de avião, marca encontros furtivos com um jovem nos bastidores, enquanto seu marido defende o clássico e longo monólogo de Shakespeare. Ele percebe que o jovem se levanta enquanto ele inicia o solilóquio, mas mesmo após descobrir a razão, ele ainda se questiona sobre sua capacidade de entreter seu público. Esta piada já estabelecida ao longo da obra entrega, na cena final, um impagável clássico símbolo do “Lubitsch Touch”.


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Obras Primas do Cinema".

"A Bela e a Fera", de Bill Condon


A Bela e a Fera (Beauty and The Beast - 2017)
Fábulas são fontes de inspiração que vão sendo retrabalhadas ao longo do tempo, “A Bela e a Fera”, escrita por Gabrielle Suzanne Barbot de Villeneuve e publicada em 1740, passou pelas mãos criativas de vários escritores, a história foi sendo moldada, expandida, modificada, mas a essência se manteve. E são eternas exatamente por abordarem temas fundamentais na formação dos alicerces psicológicos do indivíduo. No cinema, duas versões se tornaram inesquecíveis, o maravilhoso clássico em preto e branco dirigido pelo francês Jean Cocteau em 1946 e, adaptada como musical, na animação dos estúdios Disney dirigida por Kirk Wise e Gary Trousdale em 1991.

Os adultos de hoje que viveram aquele momento mágico na infância, cantando a versão brasileira das canções compostas por Alan Menken, Howard Ashman e Tim Rice na escola, a primeira animação a ser indicada para o prêmio de Melhor Filme no Oscar, estão tendo a oportunidade preciosa de compartilhar a experiência emocionante hoje na sala escura com seus filhos pequenos. “A Bela e a Fera”, dirigido por Bill Condon e protagonizado por Emma Watson e Dan Stevens, trata a história com reverência nostálgica, reproduzindo fielmente até os enquadramentos de certas sequências, e, vale ressaltar, com muita ternura. Duas sugestões: Se for levar crianças, prestigie a altíssima competência da equipe de dubladores nacionais e evite o 3D, o recurso prejudica tremendamente a iluminação tão ricamente pensada pelo diretor de fotografia.

Bela (Watson) é uma doce menina que valoriza a literatura, o ato rebelde de buscar cultura em uma época em que a sociedade reduzia a mulher aos afazeres domésticos. Naqueles tomos empoeirados ela viaja para outros mundos, conhece novas possibilidades, compreende que a beleza está na rosa que pede que seu pai (Kevin Kline) traga em todas as suas viagens. Esse gesto aparentemente simples evidencia o traço mais marcante de sua personalidade. As outras damas do local pensam apenas no enfeite que irão utilizar para conquistar a atenção dos bons partidos, maquiagem, vestidos deslumbrantes, elementos artificiais para serem notadas por machistas artificiais, estúpidos como Gaston (Luke Evans), narcisista insensível que toma por capricho a missão de se casar com Bela, a estranha misteriosa que ousa ignorar diariamente seus galanteios.

A simbologia da rosa é importante na trama, as pétalas encantadas que caem dentro do vidro que protege sua pureza do cruel mundo externo, terra de violência, feras, doença e morte. A necessidade de o amor verdadeiro quebrar o encanto antes da queda da última pétala, a resistência poética daqueles que corajosamente enfrentam o embrutecimento da sociedade, cada vez mais interessada no enfeite, desprezando a simplicidade da rosa. Uma atitude preconceituosa do príncipe outrora havia sido a responsável pelo seu castigo. Quem pode amar uma fera? Quem pode olhar nos olhos da dor e sorrir, agradecendo o aprendizado? Tarefa que demanda maturidade, sincera empatia e desapego pelo conceito da vaidade.

Somente Bela, alguém capaz de se apaixonar por letras harmoniosamente unidas no papel, valorizando a inspiração dos escritores, conseguiria enxergar além da imagem, tocando delicadamente o humano gentil por trás da besta, a mãe carinhosa por trás da chaleira (Emma Thompson), o generoso bonachão por trás do relógio (Ian McKellen), o romântico inveterado por trás do candelabro (Ewan McGregor). O retorno à humanidade desses personagens depende da resistência da menina, contra todas as probabilidades, sendo forçada a revisitar memórias tristes, fazendo as pazes com o passado e, num ato de linda generosidade, liberando o angustiado pai da culpa que o atormentava desde o falecimento de sua amada esposa.

A Fera (Stevens) reconhece pela primeira vez o seu antigo reflexo no espelho da vida ao encarar a jovem impetuosa. Ele inicialmente a rejeita, ele já estava se acostumando com sua condição, apreciando a solidão e resignado a eventualmente desaparecer esquecido nas trevas de seu castelo. O relacionamento que se estabelece entre os dois ganha toques ainda mais bonitos nessa nova versão, uma nova canção (“Evermore”) defendida pelo personagem em seu momento mais amargurado agrega camadas de interpretação, a sua tragédia é comum a muitos de nós, a identificação é parte essencial, reconhecer que há beleza até mesmo no amor que não é correspondido, a ausência dela seguirá alimentando sua inspiração. Ele a liberta, com plena consciência das tristes consequências, a esperança vã de seu retorno o manterá são até o último segundo.

Uma história que seguirá se renovando nas próximas gerações, apesar de todo discurso de ódio, fome, medo e catástrofes naturais, um romance que continuará a emocionar pais e filhos no mundo todo, enquanto houver a doce resistência de uma flor que rompe o asfalto. 

"Os Viúvos Também Sonham", de Frank Capra


Os Viúvos Também Sonham (A Hole in The Head - 1959)
Tony Manetta (Sinatra) é um viúvo dono de um hotel decadente em Miami. Seus problemas são, em grande parte, por culpa dele, pois é um irresponsável que só pensa em mulheres. A única pessoa na vida dele capaz de colocá-lo nos trilhos é Ally (Eddie Hodges), seu filho de apenas 12 anos de idade. Endividado, Tony pede ajuda ao irmão Mario (Edward G. Robinson), que coloca algumas condições: ele deverá desistir do filho Ally ou se casar com uma mulher decente que ele indique. Só assim ele poderá ajeitar a vida e prosperar. É quando surge Eloise Rogers (Eleanor Parker), uma encantadora mulher que poderá mudar os rumos da vida de toda essa família.

Ao contrário dos tipos sonhadores idealistas usuais na filmografia de Frank Capra, como o Jefferson Smith de “A Mulher Faz o Homem”, ou o George Bailey de “A Felicidade Não Se Compra”, Tony Manetta é apenas um tolo iludido, um vagabundo mulherengo que deseja abrir um parque temático sem ideia de como vai conseguir a verba para seu objetivo. Os clássicos personagens defendidos por James Stewart lutavam por uma sociedade melhor e mais justa, mas não há nobreza alguma no viúvo hoteleiro vivido por Frank Sinatra, ele visa apenas o lucro. Esse era o desafio que estimulava o diretor, encontrar o encantamento por trás de uma trama sem heróis, inserir o difícil relacionamento entre pai e filho, com o pequeno demonstrando maturidade emocional e o adulto agindo frequentemente como criança. O mais próximo de um personagem adorável é o irmão mais velho, vivido por Edward G. Robinson, que parece ter prazer em ser desagradável com todos.

O estilo relaxado de Capra nas filmagens, absorvendo a experiência como parte do público, incentivava o elenco a encontrar nuances cômicas novas no texto em cada tomada, olhares, gestos, a recompensa era a risada que eles escutavam atrás da câmera. Uma sequência genial, praticamente teatro filmado, reunindo Thelma Ritter, Sinatra e Robinson no quarto, um jogo de cadeiras com longos diálogos sem corte, evidencia o timing único do diretor em seu penúltimo projeto, após vários anos afastado da função. O terceiro ato investe no melodrama, com a entrada da belíssima Eleanor Parker, uma viúva que pode simbolizar a salvação financeira do protagonista. É quando o roteiro, adaptado da peça de Arnold Schulman, responsável por “Funny Lady”, perde fôlego e conduz para um desfecho irregular, um final feliz que não soa crível, orgânico, mas que não prejudica o todo. Vale destacar que “High Hopes”, composta por Sammy Van Heusen e Sammy Cahn, cantada em uma linda cena por Sinatra e o menino Eddie Hodges, venceu o Oscar de Melhor Canção.






* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

domingo, 19 de março de 2017

Cartazes do curta "Nocebo" atualizados com a passagem pelo FESTin, de Portugal.

"Nocebo" foi selecionado para a Mostra Brasileira de Cinema, do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (2017). Arte dos cartazes: Laísa Roberta Trojaike. 


sexta-feira, 17 de março de 2017

"O Inquilino" e "O Marido Era o Culpado", de Alfred Hitchcock


O Inquilino (The Lodger: A Story of the London Fog - 1927)
Hitchcock considerava esse filme como o ponto de partida em sua carreira, uma pérola do cinema mudo que segue eficiente hoje. É perceptível o fascínio dele pelas experimentações na linguagem, colocando em prática tudo o que aprendeu durante sua fase nos estúdios alemães, o expressionismo absorvido com segurança por alguém com forte senso autoral. A trama é inspirada nos casos de Jack, o Estripador, algo consideravelmente recente no imaginário popular da época. A histeria coletiva que incrimina um inocente, tema que se tornaria recorrente na obra do mestre do suspense, emoldurada por uma utilização altamente criativa dos cenários, com destaque para a celebrada sequência em que a câmera nos mostra os passos do protagonista, vivido por Ivor Novello, filmados sobre um chão de vidro, potencializando a preocupação dos moradores no andar de baixo com a enigmática presença do hóspede. O desafio de contar a história sem diálogos provou ser enriquecedor para o jovem britânico, que pôde flertar com simbolismos visuais, o triângulo que reflete a estrutura dos relacionamentos trabalhados na narrativa, além, claro, das vítimas loiras que se tornariam cada vez mais frequentes. A estética usual do teatro filmado silencioso dava lugar ao jogo de imagens do cinema moderno. Vale destacar que a ideia inicial preservava o mistério sobre a autoria dos assassinatos, mas a escalação de Novello, ídolo jovem muito querido pelas adolescentes, impossibilitou a dúvida, ninguém queria correr riscos nas bilheterias.


O Marido Era o Culpado (Sabotage - 1936)
Quando conheci o filme na adolescência, em uma exibição televisiva no “Cine Vida”, da “Rede Vida”, apresentado por Brancato Júnior e pelo crítico José Tavares de Barros, eu me lembro de ter ficado assustado com a crueza de Hitchcock. De certa forma, considero “O Marido Era o Culpado” mais ousado que os posteriores “Cortina Rasgada” e “Frenesi”. A temática do terrorismo fez com que o filme fosse banido em alguns países, o tom sombrio refletia a complicada situação política na Europa, com a ameaça nazista espreitando nas sombras. O nível impressionante de tensão na sequência em que acompanhamos o passeio do menino que, sem saber, carrega uma bomba pelas ruas da cidade, uma aula que une elementos da montagem soviética de Eisenstein e Vertov ao senso de humor macabro do diretor. Inspirado levemente no livro “O Agente Secreto”, de Joseph Conrad, essa pérola da fase britânica merece maior reconhecimento, especialmente pela coragem. O mundo ficaria chocado com o assassinato da personagem de Janet Leigh na primeira meia-hora de “Psicose”, em 1960, mas Hitchcock já subvertia todas as expectativas aqui, eliminando brutalmente a criança no ato terrorista, a pureza sendo a primeira vítima do medo.


* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora "Versátil", com a curadoria sempre impecável de Fernando Brito, no digistack "A Arte de Alfred Hitchcock", que contém também um documentário sobre a fase inglesa do mestre do suspense e os filmes "Jovem e Inocente" e "A Estalagem Maldita".

quarta-feira, 15 de março de 2017

"Superman e os Homens-Toupeira", de Lee Sholem


Superman e os Homens-Toupeira (Superman and The Mole Men - 1951)
Há uma cena no “Superman 2”, de Richard Lester, que resume o significado do personagem enquanto símbolo. Lex Luthor, traído pelo General Zod, fica aliviado ao ver o herói vivo do lado de fora da janela do Planeta Diário. Ele sabe que não pode contar com a palavra de um homem sem escrúpulos. E, por mais que ele odeie Superman com todas as forças, sabe que está lidando com alguém íntegro, que será justo. Quando vejo os filmes recentes dirigidos por Zack Snyder, não consigo enxergar esses valores, os roteiros falham no básico, não compreendem o personagem.

A criação de Jerry Siegel e Joe Shuster representa a esperança, os quadrinhos originais da década de trinta buscavam resgatar o ânimo de um país que lutava para se restabelecer da recessão econômica, o povo desempregado juntava moedas para adquirir naquelas páginas a coragem de seguir em frente. A ação e os superpoderes fazem parte das histórias, mas são as atitudes sensatas que forjaram o herói, a capacidade de agir corretamente nas situações mais complicadas, sem nunca desrespeitar seus princípios. Christopher Reeve alcançou essa intenção nobre no clássico da década de setenta, mas creio que nenhuma versão live action foi mais competente nesse sentido que a protagonizada por George Reeves. O projeto, em preto e branco, foi o primeiro produzido com o personagem para o cinema, após os dois seriados protagonizados por Kirk Alyn. Reeves, que havia voltado da guerra, encontrava papeis apenas em títulos de baixo orçamento, aquela parecia ser uma boa chance de conquistar público. Superman acabaria se tornando o papel de sua vida. O roteiro tratava o elemento alienígena com reverência similar à de “O Dia em Que a Terra Parou”, lançado no mesmo ano, uma postura radicalmente diferente dos sci-fi da época, que sempre traziam o diferente como algo a ser temido, uma metáfora para o temor comunista.

Os repórteres Clark Kent (Reeves) e Lois Lane (Phyllis Coates) decidem investigar as estranhas aparições que passam a ocorrer em uma cidade após o trabalho de uma mineradora. Vale destacar a postura de Reeves em seu disfarce, mais sério e nada desajeitado, uma presença digna e que impõe respeito, longe da caricatura cômica que seria trabalhada décadas depois no filme de Richard Donner. Como os efeitos especiais não permitiam uma utilização excessiva do herói uniformizado, Kent protagonizaria na maior parte do tempo, uma entrega mais crível facilitava a identificação com o público. Em “Superman e os Homens-Toupeira”, os vilões são os humanos movidos pelo ódio, aqueles que julgam sem conhecer os fatos. Os seres do título, moradores do subterrâneo que, pela cobiça do homem, são forçados a conhecer a superfície, e, eventualmente, perseguidos por serem diferentes.

sábado, 11 de março de 2017

Presente inesquecível de meus avós maternos

Faço questão de compartilhar com você, que carinhosamente acompanha meu trabalho, essa carta de meus avós maternos, escrita em dezembro de 1991. Eu tinha acabado de completar oito anos de idade, já intensamente apaixonado por cinema, lendo e escrevendo como um louco (risos), vencendo concursos de poesia na escola e sonhando com os livros que eu escreveria no futuro. Empolgados, meus saudosos avós Newton e Haydê prepararam o melhor presente de Natal: A máquina de escrever que meu avô utilizou por vários anos em seu escritório de advocacia. Fico feliz que ele tenha vivido para ver meus primeiros passos profissionais como escritor/crítico de cinema. E minha avó, que faleceu oito anos depois dele, viu o lançamento do meu primeiro livro. Saudade dos dois.


sexta-feira, 10 de março de 2017

Nos Embalos do Rei do Rock - "Loiras, Morenas e Ruivas"

Link para os textos anteriores do especial:
http://www.devotudoaocinema.com.br/p/criticas_14.html


Um fiapo de roteiro que faz todos os seus filmes anteriores parecerem “Cidadão Kane”, a trama pode não ter um antagonista, mas “Loiras, Morenas e Ruivas”, a despeito do péssimo título nacional, produzido por Ted Richmond (que seria responsável por “Papillon”, em 1973), prova que o carisma de Elvis Presley conseguia operar milagres.


Loiras, Morenas e Ruivas (It Happened at The World's Fair - 1963)
Após dirigir o cantor em três sucessos de bilheteria (“Saudades de Um Pracinha”, “Feitiço Havaiano” e “Garotas, Garotas e Mais Garotas”), o veterano Norman Taurog conseguiu o que parecia impossível, transformar um projeto de baixo orçamento pensado apenas como divulgação da Feira Mundial de Seattle, na recém-construída Seattle Center, evento movido pela temática da Era Espacial, em um filme emocionalmente funcional. 

Elvis vive Mike Edwards, um piloto de avião que faz todo tipo de bico com o sócio Danny (Gary Lockwood, que viveria anos depois um dos astronautas de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”), um jogador inveterado que perde tudo nas cartas. Os dois chegam por acidente em Seattle, pegando carona com um chinês vendedor de maçãs e sua pequena sobrinha, Sue-Lin (Vicky Tiu, que não trabalhou mais no cinema e depois foi primeira-dama do Havaí). Quando o tio desaparece, a menina pede ajuda ao piloto. Tiu afirmou em entrevistas posteriores que nunca irá esquecer o carinho que Elvis tinha por ela, ajudando, inclusive, em uma cena difícil em que precisava chorar. O colega, vendo que a menina não estava conseguindo finalizar e estava envergonhada, acenou para o diretor e disse sorridente: “É isso, por hoje é só, a pequena dama e eu iremos lanchar, amanhã continuamos”. Ele a acalmou, no dia seguinte a cena foi completada sem atraso.

É interessante notar que, pela primeira vez na filmografia dele, o roteiro explorava a relação de amizade entre o adulto e a criança, um aspecto que ajudava a definir a imagem comportada do cantor no cinema. Até mesmo o figurino dele evidencia esse objetivo, ternos elegantes que se assemelham mais com o deboche perpetrado por Steve Allen no programa televisivo de início de carreira, quando o jovem engravatado teve que cantar "Hound Dog" ao lado de um cão. Na trilha sonora, três canções são direcionadas nesse sentido: “Cotton Candy Land”, “Take Me to The Fair” (que chegou a ser cogitado como o título do filme) e “How Would You Like to Be”. Ver Elvis entretendo a menina, tentando fazê-la dormir, ou buscando animar ela depois de sofrer uma decepção, momentos que podem parecer demagogia sacarina em teoria, mas a execução é tão terna e o sentimento transmitido é tão puro que encantam o espectador. As canções do filme são fracas, com exceção da bela balada “They Remind Me Too Much of You”, inserida na cena como reflexão imaginária, algo que não havia sido tentado ainda em seus filmes, composta por Don Robertson, um dos preferidos do cantor. “Beyond The Bend”, que toca nos créditos iniciais, “One Broken Heart for Sale”, com seu hilário coral de aposentados viciados em jogo, “Happy Ending”, que conduz a trama para o desfecho, simpáticas, inofensivas, assim como “I’m Falling in Love Tonight”, “World of Our Own” e “Relax”, uma lista acima da média, mas apenas uma canção verdadeiramente marcante, o que já mostrava a dificuldade crescente dos produtores em fornecer material para a quantidade absurda de roteiros. E, para piorar, a MGM havia solicitado que as gravações no estúdio fossem desprovidas de qualquer eco, destruindo a ambiência natural, garantindo uma estética artificial, ao invés do swing improvisado que marcava as gravações do cantor para a RCA. Vale destacar que a interpretação de Elvis conseguia dar dignidade até para a mais tola composição.

O interesse romântico da vez, Diane, uma enfermeira que sonha em trabalhar para a NASA, papel vivido por Joan O’Brien, cantora de sucesso na década de cinquenta que tentava se firmar em Hollywood. O ator Kurt Russell, de “Os Aventureiros do Bairro Proibido” e “O Enigma de Outro Mundo”, grande fã de Elvis, faz uma ponta hilária como um menino que é pago para chutar a canela do protagonista, que buscava um motivo para se reencontrar com a enfermeira. O filme é muito divertido, o humor funciona, mas é perceptível que a indústria já não estava mais se importando em inserir o artista em algo minimamente relevante, o interesse era apenas agradar seu público adolescente. Como ponto positivo, a coreografia das lutas nunca esteve melhor, ajudadas pela montagem dinâmica. Uma sequência perdida no meio da trama, o encontro romântico do piloto com uma belíssima Yvonne Craig, que teria papel de destaque no ano seguinte em outro projeto de Elvis: “Com Caipira Não Se Brinca”, mas ganharia fama mundial como a “Batgirl” da série protagonizada por Adam West, sintetiza a falta de cuidado. Não há preocupação em preparar um terreno crível para que as canções sejam defendidas, ele simplesmente solta a voz em qualquer situação. Esse desleixo foi o alvo principal das críticas da época. 

A Seguir: "O Seresteiro de Acapulco" (Fun in Acapulco)