sexta-feira, 17 de novembro de 2017

"Nocebo", meu terceiro curta, está disponível na plataforma "Looke"


Link para o filme no Looke:


Sinopse: Uma viúva sofre com o ódio que nasceu entre suas duas filhas, uma ferida exposta que as afastou do seio familiar, o que conduzirá a um confronto entre duas forças da natureza no campo de batalha que outrora foi um lar harmonioso.



Elenco: Virginia Maria, Paola Castilho, Tereza Filardy, Mário PC, Deborah Cintra e Nadia Lippi.


Direção de Fotografia: Alex Teix.


Trilha Sonora: Mário PC.


Argumento, Roteiro e Direção: Octavio Caruso.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

TOP - Espada e Feitiçaria


A Mythos Editora completa vinte anos de existência e presenteia os leitores com o novo selo "Gold Edition", especializado em biscoitos finos europeus de capa dura e refinado tratamento, com formato diferenciado. É material para quem aprecia quadrinhos de alta qualidade, colecionadores dedicados e aqueles que desejam iniciar no tema em grande estilo. O primeiro lançamento é "Elric - O Trono de Rubi" (124 páginas), que adapta as primeiras aventuras do personagem criado na literatura pelo inglês Michael Moorcock, talvez o mais consagrado no gênero Espada e Feitiçaria depois de "Conan". Ao contrário do cimério brutamontes, Elric de Melniboné é albino e frágil, precisando recorrer ao intelecto para superar seus desafios. Esta adaptação, com roteiro de Julien Blondel, arte de Didier Poli e Robin Recht, com cores de Jean Bastide é considerada pelo criador como a melhor versão da sua obra, superior em muitos aspectos ao material original. 


Aproveitando o gancho temático, eu decidi listar os meus dez filmes favoritos no subgênero Espada e Feitiçaria (Sword and Sorcery), com breves comentários. Tentei ser o mais abrangente possível, abraçando todas as vertentes, evitando aqueles que não resistiram ao teste do tempo em revisão.


1 – O Senhor dos Anéis (The Fellowship of the Ring - 2001, The Two Towers - 2002, The Return of the King - 2003) 
A adaptação cinematográfica de Peter Jackson para “O Hobbit” foi vítima de sua aversão pela sala de edição (problema crasso em sua versão de “King Kong”), mas sua trilogia original é uma coleção de acertos, um marco no cinema de fantasia. A sua adaptação para o personagem Aragorn (Viggo Mortensen) é um exemplo de sua sagacidade. Nos livros, Passolargo é um marginal, fazendo o seu caminho fora das fronteiras de uma civilização em declínio. Quando ele se revela, mostra-se um mito dentre seres comuns e ordinários, simbolizados pelos Hobbits. A beleza da saga de Tolkien não reside nas batalhas e na riqueza do mundo fantástico que ele criou, mas sim naqueles elementos mitológicos facilmente identificáveis em nossas vidas comuns. A corrupção do caráter humano, a ambição, a resignação perante a inevitável mortalidade, a coragem que nasce forjada no calor dos desafios mais extenuantes e os laços de amizade que nos fazem “carregar nos ombros” (tal qual Sam) os irmãos feridos em batalha.


2 – Conan, o Bárbaro (Conan the Barbarian – 1982)
Após seus pais terem sido mortos pelo líder de um culto sanguinário e sua gangue de brutais saqueadores, Conan é submetido a uma infância de impiedosa escravidão, apenas para tornar-se um gladiador para diversão de seus captores. Após ser enviado para o Oriente para aperfeiçoar suas habilidades de batalha, ele é libertado e inicia uma perigosa e sangrenta vingança contra o massacre de seus pais. Subestimado por muitos, o roteiro eficiente de John Milius e Oliver Stone capta perfeitamente a essência da obra de Robert E. Howard. Schwarzenegger se impõe fisicamente como o bárbaro, deixando nas batutas do compositor Basil Poledouris a responsabilidade de expressar suas emoções. E a trilha sonora brutalmente primitiva é impecável, o elemento mais forte do filme.


3 - Excalibur (1981)
Uther Pendragon entrega a mística espada Excalibur para o mágico Merlin. No seu leito de morte, Uther enterra a espada em uma pedra, e o próximo homem que conseguir retirá-la será o novo rei da Inglaterra. Anos depois, Arthur, o filho bastardo de Uther consegue retirar a espada da pedra e se torna rei. O filme dirigido por John Boorman é simplesmente o melhor a abordar as crônicas arturianas, mantendo-se fiel ao “A Morte de Arthur”, de Thomas Malory. Ele retrata fielmente a Era Medieval, com uma direção de arte primorosa, que traduz em imagens a transição da era da magia para a era da razão. Como esquecer a poderosa trilha sonora, com Richard Wagner e Carl Orff emoldurando cenas épicas?


4 – Highlander – O Guerreiro Imortal (Highlander – 1986)
Um guerreiro imortal, após séculos lutando contra outros de seu tipo, terá o seu maior desafio em 1985, na cidade de Nova York. Ele deverá lutar contra um também imortal bárbaro para conquistar a habilidade espiritual do conhecimento total, que lhe dará poder quase infinito. Com uma ótima trilha sonora do grupo “Queen”, nem mesmo a apatia de Christopher Lambert pode prejudicar a experiência. Com forte inspiração na “Jornada do Herói”, do escritor Joseph Campbell, o filme de Russel Mulcahy abraça o contexto apocalíptico que dominava a época de profunda recessão econômica na América, propondo a existência de uma sociedade secreta de “príncipes do universo”, guerreiros imortais fadados a dominar os humanos. O protagonista, como um homem de várias eras, não está associado a modismos, ele é de uma essência atemporal, simbolizado imageticamente pela transição de cena onde vemos seu rosto “tornar-se” o de Mona Lisa. Connor MacLeod representa o que de melhor existe na natureza humana: Arte. E ter Sean Connery no elenco também não faz mal.


5 – A Princesa Prometida (Princess Bride – 1987)
Bela princesa faz pacto de amor com um camponês, mas quando recebe a notícia de que ele morreu vítima do cruel pirata Roberts, decide aceitar o pedido de casamento de um príncipe sinistro. Nas vésperas do casamento, contudo, ela é raptada por um trio muito estranho, constituído por um exímio espadachim que possui seis dedos, um gigante retardado de força descomunal e um intelectual baixinho especialista em resolver enigmas. Este é daqueles filmes que você assiste quando criança e só percebe suas várias camadas de interpretação quando o revê já adulto. O diretor Rob Reiner, com auxílio do escritor William Goldman (autor da obra), consegue transpor para o roteiro toda a ironia contida no livro. A visão de um mundo fantástico, através dos olhos de uma criança. E algumas frases são antológicas, como: “A vida é dor. Quem diz o contrário, só pode estar vendendo alguma coisa”.


6 – Uma Noite Alucinante 3 (Army of Darkness – 1992)
Ash (Bruce Campbell) é sugado por um vórtice e é jogado nos primórdios da Era Medieval, onde terá que encontrar o livro dos mortos, que tem o poder de enviar Ash de volta para sua época, mas não antes de enfrentar um exército de demônios. Estou levando em consideração o corte do diretor, que considero superior em vários sentidos. Sam Raimi entrega uma bela homenagem aos esforços pioneiros de Ray Harryhausen, com grande senso de humor negro e intensa energia nesta evolução do conceito iniciado em “A Morte do Demônio”. O horror é deixado de lado, valorizando o carisma de Bruce Campbell como o desastrado herói Ash.


7 – Fúria de Titãs (Clash of the Titans – 1981)
Adaptação do mito grego de Perseus, o filho de Zeus, e sua aventura para destruir Medusa e o monstro Kraken, a fim de salvar a Princesa Andrômeda, sua noiva. A obra-prima de Ray Harryhausen (dirigida por Desmond Davis) mantém seu charme, ainda que o protagonista vivido por Harry Hamlin seja uma variação do “Cigano Igor”. A narrativa pode ser arrastada, mas assistir Laurence Olivier como Zeus compensa qualquer problema. Este é o melhor momento do mestre na técnica do stop-motion, com cenas incríveis como a de Perseu dominando Pégaso, o confronto com a Medusa e o espetacular monstro Kraken.


8 – A Bela Adormecida (Sleeping Beauty – 1959)
Era uma vez uma linda princesa chamada Aurora, que sofreu uma terrível maldição: ao completar 16 anos, espetaria o dedo no fuso de uma roca e cairia em um sono eterno. Mas as três fadas madrinhas de Aurora descobrem uma forma de quebrar o feitiço. Um beijo de amor do corajoso príncipe Felipe poderá acordar a princesa adormecida desde que ele enfrente a ira da bruxa Malévola. Este clássico de Walt Disney normalmente é ignorado em listas similares, mas preenche todos os requisitos necessários, além de ser uma das animações mais ricas em simbolismos do estúdio. Os longos cinco anos dedicados ao processo de animação são notados na beleza de cada estilizada cena. E ter Tchaikovsky como inspiração musical é a refinada cereja do bolo.


9 – O Feitiço de Áquila (Ladyhawke – 1985)
Este filme retrata a história do amor entre Navarre e Isabeau. Ambos são vítimas de uma maldição do invejoso e traiçoeiro Bispo de Áquila. Durante o dia, Isabeau transforma-se em falcão. À noite, Navarre tornar-se um lobo. Destinados a nunca se encontrar, eles tentarão pôr um fim ao feitiço. Por mais que a trilha sonora equivocada, com sintetizadores emoldurando o cenário medieval, possa ter datado terrivelmente o filme, existe algo nele que se mantém forte: a poesia trágica que existe no eterno desencontro dos amantes, interpretados por Michelle Pfeiffer e Rutger Hauer. A cena de poucos segundos em que eles conseguem se enxergar como humanos continua tão emocionante quanto em sua época.


10 – A Lenda (Legend – 1985)
Jack (Tom Cruise) é o morador de uma floresta encantada, habitada também por seres feéricos, como elfos e unicórnios, além das fadas, que tem de libertar a Princesa Lily (Mia Sara) do Senhor das Trevas (Tim Curry), sob a ameaça de todo o mundo tornar-se um lugar gelado. O diretor Ridley Scott havia acabado de conquistar a atenção do mundo com seus dois excelentes trabalhos anteriores ("Alien - O Oitavo Passageiro" e "Blade Runner - O Caçador de Androides"), quando decidiu mudar completamente o rumo de sua carreira e investir em um tema que desafiou as expectativas dos espectadores. Um filme que captasse o inconsciente coletivo das memórias lúdicas das crianças, procurando traduzir em imagens o vasto e fértil terreno da fantasia, nosso primeiro contato com o mundo, através das histórias contadas pelos nossos pais.

"Liga da Justiça", de Zack Snyder


Façamos a análise do início, julgar isolando apenas o resultado neste caso seria uma tremenda injustiça. O projeto foi pensado para competir nas bilheterias em 2015 com o segundo filme dos Vingadores, o roteiro de Chris Terrio foi finalizado em julho do mesmo ano, alguns membros do elenco começaram a aquecer as turbinas de divulgação, postando fotos e estimulando a imaginação dos fãs. A pré-produção oficialmente começou em janeiro de 2016. Willem Dafoe, por exemplo, estava escalado para um papel relacionado ao universo de Aquaman, o escopo seria grandioso como em “Batman Vs. Superman”, com várias subtramas e generoso tempo dedicado à cada herói, mas com o diferencial de que seria dividido em duas partes. Muitos jovens se empolgaram com o primeiro pôster divulgado, mostrando pela primeira vez o visual de Cyborg e Flash. Pouco tempo depois, os problemas começaram. 

O conceito realista sombrio que o diretor Zack Snyder estabeleceu em “O Homem de Aço”, de 2013, e aprofundou na sequência, já estava se tornando alvo de deboche na internet, a garotada estava sensorialmente acostumada com as produções infanto-juvenis da Marvel, tramas sem peso dramático, vilões sem senso real de ameaça, sequências de ação diluídas e palatáveis até para crianças de cinco anos. A fórmula da concorrência seguia lucrando alto, os tempos mudaram radicalmente, logo, o primeiro passo foi garantir que “Esquadrão Suicida” e “Mulher-Maravilha” emulassem aquele espírito descontraído, despretensioso. O redirecionamento criativo era arriscado, os produtores precisavam manter a ideia de que o universo criado estava sendo respeitado. “Esquadrão Suicida”, uma péssima colcha de retalhos, reeditado diversas vezes, fracasso retumbante. O trailer vendia A, o filme entregava C. A pressão estava nos ombros da heroína mais famosa dos quadrinhos. Gal Gadot, com carisma irresistível, fez o público esquecer os problemas no fraco terceiro ato de “Mulher-Maravilha”, o filme exalava leveza e alegria, por conseguinte, sucesso nas bilheterias. Alerta vermelho na produção de “Liga da Justiça”, algo precisava ser feito, havia luz no fim do túnel. 

Foi quando os fãs começaram a receber notícias de cortes, rumores apontavam que a duração total do filme seria de três horas, aquilo que havia sido pensado em duas partes estava sendo retrabalhado na base do “tudo ou nada”, não há lógica em correr risco duas vezes. Algumas subtramas seriam drasticamente reduzidas, outras cortadas completamente, o personagem de Willem Dafoe deixou de existir, apesar de constar nas linhas de brinquedos que já estavam sendo trabalhadas. Os produtores estavam muito preocupados e com razão, caos e insegurança não ajudam a vender ingressos. O sonho de todo fã havia se tornado um pesadelo. Já na etapa final, um baque devastador, a filha adolescente do diretor comete suicídio. Ele se afasta da produção e Joss Whedon, responsável pelo maior sucesso da concorrência, é convocado às pressas para finalizar a obra. Ao constatar que a situação não era mercadologicamente simpática, ele aceita a responsabilidade de reescrever o material, acatando o pedido dos executivos angustiados para que a duração total não ultrapassasse o limite de duas horas. Henry Cavill, que já estava filmando outro projeto, foi chamado para refilmagens importantes. Ao contrário dos outros colegas, ele trazia um considerável problema, o bigode que contratualmente não poderia ser cortado. O pessoal do marketing estava desesperado, então o jeito era fazer piadas com o fato, o ator ajudou a vender a ideia do Superman bigodudo nas redes sociais, uma tentativa desajeitada de acalmar os fãs. Os pelos seriam digitalmente retirados, logo no rosto do líder da equipe, o personagem mais importante da história dos quadrinhos. O papo entre os críticos agora se resumia a conjecturar a dimensão do estrago que o filme causaria. Os pessimistas apostavam que seria uma bomba mais poderosa que “Esquadrão Suicida”, os otimistas torciam para que não fosse cancelado, em suma, a situação não era boa. 

Os novos trailers mostravam correção de cores, piadas e sorrisos, o esforço conduzia para o senso de diversão inofensiva da Marvel. Semanas antes, “Thor: Ragnarok” estreava exibindo humor tolo, exagerando em todos os aspectos, o desgaste da fórmula que transformou o espetacular dos primeiros esforços em previsível bobeira direcionada para crianças e adultos infantilizados. Será que “Liga da Justiça” havia optado por este caminho?


Liga da Justiça (Justice League - 2017)

(O texto irá abordar pontos da trama, então eu recomendo que seja lido após a sessão)

Já na trilha sonora de Danny Elfman, o fã percebe que o redirecionamento do projeto visa também satisfazer os seus sonhos. Algo que, em teoria, não faz sentido cinematograficamente, como a utilização dos temas clássicos de Superman (John Williams) e Batman (Elfman), representando a força destes personagens na cultura popular mundial, prova que, no frigir dos ovos, a Warner abandonou qualquer trava criativa, “Liga da Justiça” é, acima de tudo, um presente carinhoso para o público que se manteve fiel apesar de todos os problemas. Estabelecer universo compartilhado já não importa tanto, o roteiro precisa funcionar sem muletas. A decisão se mostra correta, o elenco transborda carisma, as refilmagens conseguiram simplificar a receita e dar um senso de unidade que celebra valores grandiosos como a necessidade de manter sempre viva a esperança, subjugando o medo, e, na interação singela entre a criança e a flor alienígena que brota após o conflito, a beleza de saber que a evolução consiste em aprender a se adaptar às mudanças sem preconceito. 

Se a computação gráfica que retirou o bigode de Cavill em algumas cenas se mostra mais aparente, o roteiro compensa entregando pela primeira vez no cinema desde Christopher Reeve a interpretação correta do herói, o farol de esperança que inspira os seres humanos. A paleta escura e dessaturada morreu no filme anterior, Superman agora cruza o céu com seu traje em vibrantes vermelho e azul, a testa franzida dá lugar ao sorriso franco e seguro, o macambúzio filho de Krypton agora exibe até senso de humor. O Batman de Ben Affleck, por outro lado, abandona a amargura característica e defende uma postura mais simpática, afastando-se um pouco do material de origem. No filme anterior ele sofria o luto da morte de Robin, envelhecido e impaciente, violou sua diretriz de nunca matar. Após a morte do Superman, sentindo novamente o peso da culpa, ele se modificou, evoluiu, logo, a leveza dele em “Liga da Justiça” soa natural e coerente ao tom da obra. O humor, diferente do que a concorrência entrega, não é tolo, boboca, forçado. O Flash (Ezra Miller) é impecável, trabalhado no diapasão cômico com um carisma arrebatador, ele funciona como um avatar do leitor de quadrinhos que se vê inserido naquele mundo fantástico. A Mulher-Maravilha (Gal Gadot) segue sendo uma força da natureza, transmitindo no olhar doçura, generosidade e compaixão, a grande figura de liderança da equipe. Aquaman (Jason Momoa) é a grande surpresa, o roteiro não tenta reinventar a roda, o personagem é raso e irrelevante nos quadrinhos, logo, sem revelar muito, afirmo que a personalidade exótica de Momoa é responsável pela melhor representação do herói em qualquer mídia. Cyborg (Ray Fisher) é uma figura atormentada que aprende a trabalhar em equipe, ao mesmo tempo em que está descobrindo poderes novos, elemento potencializado pela dignidade que o ator injeta nos breves momentos em que luta contra o compreensível desejo de sumir na multidão. O grupo funciona nas batalhas e nas sequências descontraídas, você fica ansioso ao final para ver novas aventuras, mérito precioso que não pode ser esquecido. E vale ressaltar que as duas cenas pós-créditos são excelentes.

O vilão Lobo da Estepe (Ciarán Hinds), com seu exército de parademônios, invade a Terra e se alimenta do medo que surgiu após a morte do Superman, espertamente representado nos créditos iniciais ao som da maravilhosa “Everybody Knows”, do saudoso Leonard Cohen, cantada por Sigrid, que realça o tom épico da letra apocalíptica. As motivações do personagem são bem trabalhadas, sem fugir da óbvia unidimensionalidade, ele serve apenas ao propósito de firmar oposição à equipe, não há intenção de agregar camadas, o ritmo ágil favorece o roteiro ao evidenciar em traços fortes que seu poder é superior aos esforços combinados dos heróis. As sequências de ação são tecnicamente perfeitas, mas não são memoráveis, felizmente o que fica após a sessão é a camaradagem dos heróis e a força do Superman como símbolo, alguém capaz de mover a trama até mesmo enquanto está ausente. 

"Liga da Justiça", especialmente considerando todo o processo de sua produção, merece aplausos de pé. 

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Chumbo Quente - "Homens Indomáveis", de Allan Dwan


Homens Indomáveis (Silver Lode - 1954)
Vivemos hoje tempos sombrios no Brasil, então creio que a melhor forma de não repetir erros históricos é aprendendo com o passado, estudando com afinco, sem revisionismos oportunistas e ideologicamente frágeis. O cinema e a literatura podem ajudar muito neste objetivo.

Allan Dwan foi resgatado na cultura popular por Martin Scorsese em “Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano”, em que celebrava a coragem do diretor no filme “Homens Indomáveis”, lançado no olho do furacão liderado pelo senador Joseph McCarthy, uma comissão formada no congresso para caçar supostos simpatizantes do comunismo na indústria. Dois anos antes e no mesmo gênero, “Matar ou Morrer”, roteirizado por Carl Foreman, estabelecia alegoria forte, porém, pouco direta sobre esta caçada artística e, mais que isto, a omissão covarde de muitos que possibilitava o absurdo cometido pelos radicais de extrema direita. Já o roteiro de Karen DeWolf, vítima da censura, optando por uma vertente mais desafiadora, ousava criticar abertamente a intolerância que promovia a caça às bruxas de Hollywood, nomeando o vilão de forma que diretamente apontava o dedo para o senador, o cruel Fred McCarthy, vivido por Dan Duryea, que interrompe uma festa de casamento com um mandado de prisão contra o noivo, Dan Ballard, vivido por John Payne, cidadão respeitado na cidade. 

É óbvio desde o princípio que a acusação de assassinato é falsa, o que não impede que a população se volte rapidamente contra o rapaz, aquela terrível propensão ao apedrejamento que parece ser parte intrínseca da natureza humana. As únicas pessoas que se mantém ao lado dele, a noiva (Lizabeth Scott) e uma prostituta (Dolores Moran) que sempre foi apaixonada por ele. A histeria coletiva dos manipulados soa mais alto que as vozes das duas mulheres, detalhe que o texto realça ao mostrar como a lei pode ser facilmente burlada por interesses mesquinhos, mas a força de caráter da vítima lentamente mudará o jogo.

Pequena obra-prima de baixíssimo orçamento com fotografia do pouco lembrado mestre John Alton e que não pode ser esquecida. 

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O instinto baixo do apedrejamento


Vou confessar algo para quem acompanha meu trabalho, eu estou desanimado com o que vejo nas redes sociais, algo que atrapalha sobremaneira a inspiração. Como sempre afirmei em textos, a raça humana é propensa ao apedrejamento, o instinto baixo que conduzia os romanos antigos nos circos de gladiadores segue vivo hoje, ainda que adormecido na maioria, como que ansiando pelo gatilho para despertar.

A discussão não é lúcida, o que importa é berrar extremos. Analisando o caso do jornalista William Waack, ou as recentes polêmicas sexuais envolvendo atores de Hollywood, eu sinceramente não consigo enxergar maturidade ideológica/comportamental no debate virtual, apenas o desejo primitivo de destruição, a curiosidade mórbida dos abutres que apreciam admirar por horas o corpo sangrando no asfalto, ou compartilhar vídeos repulsivos na internet, em suma, parecem objetivar não apenas a justiça, como também o suicídio de seus alvos. Os envolvidos no caso nacional e nos estrangeiros são excelentes profissionais, carreiras brilhantes e respeitadas, mas acima de tudo, eles são humanos e falhos como todos.

É justo condenar seus atos, você tem o direito de rejeitar qualquer menção futura ao nome deles, mas não é correto querer apagar suas contribuições em suas áreas de atuação, assassinar sem piedade suas reputações profissionais. Se o seu pai já fez alguma piada racista em casa ao longo de sua vida, tenho absoluta certeza que você não deixou de amá-lo por isto. E se aproxime do espelho. Você é perfeito? Você, que hipocritamente prega diariamente nas redes sociais o amor cristão, compreendeu de fato as palavras de Jesus na passagem do apedrejamento de Maria Madalena?

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

"Crimes no Paraíso", de Robert Harmon


Crimes no Paraíso (Stone Cold - 2005)
Tom Selleck ganhou fama mundial na série “Magnum”, no início da década de oitenta, por pouco não interpretou o Indiana Jones, depois foi subutilizado em filmes de ação fracos e, apesar de esbanjar simpatia na comédia “Três Solteirões e Um Bebê”, não teve chance de se desafiar como ator no cinema. É com a série de telefilmes baseados nos livros de Robert B. Parker que ele entrega seu melhor trabalho, vivendo Jesse Stone, detetive que perdeu seu emprego e sua respeitabilidade por causa do vício em álcool, tendo sido redirecionado como chefe de polícia para a pequena e tranquila cidade interiorana Paraíso, em que, como ele mesmo afirma, a tarefa basicamente se resume a dar multas.

A direção de Robert Harmon eficientemente constrói o clima bucólico que reflete os conflitos internos do protagonista, realçado pela paleta de cores azulada, sóbria. Não há ação, sequências frenéticas, as convenções do gênero não são respeitadas, não há sequer mistério, já que o espectador é levado a saber desde os primeiros minutos a identidade do casal de assassinos. O interesse do roteiro está no desenvolvimento dos personagens. A forma silenciosa, resignada, com que Stone decide enfrentar seus demônios, a capacidade de agir corretamente, ainda que desrespeite as limitações de sua função, como quando avaliza a reação agressiva do pai ofendido pelo jovem que estuprou sua filha. Cenas que revelam aos poucos o caráter e a fragilidade do homem por trás da figura de autoridade. A sua preocupação com o psicológico da adolescente humilhada, o carinho que sente pela sua colega (Viola Davis), a maneira como desperta a admiração até da advogada de defesa (Mimi Rogers) do estuprador, ou a sua reação à triste constatação de que sua ex-esposa busca retomar contato apenas por interesse profissional, elementos que humanizam o herói.

O filme foi um sucesso e já foram realizadas oito continuações, a mais recente foi lançada em 2015, pretendo escrever sobre todas. Eu gosto bastante da franquia, sempre recomendo para quem aprecia uma boa trama policial e está frustrado com a infantilização e pouca criatividade do gênero atualmente em Hollywood. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Guilty Pleasures - "The Room", de Tommy Wiseau


The Room (2003)
Você já viu “The Room”? Então, antes de ler o texto, procure o filme no Youtube, ou em qualquer canto obscuro da internet, a experiência não vai mudar sua vida, mas pode fazer com que você passe a repetir frases do roteiro sem motivo algum, ou imitar os maneirismos do trágico personagem vivido por Tommy Wiseau. Há o risco de causar dependência, especialmente se você sentir a necessidade de rever no mesmo dia a versão que agrega o áudio de uma exibição noturna na sala de cinema com fãs. O registro também está disponível. Creio que esta pérola do gênero “tão ruim que é bom” vai ganhar maior reconhecimento após a estreia nacional em janeiro de “Artista do Desastre”, dirigido e protagonizado por James Franco, que aborda os bastidores desta cultuada bomba.

Wiseau, nascido na Polônia, escreve, produz, dirige e atua, sem talento para qualquer uma destas funções. É impressionante o nível de estranheza que as cenas induzem no espectador, que sente estar prestigiando um filme pensado por alguém que nunca viu um filme na vida, ou melhor, um alienígena mostrando a visão que alienígenas teriam sobre o comportamento e o cotidiano dos seres humanos. Não dá para sintetizar a sensação, você precisa tomar coragem e enfrentar este que já foi citado como o “Cidadão Kane” dos filmes ruins. O título sem ligação com a trama, tomadas panorâmicas intermináveis e repetitivas, movimentos de câmera absurdos, uma cena de sexo que se repete em momentos diferentes, vale salientar, primeira vez em que alguém transa com o umbigo da mulher amada, uma televisão posicionada logo atrás de uma poltrona, porta-retratos na sala com imagens de colheres, portas que nunca são fechadas, a mania irritante de vestir smoking para jogar bola, subtramas e personagens que aparecem do nada e se vão sem sentido algum, falhas técnicas amadoras e que realçam a péssima atuação de todo o elenco. Parece novela brasileira antiga, os personagens não conseguem iniciar um diálogo sem citar o nome do interlocutor, o que faz com que você memorize todos em pouco tempo (e tenha vontade de se matar no processo). E quando a sogra do protagonista revela no meio de um papo tranquilo com sua filha, sem mudança de expressão, que está com câncer de mama? A jovem não se abala e segue o papo como se nada tivesse acontecido. É impossível segurar o riso. A sequência mais incrível ocorre no terraço, quando Johnny (que é chamado frequentemente de Tommy) dá uma aula de atuação preciosa ao emendar um suave “Oi, Mark”, segundos depois de extravasar toda sua raiva com a vida que estava levando.

Não é uma comédia, o drama é tocado pela equipe com seriedade, as gargalhadas brotam no público naturalmente. Na sessão para fãs, algo similar ao que ocorre com “Rocky Horror Picture Show”, o caos é hilário, as pessoas jogam colheres na tela sempre que os porta-retratos aparecem no filme, eles repetem todas as falas, o fenômeno é surreal. O elenco até preparou um mockumentary atual sobre a obra, eles entraram na brincadeira e estão ganhando uns trocados com esta fama inglória. Eu morro de vergonha, mas curto bastante esta bela porcaria.

sábado, 4 de novembro de 2017

"Tigres Voadores" e "Heróis de Malta"


Tigres Voadores (Flying Tigers – 1942)
O Capitão Jim Gordon (John Wayne) lidera os Tigres Voadores, uma lendária força de aviação de guerra não reconhecida pelo governo americano, formada por pilotos mercenários em busca de vingança, aventura e honra. Os homens pilotam modelos Curtiss P-40 e combatem os caças e bombardeiros japoneses que invadem o céu da China.


Esta foi a primeira participação de John Wayne no gênero, em uma trama que recicla desavergonhadamente vários elementos de “Paraíso Infernal”, que Howard Hawks dirigiu três anos antes. Como bom filme de propaganda, o interesse está em mitificar a coragem norte-americana perante o inimigo, promovendo valores altruístas, enquanto retrata os japoneses de forma grosseiramente caricatural. O colega, vivido por John Carroll, que só pensa na recompensa que vai receber após a missão é levado a compreender o sofrimento alheio, bonita cena em que uma criança chinesa oferece comida como forma de agradecimento por seus esforços. O personagem modifica sua maneira de enxergar a sua participação no conflito e encara seu teste de fogo no terceiro ato. O investimento foi mais generoso que o usual nas produções da Republic Pictures, você percebe maior refinamento nas cenas de batalha que utilizam registros reais. O diretor David Miller foi um dos mais competentes e versáteis de sua época, apesar de quase nunca citado, anos depois ele realizaria o excelente noir “Precipícios d’Alma”, o comovente drama “Esquina do Pecado”, o impecável faroeste “Sua Última Façanha” e a adorável comédia “Pavilhão 7”.








* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".












Heróis de Malta (Malta Story – 1953)
O aviador britânico Peter Ross (Alec Guinness) está fazendo um mapeamento fotográfico aéreo para a RAF da ilha de Malta, importante ponto estratégico para os Aliados na Segunda Guerra Mundial. Durante um dos ataques aéreos, Peter é obrigado a pousar na ilha, onde acaba conhecendo a jovem Maria Gonzar (Muriel Pavlow), por quem se apaixona.


É curioso ver Alec Guinness em um papel tão diferente em sua carreira, você percebe em certos momentos o desconforto dele, mas acaba funcionando, já que é atitude coerente para o personagem. O diretor Brian Desmond Hurst não imprime identidade, o roteiro se perde na fraca subtrama romântica, mas é interessante a forma sóbria como o conflito é tratado, dedicando tempo à estratégia de combate e, ponto muito positivo, mostrando a guerra por todos os ângulos, não somente pela ótica dos militares. Ao contrário de boa parte dos projetos da época, não há interesse em tornar a batalha algo empolgante. Alternando registros reais e reconstituições eficientes, há um senso documental que prevalece sobre os valores da obra como puro entretenimento. Vale destacar também a alta qualidade de produção do estúdio Ealing e a presença sempre imponente de Jack Hawkins. 








* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "Classicline".

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

"Os Deuses Malditos", de Luchino Visconti


Os Deuses Malditos (La Caduta Degli Dei - 1969)
Eu lembro vividamente de quando, na fase de transição entre a infância e a adolescência, escutei pela primeira vez sobre o holocausto nazista. A minha mente não conseguia acreditar que algo tão absurdamente cruel tivesse acontecido. Como toda criança, eu superestimava a inteligência dos adultos. Como é possível? O povo alemão abraçar as loucuras ideológicas de Hitler não entrava na minha cabeça. E a professora na época alertava que era necessário mantermos vigilância para que isto não acontecesse novamente. Sem pensar duas vezes, afirmei internamente: Impossível! Hoje, analisando lucidamente o comportamento de manada de grande parte do povo brasileiro ao debater política, esta propensão asquerosa ao apedrejamento, estimulado por formadores de opinião imbecis que ganham fama na internet com vídeos em que satisfazem a necessidade de tolos inseguros por autoafirmação abusando dos discursos de ódio, enxergo perfeitamente a natureza do mal, o ovo da serpente.

A rápida escalada fascista, o conservadorismo extremista hipócrita e, por conseguinte, o impulso grosseiro por censura artística, elementos perigosos nas mãos de analfabetos funcionais. Sem pesquisar minimamente, motivado apenas pela manchete sensacionalista, o povo já toma partido e soma na fila do linchamento social. Imagine o que um líder carismático de índole ruim faria com tal coletivo barulhento de acéfalos. Se a sociedade não acordar logo e tomar vergonha na cara, estamos condenados a repetir o sombrio passado em um futuro próximo. Luchino Visconti trabalha estes temas em “Os Deuses Malditos” com aquela ferina elegância usual em sua carreira, alcançando o tom psicologicamente apocalíptico do "Saló" de Pasolini, utilizando como força motriz provocadora a frieza contemplativa de quem se depara com o abismo e sorri consciente de que não há redenção. 

Utilizando como alegoria a decadência de uma família alemã que se corrompe por ganância, encontrando na máquina nazista terreno fértil para extravasar a maldade que escondiam sob o verniz da alta sociedade, o roteiro prima por vasculhar a raiz do problema, ao invés de simplesmente retratar o poder de sedução do partido político, o texto joga luz nos indivíduos, evidenciando o processo doentio que permite a absorção de sistemas repugnantes, o interesse pequeno por poder e glória sem esforço que faz com que pessoas comuns se tornem monstros, cobras autofágicas sem bússola ética. A trilha sonora de Maurice Jarre pontua de forma debochada esta grandiosidade ilusória e cafona inerente aos personagens. No elenco, Ingrid Thulin, Helmut Berger, Charlotte Rampling, Dirk Bogarde e Florinda Bolkan, um grupo que se despe existencialmente para as câmeras. 

A fotografia de Pasqualino De Santis e Armando Nannuzzi garante uma qualidade etérea que insinua o desapego como leitmotiv, afinal, a barbárie moral na trama envolve incesto, pedofilia, traições, figuras sem escrúpulos que perderam o senso de identidade. Referências são feitas a alguns episódios históricos, como o expurgo na Noite das Facas Longas ocorrido em 1934, com os Essenbeck na narrativa representando os Krupp, família que irresponsavelmente financiou os nazistas com sua fábrica de armas. O ditador não pensa duas vezes antes de cuspir naqueles que o ajudaram a conquistar seu posto, ele liquidou a SA, a milícia paramilitar nazista. A sequência da bebedeira orgiástica que simboliza este momento é o ponto alto do filme. 

Se ao final da sessão você concluir que se trata de uma página virada na História, olhe com mais atenção ao seu redor. 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Rebobinando o VHS - "O Dia de Satã"


Mais uma bomba pérola distribuída em VHS nacionalmente pela “Vídeo BAN” que resgato no blog, filme esquecido pelo grande público e que vive apenas na memória afetiva daquelas crianças que aproveitaram o auge das locadoras de vídeo. Bom, vamos ao filme...


O Dia de Satã (The Third Hand - 1988)
Dois idiotas jovens, seguindo o conselho de uma desconhecida senhora vestida com um manto negro dos pés a cabeça, chegam em um vilarejo fundado por imigrantes espanhóis nos Estados Unidos exatamente no dia em que o povo está se preparando para abandonar suas casas, uma tradição anual macabra, o período em que recebem a visita do vilão dos Power Rangers diabo. E, para entrar no clima, nada melhor que aquela cafona nobre mensagem inicial da Dóris Giesse, a Brigitte Nielsen brasileira, sobre a importância de somente alugar fitas seladas. Quem quiser arriscar, o filme está disponível na íntegra no Youtube. Não é bom, não é sequer agradavelmente ruim, apenas ruim. Mas ver filmes ruins é como encontrar uma cédula amassada no bolso de trás da calça, pode ser até de R$ 1,00, sempre é melhor que nada.

Eu li uma análise apaixonada de um brasileiro que afirmava que o clima de horror era eficiente, a minha memória me pregava a mesma peça, com sete anos de idade, até aquele intervalo do SBT com um ator silenciosamente interpretando Jesus dava medo. Ao rever hoje, eu precisei controlar minha alma para que ela não abandonasse meu corpo no meio da sessão e decidisse dar um animado passeio pelo corredor do prédio. O padre vivido por Peter Mark Richman, o meu xará vivido por Cesar Romero, os dois rapazes que tomaram aulas cênicas com o Cigano Igor, o roteiro tolo e a direção incompetente esforçada do Ferde Grofé Jr., são muitos detalhes que urgem por revisão, ainda que eu não creia que terei força de espírito para enfrentar novamente este desafio em minha vida. A surpresa do desfecho é tão óbvia, insossa, imbecil, curiosa, que eu criei mentalmente umas vinte alternativas mais interessantes na curta duração dos créditos finais. 

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

"Magical Mystery Tour", dos Beatles


Magical Mystery Tour - 1967
Parece que foi ontem, a noite prometia ser espetacular. Eu iria realizar um dos meus sonhos de infância, estar perto de Paul McCartney. Tecnicamente, eu estive perto dele no clássico show de 1990, já que moro próximo ao estádio do Maracanã, escutei da janela todas as músicas. Mas o destino me presenteou com a possibilidade de viver plenamente esta experiência em 2011, em outro estádio, o Engenhão. A emoção já bateu forte quando ele decidiu iniciar com “Magical Mystery Tour”, uma das minhas favoritas. Beatles, Elvis Presley e Frank Sinatra são meus grandes ídolos na música. As carreiras cinematográficas de Elvis e Sinatra são usualmente lembradas com carinho, mas os filmes dos Beatles, com exceção de "A Hard Day's Night", costumam ser alvo de deboche. Acho válido tentar modificar isto, então começo logo pelo mais odiado, cinquenta minutos de puro nonsense surreal.


Sejamos sinceros, boa parte da obra de Godard também não faz sentido algum, mas você dificilmente lerá um crítico apedrejando o diretor francês. Eles se dedicam a encontrar significado até no espirro do ator. É uma questão de autoafirmação intelectual, defender publicamente que aprecia bobagens como “Adeus à Linguagem” agrega valor, já apontar o brilhantismo da sequência emoldurada por “Blue Jay Way”, com George Harrison envolto em névoa e dedilhando um teclado pintado no chão, não instiga sequer um tapa nas costas. Enquanto o primeiro se leva aborrecidamente a sério e crê estar revolucionando o mundo, o segundo faz parte de um projeto que gargalha na cara do pedantismo. A cena é trabalhada sensorialmente para estabelecer uma aura de medo, como se o personagem estivesse numa espécie de limbo entre a vida e a morte, logo após o acidente trágico que o desfecho insinua, refletindo sobre a necessidade de compreender a finitude, aceitar que não pertencemos (“don’t be long”, que evolui para “please don’t belong”), somos seres únicos. Ao final da apresentação, aplausos animados, todos retornam para o ônibus, seguem viagem. O destino? Não importa. 

A alegria despretensiosa do início vai se transformando, ganhando contornos contemplativos, o romance idealizado pelos olhos da tia de Ringo logo se mostra mais uma ilusão, como o devaneio poético de Paul em “The Fool on The Hill”. A estupidez da guerra é parte fundamental, o general/toureiro humilhando o touro, teatro patético que é quebrado com a simples questão de Ringo, que honestamente quer entender a razão de tudo aquilo. “I Am The Walrus” evidenciando a natureza caótica da vida, inserindo trechos rápidos que mostram os bastidores, a batida da claquete, o ensaio. Após a fase da decadência física, representada pela performance da stripper e seu cafona colega cantor, somos encaminhados para a nostalgia de “Your Mother Should Know”, o resgate natural que ocorre no crepúsculo da vida e embeleza tudo o que toca, a escada no palco leva para o desconhecido. Os quatro magos (elemento divino/sobrenatural) retornam então para liderar a massa aos agradecimentos, o fechar da cortina, o reinício do ciclo. 

A mágica misteriosa da jornada é entender que a beleza está em compartilhar pelo breve período a mesma paisagem. 

sábado, 28 de outubro de 2017

"Doentes de Amor", de Michael Showalter


Doentes de Amor (The Big Sick – 2017)
A melhor comédia romântica do ano, baseada no conturbado início de namoro de um jovem comediante paquistanês e uma estudante de psicologia norte-americana, com direção correta de Michael Showalter e produzido por Judd Apatow. O roteiro é escrito pelo próprio casal, Kumail Nanjiani, que também protagoniza a obra, e Emily V. Gordon, que é interpretada por Zoe Kazan.

O choque de culturas já seria interessante o suficiente, a angústia do rapaz que é guiado pelos pais egoístas à uma escolha profissional indesejada e encontros românticos arranjados em que o amor é o elemento menos importante na equação. Se ele demonstrar interesse em uma garota que não seja de sua cultura, a família se sente envergonhada e rompe a relação de afeto com o filho. É a tradição de seu país, assim como a oração diária que ele finge fazer enquanto checa os vídeos engraçados na internet, um cabresto social/religioso que pode ter profunda relevância para seus pais e irmãos, mas que não significa absolutamente nada em sua vida. A forma como o texto orgânico trabalha a questão, aliada à entrega incrivelmente natural do elenco, faz com que em poucos minutos o espectador esteja conectado emocionalmente aos personagens, o que é essencial para a eficiência narrativa do ponto de virada, quando o fator da imprevisibilidade conduz a trama além das convenções usuais do gênero.

Sem revelar muito para não estragar a experiência, a beleza não está no desenvolvimento da relação do casal, afastados por boa parte do tempo, mas na radical transformação que é operada gradualmente no relacionamento que se estabelece entre o jovem e os pais dela. O arraigado preconceito dos dois, vale destacar, grande momento de Holly Hunter e Ray Romano, símbolo da ignorância e do medo que alimentam a incapacidade de demonstrar empatia, estado gerado pela insegurança e imaturidade, como fica latente em várias sequências, reduzia aquele rapaz a um estereótipo cruel. Se nos palcos ele conseguia reverter as eventuais provocações de membros deselegantes da plateia com desenvoltura, carecia da mesma ousadia no cotidiano, buscava internamente a aceitação profissional e se sentia culpado por não respeitar suas raízes. Ao ensinar carinhosamente para eles a necessidade de se tentar compreender o outro, ele acaba se tornando psicologicamente mais seguro. O conflito e a dor dos três se mostra o aprendizado mais valioso, a capacidade de adaptação, leitmotiv representado essencialmente pela habilidade do comediante que vive do improviso, forja indivíduos melhores. 

A execução é adorável, o tema é precioso, especialmente nos tempos em que vivemos, produzido em uma nação cujo presidente irresponsavelmente incentiva a segregação. "Doentes de Amor", apesar do péssimo título nacional, é o melhor filme em cartaz no momento. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

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Amigos leitores, queridas leitoras, todos sabem como a produção cultural independente é complicada neste país. Alguns amigos sugeriram o financiamento pelo site "Apoia.se" como uma opção válida. Caso você goste do meu trabalho e queira me ajudar nesta luta diária, caso queira ser meu "patrocinador", entre no link abaixo, faça cadastro gratuito e colabore com o valor que desejar. Será muito bem-vindo!

TOP - 2002


1 - O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (The Lord of The Rings: The Fellowship of The Ring), de Peter Jackson
"... Peter Jackson acertou, por exemplo, ao excluir Tom Bombadil da trama, priorizando a essência dos escritos de J.R.R. Tolkien e seu potencial imagético, em detrimento de uma fidelidade ipsis litteris. A sua adaptação para o personagem Aragorn (Viggo Mortensen) é um exemplo de sua sagacidade. Nos livros, Passolargo é um marginal, fazendo o seu caminho fora das fronteiras de uma civilização em declínio. Quando ele se revela, mostra-se um mito dentre seres comuns e ordinários, simbolizados pelos Hobbits. O feito alcançado pelo diretor não é pouco..."


2 - O Pianista (The Pianist), de Roman Polanski
"... É impressionante a forma como o roteiro mantém a sensação de medo constante, abordando o tema por um viés diferente, mais visceral, com um protagonista sem ímpetos de heroísmo, alguém que tenta apenas sobreviver, apesar de estar consciente de que é fraco e despreparado. A cena em que ele imagina o som das teclas do piano que não pode tocar é inesquecível..."


3 - Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
"... Fernando Meirelles conseguiu capturar a revolta brasileira com as taxas crescentes de violência urbana e o sentimento absurdo de impotência diante de um sistema que parece proteger os criminosos, a impunidade em todos os níveis, canalizando essa raiva coletiva para a estética de seu filme. É rápido, é brutal, é real..."


4 - A Professora de Piano (La Pianiste), de Michael Haneke
"... Isabelle Huppert está incrível, Haneke, que chocou o mundo com Violência Gratuita, consegue elevar o nível da discussão sobre a violência, a loucura, os desejos, instintos primitivos, os malefícios psicológicos da repressão, com um domínio absoluto, conduzindo a trama com apurado senso de suspense que envolve o espectador e o mantém questionando horas após a sessão..."


5 - Minority Report - A Nova Lei (Minority Report), de Steven Spielberg
"... Spielberg consegue mais uma vez operar sua mágica no gênero sci-fi, adaptando o conto de Philip K. Dick. Assim como Blade Runner, do mesmo autor, o conceito da obra está à frente de seu tempo, provavelmente será cultuada no futuro por sua estética e pela força do texto..." 


6 - Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream), de Darren Aronofsky
"... Impossível sair da sessão indiferente, Aronofsky desfere um soco no estômago do espectador de dez em dez minutos. A constatação de que o horror é intensamente real perturba e instiga preciosa reflexão sobre a nossa sociedade doente ao final. Ellen Burstyn é uma força da natureza..."


7 - O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia), de Juan José Campanella
"... Comédia romântica argentina impecável que lida com um tema complicado, o Alzheimer, com leveza e profunda humanidade, sem os clichês usuais do gênero em Hollywood..."


8 - Falcão Negro em Perigo (Black Hawk Down), de Ridley Scott
"... Existem muitos filmes de guerra memoráveis, mas poucos são aqueles que verdadeiramente conseguem fazer com que o espectador sensorialmente viva por um par de horas o horror do conflito. O foco não está na trama, nem no desenvolvimento dos personagens, não é a proposta de Ridley Scott..."


9 - O Quarto do Filho (La Stanza del Figlio), de Nanni Moretti
"... O roteiro inteligentemente evita a manipulação emocional convencional, apesar da trama soar como um melodrama sobre os estágios do luto, a entrega sensível e naturalista do elenco agrega ao texto sensível que trabalha de forma realista a questão da perda, a carência, a melancolia e, claro, a beleza das lembranças boas..."


10 - O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Le Fabuleux Destin D'Amélie Poulain), de Jean-Pierre Jeunet
"... A beleza de desejar melhorar a vida de estranhos, sem receber crédito algum por isso, o amor sem vaidade que motiva a jovem garçonete Amélie poderia contaminar todos aqueles que tivessem contato com a obra. Ao perceber como um simples gesto de gentileza modifica o dia de uma pessoa, ela passa a encarar a experiência da vida de forma totalmente diferente. Nem mesmo uma infância imersa em tristeza e frustração pode impedir um espírito livre de alcançar a redenção. Tudo se resume ao ato de querer ser melhor..."

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"O Conto do Czar Saltan", de Aleksander Ptushko


O Conto do Czar Saltan (Skazka o Tsare Saltane - 1967)
Adaptado do poema de Aleksandr Pushkin, baseado em conto popular russo, o filme dirigido pelo mestre do cinema fantástico europeu Aleksandr Ptushko, em seu penúltimo trabalho, encanta já nos primeiros momentos, quando somos apresentados às três irmãs e os valores tão distintos da mais jovem, vivida por Larisa Golubkina, que não sabia que o czar estava escutando escondido suas promessas de amor. Ao ser levada por ele, desperta a inveja das irmãs, que elaboram um plano nefasto. A czarina aporta numa ilha mágica depois de ter sido lançada ao mar com seu filho, o príncipe, vivido por Oleg Vidov, dentro de um barril selado. Com a ajuda da princesa cisne, a bailarina profissional Kseniya Ryabinkina, que realiza os seus desejos, o jovem inicia uma fantástica aventura que o levará ao encontro do pai e ao desmascaramento das farsantes.

É uma pena que a versão lançada agora em DVD não venha com opção de dublagem, já que é uma obra perfeita para ser mostrada para crianças pequenas, a riqueza de detalhes na composição das cenas, a paleta de cores vibrantes, os frutos da árvore, a marcha dos gigantes no mar, o esquilo cantor, os figurinos da realeza, o balé final, elementos que trazem lágrimas aos olhos dos adultos, impossível não retornar imediatamente à pureza tranquila da época em que nossos pais liam contos de fada e acompanhávamos cada palavra e cada desenho nas páginas dos livros. Eu tive oportunidade de ver “Sadko”, do mesmo diretor, ainda na adolescência, na época do garimpo inicial na internet, até comento isto em um texto sobre o valor das locadoras de vídeo. Não gostei da experiência, continuo considerando fraco, mas “O Conto do Czar Saltan” foi uma gratíssima surpresa com precioso potencial de revisão.

Se você não conhecia o diretor russo, mas aprecia o tom mágico nas obras de Ray Harryhausen, não perca tempo, dê uma chance ao filme e acaricie sua criança interna.





* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "CPC - Umes Filmes".

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Guilty Pleasures - A hexalogia "Resident Evil"

Eu cresci jogando os três primeiros títulos da Capcom, ficava apavorado cada vez que o Nemesis aparecia no terceiro, adorei a versão remasterizada do original que jogava no lixo aquelas inserções iniciais em live action vergonhosas, em suma, nutro carinho nostálgico por “Resident Evil”. Não acompanho mais como jogador, eu parei no terceiro, mas tenho eles no PS3, de vez em quando mato a saudade. Eu teria todos os motivos para desprezar as adaptações para o cinema. Os roteiros têm furos gigantescos, estabelecem regras que são desrespeitadas posteriormente, esquecem de fatos importantes e frequentemente reescrevem a história, personagens importantes do jogo são inseridos, visualmente fiéis, mas sem qualquer relevância e, para piorar, somem sem explicação, abusam da clonagem como reviravolta pífia e os diálogos são uma colcha de retalhos de frases de efeito. Ok, senhor juiz, este é um caso muito difícil de defender, mas há um elemento que redime todos os equívocos: Milla Jovovich. 

Foi paixão cinematográfica à primeira vista, depois que a conheci em “O Quinto Elemento”, eu pagaria ingresso para vê-la encarando a câmera por três horas enquanto lê um dicionário. O roteirista/diretor Paul W. S. Anderson é seu marido na vida real e eu compreendo perfeitamente porque ele faz desta franquia uma reverência apaixonada à sua musa, apesar da personagem Alice simplesmente não existir nos jogos. Ela é linda, ótima atriz e uma pessoa extremamente gentil, basta você procurar os vídeos de entrevistas, a forma carinhosa como ela trata os fãs da franquia, sem estrelismo, sem frescura, aquela simpatia natural cada vez mais rara na indústria. Como crítico de cinema, eu escrevi sobre alguns filmes da série, os elogios foram poucos, a minha crítica para o quinto pode levar qualquer pessoa a acreditar que eu odiei a experiência. É o trabalho do crítico apontar falhas, mas um ponto fascinante nesta arte é que, mesmo consciente de que são filmes fracos e com sérios problemas, você ainda pode se divertir sobremaneira com eles. Não é sempre que isto acontece, por exemplo, eu consigo até suportar “Transformers”, que vejo como uma comédia sexual adolescente que faz o possível com sua trama absurdamente estúpida, mas as sequências me causam ânsia de vômito, ou “Velozes e Furiosos”, que com exceção do primeiro e do quinto, altamente competente filme de ação, são irritantemente superficiais. Já com “Resident Evil”, os seis são despretensiosos filmes B, curtos e objetivos, que entregam exatamente aquilo que prometem. Vale destacar que as tramas dos jogos originais não são lá grande coisa, o que os torna memoráveis é a dinâmica, o tom, o senso de ameaça, o conceito narrativo criado para os filmes é muito mais instigante e universalmente atraente. E, claro, não custa repetir, são protagonizados pela Milla Jovovich. I rest my case.


Resident Evil: O Hóspede Maldito (Resident Evil - 2002)
O diretor havia sido o responsável pela melhor adaptação de videogame até aquele momento, “Mortal Kombat”, logo, a esperança era forte. E, sejamos sinceros, os equívocos são poucos nesta primeira aventura. A essência do jogo foi respeitada, a trama ainda se preocupava em respeitar algumas convenções do horror, apesar do nível de gore ser comportado demais, entretenimento acima da média valorizado por sequências criativas, como a da armadilha laser no corredor. O que poucos lembram é que a tendência atual de protagonistas femininas em filmes de ação mainstream deve muito à “Resident Evil”. Após o sucesso da Ripley de “Alien” e sua sequência marombada, a indústria flertou poucas vezes com heroínas fortes. A franquia não trazia apenas uma protagonista poderosa, as coadjuvantes também foram marcantes. O figurino não a tornava sexualizada, não era a satisfação de um fetiche masculino, Alice era naturalmente sexy. 


Resident Evil 2: Apocalipse (Resident Evil: Apocalypse - 2004)
A ideia por trás da presença de Nemesis é muito mais interessante no filme do que no jogo, o roteiro insere uma camada emocional que o torna relevante, não apenas um monstro unidimensional. Alice teve seus genes modificados, ela se torna uma espécie de Jedi. Jill Valentine, a personagem mais famosa dos jogos, faz sua estreia no cinema sendo vivida por Sienna Guillory, mas a sua figura é tão estereotipada que destoa da abordagem mais naturalista dominante. É meio frustrante ver Nemesis e Alice saindo no braço, o filme falha terrivelmente em captar o senso de ameaça do vilão no terceiro jogo.


Resident Evil 3: A Extinção (Resident Evil: Extinction - 2007)
Se você ignorar que neste cenário apocalíptico em que os sobreviventes lutam diariamente no deserto, todos estão maquiados e vestidos como se estivessem preparados para um desfile de moda, com penteados impecáveis e rostos limpos, talvez você possa enxergar que este é o melhor filme da franquia, o mais consistente, mérito da direção do experiente Russell Mulcahy, de "Highlander - O Guerreiro Imortal". Ainda bem que aprenderam anos depois com "Mad Max: Estrada da Fúria", abandonaram o estilo novela bíblica brasileira e optaram no sexto (antes tarde do que nunca) por uma paleta suja, compreendendo que um figurino realista é fundamental na imersão dos espectadores, especialmente quando o roteiro não prima pelo brilhantismo.


Resident Evil 4: Recomeço (Resident Evil: Afterlife - 2010)
A grande sacada destes três últimos projetos é a esperta utilização do 3D, inegável que Anderson é um mestre nesta arte, ele consegue trabalhar o recurso em cenas escuras, com edição frenética, sem causar ataques epiléticos na plateia. Visto em casa, perde um pouco do encanto, mas abandonando as amarras de qualquer senso lógico e metendo o pé no acelerador, o filme aproveita a química da dupla Jovovich e Ali Larter, que vive Claire Redfield, um dos pontos altos do anterior, inserindo também mais um monstro visualmente impactante, o gigante do machado. A cena em que as duas enfrentam o vilão no banheiro da prisão da penitenciária é espetacular.


Resident Evil 5: Retribuição (Resident Evil: Retribution - 2012)
Com um orçamento maior e uma direção de arte inspirada, Anderson consegue elevar o escopo da ameaça para uma escala mundial, mas o roteiro raso falha em acompanhar esta escalada. É o filme da franquia com mais cara de videogame, episódico, exagerado, com algumas escolhas tolas e desnecessárias, como a ideia de iniciar com uma cena de ação de trás para frente. O ponto alto foi inserir na jornada de Alice uma criança em perigo. Pode ser clichê, mas é bonita a cena em que a menina desesperada pergunta se ela é mesmo sua mãe, já que acaba de descobrir a fábrica de clones com suas réplicas. "Blade Runner" bastante diluído, com dose generosa de açúcar.


Resident Evil 6: O Capítulo Final (Resident Evil: The Final Chapter - 2016)
O roteiro injeta uma sempre bem-vinda crítica à religião organizada na figura do Dr. Isaacs, vivido por Iain Glen, espécie de Richard Chamberlain genérico, que já havia sido assassinado no terceiro, mas que voltou porque ficou mundialmente famoso com "Game of Thrones". O tom e o trabalho de câmera ainda mais frenético que o usual na franquia foram claramente inspirados em "Mad Max: Estrada da Fúria". É engraçado que o início ignora completamente o gancho deixado no final do anterior, resolvendo tudo com uma linha de diálogo jogada no terceiro ato. A reviravolta final é bacana, apesar de não surpreender, já que o roteiro entrega o mistério logo nos primeiros minutos em flashback. Há a sugestão de sacrifício pela salvação da humanidade, elemento clássico, mas Anderson se recusa a matar sua esposa na tela grande. Eu não o culpo, terminar com Milla Jovovich sorrindo para a câmera é sempre o melhor caminho.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

"Milano Odia: La Polizia non Può Sparare", de Umberto Lenzi


Milano Odia: La Polizia non Può Sparare (1974)
Umberto Lenzi é conhecido pelos cinéfilos mais dedicados por seus trabalhos no terror, mas, apesar de ser meu gênero de formação, confesso que não gosto de seus filmes mais populares do ciclo canibal italiano, como “Canibal Ferox”, “Cidade Maldita”, ou “Vivos Serão Devorados”. Ele demonstrou muito mais talento ao experimentar com os gialli “A Lâmina de Aço” e “Sete Orquídeas Manchadas de Sangue”, ou no faroeste spaghetti “Uma Pistola Para Cem Caixões”. E sua obra-prima é “Milano Odia: La Polizia non Può Sparare”, clássico poliziotteschi que considero superior à sua obra-irmã mais celebrada “Roma a Mano Armata”, também dirigida por Lenzi e lançada dois anos depois. O roteiro é do craque Ernesto Gastaldi, que no ano anterior havia escrito o inesquecível “Meu Nome é Ninguém”, de Tonino Valerii, trabalhando a ideia de Sergio Leone, e anos depois ajudaria Sergio Martino no ótimo giallo “Torso”. 

O cubano Tomás Milián, de “O Dia da Desforra”, em seu melhor momento, vive um bandido medíocre e inseguro que encontra na possibilidade do sequestro de uma jovem filha da alta sociedade a chance de se provar competente. E, para piorar, a sua intenção é clara desde o início, ele quer pegar a grana do resgate e matar a garota. Não é apenas pelo dinheiro, a guerra dele é pessoal contra o sistema que, em sua mente distorcida, elege os sortudos e os azarados. Para ele, a classe policial é fraca, facilmente corruptível, limitada a seguir a lei. Sádico, até mesmo os comparsas questionam este posicionamento radical, com a consciência de que eles mesmos podem se tornar alvos de sua ira. Ele só não esperava encontrar em seu caminho o inspetor mais linha dura da cidade, vivido por Henry Silva e seu rosto lapidado a cinzel, alguém que descobre que a única forma de vencer no caso é se tornando mais louco que o bandido, logo, abandonando as amarras legais. 

O tom é pesado, o nível de violência é alto, o roteiro não faz concessões, seguindo a linha de “Desejo de Matar”, de Michael Winner, lançado no mesmo ano. E vale ressaltar a espetacular trilha sonora do mestre Ennio Morricone. Grande obra que merece maior reconhecimento.