sexta-feira, 23 de junho de 2017

TOP - 2005


1 - A Queda! As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang), de Oliver Hirschbiegel
"... Bruno Ganz, um monstro em cena, dá aula de como interpretar um personagem tão odiado: buscando o ser humano que se corrompeu terrivelmente, consumido pela arrogância..."


2 - Casa de Areia, de Andrucha Waddington
"... Se o cinema nacional primasse por essa elegante contundência, teríamos uma das indústrias mais respeitadas do mundo. A riqueza do texto complementado pela força das atrizes, poesia orgânica, nada umbilical, que convida o público a pensar e se emocionar..."


3 - Marcas da Violência (A History of Violence), de David Cronenberg
"... Difícil será achar outra adaptação de quadrinhos tão competente, Cronenberg, mais uma vez, analisa a natureza doente do homem..."


4 - Mar Adentro, de Alejandro Amenábar
"... A cena emoldurada ao som da ária Nessun Dorma é dos momentos mais lindos que o cinema já eternizou, a execução grandiosa da metáfora..."


5 - Herói (Ying Xiong), de Zhang Yimou
"... Na beleza contemplativa dos enquadramentos, o equilíbrio perfeito entre os impulsos wudang (força interior) e shaolin (força exterior) que movem o guerreiro sem nome vivido por Jet Li..."


6 - Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland), de Marc Forster
"... A imaginação moldando a realidade, conceito trabalhado com raro refinamento, respeitando a inteligência do espectador..."


7 - O Castelo Animado (Hauru no Ugoku Shiro), de Hayao Miyazaki
"... O castelo animado de Howl é uma alegoria às lembranças, com portas que podem nos levar a conhecer a razão de nossos maiores medos, como também o recanto florido onde residem nossas mais vívidas esperanças..."


8 - Sideways - Entre Umas e Outras (Sideways), de Alexander Payne
"... O roteiro fará você se tornar um apreciador de vinhos, com Payne nos carregando suavemente pela mão na jornada dos amigos..."


9 - Hotel Ruanda (Hotel Rwanda), de Terry George
"... Em mãos menos competentes, poderia ter se tornado um telefilme melodramático, mas Terry George garante a exposição visceral da baixeza humana..."


10 - Jogos Mortais (Saw), de James Wan
"... Wan, com baixo orçamento, conseguiu fazer um dos melhores filmes de terror/suspense dos últimos anos..."

TOP - 2006


1 - O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno), de Guillermo del Toro
"... A realidade brutal da guerra sendo aliviada pela fantasia, ainda que longe de ser bela, refletindo perfeitamente o inconsciente da menina, triste e sombria..."


2 - O Samurai do Entardecer (Tasogare Seibei), de Yôgi Yamada
"... Lançado em 2002 e estreando no Brasil quatro anos depois, obra simples e linda sobre um pai honrado, samurai que não busca reconhecimento em seu trabalho, apenas o amor de sua família..." 


3 - Match Point, de Woody Allen
"... Allen consegue revitalizar sua carreira com trama inspirada em obra mais famosa de Dostoiévski, abordando a cultura da aparência e a relativização do conceito da moral..."


4 - Filhos da Esperança (Children of Men), de Alfonso Cuarón
"... Um golpe devastador nos sentidos, ficção-científica pensada para adultos, com uma direção de fotografia estupenda..."


5 - O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain), de Ang Lee
"... O tema é tratado com tanta sensibilidade, que emociona até mesmo os preconceituosos. O romance que é impossibilitado de existir pelas pressões da sociedade..."


6 - Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado (Shutter), de Banjong Pisanthanakun e Parkpoom Wongpoom
"... Horror tailandês que realmente perturba, do início ao impressionante final, uma imagem que merece constar dentre as mais impactantes na história do gênero..."


7 - Caché, de Michael Haneke
"... Os filhos não persistem nos erros de seus pais. Enquanto Georges, uma relíquia de um passado preconceituoso, finaliza seu ato como um homem derrotado, seu filho corajosamente se reconcilia com o admirável mundo moderno..."


8 - Os Infiltrados (The Departed), de Martin Scorsese
"... Apesar de ser uma refilmagem, Scorsese imprime tanta personalidade, ajudado pelo elenco impecável, que consegue nos fazer lembrar de seus melhores momentos na função..."


9 - Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine), de Jonathan Dayton e Valerie Faris
"... Pérola doce e bem-humorada que pode ser subestimada pela simplicidade com que toca no tema, o que seria um tremendo equívoco..."


10 - Adrenalina (Crank), de Mark Neveldine e Brian Taylor
"... Desprezado por grande parte da crítica, o gênero da ação encontra nesta frenética incursão de Jason Statham a execução perfeita da fórmula..."

TOP - 2007


1 - A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen), de Florian Henckel von Donnersmarck
"... O roteiro trabalha conceitos de ética e moral, com referências à 1984, de Orwell, sustentando o ritmo brutal, apesar da ação ser confinada ao íntimo do indivíduo, tendo a arte como forma de resistência à opressão..."


2 - Conduta de Risco (Michael Clayton), de Tony Gilroy
"... É difícil encontrar atualmente projetos que abordem com maturidade os bastidores sujos do poder, o roteiro faz lembrar os grandes filmes políticos da década de setenta..."


3 - Império dos Sonhos (Inland Empire), de David Lynch
"... Se o bom filme é aquele que te faz perguntas, não aquele que entrega respostas, David Lynch entrega mais uma obra-prima, a busca de uma atriz por equilíbrio em um pesadelo que reflete a sociedade..."


4 - Ratatouille, de Brad Bird e Jan Pinkava
"... Só pela maneira como aborda o universo da crítica profissional já mereceria aplausos, mas o roteiro ainda aponta o dedo para um mundo cada vez mais fútil..."


5 - Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima), de Clint Eastwood
"... Sem tomar lados, o roteiro evidencia o absurdo da guerra para os peões que servem aos interessados, aqueles que morrem com honra..."


6 - Idiocracia (Idiocracy), de Mike Judge
"... É fácil enxergar como uma comédia tola, mas Judge tem coragem de criticar a apatia da massa, mostrando uma realidade que, eventualmente, será alcançada. A população está se esforçando ao máximo para isso..."


7 - Piaf - Um Hino ao Amor (La Môme), de Olivier Dahan
"... Poucas cinebiografias são tão pungentes, verdadeiramente honrando o legado da homenageada, com Marion Cotillard emocionando a cada dor absorvida..."


8 - Superbad, de Greg Mottola
"... O humor é muito eficiente, mas também existe uma mensagem bonita sobre amizade, equilibrando com sensibilidade os aspectos grosseiros (essenciais) com uma bem-vinda sinceridade emocional..."


9 - À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness), de Gabriele Muccino
"... Muccino emula Capra, encontrando em Will Smith o seu James Stewart perfeito, um homem que se recusa a aceitar a derrota. Emocionante na medida certa..."


10 - Leões e Cordeiros (Lions for Lambs), de Robert Redford
"... A mensagem é forte e corajosa, compensando o ritmo irregular com a honestidade na entrega do inspirado elenco, teatro filmado da melhor qualidade..."

segunda-feira, 19 de junho de 2017

"Bird", de Clint Eastwood


Bird (1988)
Não é um requisito obrigatório, mas considero importante contextualizar o filme. Apesar de não focar na música de Charlie Parker, o roteiro opta pelo melodrama de sua turbulenta vida pessoal, o espectador aprecia melhor o trabalho conhecendo um pouco mais sobre Jazz, sobre a realidade da época.

Antes da Segunda Guerra, a música teve um papel fundamental, assim como o cinema, mas a pessoa não podia rever o filme em casa, ela era obrigada a pagar ingresso cada vez que quisesse ver, já a música estava diariamente tocando nas rádios, a pessoa pagava um valor único por um disco e podia escutar quantas vezes quisesse. Foi o auge das big bands, o swing era produzido para fazer dançar, o líder da banda era a estrela, os músicos viam aquilo como uma opção para pagar as contas no final do mês. Eles tocavam ao vivo nas rádios e nos bares, acompanhavam os filmes mudos nas salas escuras, não havia desafio. Já atravessando a Grande Depressão, os filmes falados e a ascensão dos jukeboxes limitaram bastante estes profissionais, o desemprego era causado pelas inovações tecnológicas. Com a possibilidade de gravar as canções, as rádios não precisavam mais dos músicos ao vivo, o sindicato então organizou uma greve.

As duas maiores gravadoras da época, RCA Victor e Columbia, firmaram o pé contra as imposições do sindicato e perderam quase um ano exibindo apenas material em domínio público e músicas produzidas antes do boicote. Neste longo período, várias gravadoras pequenas foram criadas, na esperta tentativa de aproveitar o sono das gigantes. Fechando rápido acordo com o sindicato, estes profissionais estavam buscando sangue novo, a demanda era impressionante. Dizzy Gillespie e Charlie Parker, no meio deste caos, encontraram uma forma mais livre de expressão, o bebop, nome dado devido à vocalização do artista ao tentar explicar o tipo de som que fazia, o improviso desafiador sobre os acordes, algo que não era pensado para fazer dançar, muito pelo contrário, o estímulo era intelectual, o músico deixava a sombra e tomava papel de destaque no palco. A habilidade, a criatividade do artista, elementos que forjavam os ídolos de uma sociedade que necessitava, mais que nunca, de inspiração e esperança.

O roteiro de Joel Oliansky é convencional, o texto não tem muito brilho, a estrutura narrativa por vezes confunde o espectador, mas a entrega visceral de Forest Whitaker redime todas as falhas. O ator viu no papel a oportunidade única de mostrar sua competência, já que colecionava pequenas participações na televisão e no cinema. Vale lembrar que, no mesmo ano, ele podia ser visto em uma ponta inglória em “O Grande Dragão Branco”, veículo para a elasticidade do belga Jean-Claude Van Damme. O diretor Clint Eastwood, apaixonado por Jazz, enxergou no jovem o potencial, investiu pesado e saiu vitorioso, Whitaker levou o prêmio de Melhor Ator no prestigiado Festival de Cannes. Bird era um espírito perturbado, viciado em heroína e álcool desde a adolescência, um músico abusado, já arriscava desde cedo disputar sua sonoridade em jam sessions com colegas de peso, anos antes de aperfeiçoar sua técnica. Ele era tido como piada, um baterista chegou a interromper sua apresentação atirando um prato no chão, imagem que o filme resgata como leitmotiv para simbolizar a maturidade profissional do saxofonista.

É bonita a forma como Parker tenta proteger um colega, que, desejando ser como ele, procura se iniciar no vício. O coração frágil de um homem consciente de seu calvário pessoal, mas que deseja carregar sozinho a cruz. A fotografia escura de Jack N. Green enfatiza a tremenda dor nesta jornada suicida, os personagens estão sempre buscando conforto nas sombras. O som vibrante entretém o público, que ignora a lágrima que escorre no rosto do músico. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

"Animais Noturnos", de Tom Ford


Animais Noturnos (Nocturnal Animals – 2016)

Se você não viu o filme, para não estragar a experiência, eu recomendo que leia o texto após a sessão.

Susan (Amy Adams) e Edward (Jake Gyllenhaal) cresceram juntos, eles se reencontram anos depois, enquanto davam os primeiros passos na selva urbana. Ele, apaixonado pela escrita, luta com dificuldade para ser reconhecido na área. Ela, motivada pela necessidade de atingir um confortável status social, negligencia suas ambições criativas e abraça uma carreira pouco estimulante, adotando uma postura realista como forma de justificar sua falta de coragem, seguindo, inconscientemente, a forma de pensar da mãe, uma mulher preconceituosa, fútil e conformista. Ela deseja uma vida de aparência, uma rotina que possa registrar e compartilhar nas redes sociais para causar inveja às amigas. Ao primeiro sinal de interesse romântico de um jovem bem-sucedido e financeiramente estável, Susan descarta o escritor sonhador e desempregado, abortando em segredo o filho que carregava em seu ventre, investindo emocionalmente nesta nova relação com um completo estranho.

O roteiro desenvolve três narrativas paralelas, sempre pelo ponto de vista de Susan:

1 - O tempo atual, após o recebimento do manuscrito de “Animais Noturnos”, livro de Edward dedicado a ela.
2 - O flashback, mostrando como eles se conheceram.
3 - A trama do livro, um suspense brutal envolvendo a vingança de um homem contra os delinquentes que seviciaram sua esposa e sua filha adolescente.

Ao ler, Susan crê ter sido inspiração para a personagem da esposa. O filme escala uma atriz muito parecida fisicamente com Amy Adams. Um detalhe importante e que será destruído no terceiro ato. E, claro, ela imagina o personagem do marido como uma versão de Edward. A família cruza o caminho de um grupo de caipiras agressivos na estrada, a perseguição de carro os conduz à separação, a mulher e a filha são raptadas pelo grupo, a metáfora perfeita para como Edward se sentiu, na vida real, ao ser abandonado por Susan. O delegado (Michael Shannon), atua como o subconsciente do escritor, o câncer corroendo seu espírito, apenas a intenção do revide mantendo-o de pé. A violência na história causa repulsa, ao mesmo tempo em que ela não consegue tirar os olhos da página. É um trabalho de mestre, forjado na dor. A dedicatória implicitamente dá crédito a ela por todo o sofrimento que causou, a obra não existiria se ele não tivesse vivido aquele inferno. Susan percebe que Edward não apenas conquistou seu objetivo profissional, como também está provando ter potencial para se tornar um dos melhores escritores de sua geração. Ela então começa a se arrepender de não ter acreditado nele.

A direção de arte enriquece o filme com simbolismo, como na utilização de um mesmo sofá vermelho em duas sequências fundamentais: No flashback, quando Susan impiedosamente coloca as cartas na mesa sobre a relação, e na cena em que o protagonista do livro finalmente encontra os corpos da esposa e da filha. Outra opção brilhante é transformar os créditos iniciais em uma apresentação de dança com mulheres nuas, felizes, e totalmente fora dos padrões estéticos impostos pela sociedade. Pouco depois, o roteiro evidencia que elas fazem parte da galeria de arte que Susan está tentando vender, fascinada por aquelas mulheres. A liberdade é o leitmotiv, exatamente o elemento que a protagonista desconhece. Susan é a perfeita antítese, ela se esforça muito para transmitir glamour, a maquiagem e o cabelo salientando este aspecto, mas é raro que um sorriso sincero brote em seu rosto.

Ao ler o manuscrito, ela, motivada por interesse na nova condição social de Edward, tenta promover o reencontro. E, como ato de vingança supremo, ele deixa ela crer que ainda há esperança para o relacionamento. Um jantar romântico é marcado em um restaurante refinado, ela chega antes do horário, passa o tempo usufruindo das mais caras bebidas no cardápio, aguardando com ansiedade a chegada dele. Ela quer pensar que mudou, mas segue sendo a mesma pessoa fútil de outrora. Não basta reduzir a maquiagem, como ela melancolicamente faz diante do espelho, a mudança precisa ser interna e motivada pelas razões certas. As horas passam, ele não aparece. O olhar dela, segundos antes do fade out, a constatação deprimente do fracasso existencial.

“Animais Noturnos” é um dos melhores filmes do ano. 

Cine Bueller - "A Maior Aventura de Tarzan", de John Guillermin


A Maior Aventura de Tarzan (Tarzan's Greatest Adventure - 1959)
O meu primeiro contato com Tarzan não foi através dos quadrinhos, ou dos livros de Edgar Rice Burroughs, mas com este filme na infância, em suas exibições na “Sessão da Tarde” e, anos depois, no “Cinema em Casa”. Pouco tempo depois, em casa, em um VHS gravado de uma exibição na televisão, conheci “Greystoke – A Lenda de Tarzan”, mas só fui apreciar melhor a obra com a maturidade. Já na fase do garimpo adolescente nas locadoras de vídeo, via todas as aventuras clássicas de Johnny Weissmuller que encontrava, sempre em cópias bastante ruins. E, hoje, apesar de preferir o charme ingênuo e o preto e branco destas fitas de baixo orçamento da RKO, Gordon Scott, que estreou no papel em 1955, foi o Tarzan da minha infância. O seu melhor momento é “A Maior Aventura de Tarzan”, roteirizado e dirigido por John Guillermin, que faria no crepúsculo de sua carreira filmes como “Inferno na Torre” e “Morte Sobre o Nilo”.

O produtor Sy Weintraub estava entrando na franquia e queria modificar o tom, manter o escapismo, com mais fidelidade à origem literária e, principalmente, direcionar o projeto para o público adulto. A macaca Chita aparece rápido, sem interferir na história, o interesse pelo alívio cômico é mínimo, o objetivo é estabelecer um senso real de perigo. Sem Jane, o herói agora encontraria em seu caminho uma bela loira (Sara Shane) da cidade grande. E, dentre os vilões, liderados pelo caçador vivido pelo respeitado Anthony Quayle, temos Sean Connery pré-007, roubando cada cena. Se Scott, em sua penúltima participação, não surpreende na atuação, ele também não faz feio, conseguindo impor sua presença nas cenas de ação e nas poucas situações mais desafiadoras. O senso comum preguiçoso costuma ignorar o filme, mas, em revisão recente, para a preparação do texto, fiquei impressionado, merece constar nas listas de melhores em seu gênero. A trama é simples, criminosos atacam uma aldeia africana e roubam explosivos para extrair diamantes de uma mina, mas o roteiro insere no terceiro ato alguns toques geniais que elevam o nível do material para uma espécie de “O Tesouro de Sierra Madre” diluído, com a pegada sombria dos faroestes de Anthony Mann.

A execução da metáfora ao final é de aplaudir de pé. O vilão não quer apenas matar Tarzan, ele faz questão de fazer isso com uma lança para enforcar animais selvagens. A batalha é intensa, o herói já começa ferido. Após muito esforço, ele vence, limpa o sangue do rosto na água do rio e se sente incomodado com seu próprio reflexo, ele não é um animal, ele é humano, a mesma espécie daquele que acaba de enfrentar, consumido pela ganância. Tarzan então vê a possibilidade de seguir viagem com a mulher de volta para a civilização, mas, sem pensar muito, decide silenciosamente retornar para a floresta. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Cartaz do curta "Se"

Argumento/Roteiro/Direção: Octavio Caruso
Direção de Fotografia: Sihan Felix
Arte Gráfica: Laísa Roberta Trojaike


Quem Vai Salvar o Cinema?

Eu tenho uma teoria que pode parecer pessimista, mas considero válida. O cinema estava caminhando para seu fim na década de cinquenta, acabaria se tornando uma opção irrelevante de entretenimento. Os grandes estúdios dominavam a indústria, os diretores eram peões suportáveis na equação, caso o produtor considerasse necessário, o comando do filme trocaria de mãos da noite para o dia, o nome que assinava não importava.

Na era de ouro, sem competição alguma, as salas escuras eram o ponto de encontro da alta sociedade, famílias vestiam seus melhores trajes e planejavam com antecedência a grande noite. Os cinejornais, transmitidos antes das sessões, agregavam dinamismo e emoção audiovisual às notícias. Nem mesmo a guerra e a crise financeira conseguiam abalar esta arte, porque nos momentos mais difíceis, quando o indivíduo se vê sem perspectiva de vida, ele busca inspiração na fantasia, ele esquece dos problemas naquele par de horas recostado na poltrona.

O cinema se torna eficiente ferramenta de propaganda contra Hitler, exaltando o patriotismo, a linguagem já havia evoluído com o aperfeiçoamento do som e estava abrindo novas possibilidades com as cores. Aqueles artistas que não souberam se adaptar ficaram pelo caminho, muitos afirmavam que o som havia sido o ponto final naquela história. O que eles diriam da televisão?

Agora as famílias podiam desfrutar de todo tipo de entretenimento no sofá de suas casas, o aparelho revolucionou o conceito de diversão. O forte dos produtores de cinema não era a criatividade, eles estavam acostumados a pagar profissionais para pensar e executar as ideias. Artifícios foram criados na tentativa de atrair público, como o 3D, prometendo incrível imersão, ou o Smell-O-Vision, que fazia o espectador sentir os aromas de elementos selecionados na tela grande, mas nada disso alterava a qualidade do material exibido.

As bilheterias sofreram um profundo golpe quando a televisão passou a oferecer aventuras no Velho Oeste, comédias e romances adocicados, gêneros populares. Os produtores então deram sinal verde para tramas nos únicos gêneros que ainda não tinham encontrado espaço na tela pequena, o terror e o sci-fi. Neste período, grandes astros respeitados viveram bruxas, adoradores do demônio, vampiros, babás malévolas, toda sorte de personagens sombrios.

Foi também a época dos suntuosos épicos bíblicos, pensados para o gigantesco CinemaScope, tecnologia de filmagem e projeção criada em 1953, como oposição imbatível para a televisão. Só que o desgaste do tema nos anos seguintes, aliado à pouca qualidade na maioria dos roteiros, culminou no fracasso retumbante de “Cleópatra” em 1963, que quase levou a FOX à falência. Se continuasse neste rumo, o fim seria questão de tempo.

Quem salvou o cinema? Os jovens críticos europeus da “Cahiers du Cinéma”. Nos textos deles, o diretor tinha papel de destaque, até mesmo nas produções menos pretensiosas. Ele era o autor da obra. Hitchcock, aos olhos de François Truffaut, era um mestre. O cineasta inglês só foi respeitado mundialmente após este aval. Chabrol, Godard, Rivette, Rohmer, entre outros, rapazes apaixonados que não se satisfazendo com a teoria, encontraram na prática suas identidades artísticas.

A valorização do diretor como autor foi o estopim para movimentos cinematograficamente libertários no mundo todo, os grandes magnatas dos estúdios foram substituídos por jovens ousados, como Martin Scorsese, Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, George Lucas, Arthur Penn, Robert Altman, William Friedkin, Monte Hellman, John Cassavetes, Samuel Fuller, Brian de Palma, entre tantos outros, representantes da chamada “Nova Hollywood”. O que me conduz para os dias de hoje. Creio que vivemos mais um momento de crise criativa.

Os adultos estão abandonando o cinema, já que grande parte dos roteiros são pensados para satisfazer o imediatismo adolescente. O artifício do 3D, que veio ganhando espaço nos últimos anos, quase sempre subutilizado, já não empolga, além de encarecer o ingresso. Os épicos bíblicos de hoje, as adaptações de quadrinhos, já começam a mostrar sinais de desgaste. A “novidade” agora é fazer versões em preto e branco de lançamentos ainda frescos. A coragem, em estilo e substância, parece estar nas mãos dos roteiristas de séries televisivas.

Quem vai salvar o cinema desta vez? 

Tesouros da Sétima Arte - "Filme Demência", de Carlos Reichenbach


Filme Demência (1986)
Produzida pela Embrafilme, roteiro escrito por Reichenbach e Inácio Araújo, esta pérola ainda é muito pouco comentada entre cinéfilos, o trabalho mais pessoal do diretor, o meu favorito em sua carreira. Idealizada em tempos de crise nacional, a ideia original teve que ser abortada após cortes no orçamento, e, naquela correria sempre fortuita para a mente criativa, acabou sendo transformada em uma versão para “Fausto”, de Goethe. Aqueles que enxergavam o diretor limitado pelas convenções rasas das pornochanchadas podem ter considerado uma ousadia pretensiosa beber na fonte literária do autor alemão, mas quem percebia até mesmo em suas incursões pelo erótico o estofo cultural de um apaixonado por cinema, pressentiu que o material estava em boas mãos. 

O esperto senso de humor dá o tom na viagem de carro que conduz ao desfecho, reverberando “No Decurso do Tempo” de Wenders e “Morangos Silvestres” de Bergman, com o protagonista (Ênio Gonçalves) acompanhado pela jovem fogosa vivida por Vanessa Alves e pelo Mefistófeles (Emílio Di Biasi) travestido de senhora idosa, uma jornada onírica em que um homem psicologicamente destruído tenta operar um reinício de sistema existencial reencontrando sua persona perdida pela ganância profissional. Fausto, herdeiro de uma indústria de cigarros, enfrenta a falência empresarial e o irreparável desgaste no relacionamento com sua esposa, dois baques que abalam todas as suas convicções e, emocionalmente, fazem com que ele regrida para o estágio de insegurança infantil, utilizando frequentemente a violência como forma de expressão. Como seu inconsciente afirma, na voz de sua faceta malandra e medrosa, “é deste estado larval que nascem os deuses”. 

Em seu passeio pelas ruas do bairro, o caminho percorrido que aprende ser mais importante que o destino, o Éden, uma alucinação dominada pela imagem recorrente de uma menina caminhando na areia da praia, ele acaba participando de sequências surreais como a palestra noturna sobre simbologia, com o professor de lógica sendo assassinado pelo representante patético do estereótipo rockabilly, antes de conseguir sequer iniciar seu argumento. Nas mãos de diretores sem senso de empatia, estes momentos poderiam se tornar bobagens umbilicais herméticas, mas Reichenbach não forçava uma imagem intelectual, artifício usualmente perceptível em estúpidos reféns da autoafirmação, aqueles que prezam pelo “fingir ser”, ao invés do “ser”. 

Sem alma para vender ao diabo, o dinheiro já não vale nada, o sexo já não o estimula, como o Leopold Bloom de James Joyce, o homem decide apenas se manter em movimento, a loucura não é uma opção, ele precisa aprender a enfrentar seus medos e aceitar os erros cometidos, a única redenção possível.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Entrevista com o roteirista Paulo Cursino

Em mais uma entrevista exclusiva para o "Devo Tudo ao Cinema", converso com o amigo e colega roteirista Paulo Cursino, responsável pelo texto das melhores comédias nacionais dos últimos anos. 

O – Paulo, vi o trailer de “Divórcio”, seu mais recente trabalho no roteiro, fiquei surpreso com a ousadia temática, o sempre bem-vindo politicamente incorreto, flertando com convenções das comédias românticas norte-americanas em tom subversivo, inserindo o humor tipicamente brasileiro. Como foi o processo de criação, trabalhando a partir da história do L.G. Tubaldini Jr.?

C - O processo de criação foi prazeroso desde o início. Trabalhoso como sempre, mas divertido. A proposta do Tuba trazia uma novidade, um frescor, que me fez entrar no projeto logo de cara. Uma comédia de costumes, politicamente incorreta, sobre divórcio, no interior rico de São Paulo, com dois grandes atores, era algo que não dava para dizer não. Se fosse mais um projeto de comédia bem-comportada que se passasse no Rio de Janeiro eu certamente não aceitaria, já faço as minhas. Sempre digo que o roteirista é escravo da história ou de uma grande ideia. Ou a gente é fisgado pelo conceito ou nada rola. Saí do nosso primeiro encontro já cheio de cenas e referências na cabeça. Entrei pela ousadia e deu muito certo. No começo, bem no início, contei com a parceria da Angélica Lopes para fechar a história. Mas da abertura do roteiro para a frente toquei sozinho, sempre batendo bola com o Tuba e, mais tarde, com o Pedro Amorim. Pedro enriqueceu muito o projeto trazendo um tom meio irmãos Coen aos personagens já em algumas sequências no papel e depois no set. Foi dele a ideia, por exemplo, dos personagens terem sotaque um pouco mais carregado. O que é irônico, pois tanto eu quanto Tubaldini somos do interior de São Paulo, temos ainda um pouco sotaque, e nunca havíamos pensado nisso. Foi um acerto. A entrada de Murilo Benício também ajudou ainda mais a história e os personagens funcionarem e seus toques foram fundamentais para o aprimoramento do texto. O mais importante para um roteiro evoluir como se deve aconteceu aqui: afinação criativa, outra tecla na qual bato sempre. Ninguém ali era amigo de infância, ninguém ali havia trabalhado junto antes, mal nos conhecíamos, e ainda assim o material saiu coeso. O roteiro poderia ter virado um Frankenstein, mas não aconteceu. A qualidade da história e a minha experiência ajudaram, claro, sou macaco velho, mas se não fosse o talento do Tuba como produtor, o projeto poderia ter desandado. Foi um acerto do início ao fim.


O – A comédia nacional, apesar de ir muito bem nas bilheterias, segue sendo desprezada por grande parte da crítica. Fazer rir é, sem dúvida, a tarefa mais difícil para quem escreve. Eu, como crítico, com base em meus critérios enalteço qualidades e aponto problemas, essa é uma das funções do meu trabalho. Mas, como também atuo por trás das câmeras, respeito sobremaneira o esforço de todo profissional que se dedica na área neste país. Como você enxerga a relação entre os críticos e filmes populares?

C - A relação da crítica com os filmes populares no mundo inteiro sempre foi meio problemática, e sempre será, e até entendo os motivos. O problema é que no Brasil ela consegue ser ainda pior. Obviamente há críticos que conseguem se distanciar e entender o que a gente faz. Mas ainda são poucos. A ampla maioria ainda peca pelo elitismo e pela má vontade pura. O que mais me impressiona é ver como nossa crítica não evolui. Se déssemos ouvidos aos nossos críticos talvez hoje nem soubéssemos os nomes de Grande Otelo e Oscarito, Zé do Caixão e Mazzaropi seriam personagens de folclore, e Anselmo Duarte não seria nem nota de rodapé nos livros de cinema. Se nossa crítica fosse séria já teria colocado Hassum no panteão dos nossos grandes, mas talvez só façam isso daqui a, sei lá, vinte anos. Fazer o quê? Erram hoje da mesma forma que erraram no passado. Por sorte, para nós que fazemos comédia, a crítica é cada vez mais irrelevante. Fiz quase trinta milhões de bilheteria tomando porrada o tempo todo e hoje até me divirto com isso.  Quando edito um filme eu sempre brinco dizendo que estou afofando o travesseiro para o bonequinho do Globo dormir. Enxergo essa relação com muita tranquilidade, sem mágoa ou ansiedade. Já perdi as esperanças de que ela mude um dia.

O – Eu me lembro que fui um dos poucos críticos que elogiaram “De Pernas Pro Ar” e “De Pernas Pro Ar 2”. Resgato aqui um trecho da minha crítica postada na semana de estreia do segundo: “O filme tem tudo para agradar e fazer uma boa bilheteria. E o que é melhor: merecidamente. Basta agora o público aprender a discernir entre o que é bom e ruim, passando a exigir mais dos nossos realizadores”. Dava para perceber que os roteiros eram pensados por alguém com estofo cultural cinematográfico. Qual é a sua bagagem como apaixonado por cinema? Quais nomes você tem como referências no gênero da comédia (mundial e nacional)?

C - Nem sempre o que a gente faz tem a ver com as nossas inspirações. Meu gosto é clássico, para não dizer antiquado até. Tenho até hoje Billy Wilder como referência máxima de construção de cenas e de diálogos. Vi pouca coisa de Lubitsch, mas tudo que eu vi, curti. Amo quase tudo que vi de Preston Sturges e Leo McCarey. Mas é claro que minhas referências passam por tudo o que veio depois, de Jerry Lewis a Blake Edwards, de Frank Tashlin a Woody Allen, de Richard Curtis a Irmãos Farrely, e acho que nunca teria feito comédia na vida se os Zucker-Abrahams-Zucker também não tivessem feito. No Brasil, Mazzaropi ainda é exemplar como produtor e de como conduzir uma persona cômica nas telas. Tenho uma queda também pelas comédias italianas dos anos 70, Mario Monicelli era o cara, e o meu próximo filme, "Os Farofeiros", tem um pouco essa pegada. Enfim, curto um pouco de tudo. Mas de uns tempos para cá eu me localizei melhor, percebi melhor o que ando fazendo, e acho que a minha maior influência é, de fato, John Hughes, um cara que quase ninguém cita, você é um dos poucos. Eram as comédias dele que eu via quando adolescente no cinema e me marcaram de alguma forma. Assim como ele, eu tento correr atrás de bons high-concepts sempre. Está aí: Hughes é a minha maior influência.


O - Você considera que a sua experiência na comédia televisiva, uma linguagem totalmente diferente, ajudou na sua transição para a tela grande?

C - Ajudou até certo ponto. Foi uma boa escola, um bom beabá. Mas cinema é outra parada. A TV te educa a trabalhar rápido, te coloca em contato com muita gente boa, e te mantém quente e ligado com o público, o que é fundamental para quem quer fazer cinema popular. Ninguém passa incólume pela experiência de ter escrito um "Sai de Baixo". Por outro lado, é preciso cuidado. A TV vicia a mão do autor, pois ainda depende mais da palavra do que da imagem, faz com que o roteirista foque mais na piada e na situação do que na trama, e a pressa te faz se apaixonar pela primeira ideia sempre, o que é mortal em cinema. Ainda vejo muito isso com colegas da TV que chegam encantados com uma ideia que eles acham genial para um filme quando, na realidade, se analisar a fundo, mal renderia um bom episódio de um seriado qualquer. A cultura do high-concept, mais uma vez ele, se perde em uma programação diária, a TV não te prepara para isso. Costumo brincar comparando o ato de escrever para os dois meios com o boxe: na televisão você até pode ganhar por pontos, mas no cinema tem que ser sempre por nocaute.

O – Sou autodidata em tudo que faço, aprendi tudo com minha paixão por literatura e cinema desde a infância. As faculdades de cinema por aqui são boas para incutir preconceitos tolos e equivocados sobre cinema de gênero, tirar dinheiro de sonhadores, ou formar um bando de zumbis clones de Glauber Rocha. Como foi seu despertar criativo na área? E em qual momento você percebeu que estava apto para a responsabilidade de entregar um projeto de nível profissional?

C - Eu sempre li e escrevi muito desde garoto, mas cinema sempre foi paixão distante, sonho impossível mesmo. Sou do interior de São Paulo, de uma cidade metalúrgica, e nos anos 80 minha cidade tinha apenas um teatro e dois cinemas. Ir à uma sessão era luxo, ou seja, nada me estimulava. Com doze anos eu pedi uma câmera Super-8 para o meu pai e a reação dele para a minha mãe foi "por que esse moleque não pede uma bicicleta que nem os outros?". Ficou por isso mesmo. Só fui me aproximar da área quando fui para São Paulo fazer propaganda na ESPM. Cheguei a fazer duas aulas de um curso de cinema na USP, o suficiente para nunca mais voltar. O mercado era fechadíssimo e acabei desistindo. Concentrei-me na carreira de marketing. Tudo mudou por causa de uma namorada pretendente a atriz. Ela resolveu fazer a oficina de roteiro para programas infantis do Flavio de Souza na Casa da Palavra. Fui com ela fazer a inscrição e lá descobrimos que era preciso fazer um teste, escrever uma pequena cena à mão, na hora. Não me esqueço nunca do momento em que ela pegou uma folha para ela e puxou outra para mim. Eu disse que não queria fazer, estava só acompanhando. Ela disse "tenta, você escreve bem e vai ter que me esperar mesmo, quem sabe?". Escrevi uma cena, ela também. Eu passei no teste, ela não. Gerou um mal-estar. Disse que faria a oficina apenas para repassar o material para ela, mas claro que não adiantou. Nosso namoro acabou pouco depois. Eu fiz a oficina e me amarrei. 

Larguei emprego, chutei o marketing para o alto e investi tudo numa nova carreira. Entrei na Globo via outra oficina, uma das mais difíceis que já fiz, e em menos de dois anos de casa tornei-me chefe de equipe. A partir de então nunca mais tive dúvidas do que gostaria de fazer. Acho que minha maior qualidade sempre foi a de acreditar e enxergar qualidades em qualquer projeto que caísse na minha frente. Onde muitos paravam, eu não desistia. Hoje posso me dar ao luxo de selecionar o que faço, mas no começo eu escrevia o que me pedissem e esta foi a melhor escola que eu poderia ter. Quando vejo roteiristas novatos fazendo cara de nojinho para alguns projetos percebo que não irão longe. Escrever apenas o que está na sua cabeça é fácil, difícil é solucionar encomendas dos outros. Quando os Gullanes me chamaram para escrever "Até que a Sorte nos Separe" o que eles tinham em mãos, como projeto, era apenas um livro de economia doméstica sem história nenhuma, o "Casais inteligentes enriquecem juntos". Uma pedreira. Eu não fui o primeiro roteirista a ser escolhido, mas acho que fui o primeiro a olhar para aquilo e dizer "eu consigo adaptar". Mais uma vez: não foi fácil, mas o bom roteirista faz tudo parecer fácil. Quando trouxe a ideia do ganhador de loteria que perde tudo, aproveitando a ideia do livro às avessas, o projeto deu um salto. Acho que foi neste filme que eu percebi que poderia realmente fazer qualquer coisa.


O – A trilogia “Até Que a Sorte Nos Separe” tem muitos detratores. Eu não gostei do primeiro (o problema estava na execução, não no roteiro), mas percebi no segundo e no terceiro um maior refinamento, um ajuste certeiro na sintonia fina, encontrando equilíbrio no histrionismo cômico do Leandro Hassum. “O Candidato Honesto” é, a meu ver, o melhor filme do Hassum até o momento, graças à qualidade do texto. Você costuma fazer vários tratamentos do roteiro? É preciosista, ou desapegado com o material?

C - Eu gosto bastante dos três "Sorte" e tenho um carinho especial pelo primeiro. Mas é notório que aprendemos muito no decorrer dos três filmes, a gente melhora com o tempo. Também é mais fácil começar uma história com os personagens já estabelecidos, isto dá mais agilidade às tramas. Franquias não fazem sucesso à toa. Tirando o primeiro, os outros dois tiveram pouquíssimos tratamentos, no máximo três ou quatro. Quando chegamos no "O Candidato Honesto" estávamos muito mais azeitados, o filme foi pensado, escrito, produzido, em tempo recorde para não perdermos a data. Ali valeu a regra do cinema comercial onde é preferível errar rápido do que acertar devagar. E não dá para fazer isso sem desapego. Não gosto de rebuscar e não sou preciosista. O Santucci às vezes fica chocado com a minha capacidade de cortar cenas e jogar piadas fora na edição. Não admito que ninguém seja mais cruel do que eu com o meu material. Também não gosto de perder tempo. O meu último roteiro teve nove tratamentos, mas foi uma exceção, questões de produção determinaram as modificações. 

Número de tratamentos em excesso nem sempre resulta em um roteiro melhor. Na minha opinião o que determina o número de tratamentos é qualidade da proposta. Se uma história precisa ser reescrita dez vezes é porque talvez não seja uma boa história. Por isso eu prefiro investir minha atenção e meu tempo ao máximo no momento de criação, na ideia. Se eu não tiver uma boa ideia, não escrevo. Com uma boa ideia e uma boa história em mãos, você resolve mais da metade do trabalho logo de partida. Claro que se tivermos tempo para abrir o roteiro, tudo ficará melhor. Mas tempo às vezes tempo é tudo o que não se tem nesse mercado. Por isso prefiro investi-lo na criação. Não acredito na tese do 1% de inspiração e 99% de transpiração no cinema brasileiro. O cinema brasileiro precisa, principalmente, de 50% de inspiração. Nós erramos mais nas escolhas dos projetos do que propriamente na execução. Estou cansado de ver filme bem dirigido, com roteiro bem escrito, de história meia-bomba. Podem falar o que for do meu trabalho, cometo erros aos montes, mas uma coisa é certa: todas as minhas histórias têm pegada.

O – Você tem interesse em dirigir o próprio roteiro? É um desafio que considera válido em um futuro próximo?

C - Tenho interesse sim e acho muito válido. Já fui convidado várias vezes. Provavelmente, se minha agenda deixar, dirigirei meu primeiro filme em 2018. O problema é realmente limpar a mesa para poder partir tranquilo para o set. Minha experiência como produtor está sendo trabalhosa, mas me ensinou muito. Há anos não consigo fazer um curso, o tempo anda escasso, mas tomo lição de cinema todos os dias fazendo cinema. Acho que a prática continua a melhor escola.


O – Eu creio que é possível ousar mais nas comédias nacionais, isso foi um dos pontos que me chamou a atenção no trailer de “Divórcio”. Claro que o público alvo é pensado para ser o mais amplo possível, nenhuma indústria de cinema se forma apenas com obras umbilicais, mas não são todos os roteiristas no mercado que buscam esse “algo mais”, como percebo em seus trabalhos. Há uma maioria que prima pelo entretenimento rasteiro, imediatista, estão mais para “Loucademia de Polícia”, que para Billy Wilder, Blake Edwards, ou John Hughes. Como você, que está dentro do olho do furacão, enxerga essa questão? O que impede esse aprimoramento? O sistema atual permite esse tipo de voo mais intelectualmente ambicioso?

C - Sim, permite. Mas este salto realmente é complicado de dar. A gente até gostaria de ousar mais, mas estamos limitados. Filmes são muito caros, é preciso coragem para ousar. Eu e Santucci sempre lembramos nas entrevistas que nós ousamos e arriscamos o tempo todo, desde o início. Nós não seguimos tendências, nós geramos tendências. Quando a moda era fazer comédia de casal, nós viemos com filme de protagonista feminina, a primeira de Ingrid Guimarães, uma aposta. Quando virou modinha fazer filme de protagonista feminina, investimos no protagonismo masculino, o primeiro de Leandro Hassum, outra aposta na época também. Quando todo mundo resolveu fazer comédia familiar, viemos com um blockbuster político. E assim vamos. Temos a consciência clara de que o aprimoramento do cinema passa pela diversificação temática, algo que grande parte do mercado ainda não percebeu e por isso ainda erram muito. Acho que o cinema brasileiro marca muita touca. Por que até hoje não fizemos uma comédia sci-fi? Por que desde Carlota Joaquina tivemos pouquíssimas comédias históricas? 

Veja, mais de dez milhões de pessoas foram ver "Os Dez Mandamentos", por que ninguém se arriscou a fazer uma sátira? Pecamos mais pela falta de ousadia do que pelo aprimoramento técnico. Uma coisa não avança sem a outra. Só evoluiremos tecnicamente, desde a criação até a execução, se investirmos no novo. Sempre digo que não adianta muito correr atrás do que a gente já está fazendo, o cinema precisa de frescor mais do que qualquer outra coisa. Este ano já rodamos e lançaremos uma comédia sobre farofeiros, que se passa numa casa de praia lotada, algo comum pelo qual todo brasileiro já passou, e uma pergunta que parte do elenco sempre fez foi: "mas isso nunca foi feito antes?". Não, não foi. Assim como não havia nenhuma comédia de ganhador da Mega-Sena até fazermos o primeiro "Até que a Sorte nos Separe".  Note bem: a Mega-Sena era a maior loteria do país há mais de quinze anos e ninguém a usou em um filme. O mercado precisa ser mais esperto.

O – Paulo, grato pela gentil atenção. Peço que deixe uma mensagem para meus leitores, cinéfilos apaixonados que valorizam a comédia nacional.

C - Uma mensagem que deixo sempre, em quase todo final de palestra que dou em faculdades e festivais é uma só, que parece simples, mas não é: seja fiel a você mesmo, sempre. Nunca se esqueça do momento que você começou a pensar em fazer cinema. Nunca perca o seu encantamento. Lembre-se de quando você era garoto ou garota, dos filmes que seus pais te levaram para assistir, e como você ficou encantado com aquilo, e que foi o que realmente te motivou a querer fazer aquilo. Esqueça as toneladas de teoria da crítica e todo lixo ideológico que seu professor de faculdade lhe ensinou. O que você sente pelo cinema é mais importante. Se você quiser fazer um musical, faça. Se quiser fazer uma ficção científica, também. Se quiser fazer uma comédia estúpida, idem. Não se deixe levar pelo discurso do cinema engajado, social, artístico, tudo isso é muito sedutor, mas também falso. No final, o que fica é aquilo que você amou fazer. Foi-se o tempo em que o cinema poderia mudar o mundo. O cinema vai, no máximo, mudar a sua vida. E acredite: já é mudança mais do que suficiente.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

"Paterson", de Jim Jarmusch


Paterson (2016)
Não nos é dado conhecer muito sobre Paterson (Adam Driver) na semana em que acompanhamos sua rotina. Ele acorda pontualmente todas as manhãs sem necessidade de alarme, atravessa as ruas da cidade dirigindo o ônibus e, ao voltar para casa, passeia com seu cão e toma uma cerveja no bar. Paterson, a cidade, ele conhece de olhos fechados, nada muda, previsível mesmice, mas agradável aos seus olhos. A poesia em seu caderno de notas brota naturalmente, sem qualquer aspiração pretensiosa de estilo, a métrica de versos soltos risca a página como pura e vulnerável expressão da voz interna do rapaz. A rima, recurso que ele evita, acaba se fazendo presente enquanto simbologia visual, os gêmeos que aparecem em várias situações, ou, de forma mais lúdica, em frases surreais que se repetem à sua volta.

A sua vida é a poesia, construída a partir de cada escolha, cada erro, cada conversa captada de um passageiro, cada atitude impulsiva, cada paisagem lindamente fotografada pela lente de Frederick Elmes, em suma, construída a partir de tudo aquilo que se perdeu, com o ato de escrever sendo a tentativa de Sísifo alcançar o topo da montanha, frustrado sempre pelo peso da pedra, o tempo. A musa mais frequente é sua esposa Laura (Golshifteh Farahani), altamente sensível e doce, alguém que inconscientemente busca uma forma de se comunicar com o mundo, marcar sua presença como indivíduo. Ela encara o cotidiano como uma tela branca, infinitas possibilidades trabalhadas nos afazeres mais simples. Ao pintar os móveis da casa, ela cria algo novo e único sobre os escombros da padronização. Ela pode não cozinhar tão bem, mas dedica tanto carinho na preparação de seus cupcakes, que, para orgulho do marido, os bolinhos se transformam em obras de arte. Ela tem o sonho de se tornar uma cantora country famosa, o que a faz comprar um violão, apesar de não saber tocar. A beleza do filme está em admirar o casal, como ponte sobre águas calmas, lutando para encontrar sua linguagem artística.

No terceiro ato o protagonista encara a brutal irreversibilidade, elemento que, em um aprendizado tardio, percebe ser bênção criativa, ao invés de um obstáculo a ser temido. Águas calmas não formam bons marinheiros. O poeta precisa estar em constante processo de mutação. A arte do encontro, forma preciosa do roteiro conduzir a trama para seu desfecho, reverbera momentos anteriores, como o elogio dado ao estranho que ensaiava um rap na lavanderia, ou a compreensão da dor de um amigo de infância abandonado pela mulher amada, a celebração do esforço interno de cada indivíduo em enfrentar, com suas próprias ferramentas, a força da correnteza. É nesta cumplicidade que podemos enxergar as mais belas potencialidades humanas.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

"Mulher-Maravilha", de Patty Jenkins


Mulher-Maravilha (Wonder Woman - 2017)
O maior acerto do filme é investir no carisma natural de Gal Gadot, a câmera se apaixona por seu rosto, uma entrega que remete à abordagem despida de cinismo de Christopher Reeve, no clássico “Superman”, de Richard Donner. Ao invés de apostar na fórmula divertida, caótica e, em longo prazo, irrelevante, dos filmes recentes da Marvel, o roteiro de Allan Heinberg, Zack Snyder e Jason Fuchs, resgata a estrutura narrativa simples da época em que as adaptações de quadrinhos não precisavam ser interligadas. Esta opção faz parecer que estamos vendo algo antiquado, uma pérola perdida da década de noventa, o que combina com o material, a história de origem de uma personagem fundamental na cultura popular, ambientada durante a Primeira Guerra Mundial, a esperança que nasce do conflito sujo de trincheiras.

A diretora Patty Jenkins opta quase sempre por planos fechados, especialmente após o primeiro ato, reflexo de sua inexperiência no gênero, algo que, aliado ao recurso do 3D escurecendo a fotografia, prejudica alguns momentos que poderiam ser grandiosos. O início mostrando a vida das amazonas é impecável, Robin Wright, vivendo a tia guerreira que incentiva o treino da sobrinha, consegue estabelecer em pouco tempo a personalidade forte e amável da personagem, algo que os vilões, com muito mais tempo de cena, são incapazes de fazer. Sem estragar a experiência, vale ressaltar que o tratamento dado aos antagonistas é patético, o que diminui consideravelmente o impacto desejado pela trama em seu desfecho. Teria sido melhor se tivessem abdicado do terceiro ato e focado na participação da Mulher-Maravilha nos campos de batalha, ao invés de repetirem o molde já muito desgastado de chefe de final de fase de videogame. Aliás, a computação gráfica é tão presente que, de fato, nos minutos finais eu senti como se estivesse segurando um joystick.

Eu pagaria ingresso para ver duas horas da heroína lutando na Terra de Ninguém, cenário para a melhor sequência do filme, o momento em que a realidade do conflito e a simbologia mítica se unem, fortalecidos pelo contexto social do machismo estúpido que permeia a indústria. Mas é importante salientar que o roteiro não cai na armadilha de simplificar o discurso e adotar os clichês feministas, Steve Trevor (Chris Pine) não é, por revide, tratado como interesse romântico, ou alívio cômico. A sua influência é tremenda na evolução de Diana, que descobre um mundo novo e precisa se adaptar rapidamente, enquanto toma para si a responsabilidade de desfazer os males que contaminaram as mentes humanas.

O filme perde muito vigor quando tenta desenvolver a medíocre ameaça, mas se torna irresistivelmente encantador quando se foca no relacionamento que se estabelece entre Diana, Steve e seus companheiros. O texto esperto e ousado discute com humor a representatividade da mulher na sociedade, revelando que, infelizmente, apesar de importantes conquistas, pouco se modificou desde aquela época. É vergonhoso pensar que apenas nos últimos anos a indústria de cinema começou a investir alto em projetos de aventura protagonizados por mulheres. E, pior ainda, dá desgosto perceber que existem feministas tacanhas que reclamam da axila raspada da heroína. O problema está sempre nos extremos, enquanto a lucidez não dominar o discurso, a evolução será lenta e mínima.

“Mulher-Maravilha” é o melhor projeto cinematográfico neste universo compartilhado da DC, pleno em coração, sintonizado com o espírito original dos quadrinhos e defendido por uma atriz com mais carisma na sobrancelha esquerda, que todo o elenco Marvel e DC reunido. 

sábado, 3 de junho de 2017

"Corra!", de Jordan Peele


Corra! (Get Out - 2017)
Ao perceber o carro de polícia se aproximando na cena do crime, o rapaz negro, apesar de estar consciente de sua inocência, levanta os braços aguardando a injustiça do sistema. O ato de viver em alerta constante, o medo de se permitir confiar em alguém, Jordan Peele, roteirista/diretor em sua obra de estreia, impressiona pela segurança com que trabalha os elementos tradicionais do gênero terror, focando nessas questões sem ser panfletário, equilibrando com desenvoltura na equação os alívios cômicos.

O protagonista, Chris (Daniel Kaluuya), encontrou uma maneira de expressar sua angústia social pela fotografia. Em um de seus trabalhos, na parede de sua casa, um cão branco desafia o dono forçando a coleira atacando algo fora da imagem. Símbolo visual que me remeteu ao poderoso filme de Samuel Fuller: “Cão Branco”, outro imprescindível trabalho crítico sobre o tema. Logo no início, o carro da figura mascarada que sequestra um negro em sua caminhada noturna é branco. A utilização da cor pode soar tola em um primeiro momento, um artifício nada sutil, mas reconhecendo a origem de Peele na comédia, estes detalhes ganham peso satírico, enfatizando exatamente o simplista discurso que, por muitas vezes, reduz o preconceito racial a uma peça no tabuleiro do joguete político. O pai (Bradley Whitford) da namorada, uma jovem branca (Allison Williams), na tentativa de passar uma imagem acolhedora, defende o voto em Obama. A forma como ele insere a informação na conversa é constrangedora, nada orgânica. A mãe (Catherine Keener), psicóloga, hipnoterapeuta, está sempre com um leve sorriso no rosto, invariavelmente demonstrando estar ofendida com as brincadeiras fora de tom do marido e de seu filho adolescente (Caleb Landry Jones), provocador e emocionalmente instável. A família é a caricatura perfeita do liberalismo norte-americano hipócrita que favoreceu nos bastidores a absurda ascensão de Trump.

Revelar mais sobre a trama seria um desserviço à experiência, os eventos que se sucedem à chegada do casal na residência luxuosa da família Armitage rapidamente ganham contornos cada vez mais incômodos, arrepiantes, especialmente após a chegada de um grupo de visitantes da alta sociedade. "Corra!" é, desde já, um dos melhores filmes do ano.