quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Nos Embalos do Rei do Rock - "Com Caipira Não Se Brinca"


“Viva Las Vegas” foi filmado antes, mas lançado depois de “Kissin’ Cousins”, o que já evidencia uma característica fundamental do segundo, a produção de baixíssimo orçamento, filmada em duas semanas. O empresário, preocupado com os custos do refinamento do anterior, quis garantir que o próximo compensaria na rapidez, então convocou o produtor Sam Katzman, especialista em extrair leite de pedra. Apesar dos obstáculos naturais, os cortes financeiros são facilmente perceptíveis se comparados à “O Seresteiro de Acapulco”, por exemplo, o roteiro de Gene Nelson e Gerald Drayson Adams, especialista em tramas leves e agradáveis, como “A Princesa do Nilo”, foi indicado para o prêmio do sindicato de roteiristas na categoria musical.


Com Caipira Não Se Brinca (Kissin' Cousins - 1964)
Josh Morgan (Elvis Presley) é um oficial do Exército que precisa visitar parentes caipiras e convencê-los a permitirem que uma base de mísseis seja instalada em suas terras.

Se fosse lançado alguns anos antes, teria sido elogiado pela crítica como despretensiosa comédia, o problema foi o timing, os Beatles invadiam os Estados Unidos, a juventude vibrava com a atitude roqueira dos garotos britânicos, já não tinham paciência para ver Elvis, o ídolo rebelde de outrora, inserido em uma trama cômica caricatural sulista. Mas, em revisão, o filme segue divertido, espécie de primo pobre de “Sete Noivas Para Sete Irmãos”, utilizando sua estrutura simples como base para sequências encantadoras emolduradas por boas canções.

O diretor Gene Nelson era dançarino, o que garantiu o alto nível das coreografias no terceiro ato. O trabalho rendeu a ele uma nova parceria com Elvis, no inferior “Feriado no Harém”, no ano seguinte. O elenco era ótimo, com Glenda Farrell, veterana de obras como “Almas no Lodo”, clássico gângster da Warner, o impecável Arthur O’Connell, que já havia trabalhado com Elvis em “Em Cada Sonho Um Amor”, e a bela Yvonne Craig, que namorou com o cantor durante um tempo, irresistível em seu misto de ingenuidade e malícia, que se tornaria mundialmente conhecida anos depois como a Batgirl da série “Batman”, com Adam West. O elemento inovador foi o truque visual que permitia que Elvis realizasse dois papeis, o militar elegante da cidade grande e o seu primo caipira abrutalhado, a diferença estava apenas na cor do cabelo. O recurso é executado favorecendo o humor, não há intenção alguma de aprofundar o desenvolvimento dos personagens. O cantor havia acabado de conquistar a faixa preta de karatê, uma de suas paixões, ele estava motivado, trabalhando nuances de interpretação que diferenciassem um tipo do outro. O grupo feminino das “mulheres gavião”, beldades da montanha que perseguem os homens que se aproximam do local, elemento que realça o tom antinatural de desenho animado, funciona exatamente por ser coerente com o todo.

A trilha sonora não é especialmente boa, mas as canções funcionam dentro da proposta. “Kissin’ Cousins” (a segunda versão, escutada ao final, com o cantor defendendo o sotaque puxado nas linhas entoadas pelo caipira), a irônica balada “One Boy, Two Little Girls”, “Once is Enough”, “Tender Feeling” e “There’s Gold in The Mountains” merecem destaque dentro da filmografia de Elvis. O sucesso nas bilheterias, comparado com “Viva Las Vegas” e sua refinada produção, estimulou o Coronel Parker a investir sem medo nos anos seguintes em uma fórmula duvidosa: filmagens rápidas, baixo custo e muitas canções.

A Seguir: Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Ladrões de Sabonete" e "Volere Volare", de Maurizio Nichetti


Ladrões de Sabonete, de Maurizio Nichetti (Ladri di Saponette - 1989)
Maurizio Nichetti é uma espécie de Woody Allen italiano, menos talentoso, menos carismático, mas que compensa na ousadia temática. “Ladrões de Sabonete”, em revisão, funciona melhor na teoria, o esperto jogo em diferentes níveis narrativos homenageando o neorrealismo e criticando duramente a forma como o cinema se tornou subproduto televisivo.

A execução poderia ser menos truncada, o ritmo melhora consideravelmente no terceiro ato, quando os personagens das duas mídias começam a interagir ludicamente. Nos segmentos em que acompanhamos a família diante do aparelho de televisão, dedicando pouca atenção ao filme que está sendo transmitido, o humor atinge seu ponto alto, aquelas pessoas claramente enxergam arte como simples distração imediatista, o texto trabalhado pelos atores na tela pequena tem o mesmo valor dos jingles dos produtos que são vendidos nos intervalos comerciais. Trazendo para a realidade brasileira, é por este motivo que as telenovelas, em essência, serão sempre entretenimento raso, apesar dos valorosos esforços das equipes criativas. 

Nichetti vive o protagonista do drama e, nos segmentos ambientados nos estúdios da emissora, vive ele mesmo, um diretor decepcionado com o pouco caso dos executivos com seu projeto, “Ladrões de Sabonete”, referência ao clássico “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica. A trama do filme dentro do filme é propositalmente irrelevante, a graça está na forma como a montagem interrompe o investimento emocional do espectador em cenas importantes com a inserção frequente da publicidade em cores vibrantes. Quando a confusão invade o reino da fantasia, emulando “A Rosa Púrpura do Cairo”, que Woody Allen havia lançado quatro anos antes, modificando a obra, o diretor revoltado decide resolver a questão na marra, garantindo alguns bons momentos. Mas, de modo geral, o exercício de estilo acaba chamando mais atenção que o conteúdo. O roteirista/diretor entregaria seu melhor trabalho dois anos depois.


Volere Volare, de Maurizio Nichetti e Guido Manuli (1991)
Eu tenho a vívida lembrança de ter conhecido essa pérola numa exibição televisiva noturna no início dos anos noventa, creio que na Bandeirantes, mas o que me interessava na ocasião era a frequente nudez feminina e a ideia incrível de inserir técnicas de desenho animado neste contexto. Somente pude apreciar melhor a obra em revisão, alugada em VHS anos depois. E agora, na sessão para a preparação deste texto, já conhecendo a filmografia de Nichetti, constato que representa o equilíbrio perfeito entre estilo e conteúdo, o grande problema de seus filmes.

A ideia nasceu após o sucesso mundial de “Uma Cilada para Roger Rabbit”, a trama é insanamente pouco convencional, ele interpreta um tímido sonoplasta de desenhos animados, enquanto o irmão, seu sócio, prefere se encarregar das dublagens de produções eróticas, convocando mulheres maravilhosas para o trabalho que é realizado no melhor estilo “método de atuação de Lee Strasberg”. Angela Finocchiaro vive uma prostituta exótica que se encarrega de satisfazer teatralmente seus clientes, cada um mais doido que o outro, uma artista do sexo, na literal definição do termo. A gradual transformação do sonoplasta em um cartoon, recurso que garante cenas hilárias, simboliza o medo dele diante da possibilidade de contato sensual com o sexo oposto, conceito que cai como luva no tom absurdo do roteiro. Ao contrário de sua amiga ambiciosa, que prioriza clientes ricos, Martina (Finocchiaro) encara seu trabalho como uma missão socialmente relevante, já que permite que loucos extravasem nela sua psicopatia, em variados níveis de periculosidade, de forma inofensiva para a sociedade, elemento que a humaniza sobremaneira.

É fascinante a opção por fazer do tradicional final feliz um abraço sem concessões no surreal, com a divertida entrega dela às possibilidades do sexo com o cartoon, ao invés do caminho óbvio narrativo da solução para o bizarro problema. Uma comédia que jamais seria lançada nos dias de hoje, um sopro de ar fresco em um gênero usualmente escravo da repetição. 

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

"O Cidadão Ilustre", de Gastón Duprat e Mariano Cohn


O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre - 2016)
Ao optar pelo caminho do autoaprimoramento constante, o indivíduo conscientemente dá seus primeiros passos na estrada rumo à solidão. Quanto mais aperfeiçoada a sensibilidade, mais irritantes se tornam os rituais sociais envernizados pela mentira, quanto mais estimulado o desejo por aprender, mais apreço pela simplicidade generosa e menos paciência com aqueles que necessitam dificultar o discurso por pura insegurança existencial. A deprimente realidade é que grande parte das pessoas se satisfaz sendo medíocre. O cidadão ilustre, o escritor (Oscar Martínez) que conquistou o respeito profissional longe de seu país representa a negação de tudo o que os acomodados de sua cidade natal desesperadamente defendem. Ao aceitar o convite honorário e retornar após quarenta anos, o veterano mestre das palavras identificou rapidamente o ímpeto que o fez querer fugir outrora daquele coletivo de tolos, deselegantes, oportunistas, desinteressados, agressivos e invejosos.

O roteiro envolve com humor críticas ferinas àquela sociedade que, não muito diferente da realidade brasileira, prefere fingir não perceber que o aroma fétido que os perturba diariamente advém da lata de lixo que negligentemente esquecem aberta. A falta de pontualidade (o descaso do motorista com o horário do evento de seu passageiro), a hipocrisia de manifestar interesse temporário na obra de alguém apenas visando status social (as palestras dele cada vez mais vazias, com pessoas visivelmente enfadadas), o favorecimento injusto por interesse político (sequência do concurso de pintura), o elogio que nasce por pura necessidade financeira (o estranho que pede uma cadeira de rodas para o filho), a paixão avassaladora que busca apenas um passaporte (a jovem que seduz o escritor na intenção de viver uma vida melhor na Europa), o bronco estúpido que se sente superior por ter casado com a antiga namorada do homenageado, em suma, o pior pesadelo na vida de alguém que lutou tanto para ser uma pessoa melhor.

Mas há um elemento que compensou todos os absurdos vividos por ele, uma réstia de luz que brotou de onde menos se esperava, o jovem atendente do hotel, educado, de fala mansa, que, com toda delicadeza, ofereceu seus despretensiosos escritos para a avaliação do visitante. Naquela cortês figura que os clientes arrogantes nunca valorizam reside a matéria nobre que jamais será reconhecida naquela cidade, o sonho profissional que nunca será estimulado, a força de espírito que será pisada até se tornar uma lembrança melancólica em uma rotina frustrante, o reflexo no espelho do veterano, a mão estendida que implora por ajuda em uma massa de zumbis. E o homem, esgotado e pronto para abandonar novamente aquele esgoto a céu aberto, dedica então preciosos minutos para oferecer ao garoto o melhor presente de sua vida: esperança. Se ele conseguir salvar pelo menos um indivíduo valoroso, a viagem terá valido a pena.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sétima Arte em Cenas - "A Filha Americana", de Karen Shakhnazarov


A Filha Americana (Amerikanskaya Doch - 1995)
Abandonado pela mulher que decide viver com um americano rico no país do Tio Sam, músico russo vai ao seu encontro, dez anos mais tarde, visando restabelecer os laços com a filha pré-adolescente.

Alguns textos estrangeiros criticam, por exemplo, a forma como a pequena menina é esperta demais para sua idade, uma grande bobagem, somente profissionais muito insensíveis são incapazes de enxergar que a proposta da obra é ser como uma fábula cômica, não há qualquer traço de realismo na abordagem, poxa, o desfecho entrega uma criança pilotando um helicóptero! Conheci o filme por intermédio da CPC – UMES filmes, que está realizando um belíssimo trabalho resgatando clássicos e pérolas modernas do cinema russo. Gostei de “Tigre Branco”, do mesmo diretor, mas “A Filha Americana” me encantou sobremaneira com sua simplicidade de roteiro e execução.

Karen Shakhnazarov é muito versátil, ele desta feita propositalmente bebe da fonte dos melodramas norte-americanos, apostando em soluções narrativas cômicas corriqueiras nestes trabalhos, sem qualquer toque de cinismo, o tom é de reverência. Na época da produção, após a queda de União Soviética, a relação entre as duas nações começava a dar sinais de vida, a filha americana, vivida pela adorável Allison Whitbeck, que, vale salientar, carrega o projeto nas costas com impressionante carisma, representando a intenção sincera de união. Há um momento maravilhoso que representa bem este leitmotiv, o pai, vivido por Vladimir Mashkov, após fugir com a filha, relaxa em um bar nos Estados Unidos cantando em russo, os clientes felizes, genuinamente interessados na arte do estranho. Aquelas pessoas não conhecem a canção, sequer compreendem a letra, mas se divertem com a melodia. Ao ver uma bela garçonete, ele, emulando Elvis Presley, canta “Love me Tender” em inglês, colocando carinho em cada palavra, o clima no ambiente é de amor e respeito. 

A cena evidencia que a união entre culturas diferentes é sempre o melhor caminho, o fascínio em tentar compreender o outro, ao invés de alimentar o medo do desconhecido, menos muros, mais pontes.





* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora "CPC- UMES Filmes".

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

"Shirley Valentine", de Lewis Gilbert


Shirley Valentine (1989)
Filmes com temática feminina são normalmente vistos com preconceito por grande parte dos críticos, com certa razão, já que, na maioria das vezes, abusam dos clichês e apostam no melodrama folhetinesco, resultando em variações daqueles livros românticos de banca de jornal. Para cada comédia romântica verdadeiramente interessante, original e inteligente, existem dez genéricos imediatistas. “Shirley Valentine”, dirigida por Lewis Gilbert, em 1989, é uma dessas ótimas exceções.

O texto esbanja um senso de humor ácido, amparado por uma estrutura deliciosamente farsesca, com o constante uso da quebra da quarta parede. A protagonista, vivida competentemente por Pauline Collins, conversa com o público, uma troca de experiências, já que, em algumas cenas, a personagem parece seguir a resposta do público, como quando recoloca os óculos escuros ao perceber seu marido se aproximando, perto do desfecho. Quase podemos escutar o público feminino na plateia dizendo em tom orgulhoso: “Não desce do salto, Shirley”. E ela sinaliza imediatamente para a câmera que escutou o conselho. Esse diálogo franco com o público-alvo funciona porque é alicerçado em grandes verdades, algo que se estabelece logo na primeira cena, quando vemos a mulher confidenciando sua solidão para a parede de sua cozinha.

A química é irresistível, ficamos encantados com essa pessoa minimizada pelo acúmulo de decisões equivocadas, mas que, como a bonita música-tema cantada por Patti Austin evidencia, ainda busca reencontrar aquela garota que foi outrora, o pássaro que nasceu para voar, porém, desencantado com os sonhos desfeitos, acordou numa manhã e não se reconheceu no espelho de sua gaiola.

Hábitos simples, como dançar e sorrir em uma manhã chuvosa, substituídos implacavelmente no cotidiano por uma postura submissa ao marido, vivido por Bernard Hill, um estranho grosseiro cuja única conexão aparente é a aliança no dedo, fruto de uma antiga decisão inconsequente, um contrato assinado por mãos jovens e que não haviam sido ainda castigadas pela realidade da vida.

A simpatia dela contrasta violentamente com a insensibilidade dele, demonstrando no subtexto uma tremenda resiliência de Shirley. Qualquer mulher na mesma situação já teria se enclausurado na amargura profunda, sem traço de esperança visível no horizonte. O prato simples, ovos com batata frita, que ele agressivamente rejeita no início do filme, é o mesmo que ela oferece aos clientes do restaurante, no terceiro ato, quando já está avançando no processo de reinicialização do seu sistema pessoal, mostrando que sua autoconfiança, primeiro elemento que é dizimado numa relação fundamentada em ofensas gratuitas, não foi abalada por aquele evento. Ela viaja para a Grécia, realizando seu maior sonho, sem utilizar qualquer muleta psicológica, superando até mesmo a indiferença da amiga que a havia convidado.

“Você beijou minhas estrias!”

Shirley utiliza o silêncio como ambientação para refletir sobre suas decisões, aprendendo que deve buscar a satisfação sexual. Quando descobre que seu amante grego, vivido por Tom Conti, é, na realidade, um mulherengo, ela não se sente ofendida. O que importa para ela é que aquele homem a enxergou como a mulher interessante e bela que sempre foi. Como ela afirma assustada, após fazerem amor, ele havia beijado as suas estrias.

Ela chega a invejar a atitude gazeteira e libertária dele, aproveitando cada momento de sua existência. Talvez, Shirley tivesse se tornado uma conquistadora, abraçando as possibilidades apaixonantes da vida, caso não tivesse se prendido tão cedo em um ritual secular de hipocrisia. Essa identificação carinhosa, simbolizada na cena em que ela o flagra passando mais uma cantada em uma turista, é a constatação definitiva da sublimação de sua insegurança. 

“Eu não me apaixonei por ele. Eu estou me apaixonando pela ideia de viver”.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

"Em Ritmo de Fuga", de Edgar Wright


Em Ritmo de Fuga (Baby Driver - 2017)
Analisando unicamente a trama, “Em Ritmo de Fuga” não traz nada novo, ou especialmente interessante, não é esta a proposta. É em essência, algo explícito já na arte do pôster, uma nostálgica homenagem a filmes e videogames em que o automóvel é figura central, como “Driver”, “Grand Theft Auto”, “Operação França” (1971), “Mad Max” (1979), “Bullitt” (1968), “The Driver” (1978), “The Blues Brothers” (1980) e ao gênero de filmes de assaltos.

O jovem protagonista, Baby, vivido por Ansel Elgort, sofreu um acidente de carro na infância que o deixou com um zumbido permanente no ouvido, problema que ele ameniza escutando música o tempo todo. Ele trabalha para um gângster como motorista de fuga, com uma frieza impressionante, não há emboscada que ele não consiga reverter com as mãos firmes no volante e a canção certa tocando no iPod. Os tipos criminosos que ele ajuda são caricaturas hilárias de personagens durões do cinema dos anos oitenta, com destaque para Jamie Foxx e Jon Hamm. O chefe do bando, mais uma aula minimalista de Kevin Spacey, pensa controlar o rapaz, mas, na realidade, faz parte dos experimentos das fitas de remixes preparadas por Baby, que, ao registrar secretamente diálogos comuns, frases simplórias, cria música a partir do cotidiano, tentando trazer ordem ao caos. Como ele se sente culpado por não ter podido fazer nada para salvar os pais na infância, ele conquista algum conforto nesta despretensiosa alquimia sonora. Quando o amor de uma garçonete, bela Lily James, apresenta novas possibilidades, ele começa a repensar suas escolhas perigosas.

A genialidade do filme está na forma como a trilha sonora exerce papel fundamental em cada cena, nos momentos grandiosos e naqueles aparentemente irrelevantes. O próprio título do filme faz referência a uma canção de Simon and Garfunkel. O som é o coração pulsante da obra, todas as decisões criativas da direção são pensadas como coreografia musical, cada freada do carro sincronizada com a batida, o ritmo dos tiros disparados em uma sequência frenética rima com a trilha, o gestual de um personagem está em harmonia com a letra, o movimento dos corpos responde diretamente ao estímulo sonoro, enfim, um trabalho minucioso e esteticamente muito original.

Edgar Wright é um diretor muito competente por entender que a montagem, até mesmo o enquadramento, podem servir à comédia, ele não fica refém do texto. Ao administrar com inteligência este aspecto ele consegue, como um maestro de orquestra, manipular o ritmo e evoluir a narrativa sem recorrer à diálogos expositivos, criando uma linguagem própria altamente intuitiva e universalmente compreensível.