sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "Pistoleiro Bossa Nova"


Pistoleiro Bossa Nova (1959)
Nesta produção da Herbert Richers que brinca com o gênero faroeste e aproveita a onda da Bossa Nova que estava despertando, um vilarejo chamado ironicamente de “Desespero” é atormentado por bandidos. Neste clima hostil, chegam à cidade dois camelôs, vividos por Ankito e Grande Otelo. Um deles, sósia de um temido pistoleiro, assume o papel do justiceiro, apesar de ser medroso contumaz e  avesso à sons altos. Eles fazem amizade com um grupo teatral mambembe liderado pela encantadora vedete vivida por Renata Fronzi, que logo desperta ciúmes na hilária cangaceira Pequenina (Anabela), namorada do verdadeiro pistoleiro, que ilumina a tela com sua presença. Tente não rir com o método dela para espantar pessoas desconhecidas de seu quarto. A sequência é um dos pontos altos da chanchada nacional.

Ankito tinha algo de Stan Laurel, pureza e ternura no olhar, misturados à capacidade acrobática circense que remetia ao Buster Keaton, característica que seria perdida no projeto seguinte, quando o ator se machucou seriamente ao cair de um prédio em construção, tragédia que prejudicou sua carreira. Não é meu cômico nacional favorito, mas ele alcança equilíbrio perfeito em parceria com Grande Otelo, que vive o tipo malandro de fala rápida, contraste que humaniza a dupla. O roteiro garante bons momentos, especialmente no primeiro ato. Gosto bastante do início no trem, ao som de Carlos Lyra cantando a sua linda composição "Maria Ninguém", que seria lançada por João Gilberto no mesmo ano em seu clássico disco de estreia: "Chega de Saudade". 

"Pistoleiro Bossa Nova" é comédia de alta qualidade, infelizmente esquecida por seu próprio povo. 

"Corpo e Alma", de Ildikó Enyedi


Corpo e Alma (Teströl és Lélekröl - 2017)
A roteirista/diretora húngara Ildikó Enyedi retorna após um longo inverno com um trabalho essencialmente simples e poderoso. As fortes cenas iniciais no abatedouro remetem à crueza do clássico curta “Le Sang des Bêtes”, de Georges Franju, que também utilizava a violência animal como metáfora para falhas humanas. 

O leitmotiv da obra é sintetizado na breve sequência em que o chefe (Géza Morcsányi) conversa com o novo empregado sobre o impacto psicológico daquele ofício na rotina dele. O rapaz diz que não sente pena dos animais, resposta que incomoda seu interlocutor. O problema não está na decisão individual de comer carne ou ser vegano, mas no absurdo de não se perturbar minimamente com o ato de abater o animal para suprir sua fome. Conceito mais complexo do que pode parecer à primeira vista, algo que ressoa em vários momentos da trama. O garçom que não percebe o chamado insistente dos clientes na mesa, os únicos no local, por estar com os olhos baixos, focado na tela de seu smartphone. O roteiro evidencia a ternura no olhar dos animais, os cervos do sonho compartilhado, o gado sacrificado e os protagonistas, a fragilidade de vítimas que instintivamente reconhecem a aproximação da finitude e, por conseguinte, aprendem a lidar com o medo. A ideia da conexão pelo sonho agrega camada de fábula, motivo surreal que reforça a compreensão de uma sociedade que prima cada vez mais pela incomunicabilidade.

A chegada da inspetora de qualidade Mária (Alexandra Borbély), uma jovem excessivamente introvertida, faz com que os olhares dos colegas se voltem para seus movimentos controlados, a cabeça baixa, uma beleza que parece buscar desesperadamente ser comum. O chefe é um dos que ficam estranhamente fascinados por aquela figura. Como ele mesmo afirma, vive uma fase em que já desistiu de amar, provavelmente abalado após ter seu braço paralisado, o cotidiano desumanizante de sangue e vísceras reflete o torpor em seu rosto sofrido que parece esculpido a cinzel. Ele teme que o toque feminino venha por pena, mas ela simplesmente teme o toque, seja qual for a intenção de quem o faça, duas almas alquebradas que já desistiram de tudo. As tentativas de ambos se adequarem aos padrões de relacionamentos fracassam miseravelmente, escutar canções de amor mercadologicamente construídas para o sucesso nas rádios não funciona, a vulnerabilidade deles não suporta mentiras confortáveis, rituais sem significado genuíno, os dois aguardam amedrontados no abatedouro como os outros animais, passivos, contando os minutos. 

A paz da floresta nevada onírica representa a fuga da realidade, a existência sem regras e cobranças sociais, a resposta está no ato de encarar a verdade e enfrentar o medo. Ao superarem este obstáculo no terceiro ato, a vitória está nos olhos que se encontram com cumplicidade passional, na mão que ampara carinhosamente a fragilidade do outro. Quando eles vencem o medo, o sonho perde razão de existir. 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "Mulheres à Vista"


Mulheres à Vista (1959)

“O negócio é perguntar pela Maria.” – Estratégia infalível do protagonista para iniciar conversa com belas mulheres.

O malandro João Flores (Zé Trindade) tenta seduzir uma viúva rica (Estelita Bell) querendo que ela patrocine o show de um grupo de artistas abandonados por um empresário desonesto. Esta chanchada da Herbert Richers, com argumento de Chico Anysio e Zé Trindade, e direção do sempre competente croata J.B. Tanko, registra o melhor momento do poeta baiano no cinema, quase sempre eclipsado por seus colegas nas páginas da História, um tipo caricato que poderia ter saído dos traços de um gibi, encantador, esperto e mulherengo, ele resolve tudo na lábia. Auxiliado por Grande Otelo e Consuelo Leandro, ele alcança o equilíbrio perfeito que faz de seu vigarista do bem uma presença inesquecível. Sem dinheiro, mas cheio de sonhos, ele coloca em prática um plano que sintetiza o instinto de todo empreendedor artístico nacional independente, mover montanhas e fazer qualquer negócio para conseguir realizar seu objetivo, o retrato fiel do amadorismo apaixonado da indústria na época. 

Dentre as várias sequências musicais, destaco a simpática canção-título interpretada por Grande Otelo, com boa trucagem visual, além da presença do grande Nelson Gonçalves, cantando a bela "Arco-Íris". Há um momento breve e muito interessante que ressalta a criatividade do diretor, a cena que envolve uma transição temporal com o auxílio de um quadro na parede, mostrando um peixe no prato. E vale destacar também a composição visual da personagem da governanta sisuda, um óbvio deboche com a figura da Sra. Danvers (Judith Anderson), de “Rebecca – A Mulher Inesquecível”, de Hitchcock. 

“Caiu na risada, considero castigada.” – Zé, analisando a eficiência da cantada.

Ao ser obrigado no final a desempenhar vários papéis na orquestra do teatro, Zé faz com que o espectador gargalhe da precariedade de sua produção, a realidade de todos os profissionais que lutavam no cinema nacional com garra tremenda e que conseguiam entregar seus filmes contra todas as probabilidades, um exercício de metalinguagem atípico e que engrandece a obra. 

"Roda Gigante", de Woody Allen


Roda Gigante (Wonder Wheel - 2017)
(O texto revela informações sobre a trama, spoilers, então recomendo que seja lido após a sessão)

É revigorante ver um diretor tão prolífico criativamente buscar uma nova abordagem aos 83 anos de idade, sem perder sua identidade, exibindo total controle narrativo em sua elegante sintonia com o diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro, que capta com precisão as cores vibrantes e antinaturais que remetem conscientemente ao Technicolor, emoldurando o cenário da Coney Island da década de cinquenta com a aura de terna e gloriosa melancolia dos melodramas clássicos de Douglas Sirk. Se o estilo despojado de Allen é representado pela forma como o personagem de Justin Timberlake conversa com o público, não há outros pontos de fácil identificação, a trama não se parece com nada que o cineasta tenha realizado em sua longa carreira, algo que pode causar estranheza no primeiro contato. Boa parte da crítica norte-americana, intensamente preguiçosa, parece ter se incomodado com o fato de não conseguir desta vez reduzir o diretor ao estereótipo que eles criaram, cometendo o equívoco banal de apedrejar a obra por não satisfazer seus desejos, o clássico “não é o filme que eu queria, ou pensei que seria”.

A trama de “Roda Gigante” é depressiva, existencialmente apocalíptica, com ecos perturbadores autobiográficos que revelam o estado de espírito de Allen. A nostalgia do mundo de sua infância dá o tom, conforto necessário para enfrentar a crueldade do mundo adulto. Kate Winslet vive Ginny, uma mulher casada com experiência como atriz e que se apaixona pelo jovem Mickey (Timberlake), um salva-vidas que se dedica à literatura e ao teatro, que acaba se interessando também pela enteada dela, Carolina (Juno Temple), provocando na primeira um processo destrutivo e inconsequente que culmina no ato extremo de facilitar o assassinato da jovem. O rapaz afirma no início para o espectador: “Como poeta, eu uso símbolos e, como um dramaturgo em germinação, adoro melodrama e personagens maiores do que a vida.”

Voltando à realidade, Allen se apaixonou pela enteada de sua esposa Mia Farrow, Soon-Yi, que tinha 22 anos à época, relacionamento que segue forte ainda hoje, um caso que movimentou as manchetes sensacionalistas e que fez com que a mulher traída decidisse se vingar assassinando a reputação do ex-marido, inserindo na amarga equação acusações doentias e claramente mentirosas de abuso sexual infantil (não existe pedófilo de um caso só). Apesar de um dos filhos corajosamente se posicionar publicamente sobre o abuso psicológico da mãe no passado, defendendo que ela fez “lavagem cerebral” nos pequenos, boa parte do público (que sequer estudou a fundo o caso) ainda liga o nome do cineasta ao escândalo midiático.

Ginny percebe ao final que não há redenção para sua atitude, temos que ser responsáveis por tudo o que fazemos, não há vitória em sua vingança, o seu impulso somente trouxe mais dor. O jovem segue sua vida longe dela, o filho adolescente piromaníaco parece sentir cada vez mais prazer no calor das chamas, o marido (atuação inspirada de Jim Belushi) continua insensível, bêbado e bronco. O filme termina abraçando o patético rosto da mulher, banhada pela luz azulada que representa morte em vida, espécie de evolução do conceito trabalhado em “Blue Jasmine”, perdida em suas ilusões e destruída pela culpa que jamais irá revelar.

“Roda Gigante”, mais que um simples filme em sua carreira, é a elegante resposta de Allen no crepúsculo de sua vida. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "A Baronesa Transviada"


A Baronesa Transviada (1957)
Eu escutava quando criança o LP “Dercy Espetacular – Um Banho de Risos”, passava mal de tanto rir, felizmente meus pais nunca tiveram frescura e não levaram em consideração a advertência que vinha na capa: “Proibida a execução a menores de 21 anos”. Eu cresci respeitando a obra desta inesquecível artista brasileira, mas só fui conhecer seus trabalhos no cinema já na época da faculdade. E considero “A Baronesa Transviada” o seu melhor momento na tela grande. 

"Achei! Touca pra criança de duas cabeças.” – Edayr Badaró, ao encontrar o sutiã da baronesa no quarto dela.

Baseado em argumento de Chico Anysio, esta produção da Cinedistri escrita e dirigida pelo sempre competente Watson Macedo conta a história da simplória manicure Gonçalina (Dercy), que tem uma pinta nas costas que prova ser ela a mais legítima filha de uma baronesa moribunda. Assim que herda a fortuna, ela precisa lutar contra o restante da família que também quer o dinheiro. Dercy era bilheteira de cinema, amava a sétima arte, gostava de imitar Theda Bara, Pola Negri, a sua personagem reflete este amor. Quando ela descobre que herdou a herança, o primeiro desejo é produzir um filme.

“Ela já tá fritando o bolinho pra viajar” – Maneira hilária como Grande Otelo informa ao telefone o estado de saúde da baronesa.

Nem tudo funciona, o roteiro não envelheceu muito bem, algumas piadas são racistas (compreensível no contexto da época), outras são simplesmente fracas, os segmentos musicais são simpáticos, mas quebram o ritmo. Algumas cenas insinuam maior ousadia ao satirizar a própria indústria cinematográfica, como na apresentação final de Dercy representando a antítese da elegância dos grandes musicais norte-americanos, ou o momento em que ela é carregada para fora da sala de seleção de elenco, esperneando e berrando: "É por isso que o cinema nacional não vai pra frente!". 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

"Fala Sério, Mãe!", de Pedro Vasconcelos


Fala Sério, Mãe! (2017)
Adaptado do livro homônimo de Thalita Rebouças, com roteiro do craque Paulo Cursino, especialista em transformar conceitos simples em pequenas pérolas, Dostoiewski Champangnatte e Ingrid Guimarães, o filme entrega exatamente aquilo que promete, diversão despretensiosa e boa dose de emoção, especialmente no terceiro ato, garantindo momentos de genuína ternura, algo que faz desta comédia um programa perfeito para toda a família. O diretor Pedro Vasconcelos se redime do fraco “O Concurso”, de 2013, demonstrando maior segurança e personalidade.

A trama acompanha Ângela (Ingrid Guimarães em momento inspirado, apesar de não evitar fugir de sua zona de conforto) e a filha Malu (Larissa Manoela, que já encantava em “O Palhaço”), desde o nascimento até o fim da adolescência. A grande sacada é dividir a narrativa em duas partes, dois pontos de vista, mãe e filha, as duas com química certeira em cena, elemento que agrega maior sensibilidade e favorece a revisão. Vale salientar que o ritmo não é prejudicado, o texto flui com tranquilidade entre o melodrama sutil e o humor escrachado que é trabalhado de forma objetiva. O roteiro conhece o público-alvo e opta por uma estrutura episódica, televisiva, facilmente absorvida, porém, nunca simplista.

Por trás de toda a neurose da mãe, há insegurança, solidão, camadas que a atriz gradativamente insere, compondo um arco que se complementa com inteligência na segunda parte, conscientemente menos focada em gags, potencializando o carisma de Larissa Manoela como veículo de identificação do público adolescente no processo de humanização da caricatura projetada de sua mãe até então, fazendo com que seu conto de maturidade soe sincero e coerente, mais do que em muitos similares hollywoodianos celebrados do gênero nos anos oitenta. 

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "Os Cosmonautas"


Os Cosmonautas (1962)
Havia por parte da crítica um conceito torto de que as chanchadas da Herbert Richers eram primas pobres daquelas produzidas pela Atlântida, preconceito tolo e, acima de tudo, equivocado, já que nos dois estúdios era perceptível o esmero técnico e, na maioria das obras, um corajoso tom crítico que se fazia eficiente exatamente por estar inserido em tramas simples, sem floreios intelectuais pretensiosos. É o que acontece neste projeto escrito e dirigido por Victor Lima.

O professor Inacius Isidorius (Álvaro Aguiar) acaba de lançar com sucesso um de seus foguetes e de colocar em órbita em torno da Terra uma cápsula tripulada por um símio. Agora ele se prepara para a sua maior proeza: enviar dois homens à Lua, antes que os americanos ou os russos cheguem a este nosso satélite. Há, no entanto, um problema: ainda não foram encontrados os dois cosmonautas. O professor decide então enviar Zenóbio (Grande Otelo), para encontrar com a máxima urgência os cosmonautas, que deverão ser duas pessoas completamente inúteis e desnecessárias. O Cabo Canaveral se torna Cabo Carnaval, o FBI se torna Fiscalização Brasileira de Investigações, quando Gagarino (Ronald Golias) vê uma placa com os dizeres: “Alavanca de Lançamento de Foguetes”, ele fica feliz: “Foguetes? São João? Sou louco por foguetório”, depois opera pueril troça ao afirmar ser vendedor de “inspirador” de pó, tudo muito puro e encantador, mas o roteiro também dedica espaço à gracejos mais ousados, como estabelecer que o esconderijo para os criminosos seja uma organização religiosa, ou mostrar o deputado como um tonto que só pensa em assediar a cientista bonita e elaborar estratégias que envolvam propina.

“Lança perfume de rabo quente.” (Golias ao se referir ao foguete)

Outro momento brilhante joga com os estereótipos de Rússia e Cuba, o representante do primeiro sendo mostrado com uma garrafa de vodka na mesa, o segundo, Fidel genérico, com alguém sendo fuzilado ao fundo. Após a resolução do problema espacial, vale destacar a reação de decepção do político ao descobrir que as Nações Unidas aceitaram acabar com o mercado de armas, o valor outrora destinado às guerras agora será utilizado em melhorias para o povo. Foi necessária a intervenção de uma linda alienígena (Neide Aparecida) para elaborar um plano para salvar a raça humana de sua extinção causada pelo instinto da guerra.

“Obrigado, Cosmonautas! Teremos estradas!” (manchete do dia)

Outro ponto que vale salientar é que “Os Cosmonautas”, ao lado do excelente “O Quinto Poder”, de Alberto Pieralisi, lançado no mesmo ano, foi um dos primeiros esforços da indústria nacional na ficção-científica, utilizando elementos do gênero em tom cômico, lançado logo após a primeira viagem do homem ao espaço. O discurso pacifista traz ecos de “O Dia em que a Terra Parou”, de Robert Wise. Quando tudo parecia resolvido, o clássico “happy ending” hollywoodiano, o roteiro subverte a expectativa e finaliza a obra com uma sequência amarga. A alienígena se decepciona profundamente ao escutar na rádio que todas as nações voltaram atrás em seus esforços de oposição à guerra. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Ciclo da Comédia Nacional Clássica - "Nem Sansão Nem Dalila"


Nem Sansão Nem Dalila (1954)
O que aconteceria se a cabeleira de Sansão fosse uma peruca? O barbeiro Horácio (Oscarito) sofre um insólito acidente e vai parar no Reino de Gaza, muitos anos antes de Cristo. Lá, ele conhece Sansão (Wilson Viana) cuja força descomunal vinha de uma "milagrosa" peruca. Ao trocar a tal peruca por um isqueiro, ele se transforma em um homem forte e poderoso, passando a reinar como um ditador bonachão, uma versão caricatural do populismo de Getúlio Vargas. Ao explicar o que são eleições políticas para o rei, o personagem de Oscarito afirma sem pensar duas vezes: “eleição, votação, marmelada”. Sem qualquer sutileza, ele emula os maneirismos de Vargas ao discursar no terceiro ato. Os diretores nacionais do Cinema Novo, celebrados por suas obras quase sempre umbilicais e pretensiosas nas décadas seguintes ganhariam prestígio, mas você encontra muito mais coragem, ironia inteligente e senso artístico nas chanchadas tão desprezadas pelos críticos da época, que usualmente se referiam às comédias nacionais como “abacaxis”.

“Votai em Sansão, um homem de ação.” (slogan da eleição do personagem de Oscarito)

A presença encantadora das belíssimas Eliana Macedo (Dalila) e Fada Santoro (Miriam) garante momentos preciosos, como o divertido improviso que transforma a escrita na pedra com o martelo em instrumento de percussão para o gingado de Miriam. Cyll Farney esbanja carisma e até brinca no terreno de Errol Flynn, encenando um duelo de espadas coreograficamente eficiente. Neste clássico da Atlântida, a produção mais cara do estúdio até aquele momento, o diretor Carlos Manga dirige um roteiro do grande Victor Lima, genial autodidata que começou na crítica (na revista “Cena Muda”) e foi responsável por filmes como “Os Cosmonautas” e o excelente “Pistoleiro Bossa Nova”, dois títulos que constam neste ciclo que estou iniciando. O elemento de sátira ao “Sansão e Dalila” de Cecil B. DeMille trouxe frescor ao gênero, abriu novas possibilidades criativas, mas há também inspiração forte de “O Mágico de Oz” na trama, especialmente em seu desfecho.

“Fica estabelecido que todos os dias do ano serão feriado, com exceção do Dia do Trabalho.”

O maior mérito cômico está no jogo de palavras e na maneira como Oscarito as defende em cena. “Tô com uma idiossincrasia terrível hoje.”, “Onde fica o palácio de esparadrapo? Digo, de Gaza.” Ao ter seu primeiro vislumbre da Palestina, ele garante com veemência: “Isso aqui é Jacarepaguá no duro, eu conheço!” O hispano-brasileiro de origem circense era uma força da natureza, caso tivesse nascido em Hollywood, seria reconhecido internacionalmente e aplaudido até hoje por todas as gerações. Triste sina do artista brasileiro, depender da memória de seu povo.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

"Viva - A Vida é Uma Festa", de Lee Unkrich e Adrian Molina


Viva - A Vida é Uma Festa (Coco - 2017)
A Pixar teve um longo período inicial de puro brilhantismo, de 1995 a 2010, depois entregou produtos medianos, parecia que haviam substituído a sensibilidade autoral passional pelo lucro imediatista. “Divertida Mente”, de 2015, resgatou a esperança em grande estilo, mas ainda não transbordava aquele senso maravilhosamente lírico que só pode ser comparado no gênero aos trabalhos de Hayao Miyazaki. Com “Viva – A Vida é Uma Festa”, obra-prima impecável, o estúdio alcança o mesmo nível de seus primeiros esforços, um roteiro que sintetiza diversos temas importantes e injeta uma carga generosa de emoção em um conto sobre desilusão ambientado na terra dos mortos, vale ressaltar, conceitos nada convencionais em animações infantis e que são inseridos de forma muito corajosa.

O pequeno Miguel (Anthony Gonzalez/Arthur Salerno) venera seu ídolo, o falecido cantor Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt/Nando Pradho), mas precisa esconder este sentimento de sua família, que tem tradição no ramo da sapataria e um ódio profundo por qualquer manifestação musical, já que seu tataravô abandonou a família para seguir carreira artística. O menino cresceu escutando estas histórias fundamentadas na amargura e na incompreensão, mas seu espírito se recusa a ser dominado por impulsos baixos, ele enxerga fissuras no muro de lamentação que seus pais construíram em sua vida, a identificação com o ídolo é a luz que invade pela fresta, o estímulo que aquece e conforta. O valor da memória, leitmotiv do filme, é simbolizado pelo respeito com que a criança trata o artista que já havia falecido antes de seu nascimento. Ele irá contar com a ajuda de Hector (Gael García Bernal/Leandro Luna), um desajeitado esqueleto que sonha conseguir visitar a terra dos vivos. Sem revelar muito, já que qualquer informação neste caso prejudica bastante a experiência, eu ressalto a reviravolta inteligente do segundo ato, a maturidade com que o roteiro evita os artifícios de chantagem emocional usuais em animações infantis, subvertendo as crenças do menino e, por conseguinte, do público. Alguns detalhes são geniais, perceba como a música-tema é trabalhada, gradativamente simplificada e ressignificada. E destaco também a forma respeitosa com que a cultura mexicana é abordada, intrinsecamente relacionada ao desenvolvimento narrativo, algo infelizmente raro em produções norte-americanas.

A catarse emocional dos últimos dez minutos é profundamente impactante porque representa a celebração de valores humanos que, especialmente nos tempos em que vivemos, parecem ter sido abandonados. As lágrimas não resultam de esforços audiovisuais manipulativos tecnicamente calculados, já que o espectador comprou desde os primeiros minutos a autenticidade daqueles personagens, o mérito é da qualidade do texto que opera em diversas camadas de interpretação. O amor transcende a presença física, não faz sentido temer a morte, lutar contra o inevitável, o verdadeiro malefício envolve o ato de esquecer. As lembranças ternas são (literalmente na trama) a ponte que une o tangível possível e a eternidade que só ganha valor exatamente por ser desafiada pela finitude.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

"Cortina Rasgada", de Alfred Hitchcock


Cortina Rasgada (Torn Curtain - 1966)
Um cientista americano (Paul Newman) vai para Copenhague a fim de participar de um congresso internacional e física e leva sua noiva/assistente (Julie Andrews). Lá, ela intercepta uma mensagem destinada a ele e descobre que seu noivo está desertando para Berlim Oriental, onde pretende conseguir fundos para seu projeto.

O filme foi muito mal recebido pela crítica na estreia e é fácil perceber a razão, o roteiro bobo e confuso escrito por Brian Moore realmente não funciona e há pouca química no casal imposto pelos produtores, Julie Andrews, que havia acabado de conquistar fama mundial com “Mary Poppins” e “A Noviça Rebelde”, e Paul Newman, um dos atores mais respeitados de sua geração. Algumas teorias apontam como motivo principal o direcionamento temático contrário à ideologia socialista/comunista de grande parte dos jornalistas da época, mas prefiro crer que o profissionalismo e a ética superavam qualquer discordância. A realidade é que, dentre os projetos da fase final do mestre do suspense, “Cortina Rasgada” é o único que pode ser considerado como puramente ruim.

Os primeiros dois atos são tremendamente arrastados e o fraquíssimo terceiro é prejudicado com a inclusão da personagem da condessa vivida por Lila Kedrova, subtrama que não leva a lugar algum e quebra o ritmo já bastante combalido. Outro problema é a trilha sonora sem personalidade, Hitchcock desfez a parceria com Bernard Herrmann, que já havia composto material de alta qualidade para o filme, substituindo o gênio por John Addison e uma pegada mais pop, datada e irrelevante. Com a história falhando em cativar o público, a atenção rapidamente acaba sendo desviada para elementos que usualmente não contariam como pontos negativos, por exemplo, a utilização excessiva característica da projeção traseira nas cenas. O diretor sempre fez uso generoso do recurso, mas em “Cortina Rasgada” incomoda e enfraquece a imersão, já que o investimento emocional é raso, em alguns momentos causa até riso involuntário.

Mas cinema é uma arte maravilhosa, até mesmo em obras menores podemos encontrar momentos brilhantes. A sequência que envolve a fuga do casal no ônibus da organização Pi é teoricamente bizarra, porém, uma aula de construção de suspense. E como esquecer da pancadaria entre Gromek (Wolfgang Kieling) e Armstrong (Newman) na fazenda? A montagem desconstrói a espetacularização das brigas no gênero, evidenciando a dificuldade de um homem que não é, por natureza, violento, enfrentar alguém com os punhos na vida real. A participação da cúmplice, bom momento de Carolyn Conwell, potencializa a angústia, com a edição mostrando que o ato de esfaquear alguém, mesmo em defesa pessoal, demanda incrível esforço. É uma sequência longa, brutal, inteligentemente silenciosa, propositalmente feia em sua estética, inesquecível.