quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Nos Embalos do Rei do Rock - "Amor à Toda Velocidade"


Em uma entrevista recente, Ann-Margret, quando perguntada sobre seu relacionamento com Elvis, silencia respeitosamente e se emociona, o apresentador não disfarça sua surpresa, a mulher que foi desejada por todos à época, mesmo após tantos anos do falecimento do amigo, não consegue tocar em seu nome sem lacrimejar. Lucidamente, ela acusa todos que se aproveitaram dele e que não tentaram ajudar no período de crise, quando sua saúde já estava debilitada, especialmente os jornalistas da área que não o elogiavam em vida por inveja. Apesar das tentativas do entrevistador, ela se recusa a comentar detalhes de seu caso amoroso, na época em que ele estava oficialmente comprometido com Priscilla, afirmando que seria incapaz de trair a confiança dele. Dá para imaginar o nível de cumplicidade que existia nos sets de filmagem de "Amor à Toda Velocidade", a química do casal transborda na tela, a paixão era real e intensa, os dois se entendiam plenamente, já que viviam a mesma realidade do show business. E muitos fãs acreditam que se Elvis tivesse ficado com Ann-Margret, ele estaria vivo até hoje. 


Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas – 1964)
Em Las Vegas, um piloto de corrida (Elvis Presley) quer participar do 1º Grande Prêmio da cidade, mas perde o dinheiro que usaria para comprar um motor. Ele então passa a trabalhar como garçom e se envolve com uma professora de natação (Ann-Margret), que se sente incomodada pela obsessão que ele tem por corridas, pois teme que algo aconteça.

Ann-Margret era dinamite nas telas quando cantava e dançava, levantava a moral dos soldados em shows durante a guerra, uma bela garota com personalidade forte na época auge do machismo, ela acabou ficando nos bastidores com fama de "mulher fácil". Quando conheceu Elvis nos estúdios de gravação da MGM, apresentada cordialmente pelo veterano diretor George Sidney, já envoltos pela máquina de marketing da empresa, ela se surpreendeu com a gentileza do rapaz, que a enxergava com muito respeito e a tratava com ternura. Aos olhos dele, ela podia deixar de se preocupar com a imagem de musa sexy e voltar a agir como a jovem imigrante sueca cheia de sonhos, os dois não levavam muito à sério os estereótipos criados sobre eles, brincavam constantemente, compartilhavam o amor pela música, o relacionamento amoroso se manteve por todo o ano, a amizade, até o falecimento do cantor.

É a melhor bilheteria na carreira cinematográfica de Elvis e muitos afirmam que este é o melhor filme que ele fez, eu não concordo, mas entendo os motivos, o diretor, responsável por obras-primas como "O Barco das Ilusões", "Scaramouche", "Os Três Mosqueteiros", "Marujos do Amor", "Melodia Imortal", entre outros, era especialista em musicais elegantes, o que garantiu um ritmo verdadeiramente único na produção, a trama não apresenta qualquer barriga, todos os momentos funcionam, as músicas se encaixam perfeitamente nas cenas, o resultado diverte sem subestimar a inteligência do público. A alta qualidade era perceptível em todos os setores. A produção refinada foi de Jack Cummings, de "Sete Noivas Para Sete Irmãos". O roteiro foi escrito por Sally Benson, responsável pelo excelente "Agora Seremos Felizes", com Judy Garland. A direção de fotografia ficou sob responsabilidade de Joseph F. Biroc, que trabalharia anos depois em "Inferno na Torre". A trilha-sonora manteve o alto nível, com destaque para "What'd I Say", composta por Ray Charles, "C'mon Everybody" (Joy Byers) e a linda balada "Today, Tomorrow and Forever" (Giant-Baum-Kaye), com direito ainda a uma interpretação marcante do rei do rock no clássico italiano "Santa Lucia". A canção-tema, "Viva Las Vegas" (Pomus-Shuman), apesar de frenética, acaba pecando pela artificialidade, típico tratamento genérico e pasteurizado que acabou diluindo a espontaneidade do cantor em sua segunda fase em Hollywood.

Um aspecto que poucos lembram é que a montagem da sequência de corrida de carros no desfecho, com generosa utilização da câmera em primeira pessoa no volante, foi celebrada pelos críticos à época como a melhor do tipo até o momento. Apenas "Bullitt", com Steve McQueen, conseguiria superar o feito, quatro anos depois. 

A Seguir: Carrossel de Emoções (Roustabout)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

"Lady Bird: A Hora de Voar", de Greta Gerwig


Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird – 2017)
Serei objetivo, já que nada soa orgânico neste filme. É perfumaria feminista indie das mais bregas, roteiro calculadamente pensado para atingir as expectativas emocionais da garotada que abraça da forma mais rasa o importante movimento como cafona modismo, diluindo tudo em palavras de ordem tolas e que cabem nas camisetas vendidas a preços altos, defendidas por meninas altamente inseguras e rapazes que escondem a sexualidade real num frágil disfarce social oportunista de nobre ativista pela causa, em suma, todos ambicionando atenção, aplausos da massa de manobra, ou, na hipótese mais baixa, lucro financeiro aproveitando o zeitgeist atual na indústria.

Analisando a obra sem o peso do gigantesco (e nada espontâneo) hype, constato que os diálogos são simplórios, ou apelam de maneira pouco criativa para clichês já desgastados. Greta Gerwig, enquanto diretora inexperiente, consegue iniciar com uma montagem brilhante mostrando o vazio dos rituais, mas se perde ainda no primeiro ato, pecando pela pouca sutileza com que lida com as cenas, o ritmo não engata nunca, porque o desenvolvimento dos personagens é morno, caricaturas que poderiam ser melhor utilizadas em tramas essencialmente despretensiosas. O cinema já encontrou diversas formas de retratar contos de amadurecimento, mas raras vezes ousou tão pouco. A protagonista Christine, vivida por Saoirse Ronan, prefere ser chamada de “menina pássaro”, a típica adolescente irritante que se considera vítima das circunstâncias e que acredita que ter personalidade é chocar outrem. 

A construção do relacionamento entre ela e sua mãe (Laurie Metcalf), elemento que poderia elevar a qualidade do material, acaba se resumindo a discussões sobre tolices, com a jovem birrenta, mimada e maníaco-depressiva desfilando grosseria e recebendo sermões homéricos, só que sem a inteligência refinada de um John Hughes, que compreendia como poucos as angústias naturais deste período da vida. Em revisão, os problemas se intensificam, as escolhas narrativas se mostram ainda mais frágeis, incoerentes e dramaticamente pueris.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "Vampirella" e "O Monstro do Pântano"


Vampirella (1996)
Ah, doce Vampirella, uma das musas mais queridas da minha pré-adolescência, vivida no filme pela belíssima Talisa Soto, a Gal Gadot da década de 90, que eu já admirava como a Bond Girl de "007 - Permissão Para Matar", a Doña Julia de "Don Juan DeMarco" e a princesa ninja Kitana, de "Mortal Kombat". No roteiro, a primeira pessoa que ela salva é um jovem nerd de óculos que a leva para seu quarto cheio de cartazes de filmes na parede, com direito até a beijo na boca de despedida, sim, inegável, rolou uma forte identificação que me fez fazer vista grossa para todos os problemas desta produção de irrisório orçamento e muitos (d)efeitos especiais. Outro detalhe bacana que vale destacar é a ponta de luxo do carismático diretor John Landis, de "Um Lobisomem Americano em Londres", como um dos astronautas que encontram a jovem anti-heroína seminua em Marte. Houve uma tentativa da indústria de lançar a personagem no cinema na década de setenta, mas foi somente em meados da década de noventa, com ajuda do produtor Roger Corman, que "Vampirella" finalmente estreou na tela pequena, aproveitando o boom do mercado de home video. Levando em conta que a direção ficou sob responsabilidade do incompetente Jim Wynorski, de bombas como "Sorceress" e "Deathstalker 2", até que o produto final não é tão desastroso, cumpre bem sua função, auxiliado pela presença marcante de Roger Daltrey, vocalista da banda "The Who", exageradíssimo como o vilão Vlad. 


Recomendação literária: A editora Mythos lançou a melhor fase da personagem criada por Forrest J. Ackerman e Trina Robbins no belo encadernado de luxo, capa dura: "Vampirella - Grandes Clássicos". Histórias trabalhadas por Archie Goodwin, T. Casey Brennan, Budd Lewis e Steve Englehart, desenhadas no afrodisíaco traço de José González. 

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O Monstro do Pântano (Swamp Thing - 1982)
Fora o fato de que a Adrienne Barbeau no filme está a cara da cantora Karen Carpenter, pouca coisa chamou minha atenção nesta revisão para o texto, eu lembrava que esta obra dirigida por Wes Craven era ruim, mas a experiência desta vez superou os limites do tédio. É impressionante imaginar que este mesmo profissional iria realizar dois anos depois a obra-prima do terror: "A Hora do Pesadelo". Quem não conhece o personagem nos quadrinhos e vai buscar direto na fonte do cinema, vai tomar raiva e acreditar que o conceito é tonto, tolo e risível, muito longe da realidade filosoficamente profunda trabalhada especialmente no longo arco escrito por Alan Moore. A trama básica segue com relativa fidelidade a origem do monstro, o cientista Alec Holland (Ray Wise) fica preso em uma armadilha explosiva em seu laboratório, quando tentam roubar sua fórmula. O seu corpo flamejante cai no pântano e renasce como uma criatura híbrida. Vale destacar que a subtrama romântica com viés de "A Bela e a Fera" foi criação do roteiro, algo que seria depois utilizado com excelência no arco dos quadrinhos já citado. O vilão Arcane, vivido pelo veterano Louis Jordan, pagando as contas do mês, traz charme, mas não o suficiente para que não nos incomodemos com a representação física do protagonista verde, provavelmente o cosplay mais horroroso da história do cinema trash, consegue ser pior que o clássico da Troma: "O Vingador Tóxico". Veja como curiosidade, caso tenha duas horas para desperdiçar. 


Recomendação literária: A editora Panini lançou a magnífica "Saga do Monstro do Pântano", escrita por Alan Moore, em seis encadernados. É material adulto de altíssima qualidade, imprescindível na coleção de todo fã de quadrinhos. 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos - "Flash Gordon" e "Tex e o Senhor dos Abismos"


Flash Gordon (1980)
"Flash, eu te amo! Mas nós só temos 14 horas para salvar o planeta Terra!" (Dale Arden, vivida por Melody Anderson)

Durante muitos anos a trilha sonora do Queen era o único elemento que me fazia rever a obra dirigida por Mike Hodges, que apesar de nunca ter alcançado o mesmo nível de qualidade, foi o responsável pela pérola policial "Carter - O Vingador", de 1971. Quando criança, eu não tive contato com o personagem, logo, o meu investimento emocional no filme à época foi raso, o estilo exagerado, kitsch, causava estranheza. Hoje, mais que um guilty pleasure, o título se tornou referência de como um fracasso monumental pode ser mais relevante em longo prazo que um sucesso comportado. O culpado foi George Lucas, o sucesso de "Star Wars" tornou viável outras tentativas espaciais, inclusive "Flash Gordon", personagem que o próprio Lucas tentou trabalhar anos antes, mas teve seu pedido recusado pelo produtor Dino De Laurentiis. Ironia do destino, o italiano apostou na ideia outrora rejeitada, motivado pelo sucesso do revide criativo do jovem que ele havia menosprezado. Sendo coerente com o tom debochado do roteiro de Lorenzo Semple Jr., responsável pelos textos da série sessentista do Batman, substituindo a pegada mais pretensiosa sci-fi do roteirista/diretor Nicolas Roeg, afastado após recusar transformar tudo em pastiche, eles escalaram para o papel principal, após receberem um "não" do Kurt Russell (até ele achou o conceito um pouco exagerado demais), o jovem inexperiente Sam J. Jones, tremendo canastrão que os executivos viram em um programa de namoro na televisão. Um dos maiores atores de sua geração, Max von Sydow, carregando nos ombros o projeto como o vilão Imperador Ming, o único no elenco que verdadeiramente apreciava o herói das tiras de jornal e que, principalmente, desejava estar no projeto. Você sente em sua entrega esta paixão pelo material. Revisto para este texto, o filme se mantém problemático em diversos pontos, mas, ainda assim, fascinante, encantador. 


Recomendação literária: "Flash Gordon no Planeta Mongo", lançado pela editora Pixel, com as páginas dominicais de 1934 a 1937, criadas por Alex Raymond e Don Moore. 
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Tex e o Senhor dos Abismos (Tex e il signore degli abissi - 1985)
O diretor italiano Duccio Tessari, do competente "Uma Pistola Para Ringo" e da curiosa versão de "A Marca de Zorro", com Alain Delon, comanda o roteiro escrito a três mãos, com o auxílio de Marcello Coscia e Gianfranco Clerici, responsável pelo excelente "O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos", de Lucio Fulci. A opção de ambientar a aventura no terreno do sobrenatural, com sacerdotes malignos que caberiam como luva numa aventura do bárbaro Conan, não foi muito bem aceita pelos fãs, apesar de existirem histórias do personagem com esta temática, não é o caminho mais lógico, especialmente em seu primeiro momento (e único) na tela grande. Eu cresci lendo os gibis do Tex, assim como aqueles livros de bolso de faroeste que eram comprados nas bancas de jornal com o troco da merenda da escola, o elemento que me atraía no personagem era sua conduta íntegra inabalável, os valores que defendia com firmeza, porém, sem perder a ternura, uma espécie de "Superman" do Velho Oeste e sem superpoderes. O filme não faz justiça ao legado dos quadrinhos, a produção é de baixíssimo orçamento, originalmente havia sido pensado como o piloto para uma série de televisão, mas existem acertos consideráveis. Giuliano Gemma está impecável como o protagonista, ele entrega a bravura nas atitudes e no semblante esculpido a cinzel, a sua figura impõe presença silenciosamente. O rancheiro Kit Carson, de William Berger, fisicamente idêntico ao original, caracterização que respeita a essência do personagem, até seus rompantes de pessimismo estão intactos. O índio Jack Tigre, vivido por Carlo Mucari, visualmente diferente, mas carismático, não prejudica o resultado. A ideia consciente de manter os enquadramentos estáticos nas cenas, sem firulas de câmera, para tentar emular ao máximo o senso de movimento das páginas dos quadrinhos, além de facilitar para a equipe, traz realmente uma aura diferente às sequências, especialmente naquelas que envolvem tiroteios ou perseguições a cavalo. É um faroeste crepuscular, o público italiano já não estava mais tão interessado no gênero, mas merece maior reconhecimento. Vale destacar a presença do criador Gian Luigi Bonelli, vivendo o índio que aparece no prelúdio e no epílogo. 




Recomendação literária: A minha história favorita de Tex Willer é "O Vale do Terror", desenhada pelo mestre Magnus, com argumento de Claudio Nizzi, lançada pela editora Mythos na coleção "Edição Gigante em Cores". Se você quer entender o fascínio do personagem, leia esta obra-prima. E se gostar, procure depois "El Muerto", minha segunda aventura favorita da lendária criação de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"Três Anúncios Para Um Crime", de Martin McDonagh


Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri – 2017)
É difícil evitar perceber que o trabalho do roteirista/diretor Martin McDonagh neste projeto é altamente pretensioso, talvez sintoma de insegurança artística, como se ele quisesse exibir a todo momento sua capacidade de desconcertar o espectador com a quebra de todas as expectativas, algo que acaba prejudicando o ritmo, especialmente no segundo ato.

A trama base e as atuações são impecáveis, mas é tão aparente o desespero por aplausos acadêmicos, que a experiência acaba exaurindo toda naturalidade que as cenas poderiam despertar. A opção por soluções cômicas frequentes, por vezes soa como bem-vindo alívio, mas durante boa parte do tempo soa simplesmente irritante. Se o texto consegue emocionar profundamente em sequências como a da leitura de uma importante carta, ou em lindos trechos em que a protagonista, vivida pela excelente Frances McDormand, consegue sutilmente revelar traços de humanidade cativantes, usualmente escondidos por trás de seu semblante de dor e mágoa, o todo dança desajeitadamente na linha tênue entre a organicidade fascinante e a exposição artificial, a simplicidade neste caso poderia ter potencializado os méritos de "Três Anúncios Para Um Crime". É o típico filme pensado calculadamente para agradar nas premiações, estratégia que já provou ser fadada a glórias com curto prazo de validade.

Mildred (McDormand), uma mãe nada convencional que decide se vingar do cruel estupro e assassinato de sua filha adolescente, instigando a revisão do crime abandonado sem solução de forma bastante visual, com o auxílio de mensagens em três outdoors, premissa que conduz à discussões preciosas sobre o comportamento da sociedade diante da violência. Quando se banaliza o tempo de "rir" e o tempo de "chorar", tudo se perde, o coletivo se torna parte do problema. A metalinguagem trabalhada na cena do policial que debocha sobre a motivação de quase todos os filmes ser a morte de uma jovem, assim como a ideia reforçada no desfecho de que a omissão é, de fato, o real crime a ser confrontado, pontos que agregam ao conceito da insatisfação com o sistema. Não importa quem cometeu o crime, mas, sim, a passividade brutal dos habitantes da pequena cidade, seres sem empatia, que, ao invés de aplaudirem a atitude da mulher, demonstram revolta por sua força de espírito ter abalado a ilusória paz de seus dias.

A coragem dela, sem que os próprios afetados percebam inicialmente, está operando modificações estruturais consideráveis, a resistência da leoa ferida faz com que todos, até mesmo o mais patético e intelectualmente limitado indivíduo, busquem ser melhores. Esta essência poderosa compensa todos os problemas da obra, a mensagem de que a mais bonita redenção não é a catarse do revide, pode ser apenas a silenciosa mudança de atitude diante do abismo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"O Sacrifício do Cervo Sagrado", de Yorgos Lanthimos


O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer – 2017)
Quem conhece o trabalho do roteirista/diretor grego Yorgos Lanthimos, mestre por trás de obras-primas como "Dente Canino", "Alpes" e "O Lagosta", sabe que é altamente prejudicial revelar neste texto pontos da trama, a ignorância é uma bênção para aquele que se permite adentrar sem amarras na mente do mais criativo realizador de sua geração, alguém que se especializou na arte de causar desconforto e, por conseguinte, incitar a reflexão sobre seus temas, já que o choque nunca é gratuito ou pretensioso.

Utilizando códigos do horror, o roteiro prepara sua tese sobre a fragilidade da estrutura de um relacionamento calcado na hipocrisia, os planos abertos com profundidade de campo enfatizando o vazio dos rituais, a utilização constante de travellings que remete à Kubrick, o casal de classe alta vivido por Nicole Kidman e Colin Farrell, símbolos de segurança e competência na sociedade, com dois filhos adolescentes que são exemplos de boa conduta na escola, verniz de elegância que é perceptível na forma mecânica como o elenco dita o texto, característica em todos os projetos do diretor, como se repetissem algo memorizado há séculos e que já perdeu o sentido. No leito matrimonial, os corpos se entregam como feras abatidas, passivas, anestesiadas, inconscientes, desviando o olhar, potencializando a artificialidade do sentimento que foi acertado em contrato, porém, não existe.

Ao abrir o filme com o coração pulsante exposto em uma cirurgia cardiovascular, emoldurado pela trilha sonora operática, a metáfora se estabelece, por trás da empáfia humana e da ilusão de poder, apenas sangue e vísceras, um sistema com prazo de validade curto. Na equação familiar modelo de comportamento, o elemento pasoliniano do jovem vivido por Barry Keoghan não se encaixa, ele, filho de um ex-paciente do cirurgião (Farrell), mantém encontros furtivos com o pai e, posteriormente, com a filha, gradativamente impondo sua presença de maneira cada vez mais ameaçadora, sem apelar para o confortável histrionismo. A sua figura franzina aparentemente inofensiva irá representar no terceiro ato algo quase divino, perceba o sutil momento em que seus pés são beijados por um dos personagens, o real e amedrontador poder que perturba a casa da mentira. Vale destacar a presença de Alicia Silverstone, que, apesar de ter uma breve participação como a mãe do rapaz, impressiona com sua composição trágica, patética, dominando a cena que é um dos pontos altos da obra.

"O Sacrifício do Cervo Sagrado" é a confirmação da genialidade de seu diretor, felizmente incapaz de domar seu estilo no terreno do mainstream, uma voz instintiva poderosa dentre tanta rasa perfumaria. 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Sobre o Carnaval em tempos de crise


Reflexão breve enquanto o país está em estado de coma. O Rio de Janeiro está quebrado, a cidade passa por uma crise monumental, os professores e policiais continuam recebendo atrasado um salário de miséria, protestos violentos a torto e a direito, regiões sem saneamento básico, insegurança nas ruas atingindo níveis de zona de guerra, pacientes morrendo nos corredores dos hospitais, logo, uma infinidade de motivos para que o cidadão carioca viva plenamente a folia carnavalesca.

É usual escutar a expressão: "O ano no Brasil só começa depois do Carnaval". Será que você já parou para pensar em como esta constatação é incrivelmente vergonhosa? O deselegante contumaz que sorri diante do abismo, aquele que não é pontual, que enforca o feriadão e só pensa em tirar vantagem, segue a mesma cartilha canalha do político que é alvo de sua metralhadora verborrágica nas redes sociais. A mudança não depende do governo, a salvação não virá do alto, os adultos estão infantilizados colocando a responsabilidade nos ombros de supostos heróis, enquanto seguem letargicamente a incansável procissão dos bobos alegres. Acredite, não há sistema político podre que sobreviva em uma sociedade lúcida. É a atitude do indivíduo que importa, a forma como ele reage em situações de crise.

Não demonizo a celebração tradicional, longe disso, somente incito o questionamento sobre a importância de acusar a dor do açoite como sinal de desconforto. Há uma corrente argumentativa que defende o valor turístico do evento. Os cassinos de Las Vegas transformaram o deserto em um paraíso. Caso o polpudo investimento anual no Carnaval gerasse algum legado importante para o país, ao invés de constarmos frequentemente nos últimos lugares das estatísticas mais deprimentes, nós hoje seríamos o Japão, a Suécia, a Alemanha, ou a Finlândia. Será que os povos destes países festejariam em tempos de crise extrema em todos os níveis?

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Rebobinando o VHS - "Sem Aviso"


Jack Palance e Martin Landau, dois dos mais respeitados atores de sua geração, inseridos em um projeto que aborda a invasão de um alienígena que parece um Boneco de Olinda. A missão: caçar humanos como em um esporte. Se há algum mérito nisto, vale lembrar que a essência da trama seria trabalhada sete anos depois em "O Predador", protagonizado pelo filósofo Arnold Schwarzenegger. Plágio? Coincidência? Veja e tire suas próprias conclusões. 


Sem Aviso (Without Warning - 1980)
O tom é muito similar ao de "Sexta-Feira 13", lançado no mesmo ano, com aquele grupo de adolescentes tontos vividos por trintões que agem mentalmente como se ainda frequentassem a escola primária. Aliás, vale ressaltar que os personagens adultos também exibem desenvoltura intelectual de bebês famintos, como na cena em que o líder dos escoteiros se distrai tentando acender seu cigarro com o atrito de pedras. Até o momento em que o alienígena perde a timidez e aparece na tela, faltando uns seis minutos para o final, somos brindados com várias sequências pretensamente apavorantes com generosa utilização de caramelo derretido e tapiocas voadoras dentadas.

O diretor Greydon Clark começou a carreira comandando dois dos mais fracos filmes blaxploitation: "Black Shampoo" e "The Bad Bunch", currículo complicadíssimo, mas que explica muitas das escolhas tomadas na obra. Ele até consegue estabelecer alguma aura de mistério no primeiro ato, auxiliado pela fotografia do competente Dean Cundey, que trabalharia depois em pérolas como "De Volta Para o Futuro", "O Enigma de Outro Mundo" e "Jurassic Park". Mas a iluminação eficiente não salva textos ruins e ideias estúpidas, logo, a experiência de ver "Sem Aviso" rapidamente se transforma em algo insuportavelmente entediante. Existem defensores ferrenhos deste sci-fi B nos Estados Unidos, assim como existem muitos pacientes esbravejando que são ventiladores de teto nos hospitais psiquiátricos, certas coisas são impossíveis de entender plenamente.

Nada é mais constrangedor que ver um artista do calibre de Palance, correndo ensandecido na direção do monstro mais inexpressivo da história do gênero, gritando: "Alien! Alien!". A assinatura deste contrato só pode ter sido dívida de jogo. 

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Ciclo de Clássicos das Artes Marciais - "The Killing Machine" e "Drunken Tai Chi"


The Killing Machine (Shorinji Kempo – 1975)
"Força sem justiça é violência. Justiça sem força é fraqueza." (frase do filósofo francês Blaise Pascal que fecha a obra)
Quando se fala em Sonny Chiba, muitos lembram de seu trabalho na trilogia "The Street Fighter", mas considero que seu melhor momento, como artista marcial e como ator, rara oportunidade que ele teve de construir várias camadas, está nesta pérola pouco conhecida, dirigida pelo japonês Norifumi Suzuki, com roteiro de Isao Matsumoto, que aborda a vida real de Doshin So, fundador do Shorijin Kempo, de sua infância traumática, passando pelo tempo em que foi soldado no período final da Segunda Guerra, até se tornar mestre. Chiba era seu aprendiz, logo, dá para imaginar a emoção que ele sentiu ao defender o personagem na tela grande. O tom é pesado, afinado no diapasão dramático trágico, aura que se reflete na forma como a técnica marcial é utilizada, com brutalidade e dose generosa de gore, primando pelas fechaduras de pulso rotacionais, especialidade do homenageado. A cena da castração do estuprador é marcante, cinematograficamente poderosa, mas o que fica após a sessão não são as sequências de luta. Não me lembro de outro filme do gênero que trabalhe com tanta eficiência a questão da importância da disciplina das artes marciais como força inspiradora e transformadora na vida dos mais jovens, auxiliando na superação de obstáculos e formando caracteres nobres. 


Drunken Tai Chi (Siu Tai Gik - 1984)
Esta produção da Dragons Group Film dirigida pelo grande Yuen Woo-ping, mais conhecido pela nova geração por ter sido o coreógrafo de "Matrix", poderia ser descartada como apenas mais um roteiro cômico com ótimas sequências coreografadas, mas há um elemento nela que merece ser salientado, o filme marca a estreia do espetacular Donnie Yen, vivendo um tipo muito diferente do que acabou se tornando sua persona mais facilmente reconhecível hoje em dia. E logo em sua primeira cena, aparentemente um despretensioso passeio de bicicleta, a câmera já demonstra a admiração por seu talento, o espectador em questão de minutos já é conquistado por seu carisma, bom-humor e a precisão cirúrgica dos movimentos ao enfrentar um desordeiro, favorecida pela utilização da câmera lenta. A estrutura é similar aos projetos iniciais de Jackie Chan e Sammo Hung, com muito pastelão e uma pegada descompromissada fascinantemente irresponsável, a trama é simplória e convencional, mas o ritmo é ágil, impecável, considero até muito superior a "Drunken Master", filme mais conhecido do diretor. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Ciclo de Clássicos das Artes Marciais - "Ho, O Sujo" e "Hapkido"


Ho, O Sujo (Lan Tou He - 1976)
Ho (Wong Yue) é um impetuoso ladrão de joias que acredita ser muito esperto. Wang (Gordon Liu) é um príncipe disfarçado que passa seu tempo admirando arte, colecionando antiguidades e degustando vinhos. Quando os dois se encontram, Wang percebe o grande potencial de Ho e arma um plano para que ele tenha que o servir sem revelar sua verdadeira identidade. A trama é um tanto quanto confusa, o segundo ato é problemático, mas as coreografias e as ideias criativas que as envolvem estão entre as melhores já feitas no gênero, como nas tentativas de se disfarçar das pessoas ao redor que os personagens estão trocando sopapos, escondendo seus movimentos com uma surreal atitude passiva. É curioso que muitos cinéfilos valorizem a arte por trás das danças nos musicais, mas tenha preconceito com a arte por trás das lutas dos filmes de artes marciais. A direção só podia ser do mestre Chia-Liang Liu (também conhecido como Lau Kar-Leung), com o refinamento dos estúdios Shaw Brothers, combinação que garante também momentos hilários, politicamente incorretos se analisados hoje, como a sequência da visita dos sete guerreiros efeminados, ou a ameaça pythoniana dos "quatro demônios deficientes físicos". O ponto alto é o confronto final, com Gordon Liu sem poder utilizar uma das pernas, unindo forças com Wong Yue, contra os adversários. 


Hapkido (He Qi Dao - 1972)
Um dos méritos mais louváveis nesta produção da Golden Harvest, dirigida por Feng Huang, é a autenticidade com que exibe o Hapkido, nenhum movimento é embelezado para ficar mais esteticamente interessante para a câmera. Gosto especialmente do filme por ser protagonizado pela taiwanesa Angela Mao, exalando beleza e poder, combinação irresistível que me fez rever com frequência a obra na adolescência. O ponto alto que ainda me empolga, ver a sua personagem, sozinha, destruir uma classe inteira de estudantes, com sua honra intacta, usando como arma improvisada até mesmo o seu penteado, respeitando o código de que sua habilidade somente seria utilizada para defesa, nunca para o ataque gratuito. Sammo Hung, em início de carreira, já demonstra o carisma e a tremenda habilidade que o transformariam, em pouco tempo, em um dos maiores símbolos de competência no gênero, como ator e diretor. É muito interessante a ideia abordada na trama, com o estilo marcial do título sendo a resposta essencialmente elegante dos coreanos contra a opressão da ocupação dos japoneses, que, obviamente, menosprezam esta arte como tecnicamente inferior, ou, como um dos adversários afirma, "uma brincadeira de criança". E, claro, vale destacar a presença do grande mestre Ji Han-jae logo no início, praticamente palestrando sobre o Hapkido, ajudando a elevar o tom de seriedade e credibilidade do filme. 

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Primeira foto oficial do média-metragem "Sacrifício"


Patrick Modenesi em cena do média-metragem de terror psicológico: "Sacrifício". Em breve, revelarei mais informações sobre o projeto. 

Roteiro/Direção: Octavio Caruso. 

Direção de Fotografia: Sihan Felix.

"A Forma da Água", de Guillermo del Toro


A Forma da Água (The Shape of Water - 2017)
As referências no elegante roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor vão de “King Kong”, “O Monstro da Lagoa Negra” e “A Bela e a Fera”, passando pelo relacionamento amoroso nos quadrinhos entre o Monstro do Pântano e Abby, na fase escrita por Alan Moore, até mesmo “Splash – Uma Sereia em Minha Vida”, o cineasta mexicano confirma em seu novo filme todas as qualidades que já demonstrava desde seu início, na pérola vampírica “Cronos”, de 1993.

Não há intenção de confundir o público, a trilha sonora marcante de Alexandre Desplat evoca a todo momento o tom de fábula, coerente melodicamente à doçura que a trama suscita, não há amargura neste conto ambientado na década de cinquenta, diferente de projetos tonalmente similares como “O Labirinto do Fauno”, ou “A Espinha do Diabo”, apenas a pura expressão do amor entre uma criatura marinha capturada e a jovem muda responsável pela limpeza do laboratório. Mas a beleza da mensagem vai além desta rasa compreensão romântica, “A Forma da Água” é um tratado alegórico sobre a importância de verdadeiramente enxergar o outro, buscar a beleza única de cada indivíduo, conceito cada vez mais esquecido em um mundo moderno tão frio e vazio.

É estabelecida já na montagem dos primeiros minutos a rotina desinteressante da personagem vivida brilhantemente por Sally Hawkins, alguém que se acostumou a ser vista como peça defeituosa e dispensável na engrenagem da vida, apenas uma estatística no quadro de funcionários, ela consegue escutar todos os comentários maldosos, mas não tem voz para revidar. As cicatrizes em seu pescoço, memória traumática da dor, razão de seu silêncio. Seus únicos amigos são almas tão perdidas quanto ela, vulneráveis indivíduos à beira da desistência social, a colega negra que vive um casamento de aparência e um artista homossexual frustrado que tem consciência de que a sociedade nunca o aceitará. Os três não se adequam aos padrões, Elisa (Hawkins) não é símbolo de beleza, Zelda (Octavia Spencer) está bastante acima do peso e sofre na pele diariamente a estupidez racista abrasiva na época, Giles (Richard Jenkins) está com dificuldade de aceitar os sinais do tempo em seu rosto. O antagonismo, representado pelo personagem do sádico agente do governo, vivido por Michael Shannon, abraça sem medo a caricatura, ele é o mal encarnado, a sua podridão interna é visualmente trabalhada nos dedos da mão necrosados, não há qualquer sinal de redenção em seu caminho.

Há um elemento de autocelebração do cinema enquanto linguagem que, apesar de se traduzir em uma sequência onírica belíssima em preto e branco, intensamente emocionante, parece não se encaixar organicamente na trama, alguns podem argumentar que foi uma forçada de barra desnecessária para aumentar as chances da obra nas premiações, mas é uma opção que faz sentido na evolução do cineasta, gesto exultante de gratidão, uma encantadora homenagem à fonte criativa em que ele bebeu no início de sua carreira. A inocência da cena contrasta radicalmente com a crueza do mundo em que os personagens habitam, macrocosmo cinza de crescente pessimismo em que se prefere explorar sem escrúpulos, ao invés de desejar aprender com o desconhecido, o medo subjugando o fascínio.

Ao final da obra, toque brilhante, o símbolo da dor será ressignificado, sinal poderoso de esperança, o diretor oferece uma possível resposta para reverter o caos. Com muita inteligência e sensibilidade, o corajoso roteiro se mostra, acima de tudo, assustadoramente atual. 

TOP - Obras-Primas do Cinema Mundial Que Você Não Deve Ignorar - Parte 2 (para o site norte-americano "Taste of Cinema")


In continuing the gold mining for obscure films around the world, learning about different cultures through their rich artistic expressions, I’ve selected these 10 titles that deserve greater recognition.

1 - A Pál utcai fiúk (aka The Boys of Paul Street – 1969)
Based on the work of the Hungarian writer Ferenc Molnár, this is one of those films that once seen, remains forever in the memory. Do not be alarmed if in dreams, you find yourself struggling on Paul Street alongside your childhood friends. Adapting the most famous Hungarian literary work of all time to filmmaking should not have been easy, but director Zoltán Fábri did this without appealing to exaggerated melodrama or extreme austerity, as would be common in the Hollywood way of dealing with such issues.

The story recounts the battles of humble pre-teenagers in Budapest in 1889, who defend a vacant lot (their playground) from the invasion of a group of wealthy teenagers. The naive confrontation permeated by "sand bombs" ends up leading to the same sad consequences of any war. There is a hierarchy in the army of Paul Street, where the fragile and hardworking soldier Nemecsek tries at all costs to prove his worth before the brave general. From these situations comes a humor that easily takes us back to the complex world of the child, because they do not fight for a few square meters in a wasteland, they fight to gain freedom and for the right to fully exercise their creativity.

As in all wars, there are betrayals and demonstrations of value in the most extreme conditions. Both the book and the film make clear their analogies and real intentions: to show that, contrary to what many people think, childhood is as dense and conflicting as adulthood. "The Boys of Paul Street" is a must-see movie.

2 - A Falta Que Nos Move (aka The Absence That Moves Us – 2009)
Five actors arrive at the house of the director of the film to experience a cinematic experience. They are filmed uninterruptedly, while continuing to follow scripts and scenes. Fiction and reality intertwine in the midst of stories of a generation that has lived adrift and now faces an absence that moves their actions.

The director: Christiane Jatahy. The actors: Pedro Brício, Cristina Amadeo, Dani Fortes, Marina Vianna and Kiko Mascarenhas, realize the dream of every actor, experiencing an incredibly stimulating experience. The best way to watch this unknown brazilian masterpiece is to enter the house together with the actors, without knowing the trick, so I will avoid commenting too much about what happens. The greatest merit of the team was to have built a product that does not lose value as revealed magic, only instigates even more, leading us to try to understand that microcosm perfectly reflects the macro. The shock of realizing that we are all full-time actors, following through the acceptance of our frailties and frustrations, learning to deal with the inexorable approach of the end. We are part of an experience, regardless of whether we make it pleasurable or full of self-pity, we choose routes as the boundaries of the road are revealed to us.

3 - Kahaani (same in english) – 2012
A young woman went from London to India, pregnant, to look for her missing husband. The disappearance case is increasingly complex, and the entry of government agents into their resolution shows that there is much to unravel in this story. Surprising plot full of twists, directed by the Indian Sujoy Ghosh, perfect to show those people who nurture prejudice with movies that are not mainstream.

4 - Privilege (1967)
Steven Shorter (Paul Jones) is the greatest British music star. Heard from everyone, from teenagers to old people, everyone in England loves him, until his producers and entrepreneurs begin to use his popularity for various economic projects. As Steven loses his individuality by turning into a product, his icon position becomes useful to the more conservative sections of UK society. The Church and the State begin to use it to combat atheism and communism, making it an instrument of religious fundamentalism and fascist nationalism.

Using the aesthetic of a documentary that coldly analyzes a successful marketing case, English director Peter Watkins (after the excellent documentary "The War Game", 1965) elaborates along with the creator of the story: Johnny Speight (who signs the screenplay with Norman Bogner), a prophetic allegory set in the not-too-distant future, about a young singer who loses his identity in exchange for an opinion-former status. The propaganda machine uses it as a way to keep British teenagers from alienating them, channeling and spreading their revolt into sadistic presentations, but remaining ignorant of the political course of their country. Steven is handcuffed and caged in front of his fans, who roar wildly and cry out for their freedom. A circus of horror that brings us to the current scandals involving the popular stars of the entertainment world. Those who enjoyed "The Truman Show" (by Peter Weir) will find safe haven in this play. Writer Andrew Niccol probably must have been inspired by Steve to comprise the protagonist lived by Jim Carrey (even in the feminine influence in the third act, essential for the change in the attitude of the protagonist).

There are many moments of genius, but I particularly find the speech of the Rev. Jeremy Tate (Malcolm Rogers) brilliant, emulating the mannerisms of Hitler, where he calls on his followers to conform. The image of the young man would have to be shaped (due to mercantile interests) from a rebel to an honorable Christian, so his producers organize an event on an Olympic scale, to reinsert him transformed into society. The off-screen narration tells us that while Steve ends the event with a song that incites something transcendental, wheelchairs have been given to many sick citizens so that the illusion of the miracle can take place. As he spread his hands, the false paralytics rise and the commotion worsens, but the young man's face could not express greater discouragement. He moves in choreography, even his simplest gestures are coordinated. Just a closer look at modern media phenomena, to realize that this future imagined allegorically in the film came to fruition. At some point in a meeting with the high dome that produces the young, a stylist presents in a formal way the style that will be adopted in a few weeks by the young British. The media manipulation continues even after Shorter leaves the scene, because they continue to use their archive images, only remove the sound. The product is still on sale because there is a buying public.

It is no wonder that this film was boycotted in its day (the media claimed that the work was immoral, debauched of the church and defied the authorities, encouraging juvenile delinquency) and that even today it is practically unknown, even among the cinephiles.

5 - 7 Cajas (aka 7 Boxes - 2012)
As I always say, cinema needs only good ideas. The low budget, the absence of a national industry, nothing is excuse for the lack of creativity. And it is precisely this lesson that the Paraguayan writers and directors Juan Carlos Maneglia and Tana Schembori deliver with this thriller, which brings references ranging from the German "Run, Lola, Run" to Danny Boyle's camera work, composing an authentic portrait of poverty of characters who are the organs responsible for the chaotic life of a popular market in Asunción.

The protagonist, lived competently by the young Celso Franco, dreams of escapism transmitted by television entertainment, tool shown as efficient builder of desires. He was only interested in acquiring a cellphone because of the filming feature. When faced with his own projected image on those magical canvases, a leitmotiv that repeats itself with variations a few times during the film, the poor boy finds some hope in that momentary and illusive existence, a possibility of escaping from his sad everyday life. To get the money he needs to buy the cell phone, he accepts an enigmatic service proposal: quickly transport seven sealed boxes of wood, unknown content, to a destination he will only discover on the way. The less you know about the plot, the better the experience. As a negative point in the script, but forgivable in the context of the work, an excessive use of coincidences. For example: an unnecessary scene that is inserted in the first act only as a way of showing that an officer X flirts with a character, only so that in the second act this same policeman, among the several that could be present in the place, served as a facilitator in the resolution of a narrative conflict.

Although the project surprises in the quality of the suspense that establishes, what really elevates it to a higher level when compared to similar ones is the perfect use of the dynamism in the mission of the boy in the classic style of the American action films, with the inclusion of several elements with conflicting interests and cameras that traverse beneath tables in exciting pursuits like a "Hitchcockian" McGuffin, while the true moral tale involves the subplot of a pregnant young woman who is about to give birth. The same woman who is established in the first few minutes as someone who desperately tries to sell the cell phone that becomes the object of desire of the protagonist. The outcome of the narrative arc of the woman will contrast sharply with that of the boy, making clear the intention of the script, a message much more perennial than any convention of its kind. We can be fascinated by the cameras that follow, in POV, the wheelbarrows of the wheelbarrows in action-plans that do not leave anything to be done for those already established industries, also merit of the photographer Richard Careaga, but it is the silent attitudes that will remain in the minds of the public, several hours after the session.

6 - Utvandrarna (aka The Emigrants – 1971)
A simple and powerful story set in the nineteenth century, the journey of a poor Swedish family who decides to emigrate to America, leaving behind a people controlled by religious hypocrisy. The script, adapted from the four novels of Vilhelm Moberg, avoids the traditional structure based on narrative arches, demands the patience of the spectator, makes magnificent use of silence, but the reward is immediate.

The couple Kristina and Karl Oskar, impeccable Liv Ullmann and Max von Sydow, face a long and devastating sea voyage, high point of "The Emigrants", the real possibility of death prowling every new morning, lice infestation, hunger, despair and depression , the hope symbolized by the new world being destroyed by the realization that they will not be received with open arms, there is no sense of fraternal community in this land of opportunity worked without the mythical vision usually sold by Hollywood. The most interesting aspect, the way the characters project a paradisiacal image of America, seeking a kind of redemption for their lives, until they are surprised by the reality clash. The challenge for the survivors was just beginning. Ulrika, played by jazz singer Monica Zetterlund, is humiliated by being called a prostitute, the cause of the infestation, but she proves that she is not to blame. some already accustomed to being slandered by those who consider themselves superior. In metaphor, Kristina, with the mentality limited by the dogmas of her traditions, is carrying to the new reality the lower prejudices, practicing the judgment inadvisable by Jesus and encouraged by the dignitaries who speak in his name, infecting the expectations of a new beginning.

7 - 35 Rhums (aka 35 Shots of Rum - 2008)
The widow Lionel (Alex Descas) lives in a housing complex with his daughter, Josephine (Mati Diop), with whom he has strong ties to have raised her alone. While Lionel attracts the attention of a middle-aged woman, a taxi driver who begins to walk around the neighborhood engages with Josephine and they begin to leave. When Josephine's boyfriend accepts a job abroad and moves in, leaving the girl alone, Lionel realizes that the daughter is becoming independent and that it may be time for them to confront their past. The greatest film of the french director Claire Denis. Beautiful homage to the work of Yasujiro Ozu.

8 - Os Verdes Anos (aka The Green Years – 1963)
Portuguese filmmaker Paulo Rocha died at the age of seventy-seven on December 29, 2012, after a stroke. Leaving behind a stable career as a lawyer, the young man preferred to follow his dream and absorb the art of the French, especially Jean Renoir, of whom he was assistant, returning to his country willing to redefine the cinema that was made there. In previous decades, the Portuguese people embraced the simple humor of Vasco Santana's comedies, while more pretentious, almost always medium-length films such as "Saltimbancos", which Manuel Guimarães launched in 1951, failed to establish a connection with his audience. In the early sixties, influenced by Italian neo-realism and the French nouvelle vague, directors such as Fernando Lopes, of the mid-length film "Belarmino", José Ernesto de Sousa, "Dom Roberto" and Paulo Rocha, opened new possibilities for the Portuguese cinema.

Taking his cameras to the streets of Lisbon, without fear of exposing the social contrasts, he filmed his first work: "The Greens Years", simply telling the relationship between a young man (Rui Gomes) naive newcomer from the interior and a Maid (Isabel Ruth) of the Big City. The script, in a short time, efficiently establishes the essence of each character. The unsure boy who defends himself by saying, "A man without money is like a car without gas," or who is intimidated in the dance hall to the sound of a rockabilly. The dazzled girl who parades for him, wearing the various dresses of his mistress. Except for an American of a fight with his uncle (Paulo Renato) in a bar, the boy walks the streets accompanied by his new friend, without either of them understanding what is being said by the other, the American states at one point: "I do not understand a word he says, but I am inclined to agree," brilliantly translating the boy's conflict with the hypocrisy of the city and its people in a humorous and still current criticism. In the end, as in one of the variations of Chico Buarque's song "Construction", the symbolic death of his naive and interior youth, caused by an untimely and inconsequential decision, ended up disturbing the traffic.

The theme and the conduction may have aged in a less generous way, but its soundtrack, composed by the great and longed guitarist Carlos Paredes, who responded to the invitation of the director and identified with the theme, resists bravely, thrilling as always.

9 - Az Prijde Kocour (aka The Cassandra Cat – 1963)
A Czech lyrical children's fable with a strong behavioral criticism, this movie received the jury's special award in Cannes. The plot is simple and brilliant. A village, microcosm for our society, receives the visit of a magician, a beautiful young woman and her cat with sunglasses. With special powers, the feline sees humans with different colors, according to their character and their feelings, for example, a pair of intense red-colored boyfriends, hypocrites and liars in purple, resulting in a vibrant color show that guarantee the film a truly unique aesthetic, an antirealist tone where the characters dance without music, a pleasant lucid dream. It is interesting to note that the professional illusionists of the circus troupe act precisely by removing the illusion / falseness veil that moves the characters, which obviously does not make them unanimous in popularity in the place, since the mere glimpse of the cat incites the terror of those who, even by profession, must defend lies.

The most beautiful scene is when Diana, lived by the charming Emília Vášáryová, removes the glasses of the cat in a nocturnal spectacle of magic, presenting to the public, for the first time, this peculiarity of the animal. Even without knowing the meaning of the different colors, much of the population despairs and runs to escape the reach of the little eyes. Pure children, untouched by adult hypocrisy, do not bother with this phenomenon, as do passionate redheads, engrossed in their romantic hopes. While adults hunt the cat, symbol of the fall of their social masks, children protect the pet in every way. One of the most beautiful allegories in the history of cinema, which never slips into pamphlet moralism, stimulating a deep humanist reflection.

10 - Amerikanskaya Doch (aka American Daughter – 1995)
Abandoned by the woman who decides to live with a wealthy American in the country of Uncle Sam, a Russian musician goes to meet him, ten years later, in order to reestablish ties with his pre-adolescent daughter.

Some foreign texts criticize, for example, how little the girl is too smart for her age, a great nonsense, only very insensitive professionals are unable to see that the proposal of the work is to be like a comic fable, there is no trace of realism in approach, pity, the outcome delivers a child riding a helicopter! The director Karen Shakhnazarov is very versatile, he purposefully drinks from the source of American melodramas, betting on ordinary comic narrative solutions in these works, without any touch of cynicism, the tone is a reverence. At the time of production, after the fall of the Soviet Union, the relationship between the two nations began to show signs of life, the American daughter, lived by the adorable Allison Whitbeck, who, it is worth noting, carries the project on the back with impressive charisma, representing the sincere intention of union. There is a wonderful moment that represents well this leitmotiv, the father, lived by Vladimir Mashkov, after escaping with his daughter, relaxes in a bar in the United States singing in Russian, happy customers, genuinely interested in the art of the stranger. Those people do not know the song, they do not even understand the lyrics, but they enjoy the melody. Upon seeing a beautiful waitress, he, emulating Elvis Presley, sings "Love me Tender" in English, putting affection on every word, the mood in the environment is one of love and respect.

The scene shows that the union between different cultures is always the best way, the fascination in trying to understand the other, instead of feeding the fear of the unknown, less walls, more bridges.

* Link para a postagem original no "Taste of Cinema": 

Guilty Pleasures - "Cyborg - O Dragão do Futuro"


Cyborg - O Dragão do Futuro (Cyborg - 1989)
Teve uma fase na minha adolescência em que eu fiquei viciado nos filmes do Van Damme, toda visita à videolocadora era garantia de voltar com pelo menos um de seus trabalhos. E me recordo de um papo descontraído com um atendente mais velho, já na casa dos cinquenta anos, que recomendava fortemente este "Cyborg" como sendo o seu favorito. A versão em VHS dele tinha a fotografia tão escura, que eu sequer compreendi a trama, logo, achei curiosa esta predileção. Anos mais tarde, quando revi em DVD, consegui enxergar tudo, especialmente os seus problemas, mas fiquei fascinado pela produção conturbada.

O picareta estúdio Cannon preparava "Mestres do Universo 2" e a aguardada versão live action de "Homem-Aranha", na época em que lugar de super-herói era mofando na prateleira das videolocadoras. O diretor Albert Pyun, presença marcante neste blog, estava condenado a comandar estas potenciais bombas, mas o orçamento apertou, a Mattel (responsável pelos bonecos do He-Man) e a Marvel (editora do aracnídeo) pisaram no freio e desistiram das empreitadas cinematográficas. O estúdio já tinha torrado uma grana alta na pré-produção e tiveram a brilhante ideia de utilizar todo o material que estava pronto, como figurino, armas, cenários, em um novo roteiro, protagonizado pelo rapaz belga que havia enchido os cofres do estúdio no ano anterior com "O Grande Dragão Branco". Levando em consideração tudo isto, sem exagero, Pyun conseguiu operar um pequeno milagre, já que "Cyborg - O Dragão do Futuro" é, apesar de tudo, uma boa aventura sci-fi pós-apocalíptica. A utilização do silêncio, provavelmente preguiça do diretor que escreveu o roteiro às pressas, acaba sendo elemento positivo, ajudando na construção do clima verdadeiramente sombrio e pesado. As sequências de luta são bem coreografadas, nada espetacular, mas eficientes, com generosa utilização do recurso da câmera lenta. Como curiosidade, um dos capangas do vilão, vivido por Jackson Pinckney, ficou cego de um olho após ser atingido por acidente com uma faca em um confronto com Van Damme. O ator chegou a ser processado, mas a cena fatídica ficou no corte final, já que o dinheiro era curto demais para refazer a tomada.

Pouco tempo depois da estreia o estúdio decretou falência, o que nunca é um bom sinal. Mas, por algum estranho motivo, gosto de rever este adorável desperdício de celuloide.

Chumbo Quente - "A Pistola do Mal", de Jerry Thorpe


A Pistola do Mal (Day of The Evil Gun - 1968)
Lorn Warfield  (Glenn Ford) regressa a casa após ter criado, durante três anos, a reputação de grande pistoleiro. Encontra o seu rancho em ruínas e descobre que a mulher e as filhas foram levadas pelos índios apache. Por intermédio de um velho e aparentemente louco comerciante, que em tempos negociou com os índios, consegue uma pista e uma esperança de encontrar a família com vida. Na companhia do experiente Owen Forbes (Arthur Kennedy), ele sai à procura dos sequestradores. 

O faroeste norte-americano já estava em declínio no ano em que "A Pistola do Mal" foi lançado, os europeus revigoravam o gênero, enquanto em Hollywood o mito clássico do vaqueiro heroico dava lugar à questões psicologicamente mais desafiadoras e uma aura sombria e moralmente desoladora, apenas o cenário parecia o mesmo. Com direção do veterano televisivo Jerry Thorpe, visivelmente desconfortável com as convenções do estilo, o roteiro/argumento de Charles Marquis Warren trabalha a dupla de protagonistas de forma tão humana e crível, que podemos relevar o fato de que se inspira sobremaneira na trama de "Rastros de Ódio", com direito a um coadjuvante, vivido pelo competente Dean Jagger, que é uma cópia do personagem vivido na obra de John Ford por Hank Worden. Apesar do ritmo ser irregular, destaco pelo menos uma grande sequência, a perseguição dos índios a cavalo, com os dois pistoleiros suando para manter suas armas e acompanhar o raciocínio estratégico daqueles considerados por eles como inferiores, selvagens, situação que destaca um tímido viés revisionista, infelizmente abandonado no anticlimático desfecho. O resultado é acima da média, eu coloco entre meus cinco faroestes favoritos protagonizados por Glenn Ford, abaixo apenas de "Galante e Sanguinário", "Gatilho Relâmpago" e "Cimarron". 


* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora "Classicline".

"Meanwhile", de Hal Hartley


Meanwhile (2011)
Dentre todos os jovens diretores independentes que foram impulsionados pelo reconhecimento no Festival de Sundance no início da década de noventa, nomes como Quentin Tarantino, Steven Soderbergh, Tom DiCillo, Anthony Drazan, Richard Linklater, Alexandre Rockwell, Todd Haynes, Gregg Araki, Allison Anders e Maggie Greenwald, não há criador mais curioso que Hal Hartley. Alguns de seus colegas moldaram seus estilos ao longo do tempo na direção de algo mais facilmente palatável para o público mainstream, decisão comercialmente inteligente, porém, moralmente semelhante ao literário pacto faustiano. Os chamados “filmes indie” populares hoje são, em grande parte, projetos que seguem uma cartilha estético-narrativa limitada, uma espécie de fábrica de cosplays de cineastas marginalizados que, por trás da fachada produzida, escondem os fios dos titereiros engravatados.

Hartley é o que a garotada hoje em dia chamaria de “indie de raiz”, tudo nele é genuíno. Com baixíssimo orçamento e apenas onze dias de filmagens ele firmou seus pés no delicioso “The Unbelievable Truth”, evoluiu o conceito em “Trust” e “Simple Men”, explorou os limites no excelente “Amateur”, alcançou maturidade em “Henry Fool” e, quando a regra do jogo dizia que havia chegado o momento de lucrar com sua imagem, abraçar o sistema e, de certa forma, aceitar ser domesticado criativamente pela indústria, o nova-iorquino atacou com sua obra tematicamente mais corajosa: “No Such Thing”. Esta conduta artisticamente íntegra se mantém clara em seus trabalhos recentes. Audacioso, ele financiou com a ajuda dos fãs em uma campanha no Kickstarter, “Meanwhile”, talvez seu esforço audiovisual mais radical, filmado com uma Canon 5D DSLR e idealizado para a tela pequena. Ao contrário dos anteriores, que essencialmente lidavam com a subversão de convenções de variados gêneros, desta feita ele estabelece linguagem própria, inserindo uma generosa dose de inspiração autobiográfica na figura do renomado escritor vivido por Stephen Ellis, que se encontra com o protagonista, o esforçado e azarado Joe (D.J. Mendel), em um bar de Manhattan para discutir as dificuldades de se lutar por um lugar ao sol na selva de pedra. O personagem, inspirado pelo Leopold Bloom, do “Ulisses” de James Joyce, simboliza a natureza múltipla e complexa do ser humano, as suas várias facetas são destrinchadas na estrutura narrativa em capítulos numerados.

Acompanhamos o desencantado homem de meia-idade em sua complicada jornada até o escritório da produtora “Possible Films”, esperto exercício metalinguístico, na tentativa de vender sua história e garantir mais algum tempo de sobrevivência financeira na área. Com sua conta bancária congelada por atraso no pagamento dos impostos, ele se agarra a alguns trocados e realiza todo tipo de bico, cruzando no caminho com figuras tão angustiadas quanto ele, como a melancólica mulher (Chelsea Crowe) que deseja pular de uma ponte para a morte certa, ou a jovem (Kanstance Frakes) que desabafa seus problemas perceptivelmente fragilizada e emoldurada pela melosa trilha sonora propositalmente manipuladora, bruscamente interrompida pela frieza de seu interlocutor que a abandona no meio do discurso sem cerimônia alguma. Há no ar uma opressiva sensação de desamparo, do triste rapaz esmolando na calçada com uma placa informando sua qualificação para trabalhar, passando pelo ilusório conforto profissional do irmão caçula (Scott Shepherd) de Joe, executivo preso em uma rotina que já não representa nada em sua vida, até uma amargurada ex-namorada (Christine Holt) que não conseguiu superar o fato de que foi trocada por uma garota muito mais jovem, parece que a sociedade cria regras com a intenção de desumanizar os indivíduos e conscientemente apressar uma suicida corrida rumo à extinção, como a freudiana pulsão de morte que estimula as diversas teorias de fim do mundo que pululam na mídia com incrível frequência.

Quando é questionado no bar sobre a razão que o leva a buscar diferentes atividades, ele defende inteligentemente que é mais difícil abater um alvo em movimento. O ato de evitar se focar em apenas uma linha de atuação, leitmotiv da obra, potencializa o contexto apocalíptico de extrema injustiça em que poucos privilegiados alcançam facilmente e, muitas das vezes, sem talento, os seus objetivos, restando as sobras para serem disputadas pela multidão de comuns. É quando o autor, alter ego do diretor, surpreende Joe ao afirmar que o sucesso afasta os riscos, elemento fundamental na equação desafiadora que todo artista deve se empenhar em resolver. A felicidade, apesar de ser difícil de acreditar, está exatamente no conflito, repousando entre espasmos de angústia. 


* Texto escrito para o catálogo da Mostra "O Cinema de Hal Hartley", com a curadoria de Leonardo Luiz Ferreira, que foi apresentada de 23 de janeiro a 04 de fevereiro de 2018, na CAIXA Cultural (RJ). 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Ciclo de Clássicos das Artes Marciais - "O Voo do Dragão" e "A Vingança do Dragão"


O Voo do Dragão (Meng Long Guo Jiang - 1972)
Único filme roteirizado e dirigido por Bruce Lee, produzido pelos estúdios Golden Harvest e por sua própria Concord, fundada com Raymond Chow no ano anterior. É curioso perceber que ele dedicou os primeiros vinte minutos à sua faceta menos reconhecível, da chegada do personagem em Roma, até o seu primeiro encontro com os funcionários do restaurante do tio que pedem sua ajuda contra os mafiosos liderados pelo hilário efeminado vivido por Ngai Ping-ngo, o roteiro se resume a sequências episódicas de humor, quase todas sem diálogos, opção eficiente e corajosa, com direito a momentos encantadoramente constrangedores, o lado humano e frágil do astro que seria imortalizado pela figura mítica do guerreiro indestrutível. É uma pena que Lee não tenha tido tempo para evoluir como roteirista/diretor, este primeiro trabalho comprova que seu talento não se resumia à eficácia impressionante de sua técnica marcial, ou seu carisma matador, o jovem tinha estofo cultural/filosófico, consciência cênica e um senso de humor muito espirituoso. O grande momento, a luta final contra Chuck Norris no Coliseu, não é reconhecida como o melhor momento do gênero no cinema à toa, tudo nela é épico e simbologicamente profundo. A execução da cena foi complicada, porque eles não tinham permissão para filmagem no local, eles precisaram de três longos dias para completar a sequência, a equipe recebia ameaças constantes, mas ninguém se atreveu a desafiar o chefe. O que me emociona mais no filme é a forma respeitosa com que o protagonista dedica segundos preciosos para honrar o inimigo abatido, algo que diz muito sobre o caráter de Bruce Lee. Em qualquer filme do gênero, o vilão é arremessado no moedor de carne mais próximo, mas o jovem dragão faz questão de pegar o kimono dele no chão, voltar até o corpo e depositar o manto sobre ele com uma oração silenciosa. A honra do artista marcial nunca foi tão bem demonstrada no cinema.


A Vingança do Dragão (Xiao Quan Guai Zhao - 1979)
A trama não traz surpresas, um jovem do interior treina com seu avô (James Tien), um grande mestre, o segredo do tradicional Kung-Fu. Contra a vontade do mestre ele passa a lutar por dinheiro, para ajudar em casa. Até que um velho inimigo (Yam Sai-kwoon), líder de uma facção criminosa, mata o avô e faz crescer no jovem o desejo de vingança, em suma, a mesma história de quase todos os filmes do gênero. A beleza da obra não reside neste ponto. Em seu primeiro trabalho como diretor, com total controle criativo, Jackie Chan demonstra a razão que o fez se destacar, dentre tantos imitadores de Bruce Lee que a indústria asiática produziu no período, como o único elemento puramente original. As suas influências estão presentes, Buster Keaton e Os Três Patetas, o produtor Lo Wei sabiamente deu carta branca para que o jovem testasse todas as possibilidades, inclusive correndo riscos. Jackie exibe várias facetas de sua arte, timing cômico preciso, pastelão infantil, coreografias plasticamente bonitas, ou puramente agressivas, sobrando espaço para sequências hilárias como aquela em que ele se disfarça de mulher para enfrentar seu adversário, ou quando disputa com seu mestre a posse de um simples pedaço de carne em seu hashi. O combate final é fantástico, com Jackie utilizando o "Kung-Fu emocional", criado por ele, que utiliza variações como alegria, dor, tristeza e euforia, para confundir o inimigo e impedir que seus golpes sejam previsíveis. Apesar de ser mais lembrado por "The Drunken Master", ou "Snake in The Eagle's Shadow", ambos de 1978, eu considero que "The Fearless Hyena" (A Vingança do Dragão) é o seu melhor momento da fase inicial de carreira, quando estava no auge da forma física e com sangue nos olhos para firmar seu nome no panteão das artes marciais.