Sétima Arte em Cenas – “Último Tango em Paris”


Último Tango em Paris (Last Tango in Paris – 1972)
Muita gente se lembra dele por causa de suas cenas de sexo,
alguns chegam a classificá-lo erroneamente como um filme erótico e até
pornográfico. Quem assiste procurando satisfazer estas necessidades irá
terminar frustrado, pois a obra de Bernardo Bertolucci é um estudo psicológico
sobre a mortalidade, a necessidade humana de se apegar a crenças e o
relacionamento.
A esposa do personagem de Marlon Brando acabou de se
suicidar, deixando-o completamente desorientado e amargurado. Subitamente sua
vida parece ter perdido o sentido, ele passa a rondar pelas ruas frias de Paris
procurando se isolar do mundo. A personagem de Maria Schneider também ronda a
cidade, procurando um sentido em sua existência. Seu noivo, vivido por
Jean-Pierre Léaud (eterno “Antoine Doinel”, de Truffaut), um narcisista fútil
que representa um mundo politicamente correto. Num toque de gênio, o roteiro
torna-o um cineasta que persegue sua noiva pela cidade, acompanhado de suas
câmeras, como se a filmasse para um projeto que está preparando. Vejo isso como
um simbolismo perfeito. Todos os beijos do casal são pensados para o melhor
posicionamento da câmera, assim como todos os diálogos e declarações de amor se
mostram calculados, artificiais. Com o casal Jean-Pierre e Maria, Bertolucci
quis representar o falso amor, aquele que é propagado aos quatro ventos, mas
não é sentido em sua essência. Sentimento de “fachada”, onde ambos posam para o
deleite da sociedade.
Brando e Maria representam o outro extremo de um
relacionamento, aquele no qual ambos procuram formas de se completarem. As tão
faladas cenas de sexo, em especial a que se utiliza da manteiga, existem por um
motivo. A intenção não é somente chocar o público, mas sim encaminhá-lo para
uma catarse emocional que acontece próximo do desfecho. Nessa relação não
existe amor. Brando insiste em não revelar seus nomes um ao outro, nem mesmo
suas histórias de vida. O sexo entre eles é um ritual de purificação
espiritual, onde caminham a passos rápidos em direção ao inferno, para só então
vislumbrarem um tipo de céu. Isso fica claro no terceiro ato, quando sua
relação intensifica e ambos flertam com radicalismos. Paul busca encontrar
naquela desconhecida a negação de qualquer sentimento, qualquer noção de
moralidade, expondo a falsa pudicícia da jovem. Jeanne deixa claro ao final,
quando encara a realidade de um questionamento externo sobre seus atos, sua regressão
psicológica ao confortável estado de vítima (“eu não o conheço, ele me
estuprou…”), algo essencial para que ela consiga se “domar” e aceitar o
ritual do casamento com seu noivo.
Minha cena favorita no filme ocorre num salão de dança,
quando um Paul totalmente vulnerável convida a desconfortável jovem, com quem
por semanas havia mantido uma relação tórrida (agora, incrivelmente sem “química”), para um trôpego tango. Sem
o elemento do mistério, ela já percebe em seu parceiro bêbado sua calvície, as
rugas nos olhos e os quilos a mais. É uma situação essencialmente trágica, como
todo tango deve emoldurar. Os competidores e seus passos perfeitamente calculados
são a hipócrita sociedade, enquanto Paul e Jeanne debocham descaradamente de
todo aquele ritual, conduzindo os jurados ao pânico.

Bertolucci utiliza os encontros do casal no velho
apartamento vazio como uma analogia ao processo de desmistificação do amor.
Trazendo-o para seus elementos mais primários e bestiais, desvincula-o de todos
os tabus referentes à idolatria, orgulho e religiosidade. Um filme denso e
imperfeito como a vida. Você pode encará-la ou virar o rosto em repúdio, mas
nunca negar sua pungente existência.

Professores, os Heróis da Vida Real

A questão veio à tona eficientemente em “Kick-Ass”,
aclamada minissérie em quadrinhos de Mark Millar (depois transposta ao cinema),
onde um jovem se questiona a razão de tantas adolescentes sonharem em ser Paris
Hilton e ninguém almejar ser o “Homem-Aranha”. Por trás de uma ideia
aparentemente superficial esconde-se um conceito incrivelmente rico, expondo
uma enorme lacuna em uma sociedade cada vez mais violenta e fria. Existe espaço
na vida real para heróis como o advogado Atticus Finch, vivido por Gregory Peck
no clássico “O Sol é para Todos” (To Kill a Mockingbird – 1962)? Pessoas que se
coloquem na linha de frente para defender desconhecidos, simplesmente por
acharem justo e ético? Podem existir homens como Rick Blaine, eternizado por
Humphrey Bogart em “Casablanca”, que são altruísticos ao ponto de deixarem a
mulher que amam partir com outro, apenas para protegê-la? Deixarem a amargura
de lado por algo maior, colocando suas próprias vidas em risco? Os
verdadeiros heróis decidem lutar até o fim, mesmo reconhecendo as próprias
limitações, como o pugilista Rocky Balboa. Ao final da luta, não interessava se ele havia se sagrado vencedor, empatado ou perdido, pois a maior
vitória ele já havia conquistado: a confiança em si mesmo e o amor da mulher de
sua vida. 
Na nossa sociedade corrupta devem existir policiais como Harry
Callahan, também conhecido como “Dirty Harry” (Clint Eastwood)? Homens que
aceitam direitos humanos para humanos direitos e não tem piedade para com os
marginais e maus-caracteres que assolam a cidade. Harry pode ser radical em
suas ideias, mas seus métodos funcionariam fora do cinema? Existem policiais
tão incorruptíveis? Ou somente um “Robocop” seria capaz de tanta bravura, já
que sua parcela humana (falível) não é mais dominante que sua parte máquina? A
grande realidade é que existem oficiais da justiça como Will Kane, de “Matar ou
Morrer” (High Noon – 1952), dispostos a enfrentar seu algoz cara a cara, mas, assim como no filme, o xerife vivido por Gary Cooper procura a ajuda de todas
as pessoas da cidade e só encontra desprezo e medrosas negações, os nossos
heróis reais descobrem-se sozinhos em meio a um ninho de cobras, fadados a um
duelo brutal sem aplausos ao fim, recebendo como prêmio um vergonhoso salário
mensal. A vida imita a arte e a arte imita a vida.
Como faz falta em Brasília um homem como Jefferson Smith. O
personagem de James Stewart em “A Mulher faz o Homem” (Mr. Smith goes to
Washington – 1939) é um inocente interiorano que vai para a cidade grande com
sonhos de mudar a sociedade para melhor atuando como senador. Aos poucos, vai
percebendo o mar de lama em que se enfiou e vê todas as suas crenças na bondade
humana serem destruídas impiedosamente ao constatar o caráter asqueroso dos
políticos de seu país. No filme, sua convicção ferrenha e seu suor o fazem
vencer a podridão, mas se o personagem viesse tentar a sorte em Brasília ele
provavelmente cometeria suicídio em pouco tempo, pois a cada dia que passa nossa classe política nos deixa mais envergonhados, não se distingue mais o fundo do poço. O nosso mundo precisa de heróis imediatamente, precisamos de
um símbolo que inspire medo nos bandidos (como “Batman”), alguém de valores
íntegros e digno em quem contar (como “Superman”) ou até mesmo alguém como em
“Kick-Ass”, que corajosamente diga: “Não posso voar, não enxergo através das
paredes, mas eu posso quebrar-me todo tentando salvar tua pele!” Talvez seja
por isto que esteja ocorrendo esta febre de filmes com super-heróis: Somos nós
(a sociedade) pedindo socorro e aguardando uma resposta.
Mas, espere um momento, caro leitor, querida leitora. Nós esbarramos em heróis
diariamente, mas não damos a eles o valor merecido. Como disse logo no início,
o heroísmo nasce do desejo do ser humano em disciplinar seu instinto
violento (natural) para o bem. Os professores possuem esse poder, inspirando
seus alunos e estabelecendo alicerces firmes para a sociedade no futuro.
Infelizmente no nosso país ser educador é uma das profissões mais ingratas e
mal remuneradas que existem. A importância da passagem de um professor na vida
de um aluno é tida como algo arduamente suportável, um mal necessário. O jovem
metido a esperto questiona o que teria de útil a passar aquela figura que acorda cedo todas as manhãs, suportando todas as agruras e
deselegâncias com o intuito de realizar seu dom, dos mais nobres, ensinar algo
a pessoas que mal conhece. Na vida real, poucos são os jovens
que se recordam de seus instrutores, mas no mundo do cinema a justiça é feita e
esta linda profissão recebe o valor que merece. 
No final da década de sessenta,
o mundo estava em ebulição e Hollywood aproveitou o momento para contar a linda
história de um engenheiro desempregado e negro (quando o racismo estava em seu
auge na América) que aceita uma vaga como professor em uma escola jogada às
traças, com alunos desordeiros e violentos. A sua turma intenciona destruí-lo,
como fizeram com seu predecessor, enfraquecendo seu espírito e pondo em dúvida
seus ideais. Mas eles não estavam preparados para a firmeza de caráter e a força
motivacional dele, já acostumado com a hostilidade e os preconceitos que sofria
diariamente. Ao tratar seus alunos como adultos e demonstrar respeito por
eles, aos poucos, consegue ganhar a admiração dos mesmos, o que culmina em um
tocante final onde os jovens demonstrarão a importância da passagem do mestre
em suas vidas com uma linda canção, que todos apresentam na formatura (“Aqueles
dias de estudante, de roer as unhas e contar mentiras se foram, porém em minha
mente sei que sempre sobreviverão. Mas como agradecer alguém que te fez crescer
como pessoa. O tempo chegou, de fechar os livros, mas enquanto eu viver, eu
saberei que deixei para trás meu melhor amigo, um que me mostrou o que era
certo e errado, me fez discernir os fracos dos fortes. Ao mestre, com carinho”). “Ao
Mestre, com Carinho” (To Sir, With Love – 1967) emociona públicos de todas
as idades até hoje, com uma interpretação plena em dignidade do grande Sidney
Poitier, que ficaria para sempre marcado por este personagem. A obra foi
pioneira e transformou-se em uma espécie de subgênero dramático com o passar dos anos. 
Em “Sociedade
dos Poetas Mortos” (Dead Poets Society – 1989), um professor de poesia pouco
ortodoxo se vê tendo que ensinar jovens cuja orientação da escola era respeitar
a tradição, a honra, disciplina e excelência. O personagem vivido por Robin
Williams sabe que esses valores são a antítese do que é o real aprendizado,
sempre em progresso, moldando-se.  Ele inspira seus alunos a perseguir
suas paixões individuais, tornando-se pensadores livres, condicionados apenas
ao aprimoramento constante e o eterno questionamento, aproveitando as
suas vidas ao máximo, como no seu lema: “Carpe Diem”. Outro filme que conta uma
linda e inspiradora história de perseverança é “Mr. Holland – Adorável
Professor” (Mr. Holland Opus – 1995). A vida do músico vivido por Richard
Dreyfuss, que começa a lecionar para conseguir juntar dinheiro e compor uma
sinfonia, descobrindo que a cada ano está mais distante da realização de seu
sonho principal, emociona como poucas obras no gênero. Na obra de Stephen Herek
fica latente a influência que um ser humano causa na vida de outras pessoas,
por mais ínfima que seja a intenção por trás de pequenos gestos. Educação não é
somente tirar notas altas e lotar cadernos, trata-se de formar e transformar
seres humanos, realçar valores e ideais, construir e fortificar caracteres. 
Na
obra “Gênio Indomável” (Good Will Hunting – 1997), outra faceta do
tema é abordada: O que é a real inteligência? O personagem vivido por Matt
Damon é um jovem rebelde que trabalha como servente em uma universidade, por
determinação legal, após algumas passagens pela polícia. Quando o professor de
matemática desafia os seus alunos a resolverem um teorema complicadíssimo, o
jovem sem nenhuma pretensão, quase que inconscientemente consegue elucidar a
questão. A sua alma somente encontra o equilíbrio após encontrar-se com seu
analista, que com o tempo vai ganhando seu respeito e admiração. Uma cena de
inexplicável beleza e contundência resume o poder da obra: Em uma das sessões
de análise, o jovem, em seu auge de rebeldia e deboche, começa a trazer à tona
toda a angústia e amargura que carregava, enquanto o professor segue apenas
dizendo: “não é sua culpa”, várias vezes e em tom baixo, confortador. Em poucos
minutos o jovem está abraçado a ele, chorando copiosamente e grato, pois o
analista havia merecido seu respeito e provou ser seu amigo. Finalizando, não
posso me esquecer da professora (vivida por Anne Bancroft) da jovem Helen
Keller, no belíssimo “O Milagre de Anne Sullivan” (The Miracle Worker – 1962),
que busca incessantemente mostrar as belezas do mundo a uma menina cega e
surda. Com muita persistência, ela consegue retirar Helen de uma realidade
solitária e depressiva, levando-a a adaptar-se ao mundo, fazendo-a conseguir se
expressar. Foi preciso pulso firme por parte de Anne, pois a jovem havia se
colocado em um pedestal, como vítima revoltada das circunstâncias, da qual foi
retirada por intermédio da disciplina amorosa e dedicada de uma professora,
uma heroína.

Uma das funções da Sétima Arte é ensinar valores e mostrar
caminhos. Emociona descobrir que muitas pessoas dizem que se tornaram
professores por terem visto estes filmes na infância e terem descoberto sua
vocação.  Agora precisamos que os jovens também se inspirem nos alunos
destes filmes e passem a respeitar seus mestres. Que vejam além do olhar
cansado daquele que dormiu mal na noite anterior para preparar sua prova e, quem sabe, encontrem um amigo para a vida toda.

“O Senhor dos Anéis” e o Poder do Mito

Joseph Campbell publicou seu livro “The Hero With a Thousand
Faces” em 1949. J.R.R. Tolkien publicou o primeiro volume de “O Senhor dos
Anéis” em 1954. George Lucas assumidamente utilizou o trabalho seminal de
Campbell como estrutura para sua saga espacial. Mas basta uma análise mais
atenciosa para perceber que Tolkien também seguiu fielmente a mesma estrutura.
Como ele oficialmente escreveu seus livros ao longo de vários anos (1937 a
1949), mas continuou revisando-os nos anos seguintes, nós podemos crer que
houve algum tipo de inspiração nos estudos de Campbell (que afirmava
publicamente que não gostava do trabalho de Tolkien). Provavelmente foi
coincidência, já que ambos beberam na fonte dos mitos nativo americanos,
hindus, gregos, bíblicos e nórdicos. Nunca saberemos a resposta, mas é
interessante analisar as obras de Tolkien pela ótica de alguns estágios da
jornada mítica do herói/monomito.
***
Mundo Comum – O mundo normal do herói antes da história
começar.
Frodo, Sam e seus amigos, vivem no idílico mundo do Condado.
O Chamado da Aventura – Um problema se apresenta ao
herói: um desafio ou a aventura.
Gandalf convida o Hobbit para uma aventura, objetivando a
destruição do Um Anel.
Reticência do Herói ou Recusa do Chamado – O herói
recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.
Frodo inicialmente se recusa a partir com ele, por medo de
sair de sua zona de conforto.
Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural – O herói
encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua
aventura.
Ele, ao ir mais longe de casa pela primeira vez, encontra
seus mentores na forma da Sociedade. Ao lado desses guerreiros, ele aprende
como se defender e percebe que a valentia estava dentro dele o tempo todo.
Cruzamento do Primeiro Portal – O herói abandona o
mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.
O encontro com os elfos e um mundo mágico que ele nunca
imaginou existir.
Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia –
O herói enfrenta testes, encontra seus aliados e enfrenta vários inimigos, de
forma que aprende as regras do mundo especial.
O Balrog, a aranha, Gollum, Saruman, em suma, todos os
perigos que ele encontra no longo caminho até a Montanha da Perdição.
Aproximação da Caverna Interna – O herói se adaptou ao
mundo especial e passa a buscar seu coração, a caverna mais profunda, onde deve
usar cada lição aprendida para sobreviver.
Sua coragem ao buscar sozinho seu destino, tentando proteger
seu amigo Sam.
Provação difícil ou traumática – A maior crise da
aventura, de vida ou morte.
Seu momento definitivo com Gollum, tentando vencer a
indecisão de destruir ou não o Um Anel.
Recompensa – O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao
seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).
A destruição do Anel na Montanha da Perdição, tendo como
recompensa a liberdade de seu povo.
O Caminho de Volta – O herói deve voltar para o mundo
comum.
Seu retorno para o Condado, tendo completado sua jornada de
amadurecimento.
***
Tolkien, como experiente filólogo, desenvolveu idiomas
próprios para emoldurar seu rico universo, tornando cada cenário na Terra Média
extremamente vivo. Para a maioria de nós, as árvores são simples organismos
vegetais, mas Tolkien sabia que os primeiros homens a caminhar na Terra as viam
de forma bem diferente. Para esses homens primitivos, o mundo era cercado de
elementos mágicos. O céu noturno era uma incógnita, com deuses que os ajudavam
com a ventania e demonstravam sua ira com barulhentos trovões. A mitologia
sempre existiu e Tolkien acreditava que não havia problema algum em unir o
intelecto com o poder criativo da imaginação. Diferente de seu colega C.S.
Lewis (criador das “Crônicas de Nárnia”), que via os evangelhos católicos como
um fato histórico, Tolkien via como mais uma forma de mitologia, um conto de
fadas. O elemento da “Consolação”, a recompensa do final feliz, representada
pela ressurreição de Cristo.
A adaptação cinematográfica de Peter Jackson para “O Hobbit”
pode estar sendo vítima de sua aversão pela sala de edição (problema crasso em
sua versão de “King Kong”), mas sua trilogia original é uma coleção de acertos,
um marco no cinema de fantasia. Ele acertou, por exemplo, ao excluir Tom
Bombadil da trama (critério que ele devia ter utilizado com Radagast na nova
trilogia), priorizando a essência dos escritos de Tolkien e seu potencial
imagético, em detrimento de uma fidelidade “ipsis litteris”. As versões
estendidas da trilogia são dinâmicas, enquanto as versões comuns de “Uma
Jornada Inesperada” (especialmente) e “A Desolação de Smaug” são arrastadas. 
A
sua adaptação para o personagem Aragorn (Viggo Mortensen) é um exemplo de sua
sagacidade. Nos livros, Passolargo é um marginal, fazendo o seu caminho fora
das fronteiras de uma civilização em declínio. Quando ele se revela, mostra-se
um mito dentre seres comuns e ordinários, simbolizados pelos Hobbits. Em “Silmarillion”,
por exemplo, não existem personagens comuns que o público possa se identificar.
Aragorn somente toca o mundo comum ao retomar a espada que havia sido quebrada,
aceitando seu destino. Jackson deixa claro desde seus primeiros momentos sua
doce e gentil humanidade, como um arquétipo de Jesus, um homem cheio de dúvidas
e que sofre pelo amor de uma mulher. Já sua adaptação para a personagem
feminina Éowin (Miranda Otto), falha no básico. Tolkien tinha um ponto fraco:
personagens femininas. Mas a corajosa Éowin é a única mulher representada com
alguma profundidade em suas páginas. Jackson potencializa sua dependência ao
amor de Aragorn, fazendo dela uma estereotipada apaixonada adolescente, equivocadamente
descartando a surpresa de sua aparição perante o Rei Bruxo de Angmar, transformando-a
em uma frágil e atemorizada menina (ainda assim, conseguindo vencer o medo ao
final).
A beleza da saga de Tolkien não reside nas batalhas e na
riqueza do mundo fantástico que ele criou, mas sim naqueles elementos
mitológicos facilmente identificáveis em nossas vidas comuns. A corrupção do
caráter humano, a ambição, a resignação perante a inevitável mortalidade, a
coragem que nasce forjada no calor dos desafios mais extenuantes e os laços de
amizade que nos fazem “carregar nos ombros” (tal qual Sam) os irmãos feridos em
batalha.
***
O livro que foi lançado pela editora “DarkSide Books”, escrito
pelo jornalista Michael White, reconta a vida de Tolkien, autor de clássicos
como a trilogia “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, e considerado um dos maiores
autores de fantasia de todos os tempos. 
A biografia acompanha a vida e a
trajetória do escritor, come­çando por sua infância na África do Sul, seguida
do retorno da família para a Inglaterra. A família se estabeleceu em
Birmingham, cidade que passava por uma rápida industriali­zação nos anos 1890,
mas ainda era cercada por uma paisagem de tirar o fôlego. Este cenário que
reunia e mesclava o coração industrial do Império britânico próximo a bosques e
mon­tanhas idílicas e selvagens, foi determinante para as ideias e a escrita de
Tolkien.

A Arte do Silêncio

Arte: Atividade humana ligada a manifestações de ordem
estética, feita por artistas a partir de percepção, emoção e ideias,
com o objetivo de estimular em seu público esses sentimentos.

Quando falamos da obra de Antonioni, Godard, Buñuel, Wenders
e outros ícones do cinema usualmente chamado de “arte”, o mais cômodo é
analisá-los pelo caminho da prolixidade, encaixando termos técnicos e
entregando um texto tão distante e frio que nem os próprios diretores se
interessariam em ler. A tendência é levarmos a sério demais um trabalho que
essencialmente visa o entretenimento cultural, não públicos pequenos em salas e
sessões alternativas. A arte deve caminhar lado a lado com a emoção. Para se
entender a mensagem que Antonioni tenta nos passar em “Blow Up”, deve-se abrir
o coração e os sentidos e caminhar junto ao fotógrafo vivido por David
Hemmings. Vivenciar com ele cada descoberta, entrar no jogo que o diretor
propõe e quem sabe ao final, estaremos também rebatendo aquela bola de tênis
imaginária. Arte é isso. Ela demanda comprometimento emocional e intelectual.
Quando assistimos Godard em sua obra “Alphaville”, devemos sorrir mais de sua
irônica crítica do que analisar friamente cada som e movimentação de câmera, ou
iremos ao término do filme estar tão desumanizados quanto o futuro que ele
vislumbrou e o qual criticou.
Existem elementos intelectualmente elevados nas obras destes
gênios, porém acredito que a intenção dos mesmos era ver seus filmes populares,
sendo amados por cinéfilos do mundo todo, não apenas ter suas obras dissecadas
cirurgicamente por “homens máquina”, tal qual profetizado por Chaplin em seu
discurso de “O Grande Ditador”. A cada análise fria, menos pessoas se interessarão
em conhecer o cinema maravilhoso destes poéticos sonhadores e o termo “cinema
arte” continuará sendo visto com preconceito e arrogância pela maior parte do
público. Chaplin fazia o genuíno cinema arte e é adorado por pessoas dos oito
aos oitenta anos, popular e amado. Sua aparente simplicidade evitou análises
frias de seus críticos, o que tenho certeza, ajudou a construir seu mito.
Considero “O Anjo Exterminador” de Buñuel um dos melhores
filmes de todos os tempos, com sua crítica ácida atirando para todos os lados
da sociedade burguesa. A história é simples: vários burgueses não conseguem
ultrapassar a porta escancarada de um salão onde estavam reunidos para um
jantar. Aquele lugar torna-se uma prisão e eles passam a noite inteira como
náufragos em uma ilha. Aos poucos todas as “máscaras” sociais vão sendo
destruídas, dando lugar ao lado humano, verdadeiro e bestial de cada um deles.
A obra é maravilhosamente narrada, porém não é conhecida pela maioria das
pessoas. É um filme tão bom quanto “A Felicidade não se Compra” de Frank Capra,
então o que os difere? Enquanto a obra de Buñuel passou anos nas mãos de
críticos tão burgueses quanto os que o diretor criticava no filme, o de Capra
entregou-se ao público como um roqueiro que se joga na plateia de braços
abertos, recebendo em troca o merecido carinho. O cinema é feito essencialmente para ser
amado, recomendado e Wenders sabia disso muito bem quando idealizou seu
fantástico “Asas do Desejo”, colocando os anjos próximos aos humanos,
ajudando-os ao pé do ouvido. O toque de gênio foi ter feito um anjo se
apaixonar por uma humana e ter vontade de desistir de sua divindade para viver
ao lado dela. Arte: a união sincera entre o intelectual/divino e o humano/passional.
Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman são representantes
de uma raça praticamente extinta no mundo da Sétima Arte. Enquanto fomos
induzidos a crer por uma geração de cineastas que o que vemos na tela é real,
esses dois desconstroem a fábrica de sonhos, deixando bastante aparente o
trabalho da câmera, sua artificialidade e o silêncio. Esse silêncio
incomoda os que não estão interessados em saborear uma completa experiência
cinematográfica ou os que não possuem a maturidade cultural necessária, seja
por pouca idade ou pueris prioridades. Torna-se comum receber como resposta de
alguém a quem você indica uma obra destes mestres: “que coisa chata e arrastada”.
A realidade é que a grande maioria das pessoas foi condicionada a preparar sua
sessão de cinema com pipoca e muita euforia, preparados para algo que eles já
sabem exatamente como vai terminar (o ser humano não aprecia o inesperado), que
o mocinho vai matar o bandido no final, assim como é certo que o casal, mesmo
brigando o filme inteiro, irá acabar junto e com direito a alguma música brega
do Michael Bolton coroando o desfecho. Imaginem a desilusão desse espectador ao
chegar aos créditos finais e constatar que mal ingeriu suas pipocas, pois
passou o tempo todo com a testa franzida tentando entender de onde apareceu
aquele personagem esquisito. Compreensível, já que ele só foi atender seu
celular umas duas vezes no meio da sessão. Esse foi o impacto que a obra desses
diretores causou entre os cinéfilos, que foram obrigados a prezar o silêncio
quase ritualístico que precede um filme. Não querer impor o ritmo e sim
deixar-se guiar pelas mãos e mentes destes diretores, deixando que as imagens e
seus significados penetrassem pelos poros e não somente pelos olhos.
Porque as novelas são tão essenciais na vida dos brasileiros
e Antonioni (por exemplo) não? Por uma inexplicável necessidade humana de se
limitar e achar que se é feliz ao repetir de maneira robótica os códigos
pré-determinados pelas emissoras, pensar como a massa pensa, saborear o gosto
amargo da mediocridade. O que Ingmar Bergman nos mostra em filmes como: “Persona” (1966), “O
Sétimo Selo” (1957) e “Morangos Silvestres” (1957) são alimento
eterno para a alma, são adições preciosas em uma mente questionadora. Quando o
personagem do idoso médico de “Morangos Silvestres” está prestes a receber um
prêmio honorífico na universidade de Lund e começa a questionar sua vida à luz
de sua morte, quase podemos sentir suas emoções. No jardim de sua antiga casa, ele relembra momentos de sua juventude, porém Bergman decide não mostrar seus pais
nesses trechos. Somente no final, representando a conformação dele perante o
abraço da morte, somos presenteados com uma cena de beleza sem par, quando a
memória de um amor do passado diz que seus pais o estão chamando, no que
ele emocionado olha para o horizonte e vê a silhueta do casal que, distante, acena para seu filho. A cena é conduzida silenciosamente. Não existe a
intenção de incitar emoção pelo uso de uma trilha sonora melodramática, pois
Bergman não subestima seu público.
Antonioni e sua aclamada cena final de “Profissão: Repórter” (1975):
em um plano sequencial espetacular, mostra Jack Nicholson e Maria Schneider
conversando em um quarto (cuja janela é protegida por espessas barras de ferro
e dá para uma praça do lado de fora) de hotel. Nicholson se deita, acende um
cigarro e lentamente a câmera percorre o ambiente em direção à janela,
atravessa as grades, observa o movimento da praça e do hotel do lado de fora,
retorna à janela onde vemos as barras e Nicholson deitado. A cena, que até hoje
gera debates sobre como foi realizada, dura aproximadamente dez minutos de puro
silêncio. Em uma sociedade cada vez mais imersa em ruídos e bocas que falam
incessantemente em uma catarse de sons, que na maioria das vezes não
representam nada, Bergman e Antonioni tentaram nos ensinar a importância do
silêncio, realizando obras que deveriam ser primordialmente sentidas e não analisadas, assim
como a vida.

A Incompreendida Função do Crítico

Criticar não é fácil. Faz-se necessário um domínio sobre o
tema proposto, além de humildade perante o objeto de crítica. Por mais espetacular e bem escrita que seja
uma resenha, nunca poderá ser equiparada à mais medíocre criação analisada. As reais
intenções de um crítico de cinema devem ser complementares ao filme e não
apenas um frio e técnico estudo sobre ele. Para isso é necessário um
conhecimento aprofundado sobre os vários elementos que constroem um filme,
conhecer métodos de atuação, entender sobre posicionamento de câmera (como
saber se é revolucionário, se não sabe a diferença entre um plano médio, plongée
e um plano de detalhe?) e tentar estar sempre atualizado quanto às inovações na
área. Cada profissional possui uma maneira de abordar o que se propõe a
criticar. Todas as maneiras são válidas, quando existe o embasamento. Desde aquele que analisa de forma
excessivamente racional até o profissional que coloca as emoções à frente, ou aquele que
facilmente transita por um meio termo, todos possuem um elemento em comum: Conhecimento.

O crítico possui basicamente duas maneiras de iniciar um
texto sobre um filme que o desagradou: Ele pode maquiavelicamente se empolgar
em destruí-lo, ou ficar triste com o potencial desperdiçado pelo cineasta. Como
muitos não são realmente apaixonados pelo tema (por vezes são designados por
seus superiores para a área cultural do veículo), a escolha mais fácil e divertida costuma ser pela
primeira opção, pela intensa variedade de emoções que ela suscita. O resultado: Textos saborosos em sua ironia, mas que não possuem uma linha sequer que
possa ser considerada construtiva. Aliem a isto o fato de que a cada ano que
passa, boa parte dos jornalistas da área se tornam cada vez mais interessados no lobby. Sites e
jornais que elogiam obras que de alguma forma os patrocinam, o crítico vira assessor de imprensa informal da distribuidora. Um
processo de prostituição criativa que se for analisado em longo prazo, leva a
apenas um caminho: O total descrédito desta profissão junto ao público.
Para uma grande parte dos leitores, o crítico é um chato que
vê defeito em tudo, sempre “do contra” e odiado por não ter visto qualidade
numa comédia escatológica de mau gosto. A pessoa se pergunta: “Como ele deu
nota zero para um filme tão espetacular, que me fez rir do começo ao fim?”. Da
mesma forma que uma pessoa que passa horas admirando uma pintura de Monet pode
parecer um louco aos olhos de alguém que se contenta com seu quadro de natureza
morta acima da mesa de jantar. Existem aqueles que preferem os textos que falam
contra o que pensam sobre a obra. Acabam descobrindo outros pontos de vista,
que enriquecem suas próprias análises. Estes possuem as qualidades de um cientista,
não a de um religioso. O cientista está sempre disposto a ter suas crenças
desafiadas, pô-las à prova e evoluir. Já o religioso, não aceita
opiniões contrárias e abomina o confronto de suas ideias com as de qualquer
pessoa que pense diferente. Os críticos e o público precisam andar de mãos
dadas, mesmo que suas opiniões se confrontem de tempos em tempos. O confronto saudável
e respeitoso de ideias é o que nos faz humanos.
A paixão do crítico deve ser sentida em cada linha, pois se
a pessoa que escreve não demonstra estar feliz em seu trabalho, muito menos o
fará aquele que dedica seu tempo na leitura (isso vale para qualquer tipo de
trabalho que uma pessoa vá exercer na vida). Texto sem amor, o leitor percebe. Texto pedante, o leitor percebe. Por essa razão, tão poucos profissionais desta área são lembrados pelo grande
público, pois com o passar dos anos o olhar distante e técnico tende a
sobrepujar o olhar apaixonado e os textos perdem emoção. O maior desafio para
um profissional dessa área é manter-se encantado, mesmo após várias possíveis
desilusões. Ver cada filme como se fosse o primeiro, continuar aplaudindo
uma mágica cujo truque ele já conhece. Meu principal objetivo neste texto é romper definitivamente
este muro que parece existir entre o público e os profissionais da crítica.
Mesmo que muitos críticos pareçam gostar deste status autoimposto de “donos da
verdade”, isto não ajuda em nada o real astro dessa história: A Sétima
Arte. Nossa função principal é fazer de cada leitor um potencial estudioso do
tema. Tive a inspiração após assistir um elucidativo (mas tedioso) vídeo de
um enólogo, intencionando explicar como faz a apreciação de um vinho.

Imaginem
a cena: O vídeo dura por volta de doze minutos, com uma introdução em tom sério
(uma garrafa de um lado, taça vazia do outro) seguida de uma extensa explicação
sobre como a bebida ativa todos os sentidos humanos. Nos cinco minutos finais,
o enólogo despeja o líquido no cálice e apanha uma folha de papel e uma caneta.
Muito compenetrado e sério, inclina o cálice cerca de quarenta e cinco graus e
franze a testa ao observar sua cor. Devolve o cálice à mesa e faz anotações na
folha. Novamente segura o cálice e agora o agita em movimentos circulares,
levando-o próximo às narinas (repetindo a mesma ação cinco vezes)
e depois volta a fazer anotações. Somente no minuto final o enólogo prova o
vinho, deixando o líquido passear por sua boca durante alguns segundos e o
engole. Anotações finais, um olhar sério para a câmera e uma afirmação: “Minha
nota para este vinho é 82,5”. Não sei a reação que vocês teriam ao assistir
este vídeo, mas garanto que eu não senti o menor desejo em beber vinho. Aquela
degustação não me tocou de nenhuma maneira. Mesmo percebendo que o profissional
dominava o assunto, não me senti motivado a conhecer mais sobre o mesmo. Mas quando assisti “Sideways – Entre Umas e Outras” (2004), senti algo
completamente diferente, estando imerso na trama e interessado na trajetória
dos protagonistas. Em uma curta cena específica, obtive algo que aqueles
tediosos doze minutos não conseguiram. A explicação que o personagem Miles (Paul
Giamatti) faz sobre a sua paixão pelos vinhos. Ele esclarece que a uva deve ser
plantada num lugar específico no mundo, num clima extremamente equilibrado, sem
muita chuva ou muito sol, que deve ser colhida na hora exata, recebendo do
proprietário da vinícola um cuidado muito especial, já que a casca desta
qualidade de uva é muito fina. Só assim, depois de muita dedicação (desde o
plantio da uva à fabricação do vinho) resultará em um produto de qualidade. O
roteiro brilhante faz com que o personagem faça uma alusão a si mesmo, que de
algum modo foi negligenciado pela esposa, já que não teve a afetividade
suficiente para manter o relacionamento duradouro. Enquanto eu estava sendo
entretido (lado emocional atuando), aprendi o suficiente sobre vinhos para me
interessar em ler mais sobre o assunto.
O crítico de cinema precisa prioritariamente despertar o interesse no público, com técnica suficiente para elucidar suas primeiras
dúvidas, mas nunca o bastante para que ele acredite já saber o suficiente e
se acomode. O objetivo é que nessa “sala de aula” que pode ser de mil “alunos”,
alguma parcela se apaixone pela matéria e queira buscar mais conhecimento autodidata. Não confundam “aula de cinema” com “aula de como ser crítico de cinema”.
O verdadeiro apreciador desta arte não se produz em cursos, apenas “clones”
inferiores de seu professor. Uma crítica longa e técnica demais servirá apenas
aos que já possuem o conhecimento técnico. Ambos então “piscarão” um para o
outro com cumplicidade, enquanto o resto do público que esboça um mínimo
interesse provavelmente se entediará ao longo do texto e, ao final, demonstrará
desinteresse. O cinema (assim como o vinho) deve trazer prazer intelectual. Os
melhores degustadores italianos se sentam em mesas velhas no campo, rasgando
pães com as mãos e dando fartas goladas. Se perguntá-los, confirmará que o
essencial é o prazer que o vinho lhes proporciona, não sua cientificidade. O
crítico está em processo eterno de aprendizado e refinamento, pois o cinema não
é uma arte imutável ou equação matemática.

Finalizando, gostaria de citar um exemplo verídico que acho
que define de maneira exemplar a função do crítico e sua importância. O
renomado crítico francês André Bazin espalhou aos quatro ventos sua admiração
pelo trabalho do diretor William Wyler no filme: “Pérfida” (The Little Foxes –
1941), ao demonstrar a excelência do diretor em criar uma cena onde a atriz
Bette Davis fica sentada, imóvel em primeiro plano, enquanto atrás dela, o
marido (vivido por Herbert Marshall) sobe uma escadaria e sofre um ataque
cardíaco. Ele implora por socorro, mas Bette permanece de costas para ele,
deixando-o morrer. Aos olhos do crítico, a imobilidade de Bette Davis filmada
em apenas uma tomada e com profundidade de foco, revelava seu caráter e
determinava a dramaticidade da cena. Anos depois, ao encontrar-se com o diretor
no Festival de Cannes, aproveitou para congratulá-lo pela cena magistral, no
que Wyler envergonhado lhe respondeu: “Não foi bem assim. Naquele dia, Bette
Davis havia torcido o pé e não houve outro recurso senão rodar toda a cena com
ela sentada num sofá.” O crítico então, com um sorriso no rosto, afirmou: “Mas
então, o meu filme é melhor que o seu”.

O problema no cinema nacional…

Fazer cinema no Brasil é como tentar subir o Himalaia sem equipamento.
Não existe incentivo algum, muito menos inteligência, por parte daqueles que
comandam esta tentativa (mais uma das várias) de se formar uma indústria.
Cineastas espertos, mesmo sem ajuda, acreditaram em suas ideias e utilizaram as
potencialidades deste moderno mundo interconectado. “2 Coelhos” é um excelente
exemplo de um projeto que ousou sair do lugar comum, usando de forma sagaz os
recursos das redes sociais, abrindo inteligentemente o diálogo com seu
público-alvo. O roteiro é tão bacana, que os americanos já planejam uma
refilmagem. O diretor Afonso Poyart chamou a atenção dos industriais de lá, que
já o contrataram (o filme “Solace”, que estreia em 2014, com Anthony Hopkins no
elenco). O mesmo aconteceu com o José Padilha, que com “Tropa de Elite”, provou
que conseguimos fazer uma obra de ação eletrizante, com direito a um
protagonista marcante, que entrou para a cultura pop nacional.
O maior problema (não o único) no cinema nacional é o roteiro.
Problemas técnicos graves, como o áudio, já superamos, mas não possuímos uma
boa “escola” de roteiristas. Com raras exceções, as produções versam sempre
sobre os mesmos temas (afinal, a maioria de complexados cineastas
brasileiros quer ser Godard e não Billy Wilder), como se os realizadores
tivessem medo de arriscar, elemento fundamental em qualquer atividade cultural.
A nossa indústria precisa adaptar a criatividade visando não exceder os limites
de verba, o que possibilitaria a criação de obras de ficção-científica calcadas
nos diálogos (como “Stalker”, de Tarkovski), obras de terror psicológico (como
os trabalhos iniciais de Roman Polanski) ou obras de fantasia lúdica, como o
recente “Indomável Sonhadora”. Filmes que atraiam o público, não somente os
familiares dos realizadores. Depois que já tivermos estabelecido uma indústria
autossustentável, daí podemos partir para voos mais alternativos (como ocorre
em Hollywood, por exemplo), intercalando uma obra popular (não
“populista”) de um super-herói
nacional (que trará lucro, ocasionando a necessária sustentabilidade), por
exemplo, com um drama familiar denso e intimista.
O José Wilker deu algumas entrevistas onde enaltece o
trabalho da “Globo Filmes”, afirmando que ela “tem feito grandes benefícios” à
produção nacional. Ele também defende uma atuação governamental para criar
novas salas e modernizar os equipamentos audiovisuais, o que demonstraria que o
governo leva o cinema a sério. São duas afirmações que se opõem. O que nutre uma
indústria não é o quantitativo, mas sim a formação de um público criterioso. A
maior parte do público que enche os cofres da “Globo Filmes” hoje, não faz a
mais remota ideia do que seja a Sétima Arte, pois a reconhece apenas como
aquele divertimento rápido, colorido e barulhento, que os entretém entre o
atender de um celular e a última pipoca mastigada. Eles não vão à sala escura
para conhecer personagens potencialmente interessantes. O problema já citado, sobre
os roteiros, nem é percebido por este público. Acendem-se as luzes e eles se
levantam sem recordarem sequer os nomes dos personagens. Em uma indústria já
estabelecida e autossustentável, não haveria problema algum. Nenhum americano
ia assistir aos filmes do Jerry Lewis e do Dean Martin, esperando não
reconhecê-los nos personagens. Os roteiros eram bobinhos, para que eles
tivessem a chance de realizar suas peripécias costumeiras. Mas já na década de
50, os norte-americanos davam aula de competência com sua indústria cinematográfica,
enquanto nós lutávamos para manter viva a chama criativa da Atlântida e da Vera
Cruz. Discordo do Wilker quanto à benesse que o populismo oferta à produção
nacional. Os filmes de Amácio Mazzaropi eram populares e precários em vários
sentidos, mas nunca populistas. Eles refletiam a forma de pensar de seu autor (“Portugal…
Minha Saudade”, onde ele critica o tratamento aos idosos por seus filhos, por
exemplo), um bravo sonhador que buscou formar uma indústria. Já as produções da
“Globo Filmes”, que conquistam bilheterias monstruosas (somente devido à
extensa divulgação em todos os tentáculos da empresa), não incitam nenhuma
forma de atitude em quem assiste. Exatamente o oposto, sendo, em grande parte, completamente (e
terrivelmente) inofensivas. O pior tipo de estímulo que um filme pode incitar
em seu público: a indiferença.
Para cada obra-prima como “O Som ao Redor” (de Kleber Mendonça Filho), multiplicam-se como Gremlins, porcarias como “Crô”. Sem formar em longo prazo um público minimamente interessado
e criterioso, não teremos uma indústria de cinema de nível competitivo. Com o
poder mercadológico da “Globo Filmes”, não seria maravilhoso se eles
utilizassem todos os seus tentáculos de marketing na promoção de filmes bons,
dos mais variados gêneros? Cinema é a arte da tentativa e erro, mas os
produtores brasileiros querem conquistar para ontem, o status que as indústrias
estrangeiras demoraram décadas de plena dedicação para conseguir. E
reclamamos, pois nós adoramos nos colocar como os pobres coitados em tudo.
Nossas novelas (e não estou discutindo a qualidade desta forma de arte) são
consideradas as melhores do mundo. Ninguém faz novelas com a qualidade dos
brasileiros. Mas você não lê sobre produtores de novelas americanas (e eles
possuem algumas que duram décadas), pedindo para que seus produtos obtenham
mais espaço no mercado exterior. As novelas brasileiras são transmitidas em
Portugal com muito sucesso, mas nenhuma novela portuguesa é transmitida aqui (e
teriam que ser dubladas, já que grande parte do povo não compreende a pronúncia. Que vergonha…).
Eles reclamam e posam de pobres coitados? Temos que provar com competência a
qualidade de nosso trabalho, buscando empatar o jogo, sem ficar mendigando a
utilização de uma variação do sistema de cotas. 
Precisamos fazer bons filmes,
com roteiros de qualidade. Voltando ao Wilker, não poderia desligar meu senso
criterioso e “passar a mão na cabeça” de seu primeiro trabalho na direção, pois
estaria fazendo um desserviço à arte e ao amor que eu sei que ele nutre por
ela. “Giovanni Improtta” possui um roteiro fraquíssimo (de Aguinaldo Silva e
Mariana Wilker), escrito por pessoas que demonstram pouca noção de
como funciona a linguagem cinematográfica. Uma produção com orçamento de 6
milhões, que foi o mesmo valor (em dólares) utilizado por James Cameron no
primeiro “O Exterminador do Futuro” (1984) e muito mais do que os 100 mil
utilizados por George Miller em seu “Mad Max” (1979) ou os 27 mil utilizados
por Kevin Smith em seu “O Balconista” (1994). Muitos clássicos que entraram
para a História da Arte, sendo referenciados no mundo todo, foram produzidos com
orçamento baixo, como “Rocky”, “Halloween” e “American Graffiti”. O cinema
nacional precisa de boas ideias (e roteiristas competentes que as transportem
para as páginas), não de grandes orçamentos. E, mais que isto, o cinema nacional
precisa formar um público qualitativo, que valorize esta arte e conscientemente
antecipe a estreia do novo filme do cineasta “x”. Lixo entregue em grande
quantidade apenas fede. Precisamos parar de procurar esconder incompetência e amadorismo por trás do confortável véu de vítimas das
circunstâncias
.

“Noites Brancas”, de Dostoiévski

Conheci Dostoiévski quando eu tinha quatorze anos, lendo seu
conto “Noites Brancas”. A leitura foi ininterrupta, tomou-me algumas horas da
madrugada, à época ainda proibida, pois devia acordar cedo no dia seguinte e ir
à escola (engraçado como sempre tive a convicção de que aprendi muito mais fora
dela). Sentia-me preso àquela prosa tal qual a jovem Nástienka pelo fantasma de
seu amor de outrora. Identifiquei-me imediatamente com a figura do sonhador sem
nome, solitário e tímido, que ao encontrar a jovem chorando no parapeito do
cais, aproxima-se e irreversivelmente lhe nutre ternura. Para ela, ele conta
sua história, plena em ilusão (sua fuga da realidade) e sonhos. Durante quatro
noites, os dois se encontrariam para conversar e preencher lacunas, mascarar
carências com gargalhadas nervosas, consolarem-se mutuamente por suas tragédias
pessoais: ela, por amar alguém do passado e ele, por querer amá-la no futuro.
Claro que não contarei o final desta linda história, que recomendo fortemente.
Diferente das obras mais complexas de sua carreira (como “Crime e Castigo” e
“Irmãos Karamázov”), este conto é perfeito para aqueles que ainda estão
começando a se aventurar nas páginas deste gênio literário.
Aproveito o tema para contar algo curioso que ocorreu comigo
na época em que li o livro pela primeira vez. Como já disse, era adolescente e
fiz a besteira de indicar o livro para alguns colegas de turma, que estavam
elogiando bastante um filme que haviam assistido no “Cinema em Casa” alguns
dias antes. Tratava-se de “O Último Americano Virgem”, um daqueles típicos exemplares
adolescentes da época, porém com um diferencial interessante: além de uma bela
trilha sonora (“Just Once” de James Ingram), exibia um caso de amor que possuía
semelhanças com o do casal de “Noites Brancas” (pelo menos é o que eu achava na
época). Quem assistiu o final do filme e leu o livro, talvez concorde comigo.
De qualquer forma, achei interessante indicar o livro para eles, mas adivinhem
o que aconteceu? Muito provavelmente eles nem se preocuparam em procurar o
livro, mas conseguiram assistir o filme de Luchino Visconti (“Le Notti Bianchi”),
realizado em 1957 (com Marcello Mastroianni e Maria Schell). Alguns dias
depois, praticamente fui encurralado no pátio da escola, sendo questionado por
meus colegas devido ao meu “péssimo gosto”. Reclamavam que eu havia lhes feito
perder um precioso tempo assistindo uma porcaria em preto e branco (enfatizavam
o que para eles era o equivalente a uma tortura medieval), onde nada acontecia. Ao que me consta, não chegaram a assistir o filme todo. Eu, que naquela época
ainda não havia visto a adaptação cinematográfica (de Visconti, apenas conhecia
“Rocco e seus Irmãos”), fiz questão de alugar e, como esperava, adorei! Sempre
que penso em Dostoiévski, recordo-me deste evento surreal e das semanas de
chacota juvenil que eu tive que aguentar devido ao meu “péssimo gosto”
cultural.

Sobre o filme, tenho ótimas recordações. Visconti suavizou
tremendamente as nuances psicológicas do personagem masculino, negando-lhe o
longo monólogo em que conta sua história. O que durava várias páginas foi
adaptado para uma hilária cena em que Mastroianni e Maria dançam ao som do
infante Rock and Roll. Outro momento que recordo com emoção é a frase (tirada
do livro) com que Mastroianni define seu personagem: “Obrigado pelo momento de
felicidade que me proporcionou”. Difícil conter as lágrimas também com a bela
analogia feita entre o sonhador e o velho cão de rua: ambos dispostos a dar
atenção e carinho a todos os estranhos com quem cruzam nas ruas, porém
destinados a terminarem solitários, como que esperando um dono (a) que nunca
os socorre.

Walt Disney – O Patriarca dos Sonhadores

Desde 1892 que a exibição de desenhos em movimento entretém
o público. Sempre visando o divertimento rápido e despretensioso em pequenas
cenas, quase sempre de humor. Porém é impossível falar do gênero sem citar o
homem que pegou as barrocas ideias do teatro de sombras chinesas e transformou
em espetáculos mágicos, a notória Oitava Arte. Disney já exercitava
seu talento na década de 20, em curtas metragens e peças publicitárias, mas foi
no final da década de 30 que o jovem gênio elevou o nível do entretenimento
mundial ao arriscar realizar uma animação de longa metragem, quando na época
todos os críticos acreditavam que ninguém teria paciência de assistir um
desenho animado de longa duração nos cinemas.
Baseado em conto dos irmãos Grimm, “Branca de Neve e os
Sete Anões” estreou em 1937 com aclamação unânime de críticos e público do
mundo inteiro. Tal sucesso foi um reflexo do árduo trabalho da equipe técnica,
que demorou três anos para desenvolver o projeto, meticulosamente dando vida a
todos os aspectos que apareceriam em cena. Um trabalho hercúleo e que garantiu
um prêmio honorário da academia no ano seguinte, simbolizado por uma estatueta
do Oscar em tamanho natural e outras sete em miniatura. A obra também criou o
padrão Disney de fazer cinema: temas fantasiosos e com ensinamentos morais
junto a lindas canções. Como Walt mesmo simplificou anos depois: “Em meus
filmes, para cada risada, deve haver uma lágrima”. A fórmula de sucesso trouxe, em 1940, duas produções
lendárias. Em “Fantasia”, Disney ousou realizar uma combinação de animação
com as mais lindas composições clássicas em um épico de mais de duas horas. “Pinóquio”,
a clássica história do boneco de madeira que queria se tornar um menino de
verdade, obteve sua interpretação definitiva em uma animação mais bem acabada
que “Branca de Neve”, com uma canção que ultrapassou os limites da Arte, entrando
para a história da música mundial: “When You Wish Upon a Star”.
Nos anos seguintes, o mundo ficou conhecendo a linda
história do elefante “Dumbo” e a bela fábula sobre maturidade “Bambi”.
Após 1942, Disney entrou em uma maré de azar onde as bilheterias caíam
drasticamente filme após filme. São dessa época produções como: “Alô
Amigos”, “Você já foi a Bahia?”, “Tempo de Melodia” e “As
Aventuras de Ichabod e o Sr. Sapo”. As empresas Disney desmoronavam,
levando consigo o sonho de Walt e o futuro da animação no cinema. Em 1950,
assim como nos contos de fada, uma palavra mágica fez ressurgir o império
Disney das cinzas: Bibbidi-Bobbidi-Boo. A canção de mesmo nome foi
indicada ao Oscar e o filme “Cinderela” foi uma das maiores
bilheterias do ano. Além de ter sido indicado ao Leão de Ouro de Veneza, ganhando
o prêmio especial do público. O mestre novamente sorria de orelha a orelha, com
os sucessos que viriam nos anos seguintes: “Alice no País das Maravilhas”,
o maravilhoso “Peter Pan”, “A Dama e o Vagabundo” e a obra-prima “A
Bela Adormecida”.
A década de 60 principiava com uma pequena queda no lucro e
todos imaginavam se a empresa iria se restabelecer como antes. Obras como “101
Dálmatas”, “A Espada era a Lei” e “Mogli, o Menino Lobo” faziam
um sucesso mediano e nem de longe transmitiam o frescor e genialidade de
outrora. “Mary Poppins” pode ser considerada com justiça a melhor
produção da época, apresentando ao mundo a beleza e o carisma de Julie Andrews,
assim como canções que entraram para a história do estúdio (como “Supercalifragilisticexpialidocious”).
Em 1966, o baque definitivo, a morte de Walt Disney deixava todos em alerta.
Como seriam as produções feitas após sua saída? Será que o legado Disney iria
resistir? Durante toda a década de 70 e 80, os desenhos da companhia foram
pálidas lembranças do que já haviam sido. Lançamentos inexpressivos nos
cinemas, produções preguiçosas, formulaicas em excesso: um pouco de drama, umas
canções nem sempre inspiradas e um genérico final feliz.
Enquanto isso, no outro lado do mundo, era criado um marco
na animação mundial: AKIRA (de Katsuhiro Otomo), uma obra violenta e
adulta. Parecia não haver mais espaço no mundo para os contos de fada e o
moralismo de Disney. Porém em 1989, algo novo mostrava-se no horizonte com o
lançamento de “A Pequena Sereia”. As músicas eram melhores e o roteiro
trazia uma jovialidade que fazia falta ao estúdio. Longe de ser perfeito, 
o filme conseguiu fazer com que pessoas de todas as idades voltassem às filas
dos cinemas. O sucesso comercial da obra provou aos técnicos que havia público
para suas produções. Logo, começaram a idealizar a obra que trouxe de volta
toda a magia de seu criador e alcançou muito mais do que o próprio almejara no
passado. Em 1991 estreou a “A Bela e a Fera”. A linda fábula não
somente revolucionou no quesito técnico (ao incluir uma cena em computação
gráfica), como conseguiu a façanha de ser indicada ao prêmio de melhor filme no
Oscar. Isso sem falar na expressiva bilheteria, a terceira maior do ano.  “Aladdin” (em
1992) tornou-se o filme mais bem sucedido do mundo (na época), rendendo 517
milhões nas bilheterias. A animação não só havia voltado com tudo, como também
quebrava preconceitos de críticos que ainda a viam como uma Arte menor. Obras
como “A Bela e a Fera” exalavam mais refinamento que muitas produções
tradicionais.
Mas nada preparava o mundo para o fenômeno cultural chamado “O
Rei Leão”. A trama que misturava influências de Hamlet, Bambi e temas
bíblicos, trouxe lágrimas aos olhos dos mais frios homens. O maior mérito foi o
de ser o primeiro na história da empresa com um roteiro original, não baseado
em contos de fada ou em clássicos da literatura. O projeto tornou-se o mais
lucrativo da história da Disney. O limite que dividia as animações dos filmes live
action havia sido destruído impiedosamente, fazendo com que os críticos se
curvassem perante o brilhantismo do filme, citando-o como uma das melhores
obras da década.
O futuro glorioso traria a maravilhosa parceria com os
estúdios Pixar, resultando em uma nova geração imersa nesse entretenimento de
alta qualidade. 

Jacques Tati

Jacques Tati era um genial arquiteto de sonhos. Desde a
primeira vez que assisti aquele adorável “Sr. Hulot”, tive a clara impressão de
estar vivenciando um mundo onírico. Pouquíssimos diálogos, sons ambientes
exagerados, a forma como os personagens caminham (como o encarregado da limpeza
das ruas em “Meu Tio”, que nunca consegue realmente realizar seu ofício, sempre
tendo sua atenção desviada para algum elemento) e o ritmo sempre contemplativo,
como se pedisse nossa total atenção. Cada detalhe é importante, assim como cada
ser que habita um plano (que poderiam até ser emoldurados, de tão ricos) de
Tati possui uma função. O espectador que busca gargalhar, já começa de forma
equivocada (estes e os que assistem por obrigação escolar, são os primeiros a
afirmarem seu ódio por este cineasta), pois sua mente programada busca aquele
padrão já conhecido de comédia, frustrando-se já nos primeiros minutos. O
ser humano não aprecia o que é novo, preferindo rir do mesmo bordão conhecido
todos os dias.
Existem poucos diretores/atores de humor que podem ser
chamados de refinados artesãos (Tati e Jerry Lewis são os que me vêm à mente),
pois trabalham além das características de seus personagens, moldando com o
mesmo esmero todo o ambiente que o circunda. As “piadas” quase sempre são
elaboradas com riqueza de minúcias, como aquela de “Meu Tio” (Mon Oncle – 1958),
quando Hulot suja a sola de seu sapato direito e acaba deixando um rastro de
pegadas brancas no escritório onde procura emprego, inclusive no banco da
gerente e na mesa, quando ele tira o sapato do pé e por deslize repousa-o
nela. Ele leva o público a crer que o desfecho será simples, inserindo então
algumas olhadas da mulher que o atende, em direção a uma janela superior que
está parcialmente aberta (isto é feito com muita sutileza, somando-se ao fato
de nossa atenção estar sendo direcionada para outros elementos da cena). Quando
acreditamos que a cena terminou, Tati nos prova sua genialidade ao fazer com
que a gerente o encaminhe ao salão do lado, dizendo com ironia: “para que não
seja preciso o senhor fazer tanta ginástica” (ela acredita que ele subiu na
mesa para poder averiguar o que ocorria na sala ao lado, pela janela).
Percebemos então ao revisitarmos a cena, o cuidado que ele teve ao estruturar
cada movimento, cada gesto.
Outro fator essencial na filmografia de Tati é a inteligente
crítica feita à sociedade. No filme já citado, que considero sua
obra-prima, demonstra de forma muito simples a mediocridade daqueles que vivem
de aparência e ostentação. Uma dona de casa obsessiva por limpeza, que reformou
sua casa com a tecnologia mais moderna (tão desconfortável que a faz assistir
TV sentada no jardim), simplesmente para poder exibi-la, com a formalidade
de um corretor de imóveis, aos vizinhos. O ápice de criatividade é o
horroroso chafariz em formato de peixe, instalado em um jardim que mais parece
o mitológico labirinto do rei Minos. Dependendo da importância do convidado,
aciona-se ou não o chafariz (que fica sempre desligado), conduzindo a situações
hilárias (como com a chegada do “vendedor de tapetes”). Neste microcosmo fútil
e excessivamente organizado, Hulot torna-se um elemento de rebeldia (emulado
por Peter Sellers em “Um Convidado bem Trapalhão”) e necessário caos.

Assistam Tati e percebam muitos outros toques geniais deste
artesão do humor, que será eterno na mente dos apaixonados pela Sétima Arte.

Cine Samurai – “Os 13 Assassinos” (1963)

O filme está sendo lançado pela distribuidora “Versátil”,
que nesse ano está investindo em uma lacuna irresponsavelmente deixada pelas
majors: cinema asiático clássico. O box “Cinema Samurai” ainda traz mais 5
maravilhosos exemplares da fase de ouro dos Chambara. Imperdível!
Os 13 Assassinos (Jusan-nin no Shikaku – 1963)
Lorde Naritsugu comete todo tipo de crueldade e permanece
impune por ser irmão do Xogum, até que 13 assassinos são contratados para
detê-lo. 
Esse é o primeiro e melhor filme da “Trilogia da Revolução
Samurai”, dirigida por Eiichi Kudo. Sua intenção era resgatar em um povo que
vivia uma estagnação política no pós-guerra, um senso de heroísmo e coragem,
nascido do confronto entre o individualismo rebelde e o autoritarismo. Ele faz
parte de um movimento realista/pessimista chamado “Zankoku (cruel) Jidaigeki”,
que potencializava a violência na tentativa de atrair o público japonês que já
começava a se interessar mais pelo entretenimento televisivo (problema que todas
as indústrias cinematográficas do mundo compartilharam), com tramas formulaicas
que serviam como preparação para longos desfechos de pura ação épica. E Kudo ousou
fazer isso nos estúdios Toei de Kyoto, berço do cinema fantástico (chamado de “Goraku
Jidaigeki”), que focava principalmente os adolescentes.
O roteiro busca inspiração clara em “Os Sete Samurais”, de
Kurosawa, mas também na tradicional lenda do código samurai do Bushido (caminho
do guerreiro): “Chūshingura” (47 Ronins). Seus personagens são estereótipos
amplamente utilizados no gênero, como o jovem inexperiente que passa a integrar
a equipe, movido apenas pela paixão. Outro ponto que vale ser salientado,
especialmente por provar a superioridade do original perante sua refilmagem
moderna (pelas mãos de Takashi Miike), é a bela fotografia em preto e branco de
Suzuki Jubei, potencializada em suas tomadas em ângulo baixo e limitadas pelo
espaço, que acaba agindo como um personagem próprio e ameaçador.

Resumindo, o “Zankoku” representou para o cinema samurai japonês,
o mesmo que o “Western Spaghetti” foi para o Western que era realizado pelos
americanos. Personagens corruptos, traidores e emoldurados por um clima permanente
de cinismo. De certa forma, esse estilo favorecia o sentido de honra inerente
aos samurais, já que uma atitude heroica tende a cegar com sua luz, quanto mais
escuro for o ambiente. E se torna impossível não se empolgar ao assistir a
batalha dos 13 valentes guerreiros contra o exército inimigo ao final.