Análise de “Berlin Alexanderplatz”, de Fassbinder – Capítulos 12, 13 e Fim

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Episódio 12 – A Cobra na Alma da Cobra

O episódio de estrutura simples simboliza a suprema vitória
de Reinhold sobre Franz, com Fassbinder demonstrando seu talento em subverter
expectativas. Inicia de forma tranquila, com Franz e Mieze redescobrindo aquela
paixão que os tocou quando se conheceram. O jogo entre os dois é animalesco,
nada racional, assemelhando-os a um cão e uma cadela que se perseguem pela rua.
A jovem sempre foi mantida distante de qualquer associação com os negócios
escusos de Franz (ela simboliza inocência e bondade, que devem ser preservadas),
mas a relação entre os dois experimenta liberdade tão infantil, que ele revê
seus conceitos e decide inseri-la na sua vida profissional. Colocando-a no alvo
de Reinhold, Franz entrega sua alma em uma aposta traiçoeira. Reinhold sente
ciúmes de Franz, invejando a alegria nos olhos de Mieze. Como um predador, ele
leva a jovem para a floresta, bem distante dos olhos de Franz. Ocorre então um
jogo de interesses, com a jovem buscando informações sobre o amado (ela percebe
que Reinhold sabe mais sobre ele), enquanto o predador deseja apenas a carne de
sua vítima. O ódio dele aumenta ao entender que ela poderia passar horas com
ele, até amá-lo por dias e noites, mas que jamais iria abandonar Franz.
Avançando sobre ela com a ferocidade de um animal, leva suas mãos ao pescoço
dela, com o poder de suas emoções reprimidas exaurindo-a do ar. Mieze, o
elemento de graciosidade que mantinha Franz íntegro, acabava de ser
assassinada.

Episódio 13 – O Externo e o Interno e o Segredo do Medo do
Segredo

Franz está desolado, pois acredita que Mieze o abandonou.
Reforçando a ideia de homossexualidade reprimida, Fassbinder mostra o robusto
homem maquiado, como que se buscasse se tornar Mieze. Na sequência, uma longa
conversa entre os membros da gangue é coreografada no peculiar estilo do
diretor, abordando os planos para o maior assalto de suas vidas. No desfecho, o
círculo se completa. A tragédia de Franz, que se iniciou com o assassinato de
Ida, agora termina com o assassinato de Mieze. Ele descobre sobre o crime ao
ler no jornal (trazido por Eva), porém surpreendentemente aparenta alegria, por
entender que ela não o abandonou em nenhum momento. Após o choque inicial ao
ver sua foto e a de Reinhold no jornal (insinuando que ambos são procurados
pelo assassinato), sofre um colapso emocional e gargalha ao escutar o som de
sua própria voz afirmando que Reinhold é sua propriedade. O que era subtendido,
agora se revela sem medo.

Epílogo – Meu Sonho do Sonho de Franz Biberkopf, de Alfred
Döblin

Esteticamente diferente de todos os episódios, Fassbinder
decide fechar sua Magnum Opus com uma onírica viagem (em sua ótica,
como bem representado em uma cena onde ele aparece) pelo subconsciente
devastado de Franz, que (no tempo presente) passa seus dias em um hospício,
fazendo-o revisitar os acontecimentos ao lado de dois exóticos anjos. Em seu
sonho, tudo o que estava escondido aparece em forma de esquetes surreais,
deixando claro seu sadomasoquismo latente (na cena em Reinhold o chicoteia, ou
no momento em que uma luta de boxe termina com um beijo) e a homossexualidade
reprimida de Reinhold, assim como a relação de amor/ódio entre ele e as
mulheres (cena romântica entre ele e um colega na prisão). O episódio segue
então para o momento com simbologia mais forte, quando Franz é (numa excelente
metáfora) abatido como um animal em um abatedouro. Ele já estava predestinado a
ser abatido pela sociedade, que não deixaria impune ou perdoaria um assassino.
Musicalmente, o episódio é totalmente diferente dos anteriores, que eram
acompanhados por uma solene música instrumental (composta por Peer Raben).
Leonard Cohen, Janis Joplin, Elvis Presley (cantando “Santa Lucia”) e
Velvet Underground são alguns dos nomes que emolduram o fascinante epílogo.
Após uma poderosa cena evocando a crucificação de Cristo, Franz renasce. Ele
agora é um medíocre (detalhe importante, salientado na narração) porteiro, que
apenas assiste o caminhar tortuoso de seu povo, aceitando tudo o que é imposto
a ele pela sociedade. “Berlin Alexanderplatz” é um maravilhoso estudo
de personagem que deve ser assistido por todos aqueles que amam esta Sétima
Arte.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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