Análise de “Berlin Alexanderplatz”, de Fassbinder – Capítulos 2 e 3

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Capítulo 2 – Como Viver quando não Queremos Morrer?

O tema dominante do capítulo é como o ser humano resiste em
ser engolfado em um ambiente em que a maldade predomina. A Alemanha pré-ascensão
de Hitler, com um povo financeiramente destruído, aceitando humilhar-se em troca
de algumas moedas. Franz representa este povo, como na cena em que permite que
Lina tome decisões por ele, destruindo as revistas eróticas do jornaleiro. A
maneira como a câmera o posiciona, quase como uma criança de castigo no canto
do quarto, enquanto assiste sua mulher agir, denota o dedo de Fassbinder
apontado para a passividade do povo alemão de outrora.

Emociona a determinação do protagonista em manter-se
íntegro, recusando propostas de trabalho ilícitas e aceitando com humildade (e
até ingenuidade) serviços onde depende exclusivamente da sorte. Quando aceita
vender jornais de propaganda nazista, não entende o que está fazendo, recitando
diálogos decorados sobre a ideologia por trás da suástica. Ele aceita carregar
a marca nazista no braço, mas não sente seu peso moral, sente-se feliz por não
estar roubando. A discussão que trava com um trio de comunistas e um vendedor
de salsichas judeu, parte desta incompreensão. A melíflua narração emoff,cita
trechos retirados do livro de Alfred Döblin, que aliados ao propositalmente
antinatural movimento de câmera (que pausa a cena e percorre-a em 360 graus),
parece sublinhar a artificialidade do debate defendido apenas por vaga
retórica. Ambos (comunistas e fascistas) apresentam discursos sem nenhuma
pungência, como bonecos nos joelhos de ventríloquos que não ousam aparecer (uma
realidade mundial ainda hoje na relação entre políticos e militantes).

Capítulo 3 – Uma Martelada na Cabeça pode Ferir a Alma

Franz continua buscando manter sua retidão de caráter, aceitando
a ajuda de um amigo de Lina, começando a vender cadarços de porta em porta. O
problema é que este amigo: Otto (Hark Bohm), não compartilha o senso moral de
Franz (mesmo seguindo preceitos cristãos, como o roteiro salienta em sua cena
de apresentação, quando Franz chega a imaginar-se parte daquelas belas frases
lidas no jornal católico), aceitando ser engolfado na lama que o circunda. Em
seu primeiro dia, o perseverante protagonista é atendido por uma bela viúva,
que acaba utilizando-o para suprir sua carência emocional (o recente
falecimento do marido e a crise financeira), recompensando-o financeiramente.
Franz não questiona, pois ele não roubou aquele dinheiro, continuando firme em
seu objetivo. Otto reconhece sua malícia nos olhos do colega e parte em direção
à porta da viúva, expondo mais um dedo de Fassbinder em direção à hipocrisia
nos religiosos. Ele recrimina-a com um discurso moralista, por sua aventura
sexual, mas não vê problema algum em roubar seus poucos pertences de algum
valor, enquanto agride-a verbalmente.

A decepção com Otto faz Franz questionar sua batalha
interior por manter-se honesto, levando-o a um total desequilíbrio emocional.
Ele rompe todos os laços com a humanidade, fugindo para dentro de si mesmo aos
olhos de todos…

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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