Análise de “Berlin Alexanderplatz”, de Fassbinder – Capítulos 9, 10 e 11

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Episódio 9 – Das Eternidades entre os Muitos e os Poucos

Após a dor de saber que Mieze estava se prostituindo, Franz
busca algum conforto na presença daquele que foi um dos responsáveis pelo seu
acidente: Reinhold. Inicialmente assustado, acreditando se tratar de alguma
vingança, logo debocha do sofrimento de Franz, afirmando ter nojo de aleijados,
seres que, em suas palavras, são imprestáveis e deveriam morrer. O pobre homem
não somente aceita suas duras palavras, como afirma concordar com ele. Reinhold
reflete a atitude de Hitler, que desprezava os deficientes físicos, numa clara
demonstração do tipo de pensamento que possibilitou a ascensão do nazismo
naquela sociedade. O flashback do assassinato de Ida pelas mãos de Franz, neste
episódio é repetido duas vezes, com diferentes narrações emoff. O reforçar
deste momento pivotal serve para mostrar ao espectador que aquele homem que nós
acompanhamos, falível e simpático, também é capaz de cometer atos terríveis. A
segunda narração, uma conversa lúdica entre os personagens bíblicos Abraão e
Isaac, aborda diretamente o tema do sacrifício, recorrente ao longo de toda a
produção. Fassbinder trabalha o conceito de que no capitalismo, as classes
inferiores se sacrificam pelo bem das superiores. Algo que se intensifica no
segundo ato do episódio, em que Franz e Willy vão a um encontro político
socialista.

Episódio 10 – A Solidão cria Rachaduras de Loucura até nas
Paredes

Mieze e Eva, as duas mulheres mais importantes na vida de
Franz, iniciam o episódio com uma discussão que esconde insinuações de
lesbianismo. Mieze quer que Eva tenha um filho com Franz, já que ela não pode
ser mãe. Enquanto isso, o protagonista se encontra cada vez mais imerso em sua
autocomiseração, entregando-se à bebida. O cenário busca remeter ao estado
psicológico em que Franz estava quando assassinou Ida. Fassbinder filma como um
voyeur o embate sexual entre Franz e Mieze, que se inicia com os dois bebendo e
rolando pelo chão, até momentos em que pensamos que ele irá deixar a fera
dentro de si despertar. A forma como a cena é trabalhada, os movimentos pelo
cenário remetem a algo animalesco. Então é inserida neste contexto a presença
do rico cliente da jovem, que está interessado em torná-la uma amante fixa.
Franz chora como uma criança, evidenciando em suas palavras o retrocesso de
qualquer progresso psicológico que havia sido feito desde sua saída da prisão.
Entregue ao álcool e novamente trilhando o caminho do crime, ele precisa apenas
de um gatilho para destravar a fera que estava adormecida.

Episódio 11 – Saber é Poder e Deus Ajuda a quem Cedo Madruga

Em um gesto que insinua a homossexualidade entre o
protagonista e Reinhold, Franz o leva para sua casa e o esconde debaixo dos
lençóis de sua cama, para que ele visse seu encontro sexual com Mieze, uma
mulher decente. Além desta cena, existe outra na qual o subtexto homossexual é
latente, quando Reinhold conversa com Mieze e diz que Franz e ele já
compartilharam “coisas estranhas” no passado. A forma como ele diz a
frase, demonstra que existia mais do que as mulheres que ambos compartilhavam
nos episódios anteriores. Franz encontra o gatilho já citado, na forma de um
novo amor para Mieze, o jovem sobrinho do seu rico amante. Quando ela lhe
informa sobre seu encontro, o homem perde completamente o controle (sendo
assistido por Reinhold, que se escondia na cama), espancando a mulher. A cena é
trabalhada pelo diretor, para emular exatamente a cena do assassinato de Ida,
desde a forma como o corpo da jovem é atirado ao chão até a escolha da
iluminação, inclusive com a presença da senhora proprietária, que vigiava à
distância. Interrompida por Reinhold, a violência conduz ao momento catártico
onde Mieze explode em berros que vão gradativamente aumentando, até sua voz
falhar.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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