“Viver”, de Akira Kurosawa


Viver (Ikiru – 1952) 
Tive a oportunidade de rever recentemente esta obra de
riqueza e sensibilidade ímpares na História da Sétima Arte. Mesmo não tendo
sido novidade para mim, ainda não consegui me recuperar de seu impacto
emocional. Diferente de seus celebrados filmes com samurais, com um estilo vibrante
inspirado em John Ford, essa pérola na filmografia de Akira Kurosawa fala a língua
universal do humanismo. Qualquer cultura no mundo iria compreender totalmente a
sua mensagem.
O filme de 1952, com o roteiro inesquecível de Shimobo
Hashimoto, Hideo Oguni e do próprio diretor, conta-nos através da narração de
um Benshi (narradores do cinema mudo japonês) a história de Kanji Watanabe
(Takashi Shimura), um velho funcionário da prefeitura que descobre estar com um
câncer no estômago e que lhe resta pouco tempo de vida. Percebe que sua
existência não teve um objetivo, um propósito. Que ele dedicou-se de corpo e
alma ao seu trabalho burocrático e se esqueceu de amar e ser amado. Decide
então empenhar-se em criar um parque onde as crianças pudessem brincar, já que
a prefeitura sempre prometia, mas nunca realizava a construção. O seu esforço,
mesmo combalido pela doença terminal, ganha recompensa na realização de seu
sonho. A inspiração para o roteiro nasceu da inconformidade do diretor perante
a onipresente corrupção corporativa no Japão do pós-guerra, sentimento que iria
nutrir também seu futuro projeto “Céu e Inferno” (Tengoku To Jigoku, de 1963).
Não há como não se emocionar no lindo momento em que o
protagonista entoa uma singela canção, com uma voz grave que esconde toda sua
angústia, sentindo o peso de sua mortalidade nos ombros:
“A vida é breve,
Apaixonem-se, donzelas,
Antes que a flor carmesim desapareça dos seus lábios,
Antes que as marés da paixão esfriem dentro de você,
Para aqueles de vocês que sabem que não existe amanhã”.
Fugindo da pieguice com que o tema poderia se inundar, Kurosawa
insere toques de humor que nos fazem simpatizar mais ainda com o personagem
central. Takashi Shimura e sua constante dor física e emocional transparecem em
todas as cenas. As lágrimas brotam não por pena, mas sim por inveja da
dignidade humana que ele exala até o último momento. É o melhor exemplo de
morte honrada já transposta para o cinema. Somente quando descobriu que estava
morrendo é que ele decidiu viver. 
O filme foi lançado logo após o sucesso estrondoso de “Rashomon”,
mas foi considerado “japonês demais” pelos distribuidores internacionais, que
somente lançaram a obra oito anos depois. “Viver” é o Kurosawa mais humano, sensível e poético. Veja e
repense seus conceitos sobre vida, morte e realização pessoal. 

“Noites de Cabíria”, de Federico Fellini


Noites de Cabíria (Le Notti di Cabiria – 1957)
Caso você já tenha alguma vez sofrido uma rejeição amorosa,
você entenderá Cabíria. Caso alguma vez tenha olhado para dentro de si e
sentido um arrepio na coluna, enquanto percebe o deboche alheio, sentindo que o
mundo parece sorrir a cada lágrima que desce em seu rosto, fazendo-o desejar
chorar apenas para admirar a beleza do sorriso naqueles que lhe escarnizam,
você entenderá Cabíria. Ela representa a busca incessante pelo amor nos outros,
pelo sorriso de aprovação que muitas vezes não conforta tanto quanto deveria,
por um entendimento tácito entre o coração e a razão. Cabíria é aquela flor que
rompe o asfalto, desafiando todas as probabilidades, somente para aquecer-se ao
calor do sol. Federico Fellini é o maestro que habilmente conduz esta sinfonia,
esta ode ao amor não retribuído, com batutas envernizadas pela sua experiência
de vida. 
Sua amada Giulietta Masina vive esta prostituta que consegue
encontrar esperança mesmo após as maiores desilusões, acostumada ao som e fúria
de uma sociedade hipócrita, que a discrimina por fazer público algo que muitos
reservam aos recônditos de suas consciências. Uma alma que caminha pela noite
italiana exibindo sem pudor sua intensa fragilidade, como que ingenuamente
aguardando um cafuné que ninguém lhe reserva. Emocionante é a cena em que ela
pega a mão de um homem e a conduz ao rosto, acarinhando-se com a mão alheia, como
que se lhe bastasse este simples gesto para sentir-se humana. 

A confiança que se revela em seu olhar na brilhante cena
final, mesmo sabendo que o mundo à sua volta não irá se modificar, tampouco a
forma como a sociedade lida com sua incômoda presença, simboliza a mensagem que
Fellini nos intenciona passar com esta linda obra: “A única coisa que
poderei oferecer a meus personagens, sempre tão infelizes, será minha
solidariedade: assim poderei, por exemplo, dizer a um deles: escuta, não posso
lhe explicar o que não sei, mas em todo caso, amo-te o suficiente e te ofereço
uma serenata”.

Ensaio de Orquestra (1978)


Ensaio de Orquestra (Prova
d’Orchestra – 1978)
Dentre todas as analogias propostas por Federico Fellini em
sua carreira, nenhuma foi tão direta e simples. Sua pouca duração acentua a
feroz crítica social que o diretor cria, ao tentar compor um micro universo que
reflita com clareza o macro universo em que vivemos. O cenário escolhido foi
uma decrépita capela onde repousam túmulos centenários. A morte contracena com
a vida o afinar dos instrumentos.
Com a chegada dos músicos, começamos a distinguir atitudes
familiares. Aqueles mais sisudos, que levam com extrema seriedade sua profissão
se misturam aos brincalhões e aos rebeldes. Nós somos representados pela câmera
de uma equipe de televisão que registra o ensaio. Ao serem entrevistados, cada
profissional salienta a importância essencial de seu instrumento. A exuberante
pianista chega a afirmar com orgulho que o piano é superior porque não sai de
seu lugar, ela é quem precisa se aproximar dele e tocá-lo. Já um músico obeso
esquecido num canto diz que sua tuba é um instrumento solitário. Cada um
naquele recinto se sente o protagonista da orquestra.
A primeira meia hora de filme demonstra o que o diretor
italiano sabia fazer melhor: caricaturas perfeitas e com traços rápidos de
elementos da sociedade. Como toda caricatura, sempre exageradas, mas com muito
humor. Com a chegada do maestro e sua atitude autoritária, inicia-se um
movimento de rebelião que encontra seu ápice numa apoteose lúdica e fantástica,
envolvendo poeira, suor e lágrimas. Nas palavras do diretor: “uma parábola
ética para provocar certa vergonha no povo, para mostrar que a loucura
desorganizada das pessoas pode provocar a loucura organizada do Estado, a
ditadura”. 

A pequena obra fala acima de tudo, sobre a necessidade
humana de sobrepor o indivíduo ao coletivo. Afinal, como um personagem deixa
claro logo no início: todos nós tocamos nossos instrumentos apenas para nos
deleitarmos com a aranha, que no teto se balança em sua teia.

A Sétima Arte como Forma de Cura.

O comum transtorno conhecido por histeria é a matéria-prima
de várias indústrias que lucram diariamente com a fragilidade do ser humano. A
pessoa que sofre desta patologia incorre com incrível frequência à teatralidade, suprindo carências e fantasias com uma constante atuação, onde afirmam nunca
serem compreendidos ou amados, por conseguinte, acaba sendo “curada” pela mesma
teatralidade.
O incrível poder da sugestão vai muito além dos placebos
médicos ou das hipnoses, mostrando-se presente em variadas situações do nosso
dia a dia. Imaginem uma senhora amargurada que procura um centro de macumba,
para fazer um trabalho de magia negra contra uma ex-patroa, mas descobre que o
lugar parece com qualquer escritório normal, sendo atendida por um “pai de
santo” de gravata, sentado em uma mesa comum com apenas uma foto de sua
família. Imaginem um especialista em homeopatia entregando para uma de suas
pacientes um vidro de comprimidos, aconselhando de forma natural que se tome
apenas duas vezes ao dia. Onde está a teatralidade nestas situações? São
comuns, banais, humanas. Uma igreja sem rituais, um templo evangélico com um pastor
que discursa em tom baixo e monocórdio, um político que suba em um palanque de
bermudas, um cinema de luzes acesas. A teatralidade produz elementos que
sugestionam para o bem e para o mal. Religiões e seitas lucram fortunas
diariamente pelo poder da sugestão, fazendo o ser humano acreditar por alguns
minutos fazer parte de algo mágico, desassociando-se momentaneamente da cruel
experiência carnal diária. Dores somem ao toque das mãos de um pastor, para serem sentidas novamente horas depois. O choro de dias transforma-se em
gargalhadas por duas horas, enquanto sua mente vive a arte do cinema. Vícios de
anos sucumbem perante o ilusório efeito de comprimidos homeopáticos, sempre
acompanhados de um extenso “manual de instruções” que auxilia no ato da sugestão.
Quanto mais rebuscado e difícil o espetáculo, o “razzle dazzle”, maiores são as
chances de surtir efeito. A duração do mesmo pode variar de horas até anos,
dependerá da motivação da pessoa. A Sétima Arte utiliza a sugestão como
elemento essencial. O cinéfilo investe seu dinheiro no ingresso, da mesma forma
que o crente investe o seu dinheiro em sua crença, buscando um tipo de
recompensa emocional instantânea. O dinheiro do cinéfilo mantém a indústria de
cinema funcionando, assim como o dinheiro do crente mantém os carros importados
e as mansões de seus pastores. Tudo é uma questão de prioridades. Conheço casos
de suicidas saírem de sessões de cinema desistindo de darem fim às suas vidas,
assim como casos de donas de casa que saem de um culto evangélico acreditando
estarem curadas de tumores malignos. O que existe de comum nestes casos? O
poder da sugestão.
Finalizo com o relato de um fato curioso, que envolve a
realização do documentário “The Quiet One” (1948), como forma de agregar na
reflexão que proponho nesse texto. O projeto narrava a vida conturbada de uma
criança negra no Harlem, rejeitada pelos pais e pela sociedade. A produtora
Janice Loeb precisava fazer com que o jovem demonstrasse em uma cena
importante, uma expressão muito específica de angústia, simbolizando o momento
em que o menino sente estilhaçar sua alma ao ser rejeitado pela mãe. A cena no
roteiro seguia desta forma: o menino abandonado não se aguenta de
felicidade ao poder matar a saudade de sua mãe, visitando-a na casa onde ela
mora com o atual marido. A mãe abre a porta e recebe friamente aquele rosto
desamparado, mas ainda assim esperançoso, que sorri para ela. Ela se dirige a
ele sem nenhum traço de paixão, uma frieza mortal, destruindo a esperança do
menino, que se vê envolto pela tristeza. Como conseguir fazer aquela variação
de sentimentos tão radicais brotarem naquele menino? Além disso, como conseguir
trabalhar essa cena de forma a sugestionar a emoção certa no público? Não
poderia ser algo caricato ou teatral, pois a mente do espectador trabalharia da
mesma forma que em qualquer dramalhão de Hollywood, inconscientemente sabendo
que são artistas atuando. Janice então solucionou o problema da seguinte forma:
deixou o menino passando fome durante algum tempo, depois ofereceu a ele uma
suculenta torta de maçã (o olhar do menino ao ser recebido por sua mãe na porta),
retirando-a de suas mãos no exato momento em que ele intencionava saciar sua
fome (a tristeza no semblante dele ao perceber a frieza na voz da mãe). Neste
processo a câmera seguiu captando tudo, bastando que ela depois editasse
conforme o roteiro pedia. Criou-se a fonte perfeita para sugestionar a emoção
que o diretor Sidney Meyers ambicionava em seu público. Assim como quem sofre
de histeria sente intensa admiração pelos que atuam na medicina (representam
inconscientemente “a cura”, devidamente imersos em rituais, que vão desde o
branco na vestimenta até a escrita única dos doutores, difícil de entender), os
cinéfilos buscam nos projetos dos diretores, uma realização pessoal, uma
resposta, uma cura.

Sobre os que lucram com o racismo…

O ator Morgan Freeman tempos atrás deu uma declaração
inteligente ao ser abordado sobre racismo. Quando perguntado sobre a melhor
forma de confrontá-lo, respondeu sem titubear: “não o mencione”. Ele também
afirmou que considera ridículo o conceito por trás de um “Mês da Consciência
Negra”, pois com sua existência apenas salienta o preconceito. Não existe “Mês
da Consciência Branca” ou um “Mês da Consciência Judaica”, então qual a razão
de resumir toda a importância dos negros na fundação dos Estados Unidos em
apenas um mês? Psicologicamente tendemos a conferir homenagens simbólicas ao
que consideramos diferente, posto que o que consideramos natural, nós
simplesmente absorvemos em nossa rotina.
O “Dia do Índio” e o “Dia Mundial do Orgulho Gay” existem,
ainda que a violência e o desrespeito contra índios e homossexuais continuem
sendo exercidos com a mesma contundência em nossa sociedade. O racismo é um
preconceito que nasce, como todos, da ignorância, tendo como base o discurso de
que negros são diferentes de brancos. Nos restaurantes do sul dos
Estados Unidos, na década de cinquenta, eram separadas as mesas para brancos e
as mesas para negros, banheiros para negros e banheiros para brancos. Quando reforçamos
a equivocada diferença, por meio de datas ou favorecimentos
especiais, posicionamos um tijolo a mais no muro da segregação. A única forma
de acabar com o racismo é eliminar qualquer tipo de hipócrita diferenciação, ou
como Morgan Freeman muito bem opinou, parando de falar no assunto. Infelizmente
este erro muitas vezes é cometido pelos próprios negros, que salientam a
diferença, ao invés de defenderem o fato de que somos todos iguais. Aquele que
veste uma camiseta com dizeres que afirmam algum senso exagerado de orgulho
negro, inconscientemente está agindo ideologicamente de forma tão
extremista, não tão violenta, quanto um neonazista. O racismo foi alimentado
por décadas pela diferenciação, então a única forma de erradicá-lo é alimentar
a igualdade.
Continuando no tema, quando Quentin Tarantino lançou seu faroeste “Django Livre” (Django Unchained), que tem como herói um
escravo negro (vivido por Jamie Foxx), ele foi alvo de diversas
críticas que acusaram o filme de racista. O diretor negro Spike Lee defendeu o
tolo argumento: “não vi, não verei e não gostei”. Lee fez carreira salientando
as diferenças, um tipo de blaxploitation panfletário, enquanto Tarantino
brinca com o senso de igualdade (entre gêneros cinematográficos, principalmente),
resumindo seu projeto a um conto de vingança com referências ao Western
Spaghetti italiano. Em um ponto de vista de extrema liberdade criativa,
fico pensando se, diferente de Tarantino, Lee se preocupa com a erradicação do
racismo, pois não teria mais pelo que lutar/lucrar. Assim como os programas de
televisão vespertinos que se nutrem da violência, que torcem para que o incêndio se
alastre, para que a audiência aumente. Infelizmente esta reação apatetada de
Lee acabou validando outros esforços similares, como os protestos que acabaram
causando a interrupção da fabricação de bonecos com personagens do filme. O
argumento utilizado foi o de que esses bonecos são altamente ofensivos aos
ancestrais dos negros e à comunidade afro-americana. No ponto de vista dos que
reclamaram, os bonecos representariam uma zombaria à escravidão. O real
achincalhamento reside no ato de fingir não ver, desviar o olhar da realidade
para uma ilusória bolha de proteção, cuja camada frágil não resiste sequer à
gota da chuva.

Retirem das prateleiras os bonecos dos negros heróis do
Velho Oeste, infelizmente ainda raros, deixando espaço para os usuais bonecos
de cowboys e super-heróis brancos. Rejeitando a mescla de brancos e
negros, inclusive nas lojas de brinquedo, com a desculpa de que se busca
preservar a história dos negros, os grupos reclamantes parecem demonstrar
preferência pela sustentação da diferença, como se a consequência dela fosse mais interessante para eles que os esforços por se homogeneizarem. O racismo
será uma palavra extinta quando, tanto brancos quanto negros, perceberem que
ela simboliza uma diferença inexistente.

“O Evangelho Segundo São Mateus”, de Pasolini


O Evangelho Segundo São Mateus (Il Vangelo Secondo Matteo
– 1964)
A mulher que chora desesperada ao testemunhar a crucificação
do filho, na cena mais bonita do filme, é a mãe do diretor Pier Paolo Pasolini.
Seu filho caçula na vida real, um jovem idealista, havia sido assassinado em
1945 por titistas num conflito entre dois grupos de partigiani. O registro
eterno de sua dor somente mantém sua contundência visual por resgatar uma
emoção real. E o sentimento genuíno é abraçado pela usual opção do
poeta/diretor pelo naturalismo, utilizando pessoas do povo no elenco, cujos
rostos castigados são procurados pela câmera com o afã de um arqueólogo, como
que buscando extrair de cada vinco a intenção que nenhuma linha de roteiro
poderia criar.
O Jesus de Pasolini, convicto ateu, perturba os líderes de
sua época, destruindo-os em longas batalhas argumentativas. Ele é corajoso,
firme, porém terno, mas sempre consciente da força de seus atos. Em uma mudança
de atitude radical, quando comparado a outros filmes no mesmo tema, o
protagonista vivido pelo espanhol Enrique Irazoqui é um revolucionário
desarmado que faz tremer mais por suas palavras do que por seus feitos
miraculosos, que são filmados até com indiferença, como se ele os utilizasse
apenas para capturar a atenção daquele povo ignorante, na esperança de fazê-los
entender sua mensagem. E esse conceito realista se reflete no cenário escolhido
pela produção. Quando analisamos o contexto do cinema italiano da época, com o
sucesso dos extravagantes épicos “sandália e espada” realizados nos estúdios da
Cinecittà, torna-se ainda mais ousada a opção do diretor por caminhar na
contramão, apostando em um projeto rodado todo em locações reais, onde a dura ação
do tempo cria um espetáculo visual de ruínas em labirínticas cidades.
O sermão da montanha, visualizado numa série de jump cuts, atravessando
noite e dia, chuva e sol, nunca foi retratado de forma tão ideologicamente impactante.
E impactar era o desejo principal do diretor, que escolheu unir em sua trilha
sonora hinos tradicionais gospel, como “Sometimes i feel like a motherless
child
” (algumas vezes me sinto como um órfão), com instrumentos tribais
africanos, na versão da Missa Latina. É interessante perceber o impacto que o breve
encontro com o Papa João XXIII, dois anos antes, surtiu no autor ateu, que
acabou dedicando a obra ao líder religioso. Sua escolha por manter fidelidade
total ao texto do evangelho é parte da crítica que ele insere, já que isso realça
em vários momentos o quão metafóricos são alguns dos eventos relatados. O
roteiro evidencia o aspecto anárquico do homem que a História manipulou com
interesses escusos. Ele expõe em seus discursos uma antítese do que os sacerdotes
vêm realizando em seu nome ao longo dos séculos, com clara denúncia aos males
de uma vida controlada por dogmas.
***

O filme está sendo lançado pela distribuidora “Versátil” em
DVD e Blu-ray, com imagens restauradas e extras espetaculares, como dois
documentários sobre o diretor. Filme essencial na coleção de todo cinéfilo que
se preze.

TOP – Filmes Sobre Política (Parte 1 de 3)

Não é muito fácil estipular um mérito que identifique
especificamente um filme político, já que a política é um elemento que move
tramas dos mais diversos gêneros. “O Poderoso Chefão – Parte 2”, por exemplo, é
profundamente político, mas devido à qualidade do projeto, ele acabaria sendo
colocado numa posição de destaque, tomando a frente de obras mais
identificáveis no contexto proposto pela lista. Ele não entrou na lista final. Então
eu procurei ser o mais objetivo possível, organizando com base em meus
favoritos, aqueles que eu revi e se mantiveram imperturbáveis à ação do tempo.
Tentei abraçar vários gêneros e propostas, chegando a um total de vinte produções.
Nessa primeira parte os comentários serão breves.
Esses são os meus favoritos:
20 – V de Vingança (V for Vendetta – 2005)
Na paisagem futurista de uma Inglaterra totalitária, o filme
conta a história de uma pacata jovem que é resgatada de uma situação de vida e
morte por um homem mascarado, conhecido apenas como “V”. Incomparavelmente
carismático e extremamente habilidoso na arte do combate e destruição, ele
inicia uma revolução quando convoca seus compatriotas a erguerem-se contra a
tirania e opressão.
As máscaras de Guy Fawkes nas manifestações que tomaram o
Brasil e o mundo de assalto no ano passado já bastariam para mensurar o impacto
político da obra. O mérito é do escritor Alan Moore, responsável pelo original
nos quadrinhos, mas é inegável que o filme levou o conceito para um público
muito maior.

19 – Bananas (1971)
Fielding Mellish (Woody Allen) está apaixonado por Nancy,
uma ativista política. Ela não o corresponde, porque deseja como companheiro um
grande líder nacional. Fielding, então, foge para São Marcos, onde se alia aos
rebeldes locais, tornando-se Presidente do País.
A metralhadora verborrágica e pantomímica de Woody Allen, em
uma de suas obras iniciais mais engraçadas, se volta dessa vez para a política
ditatorial da América do Sul, compondo o revolucionário cujo rosto verdadeiramente
deveria estampar as camisetas dos jovens. 


18 – Frost/Nixon (2008)
Por três anos, depois de renunciar ao cargo de presidente
dos Estados Unidos, Nixon permaneceu em silêncio. Mas, no verão de 1977, o
rígido e perspicaz comandante-chefe deposto aceitou participar de uma
entrevista intensa para confrontar as perguntas sobre seu tempo na Casa Branca
e o escândalo do Watergate que o levou à renúncia. Nixon surpreendeu a todos ao
selecionar Frost como o apresentador a quem iria confessar tudo com
exclusividade. Da mesma forma, a equipe duvidava da habilidade de seu chefe
para se segurar. Quando a câmera foi ligada, uma batalha entre os dois começou.
O diretor Ron Howard consegue captar a tensão crescente na histórica
entrevista de Nixon ao subestimado David Frost. Um “jogo de xadrez”
argumentativo de um homem experiente na arte da mentira e nos jogos políticos, enfrentando
uma personalidade midiática sem muita respeitabilidade em sua área.

17 – Um Grito de Liberdade (Cry Freedom – 1987)
Nos anos 1970, apartheid na África do Sul, Donald Woods é um
jornalista branco que se torna amigo de Stephen Biko, o importante militante
pelos direitos dos negros. Quando Biko é morto na prisão em 1977, Woods percebe
a necessidade de divulgar a história do ativista, a perseguição sofrida, a
violência contra os negros e a crueldade do regime.
A direção meticulosa de Richard Attenborough em um dos
melhores “filme-denúncia” da década de oitenta, resgatando a memória e os
ideais pacifistas do ativista anti-apartheid Steve Biko, interpretado com
maestria por Denzel Washington.

16 – Adorável Vagabundo (Meet John Doe – 1941)
Quando Henry Connell (James Gleason), seu editor, a demite,
Ann Mitchell (Barbara Stanwyck), uma jornalista, publica sua última matéria,
uma carta criada por ela e assinada por John Doe comunicando que cometerá
suicídio no Natal em protesto contra corrupção e a pobreza, que invadem o país.
Isto gera várias reportagens, nas quais Ann denuncia as injustiças sociais. Tal
fato leva o jornal a procurar alguém para representar John Doe e o escolhido é
Long John Willoughby (Gary Cooper), um vagabundo. Mas a popularidade de John
cresce de tal maneira que os fatos saem do controle.
Uma poderosa crítica à política americana em pleno início da
década de quarenta. Frank Capra discute o poder manipulativo da mídia, dez anos
antes de “A Montanha dos Sete Abutres” (de Billy Wilder). Pioneiro em sua
coragem, ainda que a obra mantenha o estilo esperançoso do diretor,
especialmente em seu desfecho.

15 – A Confissão (L’Aveu – 1970)
Em um país comunista do Leste Europeu, Gerard, vice-ministro
de Relações Exteriores, é inexplicavelmente preso por seus superiores. No
interrogatório, o objetivo é lhe arrancar, a qualquer custo, a confissão de
crimes pelos quais ele não tem a menor ideia de estar sendo acusado.
O filme inicia como um thriller político, com o
protagonista percebendo estar sendo vigiado por estranhos onde quer que vá, mas
assim que o herói Kafkiano (assim como em “O Processo”, London se vê
pagando um crime que desconhece que cometeu) inicia seu calvário, sendo
algemado, vendado e forçado a caminhar em uma cela, o roteiro procura nos fazer
sentir sua fome, sua sede e sua angústia por tentar conquistar alguns minutos
de sono. Seus carrascos clamam por uma confissão. A forma como Costa-Gavras evidencia
a cruel criatividade dos torturadores e a transformação física (e, ainda mais
interessante, a psicológica) do protagonista, são os pontos altos da obra.

14 – Muito Além do Jardim (Being There – 1979)
Chance (Peter Sellers), um homem ingênuo, passa toda a sua
vida cuidando de um jardim e vendo televisão, seu único contato com o mundo.
Ele nunca entrou em um carro, não sabe ler ou escrever, não tem carteira de
identidade, resumindo: não existe oficialmente. Quando seu patrão morre, é
obrigado a deixar a casa em que sempre viveu e, acidentalmente, é atropelado
pelo automóvel de Benjamin Rand (Melvyn Douglas), um grande magnata que se
torna seu amigo e chega a apresentá-lo ao Presidente (Jack Warden).
Curiosamente, tudo dito por Chance ou até mesmo o seu silêncio é considerado
genial. 
Além de todos os momentos brilhantes no filme, nunca me
esqueço da linda cena em que Chance deixa sua casa pela primeira vez, ao som de
“Also Sprach Zarathustra”. Mas diferente da obra-prima de Kubrick “2001 – Uma Odisseia
no Espaço”, aquele homem puro e honesto estava prestes a estabelecer contato
com uma raça evolutivamente inferior: políticos.
13 – Dr. Fantástico (Dr. Strangelove – 1964)
Um general completamente insano, Jack Ripper, ameaça,
durante uma reunião entre nações, neutralizar a U.R.S.S. com bombas nucleares,
o que poderia gerar um Holocausto fulminante na Terra. Todos os outros membros
fazem de tudo para evitar. Entre eles está o genial ator Peter Sellers, que
retrata três das pessoas que podem impedir a tragédia: o Capitão britânico
Mandrake, o presidente norte-americano Merkin Muffley e o alemão bêbado Dr.
Fantástico.
Stanley Kubrick audacioso no auge da Guerra Fria, com a
inesquecível cena do cowboy montado na ogiva nuclear, símbolo precioso da
ideologia política americana. Impossível esquecer a clássica frase: “Vocês não
podem brigar aqui. Isso é uma Sala de Guerra”.

12 – A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang –
2004)
Traudl Junge (Alexandra Maria Lara) trabalhava como secretária
de Adolf Hitler (Bruno Ganz) durante a 2ª Guerra Mundial. Ela narra os últimos
dias do líder alemão, que estava confinado em um quarto de segurança máxima.
O filme nos coloca na mente do ditador, refletindo o colapso
do sistema político em suas ações cada vez mais intempestivas. Um ótimo retrato
de como os partidos e nações inteiras podem confundir ufanismo com discurso e
guerra com ação política.

11 – O Grande Ditador (The Great Dictator – 1940)
Em meio a Segunda Grande Guerra Mundial, judeus estavam
sendo esmagados pelo preconceito alemão. Chaplin, genialmente, interpreta os
dois protagonistas da história: o ditador Adenoid Hynkel (numa clara referência
a Hitler) e o barbeiro Judeu.
Somente o discurso final de Chaplin já serviria como mérito
para a inclusão do filme na lista. O gesto político mais sincero e contundente
já filmado na história do cinema, nascido da angústia de um artista apaixonadamente
íntegro perante uma sociedade cada vez mais corrompida. 

Continua…

TOP – Comédias Sexuais Adolescentes (Parte 1 de 2)

Como era maravilhoso ser adolescente na década de oitenta.
Quem viveu a época, sabe a sensação de ligar a televisão de tarde, após uma
manhã estafante na escola, e escutar aquela trilha sonora eletrônica
característica, que sempre emoldurava altas paqueras em Fort Lauderdale e Miami
Beach. Aquelas belas garotas de biquíni e a consequente nudez eventual, que
torcíamos para que ocorresse com mais frequência. Morríamos de rir com as
tentativas desastradas dos rapazes, sem nos preocuparmos com a pobreza dos roteiros.
Estávamos num estágio anterior aos “Emmanuelle’s” das madrugadas da Rede
Bandeirantes, sendo presenteados de vez em quando pelas pornochanchadas
nacionais que o SBT exibia nas noites de Domingo, como a inesquecível “Clara
das Neves” vivida por Adele Fátima. Não tínhamos internet, nem TV a cabo. As
comédias sexuais adolescentes eram verdadeiros eventos quando eram exibidas nas
tardes, forçando-nos a atrasar a entrega dos deveres de casa do dia seguinte.
Maldito “politicamente correto”.
Pensando nessa época maravilhosa, passei alguns dias revendo
vários filmes do gênero. Alguns que eu achava muito bons outrora, como “Clube
dos Cafajestes”, “Primavera na Pele”, “A Vingança dos Nerds” e “Uma Escola
Muito Especial, Para Garotas”, perderam pontos nessa revisão. “O Último
Americano Virgem”, uma cópia exata do israelense “Sorvete de Limão” (de 1978), dirigido pelo mesmo Boaz Davidson, foi outro que não sobreviveu tão bem ao teste do tempo. Alguns eu considerei
limpos demais, como “Namorada de Aluguel” e “Loverboy”, o que resultou na
exclusão deles do TOP 10, ainda que tenham ocupado posições próximas. Os que eu
selecionei possuem elementos característicos, como certa grosseria no humor,
audácia e sensualidade. E, claro, são garantia de um ótimo entretenimento, tão
divertidos hoje quanto na época em que eu os assistia com o uniforme da escola.
Esses são os meus favoritos:
10 – As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless – 1995)
Em Beverly Hills, uma adolescente, filha de um advogado muito
rico, passa seu tempo em conversas fúteis e fazendo compras com amigas
totalmente alienadas como ela. Mas a chegada do enteado de seu pai muda tudo,
primeiro por ele criticá-la de não tomar conhecimento com o “mundo
real” e em segundo lugar por ela descobrir que está apaixonada por ele.
Normalmente os filmes do gênero se focam nas aventuras dos
rapazes, então é válido celebrar o esperto roteiro de Amy Heckerling, que emula
a sensibilidade de John Hughes ao retratar as angústias adolescentes femininas.
O filme capta com perfeição a juventude consumista da década de noventa. Alicia
Silverstone encarna a alienação da geração que recebia todos os
cartões de crédito, mas carecia da atenção de seus pais. Uma legião de zumbis
que peregrinavam diariamente aos Shopping Centers, com trejeitos e expressões
calculadas e padronizadas.

9 – A Última Festa de Solteiro (Bachelor Party – 1984)
Rick Gasko, um motorista de ônibus escolar, está a ponto de
se casar com Deborah Julie Thompson. Os pais dela o odeiam e o ex-namorado dela
também, assim, usando o dinheiro que eles têm, planeja criar uma situação que
faça com que Debbie, desista de Rick. Para complicar ainda mais, os amigos dele
resolvem promover uma despedida de solteiro que, como todas as despedidas de
solteiro, é em um hotel caro, com muita bebida, prostitutas e filmes
pornográficos.

Já na primeira sequência, onde acompanhamos Tom Hanks
dirigindo o ônibus escolar católico mais politicamente incorreto da cidade,
percebemos estar diante de um roteiro audacioso. Sem concessões, as piadas
grosseiras vão num crescendo, correndo riscos e sendo amparadas pela química do
elenco. “Se Beber, não Case”, filho legítimo desse projeto, mesmo tendo sido realizado
décadas depois, não consegue superar essa pequena gema em seu gênero.

8 – American Pie (1999)
A história de quatro amigos adolescentes que firmam um pacto
totalmente “nerd” semanas antes de se formarem no ginásio. Segundo
esse pacto, todos eles deveriam transar com alguma mulher antes de se formarem,
ou até exatamente a noite de formatura. 

Após várias sequências fracas, muitas para o mercado de
vídeo, podemos cometer o erro de banalizar a importância dessa comédia de baixo
orçamento. Mas basta analisá-la em contexto, para constatarmos que o sucesso
dela foi crucial no interesse dos produtores em resgatar a “comédia sexual
adolescente”, que estava em coma durante a década de noventa. Sem “American Pie”,
com certeza não teriam recebido sinal verde as comédias de Judd Apatow. O
projeto também redirecionou a carreira de Eugene Levy (que vive o pai do
protagonista), um excelente comediante que nunca havia sido realmente abraçado
pelo grande público. Jason Biggs chegou a interpretar o protagonista de “Igual
a Tudo na Vida”, sob a direção de Woody Allen. O filme serviu como uma
nostálgica homenagem à fórmula, com uma ternura poucas vezes vista no gênero.

7 – Férias da Pesada (Fraternity Vacation – 1985)
Durante um feriado, dois jovens vão à caça de garotas em
Palm Springs, eles levam o último dos nerds, Wendell, somente porque seus pais
pagariam toda a viagem. 
Também conhecido como “A Primeira Transa de Um Nerd” e “Quando
a Turma Sai de Férias”, esse eu perdi a conta de quantas vezes assisti quando
adolescente. Eu me identificava demais com o personagem nerd vivido por Stephen
Geoffreys (que fez “A Hora do Espanto” e, anos depois, virou ator pornô
homossexual), mas não tinha amigos populares bacanas como os dele. É legal
perceber a presença, numa ponta, do Sr. Tanner da série “Alf – O ETeimoso”, Max
Wright, como o pai do jovem nerd. Tim Robbins, antes da fama por “Um Sonho de
Liberdade”, interpreta um dos amigos do garoto. Dentre as cenas que continuam
muito engraçadas, vale ressaltar o encontro do nerd com os pais de sua primeira
namorada, vivida por Amanda Bearse (de “A Hora do Espanto” e da série “Married
With Children”), além do hilário momento em que os dois rapazes populares se
preparam para dividirem a cama com duas beldades, Barbara Crampton e Kathleen
Kinmont. Existiam outros filmes do gênero melhores, mas nutro um carinho
especial por esse, talvez porque naquela época eu sonhava que aparecesse alguma
garota na turma como a belíssima Sheree J. Wilson, que visse além dos óculos e
da timidez desajeitada do nerd.  

6 – Mulher Nota Mil (Weird Science – 1985)
Gary Wallace e Wyatt Donnelly são dois adolescentes nada
populares com o sexo oposto. Eles resolvem criar no computador de Wyatt, a
mulher que eles acreditam ser a ideal. Uma tempestade dá vida a ela, que é
“batizada” como Lisa, que é sexy, bonita, determinada, fiel aos seus
criadores, mas com um modo de ser que deixa desconcertados todos que cruzam o
seu caminho.

Não podia faltar na lista uma obra do mestre John Hughes,
ainda que seus projetos fossem refinados demais para o que estávamos
acostumados no gênero. O roteiro falava diretamente ao desejo de cada
adolescente introvertido, mostrando dois garotos criando no computador a mulher
ideal, com a sensualidade absurda de Kelly LeBrock, que já havia desconcertado
Gene Wilder em “A Dama de Vermelho”, no ano anterior. Como era característico,
não podia faltar na trilha sonora uma contribuição do Oingo Boingo, gênese de
Danny Elfman, parceiro constante de Tim Burton. A grande tirada do filme é a
Lisa, desajustada na sociedade (como o monstro de Frankenstein), ajudando os
garotos a serem respeitados por seus colegas. E é bacana encontrar, numa ponta,
um jovem Robert Downey Jr. Mas a cena que lembro, sempre que penso no filme, é
aquela em que os dois garotos (Anthony Michael Hall e Ilan Mitchell-Smith)
estão tomando banho com Lisa. Todos os garotos da turma, no dia seguinte, só
falavam nisso…

Continua…

Razzle Dazzle – “The Rocky Horror Picture Show”


The Rocky Horror Picture Show (1975)

“Não sonhe, seja!”

Sempre que revejo o filme eu fico surpreso com a audácia do roteiro
de Richard O’Brien (que interpreta o corcunda Riff Raff), seu desprezo por
todas as convenções dos gêneros que homenageia, como os filmes B de ficção
científica e terror, resultando em uma experiência sensorial única. Você pode
terminar a sessão sem ter entendido absolutamente nada, confuso como se tivesse
sido acordado de um sonho exótico.
E acredito que seja essa sensação de desorientação que
defina o projeto, mais do que a qualidade questionável de suas canções ou o
subtexto que confronta o glam rock de músicos como David Bowie, com os
roqueiros da década de cinquenta, com brilhantina nos cabelos e certa ingenuidade
em sua rebeldia. A cena em que Frank N’ Furter, vivido por Tim Curry, persegue o
personagem de Meat Loaf com um machado, expressa sem sutileza alguma essa simbologia
da “passagem de bastão”. Eddie, com sua jaqueta de couro, topete e motocicleta,
havia sido liberado de sua criogenia por acidente, deslocado nesse novo mundo, mas
acaba encontrando a morte pelas mãos de Frank. Como se já não bastasse esse
desfecho sangrento para o intérprete de “Hot Patootie – Bless My Soul”, seu
corpo ainda servirá de alimento no jantar. Uma curiosidade interessante é que
nessa cena, nenhum dos atores sabia que o corpo estava escondido abaixo do pano
da mesa, fazendo com que eles reagissem naturalmente assustados no momento da
revelação.  
De certa forma, podemos enxergar essa obra como uma versão
sem metáforas de praticamente todos os grandes clássicos de terror. Em “Drácula”,
por exemplo, o ato de sugar o sangue servia como uma metáfora para o ato
sexual. Seguindo esse raciocínio, podemos imaginar o casal extremamente ingênuo
formado por Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon), como sendo
representativos daquela sociedade reprimida em que “Drácula” foi elaborado. Frank
e seus amigos representam o elemento liberador, polissexual. Na época em que
foi lançado, o preconceito aos homossexuais e sua busca por direitos era um
problema social grave, assim como a repressão sexual nas mulheres em uma
sociedade machista. Imaginem vocês o impacto de cenas corajosas como a de Curry
revelando-se como um “sweet transvestite” (doce travesti) ou o encontro de
Janet com a marombada criatura da noite, vivida por Peter Hinwood, onde ela se
mostra feliz por finalmente aceitar seus desejos lascivos.
Como não rir nas cenas em que Curry, impagável, ilude o
casal para que passem a noite com ele? Ambos, após descobrirem a real
identidade do visitante noturno, acabam aceitando a sedução, mas somente após
Frank prometer não contar nada para aquele que está sendo traído. Nessa
brincadeira, o roteiro aponta o dedo para a hipocrisia humana e questiona o
conceito de imoralidade. E, chegando ao final, percebemos que o radicalismo
também cobra seu preço, quando todos os personagens acabam sendo padronizados à
semelhança de seu “criador”, que alcançou um estado incontrolável de
decadência. Claro, tudo isso em uma cena que remete aos musicais de Busby
Berkeley, com Frank numa piscina simbolicamente se posicionando como a ligação
entre “Deus” e o Homem, sobre uma boia salva vidas do RMS Titanic. Ao final,
Brad e Janet irão renascer livres de seus preconceitos e medos, sendo
reinseridos na sociedade como bebês engatinhando com dificuldade.

Acompanhe as instruções do criminologista (Charles Gray) e
faça o “Time Warp”, sempre que o mundo parecer chato demais. 

Faces do Medo – “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968)


A Noite dos Mortos-Vivos (Night of The Living Dead – 1968)
Existem filmes sobre zumbis que precedem a obra seminal de
George Romero, como “A Epidemia de Zumbis”, de 1966, mas um dos motivos que
tornaram “A Noite dos Mortos-Vivos” (e suas sequências), ao longo do tempo,
mais do que um produto de seu gênero, foi sua utilização do tema como metáfora
para problemas sociais, como o racismo. Não é por acaso que a trama se passa em
uma cidade sulista americana.
Lançado pouco tempo depois do assassinato de Martin Luther
King, no intenso fogo cruzado racial em uma América que ainda dividia a
utilização de banheiros públicos pela cor da pele, o filme era protagonizado
por Duane Jones, um negro. Sua apresentação, por volta dos quinze minutos de
filme, insinua esse elemento ideológico. Desesperada, a jovem Barbra (Judith O’Dea)
percebe que os zumbis estão se aproximando da casa, então ela corre para fora
do local, assustando-se então com as luzes do carro que se aproxima. A câmera
nos apresenta Ben (Jones) no mesmo ângulo utilizado para enquadrar os zumbis.
Por alguns segundos, assim como a jovem, somos levados a crer que ele é um dos
mortos-vivos.
Negros no cinema americano, até aquele momento, haviam sido
utilizados com destaque apenas em projetos que abordavam exatamente o tema
racial. Com exceção talvez de “O Caso Bedford” (de 1965), com Sidney Poitier. No
próprio gênero, como em “Zumbi Branco” (de 1932) ou “Ouanga” (de 1936), os
negros eram utilizados como escravos zumbis ou feiticeiros malignos praticantes
de Vodu. A ousadia de Romero, indo contrário ao roteiro, que tratava Ben
(caucasiano) como um estereótipo, foi permitir que Jones retrabalhasse os
diálogos, inserindo atitude e tornando o personagem narrativamente mais interessante,
um homem comum que simplesmente reage por instinto de sobrevivência. Ele compôs
inconscientemente um amálgama do orgulho do Virgil Tibbs de “No Calor da Noite”
com a agressividade dos heróis da posterior era “Blaxploitation”. Em uma
situação de pânico da jovem, ele chega a agredi-la sem pensar duas vezes, numa
atitude que seria comum em “Shaft” ou “Super Fly”, mas um risco tremendo em sua
época. Sua morte ao final, sendo abatido friamente por engano, acentua ainda
mais esse discurso.
Os zumbis hoje em dia são parte inerente da cultura popular,
utilizados generosamente em todas as mídias. A qualidade da maquiagem está cada
vez melhor e eles até correm, cada vez mais ameaçadores. Mas não acredito que
essas produções serão lembradas no futuro, pois carecem do elemento da
metáfora. A crítica ao consumo exacerbado em “O Despertar dos Mortos” e ao
militarismo em “Dia dos Mortos”, foram negligenciadas nas suas respectivas
refilmagens, que priorizaram o puro entretenimento. É muito bom revisitar a
obra original de Romero e constatar sua coragem, ao mesmo tempo em que
refletimos se não nos tornamos exatamente os zumbis alienados que ele vislumbrava.
O apocalipse zumbi, ao que tudo indica, já está ocorrendo…
***
 
A excelente editora “Darkside Books” está lançando uma obra
imperdível para os fãs do cinema de terror, a novelização de “A Noite dos
Mortos-Vivos”, escrita por John Russo, com a adição do texto integral da
continuação do filme, que não chegou a ser filmada, intitulada: “A Volta dos
Mortos-Vivos” (sem ligação com o “terrir” homônimo). Acabamento em capa dura,
com o refinamento já conhecido pelos leitores da editora. Item obrigatório na
coleção de qualquer cinéfilo.