Woody Allen – Zelig

Após um longo período sabático, em que cheguei a ficar
enjoado de tanto assistir o Lee Van Cleef atirando, retorno com o resultado do “Desafio
Cultural – Woody Allen
”, esse inquestionável marco na história das redes sociais.
A ideia do desafio era criar algumas linhas (ou algo mais elaborado) cômicas utilizando
pelo menos dois personagens que eu havia criado para o especial, citando em
algum momento o nome do homenageado. Minha conta de e-mail não resistiu à
inundação de participantes, tive a constatação prática do quanto o brasileiro
realmente ama ser instigado a escrever. Foi um trabalho hercúleo decidir entre
o calhamaço de folhas impressas, mas o seleto júri composto apenas por mim
mesmo chegou a uma decisão…
 
E a vencedora foi: Adriana Garcia. Ela já recebeu em sua
casa, com todas as despesas pagas, o DVD de “Sonhos de Um Sedutor” (numa parceria com a distribuidora “Classicline”) e meu livro “Devo
Tudo ao Cinema”. Irei reproduzir agora um trecho de seu texto:
“No texto do Octavio (em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) não
há a descrição dos personagens. Sempre que leio, imagino como são. Minha Annie
Hall (ex-namorada) e meu Alvy Singer (escritor) seriam interpretados por Audrey
Hepburn e William Holden, repetindo a dupla de Quando Paris Alucina, mas com direção
de Woody Allen. Atemporal. Dia seguinte, no mesmo cenário que se repete todas
as noites, quarto do escritor desarrumado, mesa do computador com lixeira
repleta de papéis, cama não desfeita. O escritor levanta-se, olha desanimado para
a plateia, hoje nem seus pais estão presentes, aniversário de um primo
distante. Observa um senhor cochilando na última fila, um casal com cara de
tédio, mais três ou quatro pessoas.

Cansado daquilo tudo, de repente, como em um filme de Woody
Allen, o escritor deixa o palco, sai do teatro sob o olhar atônito dos poucos
espectadores, ganha as ruas. Não está em São Paulo, mas em Nova York, na
Broadway. Caminha pelas ruas, sente frio, está só de manga de camisa. Mexe nos
bolsos à procura de algum dinheiro. Personagem não carrega dinheiro. Acha umas
moedas que devem ser do ator, pensa. Precisa tomar alguma coisa, sente vontade
de fumar. Entra em um bar, tocam jazz. Joga as moedas no balcão. Agora são
dólares, não reais. Pede um brandy para se aquecer e um maço de cigarros. Fica
um pouco ali. Quem sabe aquela atmosfera não ajude a aumentar sua criatividade
como escritor. Olha para um canto e parece ver sua ex-namorada…”.
Querida Adriana, infelizmente, por razões orçamentárias, não
pude contratar o William Holden e a Audrey Hepburn, mas creio que ficará feliz
ao saber que conseguimos dois sósias fantásticos. Abrindo um parêntese, acho
fantástica a capacidade de emular fisicamente outra pessoa. Exatamente o que
fazia Leonard Zelig, mas sobre isso irei tratar mais adiante. Já estão até
emulando Machado de Assis, mas inexplicavelmente com um vocabulário muito
pobre. Fico imaginando um jovem folheando “Dom Casmurro” e tentando entender
qual o diferencial desse escritor entre tantos, já que a mágica estava
exatamente na elaborada construção de frases. Sósia é um negócio complicado,
quando modifica muito o trabalho do homenageado.
O escritor imaginado pela Adriana manda recado (psicografado
por mim) dizendo que está tremendamente feliz em Nova York, escutando Jazz e
contando dólares. A mulher que ele acreditava ser sua ex-namorada, na realidade,
se tratava de uma projeção holográfica. Essa moda está pegando, inclusive, até
mesmo o Vaticano já estaria mostrando interesse nesse recurso para organizar
uma nova aparição da Virgem, que se cansou de bater ponto em vidros de janelas
na América Latina. Como é usual, o evento irá ocorrer no interior profundo de
alguma vila inóspita esquecida pelo mundo. Qual seria a graça de surpreender o
povo da cidade grande? Mantendo-me no assunto, o Papa acaba de afirmar que o
celibato clerical não era pra ter sido levado tão a sério todo esse tempo. Num
futuro próximo, ele pretende aparecer de bermudas e cantando no videokê um
clássico de Guilherme Arantes. O mundo irá aplaudir cegamente, como sempre.
Eu estou terminando de gravar em estúdio meu próximo álbum sacro,
intitulado: “Dogmas, pra quê?”. Na faixa-título, um Hip-Hop, eu faço um dueto
bacana com o MC Cutuca, homem de Deus e aviãozinho do tráfico de drogas. Como
sacerdote moderninho, eu não posso perder o timing dessas revoluções que o Papa
está conduzindo na igreja. Quero aproveitar e elogiar o escriba pelo retorno ao
especial, pois estava sentindo falta de divulgar meu trabalho. 
ASS: PADRE CARMELITO,
O BONDOSO.

Zelig (1983)
Em sua genialidade, Woody Allen estrutura esse filme como um
documentário (repetindo o estilo de “Um Assaltante bem Trapalhão”) sobre
Leonard Zelig, um (literalmente) camaleão social da década de vinte. Sem nenhum
esforço, ele é capaz de adotar características físicas e mentais de qualquer
pessoa com quem se relacionar. Ao lado de franceses, ele conversa fluentemente
em francês, com direito até ao clássico bigodinho fino. Mas o que realmente
fascina no roteiro é a forma como o personagem se adapta socialmente, como
quando discute jargões de medicina ao lado de doutores, com total conhecimento
sobre a área.

A crítica é certeira, mostrando como as pessoas se moldam,
até o caráter, no intuito de agradar e serem aceitas. E, claro, dignitários com
os mais diversos interesses passam a utilizar suas palavras como alegoria para
suas atividades. Zelig acaba se tornando na sociedade uma espécie de “Chance”,
o jardineiro interpretado por Peter Sellers em “Muito Além do Jardim”. Mia
Farrow vive uma doce doutora que acredita que o fenômeno seja psicológico, uma
manifestação de alguém que não consegue se expressar, levando o roteiro a
abordar também o machismo da época, mostrando a reação agressiva dos médicos a
essa nova hipótese. O processo de tratamento é tão eficiente, que ele passa a
conseguir até discordar de outras opiniões, algo impensável em sua realidade de
outrora. Quantas pessoas assim você conhece em sua vida?

Make ‘Em Laugh – O Castelo Sinistro


O Castelo Sinistro (The Ghost Breakers – 1940)
Mary Carter (Paulette Goddard) herda uma mansão em uma
pequena ilha de Cuba e, apesar de sofrer ameaças, resolve tomar posse do local.
Em companhia de Larry Lawrence (Bob Hope), uma personalidade do rádio, ela
decide ir conhecer sua nova mansão assombrada, mas eles não fazem ideia do
tamanho da confusão que estarão arrumando com os “fantasmas” do
lugar.

Bob Hope era um embaixador da cultura americana. Entendia
como poucos o funcionamento das engrenagens dos bastidores de Hollywood, além
de genuinamente amar o mundo do entretenimento. Um intelectual que graças ao
seu carisma e bom relacionamento com todos, transitava com liberdade pelos
corredores dos estúdios. Em seus filmes, mandava indiretas cômicas para seus
amigos, que ele sabia, estariam assistindo na estreia. Fazia graça com os
gêneros, como nesta ótima brincadeira com os castelos mal-assombrados que
emolduravam o horizonte enevoado dos clássicos de terror. 
O diretor George
Marshall se responsabilizaria também pela inferior refilmagem, veículo para as
trapalhadas de Jerry Lewis e Dean Martin, em “Morrendo de Medo”
(Scared Stiff – 1953). A ideia nasceu de uma peça de 1909, já filmada por Cecil B.
De Mille (com codireção de Oscar Apfel) em 1914 e por Alfred E. Green em 1922. Com
o auxílio dos usuais escritores da equipe de Hope e o roteirista Walter DeLeon, os estúdios Paramount
decidiram refilmar o projeto.  A química
entre Hope e o comediante Willie Best garante ao filme excelentes momentos.
Outra decisão acertada foi trocar o castelo da Espanha para Cuba, permitindo a
inserção de elementos como o vodu e até zumbis. 
A parceria de Hope com a bela (então em processo de
divórcio com Charles Chaplin, após “O Grande Ditador”) Paulette
Goddard em “O Gato e o Canário” foi um sucesso de público, o que
levou a Paramount a escalá-los novamente em um projeto similar. Existem várias
cenas muito engraçadas em “O Castelo Sinistro”, porém uma se destaca
como a melhor tirada de sua carreira. Ele atenciosamente escuta a explicação
dada pelo personagem de Richard Carlson, sobre o modus operandi dos
zumbis: “Um zumbi não possui vontade própria. Você os vê caminhando sem
rumo, com os olhos sem vida, seguindo ordens, sem saber o que estão fazendo,
sem se importar…
” No que Hope complementa: “Como os
democratas?
“.

“Mamma Roma”, de Pasolini


Mamma Roma (1962)
A inesquecível Anna Magnani vive Mamma Roma, uma prostituta
que sonha em mudar de vida e de classe social, para poder voltar a viver com
Ettore, seu filho adolescente. Para isso, ela decide economizar dinheiro.
Infelizmente, a realidade coloca muitos obstáculos em seu caminho. 
O ciclo do Neo-Realismo italiano já estava em uma fase
transitória, quando Anna Magnani, considerando genial o filme de estreia de
Pasolini: “Accattone – Desajuste Social”, decidiu entrar em contato com o diretor e
mostrar seu interesse em protagonizar seu próximo projeto. Em seu segundo
filme, já com total controle criativo, o poeta italiano demonstrou tremenda
confiança e competência. A interpretação histriônica de Magnani concede o poder
emocional, fornecendo a moldura perfeita para que Pasolini exercite seu já
reconhecível (à época) estilo visual, unido à sua verve literária. Nos primeiros
minutos podemos perceber que, ainda que a obra seja dedicada a Roberto
Rosselini, sua intenção não é servir somente como pano de fundo para algum
discurso social trágico (essência do ciclo), mas também fazer uma espécie de
sátira utilizando o destemor e a intempestividade da protagonista. Diferente da
Itália de “Roma, Cidade Aberta”, onde o povo valoroso e trabalhador se via
compelido à miséria pelo ditador alemão, não há mártires no cenário de “Mamma
Roma”.
A visão pessimista/realista de Pasolini faz lembrar seu roteiro para
“Noites de Cabíria”, filmado por Fellini. Não há redenção satisfatória numa
terra onde você aceita a corrupção da alma, sobrevivendo de forma medíocre à
gradual destruição de seu caráter, ou é abatido por tentar genuinamente
modificar o triste panorama. Vale ressaltar a participação de Lamberto
Maggiorani (do maravilhoso “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica) no ato
final, numa esperta homenagem, sendo novamente vítima de um roubo. Muito mais
cínico que Rosselini, que terminava “Roma, Cidade Aberta” com uma insinuação de
esperança, Pasolini escolhe finalizar a trama com um sutil recado nas
entrelinhas de sua “Pietá”, evidenciando que o fim da guerra pode ter eliminado
o regime ditatorial, mas não tornou os italianos mais fortes e preparados para
a vida em liberdade. Não há mais nazistas, os opressores agora nascem da índole
distorcida dos próprios filhos da terra.

Tesouros da Sétima Arte – “Fatalidade”


Fatalidade (A Double Life – 1947)
O famoso ator de teatro Anthony John (Ronald Colman) tem
problemas com a sua vida privada devido às suas explosões imprevisíveis de humor.
Essa característica já lhe custou sua esposa, Brita (Signe Hasso) e ameaça
sabotar sua carreira. No entanto, Anthony faz as pazes com Brita e os dois
passam a trabalhar em uma nova encenação de Othello na Broadway. A peça é um
sucesso, agendando mais de 300 apresentações, mas a pressão de retratar um
homem disposto a matar por ciúme domina Anthony completamente. 
Com uma interpretação que lhe rendeu um Oscar e um Globo de
Ouro, Ronald Colman vive um ator perturbado por sua própria arte. Auxiliado por
um ótimo roteiro do casal Ruth Gordon (que viveria a adorável Maude de
“Ensina-me a Viver”) e Garson Kanin, o injustamente pouco lembrado
astro inglês entrega sua melhor interpretação, deslizando com inteligência
entre os três níveis psicológicos de seu personagem. Ele inicia galante e
bem-humorado, exercitando sua própria persona artística (o título da peça:
“gentleman´s gentleman”, como ele era conhecido na época), depois
ficamos conhecendo sua dedicação dramática, quando interpreta em
“Othello”, mas o ponto alto, do filme e de sua atuação, se encontra
no terceiro ato, quando ele sofre um colapso mental e perde totalmente o
controle de suas ações. Além de um excelente monólogo sobre a função do ator, somos
presenteados com a beleza de uma jovem Shelley Winters, em seu primeiro grande
papel no cinema. A atriz estava extremamente nervosa por contracenar com
Colman, fazendo com que o diretor George Cukor, durante as filmagens, pedisse
ao seu experiente protagonista que a levasse para lanchar nos horários livres,
para que ficassem amigos.

Curta – “Viagem ao Brasil”

Viagem ao Brasil
Harold está ansioso para finalmente conhecer o Brasil, mas não imagina as aventuras que irá viver naquela terra exótica…
O curta é uma singela homenagem aos grandes comediantes da época, Harold Lloyd, Charles Chaplin, Buster Keaton e Stan Laurel. 

“Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho


Lavoura Arcaica (2001) 
Eu assisti ao filme na época de sua estreia, muito antes de
pensar que um dia escreveria profissionalmente sobre cinema, absorvendo a
experiência sem olhar clínico. Fiquei fascinado, desconcertado com a explosão
sensorial que ele provocava. Corri para ler o livro original de Raduan Nassar,
que viria a se tornar um de meus favoritos.
Vários textos criticavam, com excesso de palavras difíceis,
apontando como um demérito suas pretensões artísticas. Engraçado que os
escritores desses artigos enxergavam negativamente a pretensão na obra, mas
ignoravam o fato de que poderiam ser julgados da mesma forma pela desnecessária
prolixidade técnica em seus próprios textos. Poucos foram os artigos que celebravam
sem discursos vaidosos, tentando diminuir a qualidade do produto ao limitá-lo a
alguma espécie de padrão cinematográfico nacional, insinuando que o nível de
experimentações estéticas e narrativas comandadas pelo diretor Luiz Fernando
Carvalho estariam isolando-o de uma parcela do público, adentrando no
estereótipo do “filme de arte”. E o sucesso de bilheteria era visto como algo
negativo, já que poderia firmar um padrão inconsciente, aos olhos de público e
crítica, do que seria considerado um cinema valoroso. Era uma “no-win situation”,
já que tanto o sucesso quanto o fracasso, teoricamente, pesariam contra o
projeto aos olhos de quem o criticava.
A verdade, no meu ponto de vista de outrora e que ainda se
mantém, é que a obra estabeleceu um padrão de qualidade bastante alto, que
poucos cineastas brasileiros sentiam-se capazes de igualar ou superar,
independente da verba que tivessem à mão, uma questão de criatividade,
sensibilidade e talento. E essa constatação mexeu com os brios de muita gente. Algo
similar ocorreu com o diretor Anselmo Duarte, quando chegou ao Brasil com sua
Palma de Ouro por “O Pagador de Promessas”. A solução dos medíocres é sempre
tentar diminuir os esforços alheios, nunca buscar o necessário aprimoramento
pessoal. Quase quinze anos depois, basta analisarmos o panorama de nosso cinema
comercial, para vermos que os medíocres estão dominando as grandes salas com
comédias tolas e com prazo de validade curtíssimo, enquanto os ótimos diretores
autorais, quase sempre com pouca verba, arrancam sinceros e criteriosos aplausos
em festivais. Filmes como “Lavoura Arcaica”, infelizmente para nossa indústria,
continuam sendo eventos raros no Brasil.
A fidelidade ideológica às páginas de Nassar pode ser
percebida inicialmente na preocupação do diretor por uma construção detalhista,
da utilização do texto original, passando pelas ideias inteligentes no
vestuário de Beth Filipecki, até a elegância funcional de nosso Gordon Willis:
Walter Carvalho, com belíssimo uso do contraste sombras/luz, estabelecendo imageticamente
desde o princípio a metáfora com a vida “fora de foco” do protagonista André
(vivido por Selton Mello, ponto fraco do projeto, sem nunca acertar o tom),
entorpecido pela paixão proibida que sente por sua irmã (Simone Spoladore,
equilibrando perfeitamente em seu silêncio a reprimida sensualidade e o medo). O
jovem nos conduz pelo labirinto de sua memória emocional, instigado a despertar
de seu coma existencial pela visita inesperada de seu irmão mais velho, que
está empenhado em levá-lo de volta ao seio da família. Filipecki sutilmente
evidencia no figurino a maturidade gradual de André, já que usualmente
utilizava roupas claras (diferente da gravidade em tons escuros do pai e dos
irmãos), preso ao amor pela irmã e pela ligação quase erótica com sua mãe. Ele
somente passa a se vestir com tons escuros quando retorna para casa,
acompanhado pelo irmão, não sendo mais psicologicamente imaturo. 

O discurso do pai (espetacular Raul Cortez), que celebra a
paciência como a maior virtude do homem, entra em conflito direto com o
espírito livre e curioso do filho, que prefere correr o risco de se perder na
longa estrada do autodescobrimento, do que viver com medo de pisar fora do
conforto de seu lar. Ao afirmar querer ser o profeta de sua própria história,
ele mostra o desejo de cortar qualquer amarra com as leis de conduta da
sociedade, confrontando figuras de autoridade e negando qualquer forma de
repressão, elementos presentes no contexto ditatorial militar que a nação vivia
na época em que o livro foi lançado. O orgasmo que sucede o ato mecânico na
cena inicial, analogamente emoldurado pelo som de um trem em movimento,
simboliza a liberdade adquirida pelo jovem naquele quarto essencialmente embrionário,
onde a solidão é parte importante do aprendizado. 

Tesouros da Sétima Arte – “O Condenado de Altona”


O Condenado de Altona (I Sequestrati di Altona – 1962)
O industrial Albrecht Von Gerlach descobre que está perto da
morte e nomeia o seu filho Werner (Robert Wagner) como seu sucessor, Johanna
(Sophia Loren), sua esposa e atriz envolvida em uma obra de Brecht contra o
nazismo, descobre os segredos da família. 

Pérola injustamente pouco conhecida, inclusive entre os fãs
de Vittorio De Sica, ainda que ele tenha recebido por ele, o prêmio “David
di Donatello”, como Melhor Diretor. Adaptado da penúltima peça de Jean-Paul Sartre (com bastante fidelidade,
excetuando-se a opção de incluir cenas externas, fora do confinamento), única
em que ele aborda diretamente o nazismo, em uma crítica inteligente e ousada.
Sophia Loren, Fredric March e Maximilian Schell, atuam corajosamente em papéis
que fugiam completamente daquilo que o público estava acostumado, garantindo um
clima ainda mais soturno ao projeto. Faz recordar, no tom e na complexidade, os
trabalhos do escritor polonês Günther Grass, dentre eles, o mais famoso:
“O Tambor”. A ideia por trás de um jovem nazista que é mantido, anos
depois do final da guerra, prisioneiro em um sótão por seu pai, sem qualquer
comunicação com o mundo exterior, para que ele não perceba a realidade, causa
arrepios só de pensar. O excelente desfecho, que obviamente não revelarei, contém uma das imagens mais fortes do cinema de sua década. Imprescindível!

Make ‘Em Laugh – “A Incrível Suzana” e “Carrossel da Esperança”


A Incrível Suzana (The Major and The Minor – 1942)
Susan Applegate é uma jovem que se fartou da vida em Nova
Iorque, e que regressa para a sua casa no Iowa. Como a sua poupança, feita ao
longo do tempo, não é suficiente para pagar a passagem de volta, ela
disfarça-se de menina de doze anos para poder comprar meia-passagem. Mas, as
suas complicações começam mesmo quando ela divide um compartimento com Kirby,
um major do exército.
A estreia de Billy Wilder em Hollywood, no filme que
serviria de molde para um dos maiores sucessos de Jerry Lewis e Dean Martin: “O
Meninão”. A trama, como quase todas na carreira do diretor, esconde uma alta
dose de anarquia e ousadia, por trás do véu da ingenuidade de uma comédia
romântica. Colocando a censura do “Código Hays” para brincar de “bobinho”, com
um roteiro que aceitava a possibilidade de uma mulher com as belas pernas
torneadas de Ginger Rogers, na melhor interpretação de sua carreira, numa
improvável situação de desespero, fazer todos pensarem que ela era uma inocente
criança com laços de fita no cabelo. Na relação dela com a jovem irmã (Diana
Lynn) da esposa do Major Kirby (Ray Milland, com quem trabalharia novamente no
ótimo “Farrapo Humano”), percebemos Wilder, com o auxílio de Charles Brackett,
em sua zona de conforto, divertindo-se ao elaborar diálogos irônicos que
continuam surtindo o mesmo efeito, ainda que com os pés firmes em sua época
(Greta Garbo é alvo de uma das melhores tiradas, logo no início do filme). Ele
novamente trabalharia o conceito da farsa/disfarce como catalisador dramático,
no excelente “Quanto Mais Quente Melhor”.

Carrossel da Esperança (Jour De Fête – 1949)
Uma vez por ano, uma feira traz atrações para um pequeno
vilarejo no centro da França, como um cinema ambulante e músicas, transformando
a rotina e a vida dos moradores do lugar.

Excelente oportunidade de assistir um gênio em seu primeiro
trabalho, experimentando com seu estilo autoral, alcançando diversos pontos
onde, mesmo passados mais de 50 anos, com um humor puramente visual, diverte
sem o menor esforço. São várias cenas que poderia destacar, como todas em que o
carteiro (vivido por Jacques Tati), buscando emular a competência dos carteiros
americanos (ótima crítica), corre com sua bicicleta para entregar as
correspondências das formas mais estapafúrdias. Quando ele adentra a casa de um
homem, elogiando-o por sua animação, sem saber que o mesmo estava velando um
cadáver (excelente trabalho de câmera), não tem como segurar a gargalhada. São
cenas simples, mas engenhosamente elaboradas, onde cada elemento de cena existe
por um propósito. O filme foi originalmente filmado com duas câmeras, uma em
preto e branco (caso algo desse errado), outra em cores (que era a prioridade
do diretor). Com a falência da Thomson-color, antes do término da
pós-produção, Tati foi obrigado a lançar seu projeto em preto e branco.

Razzle Dazzle – “Epopeia do Jazz” e “O Meu Amado”


Epopeia do Jazz (Alexander’s Ragtime Band – 1938)
Alexander (Tyrone Power) escandaliza a sociedade ao montar
uma orquestra de Ragtime, estilo musical popular demais para se levar a sério.


Para fãs de Irving Berlin, esse musical dirigido por Henry
King é essencial. A ideia original era ser uma cinebiografia do compositor, mas
ele preferiu contar uma história ficcional. De forma original, o roteiro traça
um panorama histórico do jazz, desde a rebeldia do Ragtime até a aceitação do
Swing como uma forma de arte, no final da década de trinta, utilizando como
pano de fundo a trajetória de um jovem (interpretado por Tyrone Power) que
desafia a sociedade em que vive, perseguindo a expressão mais popular da
música.
Entre uma canção e outra (ao todo são vinte e oito,
incluindo as excelentes: “Blue Skies”, “Heat Wave” e “Alexander’s
Ragtime Band”), somos apresentados a um triângulo amoroso. Stella (Alice
Faye) desperta a paixão do compositor vivido por Don Ameche, causando idas e
voltas típicas dos romances da época, onde são incluídas passagens marcantes da
história do jazz, como sua participação na Primeira Guerra Mundial e a
importante apresentação de Benny Goodman e sua orquestra, no Carnegie Hall, em
1938. Quem brilha mesmo é Ethel Merman, que aparece apenas no segundo ato, mas
que encanta com sua linda voz.
Um tipo diferente de musical em sua época, que revitalizou o
gênero com um fio condutor essencialmente sério, algo que contrastava com o
glacê que abundava das produções de Astaire/Rogers, a leveza das comédias
musicais dos Irmãos Marx ou a escala grandiosa dos projetos de Busby Berkeley. As
várias sequências musicais não interrompem sempre a trama, como era usual, sendo
inseridas na ação narrativa, fazendo com que o ritmo nunca diminua.

O Meu Amado (Rose of Washington Square – 1939)
Alice Faye interpreta Rose Sargent, uma cantora de NY da década
de 1920 que se apaixona pelo bonito e arrogante malandro Bart Clinton (Tyrone
Power). O novo romance de Rose é demais para o desespero de seu amigo e antigo
parceiro Ted Cotter (Al Jolson), que não confia no escorregadio Bart. 


De certa forma, inspirado na vida amorosa de Fanny Brice (Barbra
Streisand protagonizaria a cinebiografia oficial “Funny Girl”, em 1968), o que
a levou a processar os estúdios Fox.  Alice
Faye chega a cantar a música mais famosa de Brice: “My Man”, num dos momentos
mais emocionantes. A publicidade desse problema jurídico acabou ajudando na
bilheteria do filme, que se tornou o maior sucesso musical do estúdio naquele
ano.

O projeto foi uma sensata resposta ao sucesso de
“Epopeia do Jazz”, que havia sido lançado no ano anterior, apostando
na simpatia do casal Alice Faye e Tyrone Power. Mas o real valor atemporal da
obra foi documentar com qualidade o trabalho de Al Jolson, um nome injustamente
ignorado pelos jovens de hoje. Tendo entrado para a história da Arte ao
protagonizar o primeiro filme falado (“O Cantor de Jazz”, em 1927),
ele teve em “O Meu Amado” a chance de imortalizar com melhor
qualidade de som e imagem, suas interpretações consagradas: “My
Mammy”, “California, Here I Come” e “Rock-a-Bye Your Baby
with a Dixie Melody”.

TOP – Filmes Sobre Política (Parte 2 de 3)

Link para o texto anterior:
10 – Terra em Transe (1967)
Paulo é um jornalista que tenta mudar a situação ao planejar a ascensão de um candidato supostamente oposicionista chamado Vieira e buscando o apoio do maior empresário do país para deter o avanço de uma multinacional estrangeira sobre o capital do país. Tudo começou bem; porém, problemas sociais e a corrupção arruinaram sua intenção.

Na obra-prima de Glauber Rocha, o poeta intelectual Paulo (Jardel Filho) mostra-se como grande parte da sociedade, desesperado para encontrar um porto seguro nas promessas de algum líder, alguma voz ativa. Sua grande estatura e compleição rochosa escondem uma alma frágil e amedrontada. Ele abraça o recluso conservadorismo de Diaz (magnífico Paulo Autran), que lhe foi útil durante um tempo em sua escalada social, porém cujo verniz foi descascando até exibir sem pudores uma megalomania doente, com um complexo de César que o faz trair quem seja preciso. Fascinado por uma militante (Glauce Rocha), acaba sendo atraído para uma voz menos arrogante, porém ainda mais hipócrita: Vieira (incrível José Lewgoy), um reformador populista que beija os pés do clero e promete representar a verdadeira voz do povo no poder. Um povo miserável, analfabeto e que não pensa duas vezes antes de aplaudir o agressor com as mesmas mãos que ainda recuperam-se das feridas do recente açoite sofrido. Paulo logo percebe que Diaz e Vieira estão interessados apenas no poder, nos privilégios. 

9 – Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd – 1957)
A história gira em torno de um andarilho chamado Larry “Lonesome” Rhodes (Andy Griffith), que é descoberto em uma cadeia no nordeste do Arkansas por Marcia (Patricia Neal), uma produtora de um programa de rádio, e seu assistente (Walter Matthau). Ele se transforma numa estrela do rádio e da TV, da noite para o dia. Mas, à medida que a sua fama aumenta, o sucesso lhe dá mais poder.

Foi uma genial decisão do diretor Elia Kazan a escalação do comediante Andy Griffith para um papel dramático que o fazia sair de sua zona de conforto, como o popular apresentador de televisão que é convidado a utilizar sua fama como elemento facilitador na carreira política de um congressista insosso. O filme é ousado por ser um dos primeiros a abordar um tema extremamente atual: a influência manipuladora da televisão na política. Como o personagem de Matthau chega a afirmar brilhantemente: “Você precisa ser um santo para se negar a utilizar o poder que aquela caixinha te oferece”. O apresentador simplório passa a se ver como um deus da comunicação, o braço direito do presidente americano. 

8 – JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (JFK – 1991)
Oliver Stone não só reconstitui o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, mas defende a tese polêmica de que o crime fora uma conspiração envolvendo revolucionários cubanos, a CIA e a própria cúpula do governo americano.

Nessa longa dramatização de várias teorias conspiratórias sobre o assassinato de Kennedy, a coragem de Oliver Stone se faz presente ao defender uma opinião controversa, com total senso de ritmo narrativo. O grande mérito é que o roteiro coloca o espectador imerso na investigação do corajoso protagonista, vivido por Kevin Costner, instigando questões pertinentes, fazendo-nos acreditar na legitimidade de sua batalha. Poderia Lee Harvey Oswald ter disparado três tiros em seis segundos? Por que tantas pessoas ligadas ao assassinato depois apareceram mortos em circunstâncias peculiares? A riqueza de informações é valorizada em revisões, fator que nesse caso melhora a experiência. Impossível esquecer o impacto da cena do encontro com o misterioso militar vivido por Donald Sutherland, em seu espetacular monólogo, que evidencia feridas abertas ainda hoje na política americana. 

7 – Mera Coincidência (Wag the Dog – 1997)
Menos de duas semanas para a eleição e o presidente dos Estados Unidos candidato a um segundo mandato envolve-se em um escândalo que pode acabar com sua carreira política. Antes que o pior possa acontecer, entra em cena Conrad (Robert de Niro), um homem com a habilidade de manipular a imprensa e, principalmente, a opinião pública. Com a ajuda de Stanley (Dustin Hoffman), um famoso produtor de Hollywood, ele cria a perfeita distração: uma guerra de mentira.

É incrível como esse excelente filme é pouco lembrado hoje em dia. Como não se lembrar da guerra dos Estados Unidos contra as armas de destruição em massa que nunca foram encontradas? Nada melhor do que inventar um motivo mirabolante para desviar os olhos da população, como faz o produtor vivido por Dustin Hoffman, para salvar a pele do presidente que está metido em um escândalo sexual, mas precisa ser reeleito. Eles inventam uma guerra, forjando o herói que poderá salvar a nação de qualquer perigo. O espirituoso título nacional nasceu como resposta ao caso de Bill Clinton com sua secretária, ocorrido pouco tempo antes do lançamento do filme. Na vida real, Clinton oportunamente aproveitou para se empenhar em campanhas de bombardeio no Iraque e no Sudão, enquanto caíam por terra todos os esforços de seus assessores em promover sua imagem como um respeitável homem de família. A crítica mais contundente do filme é que vivemos uma realidade onde as guerras são criadas e manipuladas por homens da mídia, que organizam até seus “heróis” e “vilões”, com direito a temas musicais e pomposas adaptações cinematográficas, negociadas antes mesmo do som das bombas ter se dissipado. E essa realidade é extremamente perigosa, pois com o avanço da tecnologia, a câmera mente com maior facilidade. E quando o povo é estimulado a não questionar…

6 – A Mulher Faz o Homem (Mr. Smith Goes to Washington – 1939)
Inocente homem do interior (James Stewart) é convidado a se tornar senador dos Estados Unidos e aos poucos se descobre em um mar de lama que ameaça tudo o que ele acreditava em relação à bondade e ao caráter dos comandantes de seu país.

A mão de Frank Capra pode pesar no piegas em certos momentos, mas poucos filmes souberam retratar tão bem o esforço de um elemento individual íntegro em um covil de serpentes, arriscando-se a perder até sua sanidade, mas não admitindo que seus valores tombem ou sequer se curvem perante o que considera errado. O roteiro nos apresenta um símbolo das reais qualidades que deveriam ser comuns aos homens que ingressam na política, mas deixando clara a razão que impede que essas qualidades sejam valorizadas: o ser humano é ambicioso. Apenas as crianças, seres ainda não tocados pelo instinto predatório dos adultos, conseguem enxergar os méritos na aparente causa perdida do protagonista. James Stewart me fez acreditar em Jefferson Smith. No famoso e emocionante discurso final do personagem no julgamento, exaurido física e mentalmente após horas falando ininterruptamente, apenas seu caráter o mantinha de pé. Nunca me esqueço da breve tomada que mostra o tímido sorriso de encorajamento do juiz, mesmo sabendo das poucas chances do rapaz. O juiz sabe que todos deveriam ter aquela coragem, mas muito mais que isso, ele enxerga naquele alquebrado homem o motivo principal que o fez adentrar outrora em sua profissão. 

Continua…