O Mordomo da Casa Branca (The Butler – 2013)
Assim como o similar e superestimado “Histórias Cruzadas”, o filme do diretor Lee Daniels é um projeto que essencialmente vê o negro
pelo olhar de uma sociedade branca, o que surpreende, já que ele é negro. Por
trás de cada emoção manipulada com mão pesada, o roteiro é profundamente
preconceituoso, pois utiliza os mesmos estereótipos da época em que os
“generosos” brancos concederam à Hattie McDaniel o privilégio de desfilar no
mesmo tapete vermelho, como se branca fosse. Infelizmente é dessa forma que os
racistas disfarçados pensam. O prêmio não modificou sua condição como atriz na
indústria, pois continuou atuando em variações da “Mammy” até o fim da vida.

É um tipo de “Blaxploitation”, só que sem coragem alguma. Não ajuda o fato de
que, como cinebiografia, modifica tremendamente os fatos na vida do
homenageado. Não podemos considerar nem como “livremente” baseado, já que o
tipo caricatural que evidencia é criado unicamente para alcançar os efeitos
dramáticos e desejos ideológicos do roteirista Danny Strong. Com uma clara e
destorcida visão política, ele transforma os presidentes democratas em
“ursinhos carinhosos” que se importam demais com os direitos dos negros,
incluindo Lyndon B. Johnson, um dos maiores racistas na história americana.
Strong evidencia no segundo ato a batalha pela igualdade entre os negros, porém
com impacto anestesiado pela desnecessária utilização de subtramas, como a
possível infidelidade da esposa de Cecil (Forest Whitaker), o homem de origem humilde
que viria a trabalhar como mordomo de vários presidentes americanos, de Dwight
Eisenhower (Robin Williams visivelmente desconfortável) a Ronald Reagan (Alan
Rickman). É como se os realizadores não acreditassem no potencial da trama,
apelando então para desgastados truques de manipulação emocional.

Uma cena em especial transparece esse sutil preconceito, quando a personagem de
Oprah Winfrey estapeia seu filho, após saber que ele havia entrado para o
movimento “Black Power” e havia criticado seu pai (Whitaker) por ser um
mordomo. A cena (sutil homenagem ao clássico “No Calor da Noite”) nos conduz a
vibrar por sua atitude. A resistência armada feita pelos brancos é nobre e
historicamente valorizada, enquanto qualquer imagem dos negros, que não seja
uma resistência pacífica e subserviente, imediatamente é algo a ser duramente
repudiado.

Fica claro que um dos lados recebe um olhar mais terno e condescendente. O
filme oferece a história desta “guerra”, como é usual, pelo ponto de vista dos
vencedores. Negros sendo salvos por brancos, mas continuando em funções servis. Cecil nunca contribui com ideias, apenas assiste os acontecimentos. Existem
muitos negros cientistas, médicos e professores, com histórias de vida
maravilhosas, mas que nenhum produtor de Hollywood se interessa em contar. Qual
será a razão?

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