Cine Samurai – “A Fortaleza Escondida”

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A Fortaleza Escondida (Kakushi-toride no San-akunin – 1958)
Japão, século XVI. Um general escolta a bela princesa de um
clã derrotado por território inimigo. Em sua viagem, cruzam com dois medrosos
fazendeiros. É o início de uma série de incríveis aventuras.
“Um filme verdadeiramente bom é fácil de entender”.
(Kurosawa)

Quando se fala nesse filme, quase sempre é pelo viés da
comparação com o épico espacial de George Lucas e, com menor frequência, seu
prelúdio lançado em 1999, mas, apesar dele oficialmente afirmar ter se
inspirado num detalhe ou outro, apenas com um olhar até pouco atento, fica
bastante óbvio perceber que a referência era dominante na estrutura de seus
roteiros. Eu prefiro me ater unicamente à beleza desse trabalho. A frase citada
em destaque acima simboliza a proposta cinematográfica de Akira Kurosawa. E,
nessa obra, talvez ele tenha conquistado a simplicidade máxima, com uma trama
cuja essência é universal, além de um perfeito equilíbrio entre o alívio cômico,
o senso de aventura e as cenas de ação.
Os incomuns heróis da aventura são dois desajeitados que
ambicionam apenas o enriquecimento, como uma versão ainda mais patética da
dupla Takezo e Matahachi, do clássico literário “Musashi”. Eles acabarão
cruzando o caminho de um general samurai, vivido por Mifune com a competência
usual. O roteiro acaba se enveredando pela comédia, quando uma jovem princesa entra
nessa equação, equivocadamente tida como surda e muda pelos dois amigos. O
interessante é ver a transformação dela, de garota mimada à guerreira, graças ao
convívio diário com a coragem de seus protetores. É linda a cena que superimpõe
a bandeira de seu clã, no rosto da jovem em prantos, que acaba de entender a
gravidade de sua responsabilidade. A metáfora mais interessante reside no
conceito da aparência. O ouro que passa despercebido se escondendo dentro dos
galhos, a nobreza heroica escondida pelos trapos que vestem os protagonistas,
comuns e desleixados no exterior, podem passar por coisas sem valor algum.

O diretor estava criativamente empolgado, pois estaria
utilizando pela primeira vez, já com extrema segurança, o sistema TohoScope, resposta
japonesa ao CinemaScope americano, uma desculpa agradável para que ele
experimentasse colocar os atores nas extremidades da tela sempre que possível. O
artifício foi utilizado com maestria pelo diretor de fotografia Kazuo Yamasaki,
que podia não ser muito bom em panning shots, mas emoldurou algumas das
sequências mais belas no cinema samurai, como a inicial onde somos
surpreendidos pela ameaça que faz tombar um guerreiro e, principalmente, a
intensa batalha com Toshiro Mifune brandindo sua espada, montado no cavalo, enquanto
persegue o oponente que galopa à distância.
* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com quase uma hora de extras, pela distribuidora “Versátil”.

Make ‘Em Laugh – “Bola de Fogo”

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Bola de Fogo (Ball of Fire – 1941)
Uma parceria entre Billy Wilder, no roteiro, escrito com
Charles Brackett, e Howard Hawks, na direção, só poderia resultar em algo
fantástico.  Um dos pedidos de Wilder,
que estava se preparando para iniciar seu ciclo como diretor, foi poder
acompanhar todas as gravações, para que pudesse absorver o máximo de
aprendizado possível. E, ainda que o próprio tenha sempre afirmado sua
admiração por Ernst Lubitsch, vejo claramente em seus trabalhos iniciais uma
inspiração maior no estilo de Hawks.
A inspiração veio da “Branca de Neve” adaptada na
animação da Disney. Os professores se portam como os anões, com direito a
caricatos gestos e trejeitos, além de se posicionarem sempre juntos nas cenas.
Já o lacônico Gary Cooper exercita seu talento como um professor de linguística,
numa óbvia piada interna, brincando com a fragilidade de seu personagem,
deixando a voluptuosidade de Barbara Stanwyck dominar cada frame. Vale
destacar a fantástica cena dela no clube noturno, exalando sensualidade ao som
de “Drum Boogie”, cantado por Martha Tilton, com a lenda da bateria Gene Krupa.
Interessante perceber como Gregg Toland, o gênio por trás da fotografia de
“Cidadão Kane” e “A Longa Viagem de Volta”, resolveu a bela
cena em que apenas os olhos de Stanwyck se destacam no escuro onde sua
personagem se esconde. Toland pintou o rosto dela de preto, num truque bastante
eficiente.

 

O contraste metafórico entre o controle rígido do personagem
de Cooper, que vive desconectado do mundo real, e a liberdade criativa de Stanwyck,
com o sugestivo nome: “Sugarpuss”, é o leitmotiv, simbolizado pela definição
dada pelo professor para as gírias: “a língua que tira o casaco, cospe nas mãos
e pega no batente”. No intuito de conhecer esse universo, ele terá que se
afastar do conforto ideológico que recebe dos vários livros amontoados em seu
ambiente.  Com um tema atemporal e o
usual refinamento cômico dos diálogos criados por Wilder, “Bola de Fogo” é uma das
melhores screwball comedies de sua época.

Faces do Medo – “A Tortura do Medo”

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A Tortura do Medo (Peeping Tom – 1960)
A coragem do diretor inglês Michael Powell, na vanguarda de sua abordagem, acabou prejudicando sua carreira. Lançado no mesmo ano de “Psicose” de Hitchcock, apresentava ao público um assassino cujos atos de loucura não eram diagnosticados ao final, como ocorre com Norman Bates. Mark, vivido por Karl-Heinz Boehm, que faleceu recentemente, não eximia o espectador da culpa pela possível identificação. A perturbação em sua mente, cuja origem é revelada sutilmente em flashbacks, tornava a empatia ainda mais latente. Bates era um monstro caricato que assistíamos de longe, mas Mark podia ser nosso vizinho, alguém que nos conduzia pela mão e nos tornava cúmplices em seu voyeurismo. 
Essa atitude foi determinante na receptividade negativa da crítica, que sequer deu tempo para o público assistir e formar uma opinião, destruindo a imagem do diretor, outrora celebrado por obras como “Os Sapatinhos Vermelhos”, que fez ao lado de Emeric Pressburger. O curioso é constatar que seu esforço solo resultou em um produto superior aos projetos da dupla, tendo sido abraçado ternamente pelo tempo. É claro que o choque perdeu impacto na sociedade atual, com a banalização da violência, mas dá para imaginar a reação daqueles que assistiram na sala escura em sua estreia. O efeito que se mantém é mérito da franqueza narrativa e do desinteresse do roteiro em julgar o protagonista, exatamente os elementos que motivaram as críticas negativas. Powell foi artisticamente assassinado em vida pelos produtores, que se recusavam a investir em seu talento, mas ressuscitado anos depois pela inteligência rebelde da juventude, composta por Martin Scorsese, Coppola e George Lucas, entre outros, que se esforçaram ao máximo para restaurar o conjunto de obra daquele senhor que já se considerava esquecido. 
Karl, marcado pela doçura de seu personagem no romântico “Sissi”, ousou mudar radicalmente sua imagem, entregando uma insegurança infantil ao protagonista, como se seus atos cruéis nascessem de uma carência por atenção materna, já que, desde muito cedo, com a morte dela, teve que se acostumar à presença de uma “substituta”, expressão que utiliza com desdém em sua narração. O pai, interpretado em uma única cena pelo próprio diretor, uma mente insana com diploma de psiquiatria, capaz de utilizar o próprio filho como cobaia em suas experiências diárias na busca pelo sentido do medo. Em uma época do cinema que primava por ameaças sem tons de cinza, o brilhante roteiro de Leo Marks se aprofunda no trauma do adulto emocionalmente imaturo, incapaz de se afastar de sua câmera portátil 16mm, instrumento que utiliza para eternizar o pavor nos olhos de suas vítimas. A satisfação que obtém ao observar repetidas vezes essas gravações o conecta diretamente ao seu passado, aquele momento perdido no tempo onde perdeu sua inocência, alguns segundos de prazer na tentativa impossível de regredir ao seu molde psicológico original inalterado. 
* O filme está sendo lançado, em versão restaurada e com vários extras, pela distribuidora “Versátil”.

Cine Bueller – As Minas do Rei Salomão (1950)


As Minas do Rei Salomão (King Solomon’s Mines – 1950)
No final do século XIX, o inglês Allan Quatermain (Stewart
Granger) trabalha na África como caçador e guia de expedições quando recebe uma
oferta de trabalho: partir em um safári para localizar o marido da rica
Elizabeth Curtis (Deborah Kerr). O homem desaparecido deixou uma cópia do mapa,
com a localização das lendárias Minas do Rei Salomão.


Muitas versões cinematográficas desta clássica história de
H. Rider Haggard, publicada em 1885, foram realizadas, todas se desviaram
bastante do original, incluindo um interesse amoroso, mas essa dirigida por Andrew
Marton e Compton Bennett, removido durante a produção, por problemas com o
protagonista, foi a que entregou um entretenimento de melhor qualidade, filmada
em locação na África. Os jovens podem se lembrar do Allan Quatermain vivido por
Richard Chamberlain na década de oitenta, mas elas eram obras que buscavam imitar
a fórmula dos projetos com o arqueólogo Indiana Jones, construindo um
desequilibrado misto de aventura e humor, com pouca personalidade. Rever
Stewart Granger impondo dignidade ao papel é testemunharmos uma das inspirações
de George Lucas.

Ajudando a compor o clima, a única trilha sonora que
escutamos são os tambores e os cânticos nativos, o que, para a época, foi uma
decisão inovadora. A fotografia premiada de Robert Surtees, que viria a
participar também de “Ben-Hur” e “A Primeira Noite de Um
Homem”, entre tantos outros, se aproveita da imensidão e ajuda a
criar momentos épicos, como a cena da debandada dos animais, que muitas
produções tentaram imitar, mas nunca sequer igualaram. A personagem de
Deborah Kerr, cuja interpretação foi clara inspiração para a Willie Scott de
“O Templo da Perdição”, busca encontrar seu marido na África
selvagem, o que possibilita no primeiro ato um típico travelogue, com o
protagonista explicando o conceito de caça e caçador na selva, mostrando
didaticamente variados animais em ação predatória, além de algumas
soluções que adiam a evolução da trama, únicos elementos que ficaram datados.
Quando todas as peças estão no tabuleiro, incluindo o africano Umbopa,
personagem essencial, mas com importância reduzida, o ritmo engata e somos
presenteados com uma das melhores aventuras da era de ouro do cinema americano.

“O Capanga de Hitler” / “Os Carrascos Também Morrem”


O Capanga de Hitler (Hitler´s Madman – 1943)
O filme conta a história do assassinato de Reinhard
Heydrich, comandante nazista, por rebeldes tchecos. Depois, houve a represália
ao povo da Tchecoslováquia pelos nazistas, dizimando a cidade de Lídice.
Neste filme testemunhamos o primeiro trabalho de Douglas Sirk
no cinema americano, com perceptível inspiração em Sergei Eisenstein e já
mostrando muita coragem ao se impor em uma indústria diferente, além de traços narrativos
recorrentes em sua filmografia, como o conflito entre as tradições e o novo
regime totalitário. Trata-se de mais uma eficiente peça de propaganda, rodada
em uma semana, porém com mais refinamento que a maioria que era produzida no
período. O desfecho, onde o povo da cidade dizimada pelos nazistas clama
diretamente ao público por um revide ideológico, ressalta a importância
histórica da obra, ainda que seja um elemento que a deixe bastante datada.
Como ponto alto, a excelente atuação de John Carradine, como
Reinhard Heydrich, organizador da Conferência de Wannsee, em 1941, que resultou
na aprovação da monstruosa “solução final para os judeus”: o
holocausto. O roteiro evita a estratégia comum de buscar a empatia do
público por um monstro das páginas históricas, inserindo-o em um contexto
íntimo e ordinário, preferindo realçá-lo com tintas fortes. Em sua
interpretação, assistimos o retrato de um sistema condenado, em que os homens devoravam
a si mesmos, no intuito de destruírem a sociedade.
Os Carrascos Também Morrem (Hangmen Also Die! – 1943)
Franticek Svoboda é um médico tcheco membro da resistência
que assassina um carrasco alemão. A Gestapo, então, resolve caçar o responsável
e para conseguir o seu intento, os nazistas fazem execuções a cada hora de
cidadãos tchecos, querendo forçar a população a entregar o assassino.

Escrito por Bertold Brecht, sua única contribuição para o
cinema de Hollywood, com direção do sempre competente Fritz Lang, foi lançado
na mesma época que “O Capanga de Hitler” e com tema similar, abordando o
assassinato do nazista Heydrich. O maniqueísmo, usual nas peças de propaganda,
aliado à atuação exagerada do elenco que compõe o núcleo nazista, acaba criando
caricaturas. A fotografia expressionista é do grande James Wong Howe, responsável
por “O Indomado”, “O Velho e o Mar” e a gema injustamente
pouco conhecida “O Segundo Rosto”, de John Frankenheimer. 
No filme,
podemos perceber que Lang, que auxiliou Brecht no roteiro, buscou inspiração em
seu próprio trabalho nos filmes de “Dr. Mabuse”, especialmente
“O Testamento de Dr. Mabuse”. Uma obra interessante do período em que
a propaganda era uma arma utilizada na Segunda Guerra Mundial, em que o
importante era incitar os valores do espírito humano defronte a possível
aniquilação.

Sábio Silêncio – Parte 10

Links para os textos do especial:
Diário
13 de Janeiro – 1920 – 18:30

Pickfair já estava começando a parecer pequena, com poucos
espaços onde alguém pudesse verdadeiramente ficar afastado dos grupos que
conversavam animadamente. Como era literalmente um homem fora do meu tempo,
estava evitando interagir, preferindo apenas observar e registrar. Sempre que
Mary Pickford atravessava meu campo de visão, ela olhava zombeteiramente e
piscava, sabendo que eu devia estar me sentindo em um parque de diversões.
Eu percebi que seria impossível abordar todos aqueles que eu
havia imaginado, mas me foquei inicialmente no senhor de cabelos brancos que
parecia bastante cansado, um dos poucos que se mantinham sentados no grande
sofá central, segurando ternamente a mão de uma senhora que transbordava
elegância. Tentando manter a calma, aguardei vagar um espaço próximo a eles no
sofá e me sentei, proferindo o clássico “quebra-gelo”: “Bela festa, não?” O
máximo que consegui em resposta foi um tímido sorriso da mulher. Para minha
sorte, alguns segundos depois, ele iniciou em tom baixo uma breve conversa com
ela. Como imaginei, ela era Mina Miller, segunda esposa do homem que estava
quase cochilando ao meu lado, Thomas Edison.
Eu tentei atrair a atenção dele de todas as formas, mas o
homem estava visivelmente abatido e sem humor para uma noite festiva. Acredito
que ele estava torcendo para passar o tempo e poder voltar logo para sua casa.
Arrisquei alto e usei a estratégia que não iria falhar. Eu me virei na direção
dele e, após respirar fundo, iniciei:
– Sr. Edison, acreditaria que eu sou um viajante do tempo?
A esposa sorriu, mas ele, como imaginei, parecia ter
acordado de um longo transe, chegando a se ajustar no sofá.
– Meu jovem, você está se sentindo bem?
Defendi o olhar mais sério que consegui, continuando a falar
lentamente, estratégia que sempre torna qualquer disparate mais respeitável.
– Eu sei que o senhor está desperto para a transcendência da
vida humana. Você está se comunicando nesse exato momento com um homem de outro
mundo… – na ausência de expressão melhor, acho que confundi ainda mais meu
novo amigo.
Ele trocou um olhar de choque com a esposa, mas havia nele
uma fagulha de alegria quase infantil. Eu não sabia que ele já estava
conduzindo secretamente uma pesquisa sobre a possibilidade de uma máquina que
estabelecesse comunicação com os mortos. Alguns meses depois ele iria falar
sobre isso publicamente. Prefiro pensar que tive alguma influência nesse
sentido. Ele esqueceu completamente a festa e se virou para mim:
– Ninguém sabe disso, não pode ser uma coincidência. Você
está habitando esse corpo por um tempo limitado?
Nesse momento percebi que havia me complicado bastante, mas
pelo menos eu tinha conseguido atrair a atenção dele. Sem pensar duas vezes,
respondi com ar solene:
– Foi o que eu consegui para hoje… – segurei o riso o
máximo que pude, mas não aguentei.
Ele soltou uma gargalhada que atraiu a atenção dos mais
próximos, apoiando a mão em meu ombro com o carinho de um amigo de
infância.  Edison, o “feiticeiro de Menlo
Park” que inventou a lâmpada elétrica, era um homem sério e introvertido, mas
extremamente bem-humorado e gentil. Emendei sem dar tempo dele sequer respirar:
– Mas eu sou mesmo um viajante do tempo.
O homem gargalhou mais alto ainda, como imaginei que ele
faria. O plano estava dando certo. Agora eu poderia abordar o assunto mais
importante da noite, sua inestimável contribuição para a Sétima Arte.
***

O conceito da projeção de imagens em movimento era um dos
muitos interesses de Edison. Ele procurava um instrumento que “estivesse para o
olho, assim como o fonógrafo estava para o ouvido”. Em 1889, com a ajuda do
fotógrafo William Dickson, desenvolveu o Cinetoscópio, um instrumento que
permitia ver individualmente imagens em movimento através de um orifício na parte
superior. Aquela invenção atraia cada vez mais interessados, então a produção
teve que suprir aquela demanda. Em 1892 ele construiu o primeiro estúdio de
cinema, o “Black Maria”, que se movia de acordo com a deslocação do sol e
continha um telhado removível para possibilitar a entrada da luz. Os filmes eram
basicamente breves números de vaudeville, como dançarinas e boxeadores cômicos.
Não seguiam linhas narrativas, eles documentavam atividades triviais, como
eventos esportivos ou a saída de operários de uma fábrica. Tudo mudou quando
Edwin S. Porter foi contratado por Edison em 1900, começando então a utilizar
aquela ferramenta para contar histórias. Em 1903, ele dirigiria o faroeste
embrionário “O Grande Roubo do Trem”, colocando um dos personagens atirando em
direção à plateia, ousadia que chegava a causar pavor em uma época mais
ingênua. O sucesso dessa nova forma de narrativa visual levou à criação dos nickelodeons,
pequenos teatros que exibiam esses filmes quase que ininterruptamente. O
cidadão pagava um trocado, em qualquer hora do dia, para se distrair por alguns
minutos. Nascia então o cinema.

***

Mary Pickford parecia feliz ao ver nosso entrosamento,
quando se aproximou do sofá. Edison se levantou e deu um longo beijo na mão da
anfitriã, antes de apontar o dedo em minha direção.
– Esse rapaz devia trabalhar com vocês, faz tempo que não
rio tanto.
Mary piscou novamente para mim, antes de responder:
– Nesse ritmo, ele acabará nos dirigindo.
Ela beijou Mina e seguiu falando com os convidados, enquanto
voltava a me sentar e, sem que ninguém percebesse, ligava o gravador. Ele foi o
primeiro a falar, parecendo intoxicado pela passagem daquela mulher, que seguia
com os olhos.
– Não existe atriz melhor que Pickford, um encanto.
– Por falar nisso, eu gostaria de saber sua opinião sobre
esses filmes, essa Arte da imagem em movimento que você… – percebi que ele
não prestava atenção em uma palavra do que eu estava dizendo, ainda muito
compenetrado na figura de Pickford que desaparecia num oceano de ombros. – Sr.
Edison, que fantástica atriz é a Pickford, não?
– Fantástica, meu rapaz. Você disse muito bem.
– E sobre os filmes, o que você sente ao ver… – percebi então
que ele havia escutado muito bem minha pergunta anterior.
– Eu não fiz nada. Você devia perguntar isso ao Edmund Kuhn,
William Dickson, que dirigiram os meus produtos. Meu interesse era nas máquinas
individuais, mas como pode ver, pensei muito pequeno. Achei que não haveria
público interessado nesses filmes. Quando vi “O Nascimento de uma Nação”,
entendi que estava diante de algo muito maior do que tudo que havia imaginado. –
por algum motivo que não compreendi, senti que aquele assunto havia irritado
ele, então preferi abortar a tentativa.
– Mas como é linda a Pickford, não é?
Edison checou se a sua esposa não estava prestando atenção,
virou-se para mim e, com o rosto próximo ao meu, afirmou sorridente:
– Demais, meu inteligente rapaz.
Continua…

Tesouros da Sétima Arte – Quem é o Infiel?


Quem é o Infiel? (A Letter to Three Wives – 1949)
Deborah (Jeanne Crain), Lora Mae (Linda Darnell) e Rita (Ann
Sothern) são três amigas, todas casadas, que estão a ponto de partir em uma
viagem de barco ao longo do Rio Hudson. Até que um mensageiro entrega uma carta
direcionada às três jovens, que ficam impossibilitadas de tomar qualquer
atitude até retornarem. Addie Ross (voz de Celeste Holm), uma amiga linda, rica
e muito admirada por todos, escreveu dizendo que fugiu com o marido de uma
delas, mas sem mencionar com qual. Elas terão o tempo da viagem para
repensarem suas vidas e compartilhar com o público, em flashbacks, a origem de
suas crises existenciais.
O texto desse filme é uma prova da extrema competência de
Joseph L. Mankiewicz, que no ano seguinte faria a obra-prima “A Malvada” (All About
Eve), que, de certa forma, acabou eclipsando-o nas páginas da História do
cinema. Ele conseguiu pegar uma novela medíocre direcionado às leitoras de uma
revista feminina, cortando personagens e tornando as protagonistas
tridimensionais em suas emoções e angústias, muito longe da caracterização
banal e folhetinesca do trabalho original de John Klempner. O roteiro
transforma a figura de Addie em algo misteriosamente espectral, invisível,
onipresente. Não vemos, em nenhum momento, sua tão alardeada beleza e
elegância, apenas sentimos seu profundo impacto nos relacionamentos. Ela é a
insegurança que reside no interior de cada esposa. E a opção pelo desfecho
ambíguo, algo raro em sua época no gênero, eleva ainda mais a qualidade do
texto.

Outro ponto que merece destaque é a participação da
excelente Thelma Ritter, com seu perfeito timing cômico, numa variação do papel
que faria praticamente em todos os seus projetos posteriores, como “Janela
Indiscreta”, “Confidências à Meia-Noite” e “Boeing Boeing”. Ela conseguia a
proeza de atrair toda a atenção nas cenas em que participava, mesmo quando não
falava uma palavra. Uma espécie de Groucho Marx de saias, infelizmente
esquecida pela nova geração.
* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”. 

Kung-Fu Fighting – “O Protetor” e “McQuade: O Lobo Solitário”

Links para os textos anteriores do especial:

O Protetor (Tom Yum Goong – 2005)
Kham, um jovem lutador, precisa ir para a Austrália
recuperar seu elefante roubado. Com a ajuda de um detetive, Khan tem que lutar
contra todos, incluindo uma gang liderada por uma mulher maligna e seus dois
guarda-costas mortais.
O tailandês Tony Jaa surpreendeu o mundo das artes marciais
com “Ong-Bak”, mas era uma produção muito fraca, onde apenas as coreografias
das lutas chamavam realmente atenção. Um filme do gênero precisa oferecer algo
a mais, mesmo que seja na forma de um melodrama sacarina e medianamente satisfatório,
para que não fique parecendo apenas uma exibição de técnica por parte dos
lutadores. O filme seguinte do diretor Prachya Pinkaew equilibraria melhor essa
equação, com um resultado superior em todos os sentidos. O tema, que trabalha a
ligação espiritual dos tailandeses com os elefantes, poderia ser um empecilho
em outras culturas, mas o roteiro simplório se mantém focado na busca de um
homem por seu amigo, um conceito universal.
O mesmo coreógrafo do sucesso anterior, Panna Ritikrai,
retorna com ambições maiores, construindo uma sequência impressionante com
tomada única em tempo real, algo em torno de frenéticos quatro minutos, passada
em um restaurante. Somente essa cena já validaria o projeto, mas ele ainda conta
com, pelo menos, mais umas três excelentes cenas de ação, como aquela que
mostra o herói quebrando os ossos de uma multidão de capangas. É um espetáculo
de torções impecavelmente coreografado que dura por volta de quatro minutos. Jaa
executa um combinado de Krabi krabong e Muay boran, que ele denominou Muay
kodchasaa (boxe do elefante), um estilo que era totalmente desconhecido no
Ocidente, o que explica o impacto de seus primeiros filmes nesse público. É
impressionante ver o estrago que esse estilo faz, em uma cena num templo,
contra três especialistas em Capoeira, Wrestling americano e Wushu.

McQuade – O Lobo Solitário (Lone Wolf McQuade – 1983)
Quando a vida de sua filha adolescente é ameaçada por
sequestradores que estão tentando roubar um caminhão repleto de armas e
munição, o assunto torna-se pessoal para McQuade.

Chuck Norris criou uma persona exótica nas telas, misturando
filmes de artes marciais com cópias genéricas de baixo orçamento dos projetos
belicistas que foram o símbolo da era Reagan. “Invasão U.S.A.”, que considero o
seu melhor no subgênero “exército de um homem só”, não é de artes marciais. Ele
resolve tudo na bala, sem mover um músculo do rosto. Já seus projetos no
gênero, com exceção óbvia de seu clássico confronto com Bruce Lee em “O Voo do
Dragão”, variam entre o medíocre e o insuportável. Eu considero “McQuade”,
dirigido por Steve Carver, o melhor de todos. O grande chamariz da produção era
a batalha épica entre Norris e David Carradine, evento que a ótima trilha
sonora pomposa de Francesco de Masi capta com inspiração clara nos duelos dos
spaghetti westerns. Toda a trama que envolve esse desfecho é pura desculpa, não
fica retida na memória. A ideia é elaborar o suspense minimamente necessário
para que esses dois mitos do gênero, como gladiadores modernos, partam para a
ignorância. A luta dura em torno de quatro minutos do puro Karatê de Norris
contra um misto, mais cenográfico que eficiente, de Kung-Fu e Tai-Chi.  

Guilty Pleasures – “Robocop 3”

Link para os textos do especial:

Robocop 3 (1993)
É difícil defender esse prazer culposo, mas tentem entender
o contexto em que ele foi inserido na vida da criança que fui outrora. Eu não
tinha idade para assistir os dois primeiros no cinema, mas eles, especialmente
o primeiro do Paul Verhoeven, praticamente moravam dentro do meu videocassete. Eu
tinha as adaptações em quadrinhos e o álbum de figurinhas, aquele que tinha
mais fotos do desenho animado que passava nas manhãs da TV Globo, que, aliás, foi
um dos poucos que consegui completar. Eu cantarolava o tema de Basil Poledouris
pela casa, as trilhas sonoras de cinema eram, por assim dizer, minha “Xuxa”. “Robocop
3” não seria apenas o primeiro do personagem que eu poderia ver no cinema, como
também seria o primeiro que eu assistiria no cinema depois de um longo e
tenebroso inverno afastado das salas de rua. Lá estava eu, aos oito anos de
idade, nas férias escolares, acompanhado da minha mãe em um cinema de rua,
empolgado para meu reencontro com o policial do futuro. Tenho certeza que me
diverti muito e não achei nada esquisito no fato dele agora poder sair voando e
enfrentar robôs ninjas. A ressaca viria anos depois, quando revi com os olhos
mais treinados. 
O roteiro é horroroso, com o desgastado clichê da companheira
mirim superinteligente e uma das piores batalhas finais de que me lembro,
incrivelmente anticlimática, colocando um herói com sérios problemas de
mobilidade contra dois robôs com sérios problemas técnicos. O diretor Fred
Dekker, do bom “A Noite dos Arrepios”, até desistiu da carreira depois desse
fiasco. Na intenção de atingir uma classificação etária mais interessante
mercadologicamente, os envolvidos trocaram o vilão que é derretido no ácido
pelo cidadão que é atingido por uma ameaçadora flecha. O policial do futuro,
vivido dessa vez por um equivocado Robert John Burke, agora pode desatarrachar
sua mão biônica e trocá-la por uma bazuca, transformando ele em um genérico
robô de desenho animado. O cenário pretensamente apocalíptico, dominado pelos
punks caricatos dos clipes do Michael Jackson, é tão inofensivo que a parceira
Lewis (Nancy Allen) nem faz questão de usar colete de proteção, mas não se esquece
de armar o cabelo como se estivesse indo a uma festa. Nem vou comentar as cenas
de voo, uma ideia absurdamente tola, que me leva a pensar como alguém pode ter
achado que seria visualmente interessante mostrar uma tora de madeira
impulsionada por um foguete nas costas. Só faz sentido no departamento de
brinquedos. 
E o desfecho? “Os meus amigos me chamam de Murphy, mas você me
chame de Robocop”, com direito a sorrisos constrangedores dos coadjuvantes e o
herói de mãos dadas com uma criança. Pior, impossível! Mas eu assisto sempre
que pego passando na televisão, pura nostalgia, por me fazer recordar daquele
garoto empolgado na poltrona do extinto Cine Carioca da Tijuca, louco pra
escutar pela primeira vez aquela trilha sonora no cinema. 

“As Coisas da Vida”, de Claude Sautet


As Coisas da Vida (Les Choses de La Vie – 1970)
Pierre (Michel Piccoli), um bem-sucedido engenheiro, sofre
um acidente de carro e, ferido mortalmente, relembra seu passado e as pequenas
coisas que fazem a alegria da vida.
Nesse delicado filme, que foi o primeiro da parceria entre o
diretor e a bela austríaca Romy Schneider, fica claro o contraste de estilos
entre o olhar refinadamente inteligente de Claude Sautet, que atraía público e
agradava os críticos, e o cinema experimental, por vezes hermético, que era
realizado na época pelos colegas franceses da Nouvelle Vague. A estrutura que
move a trama, flashback dentro de flashback, trabalha em favor da narrativa,
potencializando o impacto sensorial sem parecer existir apenas como um pedante
exibicionismo. As lembranças do protagonista moribundo, que passeiam desde a
ternura pela ex-mulher e seu filho até os idílicos encontros com uma nova
namorada mais jovem, estão integradas à sua passividade física no tempo real, tendo
sua duração sincronizada ao período de sua inconsciência.
O diretor nos leva a interpretar as motivações dos
personagens no ato de observar eles em silêncio, estando mais interessado em
registrar, por exemplo, um sorriso casual, do que o gracejo que o causou.
Adentramos na privacidade daqueles estranhos imperturbáveis à ação do tempo,
naqueles breves momentos que, em outros filmes, a câmera já teria se desviado
ou teria sido desligada. A linda trilha sonora de Philippe Sarde emoldura os
momentos de melancolia do protagonista, como na cena em que experimenta o amargor
do arrependimento durante uma viagem noturna de carro. Pierre (Piccoli) ainda não
se acostumou com a ausência de sua ex-mulher (Lea Massari), sentindo saudade
daquela convivência em sua zona de conforto, então escreve impulsivamente uma fria
carta de rompimento para a apaixonada jovem namorada (Schneider), mas se
arrepende tarde demais. O acidente o imobiliza, incapacitando-o de exteriorizar
suas emoções, impedindo-o de fazer o que desejou mais que tudo em sua vida: o
simples rasgar de um pedaço de papel. 
* O filme, inédito no mercado brasileiro, está sendo lançado pela distribuidora Versátil.