Evoluímos no “Planeta dos Macacos”?

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    Tudo começou com o livro do francês Pierre Boulle, uma intrincada
    fábula com extremo senso de humor, sobre a tripulação da primeira nave a fazer
    um voo intersideral, em 2500. O objetivo da viagem era encontrar a gigantesca
    estrela Betelgeuse, distante da Terra trezentos anos-luz. Ao descobrirem a
    existência de um planeta que se movia numa trajetória semelhante ao nosso,
    decidiram visitá-lo. Encontraram homens selvagens e primitivos sendo caçados
    por primatas inteligentes e que se comportavam tal como os terráqueos. No
    livro, o astronauta voltava ao planeta Terra após várias aventuras. Já no
    filme, numa inteligente mudança no roteiro, descobre-se que aquele planeta
    dominado por macacos era a própria Terra, após os humanos a destruírem com suas
    guerras nucleares.

    O que no livro era apenas um conto divertido de ficção sem
    maiores pretensões, no cinema se tornou uma poderosa crítica social e
    atemporal. “O Planeta dos Macacos” (The Planet of the Apes – 1968),
    dirigido por Franklin J. Schaffner é estruturalmente perfeito. Personagens
    carismáticos (quem esquece o casal de chimpanzés Zira e Cornelius, vividos por
    Kim Hunter e Roddy McDowall?), construção inteligente de suspense durante os
    primeiros quinze minutos, fazendo-nos lentamente sentir parte da tripulação que
    chega naquele mundo inóspito, um ritmo que dificilmente seria repetido nos
    tempos de hoje, onde o público está bitolado em aceitar apenas edições
    frenéticas, fazendo com que na famosa cena da caçada humana sejamos
    surpreendidos tanto quanto os próprios personagens. Vilões maravilhosos como o
    Dr. Zaius de Maurice Evans e um desfecho que eu daria tudo para presenciar no
    cinema na época. Hoje, a imagem icônica dos destroços da estátua da liberdade
    na praia já foi vítima de muitas paródias e seu efeito se banalizou, porém em
    sua época causou enorme espanto. Vale ressaltar também a excelente trilha
    sonora deJerry Goldsmith, inspirada no trabalho de Stravinsky,
    especialmente “Le Sacre du Printemps”, com a inovadora utilização de
    tigelas de metal como instrumentos de percussão, além de outras opções
    curiosas, como a cuíca brasileira representando o som emitido pelos símios,
    criando uma identidade musical primitiva, ainda que pouco melódica, porém
    coerente com a trama.

    “O Planeta dos Macacos: A Origem” se preocupou
    demais com a perfeição técnica, o ilusório realismo da computação gráfica, mas
    falhou em adicionar alma aos personagens, verdadeiras tiras de cartolina que
    caminham pelas páginas do fraco roteiro, defendendo diálogos banais que somente
    soam interessantes quando referenciam explicitamente as cenas do original. Já
    “O Planeta dos Macacos: O Confronto”, que acaba de estrear nos
    cinemas nacionais, é um produto muito melhor, mas ainda assim um divertimento
    que esquecemos minutos depois dos créditos finais. Meu gosto pessoal, passional
    e racionalmente, reside no original que inteligentemente sabia rir de si mesmo,
    que não precisava de cenas de ação vertiginosa em câmera lenta para instaurar
    um senso de perigo, que contava com a presença forte de Charlton Hestonno
    auge de seu histrionismo. A humanidade teria involuído em pouco mais de
    quarenta e cinco anos? A comodidade da indústria cinematográfica americana
    seria um reflexo dessa sociedade? Parafraseando o astronauta Taylor (mérito do
    excelente roteiro de Michael Wilson, de “Um Lugar ao Sol”,
    “Lawrence da Arábia” e Rod Serling, responsável pela série “Além
    da Imaginação”), antes de descobrir-se em um mundo novo em seu futuro:
    “O homem, esta maravilha do universo, este glorioso paradoxo que me enviou
    às estrelas, continua guerreando contra seus irmãos? Continua deixando os
    filhos de seus vizinhos perecerem pela fome?”
    . Os novos empalidecem
    perante esse refinamento.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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