Cine Noir – “Pacto Tenebroso”


Pacto Tenebroso (Sleep, My Love – 1948)
Produzida por Mary Pickford, com o diferencial no gênero de ter uma heroína, vivida por Claudette Colbert, esse é um ótimo representante da fase inicial em Hollywood do diretor alemão Douglas Sirk, com a elegante fotografia que usa generosamente a profundidade de campo, de Joseph A. Valentine, de clássicos de Hitchcock como “A Sombra de Uma Dúvida” e “Festim Diabólico”, em sua última incursão no Noir. Semelhante a “À Meia Luz”, de George Cukor, o roteiro aborda uma esposa que é manipulada psicologicamente pelo marido, o sempre eficiente Don Ameche, que intenciona se livrar dela e colocar outra mulher em seu lugar, a femme fatale vivida pela bela Hazel Brooks. 
Os elementos de hipnose podem ter ficado ingenuamente datados, assim como a recusa da trama, por causa da censura do Código Hays, em permitir maior afeto entre a esposa e o personagem vivido por Robert Cummings, mas nada que prejudique o entretenimento. É válido salientar a eficiência, ainda hoje, da ótima cena em que a protagonista, em estado hipnótico, é levada a subir no parapeito da varanda. E, um detalhe interessante, vale a pena prestar atenção nas cenas em que Ameche e Brooks aparecem juntos, com ele sempre sendo mostrado no enquadramento de forma subserviente. O uso da escadaria, quase uma referência a Fritz Lang, num dos momentos mais intensos do terceiro ato, também merece destaque. Durante várias cenas de suspense na residência da vítima, o filme parece confundir deliberadamente os limites de interior e exterior. A porta da frente é deixada aberta durante uma tempestade, conduzindo o público a uma forte sensação de ansiedade. Sirk corta para um ângulo alto da escadaria nessa cena, mostrando-nos o interior da casa e o exterior, através da porta. 
O diretor é capaz de interromper o crescendo de suspense, desviando o foco para uma subtrama de um casamento chinês, como forma de surpreender o espectador com um alívio cômico que, de tão deslocado, eleva a sensação de pesadelo que compartilhamos com a protagonista. Um exemplo de que, já em seu início, Douglas Sirk exercitava seu estilo com muita segurança.
*  O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”.

“Blind”, de Eskil Vogt

Blind (2014)
O norueguês Eskil Vogt, em seu primeiro longa-metragem, consegue a proeza de nos transportar de forma original para a mente de uma mulher cega, vivida pela ótima Ellen Dorrit Petersen, operando menos na usual exploração das óbvias dificuldades locomotoras. O interesse está nas transformações internas, na angústia por querer ser mãe e no medo de não ser mais atraente para o marido. Somos conduzidos por sua narração, desafiados a entender o universo que se apresenta a nós de forma onírica, cortesia da fotografia de Thimios Bakatakis, misturando o real e o imaginário que ela cria como ponte para se reencontrar consigo mesma, através da percepção ampliada dela. É interessante, por exemplo, a forma como os personagens criados na mente de Ingrid se tornam mais inconsequentes quando ela está sob o efeito de alguns cálices de vinho.
Sensacional a cena em que ela se despe sensualmente, imaginando seu marido a admirá-la na cama, quando o som das teclas de um laptop quebra a ilusão, fazendo-a perceber que ele estava totalmente focado em seu trabalho. E ao escutar os dedos dele tocando as teclas, ela sabe que o trabalho que a torna invisível aos olhos dele se resume a flertes românticos com estranhas. Ela então, num ato de incrível abnegação, fecha os olhos e finge dormir, mas não aguenta a mentira por muito tempo. O desfecho da cena, em tom sutilmente cômico, mostra a resistência dela confrontando a tentação virtual com a segurança sexual de uma mulher que reconhece ter perdido apenas um de seus vários sentidos. Por mais que o fantástico roteiro se perca em alguns momentos na fria distância em que analisa a personagem, bastam esses três belos minutos para que ela se conecte emocionalmente com o público.
As crises existenciais continuam a atormentar, suas dúvidas ainda dominam grande parte de seus dias imersos na escuridão, mas ela já está mais preparada para fazer as pazes com seu corpo e com sua humana necessidade de carinho, aceitando sua situação e gradualmente entendendo que a reclusão não é a melhor solução.

“Você Não Me Pega, Papai”, de Daniel Wolfe

Você Não Me Pega, Papai (Catch Me Daddy – 2014)
É promissora a estreia do britânico Daniel Wolfe em longas, ajudado
no roteiro pelo irmão Matthew, com uma pegada que remete aos trabalhos de Sam
Peckinpah, surpreendendo pela tranquilidade com que estabelece a trama
aparentemente simples que envolve um casal em fuga, mas que aliada à fotografia
de Robbie Ryan, ganha ares de um sombrio conto de fadas. Laila, vivida com
competência pela estreante Sameena Jabeen Ahmed, é uma adolescente paquistanesa
que decide ir contra seu pai repressivo, fugindo com seu namorado escocês
Aaron, vivido por Conor McCarron, para uma idílica vida nas montanhas a base de
lisérgicos.
É louvável a crença do roteiro na inteligência de seu público, já que limita os
diálogos expositivos ao mínimo, com destaque para uma excelente montagem que
combina uma cena de dança do casal, desfrutando daquela ilusória paz, com a
aproximação de seus perseguidores. Vale destacar a forma como o filme trabalha
a ideia da tradicional “morte honrada” muçulmana, solução buscada pela família
da garota, aliada à gradual e sutil evolução de Aaron, que é mostrado cada vez mais
adotando o senso de controle machista, refletindo exatamente o marido que ele
poderia ser no futuro, não muito diferente dos radicalismos do pai da jovem.
Até mesmo os brutais caçadores, como o vivido por Gary Lewis, ainda que
monstruosos, não são escritos como caricaturas, tornando-se fascinantes, ao
invés da via fácil que os tornaria repulsivos.
O terceiro ato tem falhas toleráveis, certo desequilíbrio entre a necessária
resolução dos arcos narrativos e um desejo de também satisfazer em seu desfecho
como produto do gênero thriller, mas são problemas compreensíveis, afinal,
felizmente, Wolfe arrisca bastante. Fiquei curioso para acompanhar o diretor em
seu próximo projeto, torcendo para que ele se mantenha com a mesma ousadia.

“Frank”, de Lenny Abrahamson


Frank (2014)
Jon, vivido por Domhnall Gleason, é um músico esforçado, mas
medíocre, que sofre caçando as letras de suas canções em passeios solitários
pelas ruas, utilizando como inspiração qualquer elemento que atravesse em sua
frente. Mesmo que seguido por míseras dezoito pessoas em seu Twitter, ele segue
acreditando ser necessário detalhar sua rotina, uma ferramenta que o roteiro
utiliza muito bem. Após um esforço árduo de criação, ele descobre que o máximo
que havia conseguido era plagiar o trabalho de outro músico. Faltava a ele o
elemento criativo do caos, que ele encontra por acaso ao presenciar a tentativa
de suicídio de um artista, considerando então a possibilidade de tomar o lugar
dele como o tecladista de sua banda de punk-rock. 

Esse microcosmo que parece saído de uma combinação das
mentes de Lewis Carrol e Andy Kaufman, de nome coerentemente impronunciável, é
formado por tipos esquisitos, como um empresário que acabou de sair de um
hospício, uma jovem que simplesmente não sorri e um baixista que só fala francês.
O grupo é liderado pelo enigmático Frank, vivido por Michael Fassbender, que
esconde seu rosto com uma imensa e pesada cabeça de fibra de vidro,
espertamente escondendo seus sentimentos com uma perene expressão infantil de
alguém que se surpreende com o mundo ao seu redor. Jon tenta conduzir a banda,
que realiza um som altamente experimental, para uma via mais comercial, o que
permite ao roteiro inserir uma interessante crítica sobre esse dilema artístico
tão comum nas mais variadas vertentes. O estranho Frank acaba se mostrando uma
versão radicalmente projetada dos sonhos do rapaz, o metafórico reflexo
narcisista do espelho que ele teme um dia encontrar. Revelar mais do que isso
seria prejudicial para a experiência única que a obra oferece.
Com um terceiro ato surpreendentemente emocionante, esse
estranho e fascinante filme do diretor Lenny Abrahamson encontra uma forma
original de abordar a angústia do processo criativo, indo contra o conceito
mitológico de que a loucura pode ser uma benéfica força-motriz para a Arte.

Cine Noir – “O Beijo Amargo”

O Beijo Amargo (The Naked Kiss – 1964)
O sonho do diretor Samuel Fuller era ser dono de um jornal,
apaixonado desde criança pela emoção contida nas manchetes sensacionalistas. O
seu trabalho refletia essa preferência pelo impacto, com um timing perfeito,
como podemos notar na bombástica cena que inicia o filme. A personagem vivida
por Constance Towers, uma prostituta com senso ético, extravasando toda sua
raiva em seu proxeneta, uma explosão de ódio emoldurada pelo jazz da trilha
sonora, capturada pela câmera de Stanley Cortez como uma espécie de coreografia
de uma dança brutal, com a clara intenção de desorientar o público, que apanha
no lugar do homem. O próprio Fuller, numa ação rápida, acrescenta maior
surrealidade ao momento, retirando a peruca da mulher, que segue obstinada em
seu rompante, inclemente aos apelos da vítima. Ela rouba o dinheiro do homem,
já imobilizado no solo, deixando com altivez o local, enquanto o espectador
procura se recuperar daquele frenesi.
O leitmotiv é claro, a crítica ao mundo de aparências e
rótulos, elemento que fica ainda mais óbvio no decorrer da trama. A prostituta
que decide mudar radicalmente de área de atuação, adentrando, como enfermeira,
um hospital para crianças com deficiências físicas. Ela se apaixona pelo
personagem elegante vivido por Michael Dante, um representante da alta sociedade
aplaudido como herói de guerra e filantropo, que eventualmente será flagrado
por ela tentando abusar sexualmente de uma criança. O pedófilo que se esconde
com o verniz hipócrita da burguesia. A prostituta, marginal na sociedade, que canta
uma emocionante canção com as crianças do hospital e se encanta na rua com um
bebê em seu carrinho, demonstrando doçura e o desejo de ser mãe, mas que, por
questões financeiras, pode voltar a vender seu corpo sem remorso algum. Não há
espaço para soluções demagógicas no cinema de Fuller.

Genial a forma como o roteiro dribla a censura do Código
Hays, na cena em que ela conversa num banco de praça com o policial vivido por
Anthony Eisley, conduzindo para um momento de intimidade na casa dele, mantendo
o diálogo sobre a venda de bebida como analogia para o seu verdadeiro trabalho,
simbolizado sutilmente pela cédula que é mostrada pousada ao lado da garrafa de
champanhe. Já o policial, símbolo da lei, acaba se revelando um facilitador
para a prostituição, conduzindo belas jovens em dificuldades financeiras aos
cuidados da dona do bordel da pequena cidade. O filme pede que olhemos além
dos estereótipos, fugindo da demagogia, encarando o pesadelo da vida real.
* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”, em “A Arte de Samuel Fuller”, contendo ainda “O Quimono Escarlate”, “A Casa de Bambu”, “Paixões Que Alucinam” e um excelente documentário produzido pelo ator Tim Robbins, com participação de Quentin Tarantino e do próprio diretor. 

Make ‘Em Laugh – “Só Nos Resta Chorar”


Só Nos Resta Chorar (Non ci resta che piangere – 1984)
Um tesouro injustamente esquecido fora de sua nação,
devidamente garimpado pela distribuidora “Versátil”, que também merece aplausos
pelo excelente trabalho na tradução/adaptação, por se tratar de uma comédia alicerçada
no rápido duelo verbal entre dois dialetos, o toscano de Roberto Benigni e o
napolitano de Massimo Troisi, com muitos diálogos em que a piada poderia
facilmente se perder na tradução. A sensação de liberdade que o roteiro exala
transparece o estado de espírito de seus criadores, dois artistas que estavam
experimentando o auge de suas carreiras. Benigni e Troisi, amigos fora das
telas, dividem a direção e optam por improvisar em todas as cenas. Alguns
momentos são difíceis de esquecer, como a insistente tentativa de tratar o
fenômeno temporal como um transtorno psicológico, o hilário encontro com
Leonardo da Vinci, onde o professor fica indignado ao perceber a ignorância do
artista ao tentar ensiná-lo sobre a psicanálise Freudiana e o Marxismo, ou a
cara de pau do zelador que corteja uma bela jovem afirmando ser o compositor de
clássicos como “Yesterday” e “Nel blu dipinto di blu”.

É de intenso frescor a forma como a trama se mostra
desinteressada em explicar o fenômeno nonsense da viagem no tempo, que conduz
os amigos, um professor e o zelador da escola, ao período renascentista. A
brincadeira esconde uma crítica, já que o objetivo deles consiste em impedir
que Cristóvão Colombo descubra a América, como forma de evitar que, nos tempos
atuais, o coração da irmã do professor seja partido por um soldado norte-americano.
Há também uma crítica aos dogmas religiosos, tema que Benigni expandiria em “O
Pequeno Diabo”, de 1988, ridicularizando a “hora da escuridão” ao meio-dia,
estabelecida pelos fundamentalistas do padre Girolamo Savonarola, evidenciando
o rebelde que se recusa a se esconder em sua casa e fechar sua janela, além da cena
da cerimônia na igreja, onde os homens, totalmente desinteressados com o
ritual, apenas encaram com desejo as mulheres e as seguem até suas casas. 
* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Versátil”.

“O País de Charlie” / “Der Samurai”

O País de Charlie (Charlie’s Country – 2013)
O roteiro, escrito pelo diretor Rold de Heer em parceria com
o protagonista David Gulpilil aborda de forma livre a vida do indígena em meio
à intrusiva intervenção do governo australiano, tratando de elementos
autobiográficos, como o vício no álcool e seu exílio, enquanto acompanha sua
vida solitária na reserva e sua aventura na cidade grande. E, por mais que sua
presença em cena seja hipnotizante, não dá para relevar a forma simplória como
todos os personagens são construídos, alicerçados em estereótipos e com
praticamente nulo aprofundamento em suas motivações.

 

Há uma simplificação até mesmo nas questões sociais que o
roteiro aborda, sem interesse em focar nos conflitos internos e externos dos
personagens. O resultado é emocionalmente eficiente, mas existem vários
momentos onde o roteiro parece não confiar na inteligência do espectador,
enfatizando excessivamente com a trilha sonora de Graham Tardif o que já está
estabelecido satisfatoriamente pela imagem. O protagonista consegue dizer tanto
com pequenos gestos e com seu rosto expressivo, que acaba se tornando incômoda
essa necessidade de sublinhar artificialmente cada emoção, longas tomadas que
berram a intenção de fazer o público sentir até o aroma do local, um recurso
que acaba se banalizando e desumanizando o elemento principal, um clássico caso
onde menos seria mais.
Com adoráveis toques de humor, que ajudam a evitar que o
filme se arraste em seu segundo ato, essa nova parceria entre o diretor e
Gulpilil pode não ser a mais interessante, considero “The Tracker” bem melhor,
mas vale tremendamente pela impecável atuação de seu protagonista.
Der Samurai (2014)
Como na Alemanha, similar ao que infelizmente ocorre aqui, é
difícil conseguir verba para projetos do gênero fantástico, o jovem diretor
Till Kleinert acreditou em sua ideia e elaborou um plano. Um filme neo-giallo
realizado por crowdfunding, um trabalho de conclusão de curso, exatamente o
tipo de surpresa agradável que engrandece o conceito de um festival e nos faz
aguardar com ansiedade as próximas obras do cineasta. Utilizando variadas
referências, que vão de Argento, Bava, Soavi, Lynch, passando pelo ciclo de
lobisomens das décadas de sessenta a oitenta, até mesmo os jidai-geki chambara
japoneses e os trabalhos iniciais de Polanski, o roteiro enxuto constrói a
partir desse amálgama uma visão que se impõe com personalidade, entregando um
eficiente vilão samurai travesti, vivido com a mesma intensidade do
Frank-N-Furter de “Rocky Horror Picture Show”, por Pit Bukowski.
A trama, coerente com sua proposta, utiliza o jogo de gato e
rato entre o sombrio vilão e seu extremo oposto, um jovem policial tímido e
inexperiente, vivido por Michel Diercks, como alegoria para o autodescobrimento
homossexual, repleto do gore caricato que remete ao das produções dos “Shaw
Brothers”, tendo os assassinatos em série perpetrados pela louca projeção de
seu id, seus impulsos primitivos, como metáfora visual para um extravasamento
da repressão interna do policial, conduzido pela espada samurai como óbvio
símbolo fálico.

“O Presidente” / “Massagem Cega”

O Presidente (The President – 2014)
O início do filme, dirigido por Mohsen Makhmalbaf, já deixa
claro o tom de parábola, com o presidente de uma nação despótica sem nome,
vivido por Misha Gomiashvili, sendo apresentado como uma caricatura capaz de
assinar a permissão para diversas execuções, momentos antes de se juntar ao
neto pequeno e inconsequentemente entretê-lo ordenando o ligar e desligar das
luzes da cidade, traduzindo sem nenhuma sutileza o absurdo da imoralidade de um
poder supremo. Quando é necessário que ele fuja, num toque esperto do roteiro,
não são suas várias medalhas militares que o ajudam, mas seus talentos
musicais. Mas, em outras cenas, o texto recorre ao melodrama desgastado, com o
ponto mais baixo simbolizado por uma desnecessária subtrama envolvendo um
prisioneiro que retorna para encontrar sua amada com outro.
O roteiro, escrito em parceria com a esposa Marzieh
Meshkini, conduz o presidente, sempre acompanhado de seu neto, símbolo da
pureza que ele abandonou ao optar pela ganância, a uma jornada onde terá que
encarar incógnito os cidadãos oprimidos, vivenciando na pele o mal que causou.
É interessante a forma como a trama, com óbvias referências ao “A Vida é Bela”,
de Benigni, desenvolve a relação entre avô e neto, mostrando o ditador sendo
questionado com contundência pelo pequeno; dúvidas que não soariam genuínas em
uma narrativa que não fosse essencialmente fabulesca. Sua contraparte infantil,
como uma flor de inocência, tentando romper o asfalto. Um road movie onde
vários estereótipos atravessam a estrada do protagonista, numa intensa
reavaliação de suas condutas pessoais. Uma alegoria que poderia ser mais
eficiente se optasse pela sutileza, mas que ganha pontos pela objetividade de
seu discurso, fazendo com que o projeto possa se tornar atraente no circuito
mainstream, com sua importante mensagem atingindo um público maior.
Massagem Cega (Tui Na – 2014)
O aspecto mais interessante do filme em seu primeiro ato é a
forma pouco sentimental com que o diretor aborda o tema, que nas mãos de
qualquer cineasta poderia se tornar pura demagogia. Qualidade que vai se
perdendo no segundo ato, quando o roteiro cede a algumas resoluções formulaicas
típicas de folhetins. A frieza de seu olhar e seu completo desinteresse em
satisfazer qualquer expectativa de seu público, elementos que poderiam
limitá-lo em qualquer outra narrativa acabam funcionando nessa proposta,
desmistificando o trabalho dessa instituição de massagistas cegos, deixando que
as relações entre os profissionais fluam com naturalidade documental,
alternando-se, como na vida real, entre a beleza das descobertas e a banalidade
da rotina. O problema é que essa distância emocional acaba cansando, entregando
um resultado final que repele mais do que atrai. 

É interessante a escolha por inserir um narrador que lê os
créditos iniciais, um artifício que já nos coloca sensorialmente alertas,
conscientes de que estamos adentrando um mundo novo, com suas próprias regras
visuais. A trilha eletrônica de Johann Johansson opta pelo convencional,
utilizando generosamente as distorções para traduzir sonoramente o desconforto
e a desorientação dos personagens, mas também apelando para as óbvias cordas na
hora de expressar o amor entre eles. Perto das tentativas do diretor em
confundir o público, trocando excessivamente as perspectivas, essa moldura
sonora acaba deixando um gosto amargo de preguiça criativa. O interesse do
diretor Lou Ye está no despertar dos impulsos sexuais desses profissionais,
atuando como voyeur em seus conflitos amorosos, mostrados de maneira franca e
sem nenhum verniz, podendo chocar aqueles que equivocadamente pensem que a
perda de um sentido impossibilita a necessidade de exploração dos outros. 

“Sozinha” / “Blackfish – Fúria Animal”

Sozinha (San Zimei – 2012)

Wang Bing é um diretor destemido, o que provou com sua permanência em um hospital psiquiátrico, resultando numa extravaganza de 4 horas que repetiu a experiência avassaladora do documentário anterior, “Sozinha”, no Festival de Veneza. A rotina de três crianças abandonadas pela mãe, que sobrevivem em uma vila rural afastada e montanhosa.
São projetos bastante diferentes, mas a proposta é a mesma: causar desconforto no espectador, fazendo-o lutar contra seus sentidos para permanecer na sessão até o final. Ele claramente forma laços de amizade com seus observados, estabelecendo uma intimidade que o torna um elemento do cenário. Vulneráveis, as crianças tossem constantemente. Após certo tempo, os sons de seu sofrimento passam a perturbar o espectador. O investimento emocional se intensifica quando percebemos a alegria delas na visita do pai, que havia ido para a cidade procurar emprego. A brava resiliência delas nas mais insuportáveis condições, em contraste com a fragilidade infantil que demonstram ao agarrarem-se nas pernas do homem cuja feição modifica a cada longo período de afastamento.
As imagens que sua câmera captura, indo contra o padrão do gênero, não são pensadas objetivando um posterior trabalho na edição, deixando transparecer que seu interesse investigativo está exatamente nas arestas que muitos outros documentaristas aparam. O resultado é exaustivo para quem assiste, já que ele incorre muitas vezes em repetições imagéticas. Durante quantos minutos precisamos acompanhar os passos de seus observados em uma estrada? Quantas vezes precisamos assistir a longa preparação da comida que será dada aos porcos? Qual a sensação que ele quer transmitir? Bing não manipula a vida da pequena família chinesa que acompanhou por seis meses, apenas a observa.

Blackfish – Fúria Animal (Blackfish – 2013)

Se você é como eu, que se entristece quando passa pela jaula dos símios no zoológico e vê os animais, ditos, racionais se portando como acéfalos, provocando o animal e perturbando sua já limitada existência, prepare-se para sair revoltado da sessão desse ótimo documentário. A ideia de utilizar a baleia, um animal fora de seu habitat como fantoche, tentando domar o indomável, como bem salientado no próprio filme, será visto num futuro próximo como um ato de pura barbárie. Empresas como a SeaWorld, que são capazes de roubar a dignidade de um funcionário morto, apenas para não ter problemas judiciais, continuam exercendo suas atividades normalmente. Animais selvagens mantidos em cruel cativeiro, sofrendo stress diário e sendo brutalmente separados de seus filhotes, como numa das declarações mais contundentes, onde ex-treinadores relatam o longo desespero agonizante das fêmeas.
A angústia aumenta até que alguns ataques começam a ser contados, acertadamente, sem explorar as tragédias, cortando sempre antes dos ataques fatais, evidenciando que não são casos isolados causados por imperícia dos treinadores. A natureza sempre encontrará um caminho, por mais que os homens acreditem ser capazes de dominá-la de alguma forma. Utilizando como ponta de lança argumentativa a morte da experiente treinadora Dawn Brancheau em 2010, a diretora Gabriela Cowperthwaite assegura pela forma com que finaliza sua obra, que existe esperança no ser humano, ainda que as absurdas touradas sejam uma tradição e os homens ainda achem interessante verter sangue em octógonos. Como mostradas, as baleias que possuem o costume de viver em grupos e nunca atacam em seu ambiente natural, provam ser mais inteligentes que nós.

“Deus Ama Uganda” / “Viemos em Paz”

Deus Ama Uganda (God Loves Uganda – 2013)
Excelente documentário, que deveria ser visto obrigatoriamente pelos brasileiros. Nossa realidade não está distante desta que o trabalho do diretor Roger Ross Williams apresenta sobre a Uganda. Após a saída do ditador Idi Amin Dada, os evangélicos americanos notaram a incrível fonte de renda que essa nação poderia ser. A oportunidade de se instalarem em um local culturalmente em transição, onde metade da população era jovem o bastante para aceitar novas regras, sendo carentes emocionalmente e sem condições básicas de saúde e moradia. Em uma excelente transição, logo após as câmeras mostrarem a pobreza em que vivem as pessoas, somos levados para uma revoltante cena de coleta em uma das igrejas, mas apenas o tempo suficiente para que nossa indignação siga em crescendo até a próxima imagem, que silenciosamente surte o efeito de um soco no estômago: a refinada mansão onde vive o pastor evangélico. 
Dividindo-se entre a aventura dos jovens missionários e a triste consequência da doutrina de exclusão que defendem, acabamos nos surpreendendo com momentos que beiram o nonsense das melhores esquetes do Monty Python. A diferença é que são reais e provavelmente se repetem diariamente no templo ao lado de sua casa. Como a cena onde um pastor explica a rejeição aos homossexuais com uma exibição de slides, onde homens são vistos praticando sexo, enquanto a plateia berra apavorada. Não é muito mais absurdo que o pastor que assistimos na nossa televisão, vendendo no horário do almoço um pedaço do tecido de seu terno, como se aquilo fosse curar doenças. Homens que praticam uma lógica distorcida, manipulando inclusive a política. 
O documentário também causa gargalhadas involuntárias, como quando uma missionária evangélica revela que sentia desejos sexuais por mulheres em seu passado, após ter sido mostrada durante todo o primeiro ato pregando duramente contra os homossexuais. A obra manipula muito bem nossas emoções, fazendo-nos rir de um absurdo desses, mas em seguida nos encaminha para a tristeza de um estúpido assassinato causado por homofobia. Percebemos que não há motivo algum para rir, apenas devemos nos envergonhar de uma sociedade que se encaminha a passos largos e de mãos dadas ao ódio e a segregação. Rumo à extinção do “homo – não tão – sapiens”.
Viemos em Paz (We Come as Friends – 2014)
O maior mérito desse documentário, dirigido por Hubert Sauper, é a montagem, que, aliada à organicidade na
abordagem do tema, evitando pesar a mão no discurso didático, conduz o
espectador sem forçar seus olhos em qualquer direção, deixando-o absorver a
informação passada e formar sua própria opinião. O diretor levou sua equipe
para o Sudão em 2011, no momento em que ele estava prestes a passar por uma
grande cisma, com a parte sul afirmando sua independência.
Ele visitou áreas dominadas por interesses externos, invariavelmente em
detrimento de seu próprio povo. Uma invasão desumana que, por exemplo, no
intuito de conseguir petróleo, não se importa de estar envenenando a água que
aquelas pessoas irão beber. Num dos momentos mais revoltantes, uma criança
sudanesa chora ao ser forçada por missionários evangélicos a colocar meia e
sapato. E, obviamente, os invasores sempre argumentam que estão pensando no
melhor para aquele povo, enquanto tentam transformá-los radicalmente em versões
padronizadas e medíocres, ignorando suas crenças ao tentar obrigar eles a
adorarem um deus que eles não conhecem. A câmera capta o orgulho daquele que
celebra com sua família, confortavelmente através de sua webcam, um absurdo
arrendamento realizado contra a vontade do dono da terra. E o desconforto
aumenta gradualmente, contrastando com a beleza da fotografia.
O título que parece saído de um sci-fi encontra ressonância em ângulos de
câmera e tomadas aéreas que sutilmente criam a ilusão de que estamos assistindo
um mundo alienígena habitado por seres nus, onde os exploradores malignos são
os engravatados. É um ótimo filme para assistir em conjunto com “Deus Ama
Uganda”.