Faces do Medo – “Zombie – O Despertar dos Mortos”


Zombie – O Despertar dos Mortos (Dawn of The Dead – 1978)
“A Noite dos Mortos-Vivos” é puro instinto, cinema de
guerrilha, atmosfera, soco no estômago, claustrofobia, um ato ousado que
modificou o cenário do horror no mundo todo, inspirando toda uma geração de
cineastas, uma trama simples e apavorante, onde a ameaça não era representada
por monstros ou psicopatas, mas, sim, por entes queridos falecidos. Como é
salientado em uma das cenas da continuação, o apocalipse zumbi poderia ter sido
evitado, caso as pessoas tivessem vencido suas amarras morais e matado seus
familiares infectados. Esse conceito revolucionário, que adicionou o
canibalismo como recurso visual de impacto, foi, talvez, a última grande
criação no gênero, vítima atualmente de reutilizações pouco inspiradas.
Com “Zombie – O Despertar dos Mortos”, George Romero deixou
o instinto um pouco de lado, mais confiante enquanto realizador, e calculou
cada página de seu roteiro em escala épica. Enquanto o anterior era o exercício
apaixonado de um jovem, essa sequência é o trabalho de um profissional maduro, com
total domínio de sua pretensão, além de pleno controle criativo. No anterior,
os caipiras americanos, que, sorridentes, tiravam fotos com os zumbis mortos,
representavam a estupidez humana, os verdadeiros monstros da história, já que
não eram acéfalos. A escolha do alvo, dessa vez, foi mais corajosa, uma crítica
social mais abrangente e exposta sem sutileza, os zumbis do consumismo, aqueles
que, mesmo após a morte, escolhem retornar para o ambiente em que se sentiam
mais confortáveis, um imenso centro comercial. A claustrofobia dá lugar ao
marasmo padronizado de vitrines e escadas rolantes. O tema é implacavelmente
atual, quando analisamos, por exemplo, a comoção popular que sucede cada
lançamento de um novo aparelho eletrônico, ou a ansiedade de uma pessoa que gasta
o dinheiro suado em caríssimas roupas de grife, pagando pela marca, apenas para
satisfazer um subjetivo status social. E se pensarmos que, na época, não havia
tantos shopping centers, podemos dizer que Romero foi profético em sua visão. É
impossível negar o mérito do maquiador/técnico de efeitos visuais Tom Savini,
que deu o tom do gênero nas produções que se seguiram, especialmente as
europeias, abusando do gore.

Acho interessante como o roteiro já evidencia a crítica
social antes mesmo do primeiro zumbi aparecer, numa curta cena que nunca é
lembrada, quando os policiais estão se preparando para invadir o prédio com os
porto-riquenhos. Eles vivem abaixo da linha da pobreza, estranhos em uma terra
estranha, porém, um dos policiais afirma, com ódio no olhar, que aqueles
desgraçados possuem muito mais do que ele. A inveja do ser humano, sintoma de
insegurança, é um dos estímulos que o conduz à compensação material, o convite
para o consumismo, o que explica a preferência do “ter”, em detrimento do “ser”,
que é o refinado resultado de uma mente emocionalmente madura. 

* O filme está sendo lançado em Blu-ray, em três versões, com excelentes extras, pela distribuidora “Versátil”, em parceria com a “Livraria Cultura”. Dentro do estojo, um belo pôster, que pede uma moldura. 

Blaxploitation – “A Fúria do Poderoso Chefão”

Link para os textos do especial:

A Fúria do Poderoso Chefão (The Black Godfather – 1974)
Um filme pouco lembrado, da primeira fase do fenômeno
blaxploitation, escrito e dirigido por John Evans, com um fiapo de trama
trabalhado de forma praticamente amadora, sustentado pelo carisma do protagonista,
vivido por Rod Perry, um delinquente que é apadrinhado por um chefão do crime, vivido
por um Jimmy Witherspoon cheio de atitude, após uma tentativa desastrada de
furto. O homem valoriza a coragem do jovem, que, de uma hora pra outra, acaba se
transformando em alguém elegante, educado, e, por incrível que pareça, ele se
mostra mais competente que o chefão. Como o roteiro não sabe estruturar um
mínimo de suspense, os anos de experiência, na prática, dão a impressão exata
de alguns dias na vida do rapaz. Você simplesmente é levado a acreditar que ele
é extremamente competente, já que não há uma cena sequer, nesse hiato de
transformação, que mostre ele em ação.
Os defeitos agregam à diversão, criticar tecnicamente esses
filmes é assinar um atestado de ignorância, desmerecendo o contexto das obras
e, especialmente, o descompromisso dominante nas produções. O que vale é
perceber o desconforto de grande parte do elenco ao ditar, de forma quase
robótica, as linhas de diálogo totalmente artificiais, que contrastam com o tom
de naturalidade que as tramas se esforçam em alcançar. Dar risada com os
bate-bocas fartos de xingamentos inspirados, alguns intraduzíveis, como na cena
de pancadaria com Tony Burton, conhecido pelo papel de treinador do Apollo
Creed, nos filmes da franquia “Rocky”, num salão de ginástica improvisado. É
impossível não torcer para que o protagonista arrebente a cara do arrogante traficante
branco, um racista cruel, vivido por Don Chastain, um personagem tão caricato
que parece saído de um desenho animado. A trilha sonora, normalmente um ponto
alto nessas produções, não empolga, nem encanta, com uma mistura desconcertante
de estilos, com a inclusão de um irritante sintetizador, que parecem ter sido
escolhidos na base do uni, duni, tê.

Pegando carona descarada no sucesso da obra-prima de
Coppola, o filme não é dos melhores, porém, considero superior, por exemplo, ao
respeitado “Sweet Sweetback’s Baadasssss Song”. Com o orçamento que tinham,
fizeram milagre. 

Chumbo Quente – “O Homem Que Luta Só”


O Homem Que Luta Só (Ride Lonesome – 1959)
Um caçador de recompensas captura um pistoleiro e ruma a
Santa Cruz para entregá-lo às autoridades. 
A motivação do personagem vivido por Randolph Scott, numa
camada mais superficial de interpretação, é a vingança pelo assassinato de sua
esposa, perpetrado pelo sempre competente Lee Van Cleef, cujo pouco tempo em
cena potencializa sua presença como um fantasma do passado. O verdadeiro vilão
do filme é o passado. A vingança, algo comum no gênero e, especificamente, dominante
no ciclo produzido pela Ranown, com a parceria entre o ator e o diretor Budd
Boetticher, pode ser vista nesse caso como um elegante MacGuffin hitchcockiano.
O que faz esse faroeste ser especialmente interessante é o
que se esconde por baixo dessa camada, perceptível discretamente na forma como
Scott escolhe conduzir as ações do personagem, um silêncio diferente daquele do
homem sem nome de Leone, uma espécie de desprendimento moral, um caçador de
recompensas que não se importa mais com as recompensas, nada no mundo material
irá trazer um mínimo de satisfação. Uma solidão existencial que é enfatizada
nos enquadramentos, minimizando ele na imensidão do cenário. O que mantém ele
vivo é, mais que executar a vingança, a esperança de poder, algum dia, voltar a
ser o homem que era outrora. É interessante também a camaradagem que se
estabelece com os dois bandidos, que também estão buscando um redirecionamento,
vividos por James Coburn e Pernell Roberts, versões da persona dele, caso não
tivesse sido modificado pela tragédia.

O simbolismo da árvore, em formato de cruz, o local que
representa a morte e o nascimento. Sem revelar muito, considero brilhante a
maneira como o roteiro trabalha esse símbolo, conduzindo a um dos desfechos
mais impactantes do gênero. A trama, em setenta e três minutos, muito bem
utilizados, acerta na despretensão da forma, exatamente por ter confiança na riqueza
de seu conteúdo. 

* O filme está sendo lançado em DVD, pela distribuidora
“Versátil”, na caixa “Cinema Faroeste”, que conta também com:
“Comando Negro”, “Audazes e Malditos”, “Almas em Fúria”, “Paixão Selvagem” e
“Reinado do Terror”.

Chumbo Quente – “Audazes e Malditos”


Audazes e Malditos (Sergeant Rutledge – 1960)
Sargento negro da cavalaria americana, formada por antigos
escravos, é acusado do assassinato do comandante e de sua filha, e tenta provar
sua inocência. 
O estúdio queria Sidney Poitier, um ator extremamente
competente, porém, o diretor John Ford exigiu que o protagonista fosse vivido
por Woody Strode. Alguns críticos da época evidenciaram a opção como
equivocada, salientando a pouca desenvoltura dele em várias cenas, sem dúvida,
um ator muito limitado. O que os críticos da época falharam em compreender, uma
demonstração da lucidez criativa de um cineasta já no crepúsculo de sua
carreira, é que o elemento mais importante era a imponência física de alguém
que precisava provar seu caráter em uma sociedade predisposta a destruí-lo ao
primeiro sinal de fraqueza.
Qualquer entonação calculada ou maneirismo estudado de um
ator poderia minimizar a estranheza que a câmera buscava, como que se desse a
ele uma aura mítica, que o colocasse em destaque. E percebemos a eficiência
dessa escolha analisando as cenas do tribunal, onde podemos enxergar esses
maneirismos teatrais no personagem de Jeffrey Hunter, o advogado de defesa, e,
em maior intensidade, no alívio cômico representado pela interação constante
entre o juiz, seu debochado colega de mesa e sua esposa. E, quando ele explode, na cena mais emocionante, em que ele se defende no tribunal, conseguimos sentir a pungência da angústia de um homem que sabia estar tendo sua melhor chance no cinema. A grandeza mítica fica
ainda mais evidente na tomada em que mostra os companheiros homenageando o
personagem com uma canção, com o enquadramento, aliado à fotografia
expressionista de Bert Glennon e a expressão no rosto de Strode, compondo uma
figura heroica que é maior que seu ambiente, acima do mítico Velho Oeste.

Filmes que abordavam a estupidez do racismo só viriam a se
popularizar no final da década de sessenta, com “No Calor da Noite” e “Adivinhe
Quem Vem Para Jantar”, ambos de 1967. Mas antes mesmo de “O Sol é Para Todos”,
de 1962, John Ford atacava o tema com objetividade corajosa, nesse ótimo filme
que merece maior reconhecimento. Enquanto o negro da célebre obra protagonizada
por Gregory Peck era mostrado como alguém passivo, que precisava ser defendido
pelo homem branco, o sargento negro de Ford, após encontrar a menina
violentada, foge da cena do crime, por saber, como o personagem afirma numa
poderosa cena, que a sociedade não estava preparada para entender a inocência
de um negro, ainda que ela fosse provada em julgamento. Um viés mais
audacioso, que, mesmo conduzindo a um final feliz, é, em essência, pouco
otimista.
* O filme está sendo lançado em DVD, pela distribuidora “Versátil”, na caixa “Cinema Faroeste”, que conta também com: “Comando Negro”, “O Homem Que Luta
Só”, “Almas em Fúria”, “Paixão Selvagem” e “Reinado do Terror”.

Tesouros da Sétima Arte – “Robin e Marian”


Robin e Marian (Robin and Marian – 1976)
Além de ser consideravelmente fiel à lenda de Robin Hood,
essa produção dirigida por Richard Lester conta com a irresistível química
entre Sean Connery e Audrey Hepburn, que retornou às telas, após um longo
hiato, pressionada pelo filho, que ficou entusiasmado com a possibilidade da
mãe trabalhar com o eterno 007. Nem mesmo as usuais gags visuais do diretor, de
comicidade questionável, conseguem prejudicar o bonito tema central da obra,
cuja nobreza é emoldurada pela elegância da trilha sonora de John Barry.
A despeito do elemento de aventura obrigatório, a mensagem
transmitida possui uma complexidade rara em filmes do gênero, um conflito
adulto estruturado na recusa de um herói em envelhecer, a dor da mulher amada
ao constatar que ele nunca irá diminuir o ritmo, caminhando resoluto ao
encontro da morte. E, no meio desse fogo cruzado, o inquebrantável xerife de
Nottingham, vivido por Robert Shaw, um velho adversário que é incapaz de
ignorar a admiração que sente por aquele rebelde, um respeito entre cavalheiros,
homens com cicatrizes profundas e que conseguem reconhecer, intrínseca no
caráter de ambos, a impossibilidade de virarem as costas para suas convicções. O
duelo final minimalista, que enfatiza a exaustão de corpos que não conseguem
mais sustentar suas espadas com a desenvoltura da juventude, entrega uma emoção
cada vez mais esquecida no cinema moderno, escravo do exagero.

O lindo desfecho, que não agradou ao público na época, é uma
prova de como o tempo é mais generoso com as decisões criativas que vão contra
o senso comum. Um público que esperava satisfazer apenas a necessidade por
ação. O sacrifício da mulher, que havia entregado sua vida à igreja, decidida a
impedir que seu herói, o cúmplice de tantas aventuras, sofresse com a obrigatória
negação física de seus instintos. E, num ato de devoção suprema, ela percebe
que não conseguiria viver sem ele. A flecha lançada, cujo destino é uma
incógnita, o símbolo de uma relação que nunca aceitaria a rendição ao
comodismo.  

Tesouros da Sétima Arte – “Deus Sabe Quanto Amei”


Deus Sabe Quanto Amei (Some Came Running – 1958)
É impressionante como esse excelente filme é pouco
comentado, até mesmo entre os cinéfilos apreciadores dos clássicos. Um dos
melhores trabalhos do diretor Vincente Minnelli, realçando a grandiosidade em
uma cidade pequena, conseguindo extrair de Frank Sinatra, que foi um ótimo
ator, ainda que os críticos usualmente ignorem essa faceta, uma das suas
interpretações mais ricas em camadas psicológicas, como um soldado que retorna
da guerra e, por ter a sensibilidade criativa de um artista, um escritor, sofre
a perturbação potencializada em seu reencontro com a sociedade. Até mesmo Dean
Martin, um ator reconhecido por ser um adorável canastrão, consegue surpreender
no papel de um jogador de cartas. E, ao final, é linda a forma como seu personagem, num ato raro, respeitosamente tira o chapéu. Um gesto simbólico, que não irei explicar muito, para não estragar a experiência, mas que diz bastante sobre o personagem. 
Após experimentar a brutalidade irracional, sendo
transformado em sua essência, o escritor fica incapaz de enfrentar sóbrio o seu
próprio passado. É interessante a forma como a trama coloca em confronto o
personagem com seu irmão mais velho, vivido por Arthur Kennedy, um hipócrita
banqueiro casado que sempre recriminou a relação do caçula com a jogatina e sua
atitude de mulherengo, indiferente ao fato de que, em sua função, flerta
agressivamente com sua secretária, além de costumar jogar profissionalmente com
seus clientes, com menos caráter e ética. A diferença é que o mais novo abraça a
sua realidade sem máscaras. Vale salientar também a relação entre o escritor e
sua admiradora, a prostituta vivida por Shirley MacLaine, que o ama sem
prejulgamentos, como criança, que sofre a cada atitude de desprezo dele.
Estimulado pelo desafio autoimposto de conquistar o coração de uma fria
professora, como que uma tentativa inconsciente de fazer as pazes com sua
própria intelectualidade, ele irá aprender, pela dor, que o verdadeiro amor
pode se esconder na flor mais cheia de espinhos.

O roteiro foi adaptado de um livro de James Jones, o
responsável por “A Um Passo da Eternidade”, que, cinco anos antes, havia
consagrado o cantor com um Oscar de Ator Coadjuvante. A cerimônia que entregou,
no mesmo ano do lançamento de “Deus Sabe Quanto Amei”, o prêmio de direção a
Minnelli, por uma de suas obras mais fracas, o musical “Gigi”. 
* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”.

“O Carteiro e o Poeta”, de Michael Radford

A emoção em “O Carteiro e o Poeta” (Il Postino – 1994),
dirigido por Michael Radford, já nasce nos primeiros segundos, com a linda
trilha sonora de Luis Bacalov, que consegue transmitir um profundo sentimento
de nostalgia, como que a sociedade gritando por ajuda, a necessidade do retorno
de valores já tidos como antiquados e dispensáveis. O homem humilde, vivido por
Massimo Troisi, emocionalmente inseguro, que, por hábito, aprendeu a se
minimizar, observando ternamente a foto amarelada, enquanto o dia lentamente
desperta. Ele tenta estabelecer contato com o pai, um pescador embrutecido pela
vida, porém, o velho não escuta suas desajeitadas palavras, preocupado mais com
o mecânico saciar de sua fome. Ao conhecer o poeta Pablo Neruda, vivido por
Philippe Noiret, em um cinejornal, o homem toca brevemente aquele mundo
desconhecido, totalmente diferente de sua simples comunidade pesqueira. A
escuridão da sala de cinema potencializa a mágica desse primeiro encontro,
posicionando o homem, em sua pequenez, diante do gigante visitante estrangeiro
na tela.
Ele tenta conseguir um emprego como carteiro, porém, num
toque sutil, a câmera se foca na exigência de uma bicicleta. A sua insegurança
é tanta, que, sem pensar duas vezes, ele adentra o local com a bicicleta, como
que tentando garantir sua contratação, antes de precisar abrir a boca. Vale
notar a postura dele ao avisar ao empregador sua fragilidade intelectual,
afirmando que sabe, de forma lenta, ler e escrever, uma mentira que ele é
incapaz de disfarçar, quando reage de forma defensiva ao escutar que irá
trabalhar apenas para uma pessoa, já que todos na região são analfabetos. Em
sua visão, Neruda é o poeta amado pelas mulheres, aquele ser superior
idealizado na sala escura. A remuneração é pouca, o trabalho é cansativo,
devido ao número expressivo de cartas que ele carregará, ele descobre até que o
poeta é um comunista, conotação política que não entende, mas nada disso
importa para o carteiro, que, com um emprego, passa a existir novamente para
seu pai. Ele é aconselhado a trocar o mínimo de palavras possível com o
estrangeiro, sendo submisso e prestativo, evitando incomodar.
No primeiro encontro, ele se encanta com o carinho do poeta
com sua esposa, gesto que corrobora sua imagem idealizada. Ele sorri como uma
criança que flagra o beijo dos pais. A gorjeta era desnecessária, ele já tinha
tido satisfeito o necessário, a confirmação de sua crença. Em sua mente, como
todos que idealizam, ele cria até a ilusão de uma conversação, já que afirma ao
empregador que o poeta fala de forma diferente, quando, na realidade, ele havia
apenas agradecido pela entrega das cartas. No segundo encontro, após
efetivamente flagrar o beijo do casal, ele toma um pouco de coragem e tenta, de
forma desajeitada, estreitar a relação, colocando-se à disposição dele para
qualquer trabalho extra. O carteiro precisa aprender aquele truque de mágica,
aquela facilidade de encantar tantas mulheres. Com mais uma frase trocada, ele
já expande sua ilusão, afirmando que o poeta também é um exímio contador de
piadas. Sem cartas, ele vai até o poeta para conseguir uma dedicatória em um
livro, uma prova de que ele é seu amigo, um tesouro que ele pretende utilizar
com as mulheres, porém, para sua tristeza, seu nome não consta na breve
dedicatória.
O carteiro se esforça, tentando compreender o poder sedutor
por trás daquelas linhas, letras pequeninas, exercitando timidamente metáforas
com o poeta, ainda que não saiba o que significa a palavra, como que mostrando
a ele que poderiam ser amigos. Ele não compreende a razão de algo tão simples
possuir um nome tão complicado. E, numa cena bonita em simbolismo, pela
primeira vez, o enquadramento mostra o poeta se colocando em posição de
submissão, sentado, diante do simples carteiro, que, de pé, tenta
impressioná-lo com o resultado de seu estudo dedicado. A poesia explicada
torna-se banal, ele aprende que a mágica perde o fascínio quando o truque é
revelado. Os dois homens, tão diferentes em teoria, acabam se descobrindo, na
prática, iguais. Não há mestre e aprendiz, ambos aprendem. O efeito desse
encontro, um evento transformador na vida dos dois, uma amizade nascida da
improbabilidade, fortalecida com o amor pela palavra escrita. O carteiro deseja
contar para o pai sua felicidade, mas, com sua sensibilidade que está sendo
apurada, percebe que o velho bronco não irá compreender sua conquista, ou
compartilhar seu orgulho, então, triste, ele silencia. A cultura, único
elemento que verdadeiramente modifica o homem, já havia começado a libertá-lo
daquela realidade simplória.

O emocionante terceiro ato, as circunstâncias de bastidores,
com Troisi cada vez mais fragilizado, o adiamento de uma cirurgia cardíaca que
poderia ter garantido mais alguns anos de vida, uma escolha apaixonada pela
finalização da obra, decisão que evidencia a importância do filme na vida do
querido ator italiano. Sua morte, por ataque cardíaco fulminante, no dia seguinte
ao término, trouxe lágrimas aos rostos de cinéfilos do mundo todo. Seu legado é
eterno, assim como a influência do poeta na vida do personagem. O filho, que
ele não chega a conhecer, carrega o nome do estrangeiro, que, a despeito de
todos os avisos do empregador, acabou se encantando pela amizade pura e sincera
do tímido carteiro. Seu poema, criação que o ídolo nunca irá conhecer, perdido
na revolta dos manifestantes, foi o atestado de independência e segurança
emocional. A beleza da gratidão.

“Minhas Tardes com Margueritte”, de Jean Becker

“Nas histórias de amor, não há apenas o amor. Nunca dissemos
‘eu te amo’, no entanto, nos amamos”.

A delicadeza inserida nesse poema é a força motriz de
“Minhas Tardes com Margueritte” (La Tête em Friche – 2011), de Jean Becker,
filho do cineasta Jacques Becker. Conhecemos o personagem de Gerard Depardieu
como o estereótipo clássico do bronco, grosseirão, um montanhoso amálgama de
Forrest Gump e Kaspar Hauser, incapaz de revidar os ataques debochados diários
de seus colegas. É impressionante o contraste visual que se estabelece entre
ele e a frágil senhora nonagenária, interpretada com doçura pela veterana
Gisele Casadesus, ainda que a aptidão dele com o trabalho suave do entalhe na
madeira, aliado à sua maneira simples e pura de enxergar a vida, demonstre que
o exterior abrutalhado esconde uma fragilidade existencial quase infantil.
Todas as tardes, enquanto contam os pombos da praça, sem
conhecimento algum sobre o passado e o presente do outro, completos estranhos
unidos pela casualidade, os dois conversam sobre a vida. Assim como ela inicia
a leitura de um livro em qualquer ponto, deixando o folhear da página decidir
sua sorte, ambos permitem que o acaso conduza essa amizade. O inexorável tempo
é o único inimigo, o ato de desaparecer, minguar sereno em direção ao grande
desconhecido, sentindo cada vez mais pesada a luz cálida do amanhecer, por
sabê-la representar a incontestável evidência de que mais uma noite terminou. O
tempo que se esvai implacavelmente. Como se preparar para exercitar esse
desapego pessoal? Aquela complexa máquina que sempre agia em harmonia com seus
desejos, quando menos se espera, começa a desaprender dia após dia um antigo
hábito. A inevitável perda gradual de visão, a inefável sensação de impotência
perante as coisas mais simples, como exercitar a leitura, grande paixão da vida
dela. O homem, carente do amor materno, consequência de uma parentalidade
irresponsável, começa a depender emocionalmente daquela senhora que conhece
apenas pelo nome. A mãe dele, uma estranha que mora ao lado, um enigma que ele
encara constantemente, alguém que nunca dedicou um mínimo de ternura em sua criação.
A senhora, carente do amor de sua família, que a considera um fardo e a instala
em um asilo, começa a depender emocionalmente daquele homem que conhece apenas
pelo nome.
“Não precisam cortar a Floresta Amazônica para fazer
dicionários que não ajudam aos idiotas. É como dar óculos para um míope. De
repente vemos todas as falhas e defeitos”.
O filme aborda o poder transformador da literatura. A
cultura é a única maneira real de libertação, ela conforta e traz
segurança, incentiva e ensina um leão a disciplinar seu rosnado e
sobreviver na selva. Ela o inspira a ler, por conseguinte, ajuda a formar nele
um verniz de autoconfiança e amor próprio, afugentando qualquer intenção de se
perder em autocomiseração, o caminho mais óbvio em sua complicada situação. Ela
se torna a figura materna que ele nunca teve, bondosa e paciente, o símbolo de
gentileza que o impulsiona a melhorar como pessoa, aprendendo a, não somente,
apreciar melhor a paisagem, outrora embaçada pela mágoa enrustida, como também
tomando coragem de abandonar a passividade, como nós percebemos no emocionante
desfecho. Ele toma o controle de sua vida, e, nesse processo, acaba se tornando
responsável pela vida dela. E, ao crepúsculo de um longo dia, é bonito perceber
que tudo iniciou com a leitura de frases soltas de um livro de Albert Camus,
num solitário banco de praça, numa tarde como qualquer outra.

“Nesse mundo estamos de passagem, então te passo esse
livro”.

A elegância de Audrey Hepburn

Ela não foi somente uma das atrizes mais belas que a Sétima Arte
apresentou ao mundo, como também foi um dos mais citados exemplos de dignidade
e caráter no meio artístico. Audrey Hepburn era a antítese de Marilyn
Monroe. Enquanto a diva dos cabelos dourados representava uma vulgaridade
ingênua e provocante, a franzina morena simbolizava a elegância e nobreza,
quase uma princesa. Não surpreende que seu primeiro papel tenha sido exatamente
a de uma princesa que, entediada com uma vida sem surpresas, foge de seu palácio
em busca de um amor verdadeiro, no clássico de William Wyler: “A Princesa e o
Plebeu” (Roman Holiday – 1953). Ela conquistou crítica e público sem nenhuma
conotação sexual envolvendo sua personagem. Os papéis que ela defendia,
diferente de grande parte das atrizes da época, não eram modelados visando
conquistar o público masculino, com decotes generosos ou atitude sensual.
Hepburn era puro carisma. Impossível tirar os olhos dela. Seus filmes mais famosos são “Bonequinha de Luxo” (Breakfast
at Tiffany´s – 1961), “Minha Bela Dama” (My Fair Lady – 1964), o ótimo “Sabrina”
(1954) e “Cinderela em Paris” (Funny Face – 1957).
Em “Bonequinha de Luxo”, o roteiro de Truman Capote foi
completamente suavizado, deixando o produto final açucarado demais na visão do
próprio escritor. Excetuando-se o lindo momento ao som de “Moon River”, de Henry
Mancini, que os produtores chegaram a cogitar cortar do filme, no que Audrey se
revoltou e afirmou: “só por cima do meu cadáver”, o romance se apresenta um
tanto quanto esquemático, com uma participação grosseira de Mickey Rooney como
o chinês mais estereotipado que o cinema já mostrou. Cada vez que ele aparece
em cena, não consigo conter a vergonha alheia. Esse embaraçoso elemento, além de um
apático George Peppard, foram, com o tempo, me afastando da obra. Em seus filmes mais conhecidos do grande público, ela sempre
se apresentou, em pequena ou grande escala, como uma variação de sua personalidade. Era
sempre a bela e ingênua jovem que vivia nos sonhos refletidos nas vitrines da
Tiffany´s, que encontrava um homem culto e disposto a tranformá-la numa mulher
da alta sociedade, uma princesa, ou como a editora de uma revista de moda que
acaba dançando com Fred Astaire, um sonho para quem iniciou a carreira como bailarina. Por esse motivo, muitos cinéfilos chegam a
desmerecer seu trabalho, salientando apenas seus méritos humanitários como
embaixadora da UNICEF.
Meu filme favorito dela não é dos mais conhecidos, mas é a prova indiscutível de que ela era uma atriz
brilhante e inteligente. “Uma Cruz à Beira do Abismo” (The Nun´s Story – 1959), de Fred Zinnemann, é exatamente tudo o que não se esperaria de uma diva daquela
época. Um drama biográfico onde ela vive uma jovem idealizadora que decide
virar freira. Muitas atrizes de seu tempo ousaram investir em personagens
altamente sexualizados, ou onde pudessem extravasar seus méritos físicos, porém, Hepburn escolheu se minimizar. Ao se enclausurar no hábito opressivo de uma freira,
demonstrou ao mundo sua competência. Na maior parte do filme,
somente seu rosto fica visível, e ela consegue transmitir nos olhos uma variação
de emoções que Monroe nunca conseguiria. Nesse momento ela mostrou ao mundo que
pertencia a uma classe superior, digna de se sentar ao lado de Bette Davis no
Olimpo das melhores atrizes de seu tempo. A obra de Zinnemann também se mostra eficiente ao mostrar
com exatidão de detalhes os bastidores de um convento e da preparação das
jovens freiras. Não fica nada a dever aos bons filmes de terror, posso garantir. Uma crítica requintada a um sistema que vende palavras de amor, porém, é
revestido por uma lista de preceitos que negam o próprio sentimento.

 

Audrey faleceu aos 63 anos, deixando um legado de belas ações
humanitárias em várias partes do mundo. Grande parte do público identifica-a
como a caricatura do mundo fashion, porém, sempre que penso nela, lembro-me da
maravilhosa cena final de “Uma Cruz à Beira do Abismo”, onde, durante alguns
minutos e sem diálogo, aquela jovem belga demonstrou para uma multidão de
detratores, que seu talento era maior que sua beleza.

Faces do Medo – “O Alerta Vermelho da Loucura” e “A Maldição do Demônio”


O Alerta Vermelho da Loucura (Il Rosso Segno della
Follia – 1970)
Para qualquer um que duvide da genialidade de Mario Bava,
basta prestar atenção nesse filme, que aborda a gradual perda de sanidade de um
homem, dono de uma loja de design nupcial, que, abalado por um trauma, acaba se
tornando um assassino de noivas. De forma sutil, diferente de suas obras mais
famosas, ele demonstra sua preferência pela identidade visual, podendo ser
equiparado a outro mestre das minúcias, Alfred Hitchcock. Sem revelar spoilers,
algo verdadeiramente prejudicial na experiência com sua filmografia, eu posso
citar três exemplos, momentos que me fizeram pausar e voltar essas cenas.
Perceba como ele trabalha o vestuário do protagonista,
vivido por Stephen Forsyth, evidenciando a figura da corrente branca no cinto,
em destaque nas roupas de tom escuro, que ele usa praticamente o filme todo. Um
homem acorrentado ao trauma de sua infância. E, o mais interessante, no exato
momento em que ocorre o maior plot twist, que obviamente não revelarei, ele
está usando uma espécie de pijama, com correntes desenhadas dos pés à cabeça,
mostrando que, daquela cena em diante, não há mais possibilidade de fuga para o
personagem. O segundo exemplo ocorre na cena da escadaria, onde ele encontra
uma visão aterrorizante, que o encara ameaçadoramente. Em qualquer filme
similar, a ação seria resumida ao estabelecer da situação, porém, Bava estende
a sequência ao máximo, fazendo com que a aparição volte o olhar para ele
diversas vezes, potencializando a arrepiante estranheza e o tom de pesadelo. O
terceiro exemplo eu considero, de fato, uma aula. Já próximo do desfecho, o
sutil tremor de nervoso em uma personagem que, em teoria, não teria motivo
algum para exibir tal reação. Um detalhe que pode até passar despercebido, mas
que faz todo sentido na resolução da sequência.
A inteligência visual, essa preocupação de esteta dedicado. As
ousadias narrativas, um estilo que diretores americanos copiaram, com o devido
crédito apenas depois da morte dele, com a desculpa de estarem homenageando. É
fantástico poder ver o trabalho de Mario Bava sendo lançado em home vídeo com o
respeito que ele merece, para a apreciação daqueles que genuinamente amam o
cinema.
A Maldição do Demônio (La Maschera del Demonio – 1960)
A celebrada estreia do diretor italiano Mario Bava, deixando
um pouco de lado o personagem de Bram Stoker, ele se baseou no conto vampiresco
russo: “The Vij” de Nikolai Gogol. A atriz Barbara Steele e seus enormes e
lindos olhos ficaram para sempre impressos nas retinas dos fãs de horror. Ela
interpreta uma bruxa que, ao ser assassinada pela inquisição, tendo recebido a
máscara de tortura, coberta de pregos, por seus algozes, retorna após duzentos
anos como uma vampira para tomar o corpo de sua descendente. Um fator curioso é
que, na versão inglesa, omitiram a relação incestuosa da princesa vampira com o
irmão, Javutich.

O produtor Nello Santi queria filmar em cores, mas Bava preferiu
filmar em preto e branco, o que acabou entregando uma atmosfera mais onírica,
já que o uso generoso de miniaturas e de cenários pintados poderia ter ficado evidente
demais, perdendo um pouco da mágica fusão desses elementos. A ambientação
gótica, pendendo para o conto de fadas, acabou realçando o simbolismo de
algumas cenas. Demonstrando sua maturidade artística, já em seu primeiro
projeto, o diretor teve o cuidado de preparar storyboards, algo que não era
usual à época, o que diz muito sobre a preocupação essencial dele, desde o
início, com a identidade visual das suas obras. A trama vinha em segundo plano,
o mais importante eram as formas que ele encontrava para, driblando o baixo
orçamento, transportar suas ideias para a realidade das filmagens. 
* Os filmes estão sendo lançados em DVD, pela distribuidora “Versátil”, na caixa “A Arte de Mario Bava”, contendo ainda: “A Garota Que Sabia Demais” e “Cães Raivosos”.