Cine Noir – “A Maleta Fatídica” e “Sombras do Mal”

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A Maleta Fatídica (Nightfall – 1957)
Analisando pela ambientação do ótimo desfecho da trama, as
montanhas nevadas do Wyoming, fica claro que estamos diante de um filme noir
audacioso, crepuscular, com um forte traço de humor negro, algo essencial para o
diretor Jacques Tourneur. O roteiro, adaptado da obra de David Goodis, busca
confundir o espectador com sua estrutura narrativa, elemento alcançado também
com ajuda da fotografia primorosa de Burnett Guffey, tentando refletir o estado
mental do vulnerável protagonista, o artista vivido por Aldo Ray, que é
inserido por engano em um esquema criminoso. A tensão é mantida do início ao
fim, com um trabalho de câmera bastante criativo, principalmente no primeiro
ato. É impossível não perceber uma possível homenagem, temática e até no
desenvolvimento dos personagens, no celebrado “Fargo”, dos irmãos Coen. Vale
destacar a presença de uma jovem e linda Anne Bancroft, como a modelo que acompanha
o pesadelo na vida do personagem. Gosto especialmente da cena em que eles se
encontram, quando ela, acreditando que ele é um bandido, precisa enganar ele,
conduzindo-o para os braços da lei através de sua sedução. Na filmografia do
diretor, não é um projeto tão lembrado quanto “Fuga do Passado”, porém, basta
assistir uma vez, para constatar a injustiça. Uma pérola do gênero.
Sombras do Mal (Night and The City – 1950)
Harry, vivido pelo sempre competente Richard Widmark, inicia
o filme sendo perseguido, numa correria desesperada pelas ruas de Londres. Graças
ao ângulo da câmera, mérito da fotografia de Mutz Greenbaum, parece que até
mesmo a sombra dele está querendo se desassociar de sua patética figura. Essa é
a essência do personagem, alguém que foge de qualquer responsabilidade, um
golpista que ambiciona apenas ascender socialmente, sem um mínimo senso de
decência ou integridade moral. Ele está inserido em um cenário onde não há
vencedores, um pesadelo urbano expressionista onde todos estão dispostos a
utilizar os meios mais baixos, uma visão amarga da sociedade. Gene Tierney, que vive a namorada, possivelmente o único
foco de luz nesse cenário sombrio, foi contratada para o filme como um pedido
especial de Darryl Zanuck, que estava preocupado dela ser consumida pela
autocomiseração, cometendo até um suicídio, já que havia passado por sérios problemas pessoais. Ainda que, dentro
da filmografia de Jules Dassin, esse filme seja eclipsado por “Rififi”,
realizado cinco anos depois, “Sombras do Mal” é um produto superior, com uma
aura brutal de pessimismo e desilusão, um reflexo do contexto em que se
encontrava o diretor, inserido na Lista Negra de Hollywood, exilado por se
negar a delatar colegas. Não é apenas um dos mais importantes filmes noir, mas,
sim, um dos melhores filmes da história do cinema. 
* Os filmes estão sendo lançados em DVD pela distribuidora “Versátil”, na caixa “Filme Noir, Vol. 3”, que, além de ótimos documentários, contém também: “O Segredo das Joias” (Huston), “Um Preço Para Cada Crime” (Walsh), “Do Lodo Brotou Uma Flor” (Montgomery) e “”Mercado Humano” (Mann). 

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