“Eu, Soldado”, de Laurent Larivière

Eu, Soldado (Je Suis un Soldat – 2015)
Nesse primeiro longa-metragem, o diretor Laurent Larivière
aborda essencialmente os efeitos da ausência do sentimento de culpa, um dos
aspectos típicos de um caráter com sérios problemas estruturais. O problema é
que essa interessante abordagem, assim como a tentativa de crítica social,
evidenciada em uma boa cena de entrevista de emprego, fica apenas na teoria. 
A
jovem vivida por Louise Bourgoin, em um ato impulsivo motivado pela vergonha
que sente por estar desempregada, valorização exacerbada pela opinião do outro,
acaba aceitando trabalhar no canil de um tio, que, na realidade, é fachada para
um centro de tráfico de cães. Sem interesse pelo investimento emocional do público, o roteiro não se
aprofunda nas motivações dos personagens e evita qualquer insinuação de
melodrama, os animais são tratados com a mesma frieza de seus traficantes, o
que, sem dúvida, é o maior acerto do filme. A protagonista, sem muito peso na
consciência, entra de cabeça no negócio, com a obstinação inconsequente de um
Tony Montana, desejando tomar o controle da operação. 
Sem um mínimo de
desenvolvimento psicológico, fica difícil se importar com as ações dela,
fazendo algumas cenas soarem forçadas, especialmente uma equivocada subtrama
romântica que desperta convenientemente no terceiro ato. O fato de ser uma
jovem inteligente, bonita e saudável, contribui para a pouca credibilidade de
suas radicais ações, que, tampouco funcionam de forma metafórica. Uma ideia
promissora confinada em uma execução sem brilho. 

“Micróbio e Gasolina”, de Michel Gondry

Micróbio e Gasolina (Microbe et Gasoil – 2015)
Gondry nos acostumou mal com sua inventividade, em filmes
como “Sonhando Acordado”, “Rebobine, Por Favor”, e, especialmente, “Brilho
Eterno de uma Mente Sem Lembranças”. Quando terminou a sessão de “Micróbio e
Gasolina”, tentava puxar pela memória algum elemento no roteiro que tivesse
essa marcante impressão digital do diretor, sem sucesso. 
É um road movie muito
agradável, com uma pegada lúdica encantadora, contando a história de dois
adolescentes: Micróbio, vítima de bullying por sua excessiva introversão, o que
explica o apelido pouco carinhoso, e Gasolina, vivido pelo ótimo Téophile
Baquet, um desajustado que não se importa com a imagem que os outros projetam
nele. Eles embarcam em uma viagem onde pretendem cruzar o país com um carro
montado a partir de sucata. Há um pouco de Truffaut em sua visão dos conflitos
da adolescência.
Já no design surrealista do veículo, uma casa com direito a telhado,
encontramos uma simbologia pouco sutil para o real interesse dos meninos,
antagônico ao conceito de fuga do lar: a necessidade de se sentirem seguros.
Não por acaso, a mãe de Micróbio, vivida por Audrey Tatou, está enfrentando um
divórcio. O destino programado é um acampamento que resgata em um deles uma
doce memória infantil, o psicológico desejo por voltar ao colo materno. Nada
disso fica aparente na atitude dos dois, que exalam uma postura até arrogante
de superioridade com relação aos outros de sua idade, o extravasamento
radicalmente oposto, como forma de disfarçar a insegurança. A câmera de Gondry
facilita a empatia do público, minimizando os cortes, evitando floreios
visuais, a quebra da ilusão, compondo um ritmo bastante lento, reflexivo,
verdadeiramente abraçando a jornada dos personagens. 

“Endorfina”, de André Turpin

Endorfina (Endorphine – 2015)
Simone, aos doze anos, testemunhou o brutal assassinato da
mãe, uma experiência que abala profundamente sua psique. Analisando
essencialmente a percepção do tempo, o roteiro atravessa três fases de sua
vida, numa espécie de looping que embaralha eventos e personagens. 
A sua versão
adulta defende o leitmotiv da analogia entre o registro cinematográfico e a
vida, uma ideia trabalhada de forma bastante didática no primeiro ato, porém,
esquecida em certo ponto da trama. Pra início de conversa, a despeito de um
tema com tremendo potencial, a execução desse filme é um imbatível antídoto pra
insônia. Existem exemplos de obras similares em complexidade no gênero, como o
pouco citado: “Primer”, que conseguem elaborar um quebra-cabeça fascinante,
onde, ao final, o espectador se sinta plenamente satisfeito, mesmo que não
tenha compreendido boa parte da história. Você se sente intimado a rever, pelo
prazer da experiência de ser intelectualmente estimulado, algo cada vez mais
raro no cinema.
“Endorfina”, por outro lado, joga peças de um enredo altamente confuso, sem
desenvolver sequer medianamente qualquer arco narrativo, causando apenas
irritação. Um equívoco básico: não conhecemos minimamente a protagonista,
consequentemente, não nos importamos com ela. Como a narração é um recurso
amplamente utilizado, esse equívoco é fatal, transformando todo o segundo ato
em uma palestra chata sobre astrofísica, comandada por alguém sem carisma e
senso de palco. O diretor André Turpin demonstra claramente não ter noção do caminho
que quer seguir, conduzindo a cenas de um hermetismo tão absurdo que causam
risos involuntários. 

“Love and Mercy”, de Bill Pohlad

Love and Mercy (2014)
A opção por inserir, já nos créditos iniciais, um medley das
canções mais famosas dos Beach Boys, num trabalho de reconstituição de época
primoroso, sinaliza o tom da obra, uma celebração merecida, disponibilizada
para uma geração tão carente de música de qualidade.
As atuações de Paul Dano e John Cusack, impecáveis, resultam em uma faceta
tridimensional de Brian Wilson, o genial compositor que, em seu auge, sentia
verdadeiro tesão pelo trabalho artesanal no estúdio, mas odiava aparecer em
público. A estrutura é o convencional em uma cinebiografia, com inserções
constantes de flashbacks, mas, ressaltando algo pouco usual, as duas fases são
igualmente bem executadas. Jovem, nos bastidores de sua canção: “God Only
Knows”, ele sofre a insensibilidade de um pai estúpido, incapaz de captar a
música do filho como a sua forma mais sincera de expressão.
É fascinante perceber como ele, tão novo, sem zelo excessivo pela sua
composição, enxerga a beleza no erro de um músico na gravação, recomendando que
ele erre novamente. Em sua busca por um som experimental que rivalizasse com o
trabalho dos Beatles, ele sabia que teria que estar aberto à mágica da
casualidade, a matéria-prima de praticamente todas as grandes realizações
humanas. Um dos maiores acertos da produção é dedicar tempo generoso ao aspecto
mais importante de seu homenageado, a sua capacidade criativa, sem apelar para
a emoção barata ou forçar a mão nos problemas pessoais. Quando ele, adulto,
abre seu coração para sua namorada, vivida pela bela Elizabeth Banks, em uma
mesa de restaurante, a câmera sutilmente mostra seu rosto fragmentado no
espelho. Esses pequenos detalhes revelam tudo o que precisamos saber sobre o
personagem. 

“Capital Humano”, de Paolo Virzì

Capital Humano (Il Capitale Humano – 2013)
O filme terminou e tive vontade de aplaudir de pé o
brilhante trabalho do diretor/roteirista Paolo Virzì, adaptando o livro do
crítico de cinema Stephen Amidon. Boa parte da imprensa está limitando a
discussão que a obra propõe, afirmando que se trata de uma análise sobre o fim
da sociedade italiana. A trama, com sua impecável estrutura em quatro
capítulos, incita uma reflexão sobre a queda do império humano, partindo de um
evento simples, o atropelamento fatal de um ciclista que não recebeu socorro.
Ao costurar as narrativas de seus personagens envolvidos de alguma forma no
acidente, o roteiro provoca questionamentos essenciais, críticas severas a um
modo de vida cada vez mais egoísta, onde a capacidade de empatia se curva
perante a necessidade de se obter vantagens.
No primeiro capítulo observamos a rotina de Dino, uma espécie de variação do
Kringelein de “Grande Hotel”, alguém disposto a tudo para viver “a vida real”
na alta sociedade, um verme que vibra por saber que foi convidado para uma mesa
elegante em uma festa, já que anseia por aquele refinamento ilusório, ainda
que, como é evidenciado em uma cena breve, não entenda a diferença entre
diversas grifes de água. O texto é claro, a crítica se esconde por trás da gag.
Coloque um tecido simples em uma vitrine de uma loja de grife respeitada, que,
sem pestanejar, a clientela irá gastar o triplo do valor real do produto,
apenas para garantir seu conforto existencial, a satisfação de um status tolo
que mascara, por pouco tempo, o complexo de inferioridade. Dino, inebriado por
seu deslumbramento, buscando agradar os pais endinheirados do namoradinho da
filha, não percebe que sua esposa grávida, vivida pela bela Valeria Golino,
passa a noite toda sentindo dores. E quando, algumas cenas adiante, erram o
nome dela, fazendo de tudo para não contrariar, ele nem se preocupa em
corrigir.
O segundo capítulo agrega novas discussões, focando na personagem mais
interessante e plenamente desenvolvida, a esposa do endinheirado, vivida pela
linda Valeria Bruni Tedeschi. Ela começa sendo mostrada como alguém fútil,
capaz de confundir o seu motorista, tentando decidir em qual loja irá pra
comprar suas roupas. É perceptível seu desconforto, insinuando que ela aceitou
viver uma mentira, abdicando de seus sonhos. Ela, como se confirma mais tarde,
trocou a necessária aventura pelo comodismo. Ao entrar em um teatro antigo,
caindo aos pedaços, desvalorizado pela sociedade, mais interessada em
transformar aquilo em um supermercado, a mulher se lembra do seu reflexo jovem
no espelho, aquela jovem que, outrora, havia trabalhado como atriz. Em seu
desejo por abraçar o status tolo já citado, aceitou se minimizar, beijar
diariamente aquele cifrão arrogante, grosseirão e racista, evitando os
obstáculos naturais da aventura que é a vida. Ela, ao perceber que a arte está
perdendo espaço para o medíocre abastecimento daquele status, metaforicamente
aponta o dedo para nós, para o público, questionando o silêncio do povo, que
deveria se unir para evitar que aquele local fosse vendido e tristemente
modificado. Como não nos identificarmos, quando, por exemplo, vemos nossos
cinemas sendo transformados em igrejas evangélicas? O silêncio, a omissão, é o
real crime.
É impossível revelar mais sobre a trama, sem prejudicar a experiência do
espectador. Afirmo apenas que, em um período tão fraco, com tanta bobagem
pré-adolescente lotando as salas de cinema, é revigorante aplaudir algo tão
emocionalmente/intelectualmente maduro. Uma aula de roteiro e direção, um dos
melhores filmes do ano.

Faces do Medo – “Hellraiser” / “Hellraiser 2” / “Hellraiser 3”


Hellraiser – Renascido do Inferno (Hellraiser – 1987)
Em sua casa londrina, Frank Cotton manipula um quebra-cabeça
que, segundo uma lenda, traria a quem o desvendasse eternos e desconhecidos
prazeres sexuais. Em vez disso, ele se torna presa dos cenobitas, criaturas
sobrenaturais que extraem sua força da tortura e do sofrimento alheio. 
Hellraiser 2 – Renascido das Trevas (Hellbound: Hellraiser 2
– 1988)
O doutor Channard passou toda uma vida estudando os segredos
da caixa enigmática que abre as portas do inferno do prazer e da dor. Ele está
disposto a conhecer o reino do sadomasoquismo, mas algo muito pior o
espera. 
Hellraiser 3 – Inferno na Terra (Hellraiser 3: Hell On Earth
– 1992)
A caixa agora cai nas mãos de um dono de boate que
acidentalmente liberta pinhead, o mestre da dor e do prazer. A criatura das
trevas lhe promete todos os prazeres desejados desde que sacrifique seres
humanos num altar.

Imagine a cara da atendente da locadora, ao ver um menino de
sete anos discutindo com o pai, para que ele alugasse pela vigésima vez um
filme sobre cenobitas do inferno, prazer e dor, em suma: Clive Barker. Eu
adorava tanto “Hellraiser”, que uma vez cheguei a pedir de presente de Natal um
daqueles cubos. E, em uma época onde souvenires geeks eram inexistentes, ter um
cubo de Lemarchand na estante era tarefa impossível. Eu me lembro de ficar numa
felicidade extrema ao encontrar na banca de jornal uma revista em quadrinhos
com o Pinhead na capa, uma publicação da Editora Abril Jovem que durou pouco
tempo. Comprei na hora, para espanto do jornaleiro. Qualquer cena que insinuasse
a presença do Frank, o “homem sem pele”, como eu chamava na época,
dentro do quarto escuro, já me deixava completamente apavorado.
Terror foi o meu gênero de formação, presença marcante
durante grande parte da minha infância e pré-adolescência. Estudava sobre suas
variadas vertentes e andava para todo lado com um ótimo “Guia de Vídeo –
Terror”, lançado pela Editora Escala, que guardo até hoje com carinho. Perdi a
conta de quantas vezes eu lia aquele guia, que utilizava frequentemente em
minhas garimpagens nas locadoras da região. E, sendo um apaixonado por
trilhas sonoras de cinema, aplaudo de pé o trabalho do compositor Christopher Young
nos dois primeiros filmes, em especial as faixas “Hellraiser”, “Ressurrection”,
“Seduction and Pursuit” e “The Cenobites”, do primeiro, e “Hellbound”, “Something
to Think About”, “Leviathan” e “Headless Wizard”, do segundo.
O período era dominado pela infantilização dos slashers.
Jason havia acabado de ressuscitar com uma descarga elétrica, Freddy havia se
tornado o Bob Hope do inferno, combatendo jovens superpoderosos nos sonhos. O
grande diferencial do cenobita vivido por Doug Bradley era a profundidade
filosófica de sua ameaça, que ia muito além do fator visual. O clima, mérito da
fotografia de Robin Vidgeon, transmitia um horror quase tangível, adaptando com
brilhantismo a essência lovecraftiana dos primeiros capítulos do livro. Até
mesmo a figura da personagem feminina que combate o assassino, elemento convencional
no gênero, ganhava em credibilidade com a presença de Kirsty, vivida por Ashley
Laurence, longe do estereótipo frágil de vítima. Ela confronta também a
madrasta Julia, vivida por Claire Higgins, uma mulher capaz de tudo para
reviver sua paixão de outrora.
O segundo filme, com maior orçamento e sem o envolvimento do
criador, potencializa o gore, porém, comete o equívoco de repetir o enredo do
primeiro. Toda a subtrama de Frank, que busca se nutrir dos humanos para
ressurgir, acaba se tornando a função de Julia, sendo ajudada pelo Dr. Channard.
Quando somos conduzidos ao inferno, no segundo ato, o filme ganha fôlego.
Visualmente, é impecável, com cenobitas ainda mais criativos, sendo explorados
com maior interesse. Não acredito que a revelação de suas origens ajude a obra,
já que o mistério, a ignorância, é sempre muito mais apavorante. Ao optar por
expandir a mitologia, a produção cavou o túmulo de mediocridade que se tornou a
franquia. 
No terceiro filme, uma superprodução barulhenta e sem a audácia dos
anteriores, o diretor Anthony Hickox prova que uma verba generosa não diz nada
sobre a qualidade do produto final. Pinhead acaba se tornando a sua própria
antítese, um assassino típico do slasher, com direito até a algumas piadinhas. Os
cenobitas atacam agora na cidade grande, com direito a explosões e
enquadramentos que remetem aos filmes da franquia: “Duro de Matar”. A única
cena que sugere o brilhantismo corajoso do original se passa em uma igreja, com
Pinhead retirando os pregos de sua cabeça e cravando eles nas palmas de suas
mãos.
A franquia pode causar vergonha alheia, o mais recente: “Hellraiser
– Revelações”, de 2011, é das piores coisas que já vi no gênero. Mas o original
continua eficiente, uma obra-prima incontestável.
 * A novela “Hellbound Heart”, de Clive Barker, que foi
adaptada no filme original, inédita no mercado nacional, foi lançada pela
Editora “DarkSide Books”, com o seu já reconhecido trabalho primoroso de capa
dura. É o produto que os fãs sonhavam ter em suas estantes. 

Na Mira de 007: Parte 24 – Finalmente Abraçando a Fórmula

Link para os textos anteriores do especial (no final da página):
 
007 Contra Spectre (Spectre – 2015)
Um detalhe que pode passar despercebido, mas que, creio, diz
muito sobre essa nova postura do personagem. Na tradicional gunbarrel, desta
feita, voltando a dar as boas-vindas ao público, Daniel Craig é visto
caminhando de forma segura, sem tentar esconder o revólver no bolso da calça. A
gênese já está completa, após três projetos sendo um leão de chácara em
processo de lapidação, ele interpreta agora o mesmo personagem eternizado por
Connery, porém, psicologicamente mais agressivo. É o reflexo natural de uma
sociedade mais cínica.
O filme é o encerramento de uma tentativa arriscada dos
produtores da franquia, que, objetivando a renovação do personagem de Ian
Fleming, inserindo ele em um molde de obras de ação/espionagem moderno,
extirparam dele todas as suas características principais, um reboot agressivo
que havia sido orquestrado, de forma bem menos corajosa, na breve era de
Timothy Dalton. Como era óbvio desde “Cassino Royale”, o James Bond de Daniel
Craig representa, pela primeira vez, a gênese do herói, fórmula corriqueira no
cinema atual, um prequel elegante. Em “Operação Skyfall”, o diretor Sam Mendes
conseguiu elaborar algo que mantinha o espírito das produções, porém, injetava
um elemento autoral nunca antes experimentado na série, um maior refinamento
técnico. Já em “007 Contra Spectre”, ele entrega um produto para os fãs
antigos, com todos os elementos reconhecíveis, referências claras e sutis, além
de um desfecho que é uma linda declaração de amor à nostalgia. É possível que,
acostumados com as modificações, uma boa parte do público, aqueles que passaram
a gostar do personagem com os filmes recentes, encontrem motivos para reclamar
da zona de conforto, dos aspectos menos realistas.
007 voltou a ser sinônimo de escapismo, viagens pelo mundo,
muitas mulheres seduzidas pelo caminho, cenas de ação improváveis que desafiam
as leis da gravidade, capangas truculentos e silenciosos, vilões de revistas em
quadrinhos e, acima de tudo, diversão, algo que estava sendo minimizado com um
crescente interesse freudiano pela angústia existencial. O clássico início com
o cano do revólver está de volta, e, mais importante, o senso de humor retorna
em grande estilo, ainda que Craig soe pouco confortável em algumas piadinhas
mais escancaradas. Ele consegue emular perfeitamente o senso de perigo que
Connery transbordava, mas, não há como negar, falta a ele, enquanto ator, a
capacidade de empatia/carisma que Roger Moore e Pierce Brosnan dominavam com as
mãos nas costas. Numa comparação esdrúxula, basta imaginar o Papa Bento XVI
tentando animar uma festa, algo que o novo Papa faria sem esforço. É muito
interessante a forma como o roteiro utiliza os coadjuvantes, M, Q e Moneypenny,
usualmente meras peças decorativas nos filmes clássicos. Eles estão inseridos,
não apenas nas sequências de ação, algo relativamente mais fácil, mas,
especialmente, nas engrenagens que mantém a narrativa no curso.
A ideia de resgatar o vilão mais famoso da franquia, Ernst
Stavro Blofeld, apesar da tola tentativa de esconder o que o título já deixava
óbvio, poderia ter sido mais bem aproveitada. Um personagem tão forte, reduzido
a uma nota de rodapé. Como maior ponto negativo, a motivação dele, vivido por
Christoph Waltz, no mesmo piloto automático que consagrou seu nome no cinema
americano. O propósito dele na trama é simplesmente medíocre, com o roteiro
cometendo o equívoco crasso de buscar uma justificativa íntima, familiar, para
o antagonismo dos personagens, o tipo de recurso desgastado e simplório que se
espera, por exemplo, de uma novela mexicana. Outro aspecto frustrante é a
participação de Monica Bellucci, uma atriz que sempre foi cogitada pelos fãs
como a Bond Girl perfeita, acabou sendo relegada a uma inglória ponta. Quer
mais um problema? Jaws e Oddjob, só pra citar os mais famosos, eram brutamontes
tolos e unidimensionais, porém, receberam cenas nos roteiros que os valorizavam
sobremaneira. Pense em “Goldfinger”, que você irá se lembrar do confronto no
Fort Knox. Pense em “Moscou Contra 007”, que você irá se lembrar do confronto
no trem com Red Grant. Pense em “Spectre”, que você irá se lembrar de… Bom,
com sorte, você vai se lembrar do capanga, vivido por Dave Bautista, que tinha
algo como, sei lá, unhas de prata, coisa do gênero, que ele utiliza uma vez
apenas, e, surpreendentemente, não em um confronto com o agente secreto. Com
exceção da empolgante sequência inicial, uma marca da franquia, que referencia
“007 – Somente Para Seus Olhos”, não há qualquer momento de ação
verdadeiramente inesquecível. O confronto final do herói com o vilão consegue
ser menos interessante que o fraco encontro da versão de Moore com o Stromberg,
de “O Espião Que Me Amava”. É mais movimentado, claro, porém, tão irrelevante
quanto.
E a música-tema de Sam Smith? “Writing’s on the Wall”,
emoldurada pelos competentes créditos de Daniel Kleinman, consegue ser menos
sofrível do que imaginei, mas, ainda assim, é um tema pouco inspirado, com uma
letra que não condiz com absolutamente nada que simboliza o personagem, em sua
versão literária ou cinematográfica. Nem mesmo o 007 mais emotivo de George
Lazenby se expressaria de forma tão drama queen. Eu prefiro escutar a Lulu
berrando “The Man With The Golden Gun” em looping, do que aguentar esse
candidato do The Voice massacrando décadas de construção de personagem. Um
ponto interessante dos créditos, a inserção de cenas dos três filmes anteriores
(exatamente no momento em que a letra da canção menciona o agente sendo
perturbado pelo seu passado), recurso que havia sido utilizado apenas nos
créditos de “À Serviço Secreto de Sua Majestade”, com a intenção de reforçar o
sentido de unidade para o público, já que Connery havia sido substituído. Os
personagens mostrados, os mortos-vivos citados no letreiro pós-gunbarrel, a
constatação de que, apesar de todos os esforços do roteiro de “Skyfall”, o
espião ainda teria alguns anos de análise pela frente. A opção por manter os
resquícios desse dramalhão, além de enfraquecer a essência do personagem
literário, demonstra a insegurança dos produtores em investir totalmente nessa
nova abordagem.

 

Com suas muitas falhas, “007 Contra Spectre” é divertido, uma
bem-vinda tentativa de retorno à fórmula da franquia. E, apesar das manchetes
equivocadas de alguns veículos mais afeitos às chamadas polêmicas, não é a
última missão do personagem. No máximo, pode ser a última participação de
Craig, um ator que exerceu bem sua função.

Tesouros da Sétima Arte – “A Navalha na Carne”, de Braz Chediak


A Navalha na Carne (1969)
Num subúrbio do Rio de Janeiro, Norma Suely é uma prostituta
oprimida pelo objeto de sua paixão, o cafetão de baixo nível, Vado.  Certo
dia, ao chegar de madrugada aos aposentos de Norma, em busca de dinheiro, Vado
descobre que o mesmo havia desaparecido. Revoltado, ele a acusa pelo ocorrido, mas ela alega ter sido Veludo, um
homossexual que mora no quarto ao lado, quem deu sumiço ao dinheiro.
Com essa pérola do nosso cinema, o diretor Braz Chediak conseguiu
estabelecer um clima opressivo praticamente insuportável, primando por planos
fechados e longos planos-sequência, com uma sábia utilização do silêncio, que
vai além dos quase trinta minutos iniciais só com sons diegéticos. O texto
corrosivo de Plínio Marcos, defendido de forma naturalista pelo trio: Jece
Valadão/Glauce Rocha/Emiliano Queiroz, vai preenchendo e consumindo o
claustrofóbico ambiente, o quarto fétido e desorganizado que serve como
microcosmo de uma sociedade hipócrita. Os conflitos originados por atos de pura
mesquinharia ocasionando em agressões gratuitas, como um câncer que lentamente
se espalha pelo organismo. O cafetão que sente prazer em humilhar sua
prostituta, extravasando com violência, física e psicológica, um desejo homossexual
enrustido, elemento sugerido em diversas cenas, apontando com sadismo os sinais
de envelhecimento precoce na mulher que vive da aparência.

Nesse quarto de pensão, o ódio coletivo, que nasce da
insatisfação social e do desgaste natural diante dos rituais vazios, conduz os
personagens ao limite da resistência. O silêncio durante todo o primeiro ato,
mais do que um recurso de estilo, serve também, com sua antinaturalidade, para
enfatizar a característica metafórica de cada diálogo posterior. Todos os
sentimentos são meticulosamente potencializados, pois não se trata de um
simples caso que poderia estampar a manchete de um jornal sensacionalista, mas,
sim, um Álamo existencial, seres cansados buscando evitar a iminente extinção
decorrente da evolução natural. Eles expurgam as verdades de seus lábios, suas palavras
como facas afiadas, como navalha na carne, pois sabem que, naquela sociedade corrupta
em formação, apenas a mentira iria sobreviver. “Navalha na Carne”, essa
obra-prima do cinema nacional, merece ser mais valorizada. 

Devo Tudo ao Cinema – S01E10 – É Possível Fazer Cinema Sem Recursos? (4 de 5)

Continuando no tema, abordo alguns livros que podem facilitar esse processo.

Cine Noir – “A Marca da Maldade”, de Orson Welles


A Marca da Maldade (Touch of Evil – 1958)
Ramon Vargas (Charlton Heston) é um chefe de polícia
mexicano que está em lua de mel com sua mulher Susan (Janet Leigh) numa
cidadezinha fronteiriça com os EUA. Quando um crime acontece, Ramon se
confronta diretamente com Hank Quinlan (Orson Welles), o capitão da polícia
local, corrupto e tirânico.
Por mais que o investigador mexicano, vivido por Charlton
Heston, seja mostrado em destaque no cartaz, o corrupto capitão, vivido por
Orson Welles, é o real protagonista da trama, o personagem com o arco narrativo
mais interessante. Como é sugerido na simbologia visual de uma das melhores
cenas no terceiro ato, ele é, moralmente, um valente touro, porém, cansado,
ferido por banderillas, consciente de sua queda iminente.
A esposa dele foi assassinada no passado por um criminoso
que escapou impune, uma informação que o roteiro inteligentemente insere nas
entrelinhas, explicando assim a conduta dele, sua ausência de escrúpulos. Para
ele, os fins, por mais injustos que sejam, justificam os meios. A conclusão da
investigação prova que, a despeito de seus métodos repulsivos, ele estava
certo, a sua sempre celebrada intuição havia se provado correta. Numa análise
mais profunda, pode-se afirmar até que ele seja o herói da trama, quase sempre
mostrado centralizado no enquadramento. Perceba a forma como ele se recusa a
atirar num homem pelas costas, um traço de caráter que demonstra a existência
de um código de conduta. Vargas, por outro lado, pode ser visto como uma versão
jovem de Quinlan, ainda dominado por seus princípios éticos, quase sempre
ocupando os cantos da tela, uma representação de sua insegurança profissional,
e, principalmente, de seu desequilíbrio emocional.
Welles, mestre na composição das imagens, utiliza
generosamente elementos do cenário como forma de agregar mais camadas de
leitura às situações. Quando o seu personagem esquece algo relevante em uma
cena, um aviso na porta já sinaliza para o público esse equívoco, que será
revelado numa sequência posterior. Em seus filmes, apaixonado por mágica, ele
incita seu público a vasculhar cada enquadramento, enquanto opera o truque bem
diante dos olhos. A opção consciente pelo ângulo baixo ao enquadrar os
personagens, numa sugestão subliminar, injeta neles um senso de ameaça, que,
complementado pela atmosfera criada pela fotografia expressionista de Russell
Metty, estabelece um retrato muito mais tangível de suas características, mais
do que o roteiro poderia informar.

Analisando com atenção, o celebrado plano sequência inicial,
ainda que brilhantemente conduzido, é o fator menos interessante do projeto. O
ouro está na composição dos personagens e na forma como o roteiro desconstrói as
convenções do gênero.
* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”, com opção de dublagem e um ótimo documentário (legendado) sobre a produção.