“Foucault Contra Si Mesmo”, de François Caillat

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    Foucault Contra Si Mesmo (Foucault Contre Lui-Même – 2014)

    “Escrever é transformar, é desprender-se de si mesmo,
    dissociar-se de si mesmo. Se eu já soubesse aonde estava indo, não escreveria.

    Em pouco mais de cinquenta minutos, amparados em entrevistas
    com críticos, sociólogos e filósofos contemporâneos, o documentário acertadamente
    evita trilhar o caminho convencional didático de projetos similares, quase
    sempre dominados pelo distante olhar do outro sobre a matéria. Ao optar pela
    condução propositalmente caótica de vozes que, por hábito filosófico, primam
    pelo questionamento constante, ao invés de especialistas que se consideram
    donos da razão, o espectador é presenteado com um fluxo de ideias que
    primordialmente incitam debate.

    A estética anticonformista, dividida em quatro capítulos e
    um epílogo, tendo como base argumentativa os livros: “História da Loucura na
    Idade Clássica”, “As Palavras e as Coisas” e “História da Sexualidade”, além de
    ser intelectualmente instigante, também é coerente com o legado do homenageado,
    especialmente quando aborda e, de certa forma, celebra suas contradições. Michel
    Foucault sempre confrontava o livro em que trabalhava com os anteriores,
    estabelecendo diálogo vivo entre as obras, na esperança de que, da fricção de
    ideias, por vezes, antagônicas, ele pudesse encontrar sua identidade. Até mesmo
    em seu período como professor no Collège de France, cargo de altíssimo
    prestígio, ele subverteu as expectativas, frequentemente utilizando sua posição
    para criticar o poder institucionalizado, nunca se moldando à fôrma de conduta
    requisitada e abraçada por seus colegas. Apesar de recusar o conceito populista
    da luta pela luta, ressaltando sempre a importância fundamental de manter o
    pensamento lúcido ativo para a prática da emancipação, ele acompanhou os jovens
    nas manifestações de rua, estabelecendo firme oposição aos mecanismos de
    dominação da sociedade, reinserindo e revalorizando em seus textos os marginalizados,
    loucos, detentos e homossexuais.

    Nos breves trechos em que são mostrados registros de suas
    entrevistas, o homem segue sendo uma incógnita, o foco está em suas ideias. As
    manchetes de sua vida pessoal não importam, qualquer pesquisa rasteira na internet
    oferece estas respostas, o trunfo do projeto é utilizar seu tempo tentando
    compreender o que o motivava, a origem psicológica de seu estado latente de
    insatisfação. O interesse é introduzir a semente em terreno fértil. Quem não
    conhece o escritor vai terminar o filme querendo ler seus livros.

    * O documentário está sendo exibido no Cine Joia (RJ).

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