“A Ceia dos Acusados” e “A Comédia dos Acusados”, de W.S. Van Dyke


A Ceia dos Acusados (The Thin Man – 1934)
A Comédia dos Acusados (After The Thin Man – 1936)
Uma das minhas lembranças mais agradáveis envolvendo a época
do Natal foi quando preparei uma maratona caseira com os seis filmes da série,
material que era impossível de encontrar em VHS, mas que consegui nos primeiros
anos de garimpo na internet. Na época, minha única preocupação era a escola,
aproveitava cada segundo das férias com cinema em casa e livros. Eu ainda não
havia lido nada de Dashiell Hammett, mas já tinha lido sobre a adaptação de sua
obra mais leve, “The Thin Man”, uma mistura deliciosa de suspense detetivesco
com screwball comedy. E, claro, a presença de uma das minhas musas cinematográficas
mais queridas, Myrna Loy, interpretando Nora Charles, ajudou a intensificar o
desejo de ter contato com estas produções. Ela não era só linda, sensual e
charmosa, também exalava intelectualidade, em suma, irresistível. William Powell,
que vive Nick Charles, é bem diferente do tipo descrito no livro, não é
decadente, nem está fora de forma, mas como só li a obra mais tarde, não me
incomodou. Vale ressaltar que “thin man” (magro) se refere à vítima do
assassino, já li muitas críticas brasileiras que ligam o título ao
protagonista. É impossível enxergar outro ator no papel, o domínio de cena, o
timing cômico, a maneira como ele defende o texto, a química matadora com Loy. 
O
caso a ser resolvido nunca faz sombra ao show da dupla nos momentos mais comuns,
tentar acompanhar as reviravoltas é pedir para ficar confuso, o desenvolvimento
é problemático, sendo bastante sincero, as tramas dos seis filmes se misturam
em minha mente, não há nada especialmente interessante nas investigações. A
maneira como o casal interage de forma desaforada é que engrandece o resultado.
É como Nick explica logo na primeira cena do primeiro filme, mostrando para um atendente
do bar como preparar melhor a bebida com a coqueteleira: “O mais importante é o
ritmo”. O crime a ser resolvido é apenas a moldura para situações de
cumplicidade encantadora. Ele, um detetive aposentado bon vivant que vive sob o
efeito do uísque, trata sua profissão como algo comum, sem encanto. Ela,
refinada dama da alta sociedade, fascinada pela aventura e pelo perigo, gosta
de ser uma espécie de “Watson” na vida de seu marido. Entre eles, Asta, um
adorável e ciumento fox terrier. Os dois primeiros filmes são os melhores, mas
recomendo que todos sejam vistos em ordem cronológica. 
“A Ceia dos Acusados” foi
filmado em apenas dezesseis dias, mérito do milagreiro diretor W.S. Van Dyke,
de “Tarzan – O Homem Macaco”, que gostava de fazer poucos takes, o que explica
o feeling espontâneo no set, algo que ajudou bastante na equação de sucesso da
obra. Ele também foi o responsável por direcionar o foco dos roteiristas Frances
Goodrich e Albert Hackett, casados na vida real, ao relacionamento do casal,
deixando o mistério policial em segundo plano, atitude que não foi bem recebida
pelos executivos da MGM. E pensar que já li um famoso crítico brasileiro se
referir ao W.S. Van Dyke como “medíocre”. O sucesso inesperado de público garantiu
a continuação com orçamento triplicado, “A Comédia dos Acusados”, título
nacional horroroso, que traz um jovem James Stewart em um papel desafiador. Hammett
foi contratado para escrever uma nova trama, a troca de farpas do casal é ainda
mais hilária, até Asta recebe mais atenção, protegendo sua esposa canina dos
galanteios de um cão vizinho. O filme foi um sucesso, o roteiro foi indicado ao
Oscar.

Guilty Pleasures – “Aeroporto 75” e “Aeroporto 77”

Aeroporto 75 (Airport 1975 – 1974)
Aeroporto 77 (Airport ’77 – 1977)
“Aeroporto”, dirigido por George Seaton em 1970, adaptado do
popular livro de Arthur Hailey, inaugurou a era mais celebrada dos filmes de
desastre, com sua estrutura narrativa que remetia ao clássico “Grande Hotel”,
de Edmund Goulding. O elenco refinado e de relevância internacional, Burt
Lancaster, Dean Martin, Van Heflin, George Kennedy, Jean Seberg e Jacqueline
Bisset, o tema de amor composto por Alfred Newman e que virou sucesso na versão
de Vincent Bell, além da utilização ousada da tela dividida, garantiram o
interesse do público, o filme foi um tremendo sucesso nas bilheterias, apesar
de ser chato como poucos, elegante e bem produzido, mas interminável.  Três filmes foram feitos inspirados livremente
no conceito, artistas respeitados que representavam diferentes gêneros e épocas
inseridos em uma situação de grave perigo. Sem ligação direta com o original,
com exceção da participação de George Kennedy, os roteiros enfocavam no melodrama
folhetinesco, com alívios cômicos rasos e uma satisfatória construção de
suspense. 
“Aeroporto 75”, “Aeroporto 77” e “Aeroporto 80 – O Concorde”, apesar
de abordarem tragédias aéreas, são, de fato, ferramentas de marketing positivo
para os aviões em destaque, já que os problemas nunca são causados por falha
técnica, as máquinas são tão avançadas tecnologicamente que até mesmo uma aeromoça
sem experiência pode tomar o lugar do piloto e dar conta do recado. A quarta
produção é lastimável, nem mesmo a presença da maravilhosa Sylvia Kristel,
eterna “Emmanuelle”, consegue fazer a experiência ser menos constrangedora. Mas
eu nutro carinho especial por “Aeroporto 75” e “Aeroporto 77”, ainda que
estejam longe de ser considerados bons. A trilha sonora de John Cacavas,
especialmente em 75, pode ser considerada uma das melhores da década. Os
pilotos, Charlton Heston (75) e Jack Lemmon (77), dignidade e credibilidade
indiscutíveis, você realmente acredita que eles seriam capazes de salvar o dia.
O cinema de horror é representado em 77 por Christopher Lee, o Drácula da
Hammer, e em 75 pela figura adorável da jovem Linda Blair, que agora, já livre
da possessão demoníaca, faz amizade com uma freira cantora e passa o tempo
inteiro deitada em uma cama. Gloria Swanson (75), James Stewart (77), Myrna Loy
(75), Joseph Cotten (77) e Olivia de Havilland (77) representam a justa
reverência à época de ouro da indústria, uma noção de respeito à memória
cultural que infelizmente se perdeu em Hollywood. 

“Aeroporto 75” não foi pensado como uma espécie de
releitura, a ideia original do roteirista Don Ingalls, nome respeitado na
televisão, envolvia um típico projeto imediatista despretensioso para a tela
pequena, mas o produtor da Universal ficou empolgado com a possibilidade de
lucro certo ao revisitar o sucesso do início da década. O roteiro insere a
figura descaracterizada do personagem de George Kennedy como tentativa
desesperada de estabelecer alguma ligação. A direção ficou sob a responsabilidade
de Jack Smight, nome sem créditos relevantes, que obviamente se divertiu muito com
o material, o tom é assumidamente debochado. Não por acaso, 75 foi o escolhido
pelos irmãos Zucker como base para as gags mais hilárias do espetacular “Apertem
os Cintos… o Piloto Sumiu! ”. Karen Black abraça com muita dignidade o papel
da pessoa comum que enfrenta uma situação absurda. Ao contrário do original, o
interesse do roteiro está no exótico material humano dentro do avião, pouca
atenção é dedicada aos profissionais em terra, elemento que facilita o
investimento emocional do espectador. A sequência em que o piloto substituto é
transferido, preso em um cabo de aço, do helicóptero para o avião, entrando
pelo buraco na fuselagem, apesar de todos os truques visuais datados, segue
eficiente. Produzido ao mesmo tempo que seu primo rico: “Terremoto”, dividindo
boa parte da equipe técnica e elenco, “Aeroporto 75” vence com folga no cruel teste
do tempo.
“Aeroporto 77” é pura picaretagem, adorável, maravilhosa picaretagem. “O Destino de Poseidon”, que considero o melhor filme catástrofe de todos os tempos, havia elevado os padrões em 1972, enchendo os cofres da FOX, mostrando a luta por sobrevivência em um transatlântico que vira de cabeça para baixo após ser atingido por uma onda. Por que não investir em uma trama em que um Boeing 747 atravessa o Triângulo das Bermudas e afunda no oceano? Unir o medo de voar com o medo de morrer afogado. Há um pouco da mística que envolve o local e, claro, a possibilidade de criar angustiantes sequências submarinas. Os roteiristas Michael Scheff e David Spector aceitaram o desafio e operaram um considerável milagre. A trama é muito mais absurda que a de 75, mas o tom não é de deboche, o trunfo do filme é se levar a sério, com a ajuda importante da interpretação sóbria e respeitável do sempre competente Jack Lemmon. 

Sobre a incompreensão da função da crítica e a parcela de culpa dos profissionais da área

Quando eu comecei a escrever sobre cinema, a imagem do crítico era menosprezada neste país pelo grande
público, ele era visto como o “chato do contra”, o “dono da verdade”, aquele que diz o que deve ser visto e
o que deve ser desprezado. Uma das minhas metas era, em longo prazo, melhorar este triste panorama. Mas parte considerável de culpa por esta equivocada visão que alimentou por décadas a incompreensão sobre a função da crítica recai nos ombros de muitos profissionais da própria crítica cinematográfica. Aqueles que segregam, aqueles que querem se sentir especiais, aqueles que diminuem os esforços dos outros sem pensar duas vezes. 
Quando o profissional utiliza o cinema como base
possível para extravasar sua arrogância, ele acaricia o próprio umbigo,
satisfaz o ego, atrai seus semelhantes (pedantes que necessitam de autoafirmação
intelectual) e afasta todos aqueles que verdadeiramente amam a arte, ou que estão começando a se interessar, uma fagulha que deve ser sempre estimulada. O crítico medíocre precisa traçar uma linha imaginária na areia e garantir que está com os pés fincados no “lado certo”, deslegitimando os outros, tolos, amadores, irrelevantes. Para ele, “a regra é clara”. Só que não existe
uma regra, uma única maneira de se escrever profissionalmente sobre cinema. A
crítica profissional acadêmica é estruturada nos critérios do profissional que a escreve,
logo, naquilo que ele defende como correto, ele não segue uma tabela. François Truffaut,
por exemplo, escrevia movido por paixão. Ele então não pode ser considerado um
profissional da “crítica acadêmica”? Escrever com paixão não é o
mesmo que escrever sem embasamento teórico. 
Como sempre afirmo, a fascinação pela arte crítica reside exatamente na pluralidade de análises,
especialmente naquelas que argumentam visões opostas. Se a análise acadêmica
fosse conduzida por robôs (única forma de não ser subjetiva), obviamente não haveria
oposição de ideias, mas também não creio que haveria público. Como o palestrante chato que passa duas horas falando em tom monocórdico e sem brilho nos olhos, com trinta livros abertos na mesa, para meia dúzia de rostos bocejantes. Ele busca apenas o status social/profissional, não se importa com o receptor. O que
fascina o cinéfilo é sentir, por trás de toda a exposição teórica, o profundo
amor do profissional pelo material que analisa. O ideal seria que
todos os veículos impressos presenteassem o público com o maior número possível de
textos sobre cinema, mas creio que isto não seja financeiramente atraente, o que diz muito
sobre o nível educacional do brasileiro. Mas, como salientei em texto recente, aquele que não é impedido pela preguiça intelectual sabe que veículos impressos são apenas uma fonte de informação.
Eu celebro todos aqueles que escrevem na área movidos pela paixão e contaminados pelo vírus do garimpo intelectual. O crítico de cinema não é chato, o chato é ser arrogante em qualquer área. 

“Bingo: O Rei das Manhãs”, de Daniel Rezende

Bingo: O Rei das Manhãs (2017)
O cinema brasileiro está começando a entender que a
versatilidade temática é fundamental na construção de uma indústria, as
histórias menos convencionais podem operar a mágica do encantamento que urge
pela revisão. É exatamente o que acontece em “Bingo: O Rei das Manhãs”, dirigido
por Daniel Rezende e com fotografia de Lula Carvalho, uma obra em que podemos
sentir em cada cena, em cada detalhe, o amor profundo pelo material. Quem era criança na
década de oitenta será automaticamente hipnotizado pela impecável recriação da
época, desde toques sutis como a fonte da legenda que remete às fitas VHS,
passando pela seleção musical matadora, até algumas soluções narrativas
propositalmente ingênuas (como o interlúdio musical onírico de revide e o
recurso visual de comunicação entre pai e filho) que evocam a doçura poética de
clássicos do período, como “Cinema Paradiso”.
O roteiro de Luiz Bolognesi equilibra com maestria o drama e
a comédia, sem medo de ousar nos dois, inserindo doses generosas de pimenta e
recusando se desviar do lado mais sombrio da trama, sendo espertamente coerente
com o espírito anárquico do protagonista. O texto cômico é extremamente
eficiente, ajudado por um elenco verdadeiramente inspirado. Se a trava emocional
imposta pela devoção religiosa da diretora do programa limita seus movimentos, opção
física inteligente que sugere desconforto e a necessidade de ser respeitada
profissionalmente, Leandra Leal permite que a natural revolta interna de Lúcia seja
liberada em breves e intensos segundos de descontração. É brilhante a forma
como o filme trabalha o elemento da teatralidade, força motriz no circo
televisionado e no púlpito do templo evangélico, versões altamente diluídas de
impulsos genuínos e que visam prioritariamente o lucro financeiro.
A mãe do palhaço, maravilhosa Ana Lúcia Torre, atriz
sensível que é afastada dos palcos e passa a ser subutilizada pelos produtores
em funções tolas, obrigada a ver jovens de rostos bonitos e mentes vazias
dominando o cenário artístico nacional. A cena em que ela enfrenta com
dignidade esta realidade é emocionante, um primor técnico, envolvida e
acariciada pelas sombras de suas glórias de outrora, esquecida por um povo sem
memória. Vladimir Brichta, vivendo Augusto/Bingo, está impressionante, irrepreensível,
como é triste ver um talento como ele sendo usualmente desperdiçado em rasas telenovelas.
Perceba como ele constrói o personagem inicialmente no olhar, nos gestos que
gradativamente vão se tornando mais claudicantes à medida em que seu
psicológico já fragilizado (pela insegurança profissional, por querer ser mais
do que um corpo nas pornochanchadas) avança rapidamente em espiral descendente
com o vício das drogas, até que, no terceiro ato, despido existencialmente,
porém, com sua vaidade intacta, ele limita seus movimentos, seu espaço físico,
rimando com o ponto de partida da mulher que ama, que, por sua vez, tendo
conquistado segurança profissional, aceita relaxar um pouco. Os dois se
completam.

Inspirado livremente na vida de Arlindo Barreto, o filme é o
clássico conto do azarão que consegue a grande chance e, inebriado pela fama,
perde contato com suas raízes e precisa reencontrar o caminho. No limiar do
abismo ele percebe que a resposta estava ao seu lado o tempo todo, o filho
pequeno, seu legado. O azarão temático em um gênero nacionalmente dominado por mínimas
variações afinadas por um mesmo diapasão, “Bingo: O Rei das Manhãs” é um dos
melhores filmes do ano.

TOP – 2004

1 – Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (Eternal Sunshine of The Spotless Mind), de Michel Gondry
“… O roteiro brilhante de Charlie Kaufman nos induz a
questionar a nossa frágil psique, com a angústia de alguém em lidar com a
indiferença do outro. Apaga-se a memória, mas ele ainda existe…”


2 – Peixe Grande (Big Fish), de Tim Burton
“… A perspectiva da morte faz com que o jovem busque conhecer
aquela incógnita falastrona, que sempre o deixava envergonhado em suas festas
com seus arroubos criativos. Angustiado com a recusa do pai em se mediocrizar,
tornar-se comum, o seu filho então decide conduzir uma pequena investigação,
que acaba levando-o a constatar que somente a fantasia, o lírico, realmente
satisfaz de forma plena…”

3 – Encontros e Desencontros (Lost in Translation), de Sofia Coppola
“… A insegurança demonstrada na posição fetal da jovem e o
tédio que ele expressa no desleixo com que preenche seu lado da cama.
Lentamente percebemos a mão dele vencendo o medo da entrega do sentimento, a
insegurança pela diferença de idades, procurando o toque que simboliza naquele
momento muito mais que um beijo…”
4 – Colateral (Collateral), de Michael Mann
“… A estética e o ritmo, aliados à competência de Tom Cruise e Jamie Foxx, garantem o impacto sensorial em um dos melhores filmes do gênero nos últimos anos…”

5 – Má Educação (La Mala Educación), de Pedro Almodóvar
“… O diretor insere temas perturbadores de uma forma onírica e demasiadamente humana, desafiando o espectador a acompanhar seu raciocínio, proposta corajosa…”


6 – A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de Mel Gibson
“… Por trás da ideologia questionável de Gibson, anestesiando os ensinamentos de amor e compaixão do personagem ao favorecer a agonia da purificação pela dor, não há como negar que a obra é um primor técnico…”
7 – Todo Mundo Quase Morto (Shaun of The Dead), de Edgar Wright
“… Esqueça o título nacional horroroso, Edgar Wright é uma das melhores surpresas do cinema na história recente, subvertendo as expectativas do público e firmando uma caligrafia autoral no gênero da comédia…”


8 – Primer, de Shane Carruth
“… O segredo reside no desinteresse do autor em construir algo
convencional, agradável, para o público, o que resultou em uma trama que nunca
seria comprada por qualquer estúdio, nenhum teria coragem de arriscar perder
dinheiro com algo tão desafiador…”


9 – Diário de Uma Paixão (The Notebook), de Nick Cassavetes
“… O filme de romance que, sem querer reinventar a roda, renova as esperanças no gênero, comandado pelo competente filho de John Cassavetes, que aproveita o embalo e presta linda homenagem à sua mãe, Gena Rowlands…”
10 – A Vila (The Village), de M. Night Shyamalan
“… O diretor brinca com sua característica mais conhecida, a reviravolta final, trabalhando o conceito vazio do resgate do passado histórico como forma de lidar com um grande trauma, uma sociedade que conscientemente rejeita a lógica por uma mentirosa sensação de conforto…”

Guilty Pleasures – “Sexta-Feira 13 – Parte 7” e “Jason Vai Para o Inferno”

Sexta-Feira 13 – Parte 7: A Matança Continua (Friday the 13th Part 7: The New Blood – 1988)
Jason Vai Para o Inferno: A Última Sexta-Feira (Jason Goes to Hell: The Final Friday – 1993)
O primeiro filme é bom, o segundo é excelente, o terceiro e
o quarto são muito bons, o quinto é desprezível, o sexto é ótimo, apesar de
representar uma mudança drástica de tom, mas os quatro posteriores costumam ser
sempre citados como bombas nucleares. E, de fato, eles são mesmo. “Jason X” e “Sexta-Feira
13 – Parte 8: Jason Ataca Nova York” merecem constar na lata de lixo da
história do gênero. O problema é que eu tenho um carinho especial por “Sexta-Feira
13 – Parte 7” e “Jason Vai Para o Inferno”, ainda que enxergue todos os
defeitos, são meus guilty pleasures na querida franquia do assassino imortal de
Crystal Lake.
O diretor John Carl Buechler pode não ter demonstrado muito
talento em seu ofício, as atuações no sétimo filme estão entre as piores da
série, mas é inegável que contribuiu impecavelmente para a cultura pop mundial
ao lutar com os produtores pela escalação de Kane Hodder, amigo com quem havia
trabalhado em um projeto anterior, para viver Jason Voorhees. Os engravatados
do estúdio não enxergavam no rapaz o senso de ameaça, afinal, qualquer dublê
poderia defender as cenas do monstro mudo com o rosto coberto por uma máscara.
Mas o diretor sabia que Hodder traria algo novo, seguiu sua intuição, os fãs
agradecem até hoje! O segredo é que ele realmente amedrontava as suas vítimas
nas filmagens, a respiração pesada, a movimentação do corpo, a brutalidade com
que executava as coreografias intencionava transmitir para o elenco o real
sentimento de alguém que percebe que está nas mãos de um louco extremamente
agressivo. Aliada ao toque visual inteligente do diretor, que decidiu fazer pela
primeira vez a figura do assassino remetendo diretamente às várias “cicatrizes
de guerra” sofridas nas produções anteriores, esta versão consegue resgatar o
senso de perigo de um personagem que já havia se transformado em deboche. Quando
Jason é libertado da corrente que o manteve debaixo do rio por dez anos, apesar
da motivação tola envolvendo o trauma de infância da telecinética Carrie
genérica (vivida por Lar Park Lincoln), você se sente atraído por aquela
inexplicável força da natureza. Outro elemento que retorna em doses generosas
após o monástico sexto projeto é a nudez gratuita, maravilhosa distração que
compensa os diálogos constrangedores e o desenvolvimento patético dos
coadjuvantes jovens.

O nono filme já não é tão fácil de defender, qualquer pessoa
acima dos dez anos de idade é capaz de concluir que não é bom. O problema é que
eu tinha dez anos quando ele estreou no Brasil. Aluguei várias vezes o VHS nos
anos seguintes, vibrei com a sequência final em que a luva do Freddy Krueger
aparece e carrega a máscara de Jason para o inferno, em suma, guardo boas
lembranças. Mas, analisando carinhosamente, vale ressaltar uma qualidade
inegável, o nível de gore é impressionante, algo que não era comum na franquia.
O diretor Adam Marcus consegue ser menos expressivo que o Buechler, o tom é de
projeto amador, o roteiro inventa uma irmã para Jason e uma adaga mágica que,
mesmo tendo visto várias vezes a obra, ainda não consigo entender como se
encaixa na trama. Kane Hodder infelizmente aparece menos desta vez, explode
logo no início, reaparece ao final como se nada tivesse acontecido, o “espírito”
do monstro vai possuindo corpos de vítimas, opção que, em teoria, serviria como
sopro de ar fresco, caso o conceito fizesse qualquer sentido na história. É uma
adorável bobagem despretensiosa com jeitão de picaretagem independente, sobra
espaço até para uma homenagem a H.P. Lovecraft e ao “Evil Dead”, de Sam Raimi,
utilizando em uma cena o livro Necronomicon, obviamente guardado na casa dos
Voorhees. A sequência inicial propõe uma crítica hilária às convenções do
slasher e da própria série, com a equipe da SWAT armando uma cilada para o
assassino, utilizando como cobaia uma beldade policial disfarçada de
descerebrada seminua adolescente.

TOP – 25 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos

O cinema brasileiro é rico em temas, o problema é que muitos
diretores não conseguem fazer seu trabalho ser comercialmente disponível, poucos
conseguem atravessar o funil e ir além dos festivais de cinema. Há uma massa de
intelectuais brasileiros que desprezam o cinema de gênero, professores de faculdades
de cinema estimulam em seus alunos esta atitude errada. Uma nova geração de
críticos, da qual faço parte, está lutando diariamente para mudar esta triste
realidade em longo prazo.
Alguns destes filmes que eu selecionei nem sequer são
lembrados por estes profissionais veteranos, mas demonstram a versatilidade,
coragem e bom humor destes artistas que geralmente trabalham com orçamento
muito baixo. Da era silenciosa aos tempos modernos, todos os gêneros, drama,
romance, suspense, comédia, horror, documentário, filmes infantis e intensos
filmes de ação. Aqui estão os 25 melhores filmes brasileiros:
25 – Os Saltimbancos Trapalhões (1981)
“Os Trapalhões” eram um grande sucesso no Brasil,
um grupo de comédia amado por crianças e adultos, mas nunca fizeram algo tão
ousado quanto este filme. Adotando a estrutura de um musical infantil (músicas
escritas por Sergio Bardotti e Luis Enríquez Bacalov, adaptado ao português por
Chico Buarque), vale a pena enfatizar o roteiro ousado, a bela mensagem dos
pobres artistas de circo unidos como uma oposição corajosa aos atos ultrajantes
de um ditador, um elemento que engrandece o resultado com um excitante
simbolismo.
24 – Noite Vazia (1964)
Walter Hugo Khouri, inspirado por Antonioni e os jovens
cineastas franceses da Nouvelle Vague, lida com a angústia de quem, em teoria,
não teria motivos para sofrer, os problemas existenciais da burguesia. Os
personagens são hipócritas incapazes de exercer o esforço necessário para
escaparem da inércia, o confinamento no apartamento simboliza o medo de
enfrentar o mundo.
23 – Assalto ao Trem Pagador (1962)
Com base em um caso real que aconteceu no Rio de Janeiro,
quando uma gangue atacou o trem pagador da Central do Brasil, Roberto Farias
consegue criar um ótimo filme de assalto com muito pouco orçamento,
pressionando o dedo sobre a ferida da sociedade preconceituosa e racista da
época. O elenco brilhante, com destaque para Eliezer Gomes, Grande Otelo e
Reginaldo Faria, ajuda a elevar ainda mais a qualidade do filme.
22 – O Caso dos Irmãos Naves (1967)
O filme de Luís Sérgio Person, corajosamente nos anos da ditadura
militar, conta a verdadeira história de prisão, tortura e morte de Joaquim e
Sebastião Naves, injustamente acusados ​​de um crime. Presos e torturados, os
irmãos são obrigados a confessar um crime que não cometeram. Um dos casos mais
emblemáticos de erro judicial no Brasil.
21 – O Bandido da Luz Vermelha (1968)
Rogério Sganzerla, com muito pouco orçamento, experimentou
(e subverteu loucamente) com as convenções do thriller de Hollywood. Fugindo da
lógica populista dominante no Cinema Novo, não há heroísmo na pobreza, não há
esperança, apenas a devastação direcionada a tudo e a todos.

20 – O Gato de Madame (1957)
Amácio Mazzaropi foi um dos maiores nomes do cinema
brasileiro, profundamente amado pelas pessoas, apesar de ser humilhado na vida
por críticos profissionais que desprezaram seu trabalho. Ele lutou para
estabelecer uma indústria cinematográfica autossustentável no país. Neste
projeto, dirigido por Agostinho Martins Pereira, ele foi favorecido por um
roteiro corajoso que extraiu o humor ácido das críticas sociais, zombando de
praticamente todos os conceitos estabelecidos, principalmente sobre políticos e
a utopia socialista, com citações como: “Democracia é como uma melancia,
verde de esperança por fora, mas vermelha por dentro, queimando com o desejo de
mandar em tudo.”
19 – Abril Despedaçado (2001)
Walter Salles tornou-se conhecido no mercado exterior com
“Central do Brasil”, mas foi com o projeto seguinte que conseguiu o
equilíbrio sensorial perfeito. Inspirado pelo livro do albanês Ismail Kadaré,
adaptado ao cenário do nordeste brasileiro, o roteiro é um conto de vingança
entre duas famílias, mas não se concentra na violência, o interesse é no
desenvolvimento de personagens expostos aos níveis mais profundos da miséria
humana.
18 – Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro (2010)
O primeiro filme explodia na cara do espectador como uma
espingarda, o segundo é como um tiro de bala dumdum, penetra no corpo e causa
maiores danos internos. A reflexão crítica que o roteiro de José Padilha propõe
é o elemento que o torna um produto superior no gênero ação, o inimigo não é
apenas o criminoso violento nas ruas, mas também o sistema político podre que
governa a sociedade em que a violência está inserida.

17 – Lavoura Arcaica (2001)
A fidelidade ideológica de Luiz Fernando de Carvalho às
páginas do livro de Raduan Nassar pode ser percebida inicialmente na
preocupação do diretor por uma construção detalhada, desde o uso do texto
original, através das ideias inteligentes no figurino de Beth Filipecki, até a
elegância funcional do Gordon Willis brasileiro: Walter Carvalho.
16 – Pixote – A Lei do Mais Fraco (1981)
A realidade cruel das ruas é evidenciada pelo diretor Hector
Babenco, em seu melhor trabalho, abordando a perda de inocência em crianças
expostas a um mundo de crime e prostituição. O pequeno Pixote é enviado a um
reformatório, mas descobre que o sistema está corrompido, e que talvez ele
estivesse mais seguro longe das garras da lei.
15 – Ganga Bruta (1933)
Iniciado em 1931, este filme mudo dirigido por Humberto
Mauro sofreu consideráveis ​​atrasos. O produtor Adhemar Gonzaga sonhou em
filmar o projeto na Amazônia, que acabou por não acontecer, com problemas de
dinheiro. Ainda assim, a produção simbolizava uma maturidade profissional do
cinema brasileiro, com cenas internas capturadas por quatro câmeras, algo usual
em Hollywood na época, mas novidade para a indústria cinematográfica
brasileira.
14 – Viagem ao Fim do Mundo (1968)
Com forte inspiração nas obras da filósofa francesa Simone
Weil, simbolizada no monólogo existencialista de uma freira sobre a hipocrisia
da religião, especialmente como uma ferramenta política, um ponto extremamente
atual em uma sociedade em que um candidato que se declara ateu não vence a
eleição, o filme do diretor Fernando Coni Campos, embora seja parte do
movimento Cinema Novo, pode ser visto como uma antítese da celebração da
rebelião sofisticada nas obras de Glauber Rocha, já que seu experimentalismo
visual não parece buscar inspiração na melancolia poética do neorrealismo
italiano.
13 – O Lobo Atrás da Porta (2013)
O roteiro do diretor Fernando Coimbra, que estreia de forma
promissora com a coragem de um veterano como Michael Haneke, se atreve a seguir
o caminho do gênero de suspense com personalidade, ajudado pelas ótimas atuações
de Leandra Leal e Milhem Cortaz.
12 – Terra em Transe (1967)
Glauber Rocha disse que estava tentando fazer algo que
fundisse o cinema intelectual que foi feito na Europa (o surgimento da Nouvelle
Vague), com Hollywood. Misturando John Ford e Eisenstein. Em “Terra em
Transe”, ele conseguiu criar sua obra-prima, aproximando-se mais
eficientemente de seus desejos artísticos.
11 – Casa de Areia (2005)
A riqueza do roteiro complementada por uma entrega magistral
das atrizes, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real,
cria poesia orgânica, que convida o público a pensar e se emocionar neste
inesquecível conto de solidão dirigido por Andrucha Waddington.
10 – A Hora da Estrela (1986)
Não é difícil concluir que esta bela adaptação de Suzane
Amaral para o livro de Clarice Lispector, fiel à essência e eficiente na sua
execução, é o melhor filme brasileiro da década de oitenta, verdadeira flor no
asfalto. A sensibilidade do roteiro, que funciona com uma simplicidade incomum
no período, uma época em que todos os cineastas brasileiros pareciam tentar
imitar a cacofonia visual de Glauber Rocha, que, por sua vez, emulava
experimentos franceses, cativa o espectador já nas primeiras cenas, quando
conhecemos a protagonista: Macabéa, vivida por Marcélia Cartaxo.
9 – Cabra Marcado Para Morrer (1984)
Eduardo Coutinho fazia uma espécie de cinema intensamente
emocional, original, corajoso, que forjava uma audiência consciente e crítica,
um elemento essencial, principalmente por causa da maneira como sua lente aborda
um tema que, em outras mãos, poderia se tornar algo panfletário, manipulador,
reduzindo tudo a uma visão simplista.
8 – Filme Demência (1986)
Produzido pela Embrafilme, um roteiro escrito por Carlos
Reichenbach e Inácio Araújo, esta pérola ainda é raramente comentada por
cinéfilos brasileiros, o trabalho mais pessoal do diretor. Idealizado em tempos
de crise nacional, a ideia original teve que ser abortada após cortes no
orçamento e acabou por ser transformada em uma versão para “Fausto”
de Goethe.

7 – De Vento em Popa (1957)
O movimento Cinema Novo dos anos 70 capitalizou com a
pobreza, mas a crítica política e social desses filmes empalidece em comparação
com a imagem de Oscarito mantendo seu disfarce como cientista aristocrático, um
conceito cômico que atinge o alvo com mais pungência do que todos os chamados
“revolucionários” cineastas brasileiros fariam nos anos seguintes.
6 – Navalha na Carne (1969)
O diretor Braz Chediak conseguiu estabelecer uma atmosfera
opressiva praticamente insuportável, dominada por planos fechados e longas
tomadas, com um uso sábio do silêncio, que vai além dos primeiros trinta
minutos com apenas sons diegeticos. O texto corrosivo de Plínio Marcos,
defendido de forma naturalista pelos atores consome o ambiente claustrofóbico,
a sala fétida e desorganizada que serve como microcosmo de uma sociedade
hipócrita.
5 – Vidas Secas (1963)
A inteligência do diretor de fotografia Luiz Carlos Barreto,
com lente nua, sem filtros, deixando a luz explodir, esmagando os personagens
no terreno escaldante. O chiado das rodas do carro de boi é a trilha sonora
ensurdecedora, colocando o espectador em um estado alterado e desconfortável,
imediatamente imerso na realidade desesperada da família sertaneja.
4 – O Despertar da Besta (1970)
O filme já começa ao som de “Ave Maria”, que é
implacavelmente interrompida pelo som de um grito de horror. Somente esse
elemento seria um argumento suficiente para a estúpida ditadura militar agir
como censura. Eles não apenas impediram que o filme fosse exibido nos cinemas,
queimaram as cópias. Recuperado nos anos oitenta, continua sem lançamento
comercial. Com um roteiro refinado de Rubens F. Lucchetti, baseado em um
argumento de José Mojica Marins cheio de metalinguagem, que, no contexto da
época, ousou falar sobre o comportamento humano de uma forma que ainda hoje é
corajosa.
3 – Limite (1931)
Este belo filme mudo foi amado por David Bowie e selecionado
para restauração por Martin Scorsese. Desconhecido pelo público brasileiro,
reconhecido no exterior como obra-prima, o filme de Mário Peixoto usa a sobreposição
poética de imagens desarticuladas e muito simbolismo, abordando o infortúnio da
humanidade diante da limitação universal.
2 – O Pagador de Promessas (1962)
Em 1962, um jovem chamado Anselmo Duarte, ator em filmes
como “Sinhá-Moça” e “Aviso aos Navegantes”, decidiu dirigir
uma história à frente de seu tempo. Ele trouxe a Palma de Ouro, do Festival de
Cannes, despertando a inveja de seus colegas.
1 – Cidade de Deus (2002)
Fernando Meirelles conseguiu capturar a revolta brasileira
com as taxas crescentes de violência urbana e o sentimento absurdo de
impotência diante de um sistema que parece proteger os criminosos, a impunidade
em todos os níveis, canalizando essa raiva coletiva para a estética de seu
filme. É rápido, é brutal, é real.
* Lista preparada para o site norte-americano “Taste of Cinema”. Link para a postagem original, com os textos em inglês e sem cortes: http://www.tasteofcinema.com/2017/the-25-best-brazilian-movies-of-all-time/

Sobre a preguiça intelectual do público e o “Bonequinho” do Globo

Você já deve ter lido várias vezes que “se o Bonequinho está dormindo, pode ir, que o filme é bom”. O comentário é maldoso, tolo, além de revelar mais sobre aquele que o defende, o típico indivíduo que se orgulha em dizer que despreza críticos de cinema porque “tem opinião própria”. No português claro, um bronco. Há uma questão fundamental, a incompreensão
da função da crítica por grande parte do público. O usual é encontrar comentários bastante agressivos direcionados aos profissionais da área. Um absurdo,
tremenda falta de respeito, especialmente quando partem de colegas. O problema
não é a avaliação do crítico, que fala diretamente aos critérios que ele
utiliza. O que vale ser discutido é o jornal
utilizar apenas uma avaliação para cada obra. 
O público que já não valoriza
leitura no dia a dia, pouca atenção dedica ao texto crítico, vê o
“Bonequinho” e decide em poucos segundos se vai comprar o ingresso. O problema realmente grave é a tremenda falta de interesse do brasileiro, hoje em dia o indivíduo tem
acesso pleno à informação. Se ele se baseia apenas em uma fonte, triste
constatação. Como sempre afirmo, o mais correto é ler variados textos críticos, especialmente os
discordantes, agregando aquelas análises à reflexão que a pessoa vai fazer após
a sessão. Jogar pedra no crítico é estupidez, atestado de ignorância. Se o
jornal não abre espaço maior para a crítica cinematográfica, uma pena, reflete
apenas o pensamento comodista e preguiçoso de grande parte dos seus leitores.
Futebol recebe páginas e mais páginas de análises, cinema recebe nota de
rodapé, esta é a cara do Brasil. 
Buscar informação é elemento essencial, o
Globo e seus “Bonequinhos” são apenas uma fonte de informação. E, acima de tudo, são profissionais que merecem respeito. Se os responsáveis não consideram financeiramente viável abrir mais espaço em suas páginas para o cinema, você pode encontrar dezenas de textos críticos na internet sobre uma mesma obra. Encare com mais atenção seu próprio reflexo no espelho e se pergunte com sinceridade: Eu realmente demonstro interesse no tema?

Sobre o conceito de “filme velho” e o valor da revisão

O filme em preto e branco, mudo ou falado, em suma, aquela
obra que foi lançada décadas antes de você nascer. É comum ler comentários de
adultos que citam estes títulos com a certeza de que resgatam algo
provavelmente esquecido, como se já antecipassem a resposta debochada:
“Isso não é do meu tempo, coroa”. Por vezes, a própria pessoa já se
defende, dizendo de forma depreciativa que o filme é velho. Como assim? Velho é
aquilo que você conhece há muitos anos. Se você tem dezoito anos e está começando
a se interessar por cinema, TODOS os filmes já produzidos são NOVOS.
É importante, como crítico de cinema e um apaixonado
autodidata pelo garimpo desde a infância, utilizar este espaço para tentar
fazer você entender que, por mais que muitos jovens e adultos primem pelo
limitado pensamento imediatista, o mais correto é apreciar a arte como algo
atemporal. Aprofundando a análise, a forma como o indivíduo enxerga o passado é
sintomática de seu nível educacional. Vale traçar um paralelo com o desrespeito
generalizado com os idosos na sociedade. Como sempre afirmo, incentive em seus
filhos desde cedo o amor pelo garimpo cultural. Aquele que não vê beleza no
antigo, ou que sequer dá chance de conhecer estas obras, por preconceito tolo
ou preguiça, está fadado a acordar um belo dia e perceber que já não é mais
existencialmente relevante, afinal, envelheceu.

A pessoa debocha porque você está vendo um filme repetido. O
clássico “este eu já vi” simplesmente não faz sentido na apreciação
cinematográfica. O ato de rever um filme é fundamental. Imagine escutar a
canção apenas uma vez. Imagine beijar a pessoa amada apenas uma vez. Quem vê o
filme apenas uma vez enxerga no cinema um passatempo pueril, facilmente
substituível por uma partida de gamão, ou um treino de cuspe à distância. O
amor urge pelo reencontro.

Nos Embalos do Rei do Rock – “Com Caipira Não Se Brinca”

“Viva Las Vegas” foi filmado antes, mas lançado depois de “Kissin’ Cousins”, o que já evidencia uma característica fundamental do segundo, a produção de baixíssimo orçamento, filmada em duas semanas. O empresário, preocupado com os custos do refinamento do anterior, quis garantir que o próximo compensaria na rapidez, então convocou o produtor Sam Katzman, especialista em extrair leite de pedra. Apesar dos obstáculos naturais, os cortes financeiros são facilmente perceptíveis se comparados à “O Seresteiro de Acapulco”, por exemplo, o roteiro de Gene Nelson e Gerald Drayson Adams, especialista em tramas leves e agradáveis, como “A Princesa do Nilo”, foi indicado para o prêmio do sindicato de roteiristas na categoria musical.

Com Caipira Não Se Brinca (Kissin’ Cousins – 1964)
Josh Morgan (Elvis Presley) é um oficial do Exército que
precisa visitar parentes caipiras e convencê-los a permitirem que uma base de
mísseis seja instalada em suas terras.
Se fosse lançado alguns anos antes, teria sido elogiado pela
crítica como despretensiosa comédia, o problema foi o timing, os Beatles
invadiam os Estados Unidos, a juventude vibrava com a atitude roqueira dos
garotos britânicos, já não tinham paciência para ver Elvis, o ídolo rebelde de
outrora, inserido em uma trama cômica caricatural sulista. Mas, em revisão, o
filme segue divertido, espécie de primo pobre de “Sete Noivas Para Sete
Irmãos”, utilizando sua estrutura simples como base para sequências
encantadoras emolduradas por boas canções.
O diretor Gene Nelson era dançarino, o que garantiu o alto
nível das coreografias no terceiro ato. O trabalho rendeu a ele uma nova
parceria com Elvis, no inferior “Feriado no Harém”, no ano seguinte. O elenco
era ótimo, com Glenda Farrell, veterana de obras como “Almas no Lodo”, clássico
gângster da Warner, o impecável Arthur O’Connell, que já havia trabalhado com
Elvis em “Em Cada Sonho Um Amor”, e a bela Yvonne Craig, que namorou com o
cantor durante um tempo, irresistível em seu misto de ingenuidade e malícia, que
se tornaria mundialmente conhecida anos depois como a Batgirl da série
“Batman”, com Adam West. O elemento inovador foi o truque visual que permitia
que Elvis realizasse dois papeis, o militar elegante da cidade grande e o seu
primo caipira abrutalhado, a diferença estava apenas na cor do cabelo. O
recurso é executado favorecendo o humor, não há intenção alguma de aprofundar o
desenvolvimento dos personagens. O cantor havia acabado de conquistar a faixa
preta de karatê, uma de suas paixões, ele estava motivado, trabalhando nuances
de interpretação que diferenciassem um tipo do outro. O grupo feminino das
“mulheres gavião”, beldades da montanha que perseguem os homens que se
aproximam do local, elemento que realça o tom antinatural de desenho animado,
funciona exatamente por ser coerente com o todo.

A trilha sonora não é especialmente boa, mas as canções
funcionam dentro da proposta. “Kissin’ Cousins” (a segunda versão, escutada ao
final, com o cantor defendendo o sotaque puxado nas linhas entoadas pelo
caipira), a irônica balada “One Boy, Two Little Girls”, “Once is Enough”, “Tender
Feeling” e “There’s Gold in The Mountains” merecem destaque dentro da
filmografia de Elvis. O sucesso nas bilheterias, comparado com “Viva Las Vegas”
e sua refinada produção, estimulou o Coronel Parker a investir sem medo nos
anos seguintes em uma fórmula duvidosa: filmagens rápidas, baixo custo e muitas
canções.

A Seguir: Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas)