Guilty Pleasures – “Aeroporto 75” e “Aeroporto 77”

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Aeroporto 75 (Airport 1975 – 1974)

Aeroporto 77 (Airport ’77 – 1977)

“Aeroporto”, dirigido por George Seaton em 1970, adaptado do
popular livro de Arthur Hailey, inaugurou a era mais celebrada dos filmes de
desastre, com sua estrutura narrativa que remetia ao clássico “Grande Hotel”,
de Edmund Goulding. O elenco refinado e de relevância internacional, Burt
Lancaster, Dean Martin, Van Heflin, George Kennedy, Jean Seberg e Jacqueline
Bisset, o tema de amor composto por Alfred Newman e que virou sucesso na versão
de Vincent Bell, além da utilização ousada da tela dividida, garantiram o
interesse do público, o filme foi um tremendo sucesso nas bilheterias, apesar
de ser chato como poucos, elegante e bem produzido, mas interminável. Três filmes foram feitos inspirados livremente
no conceito, artistas respeitados que representavam diferentes gêneros e épocas
inseridos em uma situação de grave perigo. Sem ligação direta com o original,
com exceção da participação de George Kennedy, os roteiros enfocavam no melodrama
folhetinesco, com alívios cômicos rasos e uma satisfatória construção de
suspense.

“Aeroporto 75”, “Aeroporto 77” e “Aeroporto 80 – O Concorde”, apesar
de abordarem tragédias aéreas, são, de fato, ferramentas de marketing positivo
para os aviões em destaque, já que os problemas nunca são causados por falha
técnica, as máquinas são tão avançadas tecnologicamente que até mesmo uma aeromoça
sem experiência pode tomar o lugar do piloto e dar conta do recado. A quarta
produção é lastimável, nem mesmo a presença da maravilhosa Sylvia Kristel,
eterna “Emmanuelle”, consegue fazer a experiência ser menos constrangedora. Mas
eu nutro carinho especial por “Aeroporto 75” e “Aeroporto 77”, ainda que
estejam longe de ser considerados bons. A trilha sonora de John Cacavas,
especialmente em 75, pode ser considerada uma das melhores da década. Os
pilotos, Charlton Heston (75) e Jack Lemmon (77), dignidade e credibilidade
indiscutíveis, você realmente acredita que eles seriam capazes de salvar o dia.
O cinema de horror é representado em 77 por Christopher Lee, o Drácula da
Hammer, e em 75 pela figura adorável da jovem Linda Blair, que agora, já livre
da possessão demoníaca, faz amizade com uma freira cantora e passa o tempo
inteiro deitada em uma cama. Gloria Swanson (75), James Stewart (77), Myrna Loy
(75), Joseph Cotten (77) e Olivia de Havilland (77) representam a justa
reverência à época de ouro da indústria, uma noção de respeito à memória
cultural que infelizmente se perdeu em Hollywood.

“Aeroporto 75” não foi pensado como uma espécie de
releitura, a ideia original do roteirista Don Ingalls, nome respeitado na
televisão, envolvia um típico projeto imediatista despretensioso para a tela
pequena, mas o produtor da Universal ficou empolgado com a possibilidade de
lucro certo ao revisitar o sucesso do início da década. O roteiro insere a
figura descaracterizada do personagem de George Kennedy como tentativa
desesperada de estabelecer alguma ligação. A direção ficou sob a responsabilidade
de Jack Smight, nome sem créditos relevantes, que obviamente se divertiu muito com
o material, o tom é assumidamente debochado. Não por acaso, 75 foi o escolhido
pelos irmãos Zucker como base para as gags mais hilárias do espetacular “Apertem
os Cintos… o Piloto Sumiu! ”. Karen Black abraça com muita dignidade o papel
da pessoa comum que enfrenta uma situação absurda. Ao contrário do original, o
interesse do roteiro está no exótico material humano dentro do avião, pouca
atenção é dedicada aos profissionais em terra, elemento que facilita o
investimento emocional do espectador. A sequência em que o piloto substituto é
transferido, preso em um cabo de aço, do helicóptero para o avião, entrando
pelo buraco na fuselagem, apesar de todos os truques visuais datados, segue
eficiente. Produzido ao mesmo tempo que seu primo rico: “Terremoto”, dividindo
boa parte da equipe técnica e elenco, “Aeroporto 75” vence com folga no cruel teste
do tempo.

“Aeroporto 77” é pura picaretagem, adorável, maravilhosa picaretagem. “O Destino de Poseidon”, que considero o melhor filme catástrofe de todos os tempos, havia elevado os padrões em 1972, enchendo os cofres da FOX, mostrando a luta por sobrevivência em um transatlântico que vira de cabeça para baixo após ser atingido por uma onda. Por que não investir em uma trama em que um Boeing 747 atravessa o Triângulo das Bermudas e afunda no oceano? Unir o medo de voar com o medo de morrer afogado. Há um pouco da mística que envolve o local e, claro, a possibilidade de criar angustiantes sequências submarinas. Os roteiristas Michael Scheff e David Spector aceitaram o desafio e operaram um considerável milagre. A trama é muito mais absurda que a de 75, mas o tom não é de deboche, o trunfo do filme é se levar a sério, com a ajuda importante da interpretação sóbria e respeitável do sempre competente Jack Lemmon.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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