Seja a vela que ilumina a escuridão

Algumas semanas atrás, uma nova leitora me pediu ajuda e eu
gentilmente recusei. Ela havia se posicionado publicamente sobre a óbvia baixa
qualidade musical de um popular artista nacional e estava recebendo ataques de
alguém que a chamava de homofóbica. Sem pensar duas vezes, eu pedi que ela
dedicasse alguns minutos de atenção às postagens em meu perfil.
Ela não entendeu muito bem de início esta atitude, por
conseguinte, deve ter considerado que era preguiça deste jovem escriba, afinal,
ela havia acabado de conhecer meu trabalho. Com carinho, expliquei que eu
jamais desperdiçava precioso tempo com temas irrelevantes, já que haverá sempre
espaço generoso na sociedade para o que é grotesco, falso, sensacionalista, mas
cada indivíduo, de qualquer classe social, raça e credo, tem a escolha de se
entregar na busca pelo autoaprimoramento intelectual constante, ou somar na
incomensurável fila dos medíocres e preguiçosos. Ela tem a opção de entrar no
tolo jogo imediatista de um ídolo de barro, ou utilizar o mesmo tempo em algo
culturalmente mais enriquecedor. A leitora entendeu o meu ponto de vista e
agradeceu o conselho.

Hoje, poucos dias antes do final deste intenso ano, creio
ser importante esta reflexão, não apenas nas redes sociais, mas também no
cotidiano. A mudança de atitude é a fagulha que, em longo prazo, pode modificar
uma nação. Acima de tudo, honre o “sapiens” que sucede o
“homo”. Seja a vela que ilumina a escuridão.

“Star Wars: Episódio 8 – Os Últimos Jedi”, de Rian Johnson

Star Wars: Episódio 8 – Os Últimos Jedi (Star Wars: Episode 8 – The Last Jedi – 2017)
Há algo claramente diferente na forma como esta nova
trilogia está sendo produzida, não são mais apenas divertidos folhetins espaciais
pensados para vender brinquedos nas épocas festivas, agora também abraçam sem
rodeios as simbologias, os arquétipos, a mitificação da obra na cultura popular
mundial com o objetivo principal de estabelecer um império lucrativo em longo
prazo no maior e melhor parque de diversões, em suma, por trás de todas as
intenções nobres, o interesse está nas filas que se formarão nas próximas
décadas na Disneyland. A preguiça criativa de “O Despertar da Força” me
preocupava, como fã de “Star Wars”, porque evidenciava nitidamente este
redirecionamento comportado que desesperadamente evitava qualquer risco. A
produtora Kathleen Kennedy, extremamente inteligente, optou por caminho mais
esperto nesta segunda aventura. Ao entregar a responsabilidade do roteiro e
direção a um competente cineasta autoral, Rian Johnson, dos excelentes “A Ponta
de Um Crime” e “Looper: Assassinos do Futuro”, o filme encontra uma forma elegante
de entregar algo novo e, ainda assim, manter operante a linha de conduta da
empresa.
A máquina está bem azeitada, o humor funciona como um
relógio suíço, tudo está em seu lugar, não há como negar que estamos diante de
um produto tecnicamente perfeito. Mas e o coração? Se retirarmos da equação o
investimento emocional nos personagens clássicos criados por George Lucas, o
que sobra simplesmente não se sustenta narrativamente. Analise, por mais fofo
que seja o BB-8, essencialmente não passa de uma cópia mais infantilizada do
R2-D2, cumprindo a mesma função. Finn, Rey, Poe, Kylo, Rose, Snoke, Maz, nomes
simples pensados para a fácil memorização do público infantil, mas que não
sobrevivem fora da órbita de Luke, Leia, Han, Yoda, Chewbacca, entre outros. O
próprio desejo coletivo dos fãs de teorizar sobre a origem destes novos nomes,
buscando parentesco com os antigos, prova que, por trás do marketing poderoso e
dos discursos de representatividade comercialmente atraentes, ainda são vazios.
Tome como exemplo dois personagens inseridos nesta nova produção, Vice-Almirante
Holdo (Laura Dern) e DJ (Benicio Del Toro). Eles cumprem suas funções, mas são
duas incógnitas esteticamente interessantes, o desenvolvimento de suas
personalidades é muito mais teórico que prático. Até mesmo a trilha sonora de
John Williams reflete este problema estrutural, pela primeira vez na franquia não
há sequer um tema novo que se destaque, todos os momentos emocionantes evocam
temas antigos.
Dito isto, eu vou agora apontar os preciosos pontos
positivos da obra, algo que é impossível fazer sem spoilers, já que estão intrinsecamente
conectados às decisões que o roteiro toma após o primeiro ato.
(O parágrafo seguinte irá revelar partes importantes da
trama, então sugiro que leia após a sessão)
Outrora, “Star Wars” era uma história sobre a família
Skywalker, com o jovem Luke (Mark Hamill) sendo o avatar do seu criador George Walton
Lucas Jr., o menino da fazenda de noz em Modesto que sonhava grande. Hoje, toda
criança do mundo quer ser Jedi, quer ser especial e viver este sonho. A Disney
então decide avançar gradativamente neste terreno fértil, “Os Últimos Jedi” vê
germinar as sementes plantadas no esforço anterior. O despertar da Força em Rey
(Daisy Ridley) não se explica por herança genética, a jovem descobre ser de origem
comum, sem sangue azul, uma pobre coitada que foi vendida por seus pais na
infância. O menino escravo da cidade cassino Canto Bight, assim como o pequeno
Anakin de “A Ameaça Fantasma”, também demonstra estar conectado com a Força no belíssimo
desfecho. A mensagem é óbvia, as possibilidades agora são infinitas para a
franquia. A fagulha de esperança reavivada pela lenda dos Skywalkers injetou na
galáxia a coragem de enfrentar o mal em todas as suas interpretações, inclusive
com a corajosa adição dos tons de cinza, afastando a saga de suas raízes puramente
fantasiosas e tocando a área da crítica política da era Trump. Como a subtrama que
acompanha Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran) mostra, o herói vende
arma para o inimigo, a corrupção atinge todos os níveis de poder, nada é seguro,
nenhuma vitória é desprovida de dor e culpa. A resposta está na compreensão de
que o importante é a essência, não os rituais, não os dogmas, o ensinamento de
Yoda (Frank Oz) ao literalmente queimar os alicerces da religião Jedi é valioso,
especialmente nos tempos sombrios em que vivemos, com o perigoso fundamentalismo
ganhando cada vez mais espaço no mundo. Kylo/Ben (Adam Driver) é o típico
fundamentalista religioso que projeta suas frustrações em frágeis ambições
espirituais, uma espécie de Coronel Kurtz (de “Apocalypse Now”) afundado no
abismo de seus próprios delírios de grandeza. Seguindo a analogia, vale
destacar que nas artes conceituais do filme, o personagem aparece careca. Ao enfrentar
seus medos na caverna, Rey enxerga seu próprio rosto, ela aprende que a solução
não reside no outro, o futuro será traçado por suas próprias atitudes, logo, a
responsabilidade é dela. Quando pensamos que o público-alvo do filme é infanto-juvenil,
o valor desta mensagem se torna ainda mais relevante. Ao final, o sacrifício dos heróis alimenta a brasa da revolta nos olhos do menino escravo, outrora incapaz de se imaginar como elemento importante na sua realidade, a faísca de esperança simbolizada pelos sonhos de aventuras espaciais despertados pela mitologia Jedi, a força interna que o fará atravessar qualquer situação difícil com integridade. Quando o simplório cabo de vassoura se transforma na sua imaginação em um poderoso sabre de luz, o roteiro estabelece que não há Império ou Primeira Ordem capaz de superar a nobreza daqueles que ousam encarar seus desafios sem subterfúgios. 
(Fim dos spoilers)

É importante ressaltar o carinho com que o roteiro trabalha
a personagem da saudosa Carrie Fisher, a General Leia protagoniza uma das cenas
mais bonitas de toda a franquia, arrepiante em sua execução. Seu irmão, Luke, é
responsável por algumas das cenas mais impactantes do filme, material que não
vai sair tão cedo da mente dos fãs. Quando eles não estão em cena, o motor
segue funcionando, mas nada soa natural, todos os movimentos são friamente
calculados. “Os Últimos Jedi” é um filme emocionalmente eficiente, pode ser colocado facilmente entre os três melhores da franquia, mas é fundamental enxergar a fragilidade na estrutura. Se haverá futuro para “Star Wars”, vai depender de como os roteiristas irão se esforçar para dar relevância ao contexto deste universo pós-Retorno de Jedi e, principalmente, agregar camadas no desenvolvimento dos personagens novos. 

TOP – 2017


1 – Mãe! (mother!), de Darren Aronofsky
“… O símbolo do criador sendo representado como poeta escritor
é muito eficiente, criação artística e divina, há uma camada de interpretação
menos alegórica que permite identificar a trama como um tratado sobre as
dificuldades do processo criativo e o desejo narcisístico de ser reconhecido
pelo trabalho. O bebê que é entregue à massa de adoradores, o livro que
finalmente vai ser lido por outrem, o esforço do autor e o abandono do material
que agora será adotado por cada leitor. Mas o viés religioso é muito mais
instigante. O bebê Jesus, os seus ensinamentos, desvirtuados por vários
interesses baixos, o pastor que fala em nome do criador e faz fortuna vendendo
sua imagem. O mesmo povo que mata o bebê por negligência, no torpor da adoração
excessiva, divide ele em pedaços e ingere sua carne em ritual, a celebração da
falsa aparência, enquanto praticam o oposto do que ele pregou, destruindo a
casa em sua ruidosa passagem, literalmente estuprando a mãe Terra. A personagem
vivida por Kristen Wiig, a editora/apóstola, está pronta para utilizar os
escritos do autor e lucrar em seu nome, uma organização que busca apenas
conquistar o poder e manter-se relevante, injetando culpa, medo e penitência
como elementos de controle social e político. E, num gesto de incrível coragem,
Aronofsky mostra ela no terceiro ato sendo a fria líder armada em uma chacina, as
guerras santas, o dedo que aperta o gatilho, ou se omite quando é conveniente. Uma
obra questionadora, que desafia o público e estabelece tensão na medida certa
para satisfazer até mesmo aqueles interessados apenas no elemento do
entretenimento. Ao ousar novamente em um produto mainstream, o diretor prova
que ainda há vida inteligente na indústria…”

2 – A Criada (Ah-ga-ssi), de Chan-wook Park
“… Adaptando com liberdade poética o livro Fingersmith, de Sarah Waters, o diretor sul-coreano Chan-wook Park demonstra tremendo refinamento estético e implacável ousadia, além de perfeito senso de suspense, sem receio de abraçar o erotismo da obra. Uma experiência que deve ser apreciada com o mínimo conhecimento sobre sua trama…”

3 – O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre), de Gastón Duprat e Mariano Cohn
“… Mas há um elemento que compensou todos os absurdos vividos
por ele, uma réstia de luz que brotou de onde menos se esperava, o jovem
atendente do hotel, educado, de fala mansa, que, com toda delicadeza, ofereceu
seus despretensiosos escritos para a avaliação do visitante. Naquela cortês
figura que os clientes arrogantes nunca valorizam reside a matéria nobre que
jamais será reconhecida naquela cidade, o sonho profissional que nunca será
estimulado, a força de espírito que será pisada até se tornar uma lembrança
melancólica em uma rotina frustrante, o reflexo no espelho do veterano, a mão
estendida que implora por ajuda em uma massa de zumbis. E o homem, esgotado e
pronto para abandonar novamente aquele esgoto a céu aberto, dedica então
preciosos minutos para oferecer ao garoto o melhor presente de sua vida:
esperança. Se ele conseguir salvar pelo menos um indivíduo valoroso, a viagem
terá valido a pena…”

4 – Clash (Eshtebak), de Mohamed Diab
“… O diretor egípcio do excelente Cairo 678 retorna em grande estilo, mais maduro e seguro em seu ofício. Nunca um espaço cênico tão reduzido serviu para explorar tantas questões sociopolíticas fundamentais. É uma aula de cinema, com baixo orçamento e um ritmo vertiginoso. Filme de gente grande para gente grande…”

5 – Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight), de Barry Jenkins
“… Acordar sabendo que a sociedade o rejeita de diversas
formas, excluído por ser pobre e negro, agredido na escola por ser
introvertido, internamente incapaz de compreender sua homossexualidade,
obrigado a medir cada gesto, silenciar impulsos, sem poder contar com a
estabilidade emocional de uma mãe (Naomie Harris) entregue ao vício em crack,
esse é o cotidiano do pequeno Chiron. A sua única figura paterna, um traficante
de drogas que o encontra arredio, fugindo do ataque de seus colegas, alguém que
enxerga nos olhos da criança a pureza que outrora guiava suas ações, antes do
mundo o bestializar. O homem, vivido impecavelmente por Mahershala Ali, tem
consciência de que faz parte da engrenagem que está destruindo o garoto, a
culpa o humaniza, evitando inteligentemente o estereótipo…”


6 – Corra! (Get Out), de Jordan Peele
“… Ao perceber o carro de polícia se aproximando na cena do
crime, o rapaz negro, apesar de estar consciente de sua inocência, levanta os
braços aguardando a injustiça do sistema. O ato de viver em alerta constante, o
medo de se permitir confiar em alguém, Jordan Peele, roteirista/diretor em sua
obra de estreia, impressiona pela segurança com que trabalha os elementos
tradicionais do gênero terror, focando nessas questões sem ser panfletário,
equilibrando com desenvoltura na equação os alívios cômicos…”
7 – Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake), de Ken Loach
“… O relacionamento de amizade formado entre Daniel, Katie e
seus filhos, elemento que brota naturalmente a partir de um simples gesto de
carinho dele com a jovem, um olhar atento quando todos fingiam não perceber sua
presença, proporciona momentos de linda delicadeza e refinado simbolismo, como
a estante feita à mão na esperança de que suporte no futuro o peso dos livros
acadêmicos da amiga, a salvação pela cultura…”

8 – La La Land: Cantando Estações (La La Land), de Damien Chazelle
“… A cena inicial sintetiza uma das propostas do filme, a
proposta mais óbvia, a celebração do gênero musical, a importância de se
apreciar a beleza de suas convenções. O ato antinatural de contar uma história
utilizando o canto e a dança, a reclamação mais comum dentre os detratores de
musicais, apenas agrega mais possibilidades criativas. É preciso ter
sensibilidade. A sociedade está cada vez mais insensível, impaciente e
intolerante, mas a música está sempre presente, de alguma forma, até mesmo no
alarme de mensagens do celular. Ao optar por dar o tom da trama mostrando
vários motoristas entretidos musicalmente, enquanto aguardam o trânsito fluir,
Damien Chazelle evidencia a onipresença melódica que é capaz de nos conduzir
para a infância, ou ajuda a relembrar amores perdidos e marca momentos
especiais, nos faz rir e chorar, em suma, enverniza a vida com a matéria de que
são feitos os sonhos…”

9 – Doentes de Amor (The Big Sick), de Michael Showalter
“… O choque de culturas já seria interessante o suficiente, a
angústia do rapaz que é guiado pelos pais egoístas à uma escolha profissional
indesejada e encontros românticos arranjados em que o amor é o elemento menos
importante na equação. Se ele demonstrar interesse em uma garota que não seja
de sua cultura, a família se sente envergonhada e rompe a relação de afeto com
o filho. É a tradição de seu país, assim como a oração diária que ele finge
fazer enquanto checa os vídeos engraçados na internet, um cabresto
social/religioso que pode ter profunda relevância para seus pais e irmãos, mas
que não significa absolutamente nada em sua vida. A forma como o texto orgânico
trabalha a questão, aliada à entrega incrivelmente natural do elenco, faz com
que em poucos minutos o espectador esteja conectado emocionalmente aos
personagens, o que é essencial para a eficiência narrativa do ponto de virada,
quando o fator da imprevisibilidade conduz a trama além das convenções usuais
do gênero da comédia romântica…”

10 – Frantz, de François Ozon
“… Quando é revelado o real motivo que levou Adrien a visitar a
lápide de Frantz, o filme ganha contornos poéticos, revelando-se um bonito
conto sobre o poder do perdão e da mentira como forma de arte. Os pais de
Frantz sorriem mantidos na ignorância plena, Anna enfrenta seu medo e revela
seu sentimento, algo tão forte que sequer a rejeição enfraquece, muito pelo
contrário, no delicado desfecho, consciente do efeito curador da mentira
contada por Adrien, com a fotografia colorida ressaltando o futuro promissor
que se revela no horizonte, livre da culpa, a jovem agradece à pintura por
mantê-la viva…”

“Armadilha Amorosa”, de Charles Walters

Armadilha Amorosa (The Tender Trap – 1955)
Charlie Reader (Frank Sinatra), agente de Manhattan, vive
cercado de belas e esperançosas jovens. Um dia durante uma sessão de testes,
ele conhece Julie Gillis (Debbie Reynolds), aspirante a atriz e doida para
arranjar um marido. Logo estão saindo juntos, mas ela diz que só se casará com
ele depois que ele se livrar das outras garotas. Charlie, que ainda não falara
nada sobre casamento e se preparava para deixá-la, fica tão surpreso com o
ultimato que acaba se apaixonando de verdade por ela. Mas as coisas se
complicam quando Charlie recebe a visita de Joe (David Wayne), um velho amigo
que quer dar um tempo em seu casamento e está com um antigo namorico de
Charlie, a elegante violinista Silvia (Celeste Holm).

Lançado no mesmo ano que “O Homem do Braço de Ouro”,
superestimado dramalhão em que Sinatra vive um viciado em heroína, o singelo e
agradável “Armadilha Amorosa” usualmente é eclipsado, eu considero um dos melhores
momentos do cantor no cinema. Ele provou que conseguia segurar papeis
dramaticamente desafiadores, como no espetacular “Meu Ofício é Matar”, e não faria
feio anos depois como diretor em “Os Bravos Morrem Lutando”, mas é nas
produções leves, nos musicais e comédias românticas, que ele se mostrava mais
confortável. Dirigido pelo competente Charles Walters, dos excelentes “Desfile
de Páscoa”, “Ciúme, Sinal de Amor”, “Lili”, “Casa, Comida e Carinho” e “Alta
Sociedade”, com roteiro adaptado da peça de Max Shulman e Robert Paul Smith, o
filme ganha pontos com o carisma encantador de Debbie Reynolds e
Celeste Holm. Mas a estrela mesmo é a bela canção-título: “(Love is) The Tender Trap”,
composta por Jimmy Van Heusen e Sammy Cahn, que dá o tom teatral da trama já nos
créditos iniciais e, especialmente, no desfecho. 
É o tipo de escapismo que a
sociedade norte-americana precisava naquele período, o personagem de Sinatra,
um mulherengo bon vivant, representa a força que se recusa a se moldar aos
padrões. O roteiro então eleva o nível no terceiro ato, ao desconstruir a persona do solteirão inconsequente. Vale destacar que este era o papel favorito do cantor.




* O filme está sendo lançado em DVD, com opção de dublagem em português, pela distribuidora “Studio Classic Filmes”.

“Braço de Diamante”, de Leonid Gayday


Braço de Diamante (Brilliantovaya Ruka – 1968)
O cidadão soviético Semyon Gorbunkov sai a passeio num
cruzeiro marítimo. Em seu retorno, acaba levando à URSS joias escondidas por
engano no gesso colocado em torno de seu braço esquerdo depois de uma queda em
Istambul. Enquanto os contrabandistas realizam várias tentativas para recuperar
as pedras preciosas, um capitão da polícia russa usa Gorbunkov como isca para
pegar os criminosos.
A ideia é um misto de sátira dos filmes de James Bond, que
gozavam de extrema popularidade na época, com uma debochada visão sobre o modo
de vida dos soviéticos, mas o que verdadeiramente se destaca é a forma como o
roteiro libertário subverte as convenções cinematográficas desde os créditos iniciais,
que prometem prólogo, divisão em partes e epílogo, uma pretensão épica que já é
quebrada logo na primeira sequência. Não há prólogo, não há epílogo e a segunda
parte é anunciada após um intervalo poucos minutos antes do fim. É compreensível
a fama da obra em alguns países, apesar de ser desconhecida no Brasil, não é
uma comédia simplória, abraça variadas vertentes, do pastelão ao humor mais
refinado usualmente encontrado nas produções inglesas. A dupla Yuriy Nikulin
(que era palhaço de circo) e Andrey Mironov esbanja carisma, especialmente no
agitado e superior terceiro ato.

O roteirista/diretor Leonid Gayday tem umas sacadas
brilhantes, como a cena do jovem que “caminha sobre a água”. Ele admirava
Chaplin, logo, fica clara a inspiração em diversos momentos que utilizam com
inteligência o silêncio. Nem todas as piadas atravessam a fronteira, o texto não
é pensado para entreter o público estrangeiro, mas, ainda assim, o resultado é
acima da média e, mais importante, segue eficiente nos dias de hoje.  Excelente resgate da distribuidora “CPC-Umes
Filmes”.





* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “CPC-Umes Filmes”.

“Como se Tornar o Pior Aluno da Escola”, de Fabrício Bittar

Como se Tornar o Pior Aluno da Escola (2017)
O roteiro escrito por André Catarinacho e Danilo Gentili é bom
no gênero, as piadas funcionam, a montagem é esperta e entende o público-alvo, mas
há algo que incomoda e prejudica o resultado, o problema não é raro no cinema
nacional, a atuação do elenco não está afinada no mesmo diapasão, existem personagens
que se mostram mais caricatos, outros adotam tom mais natural, além de alguns
que simplesmente não atuam bem, o que acaba formando um conjunto irregular que
distrai a atenção do espectador em algumas sequências. Com esta ressalva, vale
destacar a importância da nossa indústria abraçar vertentes diferentes dentro
da comédia, a (extrema) ousadia temática politicamente incorreta de “Como se
Tornar o Pior Aluno da Escola”, especialmente nos dias de hoje, deve ser
aplaudida. Arte é escapismo, aqueles que criticam, por exemplo, a celebração do
bullying no filme, com o perdão da expressão, são apenas imbecis. E digo isto
como alguém que sofreu na infância e adolescência com violência física e
psicológica e escreveu um livro abordando o assunto.
A trama capta com exatidão a essência nonsense e debochada do
cinema adolescente dos anos oitenta, aquela época maravilhosa em que o
estudante chegava em casa, jogava a mochila no sofá e ligava a televisão para
ver “Primavera na Pele”, ou “Férias do Barulho” no vespertino “Cinema em Casa”
do SBT. Exatamente por este motivo é tão agradável reencontrar o eterno Quico
de “Chaves”, Carlos Villagrán, vivendo o diretor da escola. Eu destaco também a
presença sempre competente de Moacyr Franco, mestre do minimalismo brilhante,
vivendo um faxineiro rebelde. Ótima ideia trazer de volta Joana Fomm, grande
atriz que merecia ter tido participação mais expressiva na tela grande em sua
carreira. E também é curioso ver Rogério Skylab, músico exótico especialista em
subverter e chocar, vivendo um professor de História relativamente sisudo e
cleptomaníaco, boa sacada. Os jovens protagonistas, Bruno Munhoz e Daniel
Pimentel, apesar de não terem experiência na área, transmitem segurança e ótimo
senso de timing cômico. Danilo Gentili não é ator, mas utiliza sua experiência como
comediante nos palcos para injetar generosa dose de carisma ao viver uma
espécie de versão adulta e mais cínica do Ferris Bueller, de “Curtindo a Vida
Adoidado”, desencantado com a vida e que se torna o mentor da dupla.

Um aspecto interessante que engrandece a obra é propor a
discussão sobre o conceito equivocado que escraviza o indivíduo, desde muito
novo, ao reducionismo existencial que busca notas altas e incentiva um comportamento
padronizado. Se você não se sente confortável no molde, logo, você é excluído. Um
sistema educacional que valoriza a memorização, ao invés do real aprendizado. Na
sequência em que o personagem de Gentili ensina que o certo é rasgar livros, a
professora está indicando a leitura de “Iracema”, clássico de José de Alencar.
A crítica é certeira, não há nada pior que inserir (com o acréscimo terrível da
obrigação) no currículo escolar de pré-adolescentes tomos pensados para leitores
adultos. Não é a maneira mais inteligente de incentivar o hábito precioso da
leitura. 
A reflexão é fundamental, vivemos em um país com índices vergonhosamente
baixos em educação. Talvez ser o “pior aluno” em um sistema inegavelmente falido
pode representar alguns passos na direção certa.  

“Extraordinário”, de Stephen Chbosky

Extraordinário (Wonder – 2017)
O livro original, escrito pela R.J. Palacio, pode ser lido
em uma madrugada, linguagem fácil e acessível, capítulos curtos, estrutura
simples e muitos diálogos, mas muito rico em sua mensagem, encantador da
primeira à última página. É fascinante a forma como o roteiro se mantém fiel à
essência infanto-juvenil da obra, sem resvalar no melodrama piegas que o tema sugere,
transpondo com inteligência e muita sensibilidade as agruras diárias do pequeno
Auggie, vivido pelo impecável Jacob Tremblay, que nasceu com síndrome de
Treacher Collins, um distúrbio do desenvolvimento craniofacial que o faz querer
se esconder do mundo.
Os seus pais, vividos por Julia Roberts e Owen Wilson, temem
que ele seja rejeitado em seu primeiro contato com outras crianças na escola. Vale ressaltar uma breve e comovente cena protagonizada por
Sonia Braga, simbolizando a lembrança querida da avó falecida, os valores que
prepararam a família para suportar qualquer desafio. É
linda a relação entre ele e sua irmã adolescente, excelente atuação de Izabela
Vidovic, o jeito como ela consegue sintetizar carinho profundo e preocupação em
um olhar, sendo beneficiada pelo texto que proporciona uma construção tridimensional
de sua personalidade, evidenciando a angústia que ela precisa vencer
constantemente por ter consciência de que a existência do menino forçou os pais
a deixarem, por vezes, as suas necessidades emocionais de lado. Há espaço até para
uma esperta rima mostrando a famosa cena de “Dirty Dancing” na televisão, com
Patrick Swayze dizendo que “ninguém coloca a Baby de lado”. As referências da
cultura pop, algo intrínseco no livro, como o amor do protagonista pela saga “Star
Wars”, são trabalhadas com extrema eficiência. Sem reinventar a roda, o filme
poeticamente insere o elemento poderoso da arte como instrumento de inspiração.
Há uma corrente tola na crítica que enxerga problema na
história que objetiva primordialmente as lágrimas dos espectadores, ignorando
que é muito mais difícil tocar os corações do público, não é uma equação fácil,
qualquer diretor consegue criar algo que incite indiferença, poucos nos
comovem. Eu me recordo claramente de quando vi pela primeira vez “Marcas do
Destino” (Mask – 1985), ainda na infância, como aquela imagem do jovem que
sofria de displasia craniodiafisária me perturbou a princípio, até que a emoção
superou qualquer estranheza, eu amadureci ao final da sessão. São filmes
fundamentais que os pais devem mostrar aos filhos pequenos. O que motivou a
autora de “Extraordinário” foi testemunhar a reação de uma menina na rua à
passagem de uma criança com uma deformação facial, ela decidiu fazer algo a
respeito objetivando jovens leitores, aqueles que efetivamente podem modificar
algo na sociedade em longo prazo. Grande parte das vezes, a crueldade que vemos
nas crianças nasce dos adultos, seres que dificilmente modificam diante da
percepção do erro. O roteiro aponta isto em uma forte cena, os pais de um aluno
que pratica o bullying em Auggie dão um espetáculo de arrogância e estupidez na
sala do diretor da escola, intolerantes e preconceituosos, avalizam desavergonhadamente
as atitudes do garoto.

O diretor Stephen Chobsky, do ótimo “As Vantagens de ser
Invisível”, equilibra muito bem os diferentes pontos de vista narrativos,
conceito existente no livro, dedicando tempo generoso ao desenvolvimento de
personagens periféricos e, principalmente, reforçando o impacto transformador da
presença do menino em suas vidas, a força suave e terna que, ao corajosamente resistir
às provocações, ensina a todos o valor inestimável da gentileza. 

“Perfume de Mulher”, de Dino Risi

Perfume de Mulher (Profumo di Donna – 1974)

O capitão Fausto perdeu a visão e uma das mãos num acidente
com uma granada, tornando-se um homem amargurado e cínico. Sua tia contrata
Giovanni, o jovem recruta de uma escola militar, para escoltar o cego em uma
viagem pela Itália, de Turim a Nápoles. Sem que o rapaz saiba, o velho capitão
tem planos secretos para o final da viagem.


A refilmagem norte-americana protagonizada por Al Pacino entrega
diversas sequências memoráveis, como aquela emoldurada pelo clássico tango de Gardel:
“Por una cabeza”, interlúdio musical pleno em simbolismo que não existe no original, ou a defesa apaixonada dos valores éticos do jovem para o
comitê de disciplina da universidade, uma subtrama bonita que também não existe no
homônimo italiano, mas sofre com graves problemas de ritmo em sua longa duração, além de
optar por um frágil final feliz convencional. Gosto muito de um filme
subestimado na carreira de Dino Risi, “Operazione San Gennaro”, hilária farsa
nos moldes do “Os Eternos Desconhecidos”, de Monicelli. “Aquele que Sabe Viver”, com roteiro co-escrito por Ettore Scola, outra pérola descompromissada, segue eficiente nos dias de hoje. Quando o
diretor tentava se levar mais a sério, como em “Perfume de Mulher”, o resultado
era irregular. 
Adaptado do ótimo livro “A Escuridão e o Mel”, lançado em 1969 por Giovanni Arpino, que está fora de catálogo no Brasil, mas pode ser encontrado em sebos, o roteiro de Ruggero Maccari apresenta um protagonista cego e maneta que adota o rígido código de conduta militar como instrumento de defesa existencial, mascarando sua fragilidade psicológica com rompantes constantes de grosseria. Vittorio Gassman, que recebeu o prêmio de Melhor Ator em Cannes por este papel, injeta humanidade e insinua por trás da empáfia teatralizada a patética submissão ao vício do álcool, em suma, ele abusa emocionalmente de todos à sua volta, exatamente por ter consciência de que é o mais miserável e vulnerável. A bela Sara, vivida por Agostina Belli, cortejada pela fotografia elegante e melancólica de Claudio Cirillo, a única jovem que guarda na lembrança o homem seguro que ele outrora foi, sonha diariamente ser correspondida em seu sentimento. Ao abandonar o estereótipo machista, ele vence a amargura e se aceita em sua atual condição, logo, consegue se libertar do medo. Ele, enfim, aceita a ajuda da mulher amada para caminhar na escuridão. A cegueira fez com que ele aprendesse a enxergar a realidade. O personagem só se torna, de fato, um homem, quando abandona a patética fachada de “macho” determinada pela sociedade. 

“Rabo de Foguete”, de Norman Taurog

Rabo de Foguete (Visit to a Small Planet – 1960)
Jerry Lewis é o alienígena Kreton, um ET atrapalhado e
curioso por descobrir como é a vida na Terra. Sai escondido de seu planeta e aterrissa
no quintal de um famoso jornalista de TV que não acredita em extraterrestres.
Kreton deseja fazer um estudo dos humanos e se apaixona pela filha (Joan
Blackman) do jornalista, mas sua incapacidade provoca uma série de confusões e
coloca a vida do jornalista de cabeça para baixo.

No mesmo ano, Jerry Lewis lançaria seu primeiro projeto como
diretor, “O Mensageiro Trapalhão”, ele ainda estava dando os primeiros passos
criativos sem Dean Martin, com quem já havia feito várias comédias dirigidas
pelo competente Norman Taurog, como “Sofrendo da Bola”, “O Meninão” e a
excelente “O Biruta e o Folgado”. No ano anterior, ele comandou “A Canoa Furou”,
fraca tentativa solo de Lewis, mas foi com “Rabo de Foguete”, adaptada de uma
peça de Gore Vidal que utilizava o tema da ufologia para criticar o pavor midiático
da ameaça vermelha pós-Segunda Guerra, que os dois acertaram na ousadia
temática. É claro que todo o contexto crítico foi incrivelmente amenizado no
cinema. No ano seguinte, Taurog iniciaria uma longa e produtiva parceria cinematográfica
com Elvis Presley. Vidal detestou a escolha de Lewis para protagonizar o
trabalho defendido pelo elogiado ator Cyril Ritchard na Broadway, papel que deu
a ele uma indicação ao prêmio Tony. O caso é que o comediante extremamente
popular era sinônimo de lucro alto nas bilheterias, o estúdio não pensou duas
vezes. 
O histrionismo de Lewis funciona especialmente pelo contraste que se
estabelece com o personagem do jornalista, vivido por Fred Clark, equilíbrio
raramente alcançado e que potencializa o efeito cômico de várias sequências. A
trucagem visual de Fred Astaire em “Núpcias Reais”, lançado nove anos antes,
pode ser vista aqui, com Lewis andando pelas paredes da sala. Outro momento fantástico
ocorre na pista de dança, com o alienígena camarada demonstrando dificuldade em
compreender e acompanhar os passos da jovem terráquea símbolo da geração Beatnik. Um dos trabalhos mais curiosos do saudoso Lewis, para ver e rever.


* O filme está sendo lançado em DVD pela distribuidora “Classicline”, com opção de dublagem em português.

“A Hora do Pesadelo”, de Wes Craven


A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street – 1984)
O criador do assustador conceito foi o diretor Wes Craven,
que buscou inspiração em casos de homens saudáveis no Camboja que morreram
durante o sono após reclamarem de pesadelos horríveis. Algo que causou uma histeria coletiva na década de setenta, com pessoas que evitavam dormir temendo encontrar
o mesmo fim. As filmagens duraram cerca de trinta dias, com um elenco formado
por jovens desconhecidos, incluindo Johnny Depp, em seu primeiro trabalho.
A origem de Freddy Krueger e sua doentia personalidade foram
sendo construídas ao longo da franquia, especialmente nos capítulos
roteirizados por Craven (o primeiro, o terceiro e o sétimo). O conceito de um
vilão que utiliza os sonhos para atacar suas vítimas, além de criativamente
libertário, também é imageticamente estimulante. O maior mérito, como ficou
provado na fraca refilmagem, é do ator Robert Englund, que por trás de toda a
maquiagem pesada, consegue em sua maneira de andar ou na sutileza de um simples
inclinar de cabeça, transmitir a essência do personagem (ele se inspirou no
“Nosferatu” de Klaus Kinski). Krueger é um molestador, assassino de
crianças que vive na Rua Elm. Após uma década de crimes e uma pequena estadia
na prisão, volta para as ruas e é vítima do ódio dos pais das crianças, que o
seguem até seu esconderijo e ateiam fogo no local. Agora, deformado e muito
mais poderoso, invade os sonhos da nova geração, na tentativa de vingar-se no
sono dos filhos de seus algozes.
Uma ideia genial no roteiro foi mesclar sonho e realidade,
embaralhando a mente do espectador, que nunca sabia realmente em qual momento o
assassino poderia aparecer. Enquanto que no original e em sua continuação,
Krueger era sádico, sendo mostrado apenas em rápidos relances, quase sempre
envolto em sombras, a partir do terceiro projeto (até o sexto) tornou-se um
astro pop, com direito a frases de efeito e piadinhas infames. A ideia original
era que o desfecho do filme mostrasse que tudo não havia passado de um
sonho, mas a ambição do estúdio em estabelecer uma franquia falou mais alto. A escolha
para a cena final é macabra e surreal, condizente com a proposta onírica da
obra. Um elemento que precisa ser salientado é a excelente trilha sonora de
Charles Bernstein, que foi construída utilizando como base a cantiga infantil
que emoldura a cena inicial (ideia de Craven), com as crianças pulando corda. 

O horror nasce do subconsciente, da manifestação inesperada
de um “bicho papão” que chama suas vítimas pelo nome (insinuando
intimidade), mas acima de tudo, nasce daquilo que não conseguimos enxergar, da
lâmina que brilha à distância em um estreito corredor.
* A editora Darkside Books está lançando dentro da Coleção Dissecando o excelente “A Hora do Pesadelo: Never Sleep Again”, de Thommy Hutson, uma pesquisa preciosa sobre os bastidores das filmagens do filme original de 1984. A qualidade gráfica é impressionante como você pode ver na foto acima. É material obrigatório para fãs do terror.