“Eu, Tonya”, de Craig Gillespie

Eu, Tonya (I, Tonya – 2017)
O diretor australiano Craig Gillespie foi responsável por uma das melhores comédias de 2007, “A Garota Ideal”, mas desperdiçou os últimos anos em produções comportadas ou irrelevantes, tendo como ponto mais baixo a refilmagem de “A Hora do Espanto”. Com “Eu, Tonya”, ele protagoniza uma impressionante redenção artística, contando a conturbada história real da patinadora Tonya Harding, vivida impecavelmente por Margot Robbie, a primeira mulher norte-americana a completar o Axel triplo em grandes competições, mas que ficou marcada por ser a mandante de um caso grave de agressão a uma colega no início da década de noventa. 

O roteiro brilhante de Steven Rogers utiliza variados recursos, subvertendo a narração convencional ao entrecortar ela com a quebra da quarta parede, fazendo uso generoso de depoimentos interrompidos, além de momentos que resvalam no pastelão, como na cena do primeiro beijo do casal, com os dois limitados pelas mãos nos bolsos. Ao utilizar o terceiro movimento do Verão, das Quatro Estações de Vivaldi, que descreve musicalmente as forças da natureza desatadas em uma terrível tempestade, do momento em que ela claudicante beija a mãe (irrepreensível Allison Janney) em casa, atravessando a passagem de tempo e acompanhando a sua primeira apresentação profissional, a opção conscientemente estabelece a ligação intrínseca entre a execução de sua arte e a rigorosa criação parental. Se na infância havia algum traço de espontaneidade em seu amor pela patinação, agora aquilo havia se tornado válvula de escape e, principalmente, instrumento de revide. O próximo passo, adaptar a realidade à algo confortável, desfazer-se do figurino tradicional das competidoras e forjar sua própria armadura de batalha, evidenciando na sua costura exatamente o elemento que foi mais tolhido por sua extremamente insensível, abrutalhada mãe, a sua feminilidade.

E, ironia do destino, quando ela finalmente oferece pela primeira vez a sua essência pura ao julgamento, entregando competência inegável no gelo, acaba recebendo críticas estéticas devido à simplicidade do figurino, a sociedade responde seu impulso existencial com a medíocre valorização da aparência. É, também, uma crítica ácida ao vazio culto das celebridades, a irrelevância dos rituais de premiação que se levam muito à sério, acusando o desespero em inserir no vulnerável psicológico da criança o ideal do “ser vitorioso”, ao invés do pleno “ser”, e, por conseguinte, exibindo de forma tragicômica o comportamento daqueles que alimentam esta indústria. Tonya pode ter um temperamento problemático, mas, como enfatizam estes sutis detalhes no relacionamento dela com a mãe e com o abusivo ex-marido (Sebastian Stan), ela nada mais é que o fruto de seu torto ambiente.

“Eu, Tonya”, com sua leveza cativante ao abordar o tema espinhoso, ousadia narrativa inteligente e senso perfeito de ritmo é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos – “O Fantasma” e “Popeye”

O Fantasma (The Phantom – 1996)
Eu colecionava a revista do Fantasma, na época em que foi lançada pela editora Saber, início da década de noventa, uma professora na escola achava curioso que um garoto tão novo pudesse se interessar por quadrinhos em preto e branco de um material tão antigo, eu devorava as aventuras deitado no sofá da sala, a minha história favorita era “O Ninho de Tubarões”, primeiro contato que tive com o personagem. Quando começou o burburinho sobre a produção do filme, impulsionada pelo sucesso do “Batman”, de Tim Burton, “Rocketeer” e “O Sombra”, eu fiquei realmente empolgado, fui com meu pai na primeira semana de exibição. Até hoje não entendo a razão de tantas críticas negativas, o roteiro respeitava o legado do espírito que anda, o senso de aventura capturava muito bem o clima dos cine-seriados clássicos, a trilha-sonora de David Newman extremamente competente, figurino, recriação de época, a femme fatale espetacular vivida pela Catherine Zeta-Jones, a interação com a espevitada Diana Palmes, vivida por Kristy Swanson, os méritos sobrepujavam os problemas, como a direção sem personalidade do australiano Simon Wincer. Até mesmo a tão discutida presença de Billy Zane, um ator inegavelmente limitado, vivendo o herói, não compromete o resultado. Com um péssimo timing, ele resolveu se assumir homossexual, o que acabou desviando a atenção da mídia, da divulgação do lançamento do filme, para a vida pessoal do rapaz. O papo entre a garotada tonta envolvia perceber os trejeitos dele na tela grande. Analisando em revisão, o roteiro de Jeffrey Boam, craque por trás de “Máquina Mortífera”, “Indiana Jones e a Última Cruzada” e “Viagem Insólita”, apesar de sofrer uma quebra de ritmo considerável no segundo ato, quando o protagonista viaja à cidade grande disfarçado, com a presença pouco carismática de Treat Williams, visivelmente desconfortável como o vilão megalomaníaco, sobreviveu com louvor o teste do tempo. 


Recomendação literária: A editora Pixel lançou quatro volumes de tiras clássicas do personagem criado por Lee Falk. Material indispensável.

***


Popeye (1980)
Eu tenho uma relação interessante com este filme, apesar de, quando criança, acompanhar a animação do personagem na televisão, não conseguia me conectar emocionalmente com esta representação live action. Algo na fita me causava real enjoo, algumas sequências me deixavam deprimido, aquilo que a capa do VHS vendia, um musical divertido, estava longe de ser a realidade lúgubre que a fotografia do mestre Gioseppe Rotunno captava. À época, eu, ainda pequeno, não conhecia o trabalho do diretor Robert Altman, apenas quando revi a obra anos depois pude constatar a coragem do roteiro de Jules Feiffer. Qual filme direcionado às crianças começa com uma música que parece uma marcha fúnebre (“Sweethaven”, de Harry Nillson), emoldurando a chegada do protagonista, que, antes mesmo de abrir a boca, já é recepcionado pelo cobrador de impostos? Se considerarmos que a indústria hoje em dia se acostumou a oferecer exatamente o que o público deseja, aniquilando a criatividade, dá gosto rever este símbolo de ousadia incomparável no gênero. A direção subverte as convenções do musical, inserindo momentos dignos do melhor Jacques Tati no meio de canções entoadas de maneira displicente. Robin Williams (Popeye), Shelley Duvall (Olívia) e Paul L. Smith (Brutus) são recriações exatas do visual e da essência dos personagens. O desfecho, em um toque esperto, resgata com fidelidade o espírito das histórias originais e da animação, como se tudo o que havia ocorrido até então fosse apenas a construção daquele universo, que se inicia verdadeiramente quando Popeye, vitorioso e reconhecendo a importância do espinafre, canta e dança sua clássica música-tema. 







Recomendação literária: A editora Pixel lançou as tiras clássicas do personagem criado por Elzie Segar, no período em que esteve nas mãos de Bud Sagendorf. 


Nos Embalos do Rei do Rock – “Amor à Toda Velocidade”


Em uma entrevista recente, Ann-Margret, quando perguntada sobre seu relacionamento com Elvis, silencia respeitosamente e se emociona, o apresentador não disfarça sua surpresa, a mulher que foi desejada por todos à época, mesmo após tantos anos do falecimento do amigo, não consegue tocar em seu nome sem lacrimejar. Lucidamente, ela acusa todos que se aproveitaram dele e que não tentaram ajudar no período de crise, quando sua saúde já estava debilitada, especialmente os jornalistas da área que não o elogiavam em vida por inveja. Apesar das tentativas do entrevistador, ela se recusa a comentar detalhes de seu caso amoroso, na época em que ele estava oficialmente comprometido com Priscilla, afirmando que seria incapaz de trair a confiança dele. Dá para imaginar o nível de cumplicidade que existia nos sets de filmagem de “Amor à Toda Velocidade”, a química do casal transborda na tela, a paixão era real e intensa, os dois se entendiam plenamente, já que viviam a mesma realidade do show business. E muitos fãs acreditam que se Elvis tivesse ficado com Ann-Margret, ele estaria vivo até hoje. 


Amor à Toda Velocidade (Viva Las Vegas – 1964)

Em Las Vegas, um piloto de corrida (Elvis Presley) quer
participar do 1º Grande Prêmio da cidade, mas perde o dinheiro que usaria para
comprar um motor. Ele então passa a trabalhar como garçom e se envolve com uma
professora de natação (Ann-Margret), que se sente incomodada pela obsessão que
ele tem por corridas, pois teme que algo aconteça.


Ann-Margret era dinamite nas telas quando cantava e dançava, levantava a moral dos soldados em shows durante a guerra, uma bela garota com personalidade forte na época auge do machismo, ela acabou ficando nos bastidores com fama de “mulher fácil”. Quando conheceu Elvis nos estúdios de gravação da MGM, apresentada cordialmente pelo veterano diretor George Sidney, já envoltos pela máquina de marketing da empresa, ela se surpreendeu com a gentileza do rapaz, que a enxergava com muito respeito e a tratava com ternura. Aos olhos dele, ela podia deixar de se preocupar com a imagem de musa sexy e voltar a agir como a jovem imigrante sueca cheia de sonhos, os dois não levavam muito à sério os estereótipos criados sobre eles, brincavam constantemente, compartilhavam o amor pela música, o relacionamento amoroso se manteve por todo o ano, a amizade, até o falecimento do cantor.

É a melhor bilheteria na carreira cinematográfica de Elvis e muitos afirmam que este é o melhor filme que ele fez, eu não concordo, mas entendo os motivos, o diretor, responsável por obras-primas como “O Barco das Ilusões”, “Scaramouche”, “Os Três Mosqueteiros”, “Marujos do Amor”, “Melodia Imortal”, entre outros, era especialista em musicais elegantes, o que garantiu um ritmo verdadeiramente único na produção, a trama não apresenta qualquer barriga, todos os momentos funcionam, as músicas se encaixam perfeitamente nas cenas, o resultado diverte sem subestimar a inteligência do público. A alta qualidade era perceptível em todos os setores. A produção refinada foi de Jack Cummings, de “Sete Noivas Para Sete Irmãos”. O roteiro foi escrito por Sally Benson, responsável pelo excelente “Agora Seremos Felizes”, com Judy Garland. A direção de fotografia ficou sob responsabilidade de Joseph F. Biroc, que trabalharia anos depois em “Inferno na Torre”. A trilha-sonora manteve o alto nível, com destaque para “What’d I Say”, composta por Ray Charles, “C’mon Everybody” (Joy Byers) e a linda balada “Today, Tomorrow and Forever” (Giant-Baum-Kaye), com direito ainda a uma interpretação marcante do rei do rock no clássico italiano “Santa Lucia”. A canção-tema, “Viva Las Vegas” (Pomus-Shuman), apesar de frenética, acaba pecando pela artificialidade, típico tratamento genérico e pasteurizado que acabou diluindo a espontaneidade do cantor em sua segunda fase em Hollywood.

Um aspecto que poucos lembram é que a montagem da sequência de corrida de carros no desfecho, com generosa utilização da câmera em primeira pessoa no volante, foi celebrada pelos críticos à época como a melhor do tipo até o momento. Apenas “Bullitt”, com Steve McQueen, conseguiria superar o feito, quatro anos depois. 


A Seguir: Carrossel de Emoções (Roustabout)

“Lady Bird: A Hora de Voar”, de Greta Gerwig

Lady Bird: A Hora de Voar (Lady Bird – 2017)

Serei objetivo, já que nada soa orgânico neste filme. É perfumaria
feminista indie das mais bregas, roteiro calculadamente pensado para atingir as
expectativas emocionais da garotada que abraça da forma mais rasa o importante movimento
como cafona modismo, diluindo tudo em palavras de ordem tolas e que cabem nas camisetas
vendidas a preços altos, defendidas por meninas altamente inseguras e rapazes
que escondem a sexualidade real num frágil disfarce social oportunista de nobre
ativista pela causa, em suma, todos ambicionando atenção, aplausos da massa de
manobra, ou, na hipótese mais baixa, lucro financeiro aproveitando o zeitgeist
atual na indústria.

Analisando a obra sem o peso do gigantesco (e nada espontâneo) hype, constato que os
diálogos são simplórios, ou apelam de maneira pouco criativa para clichês já
desgastados. Greta Gerwig, enquanto diretora inexperiente, consegue iniciar com
uma montagem brilhante mostrando o vazio dos rituais, mas se perde ainda no
primeiro ato, pecando pela pouca sutileza com que lida com as cenas, o ritmo não
engata nunca, porque o desenvolvimento dos personagens é morno, caricaturas que
poderiam ser melhor utilizadas em tramas essencialmente despretensiosas. O
cinema já encontrou diversas formas de retratar contos de amadurecimento, mas raras
vezes ousou tão pouco. A protagonista Christine, vivida por Saoirse Ronan,
prefere ser chamada de “menina pássaro”, a típica adolescente irritante que se
considera vítima das circunstâncias e que acredita que ter personalidade é chocar
outrem. 
A construção do relacionamento entre ela e sua mãe (Laurie Metcalf),
elemento que poderia elevar a qualidade do material, acaba se resumindo a
discussões sobre tolices, com a jovem birrenta, mimada e maníaco-depressiva desfilando grosseria e recebendo
sermões homéricos, só que sem a inteligência refinada de um John Hughes, que
compreendia como poucos as angústias naturais deste período da vida. Em revisão, os problemas se intensificam, as escolhas narrativas se mostram ainda mais frágeis, incoerentes e dramaticamente pueris.

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos – “Vampirella” e “O Monstro do Pântano”


Vampirella (1996)
Ah, doce Vampirella, uma das musas mais queridas da minha pré-adolescência, vivida no filme pela belíssima Talisa Soto, a Gal Gadot da década de 90, que eu já admirava como a Bond Girl de “007 – Permissão Para Matar”, a Doña Julia de “Don Juan DeMarco” e a princesa ninja Kitana, de “Mortal Kombat”. No roteiro, a primeira pessoa que ela salva é um jovem nerd de óculos que a leva para seu quarto cheio de cartazes de filmes na parede, com direito até a beijo na boca de despedida, sim, inegável, rolou uma forte identificação que me fez fazer vista grossa para todos os problemas desta produção de irrisório orçamento e muitos (d)efeitos especiais. Outro detalhe bacana que vale destacar é a ponta de luxo do carismático diretor John Landis, de “Um Lobisomem Americano em Londres”, como um dos astronautas que encontram a jovem anti-heroína seminua em Marte. Houve uma tentativa da indústria de lançar a personagem no cinema na década de setenta, mas foi somente em meados da década de noventa, com ajuda do produtor Roger Corman, que “Vampirella” finalmente estreou na tela pequena, aproveitando o boom do mercado de home video. Levando em conta que a direção ficou sob responsabilidade do incompetente Jim Wynorski, de bombas como “Sorceress” e “Deathstalker 2”, até que o produto final não é tão desastroso, cumpre bem sua função, auxiliado pela presença marcante de Roger Daltrey, vocalista da banda “The Who”, exageradíssimo como o vilão Vlad. 


Recomendação literária: A editora Mythos lançou a melhor fase da personagem criada por Forrest J. Ackerman e Trina Robbins no belo encadernado de luxo, capa dura: “Vampirella – Grandes Clássicos”. Histórias trabalhadas por Archie Goodwin, T. Casey Brennan, Budd Lewis e Steve
Englehart, desenhadas no afrodisíaco traço de José González. 

***


O Monstro do Pântano (Swamp Thing – 1982)
Fora o fato de que a Adrienne Barbeau no filme está a cara da cantora Karen Carpenter, pouca coisa chamou minha atenção nesta revisão para o texto, eu lembrava que esta obra dirigida por Wes Craven era ruim, mas a experiência desta vez superou os limites do tédio. É impressionante imaginar que este mesmo profissional iria realizar dois anos depois a obra-prima do terror: “A Hora do Pesadelo”. Quem não conhece o personagem nos quadrinhos e vai buscar direto na fonte do cinema, vai tomar raiva e acreditar que o conceito é tonto, tolo e risível, muito longe da realidade filosoficamente profunda trabalhada especialmente no longo arco escrito por Alan Moore. A trama básica segue com relativa fidelidade a origem do monstro, o cientista Alec Holland (Ray Wise) fica preso em uma armadilha explosiva em seu laboratório, quando tentam
roubar sua fórmula. O seu corpo flamejante cai no pântano e renasce como uma criatura híbrida. Vale destacar que a subtrama romântica com viés de “A Bela e a Fera” foi criação do roteiro, algo que seria depois utilizado com excelência no arco dos quadrinhos já citado. O vilão Arcane, vivido pelo veterano Louis Jordan, pagando as contas do mês, traz charme, mas não o suficiente para que não nos incomodemos com a representação física do protagonista verde, provavelmente o cosplay mais horroroso da história do cinema trash, consegue ser pior que o clássico da Troma: “O Vingador Tóxico”. Veja como curiosidade, caso tenha duas horas para desperdiçar. 


Recomendação literária: A editora Panini lançou a magnífica “Saga do Monstro do Pântano”, escrita por Alan Moore, em seis encadernados. É material adulto de altíssima qualidade, imprescindível na coleção de todo fã de quadrinhos. 

Ciclo de Adaptações de Quadrinhos – “Flash Gordon” e “Tex e o Senhor dos Abismos”


Flash Gordon (1980)
“Flash, eu te amo! Mas nós só temos 14 horas para salvar o planeta Terra!” (Dale Arden, vivida por Melody Anderson)

Durante muitos anos a trilha sonora do Queen era o único elemento que me fazia rever a obra dirigida por Mike Hodges, que apesar de nunca ter alcançado o mesmo nível de qualidade, foi o responsável pela pérola policial “Carter – O Vingador”, de 1971. Quando criança, eu não tive contato com o personagem, logo, o meu investimento emocional no filme à época foi raso, o estilo exagerado, kitsch, causava estranheza. Hoje, mais que um guilty pleasure, o título se tornou referência de como um fracasso monumental pode ser mais relevante em longo prazo que um sucesso comportado. O culpado foi George Lucas, o sucesso de “Star Wars” tornou viável outras tentativas espaciais, inclusive “Flash Gordon”, personagem que o próprio Lucas tentou trabalhar anos antes, mas teve seu pedido recusado pelo produtor Dino De Laurentiis. Ironia do destino, o italiano apostou na ideia outrora rejeitada, motivado pelo sucesso do revide criativo do jovem que ele havia menosprezado. Sendo coerente com o tom debochado do roteiro de Lorenzo Semple Jr., responsável pelos textos da série sessentista do Batman, substituindo a pegada mais pretensiosa sci-fi do roteirista/diretor Nicolas Roeg, afastado após recusar transformar tudo em pastiche, eles escalaram para o papel principal, após receberem um “não” do Kurt Russell (até ele achou o conceito um pouco exagerado demais), o jovem inexperiente Sam J. Jones, tremendo canastrão que os executivos viram em um programa de namoro na televisão. Um dos maiores atores de sua geração, Max von Sydow, carregando nos ombros o projeto como o vilão Imperador Ming, o único no elenco que verdadeiramente apreciava o herói das tiras de jornal e que, principalmente, desejava estar no projeto. Você sente em sua entrega esta paixão pelo material. Revisto para este texto, o filme se mantém problemático em diversos pontos, mas, ainda assim, fascinante, encantador. 

Recomendação literária: “Flash Gordon no Planeta Mongo”, lançado pela editora Pixel, com as páginas dominicais de 1934 a 1937, criadas por Alex Raymond e Don Moore. 

***

Tex e o Senhor dos Abismos (Tex e il signore degli abissi – 1985)
O diretor italiano Duccio Tessari, do competente “Uma Pistola Para Ringo” e da curiosa versão de “A Marca de Zorro”, com Alain Delon, comanda o roteiro escrito a três mãos, com o auxílio de Marcello Coscia e Gianfranco Clerici, responsável pelo excelente “O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos”, de Lucio Fulci. A opção de ambientar a aventura no terreno do sobrenatural, com sacerdotes malignos que caberiam como luva numa aventura do bárbaro Conan, não foi muito bem aceita pelos fãs, apesar de existirem histórias do personagem com esta temática, não é o caminho mais lógico, especialmente em seu primeiro momento (e único) na tela grande. Eu cresci lendo os gibis do Tex, assim como aqueles livros de bolso de faroeste que eram comprados nas bancas de jornal com o troco da merenda da escola, o elemento que me atraía no personagem era sua conduta íntegra inabalável, os valores que defendia com firmeza, porém, sem perder a ternura, uma espécie de “Superman” do Velho Oeste e sem superpoderes. O filme não faz justiça ao legado dos quadrinhos, a produção é de baixíssimo orçamento, originalmente havia sido pensado como o piloto para uma série de televisão, mas existem acertos consideráveis. Giuliano Gemma está impecável como o protagonista, ele entrega a bravura nas atitudes e no semblante esculpido a cinzel, a sua figura impõe presença silenciosamente. O rancheiro Kit Carson, de William Berger, fisicamente idêntico ao original, caracterização que respeita a essência do personagem, até seus rompantes de pessimismo estão intactos. O índio Jack Tigre, vivido por Carlo Mucari, visualmente diferente, mas carismático, não prejudica o resultado. A ideia consciente de manter os enquadramentos estáticos nas cenas, sem firulas de câmera, para tentar emular ao máximo o senso de movimento das páginas dos quadrinhos, além de facilitar para a equipe, traz realmente uma aura diferente às sequências, especialmente naquelas que envolvem tiroteios ou perseguições a cavalo. É um faroeste crepuscular, o público italiano já não estava mais tão interessado no gênero, mas merece maior reconhecimento. Vale destacar a presença do criador Gian Luigi Bonelli, vivendo o índio que aparece no prelúdio e no epílogo. 




Recomendação literária: A minha história favorita de Tex Willer é “O Vale do Terror”, desenhada pelo mestre Magnus, com argumento de Claudio Nizzi, lançada pela editora Mythos na coleção “Edição Gigante em Cores”. Se você quer entender o fascínio do personagem, leia esta obra-prima. E se gostar, procure depois “El Muerto”, minha segunda aventura favorita da lendária criação de Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini.

“Três Anúncios Para Um Crime”, de Martin McDonagh

Três Anúncios Para Um Crime (Three Billboards Outside
Ebbing, Missouri – 2017)

É difícil evitar perceber que o trabalho do roteirista/diretor Martin McDonagh neste projeto é altamente pretensioso, talvez sintoma de insegurança artística, como se ele quisesse exibir a todo momento sua capacidade de desconcertar o espectador com a quebra de todas as expectativas, algo que acaba prejudicando o ritmo, especialmente no segundo ato.A trama base e as atuações são impecáveis, mas é tão aparente o desespero por aplausos acadêmicos, que a experiência acaba exaurindo toda naturalidade que as cenas poderiam despertar. A opção por soluções cômicas frequentes, por vezes soa como bem-vindo alívio, mas durante boa parte do tempo soa simplesmente irritante. Se o texto consegue emocionar profundamente em sequências como a da leitura de uma importante carta, ou em lindos trechos em que a protagonista, vivida pela excelente Frances McDormand, consegue sutilmente revelar traços de humanidade cativantes, usualmente escondidos por trás de seu semblante de dor e mágoa, o todo dança desajeitadamente na linha tênue entre a organicidade fascinante e a exposição artificial, a simplicidade neste caso poderia ter potencializado os méritos de “Três Anúncios Para Um Crime”. É o típico filme pensado calculadamente para agradar nas premiações, estratégia que já provou ser fadada a glórias com curto prazo de validade.

Mildred (McDormand), uma mãe nada convencional que decide se vingar do cruel estupro e assassinato de sua filha adolescente, instigando a revisão do crime abandonado sem solução de forma bastante visual, com o auxílio de mensagens em três outdoors, premissa que conduz à discussões preciosas sobre o comportamento da sociedade diante da violência. Quando se banaliza o tempo de “rir” e o tempo de “chorar”, tudo se perde, o coletivo se torna parte do problema. A metalinguagem trabalhada na cena do policial que debocha sobre a motivação de quase todos os filmes ser a morte de uma jovem, assim como a ideia reforçada no desfecho de que a omissão é, de fato, o real crime a ser confrontado, pontos que agregam ao conceito da insatisfação com o sistema. Não importa quem cometeu o crime, mas, sim, a passividade brutal dos habitantes da pequena cidade, seres sem empatia, que, ao invés de aplaudirem a atitude da mulher, demonstram revolta por sua força de espírito ter abalado a ilusória paz de seus dias.

A coragem dela, sem que os próprios afetados percebam inicialmente, está operando modificações estruturais consideráveis, a resistência da leoa ferida faz com que todos, até mesmo o mais patético e intelectualmente limitado indivíduo, busquem ser melhores. Esta essência poderosa compensa todos os problemas da obra, a mensagem de que a mais bonita redenção não é a catarse do revide, pode ser apenas a silenciosa mudança de atitude diante do abismo.

“O Sacrifício do Cervo Sagrado”, de Yorgos Lanthimos


O Sacrifício do Cervo Sagrado (The Killing of a Sacred Deer –
2017)
Quem conhece o trabalho do roteirista/diretor grego Yorgos Lanthimos, mestre por trás de obras-primas como “Dente Canino”, “Alpes” e “O Lagosta”, sabe que é altamente prejudicial revelar neste texto pontos da trama, a ignorância é uma bênção para aquele que se permite adentrar sem amarras na mente do mais criativo realizador de sua geração, alguém que se especializou na arte de causar desconforto e, por conseguinte, incitar a reflexão sobre seus temas, já que o choque nunca é gratuito ou pretensioso.

Utilizando códigos do horror, o roteiro prepara sua tese sobre a fragilidade da estrutura de um relacionamento calcado na hipocrisia, os planos abertos com profundidade de campo enfatizando o vazio dos rituais, a utilização constante de travellings que remete à Kubrick, o casal de classe alta vivido por Nicole Kidman e Colin Farrell, símbolos de segurança e competência na sociedade, com dois filhos adolescentes que são exemplos de boa conduta na escola, verniz de elegância que é perceptível na forma mecânica como o elenco dita o texto, característica em todos os projetos do diretor, como se repetissem algo memorizado há séculos e que já perdeu o sentido. No leito matrimonial, os corpos se entregam como feras abatidas, passivas, anestesiadas, inconscientes, desviando o olhar, potencializando a artificialidade do sentimento que foi acertado em contrato, porém, não existe.

Ao abrir o filme com o coração pulsante exposto em uma cirurgia cardiovascular, emoldurado pela trilha sonora operática, a metáfora se estabelece, por trás da empáfia humana e da ilusão de poder, apenas sangue e vísceras, um sistema com prazo de validade curto. Na equação familiar modelo de comportamento, o elemento pasoliniano do jovem vivido por Barry Keoghan não se encaixa, ele, filho de um ex-paciente do cirurgião (Farrell), mantém encontros furtivos com o pai e, posteriormente, com a filha, gradativamente impondo sua presença de maneira cada vez mais ameaçadora, sem apelar para o confortável histrionismo. A sua figura franzina aparentemente inofensiva irá representar no terceiro ato algo quase divino, perceba o sutil momento em que seus pés são beijados por um dos personagens, o real e amedrontador poder que perturba a casa da mentira. Vale destacar a presença de Alicia Silverstone, que, apesar de ter uma breve participação como a mãe do rapaz, impressiona com sua composição trágica, patética, dominando a cena que é um dos pontos altos da obra.

“O Sacrifício do Cervo Sagrado” é a confirmação da genialidade de seu diretor, felizmente incapaz de domar seu estilo no terreno do mainstream, uma voz instintiva poderosa dentre tanta rasa perfumaria. 

Sobre o Carnaval em tempos de crise

Reflexão breve enquanto o país está em estado de coma. O Rio
de Janeiro está quebrado, a cidade passa por uma crise monumental, os
professores e policiais continuam recebendo atrasado um salário de miséria,
protestos violentos a torto e a direito, regiões sem saneamento básico,
insegurança nas ruas atingindo níveis de zona de guerra, pacientes morrendo nos
corredores dos hospitais, logo, uma infinidade de motivos para que o cidadão carioca
viva plenamente a folia carnavalesca.
É usual escutar a expressão: “O ano no Brasil só começa
depois do Carnaval”. Será que você já parou para pensar em como esta
constatação é incrivelmente vergonhosa? O deselegante contumaz que sorri diante
do abismo, aquele que não é pontual, que enforca o feriadão e só pensa em tirar
vantagem, segue a mesma cartilha canalha do político que é alvo de sua
metralhadora verborrágica nas redes sociais. A mudança não depende do governo,
a salvação não virá do alto, os adultos estão infantilizados colocando a responsabilidade
nos ombros de supostos heróis, enquanto seguem letargicamente a incansável
procissão dos bobos alegres. Acredite, não há sistema político podre que
sobreviva em uma sociedade lúcida. É a atitude do indivíduo que importa, a
forma como ele reage em situações de crise.
Não demonizo a celebração tradicional, longe disso, somente
incito o questionamento sobre a importância de acusar a dor do açoite como
sinal de desconforto. Há uma corrente argumentativa que defende o valor
turístico do evento. Os cassinos de Las Vegas transformaram o deserto em um
paraíso. Caso o polpudo investimento anual no Carnaval gerasse algum legado
importante para o país, ao invés de constarmos frequentemente nos últimos
lugares das estatísticas mais deprimentes, nós hoje seríamos o Japão, a Suécia,
a Alemanha, ou a Finlândia. Será que os povos destes países festejariam em
tempos de crise extrema em todos os níveis?

Rebobinando o VHS – “Sem Aviso”

Jack Palance e Martin Landau, dois dos mais respeitados atores de sua geração, inseridos em um projeto que aborda a invasão de um alienígena que parece um Boneco de Olinda. A missão: caçar humanos como em um esporte. Se há algum mérito nisto, vale lembrar que a essência da trama seria trabalhada sete anos depois em “O Predador”, protagonizado pelo filósofo Arnold Schwarzenegger. Plágio? Coincidência? Veja e tire suas próprias conclusões. 


Sem Aviso (Without Warning – 1980)
O tom é muito similar ao de “Sexta-Feira 13”, lançado no mesmo ano, com aquele grupo de adolescentes tontos vividos por trintões que agem mentalmente como se ainda frequentassem a escola primária. Aliás, vale ressaltar que os personagens adultos também exibem desenvoltura intelectual de bebês famintos, como na cena em que o líder dos escoteiros se distrai tentando acender seu cigarro com o atrito de pedras. Até o momento em que o alienígena perde a timidez e aparece na tela, faltando uns seis minutos para o final, somos brindados com várias sequências pretensamente apavorantes com generosa utilização de caramelo derretido e tapiocas voadoras dentadas.

O diretor Greydon Clark começou a carreira comandando dois dos mais fracos filmes blaxploitation: “Black Shampoo” e “The Bad Bunch”, currículo complicadíssimo, mas que explica muitas das escolhas tomadas na obra. Ele até consegue estabelecer alguma aura de mistério no primeiro ato, auxiliado pela fotografia do competente Dean Cundey, que trabalharia depois em pérolas como “De Volta Para o Futuro”, “O Enigma de Outro Mundo” e “Jurassic Park”. Mas a iluminação eficiente não salva textos ruins e ideias estúpidas, logo, a experiência de ver “Sem Aviso” rapidamente se transforma em algo insuportavelmente entediante. Existem defensores ferrenhos deste sci-fi B nos Estados Unidos, assim como existem muitos pacientes esbravejando que são ventiladores de teto nos hospitais psiquiátricos, certas coisas são impossíveis de entender plenamente.

Nada é mais constrangedor que ver um artista do calibre de Palance, correndo ensandecido na direção do monstro mais inexpressivo da história do gênero, gritando: “Alien! Alien!”. A assinatura deste contrato só pode ter sido dívida de jogo.