12 filmes FUNDAMENTAIS para quem não engole o racismo

0

Eu selecionei doze títulos fundamentais para instigar a reflexão sobre o absurdo do racismo. Que o respeito e o amor sejam sempre as palavras de ordem mais utilizadas. Boa sessão!

Malcolm X (1992)

Spike Lee lutou muito para que a cinebiografia de Malcolm X fosse finalizada, o estúdio tentou de todas as formas impedir seus esforços, até que ele buscou a ajuda financeira de amigos artistas e esportistas afro-americanos, que doaram altas somas sem qualquer interesse, sem participação nos lucros, apenas motivados pelo desejo de que aquela história fosse contada. A batalha nos bastidores é mais fascinante que a própria produção, que seria muito beneficiada com o corte de, pelo menos, uma hora de gordura extra, um primeiro ato arrastado abordando a juventude do protagonista, problema que compreensivelmente prejudicou o filme nas bilheterias, afastou o público adolescente e, a pior consequência, minimizou o impacto da bela mensagem que defende. E uma mensagem que segue extremamente relevante nos dias de hoje.

Malcolm X, que negava inconscientemente sua raça na adolescência, questionou o papel do negro na sociedade, ele questionou os alicerces do catolicismo, ele se viu seduzido pelo fanatismo religioso de um charlatão e teve brio de admitir o erro, ele não temia sequer a morte, o homem chegou a ser preso, mas talvez tenha sido a personalidade mais livre de sua época. A sua liberdade interna, a coragem de questionar tudo e todos, um elemento incrivelmente perigoso para aqueles que lucram com a ilusão. Jesus era negro, os discípulos eram negros, óbvia constatação ao analisar o berço geográfico deles, mas as pinturas imortalizaram o longo cabelo liso, os olhos azuis, a tez clara como neve. Você pode não concordar, mas uma grande parcela de religiosos não apenas discorda, como o faz com agressividade latente. Qual a razão? Qual diferença faz a cor da pele do líder religioso? Essa preciosa reflexão, transmitida na ótima cena do confronto com o padre, vivido por Christopher Plummer, representa o gradual despertar existencial do protagonista, metaforicamente no local em que a sociedade o colocou como prisioneiro.

Denzel Washington, na melhor interpretação de sua carreira, emula os gestos calculados e compreende com exatidão as motivações de alguém que, ainda criança, sentiu a dor da intolerância, ao ver sua casa ser incendiada por mascarados da Ku Klux Klan. As nuances trabalhadas no desenvolvimento de seu discurso, da insegurança travestida de empáfia, passando pela rigidez estúpida do pensamento extremista, até a sobriedade lúcida de quem entendeu que o amor é a única verdade. Apenas os mal-intencionados dividem para conquistar, a união e o diálogo são sempre melhores que o ódio.

Separados, mas Iguais (Separate but Equal – 1991)

A trama reconstitui o julgamento do caso Brown contra o Conselho de Educação (1954), no qual a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou inconstitucional a separação entre estudantes negros e brancos nas escolas públicas, um dos episódios mais importantes na história dos Direitos Humanos.

O racismo no início da década de cinquenta era avassalador. Brancos e negros não podiam compartilhar o mesmo banheiro nas cidades sulistas americanas. Ainda faltavam alguns anos para que um jovem Elvis Presley escandalizasse os pais através da nação, com seu gingado inspirado nos cantores negros que ele idolatrava. A situação era insuportável, com a segregação atingindo brutalmente as crianças. Cansado de tanto ver seu filho chegar cansado da escola, após uma longa caminhada, tendo seu foco nos estudos prejudicado, um pai decide ir até o professor do menino e implorar para que a escola proporcionasse um ônibus. Uma reação rude do superintendente deu início a uma série de petições judiciais, fundamentais para o fim da segregação racial nas escolas.

Era inadmissível para o dedicado advogado, vivido brilhantemente por Sidney Poitier, uma sociedade onde as mesmas crianças que brincavam juntas nas ruas, tivessem que ser separadas ao adentrarem o microcosmo escolar. Os longos e belos discursos são imbuídos de um fervor que transcende a simples atuação, podemos enxergar além do ator exercendo sua função, ficamos diante de um homem e sua verdade. E é importante salientar que o roteiro/direção de George Stevens Jr. evita simplificar a questão, abraçando os tons de cinza dos dois lados, sem apelar para equívocos narrativos cometidos usualmente até em celebradas obras modernas, como “12 Anos de Escravidão”, em que os brancos são definidos de forma maniqueísta, como cruéis seres insensíveis.

O peso das quatro horas de duração desse filme para televisão é aliviado com um refinado toque de humor, acertando também ao se esquivar das convencionais quebras de ritmo, sem desviar o foco para a vida pessoal dos personagens, na folhetinesca busca pelo melodrama. A atenção da obra está no hercúleo trabalho do advogado e de sua equipe, contra todas as probabilidades, sendo mal remunerados e trabalhando no limite de suas energias, objetivando algo que era considerado utópico.

Moonlight – Sob a Luz do Luar (Moonlight – 2016)

Acordar sabendo que a sociedade o rejeita de diversas formas, excluído por ser pobre e negro, agredido na escola por ser introvertido, internamente incapaz de compreender sua homossexualidade, obrigado a medir cada gesto, silenciar impulsos, sem poder contar com a estabilidade emocional de uma mãe (Naomie Harris) entregue ao vício em crack, esse é o cotidiano do pequeno Chiron.

A sua única figura paterna, um traficante de drogas que o encontra arredio, fugindo do ataque de seus colegas, alguém que enxerga nos olhos da criança a pureza que outrora guiava suas ações, antes do mundo o bestializar. O homem, vivido impecavelmente por Mahershala Ali, tem consciência de que faz parte da engrenagem que está destruindo o garoto, a culpa o humaniza, evitando inteligentemente o estereótipo.

Ambientado na década de oitenta, o primeiro ato do filme, roteirizado e dirigido por Barry Jenkins, adaptado de uma peça inédita de Tarell Alvin McCraney, explora a trepidante formação psicológica do protagonista, a resistência da gentileza natural perante a brutalidade excessiva do sistema em que ele está inserido. “Little” (pequeno), apelido genérico, evidência de sua irrelevância enquanto indivíduo, reflexo do desinteresse do outro em memorizar seu nome. Ao humilhar o filho no auge da dependência química, a câmera subjetiva no ponto de vista do menino nega o som da ofensa, apenas a reação dele importa, a mente não quer aceitar a realidade deprimente, a palavra utilizada só tem poder quando o receptor acusa sua existência. Nesse estágio inicial o leitmotiv é a recusa como estratégia de defesa.

No segundo ato, intitulado “Chiron”, encontramos o protagonista atravessando o difícil período da adolescência, o momento em que todos tentamos firmar o caráter e vencer nossos medos, por conseguinte, ele não é definido mais por um apelido, o rapaz tenta encontrar uma forma de enfrentar os obstáculos sem abandonar totalmente sua essência. Os abusos na escola, local que deveria simbolizar proteção, acabaram se tornando mais intensos, a degradação física e mental da mãe alcança um nível insuportável, o universo conspirava para que ele fosse abatido irreversivelmente, porém, na areia da praia e sob a luz do luar, acompanhado de um amigo, ele reúne coragem para agir, a repressão de anos é finalmente subjugada. Como o interesse da obra não é provocar catarse emocional, o que a reduziria ao molde batido dos romances LGBT, Jenkins filma essa vitória pessoal às costas dos rapazes, ele não intenciona simploriamente rotular sentimentos nem estirar bandeiras. Chiron, encarando pela primeira vez os olhos de sua imagem no espelho, sofre uma terrível traição, uma atitude que quebra seu espírito.

Quando o encontramos novamente no terceiro ato, vários anos depois, ele abraçou a couraça da mentira, esculpiu seu corpo e bloqueou sua mente, um novo homem que sobrevive no submundo do crime, “Black”, um personagem fictício nomeado a partir de um apelido dado na infância pelo seu antigo amigo. A sociedade bateu tão forte que acabou vencendo, ele já nem acusa a dor dos golpes, o silêncio alcança sua expressividade mais amargurada. A elegância com que o filme encaminha a história para seu desfecho é impressionante, sempre coerente no tom, salientando poeticamente o foco narrativo na difícil reconstrução psicológica do protagonista, vivido brilhantemente por Alex R. Hibbert (Little), Ashton Sanders (Chiron) e Trevante Rhodes (Black).

Coffy (1973)

“Coffy baby, sweet as a chocolate bar…”.

A obra foi concebida pela pequena “American International Pictures”, responsável por vários filmes de baixo orçamento, como os projetos de Roger Corman. Samuel Z. Arkoff, o idealizador da produtora, percebeu o potencial dos blaxploitations e abraçou a carreira da bela Pam Grier, realizando quatro filmes com a atriz. O público adorava esse estilo, mas os críticos e a própria indústria torciam o nariz.

Quando se analisa o filme no contexto de sua época, dois elementos se destacam como dissonantes no gênero: A mulher sendo respeitada, utilizando sua sensualidade como arma, uma variação feminina de “James Bond”. E as drogas e traficantes não sendo celebrados, numa atitude quase panfletária, politicamente correta. Como a vingativa enfermeira que busca exterminar os responsáveis pela overdose de sua irmã caçula, a personagem de Grier deixa claramente exposto em seus olhos o ódio que esconde por trás de cada gesto de sedução controlada. E esta emoção bruta transparece em cada cena, com o auxílio de ótimas one-liners, como “Vou urinar no seu túmulo amanhã”.

O roteirista e diretor Jack Hill, mestre no estilo, ganha pontos ao não limitar a protagonista aos estereótipos de vítima ou criminosa, deixando-a revelar no poderoso desfecho uma insinuação de fragilidade que a humaniza. A boa trilha sonora de Roy Ayers apresenta os personagens, com destaque para “Coffy is The Color” e “Coffy Baby”, interpretados por Denise Bridgewater. No elenco secundário, Robert DoQui interpreta o extravagante “King George”, que participa ativamente de uma das cenas mais violentas do filme. Ele viria a ser reconhecido pelo grande público como o Sargento Reed, nos três filmes da franquia “Robocop”.

É interessante o arco narrativo da protagonista (e, levando em consideração o gênero, isto deve ser valorizado). “Coffy” passa o primeiro ato assombrada pelo remorso consequencial de sua vingança, chegando a encontrar uma paz temporária com sua consciência, até que assiste o brutal espancamento de seu ex-namorado. Ao final, traída de todas as formas, nem mesmo a resolução satisfatória de sua vingança traz paz ou conforto para sua alma, que irá vagar para sempre num limbo existencial.

Corra! (Get Out! – 2017)

Ao perceber o carro de polícia se aproximando na cena do crime, o rapaz negro, apesar de estar consciente de sua inocência, levanta os braços aguardando a injustiça do sistema. O ato de viver em alerta constante, o medo de se permitir confiar em alguém, Jordan Peele, roteirista/diretor em sua obra de estreia, impressiona pela segurança com que trabalha os elementos tradicionais do gênero terror, focando nessas questões sem ser panfletário, equilibrando com desenvoltura na equação os alívios cômicos.

O protagonista, Chris (Daniel Kaluuya), encontrou uma maneira de expressar sua angústia social pela fotografia. Em um de seus trabalhos, na parede de sua casa, um cão branco desafia o dono forçando a coleira atacando algo fora da imagem. Símbolo visual que me remeteu ao poderoso filme de Samuel Fuller: “Cão Branco”, outro imprescindível trabalho crítico sobre o tema. Logo no início, o carro da figura mascarada que sequestra um negro em sua caminhada noturna é branco. A utilização da cor pode soar tola em um primeiro momento, um artifício nada sutil, mas reconhecendo a origem de Peele na comédia, estes detalhes ganham peso satírico, enfatizando exatamente o simplista discurso que, por muitas vezes, reduz o preconceito racial a uma peça no tabuleiro do joguete político. O pai (Bradley Whitford) da namorada, uma jovem branca (Allison Williams), na tentativa de passar uma imagem acolhedora, defende o voto em Obama.

A forma como ele insere a informação na conversa é constrangedora, nada orgânica. A mãe (Catherine Keener), psicóloga, hipnoterapeuta, está sempre com um leve sorriso no rosto, invariavelmente demonstrando estar ofendida com as brincadeiras fora de tom do marido e de seu filho adolescente (Caleb Landry Jones), provocador e emocionalmente instável. A família é a caricatura perfeita do liberalismo norte-americano hipócrita que favoreceu nos bastidores a absurda ascensão de Trump.

Revelar mais sobre a trama seria um desserviço à experiência, os eventos que se sucedem à chegada do casal na residência luxuosa da família Armitage rapidamente ganham contornos cada vez mais incômodos, arrepiantes, especialmente após a chegada de um grupo de visitantes da alta sociedade.

A Cor Púrpura (The Color Purple – 1985)

Este conto épico abrange 40 anos na vida de Celie, uma mulher afro-americana que mora no Sul e que sobreviveu abuso e intolerância de seu pai. Depois que seu pai a casa com o degradante Sr. Albert Johnson, as coisas vão de mal a pior. Celie procura encontrar companhia em qualquer lugar que pode. Perseverante, ela mantém o sonho de um dia reencontrar sua irmã na África.

Tangerine (2015)

Após descobrir que foi traída por seu namorado e cafetão enquanto estava na prisão, uma prostituta e sua melhor amiga saem em busca do traidor e sua nova amante para se vingar.

Meu Mestre, Minha Vida (Lean on Me – 1989)

O autoritário professor Joe Clark é convidado por seu amigo Frank Napier a assumir o cargo de diretor em uma problemática escola em Nova Jersey, de onde ele havia sido demitido. Com seus métodos nada ortodoxos, Joe se propõe a fazer uma verdadeira revolução no colégio marcado pelo consumo de drogas, disputas entre gangues e considerado o pior da região. Com isso, ele ao mesmo tempo coleciona admiradores e também muitos inimigos.

Felicidade Por Um Fio (Nappily Ever After – 2018)

Violet Jones (Sanaa Lathan) tem uma vida aparentemente impecável até que um acidente ao arrumar o cabelo faz com que as coisas em sua vida se desenrolem e ela começa a perceber que estava vivendo a vida que pensava que deveria viver, não a única que realmente queria. Violet começa a descartar algumas coisas que realmente não precisava, começando pelo cabelo perfeitamente endireitado e tenta encontrar um verdadeiro significado para a sua vida.

“What Happened, Miss Simone?” (2015)

Conheça a vida da cantora, pianista e ativista Nina Simone com gravações inéditas, imagens raras de arquivo, cartas e entrevistas de pessoas próxima da cantora. O documentário retrata uma das artistas mais incompreendidas de todos os tempos.

O Sol Tornará a Brilhar (A Raisin in the Sun – 1961)

Este drama segue os Youngers, uma família afro-americana que vive junta em um apartamento em Chicago. Após a morte do patriarca, eles tentam determinar o que fazer com o pagamento do seguro de vida. Opiniões sobre o que fazer com o dinheiro variam. Walter Lee (Sidney Poitier) quer fazer um investimento empresarial, enquanto sua mãe, Lena (Claudia McNeil), tem a intenção de comprar uma casa. São duas visões diferentes do sonho americano.

Crooklyn (1994)

A jovem Troy vive no Brooklyn com os pais e quatro irmãos, onde a falta de dinheiro é sempre um problema. No verão, ela tem a chance de visitar os primos que vivem muito bem no campo e conhece de perto a questão das diferenças sociais.

RECOMENDAMOS


Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here