Onde Começa o Inferno (Rio Bravo – 1959)
Joe Burdette (Claude Akins) elimina um homem e é preso pelo delegado Chance (John Wayne) com ajuda de Dude (Dean Martin), o bêbado local. Nathan (John Russel), irmão de Joe, chega decidido a libertá-lo. Chance defende a prisão com Dude, o aleijado Stumpy (Walter Brennan) e o jovem Colorado Ryan (Ricky Nelson) até reforços chegarem.
Este é um dos símbolos máximos da magnitude da era de ouro do cinema hollywoodiano, uma obra que só melhora a cada revisão, um faroeste que sintetiza brilhantemente todas as qualidades que o gênero abarca, com um elenco impecável e cenas verdadeiramente fascinantes.
O saudoso mestre Howard Hawks entregou muitos trabalhos maravilhosos nas várias décadas dedicadas a esta arte, mas este é o meu filme favorito em sua carreira. É curioso pensar que ele, aos 62 anos de idade, estava apavorado ao iniciar a produção, o seu projeto anterior, “Terra dos Faraós” (1955), havia fracassado nas bilheterias, aquilo abalou sua segurança artística. Ele chegou a passar mal no primeiro dia das filmagens, mas, como os heróis de seus filmes, o diretor estufou o peito e presenteou o mundo com este tesouro de valor inestimável.
Claro que há várias cenas empolgantes, que te fazem pular da cadeira, como quando Colorado e Feathers se unem para salvar Chance do fim certo, mas o que realmente me faz retornar frequentemente à obra é a mensagem que ela transmite sobre a importância da família. Não há relação de sangue, nenhum parentesco, o microcosmo do mítico Velho Oeste serve como terreno pedregoso para seres que parecem ter perdido suas funções.
Chance é o xerife, a sua autoridade é representada pela estrela de prata no peito, mas internamente ele sofre, você percebe em seu olhar, uma lacuna psicológica que será preenchida pelo espírito livre da jogadora Feathers. Ela, que havia perdido tudo, inclusive sua fé nos homens, fica impressionada com o caráter inabalável e a generosidade daquele estranho.
O velho aleijado Stumpy mascara a insegurança natural de sua condição com o falatório frenético, ele sente que precisa provar a todo instante que ainda existe, que ainda é um homem digno. O jovem Colorado é o seu oposto, a sua destreza no duelo não é discutida, mas ele apresenta uma serenidade incomum para a idade, uma lucidez e um senso de justiça afiados, características que vão perturbar a já fragilizada mente de Dude, que luta para superar a dependência alcoólica.
Se em “Matar ou Morrer” (1952), Fred Zinnemann utilizava o personagem do xerife, vivido por Gary Cooper, como uma analogia política do líder que implora por ajuda em sua comunidade para enfrentar um problema, Hawks rebate o argumento exibindo um herói estoico, capaz de partir para cima do inimigo com as ferramentas que tiver, ainda que ninguém acredite que a tarefa seja possível.
O roteiro apresenta a consolidação da metáfora na linda cena musical, em que esta inusitada família finalmente encontra a harmonia necessária, ao som de “My Rifle, My Pony and Me” e “Cindy, Cindy”, estas figuras sofridas, marginalizadas, encontram redenção, afeto genuíno, lealdade, com as raízes firmes no solo, elas estão preparadas para qualquer desafio.
Não precisa ser um observador muito perspicaz, basta olhar despretensiosamente para os lados, simplesmente não há mais material humano desta grandeza capaz de criar arte deste nível, principalmente se você focar sua atenção no tétrico Brasil de hoje.
O chorume tóxico se espalha, destruindo as esperanças, pisando amargamente nos indivíduos bons, os valores invertidos tropeçam nas almas esvaziadas de propósito existencial, a única atitude que resta para os poucos que se incomodam com o estado de absurdos moderno é resistir bravamente ao avanço devastador do mal, como um personagem destes queridos clássicos que ajudavam a formar caracteres sólidos, rejeitando cada investida dos vilões, ainda que abandonado por todos, seguir em frente.
Como o próprio John Wayne afirmava: “Coragem é estar morrendo de medo e, ainda assim, selar o cavalo e encarar o perigo.”
“Onde Começa o Inferno” é cinema da mais alta qualidade, do tipo que provavelmente jamais será produzido novamente.
Quando você começa a sessão, em questão de poucos minutos, já sente que está vivendo aquela realidade, não está apenas acompanhando o desenrolar de uma narrativa, a imersão é plena, você se importa com cada personagem, torce para que Dude reconquiste o amor próprio e redescubra o sentido de sua vida, fica encantado com a reação do durão Chance ao se apaixonar pela bela Feathers, admira a nobreza incomum no jovem Colorado e se diverte com o jeito falastrão do velho Stumpy. É totalmente compreensível que Hawks tenha tentado repetir a fórmula de sucesso anos depois, em “El Dorado” (1966).
Siga o meu conselho, ao invés de sofrer com a constatação diária da pobreza ética, moral, cultural e espiritual do povo brasileiro, respire fundo e volte seus olhos cansados para o passado, reencontre ou tenha o prazer de conhecer este FILMAÇO, prepare uma sessão em família, não permita que o sistema adoeça sua alma.
Clássica cena do filme em que Dean Martin e Ricky Nelson cantam “My Rifle, My Pony and Me”:
Trailer:
Trilha sonora composta por Dimitri Tiomkin:
“Rio Bravo”, cantada por Dean Martin:
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