Críticas

Crítica de “A Odisseia”, de Christopher Nolan

A Odisseia (The Odyssey – 2026)

Após a Guerra de Troia, Odisseu (Matt Damon) enfrenta uma perigosa jornada de volta para Ítaca, encontrando criaturas como o Ciclope Polifemo (Bill Irwin), as Sereias e Calipso (Charlize Theron) pelo caminho.

Eu sei que já abordei o tema em minha crítica recente de “O Dia D”, de Spielberg, mas, como a obra que será abordada desta feita também virou alvo dos mesmos energúmenos, acho válido reforçar este ponto que considero fundamental no lastimável cenário cognitivo brasileiro. Uma das sequelas da infantilização do mundo é a imbecilização da crítica cinematográfica. Eu firmo o pé e sigo levando a sério a arte, o estudo constante, não tento me adequar ao estado cretino das coisas (e, por conseguinte, sofro financeiramente as consequências), mas a realidade atual não poderia ser pior.

O povo abandonou a leitura, qualquer tonto sem estofo cultural pode se tornar um “crítico” famoso com vídeos sensacionalistas. A minha escola nesta vertente filosófica foi François Truffaut, André Bazin, Antônio Moniz Vianna, Paulo Emílio, até o saudoso poeta Vinícius de Moraes (com seu livro “O Cinema de Meus Olhos”), textos inteligentes, instigantes, que expandiam a experiência que o filme entregava.

Como o engajamento é a única coisa que importa na plataforma audiovisual, esta nova geração de opinadores entende que é válido postar diversos conteúdos sobre a mesma obra. Elogios não rendem cliques. Análises aprofundadas? Jamais. É deste fenômeno lamentável que nascem atrocidades como: “Explicando o final do filme”. Mas o que gera renda mesmo é o ódio, as thumbnails intensamente coloridas com alguém fazendo uma careta estúpida de espanto, discussões de horas, muitos comentários, gente insegura pagando para ter suas opiniões lidas, este é o esquema moderno.

O novo trabalho do diretor Christopher Nolan caiu na rede destes mentecaptos sem qualquer lastro cultural já na fase de pré-produção. É uma quantidade tão absurda de bobagens, teorias estapafúrdias, material farto para suprir youtubers, que sinto a necessidade de honrar minha jornada e traçar uma linha na areia. É hora dos adultos emocionalmente maduros retomarem o controle de setores da sociedade, do jeito que está, não vai acabar bem. O cinema merece respeito, há uma equipe que ama o que faz por trás de cada projeto. Crítica é algo sério, ela exige critérios, conhecimento e genuíno amor pela arte.

Aos que ainda não conhecem o poema épico de Homero, eu recomendo fortemente a edição pocket lançada em três volumes anos atrás pela L&PM, com uma nova tradução (diretamente do grego) feita por um dos maiores helenistas brasileiros, o professor Donaldo Schüler. É uma obra fundamental, um dos pilares do cânone ocidental, uma história que (direta ou indiretamente) inspirou praticamente tudo o que se consome na indústria do entretenimento. Um exemplo que me é especialmente caro é o clássico “O Conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, um dos livros da minha vida.

Christopher Nolan, um dos melhores cineastas em atividade, aceitou o tremendo desafio e entrega uma experiência sensorial estupenda, demonstrando total segurança no ritmo, administrando a tensão em uma estrutura narrativa fragmentada (honrando, até neste ponto, o material original) até provocar a catarse necessária no terceiro ato verdadeiramente brilhante.

O elenco está especialmente inspirado, com destaque para Matt Damon e, principalmente, Anne Hathaway, que vive a astuta Penélope, fiel de corpo e alma ao seu amado marido Odisseu. No mundo mágico da mitologia grega, com feiticeiras, ciclopes e sereias, ela, uma mulher mortal, representa em sua essência o aspecto mais poderoso da trama, fortaleza moral, lealdade inabalável e inteligência estratégica.

Se analisado em comparação com o que o cinema hollywoodiano está entregando nos últimos anos, “A Odisseia” cresce ainda mais, o roteiro sofisticado é rico naquilo que se esconde por baixo do verniz do entretenimento e que potencializa o efeito emocional em várias sequências, as alegorias mais claras e aquelas que dependem do estofo cultural do espectador. Nolan neste elegante alerta traça um paralelo perturbador com a realidade em que vivemos, o perigo de uma sociedade que brinca por tempo demais na beira do abismo.

Assista ao filme na melhor sala de cinema possível, vale cada centavo investido. A grandiosidade técnica é inegável, mas o que realmente importa é o que o seu realizador quer transmitir enquanto nos deslumbra, o peso da consciência culpada, o valor inestimável da honra e a força do amor verdadeiro.

Cotação:

  • O filme estreia nesta semana nas salas de cinema brasileiras.

Trailer:

Octavio Caruso

Viva você também este sonho...

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